O PROFETA

Cada tempo, cada terra, cada povo têm o profeta que merecem.

Aqui, com todas as nossas vicissitudes, temos o Marcos Feliciano profetizando. É o que nos sobra.

É, como dizíamos em Carabuçu, meio muito! Marcos Feliciano, o deputado federal evangélico, também é profeta. E profetiza catástrofes escatológicas: está prevendo o fim dos terreiros de santo, que ele chama de macumba, e o sepultamento de todos os pais de santo do país. E, eu diria, quiçá da Bahia.

Claro que essa profecia há de acontecer um dia, a se dar ouvido a todas as previsões catastrofistas que pululam mundo afora. Por exemplo, em 21/12/2012, às 21 horas, o mundo acabou, conforme previram os sábios maias. O que vivemos agora é pura ilusão virtual, alguma coisa projetada pelo Demo para nos iludir.

Contudo a profecia desse profeta do absurdo soa muito mais como intolerância religiosa, como ódio religioso.

Não sei os deuses de todas as religiões, mas seus seguidores aqui em baixo são pessoas que, comumente, pregam o extermínio dos infiéis. E isso desde que o mundo é mundo, desde que apareceu o primeiro deus. Se bem que, na religião hinduísta, eles se digladiem o tempo todo. Ou pelo menos já se digladiaram, como ocorria nas mitologias antigas, tipo grega e romana. Eles mesmos, os deuses, metiam ferros uns nos outros, como nós humanos fazemos aqui embaixo, replicando seus comportamentos.

O infeliz do Feliciano apenas repete a mesma coisa. Só que, atualmente, nosso Estado que se pretende laico entende que tal postura é tida como crime. Então, ferro nele também. Meta-se-lhe o rigor da lei, a despeito de sua carapaça de deputado federal e não se fala mais nisso!

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PS: Não tenho religião nenhuma, mas defendo o direito de cada um ter a sua e exercê-la com liberdade e respeito a todas as demais.

Cartum de Glauco (em momentodereflexao.blogspot.com).

O REI COME CARNE

 

O rei Roberto Carlos, primeiro e único, virou carnívoro novamente. Nem sabia que ele fosse herbívoro. Em princípio, o ser humano é onívoro, com as famosas exceções. Dizem que isto se deu por conta de investimentos em gado de corte, o que o levou a emprestar seu sorriso envernizado para a propaganda da Friboi. Aí o boi tá frito! Se é o rei que diz que o está comendo presentemente, nada mais há a se fazer. O Toni Ramos, peludo primeiro e único, ficou sorumbático ao lado da foto do rei com um belo corte de boi suculentamente ao ponto. É bem verdade que o filmete de propaganda parou aí e não vimos os dentes do Roberto mastigarem a carne. Por isso acho precipitadas todas as ofensas que lhe foram ditas pelos vegetarianos de plantão.

Aliás, vamos ser sinceros: andamos brigando até pelo modo que cada um tem de comer. Estamos ficando chatos. Eu, por exemplo, que sigo o rito humano natural não ponho reparo em quem só coma folha. Cada um sabe de si. E me deixem comer em paz!

Esta é a razão por que não tenho nada contra o Roberto comer carne, bem como comer couve, ovo ou camarão. Como o passarinho que come pimenta, cada um sabe o fiofó que tem e come o que lhe apraz. Qualquer coisa que comamos, estaremos comendo um ser vivo, animal ou vegetal. O resto é conversa para boi e couve dormirem.

Agora que ficou esquisito pra caramba a propaganda, ah!, isso ficou! O Roberto é o cara mais sem graça do show business nacional. Está na mídia há mais de não se quantos anos (Sei, mas não vou dizer aqui para não ser processado.) e continua com aquele sorrisinho idiota nos cantos daquela boca cheia de dentes. Só tem opinião formada sobre o que rende direitos autorais e, nas entrevistas, não demonstra ter nenhuma ideia interessante. Assim ficou um garoto propaganda canhestro, mal-ajambrado, fora do figurino.

Coitado do boi da Friboi, merecia coisa melhor. Azar o dele!

Rango, de Edgar Vasques (em zonabranca.blog.uol.com.br).

VOCÊ SABE O QUE É CALABAZA?

Comendo e aprendendo.

Acho que o portenho é o povo que mais come calabaza no mundo. Nem o nordestino, que é chegado a um jerimum com carne-de-sol, vi comer tanta calabaza.

