CABRAL VAI CUIDAR DE CABRAS

Por inúmeras vezes, em conversas com amigos, ou com o umbigo encostado ao balcão do Botequim Chalé, bem aqui ao pé de casa, ouvi dos interlocutores a estranheza de que, diante da gigantesca crise por que passa o Estado do Rio de Janeiro, até então um dos mais ricos da Federação, a imprensa não tocasse no nome do ex-governador Sérgio Cabral. E não podia discordar de nenhum deles. Eu mesmo já me havia manifestado assim com os amigos.

Era inimaginável que esse desastre em todos os campos da administração pública fosse produto apenas da virada do calendário. Virou a folhinha de um mês para o outro, abriu-se um gigantesco buraco em que o estado foi tragado. Parecia que a crise fosse de geração espontânea e não resultado de sucessivas ações inábeis, imorais e criminosas, até que o caos se tornasse o horizonte dos fluminenses.

Mas hoje fui acordado por minha mulher, que tem o péssimo hábito de pular da cama mal raiado o dia, aos gritos de “Cabral foi preso!”, “Acorde para ver a notícia!”. A contragosto, depois de ainda tentar ouvir pelo radinho de cabeceira as notícias recentes, me levantei, escovei os dentes, lavei o rosto e fui para a frente da tevê saborear as imagens da prisão do ex-governador. E posso lhes dizer que senti um misto de vergonha e prazer. Vergonha por assistir à cena tão lamentável: a maior autoridade pública por dois períodos ser retirada da cama pela Polícia Federal, a mando de dois juízes criminais. E prazer por constatar que as coisas, enfim, parecem mudar no país.

É bem verdade que todas essas ratazanas do dinheiro público estão caindo na ratoeira do MP, da PF e do Judiciário, porque seus cúmplices nas falcatruas resolveram dar o serviço, a fim de aliviar as chamadas “penas da lei”. É um sem mérito dedurando outro desmerecido. O roto falando do esfarrapado. Quadrilha que se esfacela à primeira porretada da lei, na linha daquele velho princípio do “cada um por si, e Deus por todos”. Se é que Deus esteja disposto a intervir nesses escabrosos casos.

E ontem mesmo foi outro ex-governador, Garotinho, por outras razões, mas também pela mesma falta de ética na condução da política. Se pesquisarem bem, acharão dele outros tantos delitos, pois não é de hoje que ele vem manipulando os fios obscuros da política fluminense.

Como está na moda dizer, eu não tenho corrupto favorito. Por mim, podem meter a ferros todos eles, da Esquerda à Direita; revolucionários ou conservadores; crentes ou ateus; gays ou héteros; homens ou mulheres; brancos ou negros; ricos ou pobres; principiantes ou velhas raposas da nossa cena política. O que não podemos é continuar a ter os serviços públicos que temos, porque a cobiça dos que exercem o múnus público estão de olho é no dinheiro que a todos nós pertence.

Ferro neles! Sem dó, nem piedade!

Cabral agora vai dar milho a bode. E Garotinho vai ver o sol nascer quadrado.

É o que todos desejamos!

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Cabra presa

OTIMISMO DESENFREADO

Qualquer -ismo tem boa probabilidade de se tornar desenfreado, com o passar do tempo e a predisposição do cidadão que o adota. Seja ele de caráter ideológico, alcoólico ou cismático.

Nos campos da ideologia e da manguaça, não há necessidade de comprovação, porque todos estão carecas de ver exemplos por aí. Vou-me ater, então, ao campo da cisma, da pretensão, esta coisa tão humana.

O otimismo é um deles. E se submete às mesmas regras de exagero que qualquer outro, como o pessimismo, o egocentrismo, o machismo e, por que não dizer, o parnasianismo, ainda nem de todo debelado do moderno convívio poético.

Mas tenho notado que estão exagerando um pouco. Aliás, o sero mano (para relembrar a grafia de um candidato do vestibular) é dado à hybris, aquele elemento da tragédia grega que fatalmente leva o herói a erro de avaliação, por desmedida. Estamos chutando o pau da barraca na hybris, apesar de que, desde que o mundo é mundo e o Brasil foi constituído como nação abaixo da linha do Equador, com pequena exceção inexpressiva do ponto de vista geográfico ao norte, colocamos o otimismo na ponta da chuteira e invadimos a área adversária.

