CORRENTES

Não sou dado a correntes de nenhuma espécie e de nenhuma motivação. Sejam elas religiosas, econômicas, metafísicas, literárias, políticas ou apocalípticas.

Lembro-me de uma que chegava ainda em forma de carta selada, décadas atrás, via Correios, com recomendação de que copiasse a muque vinte textos semelhantes e mandasse a meus amigos, sob pena de ter a vida transformada num inferno, como ocorrera com um certo Capitán Gusmán, do glorioso exército venezuelano, o qual, tendo recebido  a dita corrente, por motivos de descrença, não a manteve e foi rebaixado ao posto de soldado raso num par de meses, foi corneado pela mulher e teve a casa incendiada por um raio, numa noite de tempestade. Era muita desgraça para quem a quebrasse, como aquele infeliz.

Jamais, em tempo algum, por nenhum motivo, acreditei nesse tipo de baboseira. Principalmente depois que deixei de acreditar em Deus. Ora, se eu não acredito em Deus, por que, cargas d’água, vou acreditar num monte de asneiras que o ser humano inventa, para aporrinhar seu semelhante. Que é, na verdade, o que o homem mais sabe fazer: aporrinhar seu igual.

Por conta disso, também deixei de acreditar em homeopatia, em alopatia e na ciência de um modo geral. Tudo porque descobri, durante minha vida de professor, que as verdades científicas, na verdade, são mentiras nem tão sinceras, cuja validade tem prazo limitadíssimo, sobretudo com o passar do tempo.

O que é verdade é o que não é verdade. Aliás, o que não se arvora a verdade.

Qualquer grande texto literário, feito com cuidado, por autor que conhece – ou conhecia – seu ofício ainda vale até hoje, não importam os séculos decorridos de sua produção. Ao contrário, qualquer texto científico de cinquenta anos atrás é hoje tido como crendice e passível de boas risadas quando o lemos.

Assim, então, não creio em correntes. Apenas nos grilhões que nos forjava da perfídia astuto ardil, como reza o Hino da Independência, composto pelo glorioso Dom Pedro I, misto de governante, músico e fauno, em parceria com o jornalista, político e poeta Evaristo da Veiga, que acabou por se tornar uma rua no Centro do Rio de Janeiro.

E não é que, vez em quando, recebo via e-mail correntes as mais diversas.

É muito engraçado: a tecnologia avança, mas o sero mano (conforme grafia de vestibulando) continua a mesma besta quadrada de sempre. Continua acreditando nas possibilidades impossíveis, com promessas vindas dos confins dos bits, dos bytes, do cacete a quatro.

Nunca dei sequência a qualquer corrente que me tenha chegado às mãos.

Talvez isso explique porque nunca ganhei na mega-sena acumulada. Ou a Luana Piovani nunca me tenha dado bola.

Vai ver!

Luana Piovani (em jaruonline.com.br).

RESSUSCITAMOS OS VÂNDALOS

As atuais manifestações, país afora, contra um monte de mazelas da vida nacional – a começar pelo preço das passagens dos transportes públicos –, acabaram por ressuscitar entre nós os vândalos, antigo povo de origem germânica que aprontou o que pôde no princípio desse calendário que vivemos.

Eles – os vândalos – deram um trabalho danado ao Império Romano, a que se aliaram em determinado momento da história e a que se opuseram ferrenhamente, inclusive invadindo Roma e destruindo muito do patrimônio histórico e artístico da cidade, no século V d. C.

Por essa ação, o nome deste povo passou a designar os depredadores do patrimônio público.

Pois não é que, a cada manifestação, surgem remanescentes desse povo que, de tanto vandalismo, acabou vandalizado, subjugado e destruído na primeira metade do século VI!

Ouvem-se condenações de todos os lados às ações de tais manifestantes. Tenho a impressão de que até mesmo os que praticaram essas ações no dia anterior, se entrevistados, de cara limpa diante da tevê, condenarão tais ações. Elas não são belas de se ver, embora previsíveis. Ao se juntar a quantidade de gente nessas oportunidades, sempre haverá os que levarão suas ações ao máximo do radicalismo.

Na verdade, a destruição do bem público terá sua recuperação paga pelo dinheiro público, que não é senão o meu, o seu e o nosso. O deles também. Porém, talvez, isso eles não percebam.