Aqui em Buenos Aires a calabaza é a rainha da cocada preta. Come-se a boa carne argentina com calabaza. Eu mesmo comi. Há tortilhas de calabaza. Recheiam-se quiches com calabaza. Vi, em vitrines de sanduíches, alguns deles montados com calabaza saindo pelas beiradas.

E, o mais interessante, normalmente amassada, em forma de purê.

O argentino – pelo menos o portenho – é chegado a um purê de abóbora, a um quibebe. Embora coma jerimum de outros modos.

Calabaza é abóbora em espanhol. Morreria de fome sem saber disso, se não tivesse vindo a Buenos Aires, para tomar conta de neto. O qual, diga-se de passagem, também é bem chegado a uma calabaza.

Vai ver Francisco tem alguma coisa de argentino, como o Papa.

Eu mesmo não viajaria tantas milhas para comer jerimum. Se me convidassem, declinaria do convite. Diferentemente de se ir comer ova de esturjão em algum botequim próximo ao Mar Cáspio.

 

Aí está a prova: calabaza con matambre (em tendenciosaweb.blogspot.com).

BUENOS AIRES NÃO É MAIS A MESMA

Tirante as novidades, Buenos Aires continua sendo aquela cidade mais europeia fora da Europa. A sua arquitetura, suas ruas e avenidas largas são marcas registradas. Dá até uma inveja danada, se pensarmos na maioria das cidades brasileiras. E o que há de parques, jardins e escolas por aqui! Algumas destas últimas invadidas por estudantes que protestam e fazem parrilha diante de suas escadarias, como pudemos ver na Avenida Córdoba.
Já brinquei algumas vezes, dizendo que o que prejudicava Baires era o excesso de argentinos. Pois quero retirar o que disse, quero retratar-me sem embargos declaratórios e infringentes: o tratamento que estamos recebendo aqui não tem nada a ver com aquele de janeiro de 1976. Houve uma mudança escandalosa. E para melhor! Mas dá até para entender, se pensarmos na época e em todos os desdobramentos por que passou o povo.
Aquela antiga soberba não a encontrei mais. Diferentemente, o portenho tem-se mostrado simpático e solícito, com raríssimas exceções. Até conversei sobre futebol agradavelmente com um orgulhoso torcedor do San Lorenzo.
Contudo as calçadas do bairro onde estamos não estão bem conservadas: várias com depressão, com defeitos no piso, com entulhos, o que dificulta o deslocamento, sobretudo, de idoso, deficientes e mães com carrinhos de bebê. Ou avós, como é o meu caso e o da Jane.

Também os preços não estão nada bons para os padrões brasileiros. Não sei para os próprios habitantes o estão. Quando, da outra vez em que aqui estive, um jovem me perguntou sobre o valor de um prato de bife com fritas e se espantou com os valores brasileiros de então. Hoje está justamente o contrário: espantamo-nos com os preços daqui. Roupas e calçados, então…

Apesar de tudo isso, a cidade continua portentosa em seu urbanismo. Andamos por muitos lugares, ruas e avenidas e não percebemos a crise de que eles reclamam: os cafés, restaurantes e lojas andam cheios.

Floralis genérica, escultura doada à cidade de Buenos Aires pelo arquiteto Eduardo Catalano (foto do autor).
Floralis genérica, escultura doada à cidade de Buenos Aires pelo arquiteto Eduardo Catalano (foto do autor).

CORRENTES

Não sou dado a correntes de nenhuma espécie e de nenhuma motivação. Sejam elas religiosas, econômicas, metafísicas, literárias, políticas ou apocalípticas.

Lembro-me de uma que chegava ainda em forma de carta selada, décadas atrás, via Correios, com recomendação de que copiasse a muque vinte textos semelhantes e mandasse a meus amigos, sob pena de ter a vida transformada num inferno, como ocorrera com um certo Capitán Gusmán, do glorioso exército venezuelano, o qual, tendo recebido  a dita corrente, por motivos de descrença, não a manteve e foi rebaixado ao posto de soldado raso num par de meses, foi corneado pela mulher e teve a casa incendiada por um raio, numa noite de tempestade. Era muita desgraça para quem a quebrasse, como aquele infeliz.

