HISTORINHAS RÁPIDAS VII

13. HISTORINHA VOCABULAR

 

Era o final da década de 60. Eu tinha começado a fazer Letras. Na faculdade encontrei um conterrâneo que não conhecia de Bom Jesus, Aldany, já advogado, casado, pai de filho, e diretor de uma subsidiária da antiga Cia. Siderúrgica Nacional. Ficamos bons amigos. Saíamos sempre juntos do Instituto de Letras, tomávamos o mesmo ônibus 30 na Rua Dr. Celestino, mas cada um saltava em pontos diferentes.

Sobre ser mais velho do que eu, ainda era mais culto, mais experiente e mais erudito.

Certa vez, esperávamos o 30, enquanto conversávamos, e ele soltou lá uma de suas palavras que me eram desconhecidas, ao comentar sobre uma pessoa conhecida:

– Fulana é muito iracunda. – e colocou o primeiro pé no estribo do ônibus que atendera ao nosso sinal.

Subi atrás, segurando firme minha então pasta James Bond (Os mais velhos hão de saber.), e indaguei:

– O que é iracunda!

E ele, com a solenidade de um lord inglês:

– Iracunda é irascível.

– Ah! Entendi!

Na verdade, só fui entender ao chegar à pensão da Dona Dinorah, onde morava, e consultar o “pai dos burros”.

Eu não podia dormir com aquele tijolaço vocabular tilintando nos meus ouvidos.

 

14. HISTORINHA RELIGIOSA

Lá pelos idos de 60, em Carabuçu, certo conhecido da minha mãe, já meio entrado em anos, analfabeto de berço, disse a ela que iria fundar uma igreja, porque não estava satisfeito com seu pastor. Minha mãe, então, quis saber como ele faria para difundir a Bíblia, sob seu ponto de vista, já que não sabia ler. Com toda a segurança, ele disse:

– Minha muié lê, e nós tepreta.

 

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HISTORINHAS RÁPIDAS V

9. HISTORINHA SALARIAL

Lá pelos anos 80, a faculdade em que eu trabalhava passava por problemas financeiros e atrasava salários.
Com a situação já periclitando, fomos reivindicar – meu dileto amigo Fernando Lemos e eu – nosso pagamento.
Então o tesoureiro resolveu liberar parte do que nos devia e preparou o documento para que o assinássemos: “RECIBO DE ADIANTAMENTO DE SALÁRIO”.
Ferrando Lemos pegou o dinheiro, a esferográfica oferecida, riscou a palavra ADIANTAMENTO e escreveu acima: ATRASAMENTO.
O tesoureiro protestou, mas o professor Fernando Lemos, do alto de sua autoridade profissional, disse não aceitar assinar um documento que não era verdadeiro. Virou as costas e saiu.

 

10. HISTORINHA BAIXINHA

 

Baixinho era uma pessoa metódica. Sua vida, após o trabalho diuturno na antiga CERJ, era programada para todos os dias úteis da semana e quase sempre terminava com uma cerveja gelada no bar do Zé Português, na esquina das ruas Moreira César e Pereira da Silva, em Icaraí. Certa noite, me contou a história que reproduzo aqui.

Um dia, pelas vinte e três horas, voltava para casa no ônibus da linha 53. Àquela hora, o coletivo tinha poucos passageiros. Ele se sentou junto à janela, num dos bancos um pouco à frente do cobrador. Ao lado dele, foi sentar-se um homem que portava um jornal dobrado em quatro.

Depois de algum tempo de viagem, o vizinho de banco levanta um pouco o jornal, exibe um revólver e lhe diz;

– Passe seu relógio e fique quietinho!

Baixinho recuperou-se rápido da surpresa e tentou argumentar com o assaltante:

– Que isso, cara?! Meu relógio não tem valor. Só valor sentimental. Foi presente do meu pai. E você vai vendê-lo por qualquer dez mil réis.

