RÁPIDAS ANOTAÇÕES DE ESPECTADOR

1. O primeiro show que vi, quando cheguei a Niterói e já um tanto habituado a circular por Niterói e Rio de Janeiro, foi o de Tim Maia. Isto se deu logo após o lançamento de seu primeiro disco, Tim Maia, de 1970. Foi no Teatro Opinião, que ficava num edifício da Rua Siqueira Campos, em Copacabana. Vi outros mais. Deve ter sido o artista de quem mais vi shows. E ele nunca faltou a nenhum deles. E não houve nenhum que tenha sido mais ou menos: todos ótimos!

Meu santo era mais forte do que as idiossincrasias do Tim.

2. Lá pela década de 80, eu e minha mulher subimos o Morro da Urca, para ver um show do mineiro Beto Guedes, já mais do que badalado.

Beto ficou famoso por sua timidez no palco.

A primeira parte rolava e, de vez em quando, alguém da plateia gritava:

– Aí, mineiro, manda Lumiar!

Ele, com aquele jeito sem jeito característico, passando a mão sobre os longos cabelos, dizia, com sua voz bastante nasalada:

– Vai rolar! Vai rolar!

Terminou a primeira parte e nada de Lumiar, certamente seu sucesso de maior apelo.

Voltam ele e a banda para o segundo set do show. Novamente a voz da plateia, agora mais incisiva:

– Aí, mineiro maluco, toca Lumiar!

Parece que foi provocação. Beto Guedes entrou com um arranjo rock’n’roll poderoso para sua música, que arrepiou todo mundo. Deve ter sido a execução mais poderosa que já ouvi.

Ao final, ouviam-se urros de aprovação da plateia.

3. Fomos eu e meu primo Roberto Bedu ver o show de Roger Waters – que ele sistematicamente chama de Rogério Águas –, na Praça da Apoteose, no Sambódromo do Rio de Janeiro, em 23/3/2007, em que o baixista e compositor do Pink Floyd apresentou o repertório da obra-prima The dark side of the moon.

Lá pela metade do show, cheio de recursos técnicos, um som poderosíssimo e efeitos especiais, no crescendo final de determinada música ouvimos um estrondo e as luzes se apagaram. Todo o público vibrou com o arranjo inusitado e ficou na expectativa da sequência da apresentação.

Passaram-se alguns minutos. Então Bedu e eu começamos a estranhar. Se era um recurso, um novo arranjo, o troço já estava demorando demais. Foi o que comentamos na hora.

Daí a alguns minutos, veio a informação do palco: um gerador do sistema elétrico não  suportara a massa sonora. Aquilo, portanto, não era mais uma invenção do rock progressivo. Foi um prosaico defeito técnico.

4. Teatro João Caetano, Praça Tiradentes, Rio de Janeiro. Show da Gal Costa, que tinha lançado recentemente o elepê Índia (1973). O grande teatro estava lotado, tanto que eu e Jane só conseguimos lugares no mezanino. Entra Gal, com uma saia de tiras. Senta-se num banquinho alto, ajeita o violão e começa a cantar: pontas dos pés apoiadas nas travessas inferiores do banco, as suas lindas e roliças pernas abertas, expostas pela saia de tiras, em movimento ritmado de abrir e fechar, acompanhando o canto. De repente, da parte de baixo da plateia, uma mulher urra com toda a força de seu útero, ou de seu clitóris, sei lá:

– Gostosa!

Aquela louca teve a ousadia de vociferar um elogio que, da boca de um homem, soaria uma ofensa, coisa de porco chauvinista grosseirão. Mas aqueles já eram tempos de muita tolerância, e não se ouviu um protesto sequer.

Houve alguns segundos de perplexidade. Gal deu um sorriso amarelo, retomou o fio da melodia e continuou balançando suas lindas e maravilhosas pernas para o deleite dos marmanjos e de mais um bando de sapatões, naturalmente.

Rumbeira style, babados de lamê, pernas abertas, flores nos cabelos e violão no colo: a primeira montagem de

Esta foi a imagem que tivemos no show referido (foto do arquivo pessoal da cantora, colhida em galcosta.com.br).

O RECANTO DA GAL

Capa do CD de Gal Costa, Recanto, em foto de Gilda Midani.

No final de 2011, quando Gal Costa lançou seu último trabalho, Recanto, com músicas de Caetano Veloso, procurei pelo CD em uma das lojas de que sou contumaz comprador, localizada no Centro do Rio de Janeiro.