Jamais, em tempo algum, por nenhum motivo, acreditei nesse tipo de baboseira. Principalmente depois que deixei de acreditar em Deus. Ora, se eu não acredito em Deus, por que, cargas d’água, vou acreditar num monte de asneiras que o ser humano inventa, para aporrinhar seu semelhante. Que é, na verdade, o que o homem mais sabe fazer: aporrinhar seu igual.

Por conta disso, também deixei de acreditar em homeopatia, em alopatia e na ciência de um modo geral. Tudo porque descobri, durante minha vida de professor, que as verdades científicas, na verdade, são mentiras nem tão sinceras, cuja validade tem prazo limitadíssimo, sobretudo com o passar do tempo.

O que é verdade é o que não é verdade. Aliás, o que não se arvora a verdade.

Qualquer grande texto literário, feito com cuidado, por autor que conhece – ou conhecia – seu ofício ainda vale até hoje, não importam os séculos decorridos de sua produção. Ao contrário, qualquer texto científico de cinquenta anos atrás é hoje tido como crendice e passível de boas risadas quando o lemos.

Assim, então, não creio em correntes. Apenas nos grilhões que nos forjava da perfídia astuto ardil, como reza o Hino da Independência, composto pelo glorioso Dom Pedro I, misto de governante, músico e fauno, em parceria com o jornalista, político e poeta Evaristo da Veiga, que acabou por se tornar uma rua no Centro do Rio de Janeiro.

E não é que, vez em quando, recebo via e-mail correntes as mais diversas.

É muito engraçado: a tecnologia avança, mas o sero mano (conforme grafia de vestibulando) continua a mesma besta quadrada de sempre. Continua acreditando nas possibilidades impossíveis, com promessas vindas dos confins dos bits, dos bytes, do cacete a quatro.

Nunca dei sequência a qualquer corrente que me tenha chegado às mãos.

Talvez isso explique porque nunca ganhei na mega-sena acumulada. Ou a Luana Piovani nunca me tenha dado bola.

Vai ver!

Luana Piovani (em jaruonline.com.br).

RESSUSCITAMOS OS VÂNDALOS

As atuais manifestações, país afora, contra um monte de mazelas da vida nacional – a começar pelo preço das passagens dos transportes públicos –, acabaram por ressuscitar entre nós os vândalos, antigo povo de origem germânica que aprontou o que pôde no princípio desse calendário que vivemos.

Eles – os vândalos – deram um trabalho danado ao Império Romano, a que se aliaram em determinado momento da história e a que se opuseram ferrenhamente, inclusive invadindo Roma e destruindo muito do patrimônio histórico e artístico da cidade, no século V d. C.

Por essa ação, o nome deste povo passou a designar os depredadores do patrimônio público.

Pois não é que, a cada manifestação, surgem remanescentes desse povo que, de tanto vandalismo, acabou vandalizado, subjugado e destruído na primeira metade do século VI!

Ouvem-se condenações de todos os lados às ações de tais manifestantes. Tenho a impressão de que até mesmo os que praticaram essas ações no dia anterior, se entrevistados, de cara limpa diante da tevê, condenarão tais ações. Elas não são belas de se ver, embora previsíveis. Ao se juntar a quantidade de gente nessas oportunidades, sempre haverá os que levarão suas ações ao máximo do radicalismo.

Na verdade, a destruição do bem público terá sua recuperação paga pelo dinheiro público, que não é senão o meu, o seu e o nosso. O deles também. Porém, talvez, isso eles não percebam.

Se reclamamos que os hospitais e as escolas estão à mingua, se a rua está enlameada e sem serviços básicos de água e esgoto, tudo continuará um pouco mais assim, porque, antes, haverá a desculpa de se recuperar o que foi destruído. Isto se fará mais emergencial para a autoridade.

Por outro lado, a volta do preço das passagens aos valores anteriores, em várias cidades pelo país, se fará também à custa de outras necessidades, conforme nossas autoridades afirmaram. O governador de São Paulo e o prefeito da capital foram claros quanto a isso. Também o alcaide do Rio de Janeiro. É como se dissessem:

– Querem que tiremos os centavos do aumento? Pois tiraremos. Mas o dinheiro do hospital, da escola, do saneamento, ficará prejudicado. Mas é isso que vocês querem, está bem!

Tudo falaz, capcioso, politicamente capcioso. Mas é mais ou menos assim que se faz a política no país. A autoridade finge que nos atende. Utilizando os recursos que nos são devidos.