Neste ponto, a sabedoria popular já nos tem dado mostras. Senão, é só relembrar aqui alguns exemplos, como o dito popular “Ruim com ele, pior sem ele”. Ora, quem já está avaliado deste modo não pode oferecer nada de bom. Mas nossa concepção chama a atenção de que poderia ser pior. Nesta linha de raciocínio, pior que o pior só o péssimo. Há também “De hora, em hora, Deus melhora”, como se as coisas não estivessem piorando a olhos vistos.

Na língua, há outros exemplos de otimismo, que a gramática resolveu chamar de eufemismo. O exemplo clássico que ouvia dos professores era o da palavra “melhorzinho/a” aplicada à situação de uma pessoa gravemente enferma. Ao perguntar por ela, a resposta que se ouvia com frequência era “Está melhorzinha!”. Quando menino, sempre tinha a ideia de que o doente estava mais para morrer do que para sobreviver, porque daí a pouco ele abotoava o paletó.

Assim também, em relação a “morrer”, a língua registra uma série de torneios verbais para atenuar o sentido básico da palavra, numa espécie de visão otimista do fato: partir desta para melhor, entregar a alma a Deus, virar estrela.

Contudo, por agora, tenho ouvido algumas novas formulações neste sentido, que me têm chamado a atenção.

Um pouco depois desta última eleição municipal, um conhecido meu que concorreu à reeleição para vereador, indagado sobre seu desempenho nas urnas, disse simplesmente que tinha sido “eleito suplente”. Ora, meu caro leitor, ele entrega a alma a Deus, mas não admite que perdeu. É, mais ou menos, como o torcedor do time rebaixado dizer que seu time foi “classificado para a Série B do campeonato”.

Na linguagem da Economia, já fomos surpreendidos com a expressão “crescimento negativo” para significar que o desempenho do país deu retrocesso econômico. Ora, não há, em sã consciência, crescimento negativo: ou se cresce, ou não se cresce; ou se diminui, se decresce. Isto é pior do que os pleonasmos que minha professora primária fazia questão de nos corrigir: sair pra fora, entrar pra dentro, subir pra cima, descer pra baixo; que tanto gostávamos de falar lá na nossa Carabuçu dos anos 50, como se o sentido das ações expressas pelos verbos não fosse cabalmente inequívoco e necessitasse do reforço da expressão adverbial. Ou mesmo esta outra, na mesma linha: crescimento zero. Crescimento zero é o escambau!

Certa vez, levei as ações do antigo BANERJ – o Banco do Estado do Rio de Janeiro – que meu sogro adquirira à sede da empresa no edifício da avenida Nilo Peçanha. Lá, depois de algum tempo examinando aqueles papéis amarelados do tempo, o cidadão engravatado me disse: “O valor de face dessas ações no mercado hoje é nulo”. E o meu sogro perdeu seu rico dinheirinho para o governo do estado. Também a frase dele foi de caráter otimista. Segundo me pareceu, eu deveria ver pelo lado positivo aquele valor de face no mercado. É ter muita cara de pau, não é não?

E assim, de otimismo em otimismo, vamos construindo uma falsa visão de que as piores coisas não são tão ruins assim. Aliás, conforme sejam vistas, podem ser ótimas! Eu posso até ter sido eleito suplente de vereador. E, um dia, após a morte de todos os outros que estão à minha frente, eu assuma a cadeira a que faço jus no legislativo municipal!

 

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Carlitos (em academiaparaninfo.wordpress.com)

MALDITA POLÍTICA NACIONAL

Tenho remoído bem lá no fundo do meu sentimento um horror pela política nacional. Não tanto pelos inúmeros e variados casos de denúncia de corrupção dos mais diversos matizes políticos e ideológicos, mas sobretudo pela devastação que o maniqueísmo a que foi lançada a sociedade brasileira – como se houvesse alguém que merecesse nossa solidariedade cega –, está causando entre nós, colocando velhos companheiros em campos opostos.

Nós, os eleitores e contribuintes aqui embaixo, nos engalfinhamos, nos ofendemos, perdemos amizades construídas há dezenas de anos, solidificadas que foram no respeito e na camaradagem, nós aqui embaixo, repito, os sonhadores de sempre que almejam por uma ética inquebrantável, deixamos esgarçar os laços de amizade em nome de uma classe política que está pronta a fazer as alianças mais estranhas e espúrias, pela cobiça do poder.

