O TORCEDOR

O cara acorda no futuro, tempos após entrar em estado de coma, num hospital particular da zona sul da capital.

Ao recobrar a consciência vê uma mulher já com pés-de-galinha a contornar os olhos, alguns cabelos brancos e o rosto de bochechas negativas, ao lado da cama, e pergunta pela esposa:

– Cadê a Zoraide?

Surpresa com o fato, a mulher responde:

– Querido, sou eu, a Zoraide! Que bom que você acordou!

– Zoraide?! É vocês mesma?! – se espanta o homem diante da mulher mais velha que ali está, mas cujas feições não lhe eram estranhas.

A Zoraide não tinha cabelos brancos, nem pés-de-galinha, nem bochechas cavadas. Quando se deu o problema, era ainda uma mulher jovial, com os hormônios a funcionarem visivelmente em seu corpo bem-feito, em suas feições bem talhadas.

– Quanto tempo fiquei aqui, dormindo, inconsciente? Fale devagar para eu não tomar susto? Tem um espelho aí, para que eu me veja? E aquele jogo do Vasco contra o Flamengo pelo Campeonato Carioca, que ganhávamos por três a zero, como terminou?

– Calma, Frederico! Vamos por partes, senão é capaz de você voltar ao coma novamente.

– Então, mulher, me diga aí!

– Em primeiro lugar, o jogo terminou três a um para o Vasco. Embora alguns torcedores do Flamengo esperassem uma virada já aos quarenta e sete minutos do segundo tempo.

– Eles são incorrigíveis. E fomos campeões cariocas?

– Calma. Depois te falo isso.

O piripaque que o levou ao hospital fora exatamente no terceiro gol do seu time contra o Flamengo, na mais improvável das projeções de todos os especialistas em futebol. Quando o atacante deu o drible no lateral esquerdo adversário, deixando-o desmoralizado no gramado, e chutou no canto do goleiro, ele não viu mais nada e teve de ser rebocado para o hospital, às pressas, porque não atinava com mais nada.

Por isso que sua grande preocupação, no momento em que recobrava a consciência, era justamente o resultado do jogo.

– Vou pegar um espelho para você se ver.

Zoraide trouxe o espelhinho que carregava na bolsa e lhe permitia dar um tapa no visual, como se diz comumente, durante todo o tempo que passava no hospital. Pelo menos duas vezes por semana, vinha sentar-se ao lado da cama onde seu marido se mantinha sob a parafernália médica que o conservava vivo, embora inconsciente. E não percebeu que, aos poucos, foi perdendo o restinho de viço que ainda portava.

Frederico se olhou no espelho que a mulher lhe estendeu e não gostou do que viu.

– Esse sou eu?!

– Exatamente, sem tirar, nem pôr.

– Como sem tirar, nem pôr?! Você vê o que eu estou vendo?

– Sim! Exatamente! Espelhos não mentem jamais. Lembra do espelho da Rainha Má da Branca de Neve?

– Que isso, mulher? Estou falando sério! Esse que vi parece meu irmão mais velho e não eu.

– Pois então. Você ficou a cara dele.

– Mas ele é mais velho do que eu quatro anos! Quanto tempo estou aqui neste hospital? Isso é um hospital, não é mesmo?

– Claro que é um hospital! E você está aqui há praticamente quatro anos. Ou pensa que eu passei maquiagem, pintei os cabelos ou fiz bichectomia? São quatro anos de sofrimento, em que venho aqui duas vezes por semana, sento-me ao seu lado, pego um livro para ler, futuco o celular para ver as redes sociais, rezo meu terço, enquanto aguardo você voltar, ou… Sei lá! – e não deu vida àquele pensamento funesto.

– Eu perdi quatro anos da minha vida inconsciente, Zoraide? É isso que você me diz?

– Frederico, veja pelo lado positivo: você ganhou quatro anos de vida. Agora está aqui de volta, conversando comigo de um jeito inesperado e surpreendente. Aquele terceiro gol do Vasco, em abril de dois mil e vinte e um, poderia ter sido seu atestado de óbito. E você ainda reclama?!

