CONSELHOS, OBSERVAÇÕES E ELUCUBRAÇÕES INÚTEIS

1. A melhor forma de desenformar um bolo de uma forma quente é desta forma: coloque a forma quente numa forma de forma maior em que se coloca água, de forma que a forma quente entre em contato com a água fria na forma até então vazia, até que se forme uma camada fria na forma que enforma o bolo. Desta forma você pode desenformar o bolo. Fácil assim!

2. O Brasil é um país tão engraçado, que dá oportunidade a que um partido assuma o governo com o compromisso de moralizar a coisa pública e saia mais desmoralizado do que entrou. E o seu sucessor, com o mesmo propósito, segue na mesmíssima batida.

3. Na crise brasileira, o fundo do poço é tão mais profundo, quanto mais a crise se aprofunda, de modo que, um dia, ainda vamos dar no Japão.

4. Gato tem sete vidas apenas para aporrinhar várias gerações de seus donos.

5. Todo bichano é bicho, mas nem todo bicho é bichano.

6. Algumas igrejas aí produzem tantos milagres por dia, que até Deus desconfia.

7. Contrariamente ao que seria de se esperar, no Jalapão não há jalaponês.

8. Já disseram alhures que a vida pública no Brasil é uma privada. Que merda!

9. Vários homens públicos brasileiros estão mais desmoralizados do que a mãe que o vulgo lhes atribui e cuja vida já é bastante desmoralizada.

10. Diz-me com quem fazes aliança política e te direi quem te trairá.

11. O objetivo básico de todo governo é recolher impostos. Todo o resto é acessório.

12. A crise econômica brasileira chegou a tal ponto, que levou os dirigentes da CBF a inventarem, para a Copa do Brasil deste ano, o empate que ganha jogo. Aí se economiza a partida da volta.

13. Contrariamente ao que preceitua o texto bíblico, os últimos continuarão lá na rabeira da fila.

14. Pelo menos, pelo que a ciência ictiológica sabe, a traíra não trai, o lambari não lambe e o sairu não sai. Já o pacu…

15. Os coveiros podem fazer quantas greves quiserem e puderem, que nós vivos continuaremos sem lhes dar o menor apoio: continuaremos a morrer do mesmo jeito.

16. Aprendi a ser uma pessoa conformada. Na infância sempre ouvia dos adultos, diante das dificuldades, que desgraça pouca é bobagem. Até hoje continuo acreditando nisso.

17. O único abatimento concreto no Imposto de Renda é o do contribuinte ao fazer a declaração anual de ajuste.

18. Sempre que uma dúvida o assaltar, faça um BO numa enciclopédia, ou no Google.

19. Bem-aventurados os que ainda podem comer uma feijoada completa, sem necessidade da posterior e salvadora dose de bicarbonato de sódio.

20. Todas as minhas taxas estão controladas. Menos IPTU, IPVA, ICMS, IR, IPI, ITR   , IVA e até uma tal CCCCN (Contribuição à Comissão Coordenadora da Criação do Cavalo Nacional).

21. Um crime tripamente qualificado é produzido pelo vatapá estragado que produz o chamado piriri-gangorra.

22. O que complica a vida moderna é a quantidade de especialistas dando dicas de como bem viver. Ninguém consegue acompanhar tantas boas orientações!

23. Nunca se vê, em campanhas promocionais de clínicas de beleza, uma pessoa idosa que tenha rejuvenescido. Sempre há uma bela jovem, de corpo escultural, a garantir a eficiência do tratamento de que ela jamais fez uso.

24. Para piorar a solução de qualquer problema, é só instituir uma comissão de alto nível para resolvê-lo.

25. As grandes invenções da humanidade sempre foram obras solitárias de uma única mente brilhante. O que não funciona direito foi bolado por um grupo de trabalho.

26. Tenho verdadeira ojeriza a conselhos e orientações edificantes. Não é que eu saiba errar sozinho. Até para isso preciso de ajuda. Mas é como dizia meu primo: se conselho fosse bom, seria vendido.

 

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Abrahan van der Hecken, O filósofo (1635). Museu do Prado, Madri.