Até mesmo as agências de banco vandalizadas entram nessa conta. É só aumentar a taxa de juros do cheque especial e do empréstimo consignado, que também pagaremos pelo que foi feito. O preju ficará por nossa conta.

E os vândalos, que ressuscitamos nesses movimentos, pagarão também igualmente a qualquer um de nós, que queremos mudanças, mas sem que tenhamos de pagar ainda mais. Sobretudo pelo que quebramos ou destruímos.

Ficheiro:Heinrich Leutemann, Plünderung Roms durch die Vandalen (c. 1860–1880).jpg

Heinrich Leutemann, Pilhagem de Roma pelos vândalos, séc. XIX (imagem em pt.wikipedia.org).

MOVIMENTOS NACIONAIS

Os movimentos nacionais estão na ordem do dia. Movimenta-se por tudo e por tão pouco: por vinte centavos, por exemplo. Mas também pelos gastos astronômicos das obras dos estádios para a Copa da FIFA 2014.

Ora, eu que adepto fervoroso da preguiça física acompanho os movimentos apenas pela tevê. Já fui a alguns, quando mais jovem: como o das Diretas Já. E, mais entrado em anos, fui a um pelo fim da violência em Niterói. A violência só cresceu depois disso. Contudo acho que, quanto aos gastos, o movimento está atrasado – mais que as obras -, já que deveria ter ocorrido antes delas. Agora, com quase todas em fase de conclusão, não adianta mais.

Quanto aos vinte centavos, que pode ser pouco para mim e para você leitor, no entanto, é pouco mesmo para qualquer um. Com vinte centavos você não compra nada. Se as passagens são caras, não o são pelos vinte centavos. Já vêm caras de há muito.

Então fico aqui olhando os movimentos se movimentando por várias cidades brasileiras. Em algumas, as notícias dão conta de que houve redução no preço da passagem dos transportes públicos.

E isso adiantará alguma coisa? Por outro lado, a maioria esmagadora dos trabalhadores brasileiros recebe vale transporte. Estudante tem passe livre. Idoso vai no beiço. Então é esquisito tanta gente protestando por causa de vinte centavos.

Quero informar a todos que não sou petista e não estou aqui desclassificando o movimento. Quero apenas que ele tenha um foco mais preciso, como qualquer jogador de futebol que entra em campo focado. Pode até perder a partida, o que será um mero detalhe. O importante é estar focado.

Em São Paulo, por exemplo, ontem, a multidão caminhava pela Ponte Estaiada e pela Marginal Pinheiros. Taí uma boa lição: por que é que não vão para casa a pé? Assim trocarão os engarrafamentos de automóveis pelos engarrafamentos de gente, que, com certeza, poluirão menos.

Millôr Fernandes, numa época em que ser politicamente correto ou incorreto não fazia a menor diferença, lapidou uma frase saborosíssima: “O melhor movimento feminino ainda é o dos quadris.”

Estou mais ou menos nessa linha milloriana. Portanto não me chamem para movimentar um único músculo por meros vinte centavos ou pelos gastos que já foram feitos e que nós vamos pagar, bufando ou não.

Se for para salvar o país, pode ser que eu me levante da rede. Mas só em último caso! No momento exato da queda da Bastilha!

Movimento dos quadris parado (imagem em allthelikes.com.

MINITRATADO IRRESPONSÁVEL SOBRE A VAIA

A vaia, em princípio, é direito de quem vaia. Embora incomode bastante o vaiado. Nunca soube que algum vaiado (É necessário ler esta palavra com cuidado!) tivesse dado razão aos vaiadores. Quem vaia, normalmente, não precisa saber o motivo da vaia. Basta que um comece – e este, sim, saberá por que vaia – e será seguido de um bando de vaiadores contumazes e irrefreáveis.

Há todo tipo de vaia. Em Campos dos Goytacazes (Escrevo sob protesto esta grafia.), nos idos de 60, os alunos do internato do Colégio Bittencourt, onde estudei, desenvolveram a vaia muda, que era uma forma extremamente irritante para o vaiado, que ficava à espera da vaia sonorosa, que só vinha rápida e ligeira, como um flash sonoro, no último instante do momento.