– Não interessa! O relógio vai ser meu e eu vendo pelo preço que quiser. Passe o relógio e fique quieto!

E aproveitou para cutucar o cano do trabuco nas costelas do Baixinho. Com tal argumento convincente, Baixinho não teve como não se desfazer de seu relógio de pulso, com pulseira de metal, todo dourado, marca Lanco, uma beleza de dar na vista.

O ladrão desceu no ponto seguinte, levando o relógio que Baixinho tinha adquirido na Grand Joias há um tempo.

Duas semanas após, cumprindo parte do seu ritual, numa quarta-feira, vai até o Caneco Gelado do Mário, por essa época a décima parte do que é hoje, e vê o ladrão sentado ao fundo, acompanhado de uma mulher. Baixinho, abusado como todos os baixinhos, vai em direção a ele e diz, para que os demais frequentadores ouvissem:

– Aqui, você é o cara que me roubou o relógio de pulso no 53 há quinze dias! Cadê o meu relógio?! Devolva o relógio que você me roubou!

– Que isso, cara?! Tá maluco?! Ficou doido?! Nem te conheço! Nunca te vi!

– É você sim! Estou te reconhecendo! – E se virou para os demais, reiterando a acusação.

O sujeito, constrangido, colocou uma nota sobre o balcão e escafedeu-se do local.

Passada uma semana do ocorrido, Baixinho, em outro dia da semana em que ia beber cerveja com fígado de galinha acebolado num boteco nas imediações do Estádio Caio Martins, mal pôs os pés na porta do estabelecimento e dá de cara com o ladrão, de copo à mão, pronto a virar um gole.

Assim que o viu e antes que o Baixinho lhe fizesse qualquer acusação pública, o assaltante foi saindo do bar e gritando a plenos pulmões:

– Não te conheço, cara! Nunca te vi! Você é um maluco!

E sumiu no oco do mundo, de nunca mais encontrar o Baixinho pela quarta vez.

 

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HISTORINHAS RÁPIDAS IV

7. HISTORINHA PRAIEIRA

Era lá pelo início do Plano Real. Jane e eu fomos passar uns dias em Iriri-ES e levamos conosco os pais dela, seu Beethoven e dona Judith.
Certa manhã, resolvemos ir até a Praia da Areia Preta. Encontramos um lugar elevado para sentar à beira da praia e lá ficamos.
Seu Beethoven resolveu dar um mergulho. Ele nadava bem. Dona Judith foi com ele até o mar.
Daí a pouco voltaram até onde estávamos, e ele meteu a mão no bolso do calção, porque se lembrou de que tinha deixado ali uma nota de cinco reais.
– Perdi a nota que estava no meu bolso!
Ele sempre foi, como diria, muito cioso de seu dinheiro, que tratava com grande cuidado. Até um tanto exagerado.
Então olhei em direção ao mar – naquele instante da manhã, só nós ali estávamos -, e vi boiando n’água uma nota. De imediato, ele foi recuperar a nota e voltou encantado:
– Hahahaha! Perdi cinco reais e achei uma nota de dez reais!
Foi a maior aplicação já feita no país: em cinco minutos, o valor aplicado duplicou.

 

8, HISTORINHA DE FÓSFORO

O freguês caipira entra na venda do meu pai, lá pelo início dos anos 60, e pede à minha mãe, que então atendia ao balcão:
– Dona Zezé, quero uma ca’ de fosso.
Minha mãe pega a caixa de fósforo e entrega a ele, que indaga dela onde era produzida aquela maravilha que dispensava a pedra de fogo para acender o cachimbo.
– Acho que é no Paraná. Vou ver aqui.
Ela pegou a caixa de volta e leu em voz alta o endereço da fábrica: Rua Tal, número tal, Curitiba.
Aí o caboclo corrigiu;
– Ah! Então é um Puritiba e não, no Panará.

