ANIMAL POLÍTICO

O conceito aristotélico de que “o homem é um animal político” (em grego, zoon politikon) tem sido levado muito a sério por milhares de brasileiros. Sobretudo mais para o lado animal do que para o lado político.

Aristóteles – e esclareço que não sou expert em Filosofia, mas também dou meus pitacos – pensava na necessidade humana de se aprender a viver em cidade (polis), tão logo abandonamos as cabras nos pastos e a semeadura dos grãos na roça e passamos a conviver, porta e janela, parede-meia, com o outro, constituímos um arruado, depois uma vila e, finalmente, uma cidade.

É claro que, tendo um vizinho nojento à sua frente, é preciso que você mude de postura, passe a ter mais jogo de cintura, dê o braço a torcer, para que não viva em guerra com pessoa tão desprezível e insuportável.

Tivemos, assim, de desenvolver nossa capacidade de suportar o outro, abandonar um pouco aquela sensação de rei da cocada preta, para saber que, se pisarmos na poça d’água em frente do nosso portão, podemos sujar a bota do outro, e isso provavelmente desencadearia uma guerra a durar gerações.

Essa nossa capacidade de suportar seria justamente a política, isto é, o jeito mais ou menos civilizado de conviver com tanta gente ao nosso redor numa cidade, sem que isso nos faça sair dando cacetadas, espadadas e tiros para todos os lados. Ainda que no Rio de Janeiro tiro a esmo seja o que não falta.

Como já éramos animais mesmo, animais racionais (zoon logikon), segundo ainda os próprios gregos, seria lógico que, em grupo, saberíamos encontrar um meio termo harmônico para aparar as arestas e desfazer os mal-entendidos, antes de trucidar o desafeto.

Contudo o que se tem notado em nosso país ultimamente é que esse lado político tem levado o lado animal a comportamento indigno até mesmo dos animais irracionais, se pensarmos que somos todos semelhantes, da mesma espécie e com os mesmo defeitos e, quiçá, até com algumas mesmas poucas virtudes.

A política brasileira tem levado os brasileiros a radicalizarem seu comportamento político e social de modo irracional. Se se levar em conta que a democracia também surgiu na Grécia, mais ou menos na mesma época dos grandes filósofos, é possível constatar que também a nossa democracia está dando ré, indo à retaguarda.

As ofensas políticas e pessoais, em nome de partidos e posições, chegaram a um ponto de total irracionalidade. Parece que todos esses anos, centenas de anos, de aprendizagem, até mesmo com sofrimento e dor, foram insuficientes para nos ensinar, em pleno século XXI, que é preciso viver na polis como cidadãos e não como bestas irracionais.

Eu que sempre gostei de política – ou seria Política? – ando enojado com tal situação. E, se o governo tem sua parcela de culpa – aliás, penso mesmo que todo governo seja sempre culpado –, o cidadão também não está isento de muitos dos males que nos afligem.

É bem verdade que provavelmente tenhamos chegado ao pior panorama político dos últimos tempos. Os representantes do povo, eleitos por nós – eu perdi todos os meus votos, mas também me incluo nisto – e que se assentam nas cadeiras dos diversos níveis da representação legislativa, são de dar medo. Boa parte deles são a própria reserva imoral da nação. Mas nós os elegemos. Nós os colocamos como nossos representantes.

E agora estamos nos digladiando nas redes sociais, nas ruas, em passeatas de um e outro lado, ofendendo-nos uns aos outros, como se o outro, o que não pensa como nós fosse um canalha a ser extirpado do meio social, do meio político.

Enfim, acabamos por nos tornar mais animais e menos políticos! E isto é tudo o que os golpistas de sempre querem para achar que são os donos da nação.

 

Aristóteles, cópia romana de uma escultura de Lísipo (em pt.wikipedia.org).

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