A vaia é mais comum nos estádios de futebol, onde se vaia desde o trio de arbitragem, que agora é um sexteto, incluído o time e a torcida adversária, até mesmo o próprio time, caso este jogue mal. Comissão técnica, diretoria e trepidantes repórteres de campo e ainda um que outro locutor também são vítimas de vaias constantes. Já vi a torcida vaiar as candidatas a Miss Brasil, que adentraram o tapete verde minutos antes de a pelota rolar. Na época, radinho de pilha colado no escutador de jogo, ouvi o grande João Saldanha dizer:

– Pelo amor de Deus, gente! Vaiar mulher bonita já é um pouco demais!

No caso específico da vaia esportiva – e, de resto, na vaia política e artística –, apesar de quem vaie nunca tenha plena consciência dos motivos que o levaram a vaiar, quem é vaiado está careca de saber por que recebe aquela anti-homenagem, como preceituava Nelson Rodrigues acerca dos xingamentos que a torcida dirige à Sua Senhoria, o Do Apito.

A vaia artística já afrontou astros como Caetano Veloso e Sérgio Ricardo, em festivais de música, que são, aliás, ótimos eventos para que a vaia ocorra. Não me ocorre à memória algum festival realizado no país que não tenha tido como trilha sonora uma ruidoosa vaia.

No caso da vertente esportiva, por exemplo, foi o caso da estrepitosa e tonitruante vaia recebida pelo ínclito senhor Joseph Blatter, presidente da FIFA, acompanhado da presidente do Brasil, na abertura da Copa das Confederações, em Brasília. O suspeito suíço não contava com aquilo e apelou para o respeito e o fair-play. Como multidão não entende de nenhuma das duas coisas que esse senhor esburacado como os queijos de sua terra falou, a vaia continuou em ola por todo o Estádio Nacional Mané Garrincha.

Um dos poucos remanescentes dos antigos candangos que construíram a capital do país, presente ao jogo Brasil x Japão, também vaiou, sem saber explicar a razão ao repórter que lhe indagou os possíveis motivos. Disse ele:

– Meu amigo, eu só acompanhei a multidão. Se foi por causa da seca ou pela transposição das águas do São Francisco, não sei. Só sei que acompanhei. Um cabra arretado como eu não afrouxa.

Joseph Blatter e nossa presidente ficaram com cara de cachorro que virou a panela do vizinho.

Bem feito!

Imagem em sobraldeprima.blogspot.com.

VÃO INSTALAR UMA UPP NO EDUARDO PAES

O prefeito do Rio de Janeiro foi jantar com sua esposa em um restaurante japonês da Zona Sul do Rio de Janeiro.

Estava placidamente acomodado, quando foi incomodado por um jovem músico, que se dirigiu a ele e o ofendeu. Como postou no seu Facebook, o músico disse ao prefeito que ele é um bosta e vagabundo.

Não deu outra: o prefeito deu-lhe um soco na cara.

Veja só! Não votei no Eduardo Paes, não sou do seu partido e tenho algumas restrições à sua administração. Mas o soco foi bem dado.

O cara, isto é, o músico, como postou em sua página no Facebook, se acha cheio de razões em odiar o prefeito e lhe dizer na cara o que pensa.

O prefeito, naquele momento, era muito mais o cidadão do que a autoridade. Estava em momento descontraído, com a esposa, para usufruir dos prazeres da cidade. Igualzinho ao músico, que já se encontrava no restaurante e se julgou incomodado apenas porque não deve ter votado no prefeito, deve ser simpatizante de partido oposto ao do alcaide e se julga no direito de ofender. Enfim, se acha!

Se eu fosse o prefeito também desceria o braço nos cornos do cara.

Bem ou mal, o prefeito foi eleito pelo voto direto, secreto e democrático da maioria dos cariocas. Se eu e o músico não contribuímos para sua eleição, temos o dever de respeitá-lo como cidadão. Aliás, devemos respeitar todas as pessoas.

Qualquer homem – mesmo um bosta – a que ele dirigisse seu xingamento reagiria da mesma forma. Alguns até poderiam lhe dar um tiro na cara, por exemplo. A cidade do senhor Eduardo Paes não é um mar de tranquilidade, bem sabemos. E o carinha foi audacioso ao extremo.

Neste caso se pode aplicar a lei física da ação e da reação. Ou a espírita – a do retorno: foi o insulto, voltou a porrada.