Se reclamamos que os hospitais e as escolas estão à mingua, se a rua está enlameada e sem serviços básicos de água e esgoto, tudo continuará um pouco mais assim, porque, antes, haverá a desculpa de se recuperar o que foi destruído. Isto se fará mais emergencial para a autoridade.

Por outro lado, a volta do preço das passagens aos valores anteriores, em várias cidades pelo país, se fará também à custa de outras necessidades, conforme nossas autoridades afirmaram. O governador de São Paulo e o prefeito da capital foram claros quanto a isso. Também o alcaide do Rio de Janeiro. É como se dissessem:

– Querem que tiremos os centavos do aumento? Pois tiraremos. Mas o dinheiro do hospital, da escola, do saneamento, ficará prejudicado. Mas é isso que vocês querem, está bem!

Tudo falaz, capcioso, politicamente capcioso. Mas é mais ou menos assim que se faz a política no país. A autoridade finge que nos atende. Utilizando os recursos que nos são devidos.

Até mesmo as agências de banco vandalizadas entram nessa conta. É só aumentar a taxa de juros do cheque especial e do empréstimo consignado, que também pagaremos pelo que foi feito. O preju ficará por nossa conta.

E os vândalos, que ressuscitamos nesses movimentos, pagarão também igualmente a qualquer um de nós, que queremos mudanças, mas sem que tenhamos de pagar ainda mais. Sobretudo pelo que quebramos ou destruímos.

Ficheiro:Heinrich Leutemann, Plünderung Roms durch die Vandalen (c. 1860–1880).jpg

Heinrich Leutemann, Pilhagem de Roma pelos vândalos, séc. XIX (imagem em pt.wikipedia.org).

MOVIMENTOS NACIONAIS

Os movimentos nacionais estão na ordem do dia. Movimenta-se por tudo e por tão pouco: por vinte centavos, por exemplo. Mas também pelos gastos astronômicos das obras dos estádios para a Copa da FIFA 2014.

Ora, eu que adepto fervoroso da preguiça física acompanho os movimentos apenas pela tevê. Já fui a alguns, quando mais jovem: como o das Diretas Já. E, mais entrado em anos, fui a um pelo fim da violência em Niterói. A violência só cresceu depois disso. Contudo acho que, quanto aos gastos, o movimento está atrasado – mais que as obras -, já que deveria ter ocorrido antes delas. Agora, com quase todas em fase de conclusão, não adianta mais.

Quanto aos vinte centavos, que pode ser pouco para mim e para você leitor, no entanto, é pouco mesmo para qualquer um. Com vinte centavos você não compra nada. Se as passagens são caras, não o são pelos vinte centavos. Já vêm caras de há muito.

Então fico aqui olhando os movimentos se movimentando por várias cidades brasileiras. Em algumas, as notícias dão conta de que houve redução no preço da passagem dos transportes públicos.

E isso adiantará alguma coisa? Por outro lado, a maioria esmagadora dos trabalhadores brasileiros recebe vale transporte. Estudante tem passe livre. Idoso vai no beiço. Então é esquisito tanta gente protestando por causa de vinte centavos.

Quero informar a todos que não sou petista e não estou aqui desclassificando o movimento. Quero apenas que ele tenha um foco mais preciso, como qualquer jogador de futebol que entra em campo focado. Pode até perder a partida, o que será um mero detalhe. O importante é estar focado.

Em São Paulo, por exemplo, ontem, a multidão caminhava pela Ponte Estaiada e pela Marginal Pinheiros. Taí uma boa lição: por que é que não vão para casa a pé? Assim trocarão os engarrafamentos de automóveis pelos engarrafamentos de gente, que, com certeza, poluirão menos.

Millôr Fernandes, numa época em que ser politicamente correto ou incorreto não fazia a menor diferença, lapidou uma frase saborosíssima: “O melhor movimento feminino ainda é o dos quadris.”

Estou mais ou menos nessa linha milloriana. Portanto não me chamem para movimentar um único músculo por meros vinte centavos ou pelos gastos que já foram feitos e que nós vamos pagar, bufando ou não.

Se for para salvar o país, pode ser que eu me levante da rede. Mas só em último caso! No momento exato da queda da Bastilha!