Não há na política nacional nenhum político inocente. Todos eles, salvo raríssimas exceções entre os mais extremistas, estão dispostos a todo tipo de acerto, de acordo, de conluio. Eu e meu amigo, no entanto, nos estranhamos, esquecemos a amizade profunda que nos une – ou nos uniu até agora – porque queremos que a classe política reflita o que somos. E mesmo nós não somos santos, nem castos. Somos éticos certamente, pois não compactuamos com pessoas sem ética, mas a política tem uma ética extremamente relativa.

E, por causa desta política conspurcada, torpe, gananciosa, perco amigos queridos.

Até então nenhum de meus amigos – e os tenho e tive de todos os matizes ideológicos, políticos, religiosos, sexuais – deixou afrouxar os laços que nos uniam, malgrados os governos que se sucederam no país. Contudo, nesses últimos anos, fomos levados a acirrar as dissensões, como se as ideias tivessem a castidade como norma.

Pois não há religião, ideologia, filosofia ou cachaça de alambique, como já disse alhures, que esteja isenta de erros. Todas são criações do espírito humano, portanto passíveis de erros e falhas.

A amizade que se construiu sobre a verdade de sentimentos não pode sucumbir a uma ideologia, a uma política que, daqui a cinquenta ou cem anos, estará caduca, pelo surgimento de outras tantas, passíveis dos mesmos erros destas que aí estão, porque todas são produtos de nós mesmos, falíveis humanos.

Mas o valor milenar da amizade tem sucumbido à verdade precária destes tempos maniqueístas, como se qualquer dessas personagens que abundam a política nacional merecesse isto.

Maldita política nacional!

Ipê amarelo, já com algumas folhas verdes; Santo Antônio de Pádua-RJ (foto do autor).
Ipê amarelo, já com algumas folhas verdes; Santo Antônio de Pádua-RJ (foto do autor).

O ERASMO ME LIGOU

 

Ainda há pouco me ligou o Erasmo Carlos. Outro dia foi o Jerry Adriani. Antes o Fábio Júnior, se não me falha a memória. Já há mais tempo.

Não quis nem saber de nenhum deles!

Certamente o Erasmo Carlos não estaria ligando para me convidar para uma festa de arromba. Esta ficou enterrada no tempo. Ele e seu parceiro arrombaram a festa há décadas, e ele agora, à meia bomba, entrou nessa de gravar mensagem de alguma operadora de telefonia, ou lá o que seja, para propor alguma coisa que não me interessa.

Aliás o telefone fixo só tem servido quase que exclusivamente para receber esse tipo de mensagem publicitária. Às vezes adentro o sacrossanto recinto do banheiro, para alguma providência de ordem que não interessa a ninguém aqui saber, e o telefone toca. Saio em desabalada carreira, tanto quanto a atividade me permita, e, ao atender a ligação, ouço aquela gravação nojenta. Jamais dei ouvidos a elas. Se estiverem oferecendo toneladas de ouro por um sorriso meu, permanecerei pobre e duro, porque nunca ouvi além do ponto em que constato que é uma gravação.

Não falo com máquinas.

Pode ser que no futuro seja obrigado, como, por exemplo, fazem conosco os serviços de atendimento ao abestado, ou melhor, ao cliente de cartões de crédito, de tevês por assinatura, etc., etc., etc.

Por isso não sei do que se trata.

Mas hoje foi o Erasmo Carlos que me ligou. Achei a voz simpática. Gosto do Erasmo. Tenho vários de seus discos. Ele sempre me pareceu “uma criança que não entende nada”, bonachão, boa gente. Gostaria mesmo de bater um bom papo com ele.

Como artista, por exemplo, fez nesses últimos anos o disco mais importante de sua carreira, segundo meu fraco juízo de valor: Rock N Roll (2009). Acho até que superior a Banda dos Contentes (1976), de que tenho a bolacha de vinil e o cd.

Teria o maior prazer em lhe dizer que sou seu admirador de décadas, tentar discutir com ele gravações antológicas da nossa música como Coqueiro verde (Erasmo e Roberto), Continente perdido (Ruy Maurity e Zé Jorge), Sentado à beira do caminho (Erasmo e Roberto), Sou uma criança, não entendo nada (Erasmo e Ghiaroni), Panorama ecológico (Erasmo e Roberto), Mesmo que seja eu (Erasmo e Roberto), Olhar de mangá (Erasmo), Noturno carioca (Erasmo e Nelson Motta). Mas não quero ouvir a oferta que ele tem a me fazer.

