PADEIRO ATOLADO

O expediente da secretaria do juízo estava nos seus estertores, quando o celular tocou. Era o amigo Mateus, desesperado, pedindo empréstimo para quitar a conta de luz, dois meses atrasada, a fim de evitar o corte de energia do seu estabelecimento comercial. Seis mil reais de atraso!

Ernesto lhe disse para ter calma. Estava pondo fim aos afazeres daquela sexta-feira e já iria ao seu encontro. Mateus pediu urgência, pois o técnico estava de escada armada, alicate na mão, pronto a cortar a luz.

Durante o trajeto, Ernesto pensou na dívida antiga e não saldada pelo amigo. Mas, pelos amigos, é possível fazer mais do que recomenda a prudência. E dirigia o carro com a pressa relativa permitida pelo trânsito da sexta-feira de uma cidade do porte de Campos dos Goytacazes, mesmo um pouco antes da hora de pico.

O estabelecimento comercial, uma padaria, fica na esquina da Rua Formosa com uma outra qualquer, próxima ao centro da cidade. Tem freguesia numerosa e cativa, porque oferece grande variedade de produtos de qualidade. Para quem vê seu movimento, é impossível imaginar que o proprietário não consiga pagar uma simples conta de energia elétrica, embora ela não seja das menores, após a troca do forno a lenha por modernos fornos elétricos. Mas era exatamente o que estava acontecendo: dois meses sem que a Ampla visse a cor do seu crédito, ameaçando agora deixá-lo às escuras.

Ernesto tocava o carro, sem imaginar a cena já armada em frente à padaria, contudo já a antevendo, em vista do que sabia do amigo, chegado a um histrionismo.

E não deu outra!

Quando conseguiu estacionar o carro numa rua lateral e chegar à cena da trapalhada, encontrou Mateus segurando a escada com as duas mãos – o técnico já subindo alguns degraus acima da cabeça – e gritando:

– Desce daí! Desce já, que eu vou te derrubar! Não vai cortar essa luz! Vou pagar agora! Meu amigo está chegado com o dinheiro! Desce, senão te mato, seu miserável!

O maldito técnico começou a tremer com os solavancos da escada e achou melhor se prevenir. Segurou firme com as duas mãos, após ajeitar o capacete sobre a cabeça, e entrou na discussão com o padeiro.

– Para com isso! Vai me derrubar e vai ficar pior! Estou com a ordem de corte aqui, e você não pagou a conta!

– Desce já daí! Ernesto, fala pra ele descer, que você trouxe o dinheiro para pagar a conta.

Mas Ernesto, prudente, sem querer entrar em nova enrascada, disse ao amigo que aquilo era problema dele. Estava apenas trazendo o dinheiro que lhe pedira e não ia se meter em confusão alheia.

A situação estava a ficar fora de controle. Pessoas começaram a se aglomerar em torno do furdunço armado.

– Desce já daí, seu desgraçado! Vou pagar a conta agora mesmo!

E tanto sacolejou a escada, que o técnico preferiu descer a se ferir com uma possível queda.

O padeiro, então, pegou os boletos atrasados, numa espécie de pendura atrás da caixa registradora, apanhou o dinheiro com Ernesto e se precipitou em direção à agência bancária, do outro lado da rua, pedindo ao amigo:

– Ernesto, não deixa o cara cortar a luz, que vou ali pagar a conta rapidinho. Segura mais essa pra mim!

Ernesto sorriu – conhecia muito bem o amigo enrolado – e pediu um voto de confiança ao homem da Ampla.

– Eu sei que sua obrigação é cortar, mas dê uma chance a ele, senão fica ainda pior para os negócios dele, já meio enrolados.

Volta o Mateus esbaforido, língua em molde de gravata vermelha sobre o peito, já trazendo uma cópia dos boletos pagos, para entregar ao técnico e, assim, evitar o corte de energia do seu estabelecimento comercial.

Foi o que bastou para desfazer a pequena aglomeração de curiosos e voltar a reinar certa paz entre farinhas, fermentos e massas.

– Te devo mais essa, Ernesto!

 

Job Berckheyde, Boulanger 1681

Job Berckheyde*, Boulanger; 1681 (em enigm-art.blogspot.com.br).

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  • Job Berckheyde foi um pintor holandês, que viveu entre os anos 1630 e 1693 e desenvolveu seus trabalhos em Haarlem, Amsterdam e Haia. A obra aí reproduzida está exposta no Museeu de Arte de Worcester, em Massachusetts-EUA.
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