O DEFUNTO ENQUANTO VIVO

Agora, estirado ali, canelas espichadas, o jaquetão antigo de seis botões enfileirados aos pares, o ar desgostoso de ter morrido sem vontade, Genivaldo Pedroso não ostentava a vasta canalhice com que vivera a vida quase inteira. Salvava-se apenas a parte que antecedia à maioridade, aqueles primeiros anos em que a maioria de nós madorna numa quase inocência pueril, por ainda desavisado das armações que a vida proporciona.

Contudo, a partir da alforria da lei, passou a obrar no que de pior se possa esperar de um sujeito. Sujeito mesmo, assim com um tom pejorativo, porque de um cidadão se esperam melhores atitudes. Porém Genivaldo nunca cogitou em ser cidadão. Bastava-lhe a camada fina de lustre de gente apresentável. Cidadão era coisa que não estava no rol de suas cogitações. Procurava sempre levar vantagem em tudo que pudesse, ainda que, para isso, tivesse de passar por sobre possíveis pudores éticos.

Para início de suas atividades, ganhou de presente cargo de responsabilidade num banco estatal, por obra de um parente seu envolvido com política, e foi quase que de imediato guindado a uma chefia setorial. Em três anos de ataques, desviou mais de três milhões de reais da agência bancária, o que lhe rendeu um processo de demissão por justa causa.

A notícia não rendeu muito nas folhas, mas o preparou para seu grande passo: tentar também a vida pública, assim como seu parente benfeitor. Era o perfil ideal para a política nacional.

Inscreveu-se logo como membro do partido, no diretório regional do bairro, onde, muito celeremente, chegou ao cargo de secretário geral, amarrando alianças com nós pútridos. De vereador a deputado estadual, pulou, ainda por meio de tais alianças, ao cargo de secretário de estado, que lhe permitiu continuar na devastação do patrimônio público, sem o mínimo verniz de compostura.

Dali para o Congresso Nacional em Brasília, foi questão de saber distribuir a verba de campanha no momento exato, para as pessoas certas. E ganhou de bandeja uma vaga na Câmara dos Deputados.

Quanto mais galgava na carreira, mais incólume parecia sua máscara facial. Entretanto, por um deslize que julgava de menor importância, de que supostamente nunca seria acusado, seu belo nome entrou em cadeia nacional pela porta dos fundos.

E aí começaram suas desgraças.

Embora tudo negasse, reafirmasse sua mais casta inocência, chegando inclusive a chorar em rede de tevê aberta, precisou abrir mão do cargo, muito a contragosto, diga-se de passagem, para que pudesse “se defender das infames acusações de que era vítima”, conforme suas palavras.

Para piorar a situação, a polícia encontrou, numa casa em uma de suas múltiplas propriedades rurais, um quarto cheio de barras de ouro, de procedência duvidosa. E, embora suas impressões digitais estivessem gravadas em cada uma delas, disse que desconhecia a origem do tesouro, que alguém poderia tê-lo plantado ali para o incriminar, que há mais de um ano não ia a tal sítio, dentre outras esfarrapadas desculpas costumeiras.

Quando, enfim, recebeu, numa sexta-feira pela manhãzinha, a visita do camburão da polícia para o levar a depor, o coração lhe deu um coice peçonhento, que o fez bandear daqui para lá, desta para a melhor, para a cidade dos pés juntos, com sua papada de capado engordado a ração e sua hipotética inocência.

Agora, estirado ali, com o terno de vidro a moldar sua ex-pessoa, ou o que dela sobrava, aguardava o instante de ser enterrado sem barras de ouro, sem prestígio político, sem mais nada. A não ser todos os opróbios que amealhou existência afora, os quais eram repassados pelos presentes ao velório. Ninguém se lembrava de nenhum gesto altruísta que lhe pudesse aliviar as penas da condenação eterna. Repassavam apenas as falcatruas, as negociatas, as propinas, as mamatas, os jeitinhos, os desvios, com que moldou sua vida. E somente os mais chegados por laços de sangue pediam aos céus que seu sofrimento fosse abreviado, tão logo aquela alma putrefata adentrasse os confins do Coisa Ruim.

