CRÔNICA DE ROMA: PAULINHA

Paulinha entrou na nossa vida por um acaso, há mais de vinte anos, e ainda não saiu. E nosso contato não durou mais de uma semana, naquele janeiro de 1996, numa viagem a Recife por uma já extinta agência de turismo. Até a empresa acabou, mas sua presença não.
Paulinha tinha cerca de dois ou três anos e viajava com seus jovens pais. Era morena como a mãe, irrequieta e bastante comunicativa. Tinha os olhinhos vivos e um sorriso de dentes de leite muito fácil. Estava sempre disponível para quem a chamasse, à cata de uma brincadeira, de um carinho. Todos como que a adotaram como mascote, já que era a mais novinha turista do grupo que foi passar uma semana num hotel de frente para o mar pernambucano, na praia do Pina.
Guardei até seu nome completo, pronunciado apenas em voz alta, em tom bravo, por sua mãe, quando ela estava aprontando além do previsto:
– Paula Beatriz!
Algumas atividades estavam previamente agendadas como parte da excursão, de modo que era comum tê-la conosco algumas vezes por dia. O que ocorria também durante o jantar no hotel, incluído no pacote. No entanto, durante algumas horas por dia, ou em alguns dias, tínhamos o tempo livre para as atividades de interesse pessoal e não a víamos.
Pois foi numa dessas ocasiões em que se deu o fato que fez marcar Paulinha até hoje em nossa vivência. Sua família, durante o almoço em algum lugar do Recife, andou comendo algo que não fez bem aos intestinos dela e da mãe. Como fosse verão e a temperatura estivesse bem elevada, ambas tiveram desidratação, por força do incômodo. Por isso seu pai, que nos informou do mal-estar das duas, foi visto sozinho num dos jantares da semana.
No jantar da noite seguinte, já lá estava a Paulinha, toda eufórica, jantando com o pai, sem a presença da mãe. Jane, então, comunicativa como sempre, quis saber dela como estava. Do alto de sua autoridade infantil, informou para nós, numa frase dita de forma clara, bem pronunciada, com todos os erres:
– Eu meriorei; minha mãe não meriorou!
A partir daquele instante, instituí em minha relação com a Jane, no quesito saúde x doença a forma verbal pauliniana “meriorar”, em substituição à forma regular “melhorar”, um tanto sem o charme da pronúncia da pequena. Acho, inclusive, que assim dizendo se abranda um pouco mais a situação da doença e melhora a saúde geral, por conseguinte.
Como acabei de fazer neste instante, em que a Jane está cuidando dos pés, que sofreram na longa caminhada que empreendemos hoje em Roma, a partir da Basílica de Santa Maria Maior, até a Via Nazionale, onde foi ver umas coisinhas, para aproveitar a temporada de liquidações, ou “soldi”, como eles dizem.
– O pé meriorou?
Sim, já melhorou e está pronto para o programa noturno deste sábado. Iremos assistir a um show de jazz tradicional, com o grupo de Emanuelle Urso, no belo espaço da Villa Borghese, no sistema zero oitocentos, sob o céu estival de Roma, como é comum nesta época do ano na Cidade Eterna.
—-
PS: Ao fim da bela apresentação, a Lua Minguante deu o ar da graça.

 

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s