HOSPEDARIA DA DONA FINAZINHA

Dona Finazinha enterrou o finado marido Diomedes num fim de semana caracaxento e, sete dias depois, já tinha posto pedreiro e ajudante para obra de remodelação de um dos quartos. Queria aproveitar o próximo festival de sanfona e viola a ocorrer daí a quatro meses, a fim de começar a amealhar uns trocados a mais com o aluguel. Ela não podia contar apenas com a pensão minguada que, por certo, o marido defunto lhe deixaria.

Diomedes dos Santos deu baixa em sua habilitação de vivente numa sexta-feira treze, sem tugir, nem mugir. Estava de prosa com os amigos no bar da praça da igreja, quando sentiu uma espécie de coice no peito, do lado esquerdo, que só lhe franqueou levar a mão ao peito, soltar um ãh forte e cair do banco, para se estatelar nos paralelepípedos do chão, com o cigarro de papel especial a chamuscar o bigode esbranquiçado. Estava morto.

Quando levaram a notícia à Dona Finazinha, Delfina de Souza Santos na certidão de casamento, com todo o jeitinho para que ela também não sofresse um afrontamento, ela marejou os olhos miúdos, disse ai meu deus e, em seguida, emendou baixinho uma oração, já encomendando a alma do finado.

Por isso é que o sepultamento de Diomedes se deu no sábado seguinte, com o céu apedrejado de nuvens escuras, golpeando trovões para os lados de Mimoso do Sul, como se o céu fosse desabar sobre morros e grotas, vilas e descampados, pastagens e roçados.

São Pedro do Itabapoana, às vezes, sofre desses destemperos naturais, porque está encarapitado no alto de um morro, a não mais de quinhentos metros de altura, no meio de uma morraria circundante mais alta, na serra capixaba ao sul, quase na fronteira com o Rio de Janeiro.

Mas o enterro se deu sem maiores aguaceiros. O que era ameaça mais ficou só em ameaça. Sem percalços, cantando “Com minha mãe estarei”, o cortejo dolente subiu o morro do cemitério, de onde se tem uma vista bonita do casario colonial que compõe a vila, esquecida do tempo e do mapa do Brasil, não fosse o interesse do povo miúdo que lá habita por essas questões de cultura, música, sanfona, viola, orquestra e coral, que movimentam suas ruas vez em quando. E um modo todo especial de fazer uma das melhores cachaças que se pode beber. De modo que, caso um desconhecido chegue lá e contemple aquele bem cuidado amontado de casas do tempo de Tiradentes, no sossego da hora de depois do almoço, não há de imaginar que ali mora um povo que gosta de festa.

Por esse motivo é que Dona Finazinha, que tinha lá seus guardados de dinheiro e um plano montado há algum tempo, resolveu mandar iniciar a obra de reforma da casa, um pouco antes da missa de sétimo dia, visando a atender a alta demanda por conta do tal festival, que ocorre sempre no fim do mês de julho de cada ano.

Além do finado Diomedes, também moravam na casa de antigos estuques, cobertura de telha canal e recortes de eira e beira, a filha do casal, Joana, e suas trigêmeas univitelinas Sandra, Sônia e Soraia. As meninas, então com nove anos, eram tão parecidas, que os nomes ficaram quase idênticos como as três, de forma que resolveram atender a quem as chamasse, não importa o nome usado. E desenvolveram, talvez por isso mesmo, a habilidade de aprontarem traquinagens com todos, apenas com o intuito de se divertir. Nem mesmo a avó, Dona Finazinha, conseguia distinguir uma neta da outra. Apenas a mãe, por um desses milagres que só a maternidade explica, é que sabia com certeza que esta é a Sandra; aquela ali, a Sônia e aquela outra lá, a Soraia.

Foi só o tempo de a obra durar, para que Dona Finazinha recebesse o primeiro pedido de hospedagem para o festival daquele ano. Cristina e mais outra amiga souberam da nova opção bem no centro da vila e se adiantaram na reserva. O quarto era amplo e comportaria com conforto as amigas, que dividiriam o espaço restante da casa com a família.

Pois as duas amigas chegaram para o festival já na quinta-feira no fim da tarde, deixaram as bagagens na casa de Dona Finazinha e partiram para curtir o primeiro dia da festa.