Neste ínterim, chega o médico de plantão a fazer a inspeção dos pacientes internados. Dirige-se ao leito de Frederico e se surpreende com sua saída do coma.

– Dona Zoraide, há quanto tempo seu marido recuperou a consciência?

– Há uns três ou quatro minutos, doutor.

– E por que a senhora não nos comunicou imediatamente? Estávamos no instante da troca de plantão.

– É que ele já acordou cheio de perguntas, de questões, e fiquei aqui envolvida com ele. Desculpe.

– Sem problemas, dona Zoraide. Melhor assim, já que não houve nenhuma intercorrência.

O médico pediu licença à mulher, pois iria fazer uma série de avaliações, para entender o atual estado do paciente. Durante quatro anos, ele tinha estado naquele mesmo lugar, conferindo todos os índices dos aparelhos, avaliando o estado geral de Frederico e, justamente agora, queria saber se a volta era definitiva, ou apenas um rebate falso, preparativo para um desenlace fatídico.

Ao final dos exames, chama Zoraide de volta e comunica que, surpreendentemente, seu marido estava muito bem, que talvez até pudesse ter alta, com as recomendações de acompanhamento fisioterápico doméstico e uma batelada de medicamentos, para uma completa recuperação.

Dois dias depois, a ambulância do hospital leva Frederico para casa, toda preparada para recebê-lo. Os enfermeiros o levam em cadeira de rodas até o apartamento, acomodam-no numa poltrona confortável da sala e se despedem, desejando boa recuperação.

Frederico se sentia confortável e feliz. Pede à mulher meio copo de água fresca e que ela procure na smarttv de última geração, comprada durante sua estada no hospital, o vídeo da partida entre Vasco e o Flamengo. Aquela mesma! Queria rever tudo, sobretudo os minutos finais. A mulher ainda ponderou que não seria aconselhável, já que fora exatamente o jogo que o metera naquela enrascada.

– Que nada, Zoraide! Eu agora já sei o resultado da partida. Não há mais o fator surpresa, a emoção, a adrenalina desenfreada.

Zoraide procurou, procurou, até que achou. Pôs a rodar o vídeo e foi para a cozinha providenciar o almoço. De lá, ouvia a narração do jogo e os palpites do Frederico, sua vibração a cada gol, a cada lance bonito do seu time.

– Está tudo bem aí, Frederico? – perguntava de vez em quando, como a monitorar o marido.

– Tudo bem! Sem problemas! Só me divertindo novamente.

E continuava ela a refogar o arroz, a temperar o feijão, a preparar a sopa para o marido.

Então se aproximava o instante em que o Vasco faria o terceiro gol. Do grande círculo de jogo, o jogador vascaíno vê o colega na intermediária ofensiva, calibra o passe e lança a bola do lado esquerdo do companheiro, que parte na corrida. O último homem do adversário é justamente seu lateral esquerdo, com passagem no estrangeiro e na Seleção, que parte junto do vascaíno, a tentar barrar sua progressão em direção à grande área. Exatamente sobre a linha da grande área, o vascaíno trava a bola e a corrida, enquanto o flamenguista se esborracha no gramado. O vascaíno escolhe o canto e mete a bola no gol, com tal perícia, que ao goleiro rubro-negro, sobre a linha da pequena área, resta apenas, desolado, vê-la morrer no fundo das redes.

Neste instante, o coração de Frederico parou. E agora definitivamente.

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Imagem colhida na Internet.

4 comentários sobre “O TORCEDOR

  1. Carlos Jose Figueiredo

    SAUDAÇÕES VASCAINAS!!!! SEM FANATISMO, QUE NÃO SOU BESTA!, ATÉ PORQUÊ INFARTEI EM 2012, MAS, FOI DENTRO DE UM ÔNIBUS , DE MANHÃ, SEM RADINHO NEM NADA.

    1. Saint-Clair Mello

      Segure esse coração vascaíno aí, Carlos José! Ainda haverá muitos repuxos a aguentar. Saudações!

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