CHATO, ZABUMBA E CRICRI

Em Bom Jesus da minha juventude, o cara chato passou a ter uma classificação tríplice, conforme sua chatura.

Não sei se o leitor amigo sabe da origem do uso do termo chato para taxar as pessoas incomodativas, aquelas que se apegam a um assunto desinteressante e ficam penduradas no ouvido alheio, com conversas intermináveis que não produzem o mínimo efeito prático.

Pois tal designação veio derivada do parasita pubiano, também chamado chato, que infesta a área de lazer das pessoas tomadas por tufos de cabelos, cujo nome popular a educação me sugere não dizer aqui, mas de que todos estão cansados de saber.

Com a moda de se depilar tal área, sobretudo entre as mulheres, e um maior cuidado nas relações sexuais, a presença do tal piolho-da-púbis, cientificamente chamado de Phthirus pubis, não tem feito muitas vítimas.

Mas na Bom Jesus da minha juventude, lá pelos anos 60, com a guaxa funcionando a todo vapor, volta e meia, como se dizia então, aparecia algum conhecido com o horrível gesto de estar se coçando lá naquele lugar, porque tinha sido tomado por uma fenomenal infestação de chatos. E esse parasita incomodava demais aqueles sortudos. Alguns, inclusive, na ânsia de dar fim ao parasita, quase ateavam fogo aos tais pelos pubianos, ou se valiam de métodos de cura que deixavam a área reduzida drasticamente em suas dimensões.

Por essa razão, as pessoas que incomodavam passaram a ser chamadas de chatas. E havia por todo lado chusmas de chatos – agora pessoas –, que os não-chatos, quer dizer, as pessoas normais, nem sempre conseguiam evitar.

Chegou-se, então, ao ponto de se instituir uma classificação mais detalhada da “quantidade”, isto é, a exorbitância de incômodo que um chato podia produzir em sua vítima.

Criou-se, assim, uma classificação tripartite, do menos chato, para o mais chato, que assim ficou constituída: chato, zabumba e cricri. E a classificação era autoexplicativa.

O chato todos já o conheciam, sendo mesmo possível nomear alguns deles, só de olhar a Praça Governador Portela numa manhã singela de segunda-feira, por exemplo.

Depois, vinha o zabumba, mais chato que o chato. E a explicação era insofismável: o zabumba dava no saco do chato.

E terminava com o cricri, que era aquele que dava no saco do zabumba.

Imagine o leitor amigo a que grau de chatice chegava uma pessoa classificada como cricri. Esta palavra, inclusive, passou à gíria nacional, muito por conta do jornal O Pasquim, onde o humorista Henfil tinha uma tira com um personagem com esse nome.

O zabumba, infelizmente, não teve essa glória nacional, restando apenas na área semântica da música nordestina, e ficou, com tal sentido, restrito a Bom Jesus do Itabapoana, onde, não sei, se ainda sobrevive.

Espero não ter sido chato. Muito menos, zabumba ou cricri.

Até a próxima!

Retrato falado do chato (Phthuris pubis), ao lado de um fio de cabelo (imagem em mdsaude.com).

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