NIBIRU É O BICHO!

(Para minha irmã Cristina.)

O planeta Terra, de tão inglória história geológica e humana, será destruído mais uma vez – e agora por duas vezes – no corrente ano da graça e do humor de 2017.

No próximo dia 16, quinta-feira próxima, conforme profetizou um cientista russo – ou seria ucraniano? –, segundo noticiado por um sério pasquim britânico, será a nossa derradeira data de existência como corpo celeste íntegro. Passaremos, após a colisão prevista de um asteroide mixuruca, que atende pelo nome de 2016WF9, à condição de poeira cósmica. Ou não!

Estou muito preocupado com isso. Tenho algumas contas a vencerem em datas posteriores e serei obrigado a dar calote em meus credores. Não poderei fazer nada, já que serei o pó do pó do pó do pó do pó do traque do universo. Como não haverá mais SERASA, meu nome não irá para a lista dos inadimplentes. E isto já me faz ser desintegrado sem maiores preocupações.

E minha irmã Cristina, amiga do Toninho do Tupi, e versada em certas magias ocultistas, também me informou que, no final deste ano, outro cometa, este de proporções gigantescas, dará uma carambolada no nosso planetinha – se é que ele ainda esteja em sua rota solar -, não deixando átomo sobre átomo, íon sobre íon. É o tal do Niburu, de nome esquisito e de muitos maus bofes astronômicos.

Segundo consta, este corpo celeste, que assusta a raça humana desde os sumérios, assírios e acadianos, seria do tamanho da Terra e já teria causado estragos por onde passou. Ele vem lá do cu do universo, queimado gás, atropelando astros e, por sua índole nefasta, vai colidir com este simpático planeta azul que habitamos, ainda este ano, ou o mais tardar no princípio do século XXI. Quer dizer, exatamente agora. Tais informações foram prestadas por dona Nancy Lieder, uma sensitiva ianque, que imagino seja eleitora do Trump, a qual, sem nada a fazer, fica mantendo contato intergaláctico com os nibiruenses. E não adianta nada anotar a placa do bicho, porque ele vem queimando a reta, chamuscando o caminho, devastando as vias lácteas e os cinturões de asteroides. É coisa inapelável e jamais vista por aqui!

Deste modo, se o tal 2016WF9 passar pelo pedágio estelar sem causar danos, o Nibiru fará seu serviço sujo. Ou seremos destruídos duas vezes no mesmo exercício fiscal, tirante, é claro, o projeto do governo de arrochar ainda mais o cidadão brasileiro.

Só por isso, já fico morrendo de rir, antecipadamente, porque essa reforma da previdência proposta pelo governo federal vai dar em nada: estaremos todos pulverizados antes de completar o prazo para a aposentadoria.

Assim, consideradas essas duas destruições a que estaremos sujeitos num prazo de menos de doze meses, esta é a última crônica que posto aqui no blog.

Se, acaso, quem sabe, quiçá, aparecer outro texto posterior a este nesta página, considere que fica valendo a destruição do Nibiru para o fim do ano.

Adeus, amigo leitor! Tenha um feliz cataclismo celeste!

2016wf9

O tal 2016WF9 em seu passeio celeste (em uol.com.br)

DESPREPARADO

Tomei um banho ainda há pouco, vim bisbilhotar a Internet e descobri que o mundo será completamente destruído amanhã (hoje), sem falta. O horário não consegui saber, pois não terminei de ler a informação, preocupado que fiquei em traçar estas minhas últimas linhas, como derradeiro testemunho de um cidadão comum.

Diz o sítio eletrônico BOL que “A seita cristã online eBible Fellowship, com sede nos EUA, previu que o mundo será completamente destruído nesta quarta-feira (7)”.

Ontem (anteontem) mesmo, ao pagar a conta do condomínio, também pela Internet, aproveitei para agendar outras duas que estavam juntas. Perderei meu dinheiro, pois não estarei mais aqui entre nós, no convívio tranquilo desta Cidade Sorriso, e o maldito banco descontará do meu raso saldo o valor delas.

