JUQUITA E O ISQUEIRO

Um dia Juquita amanheceu cismático, cheio de ípsilones, como nunca havia ocorrido. Ele não era uma pessoa assim. Muito ao contrário. Era um homem circunspecto, de poucas palavras, alheio ao interesse pela vida alheia e, sobretudo, tranquilo.

Mas naquele dia acordou cedo demais, ainda com o escuro da madrugada, e foi até o terreiro assuntar o céu. Como de hábito, acendeu o cigarro, que tragava em longas baforadas, enquanto procurava estrelas e as explicações que delas proviessem. Um pouco depois, durante o café da manhã, disse à mulher que o barulho do movimento das estrelas o incomodara durante a madrugada, de modo que não conseguira dormir direito. Tinha passado parte do tempo na cama, a rolar de um para outro lado, imaginando ouvir vozes misteriosas, numa língua desconhecida. Pensou tratar-se de fala de alienígenas. Como, porém, não fosse de todo sem ilustração, intuiu que qualquer língua diferente do português e do espanhol, que julgava um português malfadado, seria língua de etês. Pelo menos, no entanto, nunca ouvira nada semelhante, ainda mais porque, ao fundo, ouvia ruídos parecidos com os velhos rádios rabo-quentes da sua infância, a tentar sintonizar estações ao longo do dial.

A mulher ponderou que pudesse ser excesso de cera nos ouvidos, a produzir barulhos estranhos dentro da cabeça. Ainda mencionou uma tia já defunta, a tia Laurinda, que tivera sensação igual à dele e passou por uma lavagem, em que quase duzentos gramas de entulhos foram removidos de seus ouvidos. Depois disso ela até passou a ouvir o que não queria, mas tudo naturalmente.

Porém Juquita não admitiu o diagnóstico da mulher. Há dois, três meses fizera limpeza semelhante. E seus ouvidos não seriam capazes de gerar quantidade de cera necessária a produzir ruídos como os que ouvira. Agora mesmo, ali tomando o café com ela, não ouvia nada estranho. Eram os barulhos naturais da vida. Aquilo não foi normal. Foi algo muito estranho.

A mulher indagou, então, se, por acaso, por uma remota hipótese, ele não teria sonhado e, sonâmbulo, saído porta afora da casa no meio da noite, para pitar um cigarrinho, vício que ainda acabaria por levá-lo ao cemitério, como asseverava contrariada.

– Claro que não, mulher! Então eu não vou saber se estou dormindo ou acordado. Aliás só sei mesmo quando estou acordado, porque dormindo não tenho consciência de nada. Foi isso que eu te disse: ouvi o barulho das estrelas se movimentando no infinito e uma espécie de vozes estridentes, falando uma língua esquisita, entre ruídos de rádio sendo sintonizado.

Ele tinha certeza de que ouvira. Só não sabia o que ouvira.

A mulher olhou para ele incrédula, lambuzou de manteiga uma fatia de pão, molhou no café e tirou um bom pedaço. Deu um muxoxo, como que conformada.

– Realmente não sei o que lhe falar. Não sendo cera no ouvido, fica complicado. Vamos ver se isso se repete. Caso aconteça, é bom procurar um médico, para descobrir o que está acontecendo. Ninguém ouve ruídos de estrelas. Eles não chegam até aqui.

Aquela próxima noite passou sem novidades. O casal acordou no horário habitual e, durante o café, Juquita comentou:

– Hoje dormi sem novidades. Não ouvi ruído nenhum. Foi um sono só, até agora de manhã.

– Então, Juquita, não foi nada demais. Você deve ter sonhado. Já ouvi falar num tal sonho vívido, que a pessoa sente como se fosse realidade. E você sabe disso.

– Sei não, mulher! Sei não! Mas que foi esquisito, lá isso foi. Mas vamos tocar a vida em frente como se nada tivesse acontecido. Quero esquecer.

E o dia rolou tranquilo, sem novidades, naquela casa simples, na pequena cidade interiorana.

Na segunda noite do ocorrido, lá vai Juquita, sob o manto da madrugada, até o quintal, para atender ao mesmo incômodo sentido na antevéspera. Tirou o cigarro, que acendeu com o velho isqueiro Ronson, puxou uma longa baforada e se pôs a examinar o firmamento estrelado. Por um instante acreditou ter visto uma estrela piscar mais fortemente, enquanto passava o olhar pela quadra do céu bem acima do Morro das Andorinhas, a se insinuar no horizonte escuro. E tornou a experimentar a sensação de ouvir vozes e ruídos estranhos.

Mal a mulher acordou, contou a ela o ocorrido. E ela não teve dúvidas:

– Vamos marcar uma consulta com o doutor Modesto, para saber o que está acontecendo.

O resultado da consulta, quatro dias depois, deu em nada. O otorrino nada encontrou a justificar os incômodos narrados pelo paciente. E o casal voltou para casa ainda mais desconcertado.

E uma terceira vez voltou a ocorrer o mesmo fenômeno com Juquita. Agora, um tanto receoso da sua condição, disse à mulher que a despertaria, quando se repetisse aquilo, para que ela fosse testemunha.

Na quarta vez, era véspera do Dia de São João, o céu abarrotado de estrelas, Juquita chamou a mulher, com um toque no ombro:

– Acorda, Zefa! Estou tendo aquela mesma sensação. Vou lá para o quintal.

E saiu, já levando o cigarro e seu isqueiro à mão, enquanto a mulher tentava arrumar os cabelos e vestir alguma coisa que a protegesse do sereno da madrugada.

Quando ela, por fim, passados talvez quatro, cinco minutos, chegou à soleira da porta, viu o marido entrando num objeto luminoso, que baixara uma rampa até perto da jaqueira do quintal. Ela, apavorada, ainda gritou pelo marido:

– Juquita!

E mais tempo não houve para nada. O objeto levantou voo, com um suave ruído de motor elétrico, erguendo do chão uma profusão de folhas caídas e subindo ao céu como um dardo de luz.

No chão, próximo à jaqueira, restou apenas o isqueiro antigo, presente que a Zefa lhe dera pelo primeiro Dia dos Namorados que comemoram juntos, dezenas de anos atrás.

Dias depois, Zefa foi levada pelos filhos para tratamento em uma clínica psiquiátrica. E do Juquita nunca mais se teve notícia.

Imagem colhida na Internet.

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