ABRIL E MAIO

Abril gania seus dentes de alabastro
Sobre os estertores de março
Rugiu por sobre serras e montes
Aguaceiros infindáveis
Blasfemos trovões
Mas da lama que deixou nos baixios
Surgiram as luzes de maio

 

         Copacabana (foto do autor).

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GOL DE PORCO

O campo do Fluminensinho margeava bem junto do Rio Itabapoana, do lado do Estado do Rio, próximo à charqueada.

Era meramente um espaço demarcado num gramado um pouco mais amplo, decorado com duas balizas de madeira simples e escassa marcação das linhas regulares dos gramados oficiais. E tinha dimensões acanhadas para os padrões atuais.

O Fluminensinho mesmo não fazia parte da chamada elite do futebol bonjesuense e disputava seus esporádicos jogos, quase sem plateia, lá uma vez e outra. Torcida mesmo, acho que também não tinha. Assim como sede, ou uniforme completo. Seus jogadores não jogavam em nenhum dos dois clubes importantes das duas Bom Jesus, o Olímpico, do lado fluminense, e o Ordem e Progresso, do lado capixaba. E seus abnegados atletas de ocasião se cotizavam sempre que surgia despesa com bola, rede, cal, pinga, carne para churrasco e cerveja.

No entanto o Fluminensinho disputava partidas, com todas as consequências inerentes a este antigo e viril esporte bretão.

Num desses jogos, contra um certo time Tupi, de plagas adjacentes a Bom Jesus, a disputa seguia ferrenha, mas sem que nenhuma das equipes tivesse ainda furado as redes do adversário. No Fluminensinho, dois jogadores se destacavam. Nem tanto por suas habilidades com a redonda, mas antes por sua compleição física, digamos, um tanto avantajada.

Um era o Absoluto, negro alto, dobrado da cintura para cima, que trabalhava como carregador e descarregador de caminhões, para o comércio local. Dizia sua mitologia da época que ele era capaz de transportar quatro sacos de sessenta quilos de uma só vez: um na cabeça, um sob cada braço e o quarto nos dentes. Tirante isso, era um homem cordial, de muito bom humor e prestativo para quem dele necessitasse. Também com aquela massa muscular, não havia ninguém que tirasse farinha com ele!

O outro era o Nivaldo. Mulato também dobrado, entregador de banda de boi do matadouro da cidade, a qual ele carregava nas costas com uma facilidade tão grande, que parecia transportar fardo de algodão. Nivaldo tinha um bigodinho estreito a fazer comichão na platibanda do beiço, o que lhe dava aspecto de cantor de boleros e sambas-canções na guaxa localizada um pouco mais acima do mesmo rio. Mas também ninguém tinha coragem de dizer isso em público ou em privado.

Os dois, Absoluto e Nivaldo, compunham a dupla de ataque do Fluminensinho, de modo que todo e qualquer adversário já entrava em campo com metade da razão perdida, na discussão de possíveis erros e acertos de arbitragem. Mas eles não entravam para brigar, e sim para jogar sua bolinha descompromissada dos fins de semana.

Pois ia lá o jogo empatado até quase o final da partida, quando um meio-campista lança a bola na direita, para a entrada em profundidade do Absoluto, que disparou no espaço aberto. Quando ele lá chegou, em sincronia com a pelota, inadvertidamente adentrou o gramado do Fluminensinho distraído leitão, proveniente dos lados da charqueada, fugindo da corrida de um cachorro vira-lata. O pobrezinho coitado, na inocência dos seus seis quilos e pouco, entrou no ângulo da linha da bola e do pé do Absoluto, naquela confluência em que, se atingida, dela não se escapa, e foi pego no vazio pelo pontapé potente do atacante tricolor. E voou ele, na mesma curva que faria a redonda se lá estivesse, em direção à área, para onde, também como um corisco, se precipitava Nivaldo e toda a sua pessoa dobrada. Nivaldo chegou no exato instante de meter a cabeça no mamífero artiodáctilo doméstico, da família dos Suídeos, e mandá-lo ao fundo das redes e assim assinalar o primeiro e único gol suíno de que tenho notícia, em setenta e poucos anos de causos e histórias.

E o Fluminensinho venceu mais uma emocionante contenda. Só o artilheiro não conseguiu ir até o fundo das redes pegar a bola e beijá-la, porque àquela altura o porquinho fugia grunhindo, em desabalada carreira na direção do vira-lata.

    Imagem obtida na Internet.