Ah! O banco também não estará aqui? Então menos mal. Vou desaparecer conformado.

Mas, especificamente, sobre mais esta previsão, tenho uma declaração bombástica a fazer, que há de explodir antes do planeta Terra: Vai tomar na olhota, maldita seita cristã online!

O que esses estúpidos profetas do caos pretendem com tais bobagens? O mundo vai acabar? Sei lá! Deve acabar, assim como deve ter começado. Tudo que começa finda. Pelo menos, é o que se sabe acerca das coisas: começaram, acabam! Até mesmo o dentifrício usado no dia a dia tem prazo de validade. Por que o mundo não teria? Possivelmente um pouco mais estendido: coisa de bilhões de anos. E não esse prazo exíguo, logo na época em que vivo!

Mas, porém, contudo, todavia, entretanto, daí aparecer um mané qualquer a dizer que tem o conhecimento de que o troço vai se esboroar com data marcada – a, ainda por cima, sem prazo prévio para que nos preparemos – vai uma distância desgraçada.

Assim como não me preparei, tenho certeza de que também até aquele meu vizinho nojento será pego no contrapé. Pelo menos, para ele, bem feito! Acordará na quinta-feira lá no meio do inferno, já espetado pelo ancinho do cramulhão, sem saber por quê. Desinformado como ele só!

E, ademais, todos os processos contra políticos, autoridades e funcionários públicos e de estatais serão extintos conjuntamente com o planeta. E todos morrerão impunes, como uns anjinhos, prontos a assumirem seu lugar no paraíso.

Nem mesmo o Pizzolato poderá experimentar o conforto das nossas prisões. Não terá tempo hábil para isto. Infeliz dele! Bem feito, também! Quem mandou protelar a volta ao Patropi?

Já o governo da Tia Dilma deixará de ser ameaçado diariamente com um pedido de impeachment, com o que ela terá tranquilidade para levá-lo a cabo, sem oposição, situação e PMDB. Isto será de muito bom proveito. Pena, talvez, que não existirá mais governo, governantes e governados. Mas o que se há de fazer? Não se pode ter o melhor de todas as situações.

Infelizmente também não veremos a Maitê Proença tal qual veio ao mundo – exceto por alguns pelinhos a mais (O que não me causa nenhuma contrariedade. Pelo contrário! Hahaha!). É que o Glorioso não conseguirá fechar a Segundona com a taça e a faixa de campeão, e isto a desobrigará de cumprir a promessa feita lá no início da disputa. Lamentável!

Enfim, ninguém está preparado!

Imagem em tecnodrom.com.br.

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PS 1: Este texto foi feito ontem, dia 6, porque não saberia se estaria vivo para fazê-lo hoje.
PS 2: Se você, leitor, conseguiu ler o texto, é porque fomos mais uma vez enganados pelos profetas do após calipso.
PS 3: Se você não leu, é porque o troço é sério e o mundo foi pro beleléu. Te vejo na eternidade!
PS 4: Caso queira mais detalhe e se estiver vivo, leia em: http://zip.net/bjr7Rn.

EM DEFESA DAS CALÇADAS DE PEDRAS PORTUGUESAS E DO QUEIJO DA SERRA DA ESTRELA

Hoje as tevês estão com dois itens na pauta de notícias que me preocupam bastante. Costumo ficar preocupado com questões menores. As maiores, aquelas cabeludas, deixo para os políticos que elegemos resolverem, pois sei que sempre vai rolar algum, e eu não estarei no bolo da divisão. E também porque sou muito miudinho para resolver grandes questões.

Porém uma das questões de hoje diz respeito a uma consulta pública que um bairro de Lisboa está fazendo aos seus habitantes, para saber se querem manter ou substituir as tradicionais calçadas de pedras portuguesas, por uma mais “moderna” feita de concreto. A outra é a recente implicância do Parlamento Europeu contra o queijo da Serra da Estrela.