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Charge de Erasmo (em newsrondonia.com.br).

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PADEIRO ATOLADO

O expediente da secretaria do juízo estava nos seus estertores, quando o celular tocou. Era o amigo Mateus, desesperado, pedindo empréstimo para quitar a conta de luz, dois meses atrasada, a fim de evitar o corte de energia do seu estabelecimento comercial. Seis mil reais de atraso!

Ernesto lhe disse para ter calma. Estava pondo fim aos afazeres daquela sexta-feira e já iria ao seu encontro. Mateus pediu urgência, pois o técnico estava de escada armada, alicate na mão, pronto a cortar a luz.

Durante o trajeto, Ernesto pensou na dívida antiga e não saldada pelo amigo. Mas, pelos amigos, é possível fazer mais do que recomenda a prudência. E dirigia o carro com a pressa relativa permitida pelo trânsito da sexta-feira de uma cidade do porte de Campos dos Goytacazes, mesmo um pouco antes da hora de pico.

O estabelecimento comercial, uma padaria, fica na esquina da Rua Formosa com uma outra qualquer, próxima ao centro da cidade. Tem freguesia numerosa e cativa, porque oferece grande variedade de produtos de qualidade. Para quem vê seu movimento, é impossível imaginar que o proprietário não consiga pagar uma simples conta de energia elétrica, embora ela não seja das menores, após a troca do forno a lenha por modernos fornos elétricos. Mas era exatamente o que estava acontecendo: dois meses sem que a Ampla visse a cor do seu crédito, ameaçando agora deixá-lo às escuras.

Ernesto tocava o carro, sem imaginar a cena já armada em frente à padaria, contudo já a antevendo, em vista do que sabia do amigo, chegado a um histrionismo.

E não deu outra!

Quando conseguiu estacionar o carro numa rua lateral e chegar à cena da trapalhada, encontrou Mateus segurando a escada com as duas mãos – o técnico já subindo alguns degraus acima da cabeça – e gritando:

– Desce daí! Desce já, que eu vou te derrubar! Não vai cortar essa luz! Vou pagar agora! Meu amigo está chegado com o dinheiro! Desce, senão te mato, seu miserável!

O maldito técnico começou a tremer com os solavancos da escada e achou melhor se prevenir. Segurou firme com as duas mãos, após ajeitar o capacete sobre a cabeça, e entrou na discussão com o padeiro.

– Para com isso! Vai me derrubar e vai ficar pior! Estou com a ordem de corte aqui, e você não pagou a conta!

– Desce já daí! Ernesto, fala pra ele descer, que você trouxe o dinheiro para pagar a conta.

Mas Ernesto, prudente, sem querer entrar em nova enrascada, disse ao amigo que aquilo era problema dele. Estava apenas trazendo o dinheiro que lhe pedira e não ia se meter em confusão alheia.

A situação estava a ficar fora de controle. Pessoas começaram a se aglomerar em torno do furdunço armado.

– Desce já daí, seu desgraçado! Vou pagar a conta agora mesmo!

E tanto sacolejou a escada, que o técnico preferiu descer a se ferir com uma possível queda.

O padeiro, então, pegou os boletos atrasados, numa espécie de pendura atrás da caixa registradora, apanhou o dinheiro com Ernesto e se precipitou em direção à agência bancária, do outro lado da rua, pedindo ao amigo:

– Ernesto, não deixa o cara cortar a luz, que vou ali pagar a conta rapidinho. Segura mais essa pra mim!

Ernesto sorriu – conhecia muito bem o amigo enrolado – e pediu um voto de confiança ao homem da Ampla.

– Eu sei que sua obrigação é cortar, mas dê uma chance a ele, senão fica ainda pior para os negócios dele, já meio enrolados.

Volta o Mateus esbaforido, língua em molde de gravata vermelha sobre o peito, já trazendo uma cópia dos boletos pagos, para entregar ao técnico e, assim, evitar o corte de energia do seu estabelecimento comercial.

Foi o que bastou para desfazer a pequena aglomeração de curiosos e voltar a reinar certa paz entre farinhas, fermentos e massas.

– Te devo mais essa, Ernesto!

