MARIA FALA (Histórias de avós e neta)

Maria fez ligeiros quatro anos este mês, mas fala como se tivesse bem mais. Embora seja Cebolinha total, em relação ao chamado erre duro – de caro, barata, prata, que ela diz calo, balata, plata – consegue falar com fidelidade todos os demais fonemas e capricha nos plurais e nas concordâncias, no uso do subjuntivo e do futuro do pretérito, que até espanta os adultos. E ainda fez comentário desairoso sobre a personagem de Maurício de Souza:

– O Cebolinha não sabe falar o erre!

Evidentemente que há aí o estímulo das mídias modernas, mas, quero crer, muito também de uma habilidade inata, daquele tipo que faz uma pessoa ter facilidade para desenhar, esculpir, cantar, dançar, por exemplo. Pois Maria tem uma habilidade danada para falar. E como fala!

Dia desses fomos apanhá-la para passar uns dias conosco. Seus irmãos mais velhos vieram juntos. O encontro com o pai, que os trazia, se deu no estacionamento do aeroporto Santos Dumont. Já de volta para casa, ao passarmos sobre a ponte Rio-Niterói, ela começou com um assunto que a preocupava então: queria conhecer o mar aberto. E observou que a baía sobre que trafegávamos não era mar aberto. E quisemos saber o porquê desse interesse dela por esse mar aberto. Então ela explicou que era por causa da Moana, que desobedeceu sua avó e foi para o mar aberto. Assim ela queria saber onde era esse tal mar.

Aqui cabe uma digressão para os que não estão atualizados sobre a indigitada Moana. Moana é a personagem de uma bela animação cinematográfica de 2016 – Moana – um mar de aventuras. Ela é uma menina maori, filha do chefe da tribo, que vê como missão salvar seu povo de uma catástrofe natural. O desenho é plasticamente muito bonito e a mensagem, altamente positiva.

Para atender sua curiosidade, numa tarde, levamos Maria até Piratininga, para que ela visse o mar aberto. Em lá chegando, a imaginação da pequena voou de passarinho, e ela conseguiu instalar sua heroína numa das ilhas próximas e dali fazê-la partir na jornada pelo oceano afora, com todas as peripécias, como no roteiro do filme.

Jane, que não vira o filme (Eu levei o Francisco ao cinema e sabia do que se tratava.), quis saber da netinha a razão que fez com que Moana se lançasse ao mar:

– Maria, o que a Moana foi fazer?

– Óbvio! Foi pla morrer!

Claro que no filme a personagem não morre, mas na cabeça dela, tendo desobedecido a avó, a princesa estaria correndo sérios riscos e procurando a morte no mar aberto.

Na volta para casa, assunto puxa assunto, Jane referiu uma história do pai da miúda quando também pequeno:

– Maria, uma vez o seu pai, quando era pequeno, se perdeu na praia. A vovó ficou desesperada, a praia estava cheia, e eu saí gritando por ele: Pedro! Pedro!

Maria, muito solidária nessas situações, disse para a avó:

– Vovó, ela só me chamar, que eu glitalia meu glito plóplio: PAPAI!

Na noite da véspera da volta à sua casa, eu e ela estávamos deitados, já preparando a hora de a pequena dormir. Contei histórias, cantei antigas canções suaves, mas ela dizia que estava sem sono. Então ela propôs brincar de fazer perguntas. Quem acertasse, poderia fazer duas perguntas seguidas. A brincadeira começou: eu pergunto, ela responde; ela pergunta, eu respondo. Instantes depois, era a minha vez. Como levei pequeno tempo a imaginar pergunta mais complicada para lhe fazer, ela dá tapinhas no meu ombro e diz, em forma de desafio:

– E aí, parceilão?!

Em seguida chega a avó e propõe que ela durma conosco, no meio da cama. A princípio ela aceita a ideia, mas um pouco depois diz para a avó:

– Vovó, pensei bem. Eu não falei com a Lela (a irmã) e acho que ela não vai gostar. Eu vou pla lá.

E foi para o outro quarto, dividir a cama com a irmã adolescente, como vinha fazendo.

Para não me alongar e ser taxado de avô babão, vai a última.

Maria olhava a decoração sobre o rack da sala e, observando o conjunto que aparece na ilustração deste texto, pergunta à avó:

– É sua, vovó, essa família indo embola?

Fecha o pano!

Foto do autor.

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