A MORTE DO MENINO

Meu antigo professor de Química, do Curso Científico, Aderbal, certa vez, desafiado por um dos meus colegas, resolveu responder sobre a definição de vida e morte. Segundo ele, a vida “é um conjunto de fatores que resiste à morte”. Perguntado, então, o que seria a morte, ele singelamente respondeu: “É a cessação da vida!”. Assim, simples, direto, sem maiores considerações filosóficas e/ou científicas, contra as expectativas da turma a esperar daquele senhor que se dispunha a dar aulas para um bando de adolescentes quase adultos, numa escola noturna no interior do Espírito Santo, explicações mais complexas, que nos pudessem fazer compreender o mistério do viver.

Eu mesmo, aliás, costumo dizer que a vida é a caminhada sobre uma lâmina afiada. Ao menor deslize, somos ceifados, sem dó, nem piedade.

Por seu lado, a sabedoria popular nos ensina que, para morrer, basta estar vivo.

Na sexta-feira passada, primeiro dia do ano, fui confrontado com esta simplicidade da experiência humana sobre a face da terra. Naquele dia, isto ficou claríssimo.

Um menino de quinze anos, meu conterrâneo, foi fulminado por um enfarte do miocárdio. Era a tarde daquele dia, e ele, após o almoço, brincava de videogame. Tinha ido com a mãe, o padrasto e seu irmão postiço, filho do padrasto, passar alguns dias em Guarapari, de onde voltaria para Bom Jesus do Itabapoana no sábado.

Voltou sem vida. Voltou à terra natal, para que nela fosse sepultado. Para que recebesse sobre seu jovem corpo de atleta – era lutador de jiu-jitsu – o peso da tristeza e da dor dos que deixou.

Sua mãe, grávida de alguns meses, foi que nos deu a notícia, no hall do edifício onde estávamos hospedados em Guarapari, cidade balneário do Espírito Santo, que, nesta época e durante todo o verão, se transforma num caldeirão de gente alegre, descontraída e despreocupada. Fora para ali, para repetir o rito de passagem para um novo ano, talvez cheio de planos, cheio de esperanças, senão ele, sua mãe, augurando felicidade e vida longa.

A mãe, ao dar a notícia, ainda nos falou, colocando as mãos sobre o ventre já entumecido pela gravidez atual que, quando ele foi gerado, havia quinze anos, ela repetiu aquele gesto e, em forma de oração, disse: Senhor, este filho que aqui está é meu e é do Senhor.

 

Mas a vida lhe foi ceifada inapelavelmente. Desgraçadamente!

O que leva a Natureza – e não cogito aqui de forças transcendentais regendo a vida – a interromper tão precocemente a trajetória de um menino, que deveria ter tudo a seu favor, para viver muito? Não foi um acidente trágico nas perigosas estradas brasileiras. Não foi uma doença maligna adquirida recentemente. Foi tão-somente seu coração juvenil que lhe interrompeu a caminhada pelo tempo.

Talvez seja melhor para aquela mãe acreditar que Deus nos dá a vida e pode tirá-la ao seu bel prazer. Os que creem dizem tirar disto lições para continuar, para aprender, para crescer espiritualmente.

Talvez seja melhor assim, já que a morte de um jovem de quinze anos é uma tragédia demasiado grande para ser suportada.

Por meu lado, apenas penso que os planos da Natureza, se ela os tem, estão acima do nosso entendimento e aceitação, cuidando de cada um como cuida de todos: com uma indiferença atroz!

E tristemente se constata que, para morrer, basta estar vivo! Ou, simplesmente, que a vida cessou!

Cândido Portinari, Criança morta; 1944 (em obviusmag.org).

 

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2 comentários em “A MORTE DO MENINO

  1. Zatonio Lahud disse:

    A natureza é cruel, mas também indiferente às mazelas humanas. Ela apenas segue seu curso.

  2. Sebastião Bueno de Rezende disse:

    Tudo morrerá, eu e a terra.

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