Entre uma e outra apresentação das várias atrações programadas, passeavam pelas muitas barraquinhas armadas na rua principal, a partir da praça da igrejinha, até quase a saída para as roças do entorno, e pelos diversos bares e botequins, alguns de ocasião, bebendo aqui e ali, beliscando tira-gosto, confraternizando com outros amigos que para lá também foram. E seguiram na função durante o tempo que duraram os shows e até bem depois, já então apenas no desfrute de libar o que fosse líquido e mordiscar aquilo que fosse sólido.

Foram dormir lá pelas tantas!

Ao acordar no dia seguinte, Cristina levou um susto. Mal levantara do travesseiro a cabeça, um tanto pesada em função da noite anterior, viu à entrada do quarto três meninas loirinhas, com a mesma roupa, o mesmo penteado e o mesmo sorriso maroto naqueles rostinhos lindos. Pediu socorro à amiga:

– Bete, pelo amor de Deus, não estou bem! Ontem eu bebi tanto assim, Bete? Me diga!

E voltou a olhar em direção à porta e já não viu mais aquela aparição inesperada.

Bete, que saía do banheiro naquele instante, quis saber a razão do desespero matinal. E Cristina tentou explicar:

– Acho que estou mal, Bete! Tive visão tripla. Sempre soube que porre e ressaca podem provocar visão dupla, mas tive visão tripla. Vi três anjinhos loirinhos aqui na porta do quarto. De repente, olhei outra vez e eles já haviam desaparecido. Do jeito que apareceram, desapareceram! Vou marcar neurologista, para quando voltar, Bete! Realmente, não estou nada bem!

Bete não vira nada e bebera os mesmos álcoois que Cristina, na véspera.

Um pouco depois, durante o café da manhã tomado à mesa colocada na grande cozinha da casa, Dona Finazinha, avó das meninas, explicou a visão tripla. É que as traquinas sempre faziam tais aparições inesperadas para as pessoas que ainda não as conheciam, só para ver a reação.

Cristina, ainda um tanto zonza, sorveu um gole generoso de café e se sentiu aliviada. A mistura da noite anterior não fora por demais exagerada.

 

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Imagem em elo7.com.br.

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EDILBERTO, O CORAJOSO

O Brasil acabara de declarar guerra às potências do Eixo e precisava convocar soldados em todos os rincões da pátria.

E Bom Jesus do Itabapoana não poderia ficar fora do esforço patriótico de barrar a expansão do império do mal liderado por Hitler e Mussolini, ou não estaria incluída no mapa do Brasil.

O jovem Edilberto, no entanto, não pensava assim. Não declarei guerra a ninguém, dizia ele na roda de amigos, enquanto jogava sinuca no bar da Praça Governador Portela. E, na iminência de ser convocado para a guerra, resolveu antecipar um acidente que o livrasse do compromisso com os Aliados: deu um jeito de meter a catana, um instrumento avantajado de cortar cana-de-açúcar, no dedo fura-bolo da mão direita, aquele mesmo que seria destinado a puxar o gatilho para matar o inimigo, a fim de decepar-lhe a tal falangeta, deixando intactas a falange e a falanginha. Como era bem frouxo de coragem e para não ver a cabeça do dedo voando entre jorros de sangue, fechou os olhos no instante de desferir o golpe sobre seu desamparado dedo indicador repousado num toco de madeira, próximo ao chiqueiro dos porcos na chácara dos pais, à saída da cidade em direção ao Rebenta Rabicho.

A mão – esquerda – que segurava a arma fatídica não se prestava a muitas coisas e vacilou na precisão do corte. O dedo fura-bolo de Edilberto escapou de ser guilhotinado, mas sofreu sérias avarias.

Gritando como um alucinado, correu até a casa dos pais a cem metros do local do sacrifício, com uma banda do dedo dependurada por parte de pele e de nervos. Em desespero, a mãe cuidou de enrolar a vítima em um paninho branco e acompanhar o filho desastrado ao Hospital São Vicente de Paula, onde Edilberto deu entrada com anotações de acidente ao picar abóbora para os porcos.

À época, fez-se o serviço possível, com tudo aquilo que a Medicina dispunha naquela cidade perdida do antigo Norte Fluminense, no que resultou, ao fim do período de recuperação, um dedo duro, no sentido referencial, que não permitia mais a Edilberto fechar a mão direita totalmente. Ficava aquele trambolho a apontar alguma coisa em lugar incerto e não sabido nas imediações de onde estivesse.

Passado o tempo das dores e da recuperação, ele foi-se habituando a conviver com o incômodo do dedo rígido.

