O TORCEDOR

O cara acorda no futuro, tempos após entrar em estado de coma, num hospital particular da zona sul da capital.

Ao recobrar a consciência vê uma mulher já com pés-de-galinha a contornar os olhos, alguns cabelos brancos e o rosto de bochechas negativas, ao lado da cama, e pergunta pela esposa:

– Cadê a Zoraide?

Surpresa com o fato, a mulher responde:

– Querido, sou eu, a Zoraide! Que bom que você acordou!

– Zoraide?! É vocês mesma?! – se espanta o homem diante da mulher mais velha que ali está, mas cujas feições não lhe eram estranhas.

A Zoraide não tinha cabelos brancos, nem pés-de-galinha, nem bochechas cavadas. Quando se deu o problema, era ainda uma mulher jovial, com os hormônios a funcionarem visivelmente em seu corpo bem-feito, em suas feições bem talhadas.

– Quanto tempo fiquei aqui, dormindo, inconsciente? Fale devagar para eu não tomar susto? Tem um espelho aí, para que eu me veja? E aquele jogo do Vasco contra o Flamengo pelo Campeonato Carioca, que ganhávamos por três a zero, como terminou?

– Calma, Frederico! Vamos por partes, senão é capaz de você voltar ao coma novamente.

– Então, mulher, me diga aí!

– Em primeiro lugar, o jogo terminou três a um para o Vasco. Embora alguns torcedores do Flamengo esperassem uma virada já aos quarenta e sete minutos do segundo tempo.

– Eles são incorrigíveis. E fomos campeões cariocas?

– Calma. Depois te falo isso.

O piripaque que o levou ao hospital fora exatamente no terceiro gol do seu time contra o Flamengo, na mais improvável das projeções de todos os especialistas em futebol. Quando o atacante deu o drible no lateral esquerdo adversário, deixando-o desmoralizado no gramado, e chutou no canto do goleiro, ele não viu mais nada e teve de ser rebocado para o hospital, às pressas, porque não atinava com mais nada.

Por isso que sua grande preocupação, no momento em que recobrava a consciência, era justamente o resultado do jogo.

– Vou pegar um espelho para você se ver.

Zoraide trouxe o espelhinho que carregava na bolsa e lhe permitia dar um tapa no visual, como se diz comumente, durante todo o tempo que passava no hospital. Pelo menos duas vezes por semana, vinha sentar-se ao lado da cama onde seu marido se mantinha sob a parafernália médica que o conservava vivo, embora inconsciente. E não percebeu que, aos poucos, foi perdendo o restinho de viço que ainda portava.

Frederico se olhou no espelho que a mulher lhe estendeu e não gostou do que viu.

– Esse sou eu?!

– Exatamente, sem tirar, nem pôr.

– Como sem tirar, nem pôr?! Você vê o que eu estou vendo?

– Sim! Exatamente! Espelhos não mentem jamais. Lembra do espelho da Rainha Má da Branca de Neve?

– Que isso, mulher? Estou falando sério! Esse que vi parece meu irmão mais velho e não eu.

– Pois então. Você ficou a cara dele.

– Mas ele é mais velho do que eu quatro anos! Quanto tempo estou aqui neste hospital? Isso é um hospital, não é mesmo?

– Claro que é um hospital! E você está aqui há praticamente quatro anos. Ou pensa que eu passei maquiagem, pintei os cabelos ou fiz bichectomia? São quatro anos de sofrimento, em que venho aqui duas vezes por semana, sento-me ao seu lado, pego um livro para ler, futuco o celular para ver as redes sociais, rezo meu terço, enquanto aguardo você voltar, ou… Sei lá! – e não deu vida àquele pensamento funesto.

– Eu perdi quatro anos da minha vida inconsciente, Zoraide? É isso que você me diz?

– Frederico, veja pelo lado positivo: você ganhou quatro anos de vida. Agora está aqui de volta, conversando comigo de um jeito inesperado e surpreendente. Aquele terceiro gol do Vasco, em abril de dois mil e vinte e um, poderia ter sido seu atestado de óbito. E você ainda reclama?!

Neste ínterim, chega o médico de plantão a fazer a inspeção dos pacientes internados. Dirige-se ao leito de Frederico e se surpreende com sua saída do coma.

– Dona Zoraide, há quanto tempo seu marido recuperou a consciência?

– Há uns três ou quatro minutos, doutor.

– E por que a senhora não nos comunicou imediatamente? Estávamos no instante da troca de plantão.