Atendia-me, na oportunidade, um funcionário relativamente novo na casa e de quem já ouvira lamentações de sua vida pessoal, para as quais me solicitou, como velho e conhecido cliente, a paciência de o escutar. Naquela oportunidade, dei-lhe a atenção que me parecia necessária.

Agora, ali, ao perguntar pelo CD, ele, na função de conselheiro musical, me desaconselhou, embora a mercadoria estivesse esgotada na loja:

– É muito estranho. Está muito eletrônico. Só é recomendável para fãs da Gal. O senhor é fã da Gal?

Não quis confessar-lhe que sou fã de Gal Costa, desde que ela apareceu, meio descabelada, toda hippie, a boca carnuda debruada com batom vermelho e umas pernas maravilhosas; com todo aquele jeito estranho de cantar correndo pelo palco, revirando os olhinhos e dizendo que era filha de São Salvador.

Mesmo quando ela tomou certas atitudes inusitadas, pretensamente ousadas, como mostrar o seio – já então meio muxiba – num show, deixei de ser seu admirador.

Contudo não quis demonstrar esta minha quase devoção pela baiana para o vendedor, que, na verdade, não me conhece bem como consumidor de música.

Aliás, na minha vida de comprador de discos, que vem desde o final da década de 60 do século passado, só encontrei três vendedores que conheciam razoavelmente meu gosto: a Maria, da extinta loja Ultralar; a Graça, da também falecida Mesbla, que foi instruída por Maria a me atender, quando a Ultralar deixou de vender elepês; e Roberto, da Tropical Music do Plaza Shopping.

Porém aquela opinião do rapaz sobre o disco me deixou com certa má vontade, até que um dia, no rádio do carro, ouvi uma das músicas que fazem parte desse CD. A música me agradou muito, e quase o xinguei, por ter dado uma opinião bastante particular e discutível.

Anteontem, na Tropical Music, comprei o disco, que ontem ouvi com atenção.

São onze faixas, todas de Caetano Veloso, que divide a direção artística do trabalho com seu filho Moreno, para a Universal Music.

Não há créditos para os arranjos, mas se presume, pela parafernália eletrônica usada – sintetizadores, wurlitzer, bateria eletrônica, melotron e mais programação computadorizada –, que são os que manipulam tais instrumentos os responsáveis pela roupagem que os versos de Caetano assumem ao serem cantados por Gal.

Todas as faixas soam estranhas para a maioria dos nossos ouvidos. Eu, entretanto, como sempre gostei de novidades e estranhamentos, aprendi a aceitar esse tipo de coisa, em princípio, e, posteriormente, a gostar, com raras exceções.

Aprecio, por exemplo, e muito, a música incomum e complexa de Arrigo Barnabé, Tom Zé, Marlos Nobre, Karlheinz Stockhausen, Kraftwerk, King Crimson, Gentle Giant, Amon Duul II, para citar apenas alguns, na variada gama de MPB, Clássica e Rock Progressivo.

Deste modo, ouvi com prazer cada faixa esquisita, pontuada, sobretudo, por sintetizadores e melotrons, com participação mínima de guitarra, piano, bateria e percussão. Em todas as faixas, a voz da Gal, já denotando a idade – o seu recanto talvez esteja aí também -, segura a onda de uma melodia, por vezes, monocórdia, porém agradável, que diz um texto caracteristicamente à Caetano, também cheio de estranhamentos e lembrando, às vezes, sua aproximação com a Poesia Concreta. Todos, no entanto, muito bem construídos e resolvidos poeticamente. Caetano sabe fazer isto muito bem!

Diria mesmo que a participação instrumental é minimalista, quase incidental, porque – a mim pareceu – o que se quer destacar é o texto, a letra, a poesia. Não que, para a beleza do disco, se possa abstrair a participação de Kassin, Moreno e Zeca Veloso, Alberto Continentino, Luiz Felipe de Lima, Donatinho, Pedro Sá, Davi Moraes, a Banda Rabotinik, Bartolo, Léo Monteiro, Jacques Morelenbaum, Daniel Jobim, Gabi Gudes, Iuri Passos, Jaime Nascimento e o próprio Caetano, em uma única faixa. Como se vê, um time da pesada.

Muitos, talvez, não irão gostar; outros, até mesmo detestar.

Eu, que sempre fui chegado a novidades e estranhamentos, gostei muito do CD. E desculpo o vendedor, que não conhece este meu excêntrico gosto e não comunga dele.

