VERGONHA E TEMOR

Ainda me resta um pouco de vergonha na cara, aquele sentimento íntimo de dignidade que meus pais tentaram incutir em mim desde que meus ouvidos se abriram para o mundo. Por isso é que fico envergonhado em ouvir as mais esfarrapadas desculpas de muitos de nossos políticos tentando explicar o inexplicável, o chamado batom na cueca. Não há um único que tenha a dignidade de chegar a público, reconhecer o erro, submeter-se ao julgamento judicial e pedir desculpas à população por sua conduta. Por muito menos, já assistimos na tevê, em janeiro de 1987, o secretário de fazenda – Budd Dwyer – do estado da Pensilvânia matar-se com um tiro na boca diante das câmaras de tevê, envergonhado por ter sido pego em corrupção. E foram apenas 300.000 dólares a grana que embolsou! Troco, para os nossos padrões.

A consequência de uma série de atos de rapinagem que agora vem a descoberto é esse país mergulhado numa profunda crise econômica, social, política e ética, que deixa os cidadãos com um mínimo de prurido moral com vergonha de ser brasileiro.

Nós mesmos construímos isso que aí está. Somos os responsáveis diretos ou indiretos por fazer ascender aos cargos de mando do país uma corja de larápios do dinheiro público. E vemos, deste modo, hospitais em ruínas, escolas à míngua, infraestrutura em frangalhos, economia de pires na mão e o desemprego assolando milhões de lares brasileiros.

O ex-governador e atual presidiário Sérgio Cabral ainda teve o desplante de dizer que deixou o governo fluminense com a população quase em estado de euforia por sua administração. Além de corrupto, é um cínico! E alguns desses que estão presos continuaram a receber as propinas a “que faziam jus” por seus acertos escusos, como o doleiro Lúcio Funaro e o ex-deputado Eduardo Cunha.

E nenhum desses que aí estão com a carne exposta admite a mínima culpa. Nem mesmo explica a carona num jato particular. Como admitir, então, a suposta posse de imóveis, a existência de contas recheadas de dinheiro desviado, a ocorrência de acertos indecentes para o assalto ao bem público?

A se condenar apenas os que assumem a culpa e reconheçam sua conduta indevida e criminosa, não se inscreverá no rol dos culpados um único político. Todos eles alardeiam inocência, desconhecimento de fatos que pulam na nossa cara, tanto quanto as consequências de sua rapinagem, que levou o país a este estado de coisas.

E os nossos tribunais superiores, hem? Com os seus membros indicados pelos governantes, não há como esperar deles qualquer tipo de isenção. Desgraçadamente está enfim chegando à luz do dia a função básica para que foram criados: fazer o jogo do poder, numa política de troca de favores. É difícil pensar que um magistrado nomeado por um presidente ou governador tenha a isenção necessária de julgar algo que vá contra aquele que o nomeou. Seria necessário que ele se desse por suspeito, pelo menos no sentido jurídico do termo. Mas como esperar isso? Então os nossos tribunais superiores estão muito mais para órgãos de validação das ações do poder, do que para o exame isento de tais ações.

No fundo, fica a sensação de que a sociedade civil, representada por nossa classe política, perdeu a oportunidade de construir um país decente, a partir do fim da ditadura militar. Esbravejávamos contra a presença dos militares no comando do país, fomos às ruas e praças do país pedindo, exigindo o retorno do sistema democrático representativo, o direito a que nós mesmos escolhêssemos nossos mandatários, e escolhemos patrícios cheios de cupidez.

A nossa classe política, com seu comportamento imoral, que levou o país a isso que aí temos, dá munição para que os que têm horror à democracia de vir à tona bradando pela volta de regime de exceção. Os mais novos não têm noção do que seja isto, embora o panorama atual seja execrável.

Por isso, este misto de vergonha e temor. Aonde chegaremos?

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Hieronymus Bosch, detalhe de Cristo carregando a cruz, séc, XVI, Museu de Belas Artes de Ghent (em ufgrs.br).

A CARNE É FRACA, MAS A PROPINA É GORDA

 

A opinião pública brasileira ficou espantada com a operação Carne Fraca da Polícia Federal. Primeiro, porque passou a desconfiar, sem deixar de comer, da qualidade da carne brasileira. Segundo, porque não sabia que a inspeção federal, traduzida naquele carimbo azul na gordura da picanha, seria para valer. Achava que era tão-somente um elemento decorativo na peça carnal. Terceiro, porque aguardou por uma queda significativa no preço da carne e isso não aconteceu. O churrasco do fim de semana continuou valendo o mesmo cascalho que antes. Queda acentuada, apenas na vergonha nacional. Se bem que não sei se há mais como cair!

