O CÃO COM TOSSE

 

Daqui de cima
Ouço um cachorro tossindo tosse de cachorro
Pelo que ouço
É um cachorro novo
Que tosse como se fosse um velho cão cheio de gogo
Daquele mesmo gogo  que pega velhas galinhas no choco
Esse cachorro, seu moço!
Precisa de um veterinário urgente
Ou acabará morto!

 

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FANTASMAS

Esta também me foi contada por meu sobrinho Bruno, médico num hospital em Muriaé.

Como ocorre, morrem pacientes em hospitais, que não conseguem salvar a vida de todos que deles se socorrem. Ora, se há mortos, há almas, espíritos, ectoplasmas, fantasmas a rondar esses lugares de sua última morada na Terra. Assim creem muitas pessoas. Então, lá no hospital onde ele trabalha, há notícias de fantasmas de antigos pacientes apegados àqueles locais, como referem alguns funcionários. E nisso acredita piamente o Genival, auxiliar de enfermagem encarregado de cuidar dos pacientes que morrem.

Genival, com seus quarenta e poucos anos, é uma pessoa simples, que mora numa espécie de chácara, um pouco afastada da área urbana. Profissional eficiente a executar sem assombro sua função de tanatopraxista, tem, no entanto, verdadeiro pavor de ir até o necrotério da instituição. Prepara os corpos tranquilamente, mas pede com veemência que não seja obrigado a conduzir o cadáver até as gavetas daquele espaço sombrio. Alguém que faça aquilo por ele!

Certo dia, contudo, como não houvesse colega a fazer o traslado do corpo, foi ele obrigado a levar os restos mortais até o local. Apreensivo, foi empurrando a maca com o de cujus inerte, de canelas espichadas, como  sói acontecer. Chegou lá com os olhos semicerrados, a fim de não ver o que teme, abriu a gaveta e lá depositou o morto, tão rapidamente quanto possível.

Ao virar as costas e tomar o corredor de volta, viu vindo em sua direção o morto, a caminhar em passos lentos, mas firmes. Sem mais essa ou aquela, sofreu uma tontura tão vertiginosa, um escurecimento das vistas, o mundo a rodopiar à sua volta, que teve de se agarrar à parede como uma lagartixa, antes que desabasse no chão quase imaculado do nosocômio. O “morto “, pressuroso, ainda o ajudou a se levantar e disse a ele, à medida que Genival se refazia do susto com a aparição:

– Escorregou?  Bom dia! Eu sou irmão gêmeo do morto e vim aqui providenciar o enterro dele.

Por um triz, quase que Genival também vira fantasma!

 

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Imagem em es.vexels.com.

MARIA ANDARILHA

(Para Maria, minha netinha.)

Um dia
Maria acordou andarilha
Andou da porta do quarto
Por uma trêmula trilha
Dos braços do seu irmão
– O Bruno então sorria
Ao ver o risco no chão
Tão invisível se via –
Até onde os olhos davam
O que fez a Gabriela
Que de tudo desconfia
Achar que a irmã mais nova
Não conseguisse a magia
De andar por suas pernas
Tão pequenina inda é ela
Mas a miúda Maria
Ciosa do que queria
Andou dos braços do Bruno
Até a porta da cozinha!
E foi a primeira vez
Que tal fato acontecia.
Agora anda por pátios
Playgrounds e companhia
Pisando passadas firmes
Enquanto o vento assovia
Nos seus cabelos penteados
Como maria-chiquinha.

 

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Diego Velázquez, As meninas, 1656; Museu do Prado, Madri.

LOST WORLD (MUNDO PERDIDO)

O título desta crônica está em inglês, porque o assunto vem dos Estados Unidos, e eu quero mostrar que também sei um pouco da língua do Pato Donald.

Li, com um misto de estarrecimento e bacon, a notícia de que uma jovem prostituta americana, de carinha cândida (Pelo menos, é o que pude sentir por sua foto na matéria.), de apenas vinte e um anos, deu dois tiros na cabeça do seu cliente, sob a alegação de que ele não sabia fazer o famoso cunilingus.

O infausto cliente, que ainda teve a sua carteira roubada pela jovem, após se safar de ir para a cidade dos pés juntos, estava um tanto aéreo, sem saber o que de fato lhe tinha acontecido.

Presa, a mocinha explicou ao xerife que atirou apenas porque não sabia como dizer ao homem que ele estava fazendo tudo errado.

Imagine se, sempre que alguém não souber dizer ao outro aquilo que deseja, resolva despejar sobre o interlocutor uma saraivada de balas? É uma coisa de doido!

Acho bastante factível que seja possível errar o alvo nesses momentos. A pessoa fica excitada, nervosa, e a pontaria nunca sai perfeita. O homem, e não a mulher, lógico! Mas o amigo leitor há de convir que é estranho que uma prostituta fique chateada com o equívoco. A não ser que ela quisesse, de fato, praticar o ato com todas as suas consequências gozosas, prazerosas e, por que não dizer, libidinosas. Pelo que se sabe, o serviço é sem emoção. Mais ou menos como um funcionário público metendo o carimbo num requerimento qualquer.