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GAL COSTA, Recanto, Universal Music, 2011. – Faixas: 1: Recanto escuro; 2: Cara do mundo; 3: Autotune autoerótico; 4: Tudo dói; 5: Neguinho; 6: Menino; 7: Madre Deus; 8: Mansidão; 9: Sexo e dinheiro; 10: Miami maculelê; 11: Segunda (Todas as músicas são de Caetano Veloso).

COISAS INSUPORTÁVEIS

(A postagem de hoje é dedicada a meu filho Pedro.)

Quando chegamos a certa idade (forma eufemística de dizer que estamos mais pra lá do que pra cá), damo-nos o direito de achar certas coisas insuportáveis. Se somos jovens, isto é apenas frescura. Assim que nem eu, já passa a ser direito inerente, inalienável e irremovível.

Li a matéria de capa do segundo caderno de O Globo de ontem sobre Alceu Valença e as homenagens que lhe serão prestadas durante o carnaval deste ano, por seus quarenta anos de carreira.

Bicho maluco beleza (imagem em alceuvalenca.com.br).

Sou admirador de Alceu, de sua música, de sua arte. Tenho, praticamente, todos os seus discos, desde bolachas de vinil a cds. Vi seu primeiro show no Rio de Janeiro – Vou danado pra Catende – e outros mais. Admiro sua postura como artista engajado e comprometido com a cultura brasileira mais autêntica. E também gosto de sua incontinência verbal, seu humor e sua ironia.

Lá pelas tantas, na matéria do jornal, Alceu soltou sua metralhadora contra o panorama da difusão de música no país: se não é o estilo brega, é, segundo ele, o “americanalhado”, com cantores fingindo uma emissão anasalada em imitação aos norte-americanos.

Aliás, são vários os que fazem isso, sobretudo a teteia Paula Fernandes.

Desde que essa linda menina apareceu na mídia, apesar das louvações a ela, tenho criticado no meu círculo de amigos a falsidade de seu canto nasal, nitidamente forçado, claramente fake. Ela, ao falar, não apresenta qualquer traço de fanhosidade. Por que, então, cantar assim, a não ser por imitação aos ianques?

Por outro lado, ressalte-se a grita de Alceu contra esta ditadura do mau gosto que tomou conta da maioria de nossas emissoras de rádio, principalmente, e de televisão. Parece que a música brasileira se resume a este tipo de subproduto, de baixíssima qualidade harmônica, melódica e poética. Não é que não existam novos valores – se bem que poucos -, mas a mídia está comprometida com a difusão disto. Parece que há uma nítida intenção de se abastardar aquilo que já foi nosso orgulho: a música popular. Com que intenção? A quem interessaria isso?

As nossas emissoras também estão tomadas por uma profusão de seitas e religiões, com seus pregadores oportunistas (a própria cara os denuncia), gritando verdades suspeitas, fazendo campanhas para angariar dízimos, prometendo milagres, enfim, ludibriando a fé pública, com o beneplácito de nossas autoridades do setor, que concedem um serviço de utilidade pública para proselitismo religioso.

Para se constatar isso, basta que passeie pelo dial de seu aparelho de rádio. É difícil encontrar uma emissora com programação de qualidade. São pouquíssimas.

Quando se viaja pelas estradas deste país, fica até mais difícil ouvir as rádios regionais. Praticamente todas estão tomadas por este tipo de programação.

E isto acaba ficando insuportável, quando se chega a certa idade.

CELEBRIDADES E SUAS ESQUISITICES

Não costumo falar sobre celebridades, para não transformar meu blog em Contigo, Caras, Hola, Programa Amaury Jr., por aí afora. Mas há certos acontecimentos, certos fatos, que quase exigem que eu meta meu bedelho. É o direito inalienável ao pitaco a que todo cidadão pagante de IR ou isento faz jus.

Por isso, quero externar aqui minha opinião acerca de alguns fatos.

1. Vejam só a foto abaixo, que o Luciano Huck (Até hoje tenho a maior birra com ele, por ter-se casado com a Angélica!). A foto foi postada no Twitter e o revela em momento de gozo de férias.

Imagem em virgula.uol.com.br.

Agora pergunto aos meus estimados leitores: alguém que se proponha a estar de férias vai ler livros sobre o crime dos Richthofen, aquela história macabra engendrada pela filha, em conluio com o namorado, para herdar a fortuna dos pais?

Em que momento das férias esta leitura pode ser reconfortante?

Não seria, aliás, muito melhor que ele postasse uma foto da Angélica em trajes de banho? Pois o que me parece é que ele está curtindo uma praia.