– É que ele já acordou cheio de perguntas, de questões, e fiquei aqui envolvida com ele. Desculpe.

– Sem problemas, dona Zoraide. Melhor assim, já que não houve nenhuma intercorrência.

O médico pediu licença à mulher, pois iria fazer uma série de avaliações, para entender o atual estado do paciente. Durante quatro anos, ele tinha estado naquele mesmo lugar, conferindo todos os índices dos aparelhos, avaliando o estado geral de Frederico e, justamente agora, queria saber se a volta era definitiva, ou apenas um rebate falso, preparativo para um desenlace fatídico.

Ao final dos exames, chama Zoraide de volta e comunica que, surpreendentemente, seu marido estava muito bem, que talvez até pudesse ter alta, com as recomendações de acompanhamento fisioterápico doméstico e uma batelada de medicamentos, para uma completa recuperação.

Dois dias depois, a ambulância do hospital leva Frederico para casa, toda preparada para recebê-lo. Os enfermeiros o levam em cadeira de rodas até o apartamento, acomodam-no numa poltrona confortável da sala e se despedem, desejando boa recuperação.

Frederico se sentia confortável e feliz. Pede à mulher meio copo de água fresca e que ela procure na smarttv de última geração, comprada durante sua estada no hospital, o vídeo da partida entre Vasco e o Flamengo. Aquela mesma! Queria rever tudo, sobretudo os minutos finais. A mulher ainda ponderou que não seria aconselhável, já que fora exatamente o jogo que o metera naquela enrascada.

– Que nada, Zoraide! Eu agora já sei o resultado da partida. Não há mais o fator surpresa, a emoção, a adrenalina desenfreada.

Zoraide procurou, procurou, até que achou. Pôs a rodar o vídeo e foi para a cozinha providenciar o almoço. De lá, ouvia a narração do jogo e os palpites do Frederico, sua vibração a cada gol, a cada lance bonito do seu time.

– Está tudo bem aí, Frederico? – perguntava de vez em quando, como a monitorar o marido.

– Tudo bem! Sem problemas! Só me divertindo novamente.

E continuava ela a refogar o arroz, a temperar o feijão, a preparar a sopa para o marido.

Então se aproximava o instante em que o Vasco faria o terceiro gol. Do grande círculo de jogo, o jogador vascaíno vê o colega na intermediária ofensiva, calibra o passe e lança a bola do lado esquerdo do companheiro, que parte na corrida. O último homem do adversário é justamente seu lateral esquerdo, com passagem no estrangeiro e na Seleção, que parte junto do vascaíno, a tentar barrar sua progressão em direção à grande área. Exatamente sobre a linha da grande área, o vascaíno trava a bola e a corrida, enquanto o flamenguista se esborracha no gramado. O vascaíno escolhe o canto e mete a bola no gol, com tal perícia, que ao goleiro rubro-negro, sobre a linha da pequena área, resta apenas, desolado, vê-la morrer no fundo das redes.

Neste instante, o coração de Frederico parou. E agora definitivamente.

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CONTOS LIGEIROS DE PANDEMIA

(Dedicado, com profundo respeito, às vítimas desta terrível pandemia.)

O ESPIRRO

O cara de chapéu de palha adentra o coletivo, já cheio àquela hora da manhã. Chovia fino no momento, e todas as janelas estavam ou completamente cerradas ou com ligeira abertura, a permitir que entrasse um tiquinho de ar fresco. Ele espirra, assim que valida sua passagem. E, mesmo de máscara, é atirado fora do coletivo pelos dois fortões que se sentavam no primeiro banco da direita. Da calçada, ainda grita impropérios em vão contra os fortões.

A FEBRE

À entrada do shopping está o segurança munido de uma garrafa de álcool e um termômetro digital. O termômetro foi calibrado para marcar um grau a menos, a fim de não se perder cliente. Chega um cara de boné e máscara. Lá fora faz um sol intenso. O segurança borrifa álcool na mão do cara e lhe tira a temperatura, momento em que percebe 38° no mostrador e barra a entrada do cara. O cara, revoltado, retira a máscara e tosse em direção ao rosto do segurança, que sai correndo para o interior do shopping, borrifando-se de álcool.

A GARGANTA RASCANTE

No interior da padaria da esquina, há uma pequena fila a aguardar a saída da mais recente fornada de pães fresquinhos. O cara, de gorro e máscara, apressado, raspa a garganta rascante com insistência e dá bom dia fanhoso a todos. Há uma debandada geral, e ele passa a ser o primeiro da fila. A mocinha atendente não conseguiu fugir.