CERTOS TIOS

Meu conterrâneo real e amigo virtual Jonatas Nascimento confessa em público pelo Facebook que lá pelos seus verdes anos, quando ainda morava em nossa vilazinha natal, era vizinho de um certo Tijorge, que era a forma como se diz comumente aquilo que seria Tio Jorge, com a aglutinação do título ao nome. Só mais tarde, ainda segundo ele, descobriu que o tal vizinho não era tio, o que, no entanto, sofreu uma reviravolta porque, aí bem mais tarde, soube que aquele Jorge que havia sido e deixado de ser tio era, na verdade, tio por afinidade, por ser casado com uma irmã de sua avó. Na vila, dizia-se, nesses casos, tio emprestado. Então justificava-se o Tijorge, como ele fora inicialmente chamado.

E isto é interessante observar, pois na Carabuçu da minha infância (Com certeza, sou um pouco mais velho que o Jonatas!), não havia o hábito de se chamar tio/tia às pessoas mais velhas. Tal denominação era restrita àqueles que, por consanguinidade ou por afinidade, fossem “realmente” tios/tias. Às demais pessoas, as crianças chamavam de Seu Fulano e Dona Cicrana: Seu Valdemar e Dona Tana, por exemplo, nossos vizinhos de frente.

Também ocorria não tratarmos por tio alguns tios reais, pela pouca diferença etária para nós, como no meu caso os tios Paulo, Louro e José Catarina, o Cate. Eles mesmos dispensaram os sobrinhos de assim se dirigirem a eles, inclusive com a solicitação de bênção, tão comum à época:

– Bença, tio! Bença, tia!

O mesmo ocorria com minha mãe. Dos diversos irmãos de sua mãe, apenas o mais velho merecia tal tratamento, talvez pela mesma razão como acontecia comigo: o João, que ela e os demais chamávamos de TitiJoão, era seu tio mais velho. Os demais ela os tratava apenas pelo nome ou o apelido: Raul, Carlito, Cícero, Tônio, Chiquito e Tieca.

Relativamente a este último, meu tio-avô Tieca, que dizíamos Titieca, certa vez ocorreu um fato interessante. O vigário da paróquia de Bom Jesus do Itabapoana, Padre Francisco Apoliano, que, uma vez por mês, atendia à capela da vila, precisava da autorização do meu tio, cuja casa era vizinha ao pequeno templo, para a instalação de um novo e mais poderoso sino, justamente situado na divisa com seu quintal. Para facilitar as coisas, foi falar com nossa prima Juracy, que sabia ser sobrinha dele, para que falasse com o “Sr. Eca” sobre o assunto. Juracy sorriu e explicou para ele que o nome, ou antes, o apelido do tio era Tieca, e não Eca. O padre então disse que ele não era seu tio e achou muita graça com a confusão, pois imaginava que, quando a ele se referia, já se fizesse a aglutinação de tio a Eca, como era comum ao nosso jeito de falar.

Tal também era a percepção que Jonatas tinha do nome do meu tio-avô, como disse na sequência do diálogo que mantivemos, por esses dias, pela página do Facebook.

Por isso é que Jonatas, quando criança, alimentasse a esperança de, no dia em que fosse ao Rio de Janeiro, encontrar por lá um certo parente seu a que sempre em sua casa se faziam menções: Tijuca. Talvez até mesmo irmão do Tijorge. Sabe-se lá!

Imagem relacionada

Imagem em venturesquare.net.

SOMBRAS

Ontem, um pouco depois das dezessete horas, ao chegar à varanda, vi que, no prédio próximo ao meu, dois homens estavam no terraço observando alguma coisa. A sua imagem em contraluz me instigou a registrar a cena. Aí vão as fotos.

DO LEITE E SUAS CONSEQUÊNCIAS: O PUDIM

O leite, malgrado ser um dos alimentos mais completos, sobretudo se for o materno em relação ao filho, é muito mal falado. Dizem misérias dele pelo tanto de complicações que algumas pessoas sentem ao ingeri-lo. Cheguei mesmo a ouvir de certo médico, no programa Sem Censura, da TV Brasil, há algum tempo, que o ser humano adulto não deveria beber leite. Mesmo sem ser especialista, achei uma estupidez o que ele disse. A seguir tal raciocínio, o ser humano não deveria beber cerveja, vinho, cachaça, conhaque, vodca, tequila, pisco, suco engarrafado, água mineral gasosa, dentre outras coisas que ingerimos, vida afora.

