É NENÉM NA DIREÇÃO

Naquele horário, o motorista era sempre o Neném.

As duas amigas saíam do trabalho às dezenove horas. O ponto inicial da linha Praça XV-Vilar dos Teles ficava a duzentos metros, se tanto, de seu local de trabalho, na Rua Dom Manuel, no centro do Rio de Janeiro. Elas não conseguiam embarcar no ônibus das dezoito e quarenta e cinco, mas pegavam o próximo, das dezenove e quinze. Isso era a rotina.

Aquele era o horário fatídico: sempre coincidia ser Neném o motorista, que chegava de Vilar dos Teles, voando baixo, a fim de cumprir a meta da empresa de transportar tantos passageiros por viagem, versus o tempo determinado para o trajeto. É claro que Neném aproveitava para dar vazão aos seus discutíveis instintos de piloto de Fórmula 1. E as amigas, que sempre pegavam seu ônibus, sabiam disso. Aliás, temiam isso!

Era mal o ônibus sair do terminal ao lado da antiga Praça Rui Barbosa, para as atribulações começarem.

Invariavelmente iam no primeiro banco, uma ao lado da outra, para serem testemunhas de uma possível catástrofe rodoviária, acidentarem-se juntas, talvez até coisa pior, mas sempre com o auxílio da fraternidade que nutriam mutuamente.

Tão logo Neném adentrava seu ônibus na Avenida Brasil, aquela artéria pulsante de tráfego a qualquer hora do dia, ele aplicava seu pesado pé sobre o acelerador do veículo que, de um simples coletivo da Auto Expresso Meritiense, se transformava num bólido infernal, a comer asfalto; a ziguezaguear entre as faixas, conforme o parceiro adiante estivesse em velocidade civilizada; a ultrapassar os retardatários, aqueles que obedeciam o limite de velocidade da via, num tempo em que os radares ainda não existiam.

As duas amigas, quase sempre, se davam as mãos e fechavam os olhos durante as manobras mais radicais. Muitas vezes, por ser Isabel a mais religiosa, lançavam mão de preces, pedidos e promessas aos santos da devoção. Ou não! Nessa hora, qualquer santo que atendesse seria bem-vindo. Lu resolvia acompanhar a amiga nas invocações, em voz bem baixinha, a fim de não atiçar ainda mais os hormônios da velocidade de que Neném parecia possuído. Assim só os santos, com seus ouvidos sensíveis às agruras dos devotos, seriam capazes de captar o desespero em que as amigas viajavam.

Nesses momentos, o semblante de Neném se transtornava: olhos injetados, rictos nas bochechas, e os nervos e músculos dos braços vibrando a cada manobra, a cada negaça na direção daquele corpo celeste baixado na avenida, sob sua direção. No estandarte pendurado atrás da cadeira do motorista, com um São Cristóvão a carregar o Menino Jesus às costas, estava bordada com capricho, em fios vermelhos, a frase mentirosa: Dirigido por mim, guiado por Deus. As amigas tinham certeza de que o Coisa-ruim era quem comandava as ações.

A piorar a situação, aquele cenário em que se desenrolavam as ações, Neném apagava as luzes do salão do coletivo. O breu interno contrastava com o exterior, que parecia uma sucessão de pontos de luz a correrem desatinadamente em direção contrária. Era como um túnel aterrorizante, a levar seus ocupantes para lugar incerto, não sabido e sem volta. Lu só não desmaiava, para não deixar a amiga sozinha. Mas sua vontade era percorrer todo o trajeto fora de seu juízo, alheada da realidade, sem perceber nada.

Nem mesmo a cobradora, pobre parceira diária do motorista, seguia tranquila. Não era incomum vê-la traçar no rosto o sinal da cruz repetidas vezes, como a pedir proteção contra as peripécias do alucinado.