A FALTA DE AR

O elevador só comporta quatro passageiros, conforme normas em tempos de pandemia. Ao descer, para no décimo andar, quando o cara de chapéu de panamá e máscara entra e cumprimenta os outros três. Ninguém responde. O cara, então, começa a apresentar sintomas de falta de ar. Tenta puxar o ar do espaço exíguo, leva a mão à garganta e ofega com dificuldade. Um dos passageiros aperta o botão do quarto andar, após observar no painel a altura em que se encontra o elevador. Assim que a porta se abre, os outros três passageiros saem correndo do elevador. O cara, aliviado, expele o gás intestinal que o afligia com uma cólica. E escapa no térreo, sem olhar para trás. Azar de quem entre!

PROBLEMAS NO OLFATO

O cara de chapéu de feltro e máscara observa, assim que a porta do elevador se abre, a saída célere do outro cara de chapéu de panamá e máscara e entra no elevador, empesteado com o mau cheiro da flatulência deixada pelo outro. Vai até o décimo andar à consulta marcada com o clínico geral, reclamar que não consegue perceber cheiros. Nem do café oloroso que lhe faz a mulher. Deve ser o diabo da sinusite novamente, pensa ele.

AGLOMERAÇÃO

Já havia no local seis pessoas. Todos estão de máscara. O espaço era exíguo. Todos aguardavam atendimento, com reclamações contra o mau cheiro da água da CEDAE. Pelo menos, pensavam, se sentem o mau cheiro, é sinal de que não estão com a maldita COVID-19. Chega o cara de chapéu de couro e máscara, que cumprimenta os demais. Um que responde o cumprimento pergunta se ele também vinha reclamar do cheiro da água. O homem de chapéu de couro diz que não, que a reclamação é contra o hidrômetro, que parece marcar a mais. As outras seis pessoas desfazem a aglomeração instantaneamente, escapando porta afora.

ÓBITOS

O cara sem chapéu e máscara jogava pôquer em casa, quando recebeu a notícia da morte do parente. Era um primo que não resistira às complicações do maldito vírus. Um pouco depois, outra notícia de outro primo vitimado em Itaperuna. Algumas semanas após mais dois primos por afinidade sucumbiram à doença. Todos eles viraram estatística, na conta funesta da pandemia. Foram extraídos do círculo de afeto que enlaça as famílias e lançados entre as centenas de milhares de sacrificados, sem glória, sem honra, sem despedidas. E a desesperança começou a dar as cartas bem de pertinho, fazendo uma sequência macabra de straight flush. Ainda será possível um royal flush para reverter o jogo, pensou ele.

Pieter Bruegel, o Velho. O triunfo da morte; 1562 (Museu do Prado).

JUQUITA E O ISQUEIRO

Um dia Juquita amanheceu cismático, cheio de ípsilones, como nunca havia ocorrido. Ele não era uma pessoa assim. Muito ao contrário. Era um homem circunspecto, de poucas palavras, alheio ao interesse pela vida alheia e, sobretudo, tranquilo.

Mas naquele dia acordou cedo demais, ainda com o escuro da madrugada, e foi até o terreiro assuntar o céu. Como de hábito, acendeu o cigarro, que tragava em longas baforadas, enquanto procurava estrelas e as explicações que delas proviessem. Um pouco depois, durante o café da manhã, disse à mulher que o barulho do movimento das estrelas o incomodara durante a madrugada, de modo que não conseguira dormir direito. Tinha passado parte do tempo na cama, a rolar de um para outro lado, imaginando ouvir vozes misteriosas, numa língua desconhecida. Pensou tratar-se de fala de alienígenas. Como, porém, não fosse de todo sem ilustração, intuiu que qualquer língua diferente do português e do espanhol, que julgava um português malfadado, seria língua de etês. Pelo menos, no entanto, nunca ouvira nada semelhante, ainda mais porque, ao fundo, ouvia ruídos parecidos com os velhos rádios rabo-quentes da sua infância, a tentar sintonizar estações ao longo do dial.

A mulher ponderou que pudesse ser excesso de cera nos ouvidos, a produzir barulhos estranhos dentro da cabeça. Ainda mencionou uma tia já defunta, a tia Laurinda, que tivera sensação igual à dele e passou por uma lavagem, em que quase duzentos gramas de entulhos foram removidos de seus ouvidos. Depois disso ela até passou a ouvir o que não queria, mas tudo naturalmente.