Aí, vem ele, com esse seu narigão vermelho como um pimentão, esse gesto velho e bobo de vitória, mostrando que está lendo. E lendo logo um assunto deste?

Faça-me o favor, ô Huck!

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2. A famosa atriz Pérola Faria (Quem é ela?) está revoltada porque encontrou um bicho em uma salada do McDonald’s. Também postou no twitter seu protesto com a foto, dizendo: McDonald’s nunca mais!

Eu, por exemplo, jamais comi qualquer sanduíche desta poderosa rede de comida rápida. Prefiro uma empadinha no botequim da esquina. Portanto nunca encontrei, nem encontrarei tais bichos. Mas quero adiantar à jovem e famosa atriz (Quem é ela mesmo?!) que, se há um bicho na folha de alface, é sinal de que a verdura está saudável. Caso contrário, o bicho seria o primeiro a abandonar o local. Esses bichos não convivem com verduras sujas ou cheias de agrotóxicos.

Da próxima vez (Sei muito bem que uma pessoa da idade dela – 20 anos – não consegue segurar uma promessa por muito tempo.), Pérola, dê um peteleco no bicho e caia de boca. No Extremo Oriente, o pessoal abandonaria a folha e comeria o inseto. Está-me entendendo?

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3. Cristina Aguilera rebate críticas de que esteja gorda e diz que o namorado gosta muito de suas curvas.

Nós também, Cristina! Vá em frente. Gostamos até das curvas da estrada de Santos. Quanto mais de curvas de mulheres bonitas e interessantes!

É só não cantar nas curvas!

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4. O programa da Band com cinco mulheres ricas, fúteis e pernósticas é mais um desserviço da tevê aberta à combalida situação socioeconômica e cultural do telespectador.

Não vi e já não gostei.

É mais ou menos como arrotar caviar na cara do povo que come sardinha frita.

Vai-te catar, Band!

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5. O sítio UOL, no dia de ontem, destacou em sua manchete: “Neymar bate Messi e leva o prêmio de gol mais bonito do ano”.

Parece coisa de argentino.

O Messi, pela terceira vez consecutiva, levou o título de melhor jogador do ano, pela FIFA, e o UOL me sai com esta manchete. Que não é mentirosa, diga-se de passagem, mas reflete um bairrismo tosco. Um patriotismo ufanista de quinta categoria.

E digo isto com toda isenção: tenho a maior birra com argentino. Sobretudo com homem!

Isto me faz lembrar a história que minha mãe contava sobre o embate Comunismo x Capitalismo, na época da Guerra Fria. Contava ela que dois carros de corrida – um americano e outro soviético – iriam disputar qual o mais veloz, numa das planícies das estepes russas. Ao final da corrida, os jornais controlados pelo Partidão estamparam a seguinte manchete: Carro americano chega em penúltimo lugar; carro soviético, em segundo.

Notem que aí também não há inverdade. Mas a verdade é dita de modo capcioso.

Toma jeito, UOL!

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6. Madonna, que não tem nada a ver com Maradona – sim, aquela mesma cantora que fez Evita, mesmo que isto nos confunda um pouco sobre se ela é argentina ou não como o outro aí – está lançando seu segundo filme como diretora.

Não vi o primeiro, porque nem sabia que ela se convertera também em diretora de cinema. Este, não sei se verei, embora o enredo pareça interessante: a história da amante plebeia do rei britânico Eduardo VIII. Veja só que coisa importante para a História!

Faço votos, no entanto, para que ela como diretora não tenha o desempenho como cantora. Apesar de todo o seu sucesso, vamos combinar, Madonna não canta nada. Pelamordedeus!

E olha que já levei minha filha e minhas sobrinhas a um show seu no Maracanã, no auge da fama e da forma física.

O que é que um pai e um tio devotado não faz por suas pequenas, né não?

10 x 3

Como chegou o fim de semana e é preciso aliviar um pouco, resolvi lançar mão de um recurso próprio de Contigo e Caras, para que não reclamem que estou muito amargo nessas últimas postagens. É que as notícias não são nada auspiciosas.

Assim, em sendo o gestor supremo deste blog, me permiti elaborar, também, minhas listas de preferências, a fim de que vocês confiram nossos gostos. Claro está que, sendo da geração que sou, é bem provável que haja diferenças, conflitos e otras cositas mas. Porém quem irá atirar a primeira pedra, né não?

Escolhi o número 3, porque a lista fica menor e é mais fácil conferir. E também porque, mais adiante, poderei fazer outras, sem que se esgote cada uma delas, ou que se torne leitura chata.

Comecemos, então.