Até que chegou à cidade, partindo de Niterói, a antiga capital do Rio de Janeiro, a sinistra junta de recrutamento de novos pracinhas a serem enviados aos campos de batalha da Europa, a fim de preservar a democracia no mundo, ou em parte dele, pelo menos.

O edital de convocação não discriminava ninguém. Apenas fixava os anos de nascimento para aqueles julgados aptos a desferir tiros dos mais diversos calibres contra  nazistas e fascistas recalcitrantes.

La foi tranquilo o Edilberto a atender o chamado da pátria nessa hora crucial, com a convicção de que o dedo o livraria do incômodo de matar inimigos.

A chamada para o exame dos candidatos a heróis da pátria se fez em ordem de chegada, já que não houve uma inscrição prévia dos chamados conscritos.

À medida que decorria o tempo de espera, Edilberto observava o semblante de cada um a sair da sala, na sede do Tiro de Guerra, após o encontro com a junta militar. Uns aliviados, por não terem sido convocados; outros circunspectos, por atenderem o chamado da nação; uns alegres, por poderem meter bala no inimigo; outros tristes, por terem de meter bala no inimigo.

E lá estava o Edilberto, sem muitos sobressaltos no espírito de porco que carregava em seu invólucro carnal, na confiança de que o dedo duro o livraria de qualquer enrascada mais séria.

E chegou sua hora!

A ordem era que todos se despissem, fossem pesados e medidos, em altura, largura e profundidade. Depois de anotados os números, o candidato se postava de pé, com a roupa com que veio ao mundo, diante do capitão médico responsável pela junta. Com tudo mole, mas com o dedo duro, o possível convocado foi indagado pelo capitão sobre o que acontecera. Edilberto, com certa hesitação na voz, informou sobre o tal acidente ao picar abóbora para os porcos e o resultado final que lhe deixara o indicador enrijecido. E acrescentou, tentando aumentar as chances de defesa, que ele era destro e que, portanto, não poderia nunca puxar o gatilho para disparar qualquer tipo de arma de fogo. Desde uma simples garrucha vinte e dois, até um perigoso fuzil Springfield, calibre 30-06, cujo acionamento dependia da ação muscular do atirador, e que era uma das armas da Força Expedicionária Brasileira.

E, para assegurar de que não mais dispunha do movimento regular do indicador, fez o gesto de abrir e fechar a mão direita algumas vezes, terminando por afirmar:

– Com o dedo assim, capitão, acho que não sirvo para a guerra.

O capitão olhou bem a cara do malandro Edilberto, pensou alguns instantes e lhe disse:

– Serve sim! Você irá à frente da tropa, indicando a posição do inimigo: Ali! Ali! Ali! – e fez o gesto com seu dedo, a mostrar a Edilberto que o dedo rígido dele também teria sua serventia no campo de batalha, apontando onde estaria escondido o inimigo.

Edilberto suou frio. Seus pertences inferiores, ante a notícia, murcharam, e ele se virou, após a ordem do capitão para que todos se vestissem.

Antes que o grupo saísse da sala, o militar chamou por seu nome, deu um sorriso debochado e disse para o corajoso Edilberto que aquilo tinha sido uma brincadeira. Ele não precisava ir à Europa dar tiro em nenhum tedesco.

 

Fuzil Springfield (segundaguerra.net).

O DEFUNTO ENQUANTO VIVO

Agora, estirado ali, canelas espichadas, o jaquetão antigo de seis botões enfileirados aos pares, o ar desgostoso de ter morrido sem vontade, Genivaldo Pedroso não ostentava a vasta canalhice com que vivera a vida quase inteira. Salvava-se apenas a parte que antecedia à maioridade, aqueles primeiros anos em que a maioria de nós madorna numa quase inocência pueril, por ainda desavisado das armações que a vida proporciona.

Contudo, a partir da alforria da lei, passou a obrar no que de pior se possa esperar de um sujeito. Sujeito mesmo, assim com um tom pejorativo, porque de um cidadão se esperam melhores atitudes. Porém Genivaldo nunca cogitou em ser cidadão. Bastava-lhe a camada fina de lustre de gente apresentável. Cidadão era coisa que não estava no rol de suas cogitações. Procurava sempre levar vantagem em tudo que pudesse, ainda que, para isso, tivesse de passar por sobre possíveis pudores éticos.