 

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HISTORINHAS RÁPIDAS III

5. HISTORINHA DESCARADA

 

Era lá pela década de 90 do século passado. Jane e eu fomos com minha irmã e seu ex-marido assistir a um show do Ed Motta, numa casa de show em Ipanema hoje inexistente, o Jazzmania.

Daí a pouco começa o show, e Ed Motta começa a cantar:

– Eu não nasci pra trabalho…

Da mesa atrás de mim, cantou uma voz masculina, no ritmo e no tom do artista:

– Nem eu!

Todos nos voltamos na direção da voz. Era um rapaz, cara de pau, tipo rato de praia, acompanhado de uma senhora generosa, que sorria com a situação. Ela estava feliz com o seu protegido.

 

6. HISTORINHA BAIXINHA

 

Baixinho era uma pessoa metódica. Sua vida, após o trabalho diuturno na antiga CERJ, era programada para todos os dias úteis da semana e quase sempre terminava com uma cerveja gelada no bar do Zé Português, na esquina das ruas Moreira César e Pereira da Silva, em Icaraí. Certa noite, me contou a história que reproduzo aqui.

Um dia, pelas vinte e três horas, voltava para casa no ônibus da linha 53. Àquela hora, o coletivo tinha poucos passageiros. Ele se sentou junto à janela, num dos bancos um pouco à frente do cobrador. Ao lado dele, foi sentar-se um homem que portava um jornal dobrado em quatro.

Depois de algum tempo de viagem, o vizinho de banco levanta um pouco o jornal, exibe um revólver e lhe diz;

– Passe seu relógio e fique quietinho!

Baixinho recuperou-se rápido da surpresa e tentou argumentar com o assaltante:

– Que isso, cara?! Meu relógio não tem valor. Só valor sentimental. Foi presente do meu pai. E você vai vendê-lo por qualquer dez mil réis.

– Não interessa! O relógio vai ser meu e eu vendo pelo preço que quiser. Passe o relógio e fique quieto!

E aproveitou para cutucar o cano do trabuco nas costelas do Baixinho. Com tal argumento convincente, Baixinho não teve como não se desfazer de seu relógio de pulso, com pulseira de metal, todo dourado, marca Lanco, uma beleza de dar na vista.

O ladrão desceu no ponto seguinte, levando o relógio que Baixinho tinha adquirido na Grand Joias há um tempo.

Duas semanas após, cumprindo parte do seu ritual, numa quarta-feira, vai até o Caneco Gelado do Mário, por essa época a décima parte do que é hoje, e vê o ladrão sentado ao fundo, acompanhado de uma mulher. Baixinho, abusado como todos os baixinhos, vai em direção a ele e diz, para que os demais frequentadores ouvissem:

– Aqui, você é o cara que me roubou o relógio de pulso no 53 há quinze dias! Cadê o meu relógio?! Devolva o relógio que você me roubou!

– Que isso, cara?! Tá maluco?! Ficou doido?! Nem te conheço! Nunca te vi!

– É você sim! Estou te reconhecendo! – E se virou para os demais, reiterando a acusação.

O sujeito, constrangido, colocou uma nota sobre o balcão e escafedeu-se do local.

Passada uma semana do ocorrido, Baixinho, em outro dia da semana em que ia beber cerveja com fígado de galinha acebolado num boteco nas imediações do Estádio Caio Martins, mal pôs os pés na porta do estabelecimento e dá de cara com o ladrão, de copo à mão, pronto a virar um gole.

Assim que o viu e antes que o Baixinho lhe fizesse qualquer acusação pública, o assaltante foi saindo do bar e gritando a plenos pulmões:

– Não te conheço, cara! Nunca te vi! Você é um maluco!

E sumiu no oco do mundo, de nunca mais encontrar o Baixinho pela quarta vez.