Já de saída quero afirmar que sou contra a substituição das calçadas tradicionais, que se espalharam por outros países, sob a alegação de que são perigosas para os transeuntes. Substituí-las por calçadas de concreto não resolverá o problema das quedas, se nenhuma delas tiver manutenção. Os buracos produzidos em qualquer tipo de calçada devem ser tratados de imediato. O que se exige é uma manutenção preventiva, a fim de que não se desfigure uma cidade, em função da presunção de se proteger a saúde do seu morador. Em qualquer calçada, haverá quedas, pois somos propensos a cair, já que andamos com duas pernas. Necessário, então, é manter a calçada em ordem.

Quanto ao queijo, aí acho a coisa até suspeita! Alega o Parlamento Europeu que a flor do cardo, que é utilizado na fabricação do queijo como coalho, não é reconhecido como tal pelo douto Parlamento. À merda com a sabedoria do Parlamento! O queijo existe desde o século XII, é um dos produtos mais emblemáticos de Portugal, reconhecido no mundo inteiro por sua qualidade excepcional e paladar indescritível. Vem agora, depois de quase mil anos, o Parlamento Europeu dizer que desconhece a flor de cardo com esta função! E o que sabe de sabores, paladares, prazeres, o Parlamento Europeu? O que entende ele de culinária, queijaria e quejandos, para ficar cagando regras sobre a utilização popular e tradicional de uma cultura nacional?

Há alguns anos ele se meteu a cagar regras sobre a qualidade das bananas importadas pela Europa, o que praticamente impossibilitaria a entrada da fruta no continente. Os alemães, os maiores comedores de bananas do mundo, se revoltaram e o Parlamento Europeu retrocedeu nas exigências.

Às bananas o PE!

Há pouco, e já referi isto em postagem em Asfalto&Mato, a Secretaria de Saúde de Bom Jesus do Itabapoana, minha terra natal, se meteu na comercialização de queijos artesanais, proibindo sua venda no comércio local. É uma pretensão descabida! Que se faça a fiscalização sobre a higiene na produção, mas que não se leve um tradição culinária ser extinta por pretensa preocupação com a saúde pública.

Vejam esta rápida história, para notarem a diferença entre comportamentos. Quando tinha lá meus vinte anos, fui acometido por uma sinusite incomodativa. Meu tio avô Raul Figueiredo, quando soube, disse para minha mãe que tinha um remédio tradicional infalível: buchinha do norte. Fui, então, ao médico em Itaperuna – Bom Jesus não tinha médicos da especialidade, à época –, para me certificar de que, de fato, era sinusite. Feito o competente exame de raio-X, o médico confirmou a sinusite e passou uma receita, que, segundo ele, iria aliviar os sintomas, já que, àquela altura, a cura era difícil. Corajosamente lhe disse:

– Doutor, vim aqui ao senhor para confirmar se é realmente sinusite. Tenho um tio que faz uma infusão de buchinha do norte que é tiro e queda.

Sabiamente humilde, o médico me respondeu:

– Pode usar. Infelizmente não posso receitar, mas é a única coisa que cura sinusite.

Vejam a diferença de postura de um homem de ciência, que sabe reconhecer o valor das tradições e do saber do povo.

Agora, os pretensiosos deputados do Parlamento Europeu se metem a besta com uma das joias de Portugal!

Em defesa das calçadas de pedras portuguesas e do queijo da Serra da Estrela! Abaixo o Parlamento Europeu e o concelho do bairro lisboeta!

 

Queijo da Serra da Estrela (imagem em entrepratosecopos.xpg.uol.com.br.

CORRENTES

Não sou dado a correntes de nenhuma espécie e de nenhuma motivação. Sejam elas religiosas, econômicas, metafísicas, literárias, políticas ou apocalípticas.