No entanto, sem conhecer a tabelinha orgânica da moça, fico a imaginar que ela estivesse na tal fase da TPM. É que há algumas mulheres que, no auge da crise, são capazes de dar tiro a esmo, até por motivos de somenos importância. E o infeliz do cliente contratou o serviço da jovem justamente durante o clímax desse incômodo e quase pagou com a vida por um pequeno erro de cálculo. Ou de execução!

Por isso é que aproveito também para alertar os possíveis viajantes àquele país que o nome da moça é Marissa Wallen e presta seus serviços na cidade de Washington. Acho que até bem próximo à Casa Branca. Ou White House, na língua de Donald Duck e Donald Trump.

Este mundo está mesmo perdido!

Take it easy, man!

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Imagem em dreamstime.com.

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PS: Se quiser ver a notícia, clique aqui.

MIRACEMA DE SABORES

Jane e eu voltamos a Miracema neste último feriadão. Depois de alguns meses, estava contando em voltar ao bar do Marquinhos para me deliciar com a arte da cozinha trivial da esposa dele, dona Eliane. Inclusive preparei meu espírito, que sempre orienta o paladar, para o jiló recheado e a joelho de porco. Era sexta-feira, o dia em que tais iguarias entram no exíguo cardápio do pequeno botequim. O restante do paladar, esquentado por pinga e pimenta, fica por conta da conversa fiada tradicional que esse tipo de ambiente propicia. Fiquei só na saudade. Ao encontrar uma amiga, companheira certa dessas libações, ela me disse que o casal proprietário estava de férias, portanto o estabelecimento estava fechado. Pensei até em enfiar sob a porta de aço um recado malcriado, manifestando minha frustração. Melhor, não!

Pois não é que outra amiga a quem falei do fato me disse que havia um outro bar muito bom, com serviço atencioso e comida de primeira qualidade.

Aqui devo fazer um parágrafo. Quando digo comida de primeira qualidade estou a dizer da comida tradicional do interior, sem sofisticação, sem modismos, mas feita com carinho e competência, o que eleva seu sabor ao máximo.

À noite do dia seguinte fomos ao tal bar, LC Hamburgueria e Cia., numa rua perpendicular à Rua da Laje. O lugar é pequeno, limpo, com as paredes decoradas por fotos bem feitas de alguns pratos preparados pelas mãos habilidosas da proprietária, Lúcia.

Éramos quatro: as duas amigas miracemenses Aparecida e Branca, Jane e eu. Enquanto examinávamos o cardápio, pedimos a cerveja, que veio no ponto exato do gelo, sem exageros. Depois de alguma hesitação entre a variedade de ofertas, optamos por meia porção de língua recheada. E ficamos bebendo e conversando, contando causos e rindo de histórias mirabolantes que uma e outra referiam. Até que veio o petisco. Estou para dizer aos amigos leitores que jamais, em tempo algum, comi uma língua com tal paladar. Nem mesmo a que Haroldinho oferecia em seu bar, lá pelos anos 90 em Bom Jesus do Itabapoana, uma maravilha ao paladar, se igualava a esta que comemos no bar da Lúcia. Mergulhadas num molho à base de tomate, com finas fatias de cebola roxa crua e temperos verdes, os nacos de língua estavam tenros, no ponto certo, na consistência exata e com um paladar excepcional. Era só colocá-los na torrada que acompanha o prato, acrescentar uma ou duas gotas de pimenta malagueta e sentir a boca ser invadida por um sabor inesquecível.

Aparecida, amiga da Lúcia, ainda pediu que ela viesse até nós, para que pudéssemos agradecer aquela experiência marcante.

Miracema tem dessas coisas: a simplicidade elevada ao seu mais alto grau de prazer.

 

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Obelix e Asterix, criação de Goscinny e Uderzo (em mojtv.net).

TÍMIDA PRIMAVERA

Ainda é timida a primavera. Pelo menos, é o que pude constatar em Itaipava neste último fim de semana. Ficamos hospedados numa pousada a cerca de seis quilômetros da vila, em lugar de conforto visual e contato com a natureza, e tive esperança de que que teria a primavera a nos inundar. Mas estamos nos trópicos, apesar da altitude do distrito de Petrópolis, e as flores esperadas ainda são muito poucas, quase nada. Mesmo assim, me municiei da câmara fotográfica e saí a cata de alguns exemplares. Vi até jacus no espaço entre árvores frondosas. Embora eu seja de pequena vila do interior, só sei de algumas dessas aves por ouvir falar. Meu pai sempre se referia a diversas delas, mas me dizia que estavam sumidas, em virtude de excesso de caça. A política de preservação tem feito um grande bem à nossa fauna. Em setenta anos de vida, foi a primeira vez que vi jacus. Francisco, com quatro, já teve esta oportunidade.

Aí estão alguns registros da primavera na Serra Imperial de Petrópolis.