As amigas, por outro lado, desconheciam se os demais passageiros sentiam o mesmo pavor por que passavam. Alguns, talvez desprovidos de sistema nervoso central, periférico e adjacente, dormiam de babar na gola da camisa. Assim que passavam a primeira curva do Caju, ali onde conflui a rua do conjunto de cemitérios, provavelmente eles só acordariam no ponto final, quando a pressão dos freios, acionados com vontade, faziam o estardalhaço de sempre: Tchu! Tchuu! Tchuuuuuu!

E Neném pulava de seu posto de piloto, um simulacro de cockpit, lépido e fagueiro, com um sorriso de lado a lado naquela cara bexiguenta, saudando os passageiros de sua última viagem do dia. Isabel e Lu, ainda com as pernas trêmulas pelo nervosismo, desciam do coletivo, segurando-se nos balaústres, até enfim pousar seus pés em terra firme e despedir-se, com alívio, daquele motorista insano, que certamente as conduziria em outras viagens de volta a casa, ao final de mais um dia de trabalho. Elas apenas esperavam que todo o sofrimento fosse posto em seu crédito, quando fossem ajustar contas lá em cima. Os santos lhes seriam testemunhas de defesa.

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SEM CONDIÇÕES DE SE APOSENTAR

Um dia, assim que Sarmento chega ao trabalho, toca o telefone com uma chamada para ele. Era seu colega Alex. Ele se atrasaria, mas queria lhe pedir um favor. Se sua mulher ligasse, perguntando por um trabalho que os dois foram fazer na Comarca de Nova Iguaçu no dia anterior, o qual lhes consumiu toda a tarde e parte do início da noite, Sarmento confirmasse tudo. E, assim que chegasse à repartição, ele esclareceria os mínimos detalhes do imbroglio em que meteu o companheiro. Ou quase.

Sarmento ficou torcendo para que a mulher não ligasse para tirar satisfações com ele, sobre a roubada a que levara seu angelical marido. Certamente, imaginou, ele seria o culpado pelo outro ter chegado tarde em casa naquele dia.

Definitivamente ele não gostou daquilo. Não era homem afeito a mentiras que não fossem para livrar a própria pele. Quanto à pele alheia, com certeza que não tinha know-how para defender. Nem elevação de alma. Sobretudo em casos como esse.

Alex fora transferido para seu setor de trabalho havia cerca de um ano. Funcionário mais antigo que ele, chegou lá com seus cabelos grisalhos, seu bigode bem aparado, uma ligeira claudicância na perna direita, resultado de acidente automobilístico, e sua fácil comunicação por mais anos de casa. Pela aparência, Sarmento percebeu que o colega já poderia estar aposentado, mas ainda, como é comum ouvir nos corredores formais de um órgão judiciário, mourejava entre processos e carimbos. Perguntou-lhe, então, por que razão ainda não pedira aposentadoria, vez que havia perdido seu cargo de secretário de órgão julgador e fora lotado naquele setor, para lá ficar como um velho processo já transitado em julgado. Com uma sinceridade comovente, Alex disse:

– Não tenho condições psicológicas para me aposentar. Estou ainda muito apegado ao trabalho.

Sarmento ficou sensibilizado com aquela dedicação à rotina, à matrícula e aos móveis e utensílios da Corte. Talvez às pessoas também.

Uma hora após o telefonema, chega Alex um tanto esbaforido e suado. Era janeiro dos brabos no Rio de Janeiro. Imediatamente fez um sinal para o colega, para que fossem ao fundo da grande sala onde trabalhavam e disse, quase em surdina, que tinha aprontado, sem esclarecer pormenores, e inventara para a mulher uma ida a trabalho até aquele município da Baixada Fluminense, atendendo a solicitação da Vara de Família, com o objetivo de fazer o levantando dos documentos a serem microfilmados por eles. Como se tratasse de material vasto e complexo, demoraram além do previsto, mas a viatura que os conduziu até lá também os trouxe de volta, de modo a não retardar ainda mais o retorno ao sacrossanto recesso dos seus lares.

