NO BAR

Malaquias resolveu dar uma de macho no bar, mal acabara de chegar. Depois de ter bebido uma cachaça dupla, falou a plenos pulmões:

– Aqui não tem macho! Mas, caso tenha algum, é só esfregar o bigode que já vai entrar no cacete! Homem, comigo, é assim: trato na base do pau, do cacete! E se não gostar, aí é que apanha mais. Quebro o chifre, amasso a cara, ainda deixo o desinfeliz avariado nos países baixos. E não venha tirar farinha comigo, que o caldo entorna de vez. Fico mais bravo que touro miúra, mais venenoso que viúva-negra. Não quero cochicho! Macho não cochicha! Falem alto! Tem uns e outros aí em que eu bato só com um braço, que nem o Natal da Portela. E ainda faço engolir o cigarro e cuspir a cinza. Não quero ninguém cuspindo no chão, senão vou esfregar o nariz do sujeito no escarro.

Como ninguém respondesse, como era de se esperar, Malaquias botou o avental e foi abrir as portas do estabelecimento, que o dia começava cedo no Bar e Restaurante São Jorge, no tradicional bairro de Oswaldo Cruz, a poucos metros da gloriosa Escola de Samba Portela. E não havia melhor terapia para aguentar o rojão até os confins da noite de uma sexta-feira treze, que prometia.

 

File:Cristobal Rojas 36a.JPG

Cristobal Rojas, La taberna, 1887 (em commons.wikimedia.org).

 

NENA E ANQUIMAR

Imagem em preciolandia.com.br.

Nena e Anquimar trabalhavam no velho caminhão Chevrolet Gigante da fábrica de manteiga de Libelton Boechat, lá em Carabuçu, pelos idos de 60 do extinto século. Anquimar, o motorista; Nena, o ajudante, incumbido de tirar e colocar latões de leite na carroceria. Anquimar tinha o olho esquerdo desviado mais para a esquerda, estufado, inconfiável para golpes de vista. Nena era fanho, gago, completamente caolho, cabeça achatada na testa, como se tivesse levado uma pancada ao nascer, dentição irregular, queixo embutido, meio pancado das ideias.

Viviam lá os dois às voltas com o trabalho. Enquanto Nena carregava e descarregava o caminhão, Anquimar ficava cofiando a bigodeira preta, logo abaixo do olho esquisito e de uma bem nascida pinta escura na bochecha esquerda. Nena trabalhava e cantava músicas que até hoje nenhum ouvido ainda conseguiu decifrar. Enfim, cantava.

Determinada manhã, após a coleta do leite pelas fazendas e sítios próximos, o velho Chevrolet Gigante garbosamente adentra o pátio da fábrica para a descarga dos latões. Nena, sobre a alta calçada no mesmo plano da carroceria, fanhosamente orienta a manobra de marcha a ré de Anquimar:

– Vem, vem mais; pode vim; vem mais que dá! Vem! Vem mais, Anquimar!

Até que o caminhão bate na calçada.

Anquimar, furioso, bigode desalinhado, sai da boleia do bitelo e repreende o ajudante, aos gritos:

– Isso é modo de guiar a gente, Nena? Tá vendo: o caminhão bateu!

Nena, no seu quase inocente juízo avariado, argumenta cheio de fanhas razões:

– Bem feito! Quem manda ocê ser caolho?

O PACIONAL

No velório da mãe, chega um antigo conhecido da família para cumprimentar a filha chorosa. Aperta-lhe a mão, abraça-a e dá um beijo respeitoso de velho amigo em sua face. O marido, ao lado, se levanta e dá um murro violento no nariz do cavalheiro, que cai por entre as coroas em homenagem à pranteada defunta.

Foi um constrangimento geral! O homem levanta-se atordoado, nariz quebrado sangrando, e sai da capela mortuária sem entender o que havia acontecido. Lelena, a mulher, como diria o compositor de boleros, prorrompe em choro convulso, agravado pela perda da mãe, chama o marido de grosso, ignorante, besta quadrada, dentre outros adjetivos e expressões publicáveis em coluna familiar, e o manda embora do recinto. A família ficou catatônica com a cena. Os amigos comentavam baixinho, para não incomodar o de cujus, o comportamento do marido de Lelena.