Lembro-me de uma que chegava ainda em forma de carta selada, décadas atrás, via Correios, com recomendação de que copiasse a muque vinte textos semelhantes e mandasse a meus amigos, sob pena de ter a vida transformada num inferno, como ocorrera com um certo Capitán Gusmán, do glorioso exército venezuelano, o qual, tendo recebido  a dita corrente, por motivos de descrença, não a manteve e foi rebaixado ao posto de soldado raso num par de meses, foi corneado pela mulher e teve a casa incendiada por um raio, numa noite de tempestade. Era muita desgraça para quem a quebrasse, como aquele infeliz.

Jamais, em tempo algum, por nenhum motivo, acreditei nesse tipo de baboseira. Principalmente depois que deixei de acreditar em Deus. Ora, se eu não acredito em Deus, por que, cargas d’água, vou acreditar num monte de asneiras que o ser humano inventa, para aporrinhar seu semelhante. Que é, na verdade, o que o homem mais sabe fazer: aporrinhar seu igual.

Por conta disso, também deixei de acreditar em homeopatia, em alopatia e na ciência de um modo geral. Tudo porque descobri, durante minha vida de professor, que as verdades científicas, na verdade, são mentiras nem tão sinceras, cuja validade tem prazo limitadíssimo, sobretudo com o passar do tempo.

O que é verdade é o que não é verdade. Aliás, o que não se arvora a verdade.

Qualquer grande texto literário, feito com cuidado, por autor que conhece – ou conhecia – seu ofício ainda vale até hoje, não importam os séculos decorridos de sua produção. Ao contrário, qualquer texto científico de cinquenta anos atrás é hoje tido como crendice e passível de boas risadas quando o lemos.

Assim, então, não creio em correntes. Apenas nos grilhões que nos forjava da perfídia astuto ardil, como reza o Hino da Independência, composto pelo glorioso Dom Pedro I, misto de governante, músico e fauno, em parceria com o jornalista, político e poeta Evaristo da Veiga, que acabou por se tornar uma rua no Centro do Rio de Janeiro.

E não é que, vez em quando, recebo via e-mail correntes as mais diversas.

É muito engraçado: a tecnologia avança, mas o sero mano (conforme grafia de vestibulando) continua a mesma besta quadrada de sempre. Continua acreditando nas possibilidades impossíveis, com promessas vindas dos confins dos bits, dos bytes, do cacete a quatro.

Nunca dei sequência a qualquer corrente que me tenha chegado às mãos.

Talvez isso explique porque nunca ganhei na mega-sena acumulada. Ou a Luana Piovani nunca me tenha dado bola.

Vai ver!

Luana Piovani (em jaruonline.com.br).

CASO MÉDICO: O HOMEM É MULHER

Passeava há pouco com meu netinho e, na volta para casa, dei uma olhada rápida nos jornais expostos na banca em frente ao banco. Lá estava exposta uma tragédia pessoal: um homem de 66 anos – um só ano mais novo do que eu – pela primeira vez foi a um médico, o que em si não é propriamente uma tragédia, e descobriu que é mulher.

Ora, como pode ser uma coisa dessas? Confesso que não li a notícia, mas o direito inalienável ao pitaco não exige conhecimento prévio de qualquer natureza, para que se saia por aí falando sobre tudo e todos. Então vou exercê-lo soberanamente aqui.

Voltemos, então, à pergunta: como é que pode uma pessoa passar sessenta e seis anos da vida pensando que é homem, e um médico qualquer, despreparado, formado não se sabe onde, jogar na cara dele que ele é mulher?

– Seu Jeroboão, infelizmente tenho de lhe informar que o senhor não é homem, seu Jeroboão! O senhor é mulher, pelo que pude examinar.

– Mas, doutor, e esse troço pendurado aqui no meio das minhas pernas?