 

Job Berckheyde, Boulanger 1681

Job Berckheyde*, Boulanger; 1681 (em enigm-art.blogspot.com.br).

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  • Job Berckheyde foi um pintor holandês, que viveu entre os anos 1630 e 1693 e desenvolveu seus trabalhos em Haarlem, Amsterdam e Haia. A obra aí reproduzida está exposta no Museeu de Arte de Worcester, em Massachusetts-EUA.

NO BAR

Malaquias resolveu dar uma de macho no bar, mal acabara de chegar. Depois de ter bebido uma cachaça dupla, falou a plenos pulmões:

– Aqui não tem macho! Mas, caso tenha algum, é só esfregar o bigode que já vai entrar no cacete! Homem, comigo, é assim: trato na base do pau, do cacete! E se não gostar, aí é que apanha mais. Quebro o chifre, amasso a cara, ainda deixo o desinfeliz avariado nos países baixos. E não venha tirar farinha comigo, que o caldo entorna de vez. Fico mais bravo que touro miúra, mais venenoso que viúva-negra. Não quero cochicho! Macho não cochicha! Falem alto! Tem uns e outros aí em que eu bato só com um braço, que nem o Natal da Portela. E ainda faço engolir o cigarro e cuspir a cinza. Não quero ninguém cuspindo no chão, senão vou esfregar o nariz do sujeito no escarro.

Como ninguém respondesse, como era de se esperar, Malaquias botou o avental e foi abrir as portas do estabelecimento, que o dia começava cedo no Bar e Restaurante São Jorge, no tradicional bairro de Oswaldo Cruz, a poucos metros da gloriosa Escola de Samba Portela. E não havia melhor terapia para aguentar o rojão até os confins da noite de uma sexta-feira treze, que prometia.

 

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Cristobal Rojas, La taberna, 1887 (em commons.wikimedia.org).

 

NENA E ANQUIMAR

Imagem em preciolandia.com.br.

Nena e Anquimar trabalhavam no velho caminhão Chevrolet Gigante da fábrica de manteiga de Libelton Boechat, lá em Carabuçu, pelos idos de 60 do extinto século. Anquimar, o motorista; Nena, o ajudante, incumbido de tirar e colocar latões de leite na carroceria. Anquimar tinha o olho esquerdo desviado mais para a esquerda, estufado, inconfiável para golpes de vista. Nena era fanho, gago, completamente caolho, cabeça achatada na testa, como se tivesse levado uma pancada ao nascer, dentição irregular, queixo embutido, meio pancado das ideias.

Viviam lá os dois às voltas com o trabalho. Enquanto Nena carregava e descarregava o caminhão, Anquimar ficava cofiando a bigodeira preta, logo abaixo do olho esquisito e de uma bem nascida pinta escura na bochecha esquerda. Nena trabalhava e cantava músicas que até hoje nenhum ouvido ainda conseguiu decifrar. Enfim, cantava.

Determinada manhã, após a coleta do leite pelas fazendas e sítios próximos, o velho Chevrolet Gigante garbosamente adentra o pátio da fábrica para a descarga dos latões. Nena, sobre a alta calçada no mesmo plano da carroceria, fanhosamente orienta a manobra de marcha a ré de Anquimar:

– Vem, vem mais; pode vim; vem mais que dá! Vem! Vem mais, Anquimar!

Até que o caminhão bate na calçada.

Anquimar, furioso, bigode desalinhado, sai da boleia do bitelo e repreende o ajudante, aos gritos:

– Isso é modo de guiar a gente, Nena? Tá vendo: o caminhão bateu!

Nena, no seu quase inocente juízo avariado, argumenta cheio de fanhas razões:

– Bem feito! Quem manda ocê ser caolho?

O PACIONAL

No velório da mãe, chega um antigo conhecido da família para cumprimentar a filha chorosa. Aperta-lhe a mão, abraça-a e dá um beijo respeitoso de velho amigo em sua face. O marido, ao lado, se levanta e dá um murro violento no nariz do cavalheiro, que cai por entre as coroas em homenagem à pranteada defunta.