Em princípio não compro nada que me oferecem. Compro aquilo de que necessito ou que quero. Se o vendedor insistir muito, desconfio. Como por exemplo, as ofertas maravilhosas da minha operadora de telefonia que, após examinar minha conta, me oferece plano para que eu economize nas despesas. Dá para acreditar nisso? Pois eu acreditei duas vezes. E, nas duas vezes, minha fatura aumentou. Nunca mais aceitei essas ofertas supostamente benéficas.

Pois então, Erasmo, me ligue da próxima vez para batermos um papo legal. A única coisa que você ofereça e que eu compre é seu novo disco, assim que ficar pronto. Só para aumentar a minha coleção. De resto, fico só na plateia aplaudindo sua arte.

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(Caso queira ouvir Panorama ecológico, clique sobre a imagem abaixo.)

PARALIMPÍADAS/PAROLIMPÍADAS

A propósito do início de uma nova etapa nos jogos olímpicos RIO 2016, trago aqui uma discussão muito restrita, mas também com sua relevância. Pelo menos, para mim que tenho o maior zelo com o uso dessa nossa tão bela língua portuguesa.

Há duas edições das Olimpíadas para atletas com restrições físicas, os organizadores resolveram chamar esses jogos de PARALIMPÍADAS, embora tais jogos tivessem sido designados até então PAROLIMPÍADAS.

A mudança é um erro linguístico, ou, pelo menos, normativo, no uso da nova palavra.

Ela é constituída do prefixo de origem grega PARA e da palavra OLIMPÍADA, já consagrada. Ora, no momento da criação da palavra, que se dá por prefixação – é uma derivação, do ponto de vista gramatical –, isto é, a adjunção de um prefixo a um vocábulo, há a perda de um elemento fonético. Isto ocorre sempre em que há uma vogal ao final do prefixo e uma vogal no início do vocábulo principal. Tal vocábulo é sempre uma palavra, quer dizer, um substantivo ou um adjetivo que traduzem um sentido do mundo (um ser ou uma qualidade).

Em princípio, todos os nomes – substantivos e adjetivos – são vocábulos tônicos, isto é, vocábulos com força fonética em sua emissão no âmbito da frase, a unidade básica de comunicação verbal. Ao passo que os prefixos e os sufixos são elementos de composição – não-palavras, mas vocábulos gramaticais – átonos, isto é, de emissão fonética branda, sem força nesse mesmo contexto.

Assim, via de regra, quando há perda de um elemento fonético, ao se combinarem prefixo + palavra, é o prefixo que perde fonema, e não a palavra.

O prefixo PARA, entra, por exemplo, na composição de PARÔNIMO, PARONOMÁSIA, que são a combinação, por derivação, do mesmo prefixo PARA, mais o vocábulo de origem grega ÔNOMA (=nome), para formar esses novos vocábulos (“nome semelhante”).

Por esta razão, a palavra a designar as Olimpíadas de atletas com limitações físicas deveria ser PAROLIMPÍADAS e não PARALIMPÍADAS.

 

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A NOVA BATALHA DE ITARARÉ

 

Agora a nossa Batalha de Itararé é em defesa do biscoito de polvilho Globo, vilmente atacado por um pasquim norte-americano.

Eu mesmo, contudo, já tive sérios problemas com ele, o biscoito (O jornal nunca vi, nunca li, eu só ouço falar!), no tempo em que usava lentes de contato e estava no Maracanã vendo meu Botafogo. O vento trazia migalhas de biscoito que caíam direto nos meus olhos. Era um inferno! Parecia que todo o Maracanã comia biscoito Globo apenas para me sacanear. Por isso é que, por aquela época, suspendi o consumo, só de birra.

Entretanto devo cerrar fileiras com os nacionais cariocas na defesa do tal biscoito de vento, porque ele é um tremendo engana fome. Mastiga-se o nada, engole-se o nada, e sente-se a sensação inefável de que aquele troço com gosto estranho, sem massa, sem consistência e sustança, sacia a fome. Ilusão passageira, aliás!