Para início de suas atividades, ganhou de presente cargo de responsabilidade num banco estatal, por obra de um parente seu envolvido com política, e foi quase que de imediato guindado a uma chefia setorial. Em três anos de ataques, desviou mais de três milhões de reais da agência bancária, o que lhe rendeu um processo de demissão por justa causa.

A notícia não rendeu muito nas folhas, mas o preparou para seu grande passo: tentar também a vida pública, assim como seu parente benfeitor. Era o perfil ideal para a política nacional.

Inscreveu-se logo como membro do partido, no diretório regional do bairro, onde, muito celeremente, chegou ao cargo de secretário geral, amarrando alianças com nós pútridos. De vereador a deputado estadual, pulou, ainda por meio de tais alianças, ao cargo de secretário de estado, que lhe permitiu continuar na devastação do patrimônio público, sem o mínimo verniz de compostura.

Dali para o Congresso Nacional em Brasília, foi questão de saber distribuir a verba de campanha no momento exato, para as pessoas certas. E ganhou de bandeja uma vaga na Câmara dos Deputados.

Quanto mais galgava na carreira, mais incólume parecia sua máscara facial. Entretanto, por um deslize que julgava de menor importância, de que supostamente nunca seria acusado, seu belo nome entrou em cadeia nacional pela porta dos fundos.

E aí começaram suas desgraças.

Embora tudo negasse, reafirmasse sua mais casta inocência, chegando inclusive a chorar em rede de tevê aberta, precisou abrir mão do cargo, muito a contragosto, diga-se de passagem, para que pudesse “se defender das infames acusações de que era vítima”, conforme suas palavras.

Para piorar a situação, a polícia encontrou, numa casa em uma de suas múltiplas propriedades rurais, um quarto cheio de barras de ouro, de procedência duvidosa. E, embora suas impressões digitais estivessem gravadas em cada uma delas, disse que desconhecia a origem do tesouro, que alguém poderia tê-lo plantado ali para o incriminar, que há mais de um ano não ia a tal sítio, dentre outras esfarrapadas desculpas costumeiras.

Quando, enfim, recebeu, numa sexta-feira pela manhãzinha, a visita do camburão da polícia para o levar a depor, o coração lhe deu um coice peçonhento, que o fez bandear daqui para lá, desta para a melhor, para a cidade dos pés juntos, com sua papada de capado engordado a ração e sua hipotética inocência.

Agora, estirado ali, com o terno de vidro a moldar sua ex-pessoa, ou o que dela sobrava, aguardava o instante de ser enterrado sem barras de ouro, sem prestígio político, sem mais nada. A não ser todos os opróbios que amealhou existência afora, os quais eram repassados pelos presentes ao velório. Ninguém se lembrava de nenhum gesto altruísta que lhe pudesse aliviar as penas da condenação eterna. Repassavam apenas as falcatruas, as negociatas, as propinas, as mamatas, os jeitinhos, os desvios, com que moldou sua vida. E somente os mais chegados por laços de sangue pediam aos céus que seu sofrimento fosse abreviado, tão logo aquela alma putrefata adentrasse os confins do Coisa Ruim.

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Charge de Erasmo (em newsrondonia.com.br).

PADEIRO ATOLADO

O expediente da secretaria do juízo estava nos seus estertores, quando o celular tocou. Era o amigo Mateus, desesperado, pedindo empréstimo para quitar a conta de luz, dois meses atrasada, a fim de evitar o corte de energia do seu estabelecimento comercial. Seis mil reais de atraso!

Ernesto lhe disse para ter calma. Estava pondo fim aos afazeres daquela sexta-feira e já iria ao seu encontro. Mateus pediu urgência, pois o técnico estava de escada armada, alicate na mão, pronto a cortar a luz.

Durante o trajeto, Ernesto pensou na dívida antiga e não saldada pelo amigo. Mas, pelos amigos, é possível fazer mais do que recomenda a prudência. E dirigia o carro com a pressa relativa permitida pelo trânsito da sexta-feira de uma cidade do porte de Campos dos Goytacazes, mesmo um pouco antes da hora de pico.

O estabelecimento comercial, uma padaria, fica na esquina da Rua Formosa com uma outra qualquer, próxima ao centro da cidade. Tem freguesia numerosa e cativa, porque oferece grande variedade de produtos de qualidade. Para quem vê seu movimento, é impossível imaginar que o proprietário não consiga pagar uma simples conta de energia elétrica, embora ela não seja das menores, após a troca do forno a lenha por modernos fornos elétricos. Mas era exatamente o que estava acontecendo: dois meses sem que a Ampla visse a cor do seu crédito, ameaçando agora deixá-lo às escuras.