Porém Juquita não admitiu o diagnóstico da mulher. Há dois, três meses fizera limpeza semelhante. E seus ouvidos não seriam capazes de gerar quantidade de cera necessária a produzir ruídos como os que ouvira. Agora mesmo, ali tomando o café com ela, não ouvia nada estranho. Eram os barulhos naturais da vida. Aquilo não foi normal. Foi algo muito estranho.

A mulher indagou, então, se, por acaso, por uma remota hipótese, ele não teria sonhado e, sonâmbulo, saído porta afora da casa no meio da noite, para pitar um cigarrinho, vício que ainda acabaria por levá-lo ao cemitério, como asseverava contrariada.

– Claro que não, mulher! Então eu não vou saber se estou dormindo ou acordado. Aliás só sei mesmo quando estou acordado, porque dormindo não tenho consciência de nada. Foi isso que eu te disse: ouvi o barulho das estrelas se movimentando no infinito e uma espécie de vozes estridentes, falando uma língua esquisita, entre ruídos de rádio sendo sintonizado.

Ele tinha certeza de que ouvira. Só não sabia o que ouvira.

A mulher olhou para ele incrédula, lambuzou de manteiga uma fatia de pão, molhou no café e tirou um bom pedaço. Deu um muxoxo, como que conformada.

– Realmente não sei o que lhe falar. Não sendo cera no ouvido, fica complicado. Vamos ver se isso se repete. Caso aconteça, é bom procurar um médico, para descobrir o que está acontecendo. Ninguém ouve ruídos de estrelas. Eles não chegam até aqui.

Aquela próxima noite passou sem novidades. O casal acordou no horário habitual e, durante o café, Juquita comentou:

– Hoje dormi sem novidades. Não ouvi ruído nenhum. Foi um sono só, até agora de manhã.

– Então, Juquita, não foi nada demais. Você deve ter sonhado. Já ouvi falar num tal sonho vívido, que a pessoa sente como se fosse realidade. E você sabe disso.

– Sei não, mulher! Sei não! Mas que foi esquisito, lá isso foi. Mas vamos tocar a vida em frente como se nada tivesse acontecido. Quero esquecer.

E o dia rolou tranquilo, sem novidades, naquela casa simples, na pequena cidade interiorana.

Na segunda noite do ocorrido, lá vai Juquita, sob o manto da madrugada, até o quintal, para atender ao mesmo incômodo sentido na antevéspera. Tirou o cigarro, que acendeu com o velho isqueiro Ronson, puxou uma longa baforada e se pôs a examinar o firmamento estrelado. Por um instante acreditou ter visto uma estrela piscar mais fortemente, enquanto passava o olhar pela quadra do céu bem acima do Morro das Andorinhas, a se insinuar no horizonte escuro. E tornou a experimentar a sensação de ouvir vozes e ruídos estranhos.

Mal a mulher acordou, contou a ela o ocorrido. E ela não teve dúvidas:

– Vamos marcar uma consulta com o doutor Modesto, para saber o que está acontecendo.

O resultado da consulta, quatro dias depois, deu em nada. O otorrino nada encontrou a justificar os incômodos narrados pelo paciente. E o casal voltou para casa ainda mais desconcertado.

E uma terceira vez voltou a ocorrer o mesmo fenômeno com Juquita. Agora, um tanto receoso da sua condição, disse à mulher que a despertaria, quando se repetisse aquilo, para que ela fosse testemunha.

Na quarta vez, era véspera do Dia de São João, o céu abarrotado de estrelas, Juquita chamou a mulher, com um toque no ombro:

– Acorda, Zefa! Estou tendo aquela mesma sensação. Vou lá para o quintal.

E saiu, já levando o cigarro e seu isqueiro à mão, enquanto a mulher tentava arrumar os cabelos e vestir alguma coisa que a protegesse do sereno da madrugada.

Quando ela, por fim, passados talvez quatro, cinco minutos, chegou à soleira da porta, viu o marido entrando num objeto luminoso, que baixara uma rampa até perto da jaqueira do quintal. Ela, apavorada, ainda gritou pelo marido:

– Juquita!

E mais tempo não houve para nada. O objeto levantou voo, com um suave ruído de motor elétrico, erguendo do chão uma profusão de folhas caídas e subindo ao céu como um dardo de luz.

No chão, próximo à jaqueira, restou apenas o isqueiro antigo, presente que a Zefa lhe dera pelo primeiro Dia dos Namorados que comemoram juntos, dezenas de anos atrás.