Comido acompanhado de café, deixa um retrogosto de ovo, desgraçado! E, se comido aos pacotes, produz nos lábios a sensação de que se passou parafina ou cera líquida Poliflor, incolor e inodora. A única possível harmonização gastronômica do biscoito é com o mate que se vendia aos copos, direto de barricas que os vendedores levavam às costas, durante os jogos. Então o biscoito atingia a excelência de sabor que os cariocas supõem que ele tem, apenas estando nos saquinhos fechados à mão, como nos velhos tempos.

E, se agora ele está a produzir uma guerra semelhante à Guerra da Lagosta dos anos 60, em que nossas obsoletas belonaves se dispunham a enfrentar o poderio atômico francês em águas nacionais, posso garantir que já vi uma quase briga por causa do biscoito.

Pelos anos 90, estava um camelô na calçada do Museu Naval, na Rua São José, oferecendo a iguaria. Tinha dois sacos grandes – um com biscoito doce, outro com salgado –, quando um senhorzinho baixinho se aproxima e pergunta pelo preço. O camelô, então, informa que é cinquenta centavos. O senhorzinho, habituado a pagar dois paus no Maracanã, retruca que o produto então deve ser velho. O jovem vendedor, contudo, informa que o produto é fresquinho, recém-saído do forno. O terceiro-idoso, com o abusamento próprio da sua faixa etária, conclui a conversa:

– Cinquenta centavos?! Então é produto de roubo!

Saí rápido do local para não testemunhar o assassinato de um velho.

Agora, no entanto, estou na defesa do biscoito de vento Globo. E contra a total insensibilidade gastronômica do correspondente ianque, naturalmente habituado a comer hambúrgueres e assemelhados e, portanto, sem a sofisticação do nosso paladar, o qual publicou a denigritória matéria sobre esta iguaria carioca.

Tenho comido! Aliás, tenho dito!

 

Imagem em correio24horas.com.br.

VERSOS DE CIRCUNSTÂNCIA

Tinha entre os rascunhos uns versinhos despretensiosos, como aliás tudo que faço, sobre a figura do desalojado presidente da Câmara dos Deputados. Mas não os publiquei então, tomado de certos pudores que ainda trago comigo. Hoje, contudo, diante da providência do ministro Teori (Não vou escrever seu sobrenome porque estou com preguiça de pesquisar no Google.), resolvi postá-los aqui, tal como é da tradição da poesia de escárnio e maldizer em língua portuguesa. Apenas me permiti usar um asterisco incoveniente, para não ficar extremamante inconveniente.

Aí vão.

O seu Eduardo Cunha
Será cunhado afinal
Receberá uma cunha
No orifício retal
De tal jeito que tal cunha
Lhe cause tão grande mal
Assim como nos causou
Com o desvio da estatal
De um dinheiro chorado
Em volume colossal
De modo que ao ser cunhado
Sinta-se ele afinal
Cunhado com a cunha no c*
Etecetera coisa e tal.

Imagem em pt.dreamstime.com.

ANÁTEMAS, ESCÁRNIOS E IMPRECAÇÕES

 

*Desfez-se a antiga aliança entre PT e PMDB. Agora os novéis opositores acusam-se mutuamente pelos erros na condução da administração federal. É um dos casos brasileiros de que os dois opostos estão abarrotados de razões.

*O PMDB desembarcou do governo federal. Nos estados e municípios, as alianças continuam as mesmas. Há sinceridade nisso?

*A coisa só não ficará mais feia com o Temer na presidência, porque a primeira dama é bonita que só ela.

*Vasco e Flamengo empataram novamente. Bem feito para os dois!

*O futebol brasileiro, depois de experimentar alguns anos de encantamento – entre 1958 e 1970 –, entrou definitivamente na Era Dunga, mesmo ainda com o Scolari na última Copa do Mundo.

*Solicitado pela professora a construir uma frase com três advérbios, Joãozinho cunhou esta: Sinceramente Cunha atualmente somente.

Diferente do que pensam os brasileiros acerca dos poderes da república, o único poder hoje entre nós é o do Aedes Aegypti.

*Qualquer decisão jurídica, por mais imparcial que seja, só presta se for a meu favor. Caso contrário, é deslavada injustiça.