Ernesto tocava o carro, sem imaginar a cena já armada em frente à padaria, contudo já a antevendo, em vista do que sabia do amigo, chegado a um histrionismo.

E não deu outra!

Quando conseguiu estacionar o carro numa rua lateral e chegar à cena da trapalhada, encontrou Mateus segurando a escada com as duas mãos – o técnico já subindo alguns degraus acima da cabeça – e gritando:

– Desce daí! Desce já, que eu vou te derrubar! Não vai cortar essa luz! Vou pagar agora! Meu amigo está chegado com o dinheiro! Desce, senão te mato, seu miserável!

O maldito técnico começou a tremer com os solavancos da escada e achou melhor se prevenir. Segurou firme com as duas mãos, após ajeitar o capacete sobre a cabeça, e entrou na discussão com o padeiro.

– Para com isso! Vai me derrubar e vai ficar pior! Estou com a ordem de corte aqui, e você não pagou a conta!

– Desce já daí! Ernesto, fala pra ele descer, que você trouxe o dinheiro para pagar a conta.

Mas Ernesto, prudente, sem querer entrar em nova enrascada, disse ao amigo que aquilo era problema dele. Estava apenas trazendo o dinheiro que lhe pedira e não ia se meter em confusão alheia.

A situação estava a ficar fora de controle. Pessoas começaram a se aglomerar em torno do furdunço armado.

– Desce já daí, seu desgraçado! Vou pagar a conta agora mesmo!

E tanto sacolejou a escada, que o técnico preferiu descer a se ferir com uma possível queda.

O padeiro, então, pegou os boletos atrasados, numa espécie de pendura atrás da caixa registradora, apanhou o dinheiro com Ernesto e se precipitou em direção à agência bancária, do outro lado da rua, pedindo ao amigo:

– Ernesto, não deixa o cara cortar a luz, que vou ali pagar a conta rapidinho. Segura mais essa pra mim!

Ernesto sorriu – conhecia muito bem o amigo enrolado – e pediu um voto de confiança ao homem da Ampla.

– Eu sei que sua obrigação é cortar, mas dê uma chance a ele, senão fica ainda pior para os negócios dele, já meio enrolados.

Volta o Mateus esbaforido, língua em molde de gravata vermelha sobre o peito, já trazendo uma cópia dos boletos pagos, para entregar ao técnico e, assim, evitar o corte de energia do seu estabelecimento comercial.

Foi o que bastou para desfazer a pequena aglomeração de curiosos e voltar a reinar certa paz entre farinhas, fermentos e massas.

– Te devo mais essa, Ernesto!

 

Job Berckheyde, Boulanger 1681

Job Berckheyde*, Boulanger; 1681 (em enigm-art.blogspot.com.br).

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  • Job Berckheyde foi um pintor holandês, que viveu entre os anos 1630 e 1693 e desenvolveu seus trabalhos em Haarlem, Amsterdam e Haia. A obra aí reproduzida está exposta no Museeu de Arte de Worcester, em Massachusetts-EUA.

NO BAR

Malaquias resolveu dar uma de macho no bar, mal acabara de chegar. Depois de ter bebido uma cachaça dupla, falou a plenos pulmões:

– Aqui não tem macho! Mas, caso tenha algum, é só esfregar o bigode que já vai entrar no cacete! Homem, comigo, é assim: trato na base do pau, do cacete! E se não gostar, aí é que apanha mais. Quebro o chifre, amasso a cara, ainda deixo o desinfeliz avariado nos países baixos. E não venha tirar farinha comigo, que o caldo entorna de vez. Fico mais bravo que touro miúra, mais venenoso que viúva-negra. Não quero cochicho! Macho não cochicha! Falem alto! Tem uns e outros aí em que eu bato só com um braço, que nem o Natal da Portela. E ainda faço engolir o cigarro e cuspir a cinza. Não quero ninguém cuspindo no chão, senão vou esfregar o nariz do sujeito no escarro.

Como ninguém respondesse, como era de se esperar, Malaquias botou o avental e foi abrir as portas do estabelecimento, que o dia começava cedo no Bar e Restaurante São Jorge, no tradicional bairro de Oswaldo Cruz, a poucos metros da gloriosa Escola de Samba Portela. E não havia melhor terapia para aguentar o rojão até os confins da noite de uma sexta-feira treze, que prometia.