Talvez a providência divina ou o acaso tenham desvencilhado Sarmento de uma saia justa com uma pessoa que nunca vira mais gorda. A mulher do Alex não lhe ligou. Pois imaginava ele que, durante a discussão doméstica, o marido dissera à esposa:

– Pode ligar para o Sarmento, que não me deixará mentir.

Um pouco depois, durante o almoço com outro colega – e este, seu amigo fraterno –, Sarmento contou a embrulhada em que Alex o metera e aproveitou para reclamar que sua permanência em serviço iria acabar queimando seu filme. Ou melhor, seu microfilme.

O amigo deu um sorriso debochado e esclareceu parte do problema:

– A falta de condições psicológicas do Alex para se aposentar é uma mulata bonita que trabalhava com ele na secretaria.

Meses depois, Sarmento e a mulher foram conhecer Conservatória, a Cidade da Seresta, na verdade o sexto distrito do município de Valença, e, entre um torresmo e uma caipirinha, um vinho e um queijo, encontraram, durante caminhada pelas ruas do centro da vila, o Alex de mãos dadas com a tal mulata fornida em seus contornos, bela em seu sorriso, faceira em seu andar.

De imediato, Alex atravessou a rua naquele seu passo conhecido e chegou até ele, que nem teve tempo de apresentar a esposa ao colega, e disse sofregamente:

– Você não me viu aqui! Eu não estou aqui! Depois a gente conversa.

Terminados os acordes sonantes d’A volta do boêmio e de Chão de estrelas, naquela bela vila de Conservatória, voltaram todos à rotina dos corredores do judiciário.

Alex quase lhe detalhou toda a sua aventura. Pôs até parte da culpa na esposa de papel passado, doentinha, doentinha, para as reinações que andava aprontando.

Sarmento se aposentou antes de Alex e nunca mais soube dele, nem ciência teve. Seria talvez um caso de busca e apreensão, para que esta história tivesse uma conclusão de mérito.

Imagem colhida na Internet (amodireito.combr).

O TORCEDOR

O cara acorda no futuro, tempos após entrar em estado de coma, num hospital particular da zona sul da capital.

Ao recobrar a consciência vê uma mulher já com pés-de-galinha a contornar os olhos, alguns cabelos brancos e o rosto de bochechas negativas, ao lado da cama, e pergunta pela esposa:

– Cadê a Zoraide?

Surpresa com o fato, a mulher responde:

– Querido, sou eu, a Zoraide! Que bom que você acordou!

– Zoraide?! É vocês mesma?! – se espanta o homem diante da mulher mais velha que ali está, mas cujas feições não lhe eram estranhas.

A Zoraide não tinha cabelos brancos, nem pés-de-galinha, nem bochechas cavadas. Quando se deu o problema, era ainda uma mulher jovial, com os hormônios a funcionarem visivelmente em seu corpo bem-feito, em suas feições bem talhadas.

– Quanto tempo fiquei aqui, dormindo, inconsciente? Fale devagar para eu não tomar susto? Tem um espelho aí, para que eu me veja? E aquele jogo do Vasco contra o Flamengo pelo Campeonato Carioca, que ganhávamos por três a zero, como terminou?

– Calma, Frederico! Vamos por partes, senão é capaz de você voltar ao coma novamente.

– Então, mulher, me diga aí!

– Em primeiro lugar, o jogo terminou três a um para o Vasco. Embora alguns torcedores do Flamengo esperassem uma virada já aos quarenta e sete minutos do segundo tempo.

– Eles são incorrigíveis. E fomos campeões cariocas?

– Calma. Depois te falo isso.

O piripaque que o levou ao hospital fora exatamente no terceiro gol do seu time contra o Flamengo, na mais improvável das projeções de todos os especialistas em futebol. Quando o atacante deu o drible no lateral esquerdo adversário, deixando-o desmoralizado no gramado, e chutou no canto do goleiro, ele não viu mais nada e teve de ser rebocado para o hospital, às pressas, porque não atinava com mais nada.