*Durante anos, convivi com um amigo de trabalho que apoiava a ditadura militar, enquanto eu era contrário. Nunca deixamos de ser amigos. Só não tocávamos no assunto, que era um ponto de provável atrito entre nós. Em tempo: este meu amigo é uma das pessoas mais éticas que conheço e de uma lealdade inquestionável.

*Gostava mais da política que se fazia sem sectarismos e sem ódios. No fundo, todos os partidos políticos pretendem mesmo é o poder e sua manutenção.

*Nossa atual situação já estava prevista no título de uma antiga peça teatral de autoria de Ferreira Gullar e Oduvaldo Vianna Filho: Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come.

*Há cerca de quinze dias, foi estendida, na grade da Praça Getúlio Vargas, em Niterói, uma grande faixa com fundo preto, letras garrafais brancas, com o a frase: NO BRASIL OS PARTIDOS POLÍTICOS SÃO FACÇÕES CRIMINOSAS. Havia, no canto inferior esquerdo, um número de protocolo do TRE-RJ, como que a autorizar sua exposição. Obviamente que, embora todos saibamos que nossos partidos estejam contaminados, a supressão deles necessariamente só ocorreria em uma ditadura, o que, convenhamos, é ainda pior do que o estado atual.

*A democracia é o único sistema político em que eu posso falar os maiores absurdos e não ser preso por isso. Nas ditaduras, até mesmo – e sobretudo – as verdades são perigosíssimas para a saúde do falante.

*Aquela cara de satisfação disfarçada que o Michel Temer tem apresentado com mais frequência em público não é porque esteja pretendendo a presidência. Aliás, longe dele fazer essa tramoia com a antiga aliada. É apenas para escarnecer de quem o inveja pela provável primeira dama.

*Maldito o que vem em nome do corruptor!

*Tenho certeza de que alguns beneficiários ilícitos da grana da Petrobras lamentam muito o fato de que o Pré-Sal não produziu fortemente antes da Lava Jato.

*A corrupção no Brasil se tornou tão corriqueira, que, em Fundão-ES, até auxiliar administrativo desviava fraldas geriátricas. Isso só poderia dar merda. Como deu, aliás!

*O Estado do Rio de Janeiro reinventou a velha situação estou-dentro-estou-fora, tão conhecida de todos. O Picciani pai, presidente da Assembleia fluminense, rompeu com o governo Dilma. O Picciani filho, ex-atual-futuro-ex-líder do PMDB na Câmara, apoia Dilma. Ambos são do PMDB.

 

 

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GOLPE OU NÃO?

O insuspeito, para os petistas, ministro Dias Tofolli disse, há pouco, à imprensa algo que tenho repetido domesticamente com meus amigos: o processo de impeachment não é golpe. É um instrumento constitucional previsto na Carta Magna brasileira. E não significa, apenas pela sua deflagração, que a presidente da república será impedida de terminar seu mandato. Ela só o será, se houver a materialidade necessária para a continuação do pedido e se não tiver a maioria na Câmara dos Deputados. Mas, mesmo ainda aqui, restará o julgamento definitivo no Senado da República, sob a presidência do ministro chefe do Supremo Tribunal Federal, em que ela também poderá sair vitoriosa. Vejam, então, que há todo um caminho jurídico e parlamentar a ser percorrido, até que se possa atingir o impedimento da presidente. E, ainda que ela sofra a pior consequência do processo, ainda assim, não será golpe. E significará, apenas, que ela perdeu o apoio que tinha, para continuar a gerir o país. Gerir, aliás, com extrema incompetência, neste segundo mandado.

Tudo está previsto na Constituição.

O que os defensores do governo acusam hoje como golpe são as articulações político-jurídicas que levem a efeito o processo de impeachment, aliás as mesmas articulações que ontem o PT e outros partidos de oposição a Collor fizeram em 1992.

Se àquela época, sobretudo a juventude cara-pintada liderada pela UNE, com o atual senador Lindberg Faria à frente, ia às ruas pedir o impeachment, hoje quem o faz é uma massa não-partidária que se mostra perplexa diante de vários fatos negativos a rondar nossa vida econômica e política. Meu amigo Zatonio Lahud me disse – e acho que ele tem fundadas razões – que, se a economia estivesse aquecida, o nível de emprego em ascensão, os índices sociais nas alturas, dificilmente o povo estaria na ruas a bradar contra o governo. Está ocorrendo com o país o que, mais ou menos, indica o velho provérbio: Em casa onde não há pão, todo mundo fala e ninguém tem razão.