MALDITA POLÍTICA NACIONAL

Tenho remoído bem lá no fundo do meu sentimento um horror pela política nacional. Não tanto pelos inúmeros e variados casos de denúncia de corrupção dos mais diversos matizes políticos e ideológicos, mas sobretudo pela devastação que o maniqueísmo a que foi lançada a sociedade brasileira – como se houvesse alguém que merecesse nossa solidariedade cega –, está causando entre nós, colocando velhos companheiros em campos opostos.

Nós, os eleitores e contribuintes aqui embaixo, nos engalfinhamos, nos ofendemos, perdemos amizades construídas há dezenas de anos, solidificadas que foram no respeito e na camaradagem, nós aqui embaixo, repito, os sonhadores de sempre que almejam por uma ética inquebrantável, deixamos esgarçar os laços de amizade em nome de uma classe política que está pronta a fazer as alianças mais estranhas e espúrias, pela cobiça do poder.

Não há na política nacional nenhum político inocente. Todos eles, salvo raríssimas exceções entre os mais extremistas, estão dispostos a todo tipo de acerto, de acordo, de conluio. Eu e meu amigo, no entanto, nos estranhamos, esquecemos a amizade profunda que nos une – ou nos uniu até agora – porque queremos que a classe política reflita o que somos. E mesmo nós não somos santos, nem castos. Somos éticos certamente, pois não compactuamos com pessoas sem ética, mas a política tem uma ética extremamente relativa.

E, por causa desta política conspurcada, torpe, gananciosa, perco amigos queridos.

Até então nenhum de meus amigos – e os tenho e tive de todos os matizes ideológicos, políticos, religiosos, sexuais – deixou afrouxar os laços que nos uniam, malgrados os governos que se sucederam no país. Contudo, nesses últimos anos, fomos levados a acirrar as dissensões, como se as ideias tivessem a castidade como norma.

Pois não há religião, ideologia, filosofia ou cachaça de alambique, como já disse alhures, que esteja isenta de erros. Todas são criações do espírito humano, portanto passíveis de erros e falhas.

A amizade que se construiu sobre a verdade de sentimentos não pode sucumbir a uma ideologia, a uma política que, daqui a cinquenta ou cem anos, estará caduca, pelo surgimento de outras tantas, passíveis dos mesmos erros destas que aí estão, porque todas são produtos de nós mesmos, falíveis humanos.

Mas o valor milenar da amizade tem sucumbido à verdade precária destes tempos maniqueístas, como se qualquer dessas personagens que abundam a política nacional merecesse isto.

Maldita política nacional!

Ipê amarelo, já com algumas folhas verdes; Santo Antônio de Pádua-RJ (foto do autor).

Ipê amarelo, já com algumas folhas verdes; Santo Antônio de Pádua-RJ (foto do autor).

ANÁTEMAS, ESCÁRNIOS E IMPRECAÇÕES

 

*Desfez-se a antiga aliança entre PT e PMDB. Agora os novéis opositores acusam-se mutuamente pelos erros na condução da administração federal. É um dos casos brasileiros de que os dois opostos estão abarrotados de razões.

*O PMDB desembarcou do governo federal. Nos estados e municípios, as alianças continuam as mesmas. Há sinceridade nisso?

*A coisa só não ficará mais feia com o Temer na presidência, porque a primeira dama é bonita que só ela.

*Vasco e Flamengo empataram novamente. Bem feito para os dois!

*O futebol brasileiro, depois de experimentar alguns anos de encantamento – entre 1958 e 1970 –, entrou definitivamente na Era Dunga, mesmo ainda com o Scolari na última Copa do Mundo.

*Solicitado pela professora a construir uma frase com três advérbios, Joãozinho cunhou esta: Sinceramente Cunha atualmente somente.

Diferente do que pensam os brasileiros acerca dos poderes da república, o único poder hoje entre nós é o do Aedes Aegypti.

*Qualquer decisão jurídica, por mais imparcial que seja, só presta se for a meu favor. Caso contrário, é deslavada injustiça.