Movimento dos quadris parado (imagem em allthelikes.com.

MINITRATADO IRRESPONSÁVEL SOBRE A VAIA

A vaia, em princípio, é direito de quem vaia. Embora incomode bastante o vaiado. Nunca soube que algum vaiado (É necessário ler esta palavra com cuidado!) tivesse dado razão aos vaiadores. Quem vaia, normalmente, não precisa saber o motivo da vaia. Basta que um comece – e este, sim, saberá por que vaia – e será seguido de um bando de vaiadores contumazes e irrefreáveis.

Há todo tipo de vaia. Em Campos dos Goytacazes (Escrevo sob protesto esta grafia.), nos idos de 60, os alunos do internato do Colégio Bittencourt, onde estudei, desenvolveram a vaia muda, que era uma forma extremamente irritante para o vaiado, que ficava à espera da vaia sonorosa, que só vinha rápida e ligeira, como um flash sonoro, no último instante do momento.

A vaia é mais comum nos estádios de futebol, onde se vaia desde o trio de arbitragem, que agora é um sexteto, incluído o time e a torcida adversária, até mesmo o próprio time, caso este jogue mal. Comissão técnica, diretoria e trepidantes repórteres de campo e ainda um que outro locutor também são vítimas de vaias constantes. Já vi a torcida vaiar as candidatas a Miss Brasil, que adentraram o tapete verde minutos antes de a pelota rolar. Na época, radinho de pilha colado no escutador de jogo, ouvi o grande João Saldanha dizer:

– Pelo amor de Deus, gente! Vaiar mulher bonita já é um pouco demais!

No caso específico da vaia esportiva – e, de resto, na vaia política e artística –, apesar de quem vaie nunca tenha plena consciência dos motivos que o levaram a vaiar, quem é vaiado está careca de saber por que recebe aquela anti-homenagem, como preceituava Nelson Rodrigues acerca dos xingamentos que a torcida dirige à Sua Senhoria, o Do Apito.

A vaia artística já afrontou astros como Caetano Veloso e Sérgio Ricardo, em festivais de música, que são, aliás, ótimos eventos para que a vaia ocorra. Não me ocorre à memória algum festival realizado no país que não tenha tido como trilha sonora uma ruidoosa vaia.

No caso da vertente esportiva, por exemplo, foi o caso da estrepitosa e tonitruante vaia recebida pelo ínclito senhor Joseph Blatter, presidente da FIFA, acompanhado da presidente do Brasil, na abertura da Copa das Confederações, em Brasília. O suspeito suíço não contava com aquilo e apelou para o respeito e o fair-play. Como multidão não entende de nenhuma das duas coisas que esse senhor esburacado como os queijos de sua terra falou, a vaia continuou em ola por todo o Estádio Nacional Mané Garrincha.

Um dos poucos remanescentes dos antigos candangos que construíram a capital do país, presente ao jogo Brasil x Japão, também vaiou, sem saber explicar a razão ao repórter que lhe indagou os possíveis motivos. Disse ele:

– Meu amigo, eu só acompanhei a multidão. Se foi por causa da seca ou pela transposição das águas do São Francisco, não sei. Só sei que acompanhei. Um cabra arretado como eu não afrouxa.

Joseph Blatter e nossa presidente ficaram com cara de cachorro que virou a panela do vizinho.

Bem feito!

Imagem em sobraldeprima.blogspot.com.

VÃO INSTALAR UMA UPP NO EDUARDO PAES

O prefeito do Rio de Janeiro foi jantar com sua esposa em um restaurante japonês da Zona Sul do Rio de Janeiro.

Estava placidamente acomodado, quando foi incomodado por um jovem músico, que se dirigiu a ele e o ofendeu. Como postou no seu Facebook, o músico disse ao prefeito que ele é um bosta e vagabundo.

Não deu outra: o prefeito deu-lhe um soco na cara.

Veja só! Não votei no Eduardo Paes, não sou do seu partido e tenho algumas restrições à sua administração. Mas o soco foi bem dado.

O cara, isto é, o músico, como postou em sua página no Facebook, se acha cheio de razões em odiar o prefeito e lhe dizer na cara o que pensa.