Por outro lado, ficou também preocupada com a repercussão internacional que a operação desencadeou. Vários importadores da carne nacional suspenderam seus pedidos, em nome da segurança alimentar de seu povo. Como a China, por exemplo.

O governo chinês, cioso de sua responsabilidade sanitária, foi um dos primeiros países a barrar a continuação da entrada de carne bovina brasileira no país. Ficou muito desconfiado de que nossa inspeção não seja confiável, mas apenas coisa para inglês ver. Mais ou menos por aí. E manteve a permissão de que seu povo continue a comer carne de cachorro, escorpião, cobra, grilo, gafanhoto e um bom número de outros insetos voadores e rastejantes, servidos em restaurantes populares e barraquinhas de feiras livres, com todo o cuidado higiênico possível.

Também a desenvolvida e rica Coreia do Sul voltou a comer cachorro, até que comprove que nossa carne não faça mal à sua população. Não o cachorro-quente, é óbvio, mas aquele canídeo quadrúpede, parente próximo do lobo, que nas altas esferas também atende pelo nome de cão.

Isso só para citar dois exemplos exemplares. Uns e outros países aí, inclusive, talvez não conheçam uma vaca em pé, como nossas crianças urbanas, que acham que galinha existe apenas na forma congelada e em gôndolas de supermercados.

Segundo nossas preocupadíssimas autoridades, apenas vinte por cento da produção de proteína animal, como gostam de dizer os técnicos do assunto, são exportados. Nós mesmos comemos os outros oitenta por cento, grande parte disso pelo povo gaúcho, com sua irrefreável paixão por uma carne churrasqueada, tchê!

Deste modo, se se baixar o preço em vinte por cento, os brasileiros, que jamais fogem à luta, se comprometem a comer os outros vinte por cento, e ninguém ficará no prejuízo. Não se fecharão frigoríficos, não se perderão empregos, aumentar-se-á – como é do vezo do presidente falar – também o consumo de cerveja, e o governo não deixará de recolher seus queridos impostos. Até o povo da propina poderá manter seu gordo e lucrativo cala-boca, o faz-me-rir, o pixuleco, na santa paz do jeitinho brasileiro de fazer as coisas.

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CONSELHOS, OBSERVAÇÕES E ELUCUBRAÇÕES INÚTEIS

1. A melhor forma de desenformar um bolo de uma forma quente é desta forma: coloque a forma quente numa forma de forma maior em que se coloca água, de forma que a forma quente entre em contato com a água fria na forma até então vazia, até que se forme uma camada fria na forma que enforma o bolo. Desta forma você pode desenformar o bolo. Fácil assim!

2. O Brasil é um país tão engraçado, que dá oportunidade a que um partido assuma o governo com o compromisso de moralizar a coisa pública e saia mais desmoralizado do que entrou. E o seu sucessor, com o mesmo propósito, segue na mesmíssima batida.

3. Na crise brasileira, o fundo do poço é tão mais profundo, quanto mais a crise se aprofunda, de modo que, um dia, ainda vamos dar no Japão.

4. Gato tem sete vidas apenas para aporrinhar várias gerações de seus donos.

5. Todo bichano é bicho, mas nem todo bicho é bichano.

6. Algumas igrejas aí produzem tantos milagres por dia, que até Deus desconfia.

7. Contrariamente ao que seria de se esperar, no Jalapão não há jalaponês.

8. Já disseram alhures que a vida pública no Brasil é uma privada. Que merda!

9. Vários homens públicos brasileiros estão mais desmoralizados do que a mãe que o vulgo lhes atribui e cuja vida já é bastante desmoralizada.

10. Diz-me com quem fazes aliança política e te direi quem te trairá.

11. O objetivo básico de todo governo é recolher impostos. Todo o resto é acessório.

12. A crise econômica brasileira chegou a tal ponto, que levou os dirigentes da CBF a inventarem, para a Copa do Brasil deste ano, o empate que ganha jogo. Aí se economiza a partida da volta.

13. Contrariamente ao que preceitua o texto bíblico, os últimos continuarão lá na rabeira da fila.

14. Pelo menos, pelo que a ciência ictiológica sabe, a traíra não trai, o lambari não lambe e o sairu não sai. Já o pacu…

15. Os coveiros podem fazer quantas greves quiserem e puderem, que nós vivos continuaremos sem lhes dar o menor apoio: continuaremos a morrer do mesmo jeito.

16. Aprendi a ser uma pessoa conformada. Na infância sempre ouvia dos adultos, diante das dificuldades, que desgraça pouca é bobagem. Até hoje continuo acreditando nisso.