Li que cientistas e pesquisadores tinham chegado à conclusão de que a ingestão de leite por povos africanos ancestrais, que domesticaram o gado bovino, é o que tinha promovido a proliferação de seres humanos no planeta. A ingesta de leite os tornou mais fecundos.

Os tais cientistas e pesquisadores chegaram a estabelecer, após pesquisa exaustiva, o grau de tolerância ao leite em diversos povos e chegou à constatação de que os suecos, que guardam o mesmo DNA ancestral africano, são os mais tolerantes: quase a totalidade da população ingere o alimento ou produtos que o tenham em sua composição, sem qualquer espécie de estranhamento orgânico.

Contudo sabemos que a natureza dispara nos mamíferos, após determinado período inicial de suas vidas, um dispositivo para que eles deixem de tomar leite. Isso é compreensível, já que promove o desmame de um filhote, em benefício  do próximo a nascer. Caso contrário, a perpetuação da espécie seria comprometida pelo agarramento às tetas maternas, sempre tão generosas, como se pode constatar.

Ora, ao chegar ao desmame, o organismo do mamífero informa que ele não aceita mais leite. Daí a tal intolerância ou mesmo a alergia à lactose que ocorre em seres humanos.

Entretanto, na história da formação e expansão do gênero humano sobre a face do planeta, os referidos estudos indicam que os povos que haviam domesticado o gado redescobriram que o leite era uma excelente fonte alimentar e, aos trancos e barrancos, com o passar do tempo, forçaram o organismo a aceitá-lo novamente. Isso levou tais tribos a uma capacidade reprodutiva maior que as tribos que não tinham o leite como alimento. E acabaram se espalhando pela Terra, a partir da Mãe África. Certamente desses povos descendem os europeus e, consequentemente, alguns de nós, senão todos, aqui abaixo do Equador.

A expansão para terras cada vez mais ao norte foi provocando o clareamento da pele, a fim de que os raios solares, mais brandos no Setentrião, pudessem fixar a vitamina D necessária ao organismo humano. Aí a razão dos nórdicos branquinhos, em contraste com seus antigos irmãos de pele tisnada, cheia de melanina

Pode-se pensar, então, que o fato de tolerar ou não o consumo de leite divide os seres humanos em mais modernos e mais primitivos. Eu, por exemplo, sou moderno. Meu netinho Francisco, de cinco anos, é mais primitivo, porque tem intolerância à lactose. E, por isso, se priva de um sem-número de produtos feitos à base de leite. Como os maravilhosos queijos! Imaginem mineiros, franceses e holandeses impedidos de comerem seus queijos extraordinários!

No entanto a ciência já conseguiu produzir um remédio que, ingerido antes, permite que, nas duas horas seguintes, os intolerantes ao leite possam apreciar a vasta gama de produtos que o contenham. É o que se deu com o Francisco nesses últimos dias. Sua mãe, em viagem à Alemanha, encontrou lá o tal remédio e o trouxe. Ver o Francisco se deliciar com seu primeiro doce de leite pastoso foi de emocionar. Ele ficou numa alegria indescritível. E o que dizer do seu prazer em comer chocolate ao leite! Agora, sempre que há a possibilidade de se encontrar com um desses produtos com leite, o pequeno já pede que se lhe dê o remedinho milagroso.

Por uma dessas é que fico a imaginar a hipótese de a Ciência também desenvolver uma pílula que permita aos intolerantes ao açúcar, como eu, poderem voltar a sentir o paladar inenarrável de uma deliciosa fatia de pudim de leite, talvez a consequência mais avassaladora que esse tão mal falado líquido produza, em termos de confeitaria. E eu voltarei a experimentar a alegria que o Francisco teve ao se deliciar com seu primeiro doce de leite.

 

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Imagem em gshow.globo.com.

O DEFUNTO ENQUANTO VIVO

Agora, estirado ali, canelas espichadas, o jaquetão antigo de seis botões enfileirados aos pares, o ar desgostoso de ter morrido sem vontade, Genivaldo Pedroso não ostentava a vasta canalhice com que vivera a vida quase inteira. Salvava-se apenas a parte que antecedia à maioridade, aqueles primeiros anos em que a maioria de nós madorna numa quase inocência pueril, por ainda desavisado das armações que a vida proporciona.