3 filmes que nunca me saíram da cabeça: A fonte da donzela  (1960), de Ingmar Bergman; O homem que matou o facínora (1962), de John Ford, e Morte em Veneza  (1971), de Luchino Visconti.

3 atrizes estrangeiras de beleza acachapante: Claudia Cardinale, Catherine Deneuve e Demi Moore.

Claudia Cardinale, no auge de sua beleza (allposters.pt).

3 discos (elepês) de rock progressivo que quase furaram de tanto tocar nos idos dos 70/80: Foxtrot, Genesis; The dark side of the moon, Pink Floyd, e Islands,  King Crimson.

3 graças da moderna MPB: Vanessa da Mata, Roberta Sá e Mônica Salmaso.

Vanessa da Mata (entretenimento.r7.com.br).

3 sambas clássicos que gostaria de ter composto: Obsessão, de Mano Décio da Viola e Osório Lima; Meus tempos de criança, de Ataulfo Alves, e Canta Brasil, de David Nasser e Alcir Pires Vermelho.

3 livros da literatura brasileira de leitura prazerosa: Vila dos Confins, de Mário Palmério; O coronel e o lobisomem, de José Cândido de Carvalho, e Cemitério de elefantes, de Dalton Trevisan.

3 cachaças de se tomar ajoelhado: “Montanhesa Premium”, de Araguari, “Vale Verde”, de Betim, e “Canarinha”, de Salinas, todas mineiras, uai!

3 pratos estranhos da culinária brasileira, mas cheios de sabores: buchada de bode, efó e chouriço.

3 lugares pequenos do Brasil, cada um com seu charme, que compensam a viagem: Tiradentes (MG), Cunha (SP) e São Pedro da Serra, distrito de Nova Friburgo (RJ).

Ateliê Suenaga&Jardineiro, Cunha-SP, 08/10/11 (foto do autor).

3 poetas de língua portuguesa marcantes: Carlos Drummond de Andrade, Fernando Pessoa e Mário Quintana.

10×3=30. Talvez volte outro dia, com mais algumas futilidades.

HOJE SÓ MORREM OS BONS

O título desta postagem foi vergonhosamente chupado e adaptado do sítio Aventar que, hoje, noticia a morte de Cesária Évora (1941-2011).

Cesária Évora (thegoldbrick.net).

Não sei se todos conhecem Cesária, mas deveriam. Ela foi uma cantora cabo-verdiana de excelência. Foi descoberta, em caráter internacional, por um produtor musical francês de férias em seu pequeno país – Cabo Verde – quando cantava num dos bares da capital, Praia. Impressionado com o carisma e a interpretação que a cantora fazia da música tradicional da terra, ele a convidou a ir a Paris gravar um disco e se apresentar para o público francês, que talvez seja o mais aberto a manifestações culturais diferenciadas.

Pois foi lá, numa das lojas da FNAC que, em 1997, comprei o primeiro cd desta verdadeira diva da música.

Com frequência, ultimamente, gravava músicas brasileiras, que entravam no repertório de seus discos como a única cantada em português, já que a música de Cabo Verde se faz normalmente na língua crioula de lá, o cabo-verdiano, produto de uma base do português com influências africanas.

Certa vez, ao comentar sobre ela com meu amigo Paulo Alves, este me disse que não conseguia ouvir, sem lágrimas, o grande sucesso de Césaria, Sodade (clique para ver o vídeo), que era uma das preferidas de sua falecida mãe. Depois disto, não há como ouvir a música, sem me lembrar do amigo Paulo e de sua mãe que, infelizmente, não conheci.

Também morreu hoje Joãosinho Trinta, o mago do Carnaval, o homem que, com sua inventividade, mudou de forma definitiva o estilo de desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro e, consequentemente, do Brasil. A par de sua obra nos desfiles, Joãosinho sempre teve preocupações sociais e promoveu, nas comunidades que se atrelavam às escolas que serviu durante sua vida, programas de valorização e de melhoria de condições de vida. Apesar das questões controversas que promoveu em alguns desfiles, era um artista preocupado com seu tempo e seus semelhantes.

Outro que nos deixa é Sérgio Brito, com segurança, um dos maiores atores do teatro brasileiro. Ultimamente víamos mais Sérgio Brito através da Rede Brasil, onde comandava um programa voltado não só para o teatro, mas, sobretudo, para a cultura e as artes, de um modo geral.

Vê-se, portanto, que há dias em que só morrem os bons. Dia há de chegar em que alguns pilantras, corruptos, picaretas, criminosos de todos os tipos de colarinho também entrarão em colapso vital, isto é, entregarão a alma ao diabo.

