O PROFESSOR ESQUISITO

Nos anos 80 fui a Goiás ministrar curso de Língua Portuguesa de uma semana, inserido na programação mais ampla de uma pós-graduação “lato sensu” para professores da rede pública do estado. A cidade, ao norte de Goiânia, era Itapuranga, que está lá até hoje – e também no mapa do estado – com a sua divisão referida pelos moradores, entre a parte antiga e a mais recente, por um apelido carinhoso: Xixá e Xixazinho, se não me falha a memória, que é o nome de uma árvore frondosa comum na região.

No terceiro dia em que lá estava, hospedado num pequeno e simpático hotel, ironicamente nomeado Grande Hotel, de cuja existência não mais tenho ciência, faltou água na cidade. E fazia um calor danado! Era verão!

A carga horária do curso se concentrava em aulas pela manhã e à tarde. Ao fim do dia, eu saía da escola estadual em que elas ocorriam suado e reclamando por um bom banho de água fria. Na verdade, com o calor, a água rigorosamente não era fria. Então fui surpreendido, naquela terça-feira à tardinha, com a informação da simpática proprietária, que me lembrava a imagem da minha avó materna, de que não havia água na cidade.

Diante do hotel e à margem do Rio Vermelho, que corta a cidade, havia um posto de gasolina onde davam banho à força em um morador de rua, assim que as cascas de sujeira tomavam conta da sua pele. Segundo fui informado, o homem tinha de ser agarrado por outros dois, para que pudesse passar pela ducha de lavar carros. Tive vontade de ir lá pedir que me fizessem também tal favor. Mas, pombas!, não havia água na cidade inteira! Me atirar no rio estava fora de cogitação: sou inapto para água corrente ou semovente desde que nasci. Contudo eu não poderia continuar a viver em paz, dormir com certo conforto, voltar à aula no dia seguinte, sem um banho pelo menos razoável. E, após o jantar, a neta da proprietária, muito interessada em novidades, gostava de conversar com o professor da cidade grande. E eu não poderia estar em estado deplorável diante daquela adolescente curiosa.

Não tive saída! Fui até a pequena mercearia ao lado do hotel e comprei várias garrafas de um litro e meio de água mineral. A dona do hotel riu da minha iniciativa. Mas tomei um revigorante banho a cavalo, como dizemos na minha terra, de água mineral das profundezas das terras goianas, e pude me apresentar limpinho para o jantar daquela noite.

No dia seguinte, descobri que corria à boca pequena entre os moradores das imediações que ali, no Grande Hotel, se hospedava um professor que tomava banhos com água mineral.

A maledicência humana corre veloz!

Xixá (foto colhida na Internet).
Fruto do xixá.

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