Foi um constrangimento geral! O homem levanta-se atordoado, nariz quebrado sangrando, e sai da capela mortuária sem entender o que havia acontecido. Lelena, a mulher, como diria o compositor de boleros, prorrompe em choro convulso, agravado pela perda da mãe, chama o marido de grosso, ignorante, besta quadrada, dentre outros adjetivos e expressões publicáveis em coluna familiar, e o manda embora do recinto. A família ficou catatônica com a cena. Os amigos comentavam baixinho, para não incomodar o de cujus, o comportamento do marido de Lelena.

Foi a gota d’água para que pedisse o divórcio daquela cavalgadura que tolerara por dez anos.

No dia da audiência de conciliação, Sua Excelência pergunta à mulher o que a levou a entrar com o processo de divórcio litigioso. Ela, então, depois de lhe contar alguns fatos em que, segundo lhe parecia, o ciúme do marido não permitia que a relação fosse uma coisa saudável, culminou com a história do velório da pobre mãe, que nem na hora extrema pôde ser velada em paz. O juiz, do alto de sua sapiência jurídica, após ouvir atentamente a fala de Lelena, conclui solene:

– É um passional!

Lelena e as irmãs presentes à audiência se chocaram com a revelação. Ela mesma expressou isto:

– Está vendo como ele é, Meritíssimo! Ele nunca me disse isso. Se não é o senhor, eu não ficaria sabendo de mais esse defeito dele. Além de grosso, ciumento e ignorante, é isso também.

Terminada a audiência, com a homologação do divórcio, em que o réu levou na cacunda as penas da lei, com cominações legais, morais e financeiras, Lelena foi com as irmãs e uma amiga para casa. Em lá chegando, correram ao dicionário, para avaliar o peso da acusação do juiz em cima do ex-marido. Reviram as páginas de um lado para o outro, sem conseguir encontrar o diabo da palavra, para que elas ficassem sabendo ainda mais do caráter do homem. A amiga, vendo que procuravam a palavra “pacional”, resolveu ajudar e disse para que a pesquisassem com dois esses: passional.

Imagem em diariodeceilandia.com.br.

PÕE VINTE NO GALO!

Põe vinte aí no galo. Cerca pelos sete lados, que esse bicho é arisco. Quero ver se ganho alguma coisa. Estou a neném e com algumas contas atrasadas. Pelo menos, a conta de luz eu pago. Se ficar sem luz lá em casa, Dona Encrenca encrenca de vez! Se ficar sem ver a novela, posso me considerar um homem morto. Defunto encomendado e garantido. Põe mais dez na cobra. É que eu tenho uma dentro de casa. A sogra mora comigo há uns dez anos, desde que seu Gervásio morreu. Homem bom tava ali! Era como um pai. Que Deus o tenha! Agora, ela… é uma canina! Só não me inferniza mais com a filha, porque já estou mais sujo que pau de galinheiro, que chão de curral. Sabe chão de curral? Pois é, cheio de bosta de vaca! Eu sou do interior e via isso lá. Na milhar, põe cincão. Cercada e invertida. Vem aí o dia das crianças, e o menino pediu um presente. Se não der, é outra confusão na minha vida. Aí serão a mulher, a sogra, que já é de praxe, e o filho. Já pensou? Meu menino até trocou de time, porque pegou birra comigo. Torcia pelo meu time. Só porque falhei com ele no aniversário, num ano desses aí, ele embirrou e disse que agora torce pelo Botafogo. É mole? Você, cruz-maltino, ter um filho botafoguense! Fiz tudo por aquele moleque, e ele me fez essa desfeita! Também vivo lembrando a ele o gol que o Dinamite fez em cima do Osmar. Lembra? Mas ele diz que não liga. Ele não era nascido. Aí fica me jogando na cara o campeonato de 97 em cima da gente, quando já era nascido – tinha só dois anos –, mas fez questão de se informar na internet só para me fazer raiva. Fica lembrando o gol do Dimba e a rebolada no final do jogo. Só vale a partir do seu nascimento, diz ele. Vou te contar: é só problema na vida! Trabalho no almoxarifado da empresa como uma besta, e é só pepino. O salário, às vezes, atrasa e as contas vão pras cucuias. Veja só: estou com o pendura do botequim também atrasado. Seu Manuel ainda vai ter de aguentar mais uns dias. Pior que eu fico sem poder passar até na calçada do bar. Não quero ser envergonhado com ele me cobrando na frente dos outros. Aí, quando receber, vou lá e pago, e invento uma desculpa: estava doente, coisa assim. Nem de beber, a gente tem direito. Vida de pobre é foda, cara! Por isso é que eu, às vezes, faço a minha fezinha no bicho. Quem sabe? Um dia eu ganho, acerto na milhar e ponho tudo nos eixos. Do jeito que está, é que não posso ficar. Põe mais dois, no grupo. Não é nada, mas pelo menos salvo o que apostei e aí as coisas vão ser adiadas por mais uns dias. Também quem me mandou nascer pobre. Pobre é foda, cara! Tem mais é que levar ferro! Não tem aquele ditado que diz que pobre e cachimbo nasceram pra levar fumo? Pois é! É isso mesmo! Minha mulher fica me mandando entrar pra igreja dela, pra eu dar um rumo na vida, que eu tou muito perdido… essas coisas. Como é que vou? Eu tou é durango, mesmo, cara! E o pastor ainda vai me cobrar dez por cento. Com esse dinheiro, eu jogo no bicho. Deus, se tiver compaixão de mim, há de ver a minha luta e me socorrer. O pastor, quando abriu a igreja, nem carro tinha. Andava de ônibus. Hoje, desfila com um carrão bonito, cheio de pneu e antena. Ainda teve a coragem de botar um plástico no vidro de trás: Propriedade do Senhor Jesus. Tem cada cara de pau! É o Senhor Jesus que paga o IPVA, que vai passar fim de semana no hotel fazenda, que bate o carro? Isso ela não vê. Mas, se eu falo assim em casa, arranjo mais confusão pro meu lado. Desculpe, companheiro, ninguém precisa ficar ouvindo minhas lamentações, mas é que chega uma hora em que, se a gente não desabafa, a cabeça explode. O bom é que sobrou ainda um dinheirinho, que vou ali no botequim tomar uma, senão ninguém aguenta.

