DO CARNAVAL E SUAS GRANDIOSIDADES

Com as cuícas de Momo roncando à nossa porta, veio-me à mente um fato interessante que ilustra como o Carnaval produz um sentimento de grandiosidade nos aficionados, a partir da coisa mais prosaica.

Eram ainda os anos setenta do século passado, antes da fusão entre o antigo Estado do Rio de Janeiro, então alcunhado de Velha Província, e o novel Estado da Guanabara, de tão curta duração. A fusão, ocorrida em março de 1975, se deu, manu militari, por decisão soberana, pessoal e idiossincrática do então general presidente em Brasília, Ernesto Geisel, com o objetivo de apagar a Guanabara que se metia à besta em fazer oposição ao regime.

Como se dizia à época e no meio laborativo, mourejava este que lhes escreve, simpáticos leitores, na secretaria da Segunda Câmara Cível do Tribunal de Justiça do velho Rio de Janeiro, onde “extrapolava competência”, nas palavras do meu chefe, no teclado da máquina de escrever. Fui, modéstia à parte, um feroz datilógrafo, capaz de ultrapassar os oitocentos toques por minuto. Os mais jovens talvez não tenham a dimensão dessa minha façanha, mas eu era realmente bom no métier. Percebam que estou abusando de termos já démodés, para situá-lo no tempo.

Lá um dia- era uma segunda-feira –, chega-se para mim o colega de trabalho Aluísio, contínuo da Secretaria, um sujeito magro, feio, safo, bigode de cantor de samba-canção, com uma folha de papel rascunhada com um texto, para que eu o datilografasse, em dez vias. Por esse tempo ainda não tínhamos o conforto das máquinas duplicadoras, de modo que o troço ia ser feito com uma via original e mais quatro cópias a carbono. Percebam que é tudo antigo e ultrapassado. Teria, deste modo, de fazer o trabalho duas vezes para somar as dez vias.

Aqui é bom informar aos mais jovens e requentar a memória dos coevos que havia dois tipos básicos de papel carbono: um mais simples, mais barato, que gerava menos cópias; e outro – grande progresso à época – um papel carbono filme, plastificado, capaz da proeza de, a par de ser mais fino que o outro, permitir cópias com mais qualidade. É de se imaginar que o serviço público ainda não dispunha do segundo tipo para o trabalho a ser encetado, o que levava o datilógrafo a sentar o dedo nas teclas com vigor, a fim de que a última cópia ainda saísse capaz de permitir uma leitura razoável, as letras mais ou menos borradas em seus contornos na cor do carbono.

Pois encabeçava a tal folha manuscrita que meu colega me estendera o pomposo título de G.R.E.S. IMPÉRIO DA AMENDOEIRA.

Aluísio me pedia, assim, que passasse a limpo, em bem traçadas linhas mecânicas, o samba-enredo da recém-criada agremiação carnavalesca fundada por ele e um grupo de gatos-pingados, no último fim de semana, enquanto pegavam um sol e tomavam umas cervejotas nas areias de Icaraí.

Para que o serviço gracioso não fosse de todo gratuito, perguntei-lhe um tanto debochado:

– Embaixo de que amendoeira vocês estavam, quando fizeram este samba-enredo?

E ele me disse, rindo, que era sob uma estacionada no calçadão da Praia de Icaraí, em frente à Rua Lopes Trovão.

E, assim, debaixo de uma árvore comum na orla da cidade, que ainda não tinha o porte de hoje, já que tinha sido plantada havia pouco anos, foi criada a pomposa e exuberante associação carnavalesca Grêmio Recreativo Escola de Samba Império da Amendoeira, de cujo paradeiro – ou desfiladeiro – nunca mais ouvi falar, a não ser naquele extinto instante em que produzi as dez cópias do famoso samba-enredo. O Aluísio e mais uma penca de amigos eram os autores da música.

Passou-se o Carnaval, entrou-se na Quaresma, veio a Semana Santa, queimaram-se fogueiras de São João, e nunca mais se produziu uma só palavra, um único comentário acerca do maravilhoso e espetacular Grêmio Recreativo Escola de Samba Império da Amendoeira.

 

Carybé, Escola de samba; 1986 (imagem em taislc.blogspot.com).

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Um comentário em “DO CARNAVAL E SUAS GRANDIOSIDADES

  1. Republicou isso em Eu Vivo a Melhor Idadee comentado:
    UM TEXTO INTERESSANTE E A ARTE DE CARYBÉ

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