– Isso, seu Jeroboão, é o que a ciência chama de hipertrofia do clitóris. Isso não é um pênis, seu Jeroboão, é um clitóris. E só mulher tem clitóris. E pelo que vejo é uma hipertrofia e tanto. Valha-me Deus! Confesso ao senhor que nunca vi uma hipertrofia deste tamanho neste órgão.

– Mas, doutor, o senhor há de me desculpar a ignorância: e essas bolotas penduradas logo embaixo?

– Outra aberração da natureza, seu Jeroboão. Pelo que a ciência informa, elas não poderiam estar aí, já que tecnicamente o senhor é mulher.

– E o bigodão? E a barba que tenho de fazer sempre?

– Conheço muita mulher barbada, seu Jeroboão. O senhor nunca foi a circo que tem mulher barbada? Pois é! É a mesma coisa. Na minha família, seu Jeroboão, tinha uma tia por parte de pai, uma tia avó, que tinha barba e falava grosso como o senhor. Infelizmente já faleceu, que Deus a tenha!

– Sei não, doutor, acho que o senhor está enganado. Eu nunca fiquei incomodado. Mulher não fica incomodada todo mês?

– Também a ciência explica o seu caso: quando há hipertrofia do clitóris e essas bolotas se desenvolvem desembestadamente, as regras não vêm. Ficam inibidas pelo resto da vida. E de regras passam a exceção, seu Jeroboão!

– Tá na ciência isso, doutor?

– Claro que está, seu Jeroboão! Ou o senhor está achando que sou um charlatão! Passei anos da minha vida estudando o assunto e posso garantir, sem erro, que tudo isto está na ciência.

– E como é que vou explicar à Dulcina, minha mulher, com quem tenho sete filhas, mais os netos que vieram, que eu sou mulher nessa altura da vida, doutor?

– Ai, seu Jeroboão, o problema é seu! É bom o senhor mandar investigar, porque é muito esquisito. Nunca soube que mulher transando com mulher desse em procriação. O senhor, por acaso, não tem um vizinho muito chegado, muito amigo? É bom averiguar, seu Jeroboão, porque aí tem truta.

Jeroboão estava transtornado com a notícia do médico. Pensou que talvez tivesse sido melhor nunca procurar um doutor formado. Lá no seu sitiozinho perdido no alto da serra, vivia muito bem, tratando-se com ervas e plantas.

E agora o que faria? Como falar com Dulcina, mulher de sérios princípios religiosos, que ela esteve casada com outra mulher por mais de quarenta anos. E, pior, que a sua parceira – ele – nunca tinha negado fogo. E também ia tirar umas suspeitas com o compadre Tonhão Campista, vizinho de propriedade e muito chegado à família. Tanto que é padrinho das sete filhas dele. Miserável do compadre Tonhão Campista, pensou Jeroboão lá com seus botões.

Pagou a consulta ao médico, que lhe deu o receituário com reguladores de menopausa e a seguinte recomendação, assim que saía do consultório:

– Seu Jeroboão, e trate também de ir a um cartório trocar esse nome. Que não pega bem uma mulher como o senhor com esse nome de macho.

Imagem em letrasmusicadas.blogspot.com.

VOU FUNDAR UMA IGREJA, PORQUE NÃO SOU BOBO

Lá por volta d 1988, tínhamos em casa uma funcionária de prendas do lar. Era uma jovem – tinha cerca de vinte anos –, era bonitinha, evangélica e tímida, embora gostasse de conversar comigo, sempre que eu chegava do trabalho.

Certo dia, me disse que estava com muita pena de um irmão que não podia mais frequentar a igreja. Perguntei-lhe a razão, imaginando algum problema de saúde, e ela me disse que ele estava desempregado e não podia pagar o dízimo. Assim não lhe era permitido frequentar regularmente os cultos.