O prefeito, naquele momento, era muito mais o cidadão do que a autoridade. Estava em momento descontraído, com a esposa, para usufruir dos prazeres da cidade. Igualzinho ao músico, que já se encontrava no restaurante e se julgou incomodado apenas porque não deve ter votado no prefeito, deve ser simpatizante de partido oposto ao do alcaide e se julga no direito de ofender. Enfim, se acha!

Se eu fosse o prefeito também desceria o braço nos cornos do cara.

Bem ou mal, o prefeito foi eleito pelo voto direto, secreto e democrático da maioria dos cariocas. Se eu e o músico não contribuímos para sua eleição, temos o dever de respeitá-lo como cidadão. Aliás, devemos respeitar todas as pessoas.

Qualquer homem – mesmo um bosta – a que ele dirigisse seu xingamento reagiria da mesma forma. Alguns até poderiam lhe dar um tiro na cara, por exemplo. A cidade do senhor Eduardo Paes não é um mar de tranquilidade, bem sabemos. E o carinha foi audacioso ao extremo.

Neste caso se pode aplicar a lei física da ação e da reação. Ou a espírita – a do retorno: foi o insulto, voltou a porrada.

O músico e sua mulher foram a exame de corpo de delito e ameaçam processar o prefeito. Por seu lado, o prefeito reconheceu que agiu de forma desmedida e pediu desculpas à população por seu gesto.

Já Mariano Beltrame, secretário estadual de Segurança, está estudando a possibilidade de instalar uma UPP no prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes.

Mariano Beltrame anunciando a instalação da UPP em Eduardo Paes (imagem em rafaeloliveira-rj.blogspot.com).

SOU PROGRESSISTA, DA LINHA DO YES

Você, em alguma época da vida, é rotulado definitivamente por alguma coisa característica. E se apega a ela com fidelidade, quase sempre eterna. Vai levando aquilo adiante, a despeito das novas vagas que encapelem o mar de novidades e modismos de toda a sorte. Na indumentária e no aspecto físico, dificilmente alguém se mantém fiel. E digo isto pensando nas calças toureiro, com a cintura lá no meio da barriga, os sapatos de salto alto, à época chamados Cavalo de Aço, por causa de uma novela, para os rapazes. Meus cabelos compridos e minha barba longa, certamente produtos de Woodstock, foram decepados no início dos 80, por conta de certos pelos esbranquiçados que começavam a aparecer.

No entanto, a moldagem do gosto musical, por exemplo, estava mais ou menos fixada e, por mais que o tempo passe, ficamos fiéis a ele como se fosse uma ato devocional, religioso.

Lembro-me do primo Zé Carlos, mais velho que eu, chegando a minha casa e se deparando com minha coleção de bolachas de vinil. Já devia ter por volta de uns mil álbuns. Era no final dos 70. Ele, um tanto perplexo com a quantidade, me disse de imediato:

– Ah, você vai me emprestar uns discos do Nelson Gonçalves.

Então, um tanto constrangido, lhe disse que não tinha nenhum disco do Nelson. Chateado, retrucou:

– Para mim, então, você não tem coleção nenhuma de elepês!

E sacramentou toda aquela catedral sonora eclética, que contemplava desde Cartola a Kraftwerk, desde Xangô da Mangueira a Stockhausen e Pink Floyd, como um monte de inutilidades. Apenas porque não tinha o seu artista favorito.

Zé Carlos ainda é assim: gosta de cantar músicas de serestas, faz reuniões em sua casa com esta finalidade, reunindo família e amigos em torno de uma boa massa caseira. O que vem também demonstrar este meu raciocínio.

Eu, contudo, sou do ramo progressista. Ou melhor, progressivo. Do rock progressivo, que alguns dizem ter sido tragado, engolido, massacrado pela onda punk seguinte. O que não é uma verdade.

Acontece que a mídia vive e sobrevive de modismos. E precisa, a cada momento, estar inventando novidades, a fim de que pareça sempre antenada com seu tempo.

Alguns podem dizer mesmo que o punk já era, dada a sucessão incrível de movimentos desde então.

Dificilmente, todavia, uma corrente que tenha embasamento e sustância desaparece com o vento das novidades. E o rock progressivo é uma delas. Embora tenha quase que desaparecido da mídia – as rádios não suportam tocar nada que ultrapasse três minutos, pois precisam faturar –, ele continua aí, com novos grupos seguindo trilhas abertas pelos antigos, hoje – irônica e carinhosamente – chamado de dinossauros.