Por isso que sua grande preocupação, no momento em que recobrava a consciência, era justamente o resultado do jogo.

– Vou pegar um espelho para você se ver.

Zoraide trouxe o espelhinho que carregava na bolsa e lhe permitia dar um tapa no visual, como se diz comumente, durante todo o tempo que passava no hospital. Pelo menos duas vezes por semana, vinha sentar-se ao lado da cama onde seu marido se mantinha sob a parafernália médica que o conservava vivo, embora inconsciente. E não percebeu que, aos poucos, foi perdendo o restinho de viço que ainda portava.

Frederico se olhou no espelho que a mulher lhe estendeu e não gostou do que viu.

– Esse sou eu?!

– Exatamente, sem tirar, nem pôr.

– Como sem tirar, nem pôr?! Você vê o que eu estou vendo?

– Sim! Exatamente! Espelhos não mentem jamais. Lembra do espelho da Rainha Má da Branca de Neve?

– Que isso, mulher? Estou falando sério! Esse que vi parece meu irmão mais velho e não eu.

– Pois então. Você ficou a cara dele.

– Mas ele é mais velho do que eu quatro anos! Quanto tempo estou aqui neste hospital? Isso é um hospital, não é mesmo?

– Claro que é um hospital! E você está aqui há praticamente quatro anos. Ou pensa que eu passei maquiagem, pintei os cabelos ou fiz bichectomia? São quatro anos de sofrimento, em que venho aqui duas vezes por semana, sento-me ao seu lado, pego um livro para ler, futuco o celular para ver as redes sociais, rezo meu terço, enquanto aguardo você voltar, ou… Sei lá! – e não deu vida àquele pensamento funesto.

– Eu perdi quatro anos da minha vida inconsciente, Zoraide? É isso que você me diz?

– Frederico, veja pelo lado positivo: você ganhou quatro anos de vida. Agora está aqui de volta, conversando comigo de um jeito inesperado e surpreendente. Aquele terceiro gol do Vasco, em abril de dois mil e vinte e um, poderia ter sido seu atestado de óbito. E você ainda reclama?!

Neste ínterim, chega o médico de plantão a fazer a inspeção dos pacientes internados. Dirige-se ao leito de Frederico e se surpreende com sua saída do coma.

– Dona Zoraide, há quanto tempo seu marido recuperou a consciência?

– Há uns três ou quatro minutos, doutor.

– E por que a senhora não nos comunicou imediatamente? Estávamos no instante da troca de plantão.

– É que ele já acordou cheio de perguntas, de questões, e fiquei aqui envolvida com ele. Desculpe.

– Sem problemas, dona Zoraide. Melhor assim, já que não houve nenhuma intercorrência.

O médico pediu licença à mulher, pois iria fazer uma série de avaliações, para entender o atual estado do paciente. Durante quatro anos, ele tinha estado naquele mesmo lugar, conferindo todos os índices dos aparelhos, avaliando o estado geral de Frederico e, justamente agora, queria saber se a volta era definitiva, ou apenas um rebate falso, preparativo para um desenlace fatídico.

Ao final dos exames, chama Zoraide de volta e comunica que, surpreendentemente, seu marido estava muito bem, que talvez até pudesse ter alta, com as recomendações de acompanhamento fisioterápico doméstico e uma batelada de medicamentos, para uma completa recuperação.

Dois dias depois, a ambulância do hospital leva Frederico para casa, toda preparada para recebê-lo. Os enfermeiros o levam em cadeira de rodas até o apartamento, acomodam-no numa poltrona confortável da sala e se despedem, desejando boa recuperação.