Na época, já militava nas fileiras satânicas do ateísmo e lhe falei da minha estranheza em, justamente numa fase de agruras como aquela, a igreja se recusar a ajudar o irmão necessitado.  Ela ficou sem graça e não soube explicar as razões religiosas da interdição. Que eu sabia! Eram razões dizimais. Não pagou, não frequenta.

Um pouco depois, ocorreu o escândalo do pastor televisivo norte-americano Jimmy Swaggart, flagrado com prostituta num motel no Texas.

Ao chegar a casa, ela me disse um tanto espantada:

­- Seu Saint-Clair, o pastor foi pego com a irmã num motel.

Ela, então, achava que a prostituta, naturalmente paga em dólares, fosse uma irmã de fé. Do alto (ou do baixo, nunca se sabe!) da minha total apostasia, disse-lhe uma frase que, tenho para mim, foi uma das mais bem cunhadas nesta minha vida de mediocridades. E que lhe causou estupefação.

– O pastor também é filho de Deus!

Sempre fui um cara comedido, centrado. Isto não é, absolutamente, virtude. Sou assim e pronto. Como se eu fosse canhoto, zarolho ou capenga. É minha condição, que não tem mérito nenhum. Mas, nesse caso do pastor – a esbórnia e a luxúria –, creio que todo ser humano deveria ter direito a desfrutá-las. Não acredito na conta a se pagar depois.

É mais ou menos o que pensa o pastor que agora foi pego com a boca na botija – o Marcos Pereira –, em seu apartamento de oito milhões de reais e muitas fieis passadas a fio de pênis abençoado.

Multiplicam-se no país as notícias dos homens “devotados a Deus” e suas práticas desregradas. Aos “homens de Deus” exige-se um mínimo de compostura, de vergonha na cara, de recolhimento e abdicação de bens materiais e prazeres mundanos. Se não, por que se dedicaram à causa? Melhor seria seguir o desregramento normal de qualquer um.

No entanto há um bando que sai por aí criando, cada um, a sua própria igreja. Não porque pense um pouco diferente do outro e tenha lá uma interpretação particular da palavra sagrada. Mas simplesmente para não dividir com o outro o produto do botim, do assalto, do achaque que faz à credulidade de uma multidão de desesperados, que esperam que a solução de seus problemas caia do céu.

Minha mãe conta o caso de um conterrâneo nosso lá de Bom Jesus – Bejota, para os íntimos -, analfabeto de pai e mãe, que se metia a pregador. Uma vez, indagado como fazia para saber o teor do texto bíblico sobre o qual fazer suas pregações, disse do alto de sua proverbial ignorância:

– Minha muié lê, e nóis tepreta!

Hoje, no Brasil, a melhor forma de se ganhar dinheiro, com isenção de impostos e sem dar duro num eito de lavoura, é fundar uma igreja. Ninguém sabe nada mesmo de p* nenhuma e está disposto a acreditar no primeiro espertalhão que lhe venda a ilusão de um mundo melhor, sob o pagamento de dízimo.

Para você, leitor amigo, ver até onde chega a canalhice desta gente, digo-lhe que vi a propaganda de uma pastora que criou um perfume com o cheiro de Cristo, a ser vendido, naturalmente, para uma multidão de inocentes úteis. Que é isso?!

Aprendi com a vida que os espectadores nunca ficavam até o final das sessões de cinema gratuitas. Naquelas que eles pagavam para ver, ainda que fossem de péssima qualidade, ficavam até o final, para justificar o dinheiro gasto.

É mais ou menos o que ocorre com essas pessoas que compram o Paraíso a prestações e enchem o rabo de espertalhões de dinheiro. E, quanto mais dinheiro, mais sacanagem na vida, pois o poder corrompe inexoravelmente.

Millôr Fernandes disse algo mais ou menos assim (li há muito e não me recordo exatamente da fonte): Desconfie sempre daqueles que ganham dinheiro com aquilo em que acreditam. O que é matéria de fé não pode render dividendos, penso como consequência.

