HISTORINHAS RÁPIDAS V

9. HISTORINHA SALARIAL

Lá pelos anos 80, a faculdade em que eu trabalhava passava por problemas financeiros e atrasava salários.
Com a situação já periclitando, fomos reivindicar – meu dileto amigo Fernando Lemos e eu – nosso pagamento.
Então o tesoureiro resolveu liberar parte do que nos devia e preparou o documento para que o assinássemos: “RECIBO DE ADIANTAMENTO DE SALÁRIO”.
Ferrando Lemos pegou o dinheiro, a esferográfica oferecida, riscou a palavra ADIANTAMENTO e escreveu acima: ATRASAMENTO.
O tesoureiro protestou, mas o professor Fernando Lemos, do alto de sua autoridade profissional, disse não aceitar assinar um documento que não era verdadeiro. Virou as costas e saiu.

 

10. HISTORINHA BAIXINHA

 

Baixinho era uma pessoa metódica. Sua vida, após o trabalho diuturno na antiga CERJ, era programada para todos os dias úteis da semana e quase sempre terminava com uma cerveja gelada no bar do Zé Português, na esquina das ruas Moreira César e Pereira da Silva, em Icaraí. Certa noite, me contou a história que reproduzo aqui.

Um dia, pelas vinte e três horas, voltava para casa no ônibus da linha 53. Àquela hora, o coletivo tinha poucos passageiros. Ele se sentou junto à janela, num dos bancos um pouco à frente do cobrador. Ao lado dele, foi sentar-se um homem que portava um jornal dobrado em quatro.

Depois de algum tempo de viagem, o vizinho de banco levanta um pouco o jornal, exibe um revólver e lhe diz;

– Passe seu relógio e fique quietinho!

Baixinho recuperou-se rápido da surpresa e tentou argumentar com o assaltante:

– Que isso, cara?! Meu relógio não tem valor. Só valor sentimental. Foi presente do meu pai. E você vai vendê-lo por qualquer dez mil réis.

– Não interessa! O relógio vai ser meu e eu vendo pelo preço que quiser. Passe o relógio e fique quieto!

E aproveitou para cutucar o cano do trabuco nas costelas do Baixinho. Com tal argumento convincente, Baixinho não teve como não se desfazer de seu relógio de pulso, com pulseira de metal, todo dourado, marca Lanco, uma beleza de dar na vista.

O ladrão desceu no ponto seguinte, levando o relógio que Baixinho tinha adquirido na Grand Joias há um tempo.

Duas semanas após, cumprindo parte do seu ritual, numa quarta-feira, vai até o Caneco Gelado do Mário, por essa época a décima parte do que é hoje, e vê o ladrão sentado ao fundo, acompanhado de uma mulher. Baixinho, abusado como todos os baixinhos, vai em direção a ele e diz, para que os demais frequentadores ouvissem:

– Aqui, você é o cara que me roubou o relógio de pulso no 53 há quinze dias! Cadê o meu relógio?! Devolva o relógio que você me roubou!

– Que isso, cara?! Tá maluco?! Ficou doido?! Nem te conheço! Nunca te vi!

– É você sim! Estou te reconhecendo! – E se virou para os demais, reiterando a acusação.

O sujeito, constrangido, colocou uma nota sobre o balcão e escafedeu-se do local.

Passada uma semana do ocorrido, Baixinho, em outro dia da semana em que ia beber cerveja com fígado de galinha acebolado num boteco nas imediações do Estádio Caio Martins, mal pôs os pés na porta do estabelecimento e dá de cara com o ladrão, de copo à mão, pronto a virar um gole.

Assim que o viu e antes que o Baixinho lhe fizesse qualquer acusação pública, o assaltante foi saindo do bar e gritando a plenos pulmões:

– Não te conheço, cara! Nunca te vi! Você é um maluco!

E sumiu no oco do mundo, de nunca mais encontrar o Baixinho pela quarta vez.

 

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