Frederico se sentia confortável e feliz. Pede à mulher meio copo de água fresca e que ela procure na smarttv de última geração, comprada durante sua estada no hospital, o vídeo da partida entre Vasco e o Flamengo. Aquela mesma! Queria rever tudo, sobretudo os minutos finais. A mulher ainda ponderou que não seria aconselhável, já que fora exatamente o jogo que o metera naquela enrascada.

– Que nada, Zoraide! Eu agora já sei o resultado da partida. Não há mais o fator surpresa, a emoção, a adrenalina desenfreada.

Zoraide procurou, procurou, até que achou. Pôs a rodar o vídeo e foi para a cozinha providenciar o almoço. De lá, ouvia a narração do jogo e os palpites do Frederico, sua vibração a cada gol, a cada lance bonito do seu time.

– Está tudo bem aí, Frederico? – perguntava de vez em quando, como a monitorar o marido.

– Tudo bem! Sem problemas! Só me divertindo novamente.

E continuava ela a refogar o arroz, a temperar o feijão, a preparar a sopa para o marido.

Então se aproximava o instante em que o Vasco faria o terceiro gol. Do grande círculo de jogo, o jogador vascaíno vê o colega na intermediária ofensiva, calibra o passe e lança a bola do lado esquerdo do companheiro, que parte na corrida. O último homem do adversário é justamente seu lateral esquerdo, com passagem no estrangeiro e na Seleção, que parte junto do vascaíno, a tentar barrar sua progressão em direção à grande área. Exatamente sobre a linha da grande área, o vascaíno trava a bola e a corrida, enquanto o flamenguista se esborracha no gramado. O vascaíno escolhe o canto e mete a bola no gol, com tal perícia, que ao goleiro rubro-negro, sobre a linha da pequena área, resta apenas, desolado, vê-la morrer no fundo das redes.

Neste instante, o coração de Frederico parou. E agora definitivamente.

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CONTOS LIGEIROS DE PANDEMIA

(Dedicado, com profundo respeito, às vítimas desta terrível pandemia.)

O ESPIRRO

O cara de chapéu de palha adentra o coletivo, já cheio àquela hora da manhã. Chovia fino no momento, e todas as janelas estavam ou completamente cerradas ou com ligeira abertura, a permitir que entrasse um tiquinho de ar fresco. Ele espirra, assim que valida sua passagem. E, mesmo de máscara, é atirado fora do coletivo pelos dois fortões que se sentavam no primeiro banco da direita. Da calçada, ainda grita impropérios em vão contra os fortões.

A FEBRE

À entrada do shopping está o segurança munido de uma garrafa de álcool e um termômetro digital. O termômetro foi calibrado para marcar um grau a menos, a fim de não se perder cliente. Chega um cara de boné e máscara. Lá fora faz um sol intenso. O segurança borrifa álcool na mão do cara e lhe tira a temperatura, momento em que percebe 38° no mostrador e barra a entrada do cara. O cara, revoltado, retira a máscara e tosse em direção ao rosto do segurança, que sai correndo para o interior do shopping, borrifando-se de álcool.

A GARGANTA RASCANTE

No interior da padaria da esquina, há uma pequena fila a aguardar a saída da mais recente fornada de pães fresquinhos. O cara, de gorro e máscara, apressado, raspa a garganta rascante com insistência e dá bom dia fanhoso a todos. Há uma debandada geral, e ele passa a ser o primeiro da fila. A mocinha atendente não conseguiu fugir.

A FALTA DE AR

O elevador só comporta quatro passageiros, conforme normas em tempos de pandemia. Ao descer, para no décimo andar, quando o cara de chapéu de panamá e máscara entra e cumprimenta os outros três. Ninguém responde. O cara, então, começa a apresentar sintomas de falta de ar. Tenta puxar o ar do espaço exíguo, leva a mão à garganta e ofega com dificuldade. Um dos passageiros aperta o botão do quarto andar, após observar no painel a altura em que se encontra o elevador. Assim que a porta se abre, os outros três passageiros saem correndo do elevador. O cara, aliviado, expele o gás intestinal que o afligia com uma cólica. E escapa no térreo, sem olhar para trás. Azar de quem entre!