 

ZÉ DO OVO

Na brincadeira de crianças, os dois irmãos resolveram matar porco, como a mãe costumava fazer. Só que o porco era o Zé do Ovo, menino meio aluado das ideias, praticamente criado com o casal de irmãos. A mãe, quando chegou ao terreiro, ainda teve tempo de salvar o pobre coitado da morte certa, o filho já com a faca na mão, preparando-se para enterrá-la no sovaco do porco. A mãe acabou com a brincadeira de mau gosto, explicou tudinho para os meninos, parassem com aquilo que o Zé morreria de verdade.

Cresceram juntos. Teteca e Zé do Ovo aprenderam a fazer coisas de meninos, de rapazes, de homens, inclusive a beber cachaça. Zé, meio filho de criação, meio garoto de mandados, as ideias cada vez mais embaralhadas, vez em quando sumia no mundo. Voltava contando histórias de patrões que lhe pagavam apenas com um miserável prato de comida o trabalho duro da roça. Vinha seco, mais magro que a necessidade, e ficava novamente por uns tempos, se retemperando, se abastecendo. Então tornava a sumir.

Reaparecia crente, batista, presbiteriano, testemunha de Jeová – sabe-se lá! –, abstêmio, com horror ao álcool, ao pecado, andando de paletó puído nos dias de culto, quando, então, tirava o surrado chapéu de palha da cabeça, penteava o cabelo de lado e se empapava com uma água de colônia que a irmã postiça lhe presenteara. E, assim, saía cheiroso porta afora na direção da igreja.

Voltava a beber, parava, recomeçava. Sumia por outros tempos.

Uma tarde brumosa, cheia de pressentimentos, chegou a notícia de que, ao passar por uma pinguela sobre um corgozinho à toa, teve vertigem de fome, de fraqueza, e caiu com a cara no filete d’água. E lá ficou até que seus pulmões se encheram, se abarrotaram, explodiram, e ele morreu sem a mínima glória, sem a menor atenção do Criador, no desamparo trágico da existência. Uma vida tocada a ingenuidade do princípio ao fim!

Imagem em riosambaqui.com.br.