Em todos os casos, como ando meio necessitado de fazer um pé de meia, acho que vou criar uma igreja. Porque posso ser tudo nesta vida, menos bobo! Além do mais, ainda há a hipótese de passar na cara algumas fieis mais bonitinhas.

Meu guru Millôr Fernandes, um dos homens mais lúcidos deste país (imagem em veja.abril.com.br).

 

AINDA NÃO FOI DESTA VEZ

Tenho um amigo pessimista, fatalista, supersticioso e torcedor do América. Deste modo, o prezado leitor já imagina que, para ele, não há solução para mais nada. Tudo está irremediavelmente perdido. E não é para menos. Com esse quadrado mágico (de magia negra, certamente) a lhe governar a vida, não lhe sobram muitas esperanças.

A última de que dispunha – e fazia questão de alardear aos quatro ventos – dizia respeito àquela frustrada previsão do fim do mundo, baseada no calendário maia.

Por mais de uma vez, eu lhe disse que isto era uma baboseira. Se a ciência moderna, com maiores recursos tecnológicos e mais conhecimentos acumulados, não pode precisar quando se isto dará, como povos menos desenvolvidos saberiam? É uma questão lógica, que para um supersticioso, entretanto, não faz o menor sentido. E era como se eu pregasse no deserto.

Passado o fatídico e inglório – para ele – dia 21/12/2012, sem que nada de anormal acontecesse, nem mesmo a paliativa explicação de que se trataria simplesmente de uma mudança de era ou do ser humano, o que também não ocorreu, voltamos a nos encontrar e ainda brinquei dizendo-lhe que o tal calendário maia era de César Maia e não poderia dar certo mesmo. Achou a brincadeira sem graça, mas não perdi o amigo.

Mal o ano novo deu as caras, e ele já me mandou e-mail, alertando para a vinda de um asteroide em direção a este planeta. E ainda dizia: o povo todo preocupado com Carnaval e folia, sem atinar para a gravidade do momento.

Fui para a Grande Rede procurar sobre o tal asteroide e, mais uma vez, pude deduzir que não seria também desta vez. O Apocalipse não ocorreria.

Recalcitrante, nem quis ouvir uma piada sobre mais este evento catastrófico que estava nascendo.

O asteroide passou batido. Contudo um meteorito, incerto e não sabido, causou estragos na Rússia ontem. Veio zumbindo pelo céu como uma nave louca e provocou estragos em construções, pane eletromagnética e ferimentos em pessoas.

Liguei para ele, para saber por que diabos ele não me avisara desta ameaça que se consumou efetivamente em terras de Putin. Aliás nem a NASA, nem astrônomos, que vivem bisbilhotando o céu, previram a chegada de tal meteorito, que foi fotografado apenas por paparazzi ao entrar na atmosfera terrestre.

E brinquei novamente com ele, dizendo ter sido como aquele tipo de atacante veloz que, subitamente, aparece às costas do zagueiro, para meter a bola nas redes. Aproveitei a oportunidade para reafirmar que, se e quando tal catástrofe ocorrer, ele poderá ter a certeza de que será pego de surpresa, como ocorreu com os russos da região de Chelyabinsk.

Ele me disse lá uma imprecação que o bom senso me diz não publicar.

2013, como seu próprio número indica, é um ano fadado a ter piores referências do que o inocente 2012, que fez das suas, mas tudo dentro do previsto para que o ser humano, esta espécie animal presunçosa, ainda não se tornasse obsoleta sobre a face da Terra.

E vamos tocar o barco, porque o Carnaval terminará no domingo e o país espera que cada um cumpra com o seu dever. O meu já fiz, tanto que me dou ao desfrute de estar no ócio remunerado da aposentadoria por tempo de serviço.

E, por favor, meu amigo catastrofista, deixe o mundo acabar em paz!

O meteorito desgovernado sobre a Rússia (não basta o Putin) (em oficinadanet.com.br).