Foi a gota d’água para que pedisse o divórcio daquela cavalgadura que tolerara por dez anos.

No dia da audiência de conciliação, Sua Excelência pergunta à mulher o que a levou a entrar com o processo de divórcio litigioso. Ela, então, depois de lhe contar alguns fatos em que, segundo lhe parecia, o ciúme do marido não permitia que a relação fosse uma coisa saudável, culminou com a história do velório da pobre mãe, que nem na hora extrema pôde ser velada em paz. O juiz, do alto de sua sapiência jurídica, após ouvir atentamente a fala de Lelena, conclui solene:

– É um passional!

Lelena e as irmãs presentes à audiência se chocaram com a revelação. Ela mesma expressou isto:

– Está vendo como ele é, Meritíssimo! Ele nunca me disse isso. Se não é o senhor, eu não ficaria sabendo de mais esse defeito dele. Além de grosso, ciumento e ignorante, é isso também.

Terminada a audiência, com a homologação do divórcio, em que o réu levou na cacunda as penas da lei, com cominações legais, morais e financeiras, Lelena foi com as irmãs e uma amiga para casa. Em lá chegando, correram ao dicionário, para avaliar o peso da acusação do juiz em cima do ex-marido. Reviram as páginas de um lado para o outro, sem conseguir encontrar o diabo da palavra, para que elas ficassem sabendo ainda mais do caráter do homem. A amiga, vendo que procuravam a palavra “pacional”, resolveu ajudar e disse para que a pesquisassem com dois esses: passional.

Imagem em diariodeceilandia.com.br.

PÕE VINTE NO GALO!

Põe vinte aí no galo. Cerca pelos sete lados, que esse bicho é arisco. Quero ver se ganho alguma coisa. Estou a neném e com algumas contas atrasadas. Pelo menos, a conta de luz eu pago. Se ficar sem luz lá em casa, Dona Encrenca encrenca de vez! Se ficar sem ver a novela, posso me considerar um homem morto. Defunto encomendado e garantido. Põe mais dez na cobra. É que eu tenho uma dentro de casa. A sogra mora comigo há uns dez anos, desde que seu Gervásio morreu. Homem bom tava ali! Era como um pai. Que Deus o tenha! Agora, ela… é uma canina! Só não me inferniza mais com a filha, porque já estou mais sujo que pau de galinheiro, que chão de curral. Sabe chão de curral? Pois é, cheio de bosta de vaca! Eu sou do interior e via isso lá. Na milhar, põe cincão. Cercada e invertida. Vem aí o dia das crianças, e o menino pediu um presente. Se não der, é outra confusão na minha vida. Aí serão a mulher, a sogra, que já é de praxe, e o filho. Já pensou? Meu menino até trocou de time, porque pegou birra comigo. Torcia pelo meu time. Só porque falhei com ele no aniversário, num ano desses aí, ele embirrou e disse que agora torce pelo Botafogo. É mole? Você, cruz-maltino, ter um filho botafoguense! Fiz tudo por aquele moleque, e ele me fez essa desfeita! Também vivo lembrando a ele o gol que o Dinamite fez em cima do Osmar. Lembra? Mas ele diz que não liga. Ele não era nascido. Aí fica me jogando na cara o campeonato de 97 em cima da gente, quando já era nascido – tinha só dois anos –, mas fez questão de se informar na internet só para me fazer raiva. Fica lembrando o gol do Dimba e a rebolada no final do jogo. Só vale a partir do seu nascimento, diz ele. Vou te contar: é só problema na vida! Trabalho no almoxarifado da empresa como uma besta, e é só pepino. O salário, às vezes, atrasa e as contas vão pras cucuias. Veja só: estou com o pendura do botequim também atrasado. Seu Manuel ainda vai ter de aguentar mais uns dias. Pior que eu fico sem poder passar até na calçada do bar. Não quero ser envergonhado com ele me cobrando na frente dos outros. Aí, quando receber, vou lá e pago, e invento uma desculpa: estava doente, coisa assim. Nem de beber, a gente tem direito. Vida de pobre é foda, cara! Por isso é que eu, às vezes, faço a minha fezinha no bicho. Quem sabe? Um dia eu ganho, acerto na milhar e ponho tudo nos eixos. Do jeito que está, é que não posso ficar. Põe mais dois, no grupo. Não é nada, mas pelo menos salvo o que apostei e aí as coisas vão ser adiadas por mais uns dias. Também quem me mandou nascer pobre. Pobre é foda, cara! Tem mais é que levar ferro! Não tem aquele ditado que diz que pobre e cachimbo nasceram pra levar fumo? Pois é! É isso mesmo! Minha mulher fica me mandando entrar pra igreja dela, pra eu dar um rumo na vida, que eu tou muito perdido… essas coisas. Como é que vou? Eu tou é durango, mesmo, cara! E o pastor ainda vai me cobrar dez por cento. Com esse dinheiro, eu jogo no bicho. Deus, se tiver compaixão de mim, há de ver a minha luta e me socorrer. O pastor, quando abriu a igreja, nem carro tinha. Andava de ônibus. Hoje, desfila com um carrão bonito, cheio de pneu e antena. Ainda teve a coragem de botar um plástico no vidro de trás: Propriedade do Senhor Jesus. Tem cada cara de pau! É o Senhor Jesus que paga o IPVA, que vai passar fim de semana no hotel fazenda, que bate o carro? Isso ela não vê. Mas, se eu falo assim em casa, arranjo mais confusão pro meu lado. Desculpe, companheiro, ninguém precisa ficar ouvindo minhas lamentações, mas é que chega uma hora em que, se a gente não desabafa, a cabeça explode. O bom é que sobrou ainda um dinheirinho, que vou ali no botequim tomar uma, senão ninguém aguenta.