*Durante anos, convivi com um amigo de trabalho que apoiava a ditadura militar, enquanto eu era contrário. Nunca deixamos de ser amigos. Só não tocávamos no assunto, que era um ponto de provável atrito entre nós. Em tempo: este meu amigo é uma das pessoas mais éticas que conheço e de uma lealdade inquestionável.

*Gostava mais da política que se fazia sem sectarismos e sem ódios. No fundo, todos os partidos políticos pretendem mesmo é o poder e sua manutenção.

*Nossa atual situação já estava prevista no título de uma antiga peça teatral de autoria de Ferreira Gullar e Oduvaldo Vianna Filho: Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come.

*Há cerca de quinze dias, foi estendida, na grade da Praça Getúlio Vargas, em Niterói, uma grande faixa com fundo preto, letras garrafais brancas, com o a frase: NO BRASIL OS PARTIDOS POLÍTICOS SÃO FACÇÕES CRIMINOSAS. Havia, no canto inferior esquerdo, um número de protocolo do TRE-RJ, como que a autorizar sua exposição. Obviamente que, embora todos saibamos que nossos partidos estejam contaminados, a supressão deles necessariamente só ocorreria em uma ditadura, o que, convenhamos, é ainda pior do que o estado atual.

*A democracia é o único sistema político em que eu posso falar os maiores absurdos e não ser preso por isso. Nas ditaduras, até mesmo – e sobretudo – as verdades são perigosíssimas para a saúde do falante.

*Aquela cara de satisfação disfarçada que o Michel Temer tem apresentado com mais frequência em público não é porque esteja pretendendo a presidência. Aliás, longe dele fazer essa tramoia com a antiga aliada. É apenas para escarnecer de quem o inveja pela provável primeira dama.

*Maldito o que vem em nome do corruptor!

*Tenho certeza de que alguns beneficiários ilícitos da grana da Petrobras lamentam muito o fato de que o Pré-Sal não produziu fortemente antes da Lava Jato.

*A corrupção no Brasil se tornou tão corriqueira, que, em Fundão-ES, até auxiliar administrativo desviava fraldas geriátricas. Isso só poderia dar merda. Como deu, aliás!

*O Estado do Rio de Janeiro reinventou a velha situação estou-dentro-estou-fora, tão conhecida de todos. O Picciani pai, presidente da Assembleia fluminense, rompeu com o governo Dilma. O Picciani filho, ex-atual-futuro-ex-líder do PMDB na Câmara, apoia Dilma. Ambos são do PMDB.

 

 

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A GERAÇÃO DO CANIVETE

 

Meu pai era um homem da geração do canivete. Aliás todos os homens da geração dele e talvez de uma geração posterior certamente o fossem.

Eu fiz o maior esforço para não ser da geração canivete, dois degraus após na escala geracional.

Vou-lhe explicar, leitor amigo.

Algumas peças já fizeram parte do vestuário das pessoas, as quais peças o tempo se incumbiu de dar fim. Do homem, por exemplo, na primeira metade do século XX, o chapéu e a bengala, ainda que não se claudicasse, ou que não houvesse sol queimando a cabeça. Eram componentes da elegância masculina, sobretudo do habitante das cidades mais cosmopolitas. É comum verem-se em fotografias antigas, em que se juntam muitos, vários – ou todos eles – de chapéu, paletó e bengala.

No interior, até o momento em que lá estive, os homens – quase todos, sem exceção, repito – possuíam um canivete, que carregavam num bolso apropriado das calças, na algibeira. O bolso era feito exatamente com tal finalidade: acomodar o canivete.

E para que servia este objeto? Ora, eram várias as suas utilidades: desde descascar uma fruta, picar o fumo para o cigarro, como cortar as unhas e executar pequenos trabalhos em madeira. Às vezes, em desavenças, ele poderia entrar como arma branca. Mas isto era muito raro.

Os meninos, depois de certa idade, ganhavam um canivete de presente. Eu também tive o meu, que me servia para descascar as laranjas da chácara do tio Alcides Almeida, para onde eu ia, a seu convite, me sentar sob as árvores carregadas, com meu primo Carlinhos, filho dele, a me fartar daquelas frutas de um paladar inesquecível.