 

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HISTORINHAS RÁPIDAS II

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3. HISTORINHA TECNOLÓGICA

Eu levara minha tevê à oficina para consertar e estava de volta, para pegá-la. Aguardava o atendente, que foi até o fundo do salão, quando chega ao meu lado um senhorzinho vestido com simplicidade. Não sei por que, mas sua aparência me lembrou um velho pescador da Região dos Lagos: a pele vincada e queimada de sol, calça preta, camisa branca de manga comprida arregaçada e um velho chapéu de palha amarrotado na cabeça. Muito simpático, puxou conversa comigo, para reclamar do seu aparelho – Aquele ali no balcão à esquerda. –, que ainda não fora totalmente pago e já apresentava defeito. Tinha ido à loja onde o comprara, mas como estivesse na garantia, o vendedor recomendou aquela mesma eletrônica.

Outro atendente chegou até nós. Disse-lhe que já estava sendo atendido e indiquei o senhor ao meu lado.

– Pois não, senhor, em que posso atender?

– É a minha televisão – e apontou para a tevê sobre o balcão junto à parede.

– Qual o problema dela?

– Ela zoa, mas num bria.

Olhei para a atendente e perguntei se ele entendera.

– Sim. – respondeu – Ela tem som, mas não tem imagem.

 

4. HISTORINHA FESTIVO-PREOCUPANTE

Corria o ano da graça de 2016, e Pedro me telefonou.

– E aí, filho, tudo bem?

– Tudo bem, pai?

– Já pensou em como será o aniversário da Gabi?

Gabriela faria doze anos no mês seguinte, já estava uma linda menina-moça a se desabrochar e tivera dois aniversários que passaram sem festa, por uma série de motivos. Os pais, então, prometeram que aquele ano fariam uma festinha para ela. Por isso eu estava querendo saber, a fim de armar as estratégias de avós.

– Pai, estamos devendo esta festa a ela e não pode passar deste ano. Mas não queremos gastar muito, ainda mais porque ela quer ir a uma excursão da turma da escola a um acampamento, logo em seguida.

Então quis saber o que eles estavam pensando em fazer.

A família do Pedro mora na cidade de São Paulo, em um condomínio cuja infraestrutura é excelente e ele quer aproveitá-la para a festa.

– Estamos pensando, para não gastar muito, em usar o salão de festa daqui. Aí é só alugar a iluminação, contratar um DJ e comprar uma espingarda para ficar na porta.

Tinha chegado a hora de o pai se preocupar com possíveis conquistadores adolescentes.

HISTORINHAS RÁPIDAS I

1. HISTORINHA TEATRAL

Eu era bem pequeno. Talvez tivesse lá meus sete-oito anos e resolvi participar de um grupo de teatro criado na vila pela mãe do meu coleguinha Carlos Heitor. Ela ia encenar a história de Chapeuzinho Vermelho, cujo papel era da Maria Zilma, irmã mais velha do meu amigo Concely. Maria Zilma talvez tivesse uns doze anos. Era uma morena muito bonita. Meu primo Zé Carlos, já mais adolescente, de topete moldado a brilhantina, faria uma espécie de galã. Meu tio José Catarina seria o caçador, a matar o Lobo Mau, cujo intérprete não me ocorre, talvez porque estivesse escondido sob a fantasia do bicho.

Como a história se passava em Carabuçu, foi adaptada aos trópicos, e eu fiz o macaco. Em dado momento, Chapeuzinho ia pela floresta cantando, com sua cesta de guloseimas, e oferecia uma banana para o macaquinho.

Após vários ensaios, marcou-se a apresentação da peça no salão do Liberdade Esporte Clube.

Quando para lá me dirigia, minha mãe recomendou que eu só comesse uma banana nanica durante a peça, pois já era noite e banana é indigesta naquele horário.

A peça se desenrolava muito bem. Zé Carlos tinha cantado uma bela canção e preparava a entrada de Chapeuzinho no caminho da floresta. Lá vem ela, toda bonita, toda faceira, cantando. Assim que viu o macaquinho, lhe deu uma banana, que foi comida em pleno palco, entre imitações de sons de macacos. E Chapeuzinho continuou a rodar pelo cenário, cantando e espalhando charme, até que passou novamente pelo macaquinho, a quem deu a segunda banana.