Dias depois, Zefa foi levada pelos filhos para tratamento em uma clínica psiquiátrica. E do Juquita nunca mais se teve notícia.

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HISTORINHAS RÁPIDAS XIII

HISTORINHAS COM DENDÊ (cont.)

26. NA EMERGÊNCIA

No aglomerado de gente à porta do hospital público, toca o celular da senhora ao lado. Ela atende e começa a explicar o ocorrido:

– Foi uma livração, fulana! Ele pegou a faca e foi para cima dela, para dar uma facada na coitada. Aí a cachorra avançou nele e não deixou. Protegeu a dona! Foi o Senhor Jesus e a cachorra que salvou (sic) ele!

É a primeira vez que ouço falar do auxílio de um cachorro a Jesus.

27. NA ALTA

À saída do hospital público, com alta médica, a paciente comenta com a oftalmologista que fez sua avaliação final e que a via pela primeira vez, após a cirurgia:

– Eu tive um desmaio, já na hora de me dirigir para o ônibus da excursão para ir embora, ao fim do passeio. Caí com o rosto no chão e tive esse problema todo no olho.

A médica ouvia tudo com atenção, exclamando a instantes, com o acento baiano:
– Ah, foi?!

E a paciente continuou a narrar os detalhes da situação por que tinha passado. Até que no final, ouviu da médica:

– Graças a Deus!

A paciente, sem entender, perguntou o porquê do “graças a Deus”. E a médica com a lógica afiada:

– Porque foi no fim do passeio. Você já tinha visto tudo, passeado à vontade, conhecido todos os pontos turísticos de Salvador. Já pensou se fosse na chegada? Você vai ter história para contar daqui.

28. COM OU SEM EMOÇÃO?

A paciente aguarda na maca, na emergência do hospital público de Salvador, o momento de ser conduzida à sala de cirurgia.

Daí a instante, atendendo o grito “Apoio!” da enfermeira acompanhante, chega o maqueiro simpático, que a cumprimenta, diz seu nome, fala que a conduzirá e pergunta:

– Quer com emoção ou sem emoção?

Na Bahia, até mesmo a simples condução de uma prosaica maca hospitalar, pode ser com este diferencial.

A paciente responde, então, que quer da melhor forma possível.

O maqueiro empunha a maca e sai pelos corredores, em velocidade de cruzeiro, curvando aqui e ali; desviando-se de um e outro obstáculo; produzindo sonoplastia de ambulância – Uó! Uó! Uó! – para abrir passagem; acenando a cada um que o cumprimenta – Aí, Valtinho! -; e brecando o veículo alucinado, com a descarga da pressão dos freios, à porta da sala: Shiiiiii! Shiiiiii! Shiiiiii!
Valtinho é um maqueiro beatbox.

Daquela viagem, a paciente estava salva. Espantada, mas salva.

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HISTORINHAS RÁPIDAS XI

21. HISTORINHA ORTOPÉDICA

Gavião era meu aluno na faculdade e me contou esta historinha.

Morava com a família, havia algum tempo, o seu avô viúvo, que tinha como maior característica não resistir a uma promoção do comércio. Era um perigo o avô passar diante de um produto em promoção, sem ser tentado a levá-lo para casa.

Certo fim de tarde, após um périplo pelas ruas próximas, o avô chega a casa com um reluzente par de muletas de madeira, muito bem-acabado e envernizado, com o apoio dos braços em couro acolchoado. A família ficou espantada com aquilo e indagou dele o porquê das muletas, já que não havia ninguém estropiado em casa.

– É que eu passei em frente aquela loja de material hospitalar, e as muletas estavam na promoção por um precinho ótimo. Aí não resisti.

– Mas, vovô, agora o senhor exagerou! – reclamou Gavião – Ninguém aqui está precisando disso!

– Mas vai que, um dia – Deus nos livre! Nunca se sabe! –  alguém precise! – retorquiu o velho com segurança.

Cerca de três meses depois, ao tomar banho, o avô escorregou no banheiro e fez pequena fratura num ossinho do pé direito. Ao voltar para casa, após ser atendido na clínica ortopédica, de onde saiu com uma bota de gesso, falou para o neto:

– Pega lá aquele par de muletas que comprei por um preço baratinho. Não disse que, um dia, alguém iria precisar!

 

22. HISTORINHA SEXY

Minha amiga colocou aquela braçada de roupa suja na máquina de lavar, ajustou a programação e foi assistir à novela. Ao fim da lavagem, tratou de estender a roupa no varal. Vai uma peça, vai outra, e mais outra, até que pegou entre os dedos uma calcinha feminina, tipo fio dental, no padrão oncinha, com um piercing insinuantemente fixado na parte frontal da mimosa peça.

