DO PRINCÍPIO AO FIM

No princípio, bem na entrada da vila, está o Morro do Marta. Um homem de sobrenome Marta, há muitos anos, morou lá e acabou identificando o lugar. Hoje os mais novos não sabem disso e o chamam de Morro do Mato. O epônimo acabou se perdendo.

No meio da praça em frente à capela, o descampado. Sem capim, sem mato, sem bancos, sem canteiros. A praça era como um terreno baldio nu. Era onde as crianças aprendiam a andar de bicicleta. Seu nome, então, era Praça do Sabiá, apelido do fundador da vila.

Na beirada do valão Liberdade, os moleques improvisaram uma rampa de salto. Pulava um, pulava outro, e outro mais. Como se fosse uma ingênua olímpiada infantil.

Atrás do muro do campo do Liberdade, ficava o espaço proibido do gramado, onde o time da vila disputava seus jogos do campeonato. Nos momentos sem uso, os moleques o invadiam sorrateiramente, através do muro, e disputavam partidas inolvidáveis.

À frente o grupo escolar, estava a casa da minha avó. Todos os dias ia lá, pegar os pequenos latões de alumínio e me dirigir ao curral do meu tio-avô, irmão dela, pegar o leite que ele nos dava. Quase sempre, quando ele lá estava, eu tomava uma caneca de leite quentinho com açúcar, cheio de espuma e saído diretamente das tetas da vaca.

Acima das nossas cabeças, revoavam as andorinhas nos fins de tarde, antes de procurar abrigo no forro da capela. Chilreavam tanto, que pareciam alegres como gente. E faziam com que os moleques também sonhassem em poder voar um dia.

Abaixo da terra, a sete palmos, no cemitério da vila, enterram-se sonhos e esperanças. Mas nunca há choro desesperado dos que ficam. No interior, se aprende que a morte é quase igual à vida. Apenas um pouquinho mais dolorida.

Do lado de fora, quem passasse pelas ruas de paralelepípedo imaginaria, ao ver as casas sossegadas de janelas abertas, as mulheres cozinhando, os meninos se aprontando para a escola, os maridos coçando o bigode à espera do almoço.

Dentro das casas, nunca havia dramas irresolvíveis, nem tragédias anunciadas. Vivia-se a pacífica vida do interior, sem muitas novidades, mas também sem sobressaltos. O desespero do progresso sempre lá chegou de mansinho, sem bulício.

Na subida do morro da escola, ficava o pau-d’alho frondoso, ao lado de uma serraria a céu aberto, com um balanço – que então chamávamos balango – dependurado de um galho alto por cordas de juta. Vez e outra um moleque se despencava dele.

Na descida do morro do cemitério, chega-se à Coreia, uma espécie de bairro da vila pequenina. Em minha cabeça de menino, havia mais distância entre a Coreia e a Rua, como chamávamos a vila, do que os passos que a distavam geograficamente.

No fim do dia, a iluminação pública começava a alumiar as ruas com lâmpadas de amarelada fraqueza, quase tomates de vez. Que apenas não deixavam as visagens noturnas do entorno assombrar nossa vida singela.

Revoada das andorinhas faz festa no céu de Teresina

Imagem colhida na Internet (meionorte.com).

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