17. O único abatimento concreto no Imposto de Renda é o do contribuinte ao fazer a declaração anual de ajuste.

18. Sempre que uma dúvida o assaltar, faça um BO numa enciclopédia, ou no Google.

19. Bem-aventurados os que ainda podem comer uma feijoada completa, sem necessidade da posterior e salvadora dose de bicarbonato de sódio.

20. Todas as minhas taxas estão controladas. Menos IPTU, IPVA, ICMS, IR, IPI, ITR   , IVA e até uma tal CCCCN (Contribuição à Comissão Coordenadora da Criação do Cavalo Nacional).

21. Um crime tripamente qualificado é produzido pelo vatapá estragado que produz o chamado piriri-gangorra.

22. O que complica a vida moderna é a quantidade de especialistas dando dicas de como bem viver. Ninguém consegue acompanhar tantas boas orientações!

23. Nunca se vê, em campanhas promocionais de clínicas de beleza, uma pessoa idosa que tenha rejuvenescido. Sempre há uma bela jovem, de corpo escultural, a garantir a eficiência do tratamento de que ela jamais fez uso.

24. Para piorar a solução de qualquer problema, é só instituir uma comissão de alto nível para resolvê-lo.

25. As grandes invenções da humanidade sempre foram obras solitárias de uma única mente brilhante. O que não funciona direito foi bolado por um grupo de trabalho.

26. Tenho verdadeira ojeriza a conselhos e orientações edificantes. Não é que eu saiba errar sozinho. Até para isso preciso de ajuda. Mas é como dizia meu primo: se conselho fosse bom, seria vendido.

 

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Abrahan van der Hecken, O filósofo (1635). Museu do Prado, Madri.

DEZ MANDAMENTOS DO CORRUPTO

Aproveitando que ainda não fomos destruídos por um cataclismo celestial, previsto para depois de amanhã, trago para o amigo leitor os Dez Mandamentos do Corrupto, uma vez que a corrupção não será destruída tão cedo de nossa pátria mãe gentil.

Deus há de me perdoar pela insolente apropriação de seus mandamentos solenes.

Aí vão eles.

  1. Amar a grana sobre todas as coisas.
  2. Não tornar seu santo valor vão.
  3. Guardar em domínios secretos.
  4. Honrar mais a que estiver nas mãos.
  5. Não marcar bobeira.
  6. Não deixar para a caridade.
  7. Não furtar só se não puder.
  8. Não aceitar qualquer testemunho contra.
  9. Não dispensar a mulher do próximo.
  10. Não cobiçar as coisas alheias de pouco valor.

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ACERCA DA PRISÃO DE EIKE BATISTA

Finalmente o senhor Eike Batista foi preso preventivamente, por conta de inúmeras suspeitas com seus negócios.

Na verdade, ele já deveria ter sido trancafiado no xadrez desde quando conquistou, sabe-se lá com que argumento$, a Luma de Oliveira no auge de sua exuberância. Ali ele já se tornou réu!

Mas, enfim, após mais uma fase da operação Lava-Jato (Só não apoio integralmente esta operação pela falta da preposição a.), que apura a corrupção no Estado do Rio de Janeiro, Eike foi convidado a se recolher a um dos lugares a que não pretendia ir nessa sua vida de luxo e fraude: uma aprazível cela de um presídio elegante no ameno bairro de Bangu.

É claro que, quando ele se escafedeu para os Estados Unidos dois dias antes da deflagração da operação, ficou evidente que alguém o havia alertado de que a jiripoca ia piar, a cobra ia fumar, a coisa ia catingar chamusco. Contudo, talvez aconselhado por seu advogado, resolveu reconsiderar a fuga, que transformou em viagem de negócios, e voltou à terra.

Ainda no aeroporto de Nova Iorque declarou apoio ao trabalho que se tem feito para passar o país a limpo e disse, candidamente, que voltava como um bom cidadão, a fim de prestar conta de seus feitos e malfeitos. Não chegou a dizer, ao ser perguntado, se tinha agido de forma ilegal. Entretanto, pelo olhar desviado para o lado, no instante da pergunta, confessou tacitamente. E, por sua “conduta cidadã”, espera-se que vá soltar a língua, dar com a língua nos dentes, botar a boca no trombone, trombetear aos quatro ventos tudo aquilo que sabe, a fim de não pegar uma cana mais dura.

E deve ter muita coisa a dizer.