O músico e sua mulher foram a exame de corpo de delito e ameaçam processar o prefeito. Por seu lado, o prefeito reconheceu que agiu de forma desmedida e pediu desculpas à população por seu gesto.

Já Mariano Beltrame, secretário estadual de Segurança, está estudando a possibilidade de instalar uma UPP no prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes.

Mariano Beltrame anunciando a instalação da UPP em Eduardo Paes (imagem em rafaeloliveira-rj.blogspot.com).

SOU PROGRESSISTA, DA LINHA DO YES

Você, em alguma época da vida, é rotulado definitivamente por alguma coisa característica. E se apega a ela com fidelidade, quase sempre eterna. Vai levando aquilo adiante, a despeito das novas vagas que encapelem o mar de novidades e modismos de toda a sorte. Na indumentária e no aspecto físico, dificilmente alguém se mantém fiel. E digo isto pensando nas calças toureiro, com a cintura lá no meio da barriga, os sapatos de salto alto, à época chamados Cavalo de Aço, por causa de uma novela, para os rapazes. Meus cabelos compridos e minha barba longa, certamente produtos de Woodstock, foram decepados no início dos 80, por conta de certos pelos esbranquiçados que começavam a aparecer.

No entanto, a moldagem do gosto musical, por exemplo, estava mais ou menos fixada e, por mais que o tempo passe, ficamos fiéis a ele como se fosse uma ato devocional, religioso.

Lembro-me do primo Zé Carlos, mais velho que eu, chegando a minha casa e se deparando com minha coleção de bolachas de vinil. Já devia ter por volta de uns mil álbuns. Era no final dos 70. Ele, um tanto perplexo com a quantidade, me disse de imediato:

– Ah, você vai me emprestar uns discos do Nelson Gonçalves.

Então, um tanto constrangido, lhe disse que não tinha nenhum disco do Nelson. Chateado, retrucou:

– Para mim, então, você não tem coleção nenhuma de elepês!

E sacramentou toda aquela catedral sonora eclética, que contemplava desde Cartola a Kraftwerk, desde Xangô da Mangueira a Stockhausen e Pink Floyd, como um monte de inutilidades. Apenas porque não tinha o seu artista favorito.

Zé Carlos ainda é assim: gosta de cantar músicas de serestas, faz reuniões em sua casa com esta finalidade, reunindo família e amigos em torno de uma boa massa caseira. O que vem também demonstrar este meu raciocínio.

Eu, contudo, sou do ramo progressista. Ou melhor, progressivo. Do rock progressivo, que alguns dizem ter sido tragado, engolido, massacrado pela onda punk seguinte. O que não é uma verdade.

Acontece que a mídia vive e sobrevive de modismos. E precisa, a cada momento, estar inventando novidades, a fim de que pareça sempre antenada com seu tempo.

Alguns podem dizer mesmo que o punk já era, dada a sucessão incrível de movimentos desde então.

Dificilmente, todavia, uma corrente que tenha embasamento e sustância desaparece com o vento das novidades. E o rock progressivo é uma delas. Embora tenha quase que desaparecido da mídia – as rádios não suportam tocar nada que ultrapasse três minutos, pois precisam faturar –, ele continua aí, com novos grupos seguindo trilhas abertas pelos antigos, hoje – irônica e carinhosamente – chamado de dinossauros.

É o caso, por exemplo, do YES, que está no Rio de Janeiro para um concerto no Vivo Rio. Infelizmente não estarei lá para este revival, em que serão executados integralmente os álbuns The Yes Album, Close to the edge e Going for the one.

O Yes, ao lado do Pink Floyd e do Genesis, é parte da trilogia sacrossanta do meu altar progressivo, assessorado por diversos santos e santas, antigos e modernos, todos eles de uma sonoridade que ultrapassa modismos e tendências, porque produtores de uma música consistente, elaborada e cheia de desafios para o ouvinte. Mas, principalmente, por terem feito a música que mais encanta meus ouvidos.

E, por isso, agarrado à etiqueta com que fui identificado no final dos 60, princípio dos 70, progressivo de carteirinha, é que não acho que – como dizem os detratores – o rock progressivo tenha acabado.

Ele, talvez, apenas hiberne fora da mídia. Mas pulsa por todo o mundo, como uma religião antiga, cujos seguidores ainda fazem questão de reverenciar.

Imagem em o esquema.com.br.