Estes três de hoje, com certeza, estarão no panteão dos nossos heróis modernos.

ENCURTA O ORÇAMENTO DA CULTURA

Está em O Globo de hoje, na primeira página do segundo caderno, artigo sobre a redução do orçamento do Ministério da Cultura – MinC – para 2012, o que ocorre pelo segundo ano consecutivo – ambos no governo Dilma.

Durante o governo Lula, a Cultura teve seu orçamento sempre crescente, passando de 397 milhões, em 2003, para 2,29 bilhões, em 2010.

Ocorre que o MinC não vem aplicando integralmente o orçamento que lhe é destinado. Este ano, por exemplo, até setembro, apenas cerca de 20% foram utilizados. Nesses casos, o que faz o Executivo? Simplesmente diminui o orçamento seguinte. E isto é prática comum na gestão pública. Se um determinado órgão projeta seus gastos e solicita ao Governo a aprovação dos projetos em que eles se darão e os tem aprovados, presume-se que tal dinheiro será usado em suas ações. Se tal não se dá – e não se vem dando – o Executivo não tem por que continuar a disponibilizar aqueles valores, que não serão gastos e retornarão a seu caixa.

Fica parecendo que o órgão superestimou suas ações ou, ao contrário, foi incapaz de realizar aquilo que planejou. Em qualquer dos casos, revela-se uma administração sem a perícia necessária para gerir seus próprios destinos.

A ministra Ana de Holanda tem desentoado na condução de seu ministério, como se vê no texto da matéria. Segundo alguns, falta-lhe diálogo com a famosa sociedade civil, massa amorfa sempre referida nessas ocasiões. Mas há reclamações de pessoas ligadas à área sobre esta falta de interação.

Desta forma, o Ministério da Cultura, no próximo exercício – 2012 – não gastará 16% do que não gastou no atual. O que, convenhamos, fará pouca diferença, já que só um quinto daquilo que o MinC prometeu fazer – como sói acontecer – foi efetivamente realizado até setembro.

Ou será que todo o restante de tal dinheiro seria gasto até o Natal com peru, rabanada e as folias de reis de Miracema?

Por isso é que a Cultura voltará a encurtar!

Palhaços da folia de reis na noite de Natal em Miracema (miracema.wordpress.com).

POESIA NUMA HORA DESSAS?!

O título desta postagem remete ao Pasquim, jornal de humor que pontificou na imprensa alternativa brasileira, sobretudo durante o período da ditadura militar.

De quando em vez, apareciam poemas em suas páginas: às vezes de tom humorístico, às vezes de tom lírico ou político. Sempre, no entanto, eles eram apresentados sob o título que encima este texto, como que a indagar como seria possível pensar em poesia sob o estado de coisas em que vivíamos.

Dizem alguns que a poesia é necessária; outros, contudo, torcem o nariz para este tipo de manifestação artística, sob a ótica de que “poesia é coisa de romântico sonhador”, visão que nem sempre corresponde à realidade.

É bem verdade que, tão logo nos apaixonamos pela primeira vez, somos levados a cometer alguns versos para o objeto de nossa paixão, na tentativa, frequentemente canhestra, de conquistá-lo. E daí vem a visão equivocada que dela se tem. Ou, também, pela prevalência na divulgação de poemas com esta característica a que comumente assistimos.

Outros dizem que, mesmo não sendo necessária, a poesia torna o mundo mais bonito, mais interessante, porque, via de regra, traduz de forma artística – como várias outras artes – um olhar sobre a realidade ou sobre os sonhos, os anseios e os sofrimentos humanos.

Todos nós que passamos pelos bancos escolares tivemos – ou temos – contato com a poesia e, de uma ou outra forma, ela nos toca, nos sensibiliza, nos emociona, nos entretém.

É preciso, porém, que se diga, de modo racional, que a poesia é uma forma de expressão humana semelhante a outras que não trabalham na linha técnica ou científica. Assim são também, por exemplo, a música, o cinema, a escultura, a pintura, a dança, a arquitetura, a literatura em geral.

Enquanto uns têm habilidade em trabalhar a forma, fazendo imagens tridimensionais, esculpindo, moldando, outros têm a palavra como matéria prima de sua expressão. E nenhuma dessas manifestações se sobrepõe às outras em valor ou em importância.

Conheço pessoas, até amigas, que já me disseram claramente que não gostam de poesia. E isto não me escandaliza. Sei de pessoas ainda que não gostam de música, o que realmente me parece bastante estranho. Todavia cada um gosta do que gosta.

