LUDWIG MEU BEETHOVEN

Hoje meu sogro Beethoven faria 105 anos. Faleceu aos 96, no mesmo dia em que o Francisco, seu bisneto, nasceu: 19 de outubro de 2012.
Meu filho Pedro Neiva de Mello escreveu o texto a seguir em sua homenagem.
Com certeza, seu Beethoven merece.

“[Ludwig Meu Beethoven]

Pediu um copo d’água à empregada, estava com sede. Bebeu, deitou-se e descansou. Para sempre.

Foi assim que meu avô saiu de cena há alguns anos. É assim que contamos como foram os seus últimos minutos, para nos confortar de que ele teve uma morte tranquila. Palhaçada! Seu Beethoven Neiva teve, foi, uma vida fantástica, ou fez dela memorável. A morte foi somente a cena final de sua epopeia.

Um homem e vários nomes. Beethoven você já sabe. Lhe foi dado para ser uma homenagem viva ao gênio da música. Além deste chamava-se Betove, Bertoza. Até Bethovem O´Neida, como vi grafado num convite de casamento entregue em sua casa em Miracema. Nunca se importou em ser chamado por todos estes nomes e acho que os adotou com o mesmo sorriso no rosto que levou a vida. O vô tinha preocupações mundanas, como a temperatura da Skol que deveria passar 24hs na geladeira antes de ser servida. Mas jamais com a pronúncia de seu nome. Até porque do Ludwig de Viena ele só compartilhava a surdez.

Dos meus grandes prazeres da vida de menino era ser convidado pra “ir ali na rua” com ele. Como não morávamos na mesma cidade, nos víamos nas férias e, logo, toda vez que me encontrava eu estava maior e, para ele, mais bonito e inteligente. Mais gordo também. Vovô era fitness e sempre implicou com as minhas curvas. Bom…voltemos para rua. Dava-me a mão ou me colocava na garupa da sua mobilete e saíamos em direção à Rua Direita. Por lá me mostrava aos amigos donos de bar, farmácia, ao povo na rua. Exibia-me como um troféu genealógico e esperava dos amigos um elogio. Caso este não viesse, ele mesmo o fazia “Meu neto mais velho, esse rapaz bonito”. Aquilo me dava um orgulho danado, apesar de um constrangimento natural pelo ato de ser vitrine.

Como tinha muitos amigos, o passeio era demorado. Vez ou outra me dava um salgadinho para retardar a visita na venda e dar mais tempo de um ou outro compadre carregar nos elogios. “Bertoza, esse filho da Jane parece o Jorge.” – falavam os amigos do bar. “Bertoza” sempre vinha de vozes ébrias e roucas por conta da lida com a “marvada”. Era a turma do bar. “Betove, esse menino já tá deste tamanho?” – era a dúvida das amigas da minha avó que encontrávamos nas calçadas. “Betove” era o jeito doce pelo qual lhe chamavam.

Concluído o passeio, chegava em casa com a certeza de que meu avô era uma estrela do passeio público. Benquisto, simpático e, principalmente, orgulhoso de eu ser seu neto, apesar de roliço. Um galã da terceira idade de um saudoso interior fluminense dos meus tempos de menino.

Hoje celebramos seus 105 anos. Cheios de histórias e memórias marcantes de sua epopeia. Por mais legal que ele tenha sido como avô, e sei, como pai, acho que seu melhor papel deu-se sendo “Bertoza” ou “Betove”. Sendo o protagonista das histórias das ruas de sua cidade.

Dane-se a morte pra quem foi um popstar! Viva a vida do meu vô!”

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