– Que isso?! – indagou, entre indignada e surpresa, de si para consigo.

Ela mesma, embora ainda uma jovem senhora, mãe de um casalzinho de crianças, não era dada a esse tipo de saliência. E não teve dúvidas. Foi até o quarto, onde o marido, esparramado na cama, via o jogo do seu time, naquele horário que coincide com a novela e tem sua exibição em outro canal.

– Marcelo, isso é seu?! – inquiriu em molde de investigador de polícia da famosa Invernada de Olaria, de elucidadas memórias.

– Claro que não! Eu uso cueca!

– Não se faça de desentendido! Você entendeu muito bem o que estou perguntando!

E a inquirição tinha por base o fim de semana que fora passar com as crianças na casa da mãe, lá pelos lados de Niterói. Enquanto ele, o marido, teve férias conjugais por três noites.

A situação do casamento chegou a um estágio periclitante. De nada adiantavam as explicações e justificativas do marido, que asseverava não saber a origem de peça tão sexy.

Até que minha amiga se lembrou de que alugara sua casa, pelo Airbnb, enquanto passava uma temporada em Bali. Pegou sua agenda telefônica e ligou para a locatária do imóvel:

– Mônica, boa tarde! Tudo bem com você? Olha, encontrei aqui em casa uma calcinha de oncinha, com um piercing. Por acaso é sua?

– Que vergonha, fulana (Omito o nome para evitar processo.)! É minha sim. Desculpe! Já tinha arranjado uma confusão com o Gérson, porque a tinha perdido. Ele que gosta tanto da calcinha. Pode mandar pra mim pelo Sedex?

E assim, esclarecido o imbróglio, se salvou o casamento da minha amiga.

 

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Faltou o piercing. (Imagem em mercadolivre.com.br)

HISTORINHAS RÁPIDAS X

19. HISTORINHA FRATERNA

Esta já contei há tempos, mas repito para os novos leitores.

Catito e Maria Lúcia, pais dos meus sobrinhos Dondinho e Dudu, hoje rapazes feitos, num domingo aprazível, foram almoçar em restaurante na Praia dos Cavaleiros, em Macaé.
Enquanto esperavam pelo pedido, os dois pequenos brincavam, brincavam, até que começaram a brigar.

Catito, para tentar acalmar os ânimos, leva os dois para a área em frente ao restaurante. Lá já estava um menininho um pouco mais novo, lourinho dos cabelos espetados e óculos redondo de lentes fundo de garrafa.

Catito, na tentativa de constranger os brigões, vira-se para o loirinho e pergunta:

– Você não acha feio dois irmãos brigando?

Do alto de sua sabedoria infantil de cerca de um metro, se tanto, o menino diz:

– Eu não se meto em briga de irmão dos outros!

 

20. HISTORINHA FUTEBOLÍSTICA

Gentil Cardoso era técnico de futebol, ativo entre as décadas 30 e 60 do século passado. Era um dos treinadores mais folclóricos do futebol brasileiro, em função de suas tiradas bem-humoradas e surpreendentes.

Uma das suas muitas histórias conta que, certa vez, durante treinamento, chamou às falas um dos seus jogadores, que andava maltratando a bola com chutões sem propósito para onde o nariz apontasse, utilizando o método socrático de busca da verdade, a fim de levar o pupilo ao seu ponto de vista:

– Meu filho, me diga aqui: a bola é feita de quê?
– De couro, seu Gentil. – Na época não se chamava o treinador de professor.
– E o couro vem de onde?
– Da vaca, seu Gentil.
– E a vaca come o quê, meu filho?
– Come grama, seu Gentil.
– Então põe a coitada da bola na grama, infeliz!

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HISTORINHAS RÁPIDAS IX

17. HISTORINHA IMPRUDENTE

No posto de saúde do Vital Brasil, seu Prudêncio, 95 anos, aguardava, sentado numa cadeira especial, o começo da vacinação contra a gripe. Sua acompanhante informou que ele tinha quebrado a bacia, por isso a cadeira especial naquela fila de diversos outros idosos, inclusive eu e a Jane.

Meses antes, a mulher de seu Prudêncio quis subir na escada de abrir, para pegar algo na parte superior do armário, e ele não permitiu. Era um perigo. Ele mesmo faria isso. Subiu, caiu lá de cima sobre a companheira e fraturou a bacia. A mulher teve luxações generalizadas.