 

ZÉ DO OVO

Na brincadeira de crianças, os dois irmãos resolveram matar porco, como a mãe costumava fazer. Só que o porco era o Zé do Ovo, menino meio aluado das ideias, praticamente criado com o casal de irmãos. A mãe, quando chegou ao terreiro, ainda teve tempo de salvar o pobre coitado da morte certa, o filho já com a faca na mão, preparando-se para enterrá-la no sovaco do porco. A mãe acabou com a brincadeira de mau gosto, explicou tudinho para os meninos, parassem com aquilo que o Zé morreria de verdade.

Cresceram juntos. Teteca e Zé do Ovo aprenderam a fazer coisas de meninos, de rapazes, de homens, inclusive a beber cachaça. Zé, meio filho de criação, meio garoto de mandados, as ideias cada vez mais embaralhadas, vez em quando sumia no mundo. Voltava contando histórias de patrões que lhe pagavam apenas com um miserável prato de comida o trabalho duro da roça. Vinha seco, mais magro que a necessidade, e ficava novamente por uns tempos, se retemperando, se abastecendo. Então tornava a sumir.

Reaparecia crente, batista, presbiteriano, testemunha de Jeová – sabe-se lá! –, abstêmio, com horror ao álcool, ao pecado, andando de paletó puído nos dias de culto, quando, então, tirava o surrado chapéu de palha da cabeça, penteava o cabelo de lado e se empapava com uma água de colônia que a irmã postiça lhe presenteara. E, assim, saía cheiroso porta afora na direção da igreja.

Voltava a beber, parava, recomeçava. Sumia por outros tempos.

Uma tarde brumosa, cheia de pressentimentos, chegou a notícia de que, ao passar por uma pinguela sobre um corgozinho à toa, teve vertigem de fome, de fraqueza, e caiu com a cara no filete d’água. E lá ficou até que seus pulmões se encheram, se abarrotaram, explodiram, e ele morreu sem a mínima glória, sem a menor atenção do Criador, no desamparo trágico da existência. Uma vida tocada a ingenuidade do princípio ao fim!