Minha primeira calça comprida, feita por minha mãe para os meus doze anos, tinha lá o bolsinho do canivete.

Depois que cresci mais um pouco, já em plena puberdade – a cara cheia de espinhas – resolvi não carregar mais aquele objeto, embora o tivesse guardado em alguma gaveta de casa.

Ao terminar o Curso Científico, antigo Segundo Grau, decidi vir para Niterói, na intenção de fazer o meu sonhado Curso de Letras.

Ao arrumar a mala com alguns apetrechos de higiene pessoal e a pouca roupa que tinha, meu pai se lembrou de que eu deveria trazer o canivete. Naquele momento, eu rompi a corrente e lhe disse que não o queria trazer. Ele se admirou pela recusa e insistiu. Mas me mantive firme e rejeitei a oferta de um seu canivete bonito, lâmina inoxidável, ponta fina, cabo de chifre, corte afiado.

E ele me perguntou um tanto espantado, daquele jeito engraçado como costumava falar, sempre introduzindo sua frase com a expressão que ainda hoje ouço no silêncio da minha memória:

– Deus tal não permita, e se você quiser chupar uma laranja?

– Se não estiver descascada, eu não vou chupar, pai.

Um pouco decepcionado, guardou o canivete, que talvez para ele representasse um elo físico entre nós dois, na longa distância a se abrir entre Bom Jesus e Niterói. Não tive, então, a sensibilidade para perceber isto. Só muitos anos depois é que este fato, até hoje martelando na minha memória, produziu este sentido, este significado escondido.

Me libertei do canivete, para não parecer um moço da roça a chegar na cidade grande – Niterói era, por essa época, a capital do estado. Bastariam, para que meus colegas de faculdade me identificassem, um certo jeito tímido e o sotaque, cujo erre amineirado não tinha essa aspiração do daqui, que mais parece a respiração ofegante de uma crise de asma, como posteriormente fui saber pelo olhar crítico dos goianos, para quem dei um curso nos idos de 80.

E nunca mais tive um canivete. Meu filho, tenho a impressão, nem sabe o que é isto.

 

Imagem em mercadolivre.com.br.

ANIMAL POLÍTICO

O conceito aristotélico de que “o homem é um animal político” (em grego, zoon politikon) tem sido levado muito a sério por milhares de brasileiros. Sobretudo mais para o lado animal do que para o lado político.

Aristóteles – e esclareço que não sou expert em Filosofia, mas também dou meus pitacos – pensava na necessidade humana de se aprender a viver em cidade (polis), tão logo abandonamos as cabras nos pastos e a semeadura dos grãos na roça e passamos a conviver, porta e janela, parede-meia, com o outro, constituímos um arruado, depois uma vila e, finalmente, uma cidade.

É claro que, tendo um vizinho nojento à sua frente, é preciso que você mude de postura, passe a ter mais jogo de cintura, dê o braço a torcer, para que não viva em guerra com pessoa tão desprezível e insuportável.

Tivemos, assim, de desenvolver nossa capacidade de suportar o outro, abandonar um pouco aquela sensação de rei da cocada preta, para saber que, se pisarmos na poça d’água em frente do nosso portão, podemos sujar a bota do outro, e isso provavelmente desencadearia uma guerra a durar gerações.

Essa nossa capacidade de suportar seria justamente a política, isto é, o jeito mais ou menos civilizado de conviver com tanta gente ao nosso redor numa cidade, sem que isso nos faça sair dando cacetadas, espadadas e tiros para todos os lados. Ainda que no Rio de Janeiro tiro a esmo seja o que não falta.

Como já éramos animais mesmo, animais racionais (zoon logikon), segundo ainda os próprios gregos, seria lógico que, em grupo, saberíamos encontrar um meio termo harmônico para aparar as arestas e desfazer os mal-entendidos, antes de trucidar o desafeto.

Contudo o que se tem notado em nosso país ultimamente é que esse lado político tem levado o lado animal a comportamento indigno até mesmo dos animais irracionais, se pensarmos que somos todos semelhantes, da mesma espécie e com os mesmo defeitos e, quiçá, até com algumas mesmas poucas virtudes.