Neste instante, o macaquinho sem fala, abandonou os arremedos de símio e, obedecendo ao sinal da mãe na plateia, disse para Chapeuzinho, em tom ouvido por toda a atenta assistência:

– Minha mãe falou que eu só posso comer uma banana.

Aquele semidrama infantil, com requintes de história de suspense, se transformou, na hora, numa comédia.

A plateia veio abaixo!

 

2. HISTORINHA ZOOLÓGICA

Seu Paulo Otávio (Troquei o nome, para evitar encrenca.), proprietário rural com casa bem montada no centro de Bom Jesus do Itabapoana, era tido como homem brabo, meio ignorante no trato com as pessoas, tanto que já dera uns tiros na cumeeira de uns e outros por bobagens. E era viciado no jogo do bicho. Não passava um dia sem que fizesse uma fezinha na loteria zoológica.
Certa manhã, estava ele sentado na sala de casa, quando cruza o espaço, de uma janela a outra, uma bela borboleta. Uma sobrinha que ali estava sugere a ele:
– Tio, aí uma boa sugestão para o senhor jogar no bicho: borboleta!
Ele, sem tirar a carranca da cara, responde gentilmente;
– Deixe de ser ignorante, Lourdinha. Se fosse assim, nunca ia jogar no leão. Não passa leão aqui na minha sala.

 

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HOSPEDARIA DA DONA FINAZINHA

Dona Finazinha enterrou o finado marido Diomedes num fim de semana caracaxento e, sete dias depois, já tinha posto pedreiro e ajudante para obra de remodelação de um dos quartos. Queria aproveitar o próximo festival de sanfona e viola a ocorrer daí a quatro meses, a fim de começar a amealhar uns trocados a mais com o aluguel. Ela não podia contar apenas com a pensão minguada que, por certo, o marido defunto lhe deixaria.

Diomedes dos Santos deu baixa em sua habilitação de vivente numa sexta-feira treze, sem tugir, nem mugir. Estava de prosa com os amigos no bar da praça da igreja, quando sentiu uma espécie de coice no peito, do lado esquerdo, que só lhe franqueou levar a mão ao peito, soltar um ãh forte e cair do banco, para se estatelar nos paralelepípedos do chão, com o cigarro de papel especial a chamuscar o bigode esbranquiçado. Estava morto.

Quando levaram a notícia à Dona Finazinha, Delfina de Souza Santos na certidão de casamento, com todo o jeitinho para que ela também não sofresse um afrontamento, ela marejou os olhos miúdos, disse ai meu deus e, em seguida, emendou baixinho uma oração, já encomendando a alma do finado.

Por isso é que o sepultamento de Diomedes se deu no sábado seguinte, com o céu apedrejado de nuvens escuras, golpeando trovões para os lados de Mimoso do Sul, como se o céu fosse desabar sobre morros e grotas, vilas e descampados, pastagens e roçados.

São Pedro do Itabapoana, às vezes, sofre desses destemperos naturais, porque está encarapitado no alto de um morro, a não mais de quinhentos metros de altura, no meio de uma morraria circundante mais alta, na serra capixaba ao sul, quase na fronteira com o Rio de Janeiro.

Mas o enterro se deu sem maiores aguaceiros. O que era ameaça mais ficou só em ameaça. Sem percalços, cantando “Com minha mãe estarei”, o cortejo dolente subiu o morro do cemitério, de onde se tem uma vista bonita do casario colonial que compõe a vila, esquecida do tempo e do mapa do Brasil, não fosse o interesse do povo miúdo que lá habita por essas questões de cultura, música, sanfona, viola, orquestra e coral, que movimentam suas ruas vez em quando. E um modo todo especial de fazer uma das melhores cachaças que se pode beber. De modo que, caso um desconhecido chegue lá e contemple aquele bem cuidado amontado de casas do tempo de Tiradentes, no sossego da hora de depois do almoço, não há de imaginar que ali mora um povo que gosta de festa.

