É O FIM!

Em princípio, tudo vai dar no fim!

Não adianta você ficar fazendo planos mirabolantes para sua vida, ou para a micareta que está aí batendo à porta, que tudo vai dar no fim. Ou no fim da linha, ou no fim do bloco.

Vivemos tão acossados pela necessidade de planejar, projetar, precaver, programar, prosperar, que estamos soterrados por um sem-número de cálculos, variáveis e achegas intermináveis. E, no final, tudo vai dar no fim! Até o melhor cinema que se produz; o melhor vinho que se elabora; a melhor obra literária que se escreve; tudo tem seu fim inapelável. Então as pessoas ficam procurando uma forma de, no meio, aliviar os prováveis efeitos colaterais de um fim não auspicioso, catastrófico. E realizam coisas impensáveis. Por isso é que se diz comumente que o fim justifica os meios. Os canalhas, aliás, usam isto para fazer suas canalhices, apenas porque imaginam a certeza de que, afinal, o fim é certo e, depois, não haverá ninguém a cobrá-los, já que todos serão finados, no sentido morto e enterrado da palavra. E expandem suas canalhices com a maior desfaçatez. Por isso, no fim, os justos ficam no meio.

Assim o fim é o único princípio básico da humanidade. Quando se começa, é em direção ao fim.

Por exemplo, lembro-me dos pudins de leite que comia, quando ainda não me assustavam as taxas de glicose. Também eles tiveram um fim. E isto é extremamente doloroso para um aficionado por açúcares e demais sabores. Contudo até o paladar, esta delícia com que a natureza nos proveu, acaba por se findar. Chegamos ao ponto máximo do paladar pelos quarenta-cinquenta anos e, daí a pouco, ele começa a dar mostras de que também terá seu fim. Felizmente fui dotado com um de alta capacidade gustativa, que me permite ainda saborear muitas e variadas coisas, mas sei, pela observação de outros mais idosos do que eu, que um dia vou me limitar a sopinhas ralas e insossas, a chazinhos irrelevantes e bolachas de água e sal, como dizem os paulistas.

Há um blues tocando enquanto redijo estas bem traçadas. E poderia imaginar que não há nada mais contrário ao breque de paladar do que um blues pegado, eletrificado, tipo Chicago, com Buddy Guy. Mas não posso ser injusto com a natureza. Ela sabe o que faz. E, se principiou uma trama qualquer, tem que dar um desfecho. Para qualquer pessoa, bicho, planta ou coisa. Um dia, tudo chegará ao fim. Nem que isto demore outros bilhões de anos, como preveem os perscrutadores do universo.

Só não quero fazer como diz o samba* antigo: abreviar o princípio do fim.

Imagem em aventura100limites.blogs.sapo.pt.

———-

*Liberdade demais, de Mariano Filho e Hélio Nascimento, gravado por Cyro Monteiro no álbum Sr. Samba, 1961. Caso deseje ouvi-lo, basta clicar no título da música.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s