Imagem em riosambaqui.com.br.

A GUARDA NOTURNA

Diziam lá na vila que, à noite, estavam acontecendo coisas esquisitas. Não se tinha certeza de que fossem humanas ou sobrenaturais. As madrugadas ficaram, assim, propensas a assustar os moradores em seu tranquilo sono dos cinquenta. Não encontraram eles, então, outra alternativa a não ser instituir uma guarda noturna, que rondasse as ruas, da meia-noite até o dia clarear.

Vila pequena, guarda pequena: só dois homens. Mas dois valentes, dois destemidos, dois desassombrados. Não dois quaisquer. Sobretudo, dois que se dispusessem a deixar a cama quente e a costela da mulher para bater perna num lugarejo sem vitrines, sem luminosos, sem notívagos. A paga pelo trabalho daria para as compras do mês e sobraria um dinheirinho bom.

Tudo acertado, Zé Carola e Nego Souza começaram na nova função. Cada dia, tinham histórias mirabolantes para contar. Perseguições a vultos que desapareciam por entre as trevas, corrida atrás de um provável ladrão de galinha ou de roupa no varal. Até que, numa noite de lua cheia, abarrotada de malefícios e fantasmagorias, um tiro de garrucha ribombou na vaguidão das ruas. Um uivo macabro se ouviu a seguir. E mais tiros e passos de uma perseguição apressada sobre os paralelepípedos. O sol da manhã veio revelar sobre calçadas e pedras do chão marcas de sangue.

O relato dos dois foi de arrepiar os cabelos. O vulto de um cão negro, imenso, surgido das sombras, olhos faiscantes, dentes luminosos arreganhados, baba cintilante, língua vermelha incandescente, a boca ameaçadora a expelir um bafo pestilento. Zé Carola não teve dúvidas: a encarnação do capeta ou o próprio capeta. Num repente, municiou sua garrucha com cartuchos benzidos por Alziro Zarur através das ondas do rádio e mandou chumbo. O coisa ruim, um fogaréu só, fedor insuportável de enxofre, disparou rua abaixo, até desaparecer na figueira perto do valão. Nego Souza confirmou tudo, tudinho, tudinhozinho, tal e qual Zé Carola contou, sem tirar nem pôr. Só que ele também andou dando uns tiros, embora com cartuchos mundanos, sem serventia para essas ocasiões.

Espantadíssimo, o povo, que acreditava até na Carta Brant de Carlos Lacerda, combinou fazer uma novena em desagravo de qualquer coisa que estivesse chamando o belzebu.

Não foi preciso. Domingos Peçanha, pescando no valão da figueira, descobriu estendido no capim o cadáver do vira-lata preto, de nome Azeviche, que era o divertimento das crianças do lugar.

A guarda noturna foi desfeita no dia seguinte, mas os dois juram de pé junto, até hoje, por tudo que é mais sagrado, quero ver a minha mãe morta, que o satanás, príncipe de todos os infernos, andou, em pessoa, assombrando a vila de Santo Antônio da Liberdade, nos idos do governo do Dr. Getúlio, que Deus o tenha!

 

Imagem em bocadoinferno.com.

HOJE EU VOU DORMIR COM UM HOMEM DE OBRA!

Quando cheguei a Niterói, em março de 1967, fui morar na pensão de Dona Dinorah, no 29 da Rua Pereira da Silva, primeira quadra da praia. Hoje, no local, há um edifício.

O endereço era de uma casa geminada de dois andares. A pensão, assim, estava colada à casa de funcionário de um banco que hoje não mais existe e do qual contarei, em breve, fato verídico, para vocês verem até onde chega a maluquice do ser humano. Na parte de cima, ficavam os rapazes. Na de baixo, as moças e a dona da pensão, mais alguns membros de sua família. Atrás havia um puxadinho, onde moravam dois paraguaios que faziam faculdade na UFF e algumas empregadas.

Embora fosse um casarão antigo, estava sempre varrido, pano molhado passado nas tábuas do assoalho da parte de cima, onde também era o quarto do filho de Dona Dinorah.