 

File:Cristobal Rojas 36a.JPG

Cristobal Rojas, La taberna, 1887 (em commons.wikimedia.org).

 

NENA E ANQUIMAR

Imagem em preciolandia.com.br.

Nena e Anquimar trabalhavam no velho caminhão Chevrolet Gigante da fábrica de manteiga de Libelton Boechat, lá em Carabuçu, pelos idos de 60 do extinto século. Anquimar, o motorista; Nena, o ajudante, incumbido de tirar e colocar latões de leite na carroceria. Anquimar tinha o olho esquerdo desviado mais para a esquerda, estufado, inconfiável para golpes de vista. Nena era fanho, gago, completamente caolho, cabeça achatada na testa, como se tivesse levado uma pancada ao nascer, dentição irregular, queixo embutido, meio pancado das ideias.

Viviam lá os dois às voltas com o trabalho. Enquanto Nena carregava e descarregava o caminhão, Anquimar ficava cofiando a bigodeira preta, logo abaixo do olho esquisito e de uma bem nascida pinta escura na bochecha esquerda. Nena trabalhava e cantava músicas que até hoje nenhum ouvido ainda conseguiu decifrar. Enfim, cantava.

Determinada manhã, após a coleta do leite pelas fazendas e sítios próximos, o velho Chevrolet Gigante garbosamente adentra o pátio da fábrica para a descarga dos latões. Nena, sobre a alta calçada no mesmo plano da carroceria, fanhosamente orienta a manobra de marcha a ré de Anquimar:

– Vem, vem mais; pode vim; vem mais que dá! Vem! Vem mais, Anquimar!

Até que o caminhão bate na calçada.

Anquimar, furioso, bigode desalinhado, sai da boleia do bitelo e repreende o ajudante, aos gritos:

– Isso é modo de guiar a gente, Nena? Tá vendo: o caminhão bateu!

Nena, no seu quase inocente juízo avariado, argumenta cheio de fanhas razões:

– Bem feito! Quem manda ocê ser caolho?

O PACIONAL

No velório da mãe, chega um antigo conhecido da família para cumprimentar a filha chorosa. Aperta-lhe a mão, abraça-a e dá um beijo respeitoso de velho amigo em sua face. O marido, ao lado, se levanta e dá um murro violento no nariz do cavalheiro, que cai por entre as coroas em homenagem à pranteada defunta.

Foi um constrangimento geral! O homem levanta-se atordoado, nariz quebrado sangrando, e sai da capela mortuária sem entender o que havia acontecido. Lelena, a mulher, como diria o compositor de boleros, prorrompe em choro convulso, agravado pela perda da mãe, chama o marido de grosso, ignorante, besta quadrada, dentre outros adjetivos e expressões publicáveis em coluna familiar, e o manda embora do recinto. A família ficou catatônica com a cena. Os amigos comentavam baixinho, para não incomodar o de cujus, o comportamento do marido de Lelena.

Foi a gota d’água para que pedisse o divórcio daquela cavalgadura que tolerara por dez anos.

No dia da audiência de conciliação, Sua Excelência pergunta à mulher o que a levou a entrar com o processo de divórcio litigioso. Ela, então, depois de lhe contar alguns fatos em que, segundo lhe parecia, o ciúme do marido não permitia que a relação fosse uma coisa saudável, culminou com a história do velório da pobre mãe, que nem na hora extrema pôde ser velada em paz. O juiz, do alto de sua sapiência jurídica, após ouvir atentamente a fala de Lelena, conclui solene:

– É um passional!

Lelena e as irmãs presentes à audiência se chocaram com a revelação. Ela mesma expressou isto:

– Está vendo como ele é, Meritíssimo! Ele nunca me disse isso. Se não é o senhor, eu não ficaria sabendo de mais esse defeito dele. Além de grosso, ciumento e ignorante, é isso também.

Terminada a audiência, com a homologação do divórcio, em que o réu levou na cacunda as penas da lei, com cominações legais, morais e financeiras, Lelena foi com as irmãs e uma amiga para casa. Em lá chegando, correram ao dicionário, para avaliar o peso da acusação do juiz em cima do ex-marido. Reviram as páginas de um lado para o outro, sem conseguir encontrar o diabo da palavra, para que elas ficassem sabendo ainda mais do caráter do homem. A amiga, vendo que procuravam a palavra “pacional”, resolveu ajudar e disse para que a pesquisassem com dois esses: passional.

Imagem em diariodeceilandia.com.br.