  

CERTOS PREGÕES

Meu netinho é encantado com o pregão da caminhonete que passa pelas ruas do bairro à cata de velharias:

– Panela velha, máquina de lavar velha, geladeira velha!

A emissão que se espalha no ar vem metalizada pela baixa qualidade do sistema de som do carro. Talvez seja isso o mais interessante para ele. A voz do locutor sai espremida, rascante, metálica:

– Ventilador velho, liquidificador velho, geladeira velha!

Certo dia, rindo, ele emendou:

– Vovô velho!

Mas ficou chateado quando eu disse “Francisco velho!”.

Os pregões são formas orais tradicionais usadas por ambulantes para anunciar a mercadoria à venda. Vem desde que o homem saiu com os produtos de sua colheita ao encontro de possíveis compradores, pelas ruas das vilas e das cidades. Era preciso anunciar.

No caso específico da caminhonete do ferro-velho, o que se anuncia é o que se compra, diferentemente dos pregões tradicionais.

Normalmente os pregões se resumem a enunciar o nome da mercadoria ou do seu vendedor:

– Olha a banana! Olha o bananeiro!

– Olha o peixeiro!

– Olha a laranja! Olha o laranjeiro!

Um ou outro tinham formas mais elaboradas, como versinhos rústicos, como do vendedor de pirulitos:

– Olha o pirulito americano: bota na boca e sai “chupano”!

Uns usavam o humor para chamar a atenção:

– Moça bonita não paga. Mas também não leva!

Escuto pregões desde que me entendo por gente. Lá na minha Carabuçu natal eles existiam. Eu mesmo já os produzi, em moleque. Saía à venda das laranjas da minha avó. Confesso, no entanto, que tinha certa vergonha de sair gritando pelas ruas miúdas da vila.

Quando cheguei a Niterói, em 1967, deparei com o centro da cidade coalhada de camelôs, uns mais histriônicos que outros, mas todos com seus pregões reconhecidos, à cata de clientes.

Havia um que sempre se postava na esquina da Avenida Amaral Peixoto com a Rua Visconde do Uruguai e anunciava, com sua voz espremida e ligeiramente gutural, um pregão bem diferente, só decodificado ao se ver o ele que vendia:

– Quem tem criança na escola! Quem tem criança na escola!

O /s/ de escola saía bastante chiado, como é comum ao carioca. Assim era a forma de tentar vender seus cadernos.

Outro, que vendia traquitanas para a cozinha, nas imediações, dizia uma frase também bem estranha, enquanto manipulava o objeto:

– Não resta prática, nem tampouco habilidade!

E eu ficava intrigado com aquele verbo restar na frase. Até que meu amigo Valter Bretas esclareceu que o camelô deveria querer dizer “não requer prática”. Era realmente isso: o treco era de fácil manejo.

Tempos depois tive minha atenção despertada pelos camelôs de La Paz, na Bolívia. Observei que seus pregões tinham uma estrutura fixa, na maior parte das vezes: o nome da mercadoria era enunciado duas vez na forma normal e uma terceira vez, na forma diminutiva.

– Pañuelos! Pañuelos! Pañuelitos!

– Chompas! Chompas! Chompitas!

– Ponchos! Ponchos! Ponchitos!

Ainda que o terceiro termo não estivesse no diminutivo, a forma tríplice era uma constante:

– Chicha blanca! Chica blanca! Chicha blanca!

Outro camelô, este já no Rio de Janeiro, no calçadão da Rua São José, lá pelos anos 70/80, era uma figura e tanto. Estava sempre de paletó e gravata, óculos escuros, cabelos cortados rentes. Vendia baralhos, que expunha sobre sua pequena banca, e pomada japonesa, que ficava escondida sob ela. Os baralhos eram anunciados aos brados; a pomada japonesa, contudo, era apregoada em um tom bem baixo.

– BARALHOS DE NYLON! BARALHOS DE PLÁSTICO! Pomada japonesa!

Cada um encontra o tom certo, o ritmo adequado, a fórmula capaz de encantar o possível comprador. Outros, contudo, por certas limitações, acabam criando quase um pânico nos ouvintes. Era o caso do Zé do Ovo, já citado aqui em outra postagem.

Zé do Ovo era um pobre coitado, deserdado da vida e do juízo perfeito, que minha sogra como que adotou ainda adolescente. Por vezes ele passava uma temporada em sua casa e era tratado com um filho a mais. Mas sempre apresentou algum transtorno e era tido como meio lelé da cuca. Quando eu o conheci, ele já era um homem feito e sempre estava por lá. Em alguns momentos, colhia folhas de couve da horta da dona Judith, colocava numa cesta e saía a apregoar pelas ruas de Miracema:

– Olha o “coveiro”! Olha o “coveiro”!

Mas, normalmente, voltava para casa todo feliz, com seu sorriso banguela, a cesta vazia e o dinheirinho miúdo no bolso.

Imagem relacionada

Jean Baptiste Debret, Negras quitandeiras, séc. 19 (em pinterest.com).