Mesmo eu, que gosto de poesia e cometo as minhas próprias, tenho certas preferências. Por exemplo: não gosto de poesias com excesso de metáforas; não gosto de poesias que primem pelo inusitado da forma, de um jeito artificial, ainda que ache o Concretismo muito interessante.

O poeta não precisa ficar inventando figuras, tentando mostrar criatividade inusitada. Já vi poeta que até em entrevista fala como poeta, cheio de nó pelas costas. Não vou dizer seu nome aqui, para não ser crucificado na próxima esquina, pois sei que ele é cheio de fãs. Porém acho isto pedante, presunçoso, pernóstico, pretensioso, sei lá. Parece que ele quer mostrar aos outros que é o maior: olha como eu sou criativo. A simplicidade também constrói coisas belas.

E também não precisamos ser só líricos, ou políticos, ou satíricos, ou dramáticos, ou trágicos. E a poesia que se faz não precisa necessariamente refletir a pessoa física que a produz. Quando se assiste a um espetáculo de dança, em nada se pensa na pessoalidade de seu autor. Não se trata obrigatoriamente da vida dele, do que sente, do que sofre, do que sonha. O espetáculo precisa valer por si, como, aliás, qualquer obra de arte: ela deve ter seu valor intrínseco, não importa a extensão que tenha.

Podem-se até observar características pessoais na expressão da forma de arte, mas isto não significa que a pessoa, em toda sua complexidade psíquica, esteja ali representada.

Da poesia somos sempre levados a pensar isto, talvez porque seja a arte mais próxima do criador. É aquela que, se oral, é produto direto do corpo, através da voz; se escrita, está muito próxima do autor, porque sua matéria é a palavra, produto da mente, nascida diretamente do seu interior.

E a Poesia, agora com letra maiúscula, construiu, ao longo dos séculos, belos exemplares, que resistem tanto ou mais que monumentos e edificações que o gênio humano colocou sobre a face do planeta. E seus autores estão para sempre entre os seres mais ilustres que conhecemos. Cito apenas alguns: Homero, Dante, Camões, Baudelaire, Chaucer, Lorca, Pessoa, Borges e o nosso Carlos Drummond de Andrade, cuja data de nascimento se comemorou há pouco.

E, para não me alongar demais em defesa da poesia, transcrevo deste último um poema singelo:

MEMÓRIA*

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão

Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.

(*in Reunião – 10 livros de poesia, p. 168. Rio de Janeiro, José Olympio, 1971.)

Pablo Picasso, A leitura, 1934 (nathaliearmindo.blogspot.com).

BLUES NA VEIA

Ganhei de presente de minha filha, que esteve em Dubin há duas semanas, o cd de Dermot Byrne e Kevin Davenport, Live at the Ha’Penny.

Não conhecia os músicos, mas ela sabe que sou fã de blues, viu o show e pensou: “Meu pai ia gostar de estar aqui!” Sobretudo tomando as maravilhosas cervejas irlandesas.

Quero dizer para vocês que tenho uma grande simpatia pela Irlanda: pela sua história de resistência política e cultural. A Irlanda peitou o grande Império Britânico, fez sua independência à força, hoje nem da Commonwealth faz parte, e por zelos do Partido Republicano conseguiu não deixar morrer a antiga língua celta, comumente conhecida como irlandês, uma das mais antigas do Ocidente e ramo do Indo-Europeu, a língua-mãe de várias línguas europeias e asiáticas, com características linguísticas importantes para o estudo da origem das línguas. Hoje, a par da força histórica do inglês, o irlandês é também língua oficial e a primeira a ser escrita em documentos oficiais e informações públicas.

Além disso, a Irlanda é berço de brilhante literatura e é um manancial de música, como poucos países o são. Não é necessário aqui nomear irlandeses destacados nessas artes.

Pois muito bem! Pus a rodar o cd de Byrne e Davenport e qual não foi a minha surpresa com a qualidade da música.

Por quatorze faixas, os dois músicos tocam o chamado blues de raiz, entre composições de Byrne, músicas tradicionais e composições clássicas.

Não há como destacar uma da outra, já que todas as faixas estão no mesmo nível, dentro da mesma proposta musical.

E aí fico pensando naqueles amantes de blues que não têm uma filha que foi a Irlanda recentemente e, por acaso, entrou no Ha’Penny, viu o show, gostou, comprou o cd, que, diga-se de passagem, parece pirateado tal a precariedade da embalagem, lembrou de seu pai e resolveu trazê-lo de presente.