Contudo, a partir da alforria da lei, passou a obrar no que de pior se possa esperar de um sujeito. Sujeito mesmo, assim com um tom pejorativo, porque de um cidadão se esperam melhores atitudes. Porém Genivaldo nunca cogitou em ser cidadão. Bastava-lhe a camada fina de lustre de gente apresentável. Cidadão era coisa que não estava no rol de suas cogitações. Procurava sempre levar vantagem em tudo que pudesse, ainda que, para isso, tivesse de passar por sobre possíveis pudores éticos.

Para início de suas atividades, ganhou de presente cargo de responsabilidade num banco estatal, por obra de um parente seu envolvido com política, e foi quase que de imediato guindado a uma chefia setorial. Em três anos de ataques, desviou mais de três milhões de reais da agência bancária, o que lhe rendeu um processo de demissão por justa causa.

A notícia não rendeu muito nas folhas, mas o preparou para seu grande passo: tentar também a vida pública, assim como seu parente benfeitor. Era o perfil ideal para a política nacional.

Inscreveu-se logo como membro do partido, no diretório regional do bairro, onde, muito celeremente, chegou ao cargo de secretário geral, amarrando alianças com nós pútridos. De vereador a deputado estadual, pulou, ainda por meio de tais alianças, ao cargo de secretário de estado, que lhe permitiu continuar na devastação do patrimônio público, sem o mínimo verniz de compostura.

Dali para o Congresso Nacional em Brasília, foi questão de saber distribuir a verba de campanha no momento exato, para as pessoas certas. E ganhou de bandeja uma vaga na Câmara dos Deputados.

Quanto mais galgava na carreira, mais incólume parecia sua máscara facial. Entretanto, por um deslize que julgava de menor importância, de que supostamente nunca seria acusado, seu belo nome entrou em cadeia nacional pela porta dos fundos.

E aí começaram suas desgraças.

Embora tudo negasse, reafirmasse sua mais casta inocência, chegando inclusive a chorar em rede de tevê aberta, precisou abrir mão do cargo, muito a contragosto, diga-se de passagem, para que pudesse “se defender das infames acusações de que era vítima”, conforme suas palavras.

Para piorar a situação, a polícia encontrou, numa casa em uma de suas múltiplas propriedades rurais, um quarto cheio de barras de ouro, de procedência duvidosa. E, embora suas impressões digitais estivessem gravadas em cada uma delas, disse que desconhecia a origem do tesouro, que alguém poderia tê-lo plantado ali para o incriminar, que há mais de um ano não ia a tal sítio, dentre outras esfarrapadas desculpas costumeiras.

Quando, enfim, recebeu, numa sexta-feira pela manhãzinha, a visita do camburão da polícia para o levar a depor, o coração lhe deu um coice peçonhento, que o fez bandear daqui para lá, desta para a melhor, para a cidade dos pés juntos, com sua papada de capado engordado a ração e sua hipotética inocência.

Agora, estirado ali, com o terno de vidro a moldar sua ex-pessoa, ou o que dela sobrava, aguardava o instante de ser enterrado sem barras de ouro, sem prestígio político, sem mais nada. A não ser todos os opróbios que amealhou existência afora, os quais eram repassados pelos presentes ao velório. Ninguém se lembrava de nenhum gesto altruísta que lhe pudesse aliviar as penas da condenação eterna. Repassavam apenas as falcatruas, as negociatas, as propinas, as mamatas, os jeitinhos, os desvios, com que moldou sua vida. E somente os mais chegados por laços de sangue pediam aos céus que seu sofrimento fosse abreviado, tão logo aquela alma putrefata adentrasse os confins do Coisa Ruim.

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Charge de Erasmo (em newsrondonia.com.br).

EPITÁFIO

Neste instante
Diante da encruzilhada em que me vejo
Há em mim um misto de presunto e queijo.
Não sei se vou ou volto
Não sei se beijo
Não sei se escarro nesta mão que me apedreja
Não sei se expulso essa pulsão medonha que me sacoleja
E quer que eu me mexa
Enquanto eu mesmo prefiro a brisa fresca e a rede tesa
Entre coqueiros nesta praia acesa
Pelo sol de inverno.
Não sou eterno.
Vivo apenas o que almejo
Que nunca é muito
E tão sem jeito
Que parece que minha vida se resume
A ser um arremedo de gente a esmo
A circundar perdida no universo.
Mas quando for a hora
Eu, sem medo,
Estarei disposto ao sacrifício terno
Infalível compreensível sempiterno
E trocarei tudo por um indizível verso.

Foto do autor.