ANO 2017 d.C

Olhei a passagem de ano da varanda da vizinha. Prestei bastante atenção aos sinais metafísicos e astrológicos que pudessem distinguir um ano de cão, como 2016, de um ano de esperanças, como se espera de 2017 (E ele que não se faça de bobo!), e posso lhe garantir, esperançoso leitor, que não observei bulhufas de especial ou de alvissareiro. A não ser, é claro, o tique-taque eletrônico do relógio do telefone celular que pulou de 23h59 para 00h00, quando, então, começou o foguetório na enseada de Icaraí.

A multidão que se aglomerava nas areias da praia aproveitou para também soltar seus rojões, misturados a gritos de euforia, abraços, beijos e goles generalizados em todo tipo de bebida alcoólica ou não. E talvez também não tenha havido nenhuma diferença na cabeça daquele ror de gente que aguardava por bons sinais.

Os fogos começaram, de imediato, a ribombar e a encher o céu negro de cores e formas pirotécnicas e assim permaneceu por longos dezesseis-dezessete minutos, se não me falha a cronometragem. Todos os convidados da minha vizinha, inclusive eu, Jane e um casal de amigos, julgamos que os fogos deste ano foram mais bonitos que os do ano passado. Porém isso também não indica que o ano será melhor.

No início do ano velho, apareceu um funk miserável, cujo cantor, sem o mínimo physique du rôle para o troço, afiançava que tudo “tá tranquilo, tá favorável”. E 2016 deu no que deu: um ano para ninguém estimar: nem coxinhas, nem mortadelas, nem ovinhos de codorna. Foi ruim para a maioria esmagadora da população, tirante minha prima, que deu um depoimento extremamente favorável a 2016. Contudo devo dizer que até mesmo para o pior canalha do país, há alguém a dar um depoimento favorável, a livrá-lo de qualquer acusação. Portanto o julgamento da minha querida e bela prima não tira nenhum demérito de 2016. Aninho para se esquecer!

Por isso é preciso que 2017 se desvencilhe desse miserento, o que, com toda a sinceridade não estou percebendo por esses primeiros cinco dias. Basta dizer que até o momento, tirante as contas a vencer, já tive de pagar três, que vieram com o carimbo 2016. Também, pelo que se tem do panorama político-econômico, está difícil acreditar em alguma mudança, apenas porque o tempo que contamos na folhinha mudou de data.

Entretanto, como afirma uma crença generalizada, o brasileiro não perde a esperança. Perde até o emprego, a casa própria, o crédito, o bonde e o trem, e até a vida, mas a esperança, esta, ele não perde nem com reza braba.

Portanto aguardemos que 2017 não seja tão feio quanto se pinta.

Dá-lhe 2017! Esteja em casa! Seja bem-vindo!

Também não há outra alternativa!

Expectadores do Réveillon em Icaraí (foto do autor).

Expectadores do Réveillon em Icaraí (foto do autor).

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