Agora o imprudente seu Prudêncio aguardava pacientemente que o atendimento do posto a começar às oito horas da manhã se iniciasse com meia hora de atraso.
Tomou a agulhada ali mesmo, sentado sobre a cadeira colocada no corredor. E ainda agradeceu com um sorriso lúcido e simpático à enfermeira que lhe furou o braço.

 

18. HISTORINHA FARMACÊUTICA

Na minha adolescência, em Carabuçu, fui aprendiz de barbeiro com o Moreninho, exímio craque da tesoura e da navalha. Próximo à barbearia, ficava a farmácia do Zé Rezende, onde Ronaldo, meu amigo e colega do grupo escolar, trabalhava. Eu não gostava muito daquela sujeira que o cabelo cortado fazia e, ao contrário, gostava do cheiro das poções e dos álcoois da manipulação de remédios. E tinha comentado isso com o Ronaldo. Mas, em lugar pequeno, nem sempre há vagas para mais um nos estabelecimentos comerciais, também pequenos.

Certo dia chegou à vila um circo, que tinha como atração alguns animais, dentre os quais uma hiena. Um amarra-cachorro do circo se fez de engraçadinho e foi urinar junto à jaula da hiena. Aí não prestou! O bicho enfiou o focinho através das grades e mordeu o pênis do mané, que foi levado à farmácia. Lá chegou ele com mais um furo no dito cujo a requerer cuidados.

Ronaldo, então, teve de atendê-lo. Antes porém de iniciar os trabalhos, mandou me chamar para saber, diante daquela cena, se eu ainda tinha desejos de ser auxiliar do Zé da Farmácia. Claro que abri mão do meu sonho na hora. Pelo menos, como barbeiro, eu só alisava cara de homem. E não outros setores da anatomia masculina.

 

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HISTORINHAS RÁPIDAS VIII

15. HISTORINHA NUPCIAL

Teteca, meu cunhado, bebia como sempre num dos pés-sujos do mercado de Miracema. E bebia bem. Naquela noite, nos idos dos 80, já um tanto avultado nos espíritos do destilado de cana, recebeu convite para ser padrinho de um casamento gay (Miracema sempre foi avançada!), a se realizar daí a pouco, na parte superior do prédio. F*, a noiva, o convidou para a cerimônia.

Como não estivesse fazendo nada, além de beber, e fosse desprovido de preconceitos, até mesmo por certo embotamento alcoólico, subiu para testemunhar o enlace, que teve juiz de paz de mentirinha, livro de mentirinha e padrinhos de mentirinha. Na época, é claro!

Terminada a cerimônia, a noiva resolveu subir até o quartinho que alugava, no andar acima, para tirar o vestido de ocasião, colocar algo mais vaporoso e voltar para a comemoração, em que reinavam bebidas e salgadinhos.

Só que, ao descer as escadas de volta, F* encontrou certo tipo bem-apessoado, com o qual acabou se agarrando nos degraus. O noivo, estranhando a demora, decidiu ir atrás da noiva e a flagrou engalfinhada com o tal tipo, o que gerou a distribuição de tapas, rabos de arraia e pescoções, no varejo e no atacado.

O conflito se generalizou de tal forma, que pegou meu cunhado no desaviso e produziu na sua pessoa contusões e pisaduras diversas.

Quando conseguiu se desvencilhar daquela chusma de contravapores, Teteca reclamou no meio dos circunstantes briguentos:

– Por que eu apanhei, gente? Não sou gay! Nem paquerei ninguém aqui! Nem adianta mais me chamar para padrinho de casamento gay! Nunca mais aceito!

 

16. HISTORINHA IMPRUDENTE

No posto de saúde do Vital Brasil, em Niterói, seu Prudêncio, 95 anos, aguardava, sentado numa cadeira especial, o começo da vacinação contra a gripe. Sua acompanhante informou que ele tinha quebrado a bacia, por isso a cadeira especial naquela fila de diversos outros idosos, inclusive eu e a Jane.

Meses antes, a mulher de seu Prudêncio quis subir na escada de abrir, para pegar algo na parte superior do armário, e ele não permitiu. Era um perigo. Ele mesmo faria isso. Subiu, caiu lá de cima sobre a companheira e fraturou a bacia. A mulher teve luxações generalizadas.