Por esse motivo é que Dona Finazinha, que tinha lá seus guardados de dinheiro e um plano montado há algum tempo, resolveu mandar iniciar a obra de reforma da casa, um pouco antes da missa de sétimo dia, visando a atender a alta demanda por conta do tal festival, que ocorre sempre no fim do mês de julho de cada ano.

Além do finado Diomedes, também moravam na casa de antigos estuques, cobertura de telha canal e recortes de eira e beira, a filha do casal, Joana, e suas trigêmeas univitelinas Sandra, Sônia e Soraia. As meninas, então com nove anos, eram tão parecidas, que os nomes ficaram quase idênticos como as três, de forma que resolveram atender a quem as chamasse, não importa o nome usado. E desenvolveram, talvez por isso mesmo, a habilidade de aprontarem traquinagens com todos, apenas com o intuito de se divertir. Nem mesmo a avó, Dona Finazinha, conseguia distinguir uma neta da outra. Apenas a mãe, por um desses milagres que só a maternidade explica, é que sabia com certeza que esta é a Sandra; aquela ali, a Sônia e aquela outra lá, a Soraia.

Foi só o tempo de a obra durar, para que Dona Finazinha recebesse o primeiro pedido de hospedagem para o festival daquele ano. Cristina e mais outra amiga souberam da nova opção bem no centro da vila e se adiantaram na reserva. O quarto era amplo e comportaria com conforto as amigas, que dividiriam o espaço restante da casa com a família.

Pois as duas amigas chegaram para o festival já na quinta-feira no fim da tarde, deixaram as bagagens na casa de Dona Finazinha e partiram para curtir o primeiro dia da festa.

Entre uma e outra apresentação das várias atrações programadas, passeavam pelas muitas barraquinhas armadas na rua principal, a partir da praça da igrejinha, até quase a saída para as roças do entorno, e pelos diversos bares e botequins, alguns de ocasião, bebendo aqui e ali, beliscando tira-gosto, confraternizando com outros amigos que para lá também foram. E seguiram na função durante o tempo que duraram os shows e até bem depois, já então apenas no desfrute de libar o que fosse líquido e mordiscar aquilo que fosse sólido.

Foram dormir lá pelas tantas!

Ao acordar no dia seguinte, Cristina levou um susto. Mal levantara do travesseiro a cabeça, um tanto pesada em função da noite anterior, viu à entrada do quarto três meninas loirinhas, com a mesma roupa, o mesmo penteado e o mesmo sorriso maroto naqueles rostinhos lindos. Pediu socorro à amiga:

– Bete, pelo amor de Deus, não estou bem! Ontem eu bebi tanto assim, Bete? Me diga!

E voltou a olhar em direção à porta e já não viu mais aquela aparição inesperada.

Bete, que saía do banheiro naquele instante, quis saber a razão do desespero matinal. E Cristina tentou explicar:

– Acho que estou mal, Bete! Tive visão tripla. Sempre soube que porre e ressaca podem provocar visão dupla, mas tive visão tripla. Vi três anjinhos loirinhos aqui na porta do quarto. De repente, olhei outra vez e eles já haviam desaparecido. Do jeito que apareceram, desapareceram! Vou marcar neurologista, para quando voltar, Bete! Realmente, não estou nada bem!

Bete não vira nada e bebera os mesmos álcoois que Cristina, na véspera.

Um pouco depois, durante o café da manhã tomado à mesa colocada na grande cozinha da casa, Dona Finazinha, avó das meninas, explicou a visão tripla. É que as traquinas sempre faziam tais aparições inesperadas para as pessoas que ainda não as conheciam, só para ver a reação.

Cristina, ainda um tanto zonza, sorveu um gole generoso de café e se sentiu aliviada. A mistura da noite anterior não fora por demais exagerada.

 

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