A política brasileira tem levado os brasileiros a radicalizarem seu comportamento político e social de modo irracional. Se se levar em conta que a democracia também surgiu na Grécia, mais ou menos na mesma época dos grandes filósofos, é possível constatar que também a nossa democracia está dando ré, indo à retaguarda.

As ofensas políticas e pessoais, em nome de partidos e posições, chegaram a um ponto de total irracionalidade. Parece que todos esses anos, centenas de anos, de aprendizagem, até mesmo com sofrimento e dor, foram insuficientes para nos ensinar, em pleno século XXI, que é preciso viver na polis como cidadãos e não como bestas irracionais.

Eu que sempre gostei de política – ou seria Política? – ando enojado com tal situação. E, se o governo tem sua parcela de culpa – aliás, penso mesmo que todo governo seja sempre culpado –, o cidadão também não está isento de muitos dos males que nos afligem.

É bem verdade que provavelmente tenhamos chegado ao pior panorama político dos últimos tempos. Os representantes do povo, eleitos por nós – eu perdi todos os meus votos, mas também me incluo nisto – e que se assentam nas cadeiras dos diversos níveis da representação legislativa, são de dar medo. Boa parte deles são a própria reserva imoral da nação. Mas nós os elegemos. Nós os colocamos como nossos representantes.

E agora estamos nos digladiando nas redes sociais, nas ruas, em passeatas de um e outro lado, ofendendo-nos uns aos outros, como se o outro, o que não pensa como nós fosse um canalha a ser extirpado do meio social, do meio político.

Enfim, acabamos por nos tornar mais animais e menos políticos! E isto é tudo o que os golpistas de sempre querem para achar que são os donos da nação.

 

Aristóteles, cópia romana de uma escultura de Lísipo (em pt.wikipedia.org).

EM DEFESA DAS CALÇADAS DE PEDRAS PORTUGUESAS E DO QUEIJO DA SERRA DA ESTRELA

Hoje as tevês estão com dois itens na pauta de notícias que me preocupam bastante. Costumo ficar preocupado com questões menores. As maiores, aquelas cabeludas, deixo para os políticos que elegemos resolverem, pois sei que sempre vai rolar algum, e eu não estarei no bolo da divisão. E também porque sou muito miudinho para resolver grandes questões.

Porém uma das questões de hoje diz respeito a uma consulta pública que um bairro de Lisboa está fazendo aos seus habitantes, para saber se querem manter ou substituir as tradicionais calçadas de pedras portuguesas, por uma mais “moderna” feita de concreto. A outra é a recente implicância do Parlamento Europeu contra o queijo da Serra da Estrela.

Já de saída quero afirmar que sou contra a substituição das calçadas tradicionais, que se espalharam por outros países, sob a alegação de que são perigosas para os transeuntes. Substituí-las por calçadas de concreto não resolverá o problema das quedas, se nenhuma delas tiver manutenção. Os buracos produzidos em qualquer tipo de calçada devem ser tratados de imediato. O que se exige é uma manutenção preventiva, a fim de que não se desfigure uma cidade, em função da presunção de se proteger a saúde do seu morador. Em qualquer calçada, haverá quedas, pois somos propensos a cair, já que andamos com duas pernas. Necessário, então, é manter a calçada em ordem.

Quanto ao queijo, aí acho a coisa até suspeita! Alega o Parlamento Europeu que a flor do cardo, que é utilizado na fabricação do queijo como coalho, não é reconhecido como tal pelo douto Parlamento. À merda com a sabedoria do Parlamento! O queijo existe desde o século XII, é um dos produtos mais emblemáticos de Portugal, reconhecido no mundo inteiro por sua qualidade excepcional e paladar indescritível. Vem agora, depois de quase mil anos, o Parlamento Europeu dizer que desconhece a flor de cardo com esta função! E o que sabe de sabores, paladares, prazeres, o Parlamento Europeu? O que entende ele de culinária, queijaria e quejandos, para ficar cagando regras sobre a utilização popular e tradicional de uma cultura nacional?

