TAMBÉM TENHO O MEU FOLCLORE POLÍTICO

O cara era meu conterrâneo, mas eu não o conhecia, o que só ocorreu em Lisboa, em 2003. Fui encontrá-lo, com a Jane e mais o casal que viajava conosco, em sua cervejaria no Cais Sodré, um belo espaço de gastronomia e entretenimento à margem do Rio Tejo.

Dentre os muitos assuntos que rolaram durante o tempo em que ele permaneceu conosco, o relativo à explicação de como fora parar na cidade ficou até hoje em minha memória, por seu caráter inusitado e mesmo hilariante.

Ele é arquiteto de formação e recebeu convite do então indicado ao cargo de embaixador brasileiro em Portugal, Itamar Franco, para que realizasse algumas obras na residência oficial em Lisboa. Era o ano de 1995.

RO – vou apenas indicar as iniciais do seu nome – viajou então para a capital portuguesa, a fim de atender nosso representante diplomático na Terrinha. Em lá chegando, descobriu que o trabalho consistia na construção de um galinheiro, para que nosso novel embaixador pudesse manter seu arraigado hábito mineiro de comer galinha ao molho pardo, pelo menos uma vez por semana, sem o desconforto de sair procurando galináceos em abatedouros lisboetas. Obviamente que um galinheiro de embaixada não poderia ser feito por qualquer mestre de obra canhestro. Requeria a ciência e a arte de arquiteto diplomado por universidade nacional.

E foi o primeiro galinheiro que RO construiu em sua vida. Até o instante em que ele nos contava a história, entre um trago e outro de chope, acolitado por tira-gostos, tudo por conta da casa, como manda o manual do bem receber visitas inesperadas, RO não tinha feito nenhum outro. Mas, com o prestígio do trabalho realizado na casa do novo embaixador, começaram a pipocar requisições para outros tantos trabalhos em imóveis de brasileiros e de lusitanos na cidade. Tanto é que nunca mais voltou ao Brasil. Por lá ficou, casou e tinha então uma filhinha recém-nascida, motivo que o fez sair um pouco mais cedo, deixando-nos a dolorosa tarefa de secar canecos de chope e dar fim a uma sequência de petiscos, tudo por conta da casa e da boa amizade.

E, como a prever já outro desafio em sua vida de arquiteto, RO nos confidenciou, ao sair, que o diplomata indicado naquele mesmo ano de 2003 para Portugal mandou convocá-lo à embaixada, pois tinha certa obra a lhe encomendar. Era o ex-deputado cearense Paes de Andrade, figura folclórica no cenário político brasileiro, por ter, como presidente da Câmara Federal e em substituição ao presidente da república da ocasião, viajado no avião presidencial até Mombaça, sua terrinha natal, a mostrar a que altura chegara seu filho importante.

RO nos disse, então, que temia ser desafiado a construir um capril, para que o novo embaixador pudesse criar cabras que lhe dessem suculentas e olorosas buchadas de bode.

Fomos embora da cidade no dia seguinte, e nunca soube do desfecho daquele convite que meu conterrâneo arquiteto recebeu de Sua Excelência, o novo Embaixador do Brasil em Portugal.

Vai dar bode! (foto do autor),

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s