É o caso, por exemplo, do YES, que está no Rio de Janeiro para um concerto no Vivo Rio. Infelizmente não estarei lá para este revival, em que serão executados integralmente os álbuns The Yes Album, Close to the edge e Going for the one.

O Yes, ao lado do Pink Floyd e do Genesis, é parte da trilogia sacrossanta do meu altar progressivo, assessorado por diversos santos e santas, antigos e modernos, todos eles de uma sonoridade que ultrapassa modismos e tendências, porque produtores de uma música consistente, elaborada e cheia de desafios para o ouvinte. Mas, principalmente, por terem feito a música que mais encanta meus ouvidos.

E, por isso, agarrado à etiqueta com que fui identificado no final dos 60, princípio dos 70, progressivo de carteirinha, é que não acho que – como dizem os detratores – o rock progressivo tenha acabado.

Ele, talvez, apenas hiberne fora da mídia. Mas pulsa por todo o mundo, como uma religião antiga, cujos seguidores ainda fazem questão de reverenciar.

Imagem em o esquema.com.br.

BAIXAR OU NÃO BAIXAR A TAMPA DO VASO

Certa vez vi, estarrecido, na tevê um jovem inglês, ao lado do pai, dizendo que abaixava a tampa da privada toda vez que a usava, em respeito a sua mãe. E que tinha aprendido isso com o seu pai, aquele inglesão orgulhosão – acho que já calibrado em algumas doses de legítimo scotch –, ali ao lado daquele filho respeitador.

Vamos e venhamos! A que ponto chega a cretinice humana! Isso, por acaso, representa sinal de respeito?

E essa história de abaixar a tampa passou a ser um tabu. Uma marca machista da pior espécie, ao contrário, é deixar a tampa levantada. O homem que deixa a tampa do vaso assim é um ser menor, mesquinho, de baixa extração, praticamente um troglodita.

– Cantídio, por que você deixou a tampa do vaso levantada?

Até que Cantídio um dia se rebela e, em nome do princípio constitucional da igualdade entre as pessoas em todos os campos, grita para a mulher:

– Etelvina, por que você deixou a tampa do vaso abaixada?

Eu mesmo tive uma colega de curso de Letras, lá pelo final dos anos 60, revolucionária em quase todos os sentidos, que, contando sobre a oferta de lugar num ônibus feita, certamente, por um cavalheiro, revoltada lhe disse:

– Aí cara, somos iguais! O que você tem pra fora eu tenho pra dentro!

E só não mandou o homem enfiar o lugar no banco naquele lugar da anatomia humana retroposicionada, porque ainda lhe restou um pouquinho de conservadorismo herdado de seu pai. E seguiu a viagem em pé até o fim.

Pois foi pensando nessa igualdade de fora/dentro que Cantídio passou a exigir em casa que Etelvina levantasse a tampa, assim que terminasse suas necessidades fisiológicas previstas nas convenções humanas mais corriqueiras. Do mesmo modo que ela fazia com ele.

Temos tido umas crenças que não se sustentam a um mínimo olhar irônico, a um chiste, quanto mais a uma análise mais circunstanciada. Temos inventado uma série de regras, de posturas, para o ordenamento social que parecem completamente fora de propósito.

A Igreja Católica está às voltas com a eleição de um novo Papa, após a renúncia de Bento XVI; o Reino Comunista da Coreia do Norte está doidinho para destruir a decadente civilização judaico-cristã; o Guido Mantega não acerta uma previsão econômica à frente do Ministério; São Paulo enlouquece com os temporais de fim de tarde, e Cantídio e Etelvina ficam discutindo a correção ou não de se levantar ou de se baixar a tampa do vaso sanitário. Façam-me o favor!

A proposta revolucionária que lanço aqui é a seguinte: cada um faz a parte que lhe compete e vida que segue!

Cantídio abaixa ou levanta a tampa a seu bel prazer. Etelvina levanta ou abaixa a tampa, segundo lhe dê na telha.

Vamos parar com esse tipo de picuinha, que pode acabar desestabilizando a harmonia da sociedade humana, pô!