SOBRE COMER

Dia desses, o amigo Marcelino Medeiros compartilhou no Facebook alguns pensamentos rabínicos muito pertinentes. Um deles me chamou a atenção. É este:

                “Aquele que come sozinho morre sozinho.”

O pensamento é também a tentativa de um ensinamento, porque porta um conceito moral, capaz de melhorar a vida dos que o leem, caso queiram aplicar seu ensinamento: melhor é ter amigos e familiares à volta do que viver e morrer só.

Contudo o que me despertou o desejo de escrever este texto é um sentido escondido dentro da própria frase que escapa às pessoas que não passaram pelo curso de Letras, não estudaram a tal Etimologia, que é a parte dos estudos da língua voltada para a origem das palavras, e que vai justificar muito bem o sentido primordial da sentença.

Repare bem o meu leitor.

A nossa bela língua portuguesa é uma evolução natural do chamado latim vulgar, isto é, o latim popular, falado pelas tropas romanas que, por volta do século I da nossa era, após vencerem os lusitanos de Viriato e Sertório, se estabeleceram no extremo oeste da Península Ibérica, onde está Portugal. Como parte de sua política expansionista, Roma exigia que os povos dominados falassem sua língua, o latim.

O processo evolutivo do latim ao português levou séculos, até que aquela língua falada na região estivesse tão distinta da língua-mãe, que levasse ao surgimento de uma nova língua – o galaico-português e, posteriormente, o português arcaico –, sem que houvesse solução de continuidade no uso da língua, porém já revelando estrutura gramatical e vocabular distinta do latim.

O verbo comer atual, moderno, passou por todo esse período evolutivo, até chegar a este jeitão reconhecido hoje por qualquer falante. Mas guarda em sua trajetória uma história interessante.

Em latim clássico, forma da linguagem que os soldados naturalmente não usavam, comer era edere (com a sílaba forte no primeiro /e/). A forma é composta de um radical ed-, que guarda o sentido básico – “ingerir alimento, alimentar-se” –, seguido da vogal identificadora da segunda conjugação, a famosa vogal temática, -e-,  e terminando pela desinência de infinitivo –re.

Aqui é interessante observar que a forma latina tem o radical bem próximo da forma inglesa: eat. Ambas as línguas vieram de um tronco comum a que os estudiosos dão o nome de indoeuropeu, a língua-mãe da maioria das línguas europeias e de outras tantas da Ásia. Também em sueco, outra língua-irmã, o termo é äta, em que a primeira vogal tem do som do /e/ aberto.

Como o romano, diferente de outros povos, entendesse que o ato de se alimentar não era um ato isolado, individual, mas, sobretudo, um ato social, em que se pressupõe a companhia de outros, isto se refletiu na língua, que acrescentou à forma edere o prefixo indicativo de companha: cum-. Desta maneira, a forma que chegou até à Península Ibérica trazida pelos legionários romanos foi cumedere – “ingerir alimento em companhia de outro”.

A partir daí é que se processa a gradual mudança evolutiva da forma latina até chegar ao que temos hoje.

Dois fenômenos de pronúncia foram sistemáticos. As consoantes sonoras entre vogais (no caso do verbo, o /d/) desapareceram, o mesmo ocorrendo com a vogal final do infinitivo. Num primeiro instante – e isso tem comprovação escrita –, cumedere passou a cumeer. Em seguida, comeer (o /u/ inicial, por ser breve, passou a /o/ fechado em português) e, finalmente, comer (com a crase entre os dois /e/), dando a forma atual.

Embora o radical da palavra tenha desaparecido, aquilo que era o prefixo cum- se manteve e assumiu o valor do sentido da palavra. Passou a ser o radical em português.

Assim é fácil perceber que o ato de comer, por tudo isso, representa uma atividade a que nós, falantes de português, atribuímos um valor social, de confraternização e compartilhamento. Nossos alimentos mais emblemáticos refletem isso: feijoada, bacalhoada, cozido, moqueca, dentre os mais famosos.

Por isso é que me parece bem fundamentada a frase inicial: Aquele que come sozinho morre sozinho.

Até a próxima feijoada!

Conheça a feijoada do restaurante O Jardineiro
Imagem em clubegazetadopovo.com.br.

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