EDILBERTO, O CORAJOSO

O Brasil acabara de declarar guerra às potências do Eixo e precisava convocar soldados em todos os rincões da pátria.

E Bom Jesus do Itabapoana não poderia ficar fora do esforço patriótico de barrar a expansão do império do mal liderado por Hitler e Mussolini, ou não estaria incluída no mapa do Brasil.

O jovem Edilberto, no entanto, não pensava assim. Não declarei guerra a ninguém, dizia ele na roda de amigos, enquanto jogava sinuca no bar da Praça Governador Portela. E, na iminência de ser convocado para a guerra, resolveu antecipar um acidente que o livrasse do compromisso com os Aliados: deu um jeito de meter a catana, um instrumento avantajado de cortar cana-de-açúcar, no dedo fura-bolo da mão direita, aquele mesmo que seria destinado a puxar o gatilho para matar o inimigo, a fim de decepar-lhe a tal falangeta, deixando intactas a falange e a falanginha. Como era bem frouxo de coragem e para não ver a cabeça do dedo voando entre jorros de sangue, fechou os olhos no instante de desferir o golpe sobre seu desamparado dedo indicador repousado num toco de madeira, próximo ao chiqueiro dos porcos na chácara dos pais, à saída da cidade em direção ao Rebenta Rabicho.

A mão – esquerda – que segurava a arma fatídica não se prestava a muitas coisas e vacilou na precisão do corte. O dedo fura-bolo de Edilberto escapou de ser guilhotinado, mas sofreu sérias avarias.

Gritando como um alucinado, correu até a casa dos pais a cem metros do local do sacrifício, com uma banda do dedo dependurada por parte de pele e de nervos. Em desespero, a mãe cuidou de enrolar a vítima em um paninho branco e acompanhar o filho desastrado ao Hospital São Vicente de Paula, onde Edilberto deu entrada com anotações de acidente ao picar abóbora para os porcos.

À época, fez-se o serviço possível, com tudo aquilo que a Medicina dispunha naquela cidade perdida do antigo Norte Fluminense, no que resultou, ao fim do período de recuperação, um dedo duro, no sentido referencial, que não permitia mais a Edilberto fechar a mão direita totalmente. Ficava aquele trambolho a apontar alguma coisa em lugar incerto e não sabido nas imediações de onde estivesse.

Passado o tempo das dores e da recuperação, ele foi-se habituando a conviver com o incômodo do dedo rígido.

Até que chegou à cidade, partindo de Niterói, a antiga capital do Rio de Janeiro, a sinistra junta de recrutamento de novos pracinhas a serem enviados aos campos de batalha da Europa, a fim de preservar a democracia no mundo, ou em parte dele, pelo menos.

O edital de convocação não discriminava ninguém. Apenas fixava os anos de nascimento para aqueles julgados aptos a desferir tiros dos mais diversos calibres contra  nazistas e fascistas recalcitrantes.

La foi tranquilo o Edilberto a atender o chamado da pátria nessa hora crucial, com a convicção de que o dedo o livraria do incômodo de matar inimigos.

A chamada para o exame dos candidatos a heróis da pátria se fez em ordem de chegada, já que não houve uma inscrição prévia dos chamados conscritos.

À medida que decorria o tempo de espera, Edilberto observava o semblante de cada um a sair da sala, na sede do Tiro de Guerra, após o encontro com a junta militar. Uns aliviados, por não terem sido convocados; outros circunspectos, por atenderem o chamado da nação; uns alegres, por poderem meter bala no inimigo; outros tristes, por terem de meter bala no inimigo.

E lá estava o Edilberto, sem muitos sobressaltos no espírito de porco que carregava em seu invólucro carnal, na confiança de que o dedo duro o livraria de qualquer enrascada mais séria.

E chegou sua hora!

A ordem era que todos se despissem, fossem pesados e medidos, em altura, largura e profundidade. Depois de anotados os números, o candidato se postava de pé, com a roupa com que veio ao mundo, diante do capitão médico responsável pela junta. Com tudo mole, mas com o dedo duro, o possível convocado foi indagado pelo capitão sobre o que acontecera. Edilberto, com certa hesitação na voz, informou sobre o tal acidente ao picar abóbora para os porcos e o resultado final que lhe deixara o indicador enrijecido. E acrescentou, tentando aumentar as chances de defesa, que ele era destro e que, portanto, não poderia nunca puxar o gatilho para disparar qualquer tipo de arma de fogo. Desde uma simples garrucha vinte e dois, até um perigoso fuzil Springfield, calibre 30-06, cujo acionamento dependia da ação muscular do atirador, e que era uma das armas da Força Expedicionária Brasileira.

E, para assegurar de que não mais dispunha do movimento regular do indicador, fez o gesto de abrir e fechar a mão direita algumas vezes, terminando por afirmar:

– Com o dedo assim, capitão, acho que não sirvo para a guerra.

O capitão olhou bem a cara do malandro Edilberto, pensou alguns instantes e lhe disse:

– Serve sim! Você irá à frente da tropa, indicando a posição do inimigo: Ali! Ali! Ali! – e fez o gesto com seu dedo, a mostrar a Edilberto que o dedo rígido dele também teria sua serventia no campo de batalha, apontando onde estaria escondido o inimigo.

Edilberto suou frio. Seus pertences inferiores, ante a notícia, murcharam, e ele se virou, após a ordem do capitão para que todos se vestissem.

Antes que o grupo saísse da sala, o militar chamou por seu nome, deu um sorriso debochado e disse para o corajoso Edilberto que aquilo tinha sido uma brincadeira. Ele não precisava ir à Europa dar tiro em nenhum tedesco.

 

Fuzil Springfield (segundaguerra.net).

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