E todo esse movimento “Fora Dilma” é o outro lado da moeda de velhos movimentos predecessores: “Fora Sarney”, “Fora Collor”, “Fora FHC”. E o amigo Zatonio veio lembrar-me de que também Itamar Franco teve essa cantilena a perturbar seus ouvidos, com o pedido de impeachment solicitado pelo então deputado Jaques Wagner do PT-BA (Mandou inclusive a página da Folha de São Paulo* da ocasião.), sem grandes efeitos.

Aqui no Brasil, dias depois de instalado um governo, a oposição já manda pintar as faixas e começa a bradar seus bordões de “fora”.

No entanto nosso grande problema é que só sentimos as pedradas, quando viramos vidraças. Enquanto estamos atirando as pedras, não sentimos a dor do seu impacto.

E, se chegarmos à tragédia da guerra civil – o que não espero –, todos choraremos muito mais do que o impedimento de um governo que está sendo, pouco a pouco, abandonado pelas suas próprias bases. O PT foi um dos que começaram a criticar o governo Dilma. Agora está apavorado com a possibilidade de ser desapeado do comando do Executivo.

Só desejo que tenhamos um pouco mais de serenidade.

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*Para ler a notícia do impeachment de Itamar Franco, clique no nome do jornal.

UM MAR DE LAMA

Desde o ano de 2014, resolvi deixar o futebol no lugar que merece em minha vida: num canto escuro da casa, num escaninho menor do meu cérebro nervoso.

Além do rebaixamento do meu Botafogo à série B do campeonato brasileiro, a famigerada Segundona, pela segunda vez (Carimbamos a volta à Série A no jogo de ontem, contra a Luverdense.), houve o episódio trágico da Copa do Mundo da FIFA em terras brasílicas e o vexatório placar de 7×1 para a equipe alemã. Nunca na história desta Seleção, houve derrota igual, mais humilhante, mais sem propósito. A tragédia da Copa de 50, conhecida como Maracanazo, quando perdemos para a seleção uruguaia, pareceu coisa de criança diante desta última derrota.

Aliás, por falar nisto, vi o blog do jornalista argentino Fernando Taveira, que estampa em uma de suas crônicas que houve suicídio em massa no Brasil pela derrota da Copa de 50. De fato, ele não conhece o brasileiro! Nem quando o Getúlio Vargas, o Pai dos Pobres, se matou, houve suicídio de brasileiros.

Pois estou eu agora falando de algo que deveria estar morto e enterrado, para o bem de todos, porque à miúde sou acordado em plena madrugada, aos sobressaltos, com mais um gol da Alemanha ressoando em meus ouvidos. E olhem que sou acometido por um zumbido terrível desde a infância – ainda agora, no momento em que traço essas linhas, estou a escutá-lo em surround estereofônico.

Se não consigo entender por que a Maitê disse que não vai ficar pelada, como havia prometido, caso o Glorioso voltasse à elite do futebol tupiniquim, muito menos entendo esse meu estado diante de um fato consumado, com uma seleção que, de modo algum, despertou a minha menor paixão. Há muito que o time da CBF vem com a suspeita de ser uma equipe armada pelos interesses da cartolagem, de certa mídia e de empresários que lucram horrores com este futebol de segunda.

Deixamos de ser, já há algum tempo, o melhor futebol do mundo. Quando os meninos interessados procuram uma escolinha de futebol e começam a ser treinados na parte física e tática, isto significa dizer que o futebol arte já deixou de existir. E por esta visão deturpada do verdadeiro sentido do futebol brasileiro, chegamos ao estágio atual.

Amanhã enfrentaremos a Argentina pelas eliminatórias da suspeitíssima Copa da Rússia 2018. Los hermanos vêm cheios de problemas, contudo periga que nosso time – aliás, o time lá da CBF – apronte o vexame maior, que será não se classificar para Moscou.

Na verdade, estou com muita má vontade com todo esse estado de coisas a que chegamos. O futebol, o esporte mais difundido no planeta, está soterrado sob um mar de lama, sem parâmetro na história. E não é de agora! Agora é que a barragem cedeu e a lama se espalhou por todos os lados.

 

Imagem em fiamfaam.br.