Há alguns anos ele se meteu a cagar regras sobre a qualidade das bananas importadas pela Europa, o que praticamente impossibilitaria a entrada da fruta no continente. Os alemães, os maiores comedores de bananas do mundo, se revoltaram e o Parlamento Europeu retrocedeu nas exigências.

Às bananas o PE!

Há pouco, e já referi isto em postagem em Asfalto&Mato, a Secretaria de Saúde de Bom Jesus do Itabapoana, minha terra natal, se meteu na comercialização de queijos artesanais, proibindo sua venda no comércio local. É uma pretensão descabida! Que se faça a fiscalização sobre a higiene na produção, mas que não se leve um tradição culinária ser extinta por pretensa preocupação com a saúde pública.

Vejam esta rápida história, para notarem a diferença entre comportamentos. Quando tinha lá meus vinte anos, fui acometido por uma sinusite incomodativa. Meu tio avô Raul Figueiredo, quando soube, disse para minha mãe que tinha um remédio tradicional infalível: buchinha do norte. Fui, então, ao médico em Itaperuna – Bom Jesus não tinha médicos da especialidade, à época –, para me certificar de que, de fato, era sinusite. Feito o competente exame de raio-X, o médico confirmou a sinusite e passou uma receita, que, segundo ele, iria aliviar os sintomas, já que, àquela altura, a cura era difícil. Corajosamente lhe disse:

– Doutor, vim aqui ao senhor para confirmar se é realmente sinusite. Tenho um tio que faz uma infusão de buchinha do norte que é tiro e queda.

Sabiamente humilde, o médico me respondeu:

– Pode usar. Infelizmente não posso receitar, mas é a única coisa que cura sinusite.

Vejam a diferença de postura de um homem de ciência, que sabe reconhecer o valor das tradições e do saber do povo.

Agora, os pretensiosos deputados do Parlamento Europeu se metem a besta com uma das joias de Portugal!

Em defesa das calçadas de pedras portuguesas e do queijo da Serra da Estrela! Abaixo o Parlamento Europeu e o concelho do bairro lisboeta!

 

Queijo da Serra da Estrela (imagem em entrepratosecopos.xpg.uol.com.br.

O TURBANTE AFRICANO E A COR DA ESTAÇÃO

Há coisa de duas semanas, três no máximo, entrou na moda o tal turbante africano para cabeça de mulheres, que, imagino, não teriam muita coisa na cabeça e necessitam preenchê-la com esse troço. No dia seguinte ao ver tal notícia, fui almoçar no restaurante do clube ao lado do meu prédio e lá estava a Fátima Bernardes, com seu chato programa, e todas as mulheres com o maldito turbante na cabeça.

Acho o turbante um acessório étnico muito interessante nas africanas e descendentes, mas branquelas desbotadas com aquele bagulho – lá estava a bela Debora Secco, da minha mais alta admiração – ficam realmente risíveis.

E o mais interessante é que a apresentadora informou que já havia uma página na Internet para congraçar todas as seguidoras da moda.

Com toda sinceridade, nesses momentos fico lembrando o comentário que José Ramos Tinhorão fez do primeiro disco do Ave Sangria, grupo de rock pernambucano lá dos anos 70, que tinha o novato Robertinho do Recife como guitarrista: “Ah, uma enxada na mão desses caras!”. E arrematava sua observação, dizendo que o baterista estava muito longe do que seria o rock, estilo de sua mais alta ojeriza, parecendo mais um tocador de chacadum.

Outra coisa também hilária é o pessoal que se pretende ditador de moda estabelecer, a cada estação, a cor dominante. Que diabo é isso?! O verão, então, é a estação mais propícia a essas bobagens. Parece que o calor do sol amolece o pouco miolo que vai na cabeça de uns e outros, e somos submetidos a este tipo de inutilidade para a vida comum e normal. Um picolé do china, sob o sol, é muito mais adequado. Ou um copo de mate geladinho!

O pior, no entanto, é que um bando de gente vai atrás desses caras, achando que estão up to date, como se dizia há tempos.

Tinhorão, com sua metralhadora giratória, poderia muito bem repetir: “Ah, uma enxada na mão desses caras!”

Imagem em ricardodalai.blogspot.com.