Há alguns anos, o governo federal, via BNDES, resolveu transformar o senhor Eike Batista no maior milionário do planeta, certamente com a intenção de mostrar ao mundo a pujança da economia nacional. E soltou a grana que pertence aos trabalhadores, a juros subsidiados, para erguer o edifício mítico de Eike Batista, que como um Midas ao revés começou a transformar em lama todo o empreendimento grandioso em que se meteu.

Fazer isso com o dinheiro alheio é o que mais tem acontecido no Brasil.

Hoje o senhor Eike Batista, réu desde a conquista da Luma de Oliveira, foi conduzido ao xilindró, e a primeira providência da polícia foi remover aquela perucazinha ridícula que ele portava sobre sua cabeçorra desavergonhada.

Tenho a impressão de que também ela foi adquirida com recursos do BNDES, que deve ser ressarcido dos prejuízos que sofreu com os negóciox das empresax do senhor Eike Batista.

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MALDITA POLÍTICA NACIONAL

Tenho remoído bem lá no fundo do meu sentimento um horror pela política nacional. Não tanto pelos inúmeros e variados casos de denúncia de corrupção dos mais diversos matizes políticos e ideológicos, mas sobretudo pela devastação que o maniqueísmo a que foi lançada a sociedade brasileira – como se houvesse alguém que merecesse nossa solidariedade cega –, está causando entre nós, colocando velhos companheiros em campos opostos.

Nós, os eleitores e contribuintes aqui embaixo, nos engalfinhamos, nos ofendemos, perdemos amizades construídas há dezenas de anos, solidificadas que foram no respeito e na camaradagem, nós aqui embaixo, repito, os sonhadores de sempre que almejam por uma ética inquebrantável, deixamos esgarçar os laços de amizade em nome de uma classe política que está pronta a fazer as alianças mais estranhas e espúrias, pela cobiça do poder.

Não há na política nacional nenhum político inocente. Todos eles, salvo raríssimas exceções entre os mais extremistas, estão dispostos a todo tipo de acerto, de acordo, de conluio. Eu e meu amigo, no entanto, nos estranhamos, esquecemos a amizade profunda que nos une – ou nos uniu até agora – porque queremos que a classe política reflita o que somos. E mesmo nós não somos santos, nem castos. Somos éticos certamente, pois não compactuamos com pessoas sem ética, mas a política tem uma ética extremamente relativa.

E, por causa desta política conspurcada, torpe, gananciosa, perco amigos queridos.

Até então nenhum de meus amigos – e os tenho e tive de todos os matizes ideológicos, políticos, religiosos, sexuais – deixou afrouxar os laços que nos uniam, malgrados os governos que se sucederam no país. Contudo, nesses últimos anos, fomos levados a acirrar as dissensões, como se as ideias tivessem a castidade como norma.

Pois não há religião, ideologia, filosofia ou cachaça de alambique, como já disse alhures, que esteja isenta de erros. Todas são criações do espírito humano, portanto passíveis de erros e falhas.

A amizade que se construiu sobre a verdade de sentimentos não pode sucumbir a uma ideologia, a uma política que, daqui a cinquenta ou cem anos, estará caduca, pelo surgimento de outras tantas, passíveis dos mesmos erros destas que aí estão, porque todas são produtos de nós mesmos, falíveis humanos.

Mas o valor milenar da amizade tem sucumbido à verdade precária destes tempos maniqueístas, como se qualquer dessas personagens que abundam a política nacional merecesse isto.

Maldita política nacional!

Ipê amarelo, já com algumas folhas verdes; Santo Antônio de Pádua-RJ (foto do autor).

Ipê amarelo, já com algumas folhas verdes; Santo Antônio de Pádua-RJ (foto do autor).

VERSOS DE CIRCUNSTÂNCIA

Tinha entre os rascunhos uns versinhos despretensiosos, como aliás tudo que faço, sobre a figura do desalojado presidente da Câmara dos Deputados. Mas não os publiquei então, tomado de certos pudores que ainda trago comigo. Hoje, contudo, diante da providência do ministro Teori (Não vou escrever seu sobrenome porque estou com preguiça de pesquisar no Google.), resolvi postá-los aqui, tal como é da tradição da poesia de escárnio e maldizer em língua portuguesa. Apenas me permiti usar um asterisco incoveniente, para não ficar extremamante inconveniente.

Aí vão.

O seu Eduardo Cunha
Será cunhado afinal
Receberá uma cunha
No orifício retal
De tal jeito que tal cunha
Lhe cause tão grande mal
Assim como nos causou
Com o desvio da estatal
De um dinheiro chorado
Em volume colossal
De modo que ao ser cunhado
Sinta-se ele afinal
Cunhado com a cunha no c*
Etecetera coisa e tal.

Imagem em pt.dreamstime.com.