Agora, no momento em que escrevo esta postagem, ouvindo o cd, fico pensando: Que pena de vocês! Ou como diria o velho cronista social Ibrahim Sued: “Sorry, periferia!” Hehehehe!

Mas eu também sou filho de Deus e mereço esses mimos!

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Dermort Byrne & Kevin Davenport, Live at the Ha’Penny (gravado ao vivo em 2011 em Dublin). Faixas: 1) Fortune teller blues (D. Byrne); 2) Poor boy blues (trad. arr. D. Byrne); 3) Dust my broom (R. Johnson); 4) Ragged an’ dirty (W. Brown); 5) Midnight special (H. Leadbetter); 6) Outskirts of town (Louis Jordon); 7) Stagalee (trad.); 8) Little queen of spades (R. Johnson); 9) Leavin’ blues (H. Leadbetter); 10) Can’t get the stuff no more (Tampa red); 11) Death letter (Son House); 12) Can’t be satisfied (McKinley Morganfield); 13) Old Riley he is gone (trad. arr. D. Byrne); 14) Trains 45 (trad.).

A tosca capa do excelente cd.

SOU COROA, MAS DOU MINHAS CACETADAS!

Pela idade que tenho, já devia estar um pouco mais satisfeito da vida. Mas sou uma pessoa um tanto desacorçoada, como dizem os paulistas. Vira e mexe, estou-me mexendo para arranjar um jeito de não fazer nada. Tipo assim linha Dorival Caymmi: sombra, rede e água fresca.

Mas, todavia, contudo, entretanto, também vou dar minhas cacetadas nesse tal de roquenrol, ou melhor, nesse tal de Rock in Rio. Fui ao primeiro, lá pelas lamas de 1985, quando o Rod Stewart cantou. Fiquei molhado, enlameado, comi macarrão à bolonhesa sentado na beirada da barraca de festifude (xi, quase um palavrão!) e saí com a alma encharcada de rock.

Pode parecer esquisito, mas quando o rock nasceu, ou pelo menos, quando chegou ao Brasil, eu estava lá na minha terrinha natal, no interior, ouvindo seus acordes pelas ondas do rádio e curtindo minha adolescência cheia de espinhas na cara.

Achei aquele troço muito bom. Meus pais, tenho certeza, embora nunca me tenham dito, achavam uma porcaria, mas nunca me impediram de ouvir Hoje é dia de rock, do Jair de Taumaturgo, onde apareciam uns malucos de Austin, de Guadalupe, de Vila Rosali, para fazer mímica para Tutti frutti, Ranaway, Jailhouse rock, Calendar girl, Diana*, e uma infinidade de canções que mudaram completamente o panorama da música jovem internacional.

Aos poucos, até o sistema de alto-falantes do Nark Pontes, que ia ao ar em determinados períodos do dia em nossa vilazinha, começou a incorporar um ou outro rock no meio de sua programação de “músicas em gravações variadas”, onde predominavam Orlando Silva, Nelson Gonçalves, dentre outros. E ele anunciava:

– Ouviremos agora, na voz de Neil Sedaka, o rock balada de sua autoria, Oh, Carol!

Na época, era praxe dizer o tipo de música a ser executada e também seus autores.

Posso dizer, com segurança, que o rock foi um dos responsáveis pela abertura de mentes nos anos 50/60 e sua evolução e diversidade arrebanhou ao redor do mundo uma multidão de fãs. Em determinado momento – para ser mais preciso, nos anos 70 – eu acreditava que ele era capaz de salvar o mundo da estupidez da guerra.

Não salvou, mas até hoje acho o rock fundamental na minha vida.

Já o modelo do Rock in Rio de uns tempos para cá não é de rock, ou antes, não é só de rock. Por que, senão, como explicar, nesta edição, a presença da linda e vitaminada Cláudia Leite e sua música bleargh!? Aliás, em que pese sua beleza deslumbrante, sua voz bonita, a qualidade do que ela canta é muito duvidosa, isto para ser elegante com ela.

E Elton John também nunca foi rock!

Mas o que se há de fazer com esse novo Rock in Rio? Espero que, dentre mortos e feridos, haja uma salvação roqueira plausível.

PS: Qualquer dia, falo com vocês sobre Pink Floyd e companhia.

(* Músicas gravadas, originalmente, por Little Richard, Del Shannon, Elvis Presley, Neil Sedaka e Paul Anka.)

Capa do primeiro elepê de Little Richard, de 1950 (the1950s.wordpress.com).