Mas nada disso importa para o que quero lhes contar. Isso foi só para fazer a introdução.

Pois bem. Por um tempo, havia duas copeiras-arrumadeiras, para dar conta do serviço. Uma delas era minha conterrânea, moça negra de seus vinte e tantos anos, tímida, a que vou chamar de Isabel, pois não já me lembra o nome. A outra, também negra, porém bem mais escura, viera de outro lugar, que não sei qual. Vou chamá-la de Antônia, só para organizar a narrativa. Não estarei inventado tudo, só os nomes delas, para facilitar.

Antônia era um pouco mais nova que Isabel. Talvez não tivesse chegado ainda aos vinte anos. Mas era uma negra bonita, esperta, e regulava altura com a colega. Muito sestrosa, muito saída, certo sábado chamou Isabel para darem umas voltas após o trabalho, que, nesse dia, se resumia apenas a servirem o almoço.

À tardinha de um sábado morno, saem as duas para o passeio combinado: Isabel, em suas roupas simples de moça do interior, e Antônia, com sua indumentária a indicar “hoje vou pegar alguém”: saia curta, blusa decotada, batom saliente nos lábios. Saíram da pensão para o Campo de São Bento, deixando um rastro de perfume simples, como eram suas vidas.

Na época, em torno do Campo de São Bento, construíam-se vários prédios, que lá estão até hoje, em substituição a belas casas baixas do princípio do século vinte. O local, para os que não o conhecem, é uma grande praça, muito bem arborizada, com caminhos, espaços, parque, fonte luminosa, coreto, a que os niteroienses vão a lazer, sobretudo nos fins de semana.

Por volta das nove horas da noite, chega Isabel desesperada à pensão, com um olho roxo e um corte no lábio, onde secava amiúde um filetezinho de sangue. Chorava como criança.

Foi um alvoroço total! Os que estavam na pensão no momento corremos para saber o que tinha havido. Dona Dinorah ficou apavorada com a cena.

Isabel, tentando controlar o choro, contou que tinha levado uma surra de Antônia, porque se recusara a ir para a cama com um dos peões de obra que trabalhava nos canteiros ao redor da praça. Disse que não sabia que a intenção de Antônia era essa. E, chorando, confessou ser ainda virgem.

Foi um desacerto! Todos quiseram socorrer Isabel, dar-lhe água com açúcar, colocar compressas no olho e no lábio. Consolá-la, enfim! Um jovem morador mais gaiato até falou que talvez ela sofresse menos se fosse transar com o peão, afirmando que doía, mas era bom. Dona Dinorah acabou dando um pito no engraçadinho.

Seguíamos na atenção a Isabel, quando aparece no portão da casa a dita Antônia, já mais para lá do que para cá, movida a aguardente de cana de marca incerta e não sabida, gritando por Isabel, “sua isso, sua aquilo, sua frouxa, sua santinha do pau oco”. E chamava Isabel, aos gritos, para ir com ela, de par, porque a transa já estava acertada com dois peões: ela com um e Isabel com outro. Ia ser uma festa!

Dona Dinorah, viúva de respeito e de rígidos princípios, disse poucas e boas à empregada pinguça e despediu Antônia ali mesmo da varanda da pensão, mandando que ela voltasse só na segunda-feira, já recuperada da trabuzana, para acertar as contas.

A copeira-arrumadeira desatinada, já bem torta pelo efeito da calibrina, saiu gritando pela Rua Pereira da Silva, que foi um general de muito respeito e muita prosopopeia:

– Hoje eu vou dormir com um homem de obra! Hoje eu vou dormir com um homem de obra!

E lá se foi ela, sacudindo a saia curta e dobrando a esquina da Rua Moreira César (coronel que enfrentou Antônio Conselheiro e deixou seu couro em Canudos, depois de aprontar muito em sua vida militar), em direção ao Campo de São Bento, onde deve ter-se refestelado entre os tapumes e os sacos de cimento do edifício em construção.

 

Imagem em tiud.org.ua.