Agora o imprudente seu Prudêncio aguardava pacientemente que o atendimento do posto a começar às oito horas da manhã se iniciasse com meia hora de atraso.
Tomou a agulhada ali mesmo, sentado sobre a cadeira colocada no corredor. E ainda agradeceu com um sorriso lúcido e simpático à enfermeira que lhe furou o braço.

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*Por prudência, omiti o nome da noiva.

HISTORINHAS RÁPIDAS VII

13. HISTORINHA VOCABULAR

 

Era o final da década de 60. Eu tinha começado a fazer Letras. Na faculdade encontrei um conterrâneo que não conhecia de Bom Jesus, Aldany, já advogado, casado, pai de filho, e diretor de uma subsidiária da antiga Cia. Siderúrgica Nacional. Ficamos bons amigos. Saíamos sempre juntos do Instituto de Letras, tomávamos o mesmo ônibus 30 na Rua Dr. Celestino, mas cada um saltava em pontos diferentes.

Sobre ser mais velho do que eu, ainda era mais culto, mais experiente e mais erudito.

Certa vez, esperávamos o 30, enquanto conversávamos, e ele soltou lá uma de suas palavras que me eram desconhecidas, ao comentar sobre uma pessoa conhecida:

– Fulana é muito iracunda. – e colocou o primeiro pé no estribo do ônibus que atendera ao nosso sinal.

Subi atrás, segurando firme minha então pasta James Bond (Os mais velhos hão de saber.), e indaguei:

– O que é iracunda!

E ele, com a solenidade de um lord inglês:

– Iracunda é irascível.

– Ah! Entendi!

Na verdade, só fui entender ao chegar à pensão da Dona Dinorah, onde morava, e consultar o “pai dos burros”.

Eu não podia dormir com aquele tijolaço vocabular tilintando nos meus ouvidos.

 

14. HISTORINHA RELIGIOSA

Lá pelos idos de 60, em Carabuçu, certo conhecido da minha mãe, já meio entrado em anos, analfabeto de berço, disse a ela que iria fundar uma igreja, porque não estava satisfeito com seu pastor. Minha mãe, então, quis saber como ele faria para difundir a Bíblia, sob seu ponto de vista, já que não sabia ler. Com toda a segurança, ele disse:

– Minha muié lê, e nós tepreta.

 

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HISTORINHAS RÁPIDAS VI

11, HISTORINHA DESCARADA

 

Era lá pela década de 90 do século passado. Jane e eu fomos com minha irmã e seu ex-marido assistir a um show do Ed Motta, numa casa de show em Ipanema hoje inexistente, o Jazzmania.

Daí a pouco começa o show, e Ed Motta começa a cantar:

– Eu não nasci pra trabalho…

Da mesa atrás de mim, cantou uma voz masculina, no ritmo e no tom do artista:

– Nem eu!

Todos nos voltamos na direção da voz. Era um rapaz, cara de pau, tipo rato de praia, acompanhado de uma senhora generosa, que sorria com a situação. Ela estava feliz com o seu protegido.

 

12. UMA HISTORINHA DE BOM JESUS

No domingo à tardinha, tinham jogado Ordem e Progresso e Olímpico, as duas forças antagônicas no futebol das duas Bom Jesus: o primeiro, do ES; o segundo, do RJ. O Progresso, como dizemos sempre, aplicou um 4×1 impiedoso no time de Bom Jesus do Itabapoana.

Zé Cabeça, por essa altura, tinha um bar, em salão único, comprido, junto de sua casa, na Rua Ten. José Teixeira, a que vai dar na ponte. Ex-jogador e torcedor fanático do Progresso, de Bom Jesus do Norte, escreveu a tinta, no grande espelho da parede do fundo do seu bar, o placar desmoralizante.

E conversava com outros três amigos, sentados à volta de uma das mesas da casa, quando chegou o Alceste Sá Viana, pai do meu colega de escola Altever e amigo de todos os que ali estavam, mas torcedor também fanático do Olímpico.

Ao ver o placar estampado no espelho, Alceste nem colocou o segundo pé na soleira do bar. Puxou o revólver que trazia à cintura, deu três tiros no espelho e disse para o grupo à mesa:
– Está empatado o jogo!

E, de imediato, saiu do local indignado.

Passado o susto, dizem as más línguas que o Zé Cabeça, também pai de outro contemporâneo meu, o Gaiola, perguntou aos outros trocadores de prosa:

– De quem mesmo a gente estava falando mal?

 

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A arquibancada do Estádio Carlos Firmo, em Bom Jesus do Norte-ES (imagem em reliquisdofutebol.blogspot.com).