PROBLEMAS NO OLFATO

O cara de chapéu de feltro e máscara observa, assim que a porta do elevador se abre, a saída célere do outro cara de chapéu de panamá e máscara e entra no elevador, empesteado com o mau cheiro da flatulência deixada pelo outro. Vai até o décimo andar à consulta marcada com o clínico geral, reclamar que não consegue perceber cheiros. Nem do café oloroso que lhe faz a mulher. Deve ser o diabo da sinusite novamente, pensa ele.

AGLOMERAÇÃO

Já havia no local seis pessoas. Todos estão de máscara. O espaço era exíguo. Todos aguardavam atendimento, com reclamações contra o mau cheiro da água da CEDAE. Pelo menos, pensavam, se sentem o mau cheiro, é sinal de que não estão com a maldita COVID-19. Chega o cara de chapéu de couro e máscara, que cumprimenta os demais. Um que responde o cumprimento pergunta se ele também vinha reclamar do cheiro da água. O homem de chapéu de couro diz que não, que a reclamação é contra o hidrômetro, que parece marcar a mais. As outras seis pessoas desfazem a aglomeração instantaneamente, escapando porta afora.

ÓBITOS

O cara sem chapéu e máscara jogava pôquer em casa, quando recebeu a notícia da morte do parente. Era um primo que não resistira às complicações do maldito vírus. Um pouco depois, outra notícia de outro primo vitimado em Itaperuna. Algumas semanas após mais dois primos por afinidade sucumbiram à doença. Todos eles viraram estatística, na conta funesta da pandemia. Foram extraídos do círculo de afeto que enlaça as famílias e lançados entre as centenas de milhares de sacrificados, sem glória, sem honra, sem despedidas. E a desesperança começou a dar as cartas bem de pertinho, fazendo uma sequência macabra de straight flush. Ainda será possível um royal flush para reverter o jogo, pensou ele.

Pieter Bruegel, o Velho. O triunfo da morte; 1562 (Museu do Prado).

JUQUITA E O ISQUEIRO

Um dia Juquita amanheceu cismático, cheio de ípsilones, como nunca havia ocorrido. Ele não era uma pessoa assim. Muito ao contrário. Era um homem circunspecto, de poucas palavras, alheio ao interesse pela vida alheia e, sobretudo, tranquilo.

Mas naquele dia acordou cedo demais, ainda com o escuro da madrugada, e foi até o terreiro assuntar o céu. Como de hábito, acendeu o cigarro, que tragava em longas baforadas, enquanto procurava estrelas e as explicações que delas proviessem. Um pouco depois, durante o café da manhã, disse à mulher que o barulho do movimento das estrelas o incomodara durante a madrugada, de modo que não conseguira dormir direito. Tinha passado parte do tempo na cama, a rolar de um para outro lado, imaginando ouvir vozes misteriosas, numa língua desconhecida. Pensou tratar-se de fala de alienígenas. Como, porém, não fosse de todo sem ilustração, intuiu que qualquer língua diferente do português e do espanhol, que julgava um português malfadado, seria língua de etês. Pelo menos, no entanto, nunca ouvira nada semelhante, ainda mais porque, ao fundo, ouvia ruídos parecidos com os velhos rádios rabos-quentes da sua infância, a tentar sintonizar estações ao longo do dial.

A mulher ponderou que pudesse ser excesso de cera nos ouvidos, a produzir barulhos estranhos dentro da cabeça. Ainda mencionou uma tia já defunta, a tia Laurinda, que tivera sensação igual à dele e passou por uma lavagem, em que quase duzentos gramas de entulhos foram removidos de seus ouvidos. Depois disso ela até passou a ouvir o que não queria, mas tudo naturalmente.

Porém Juquita não admitiu o diagnóstico da mulher. Há dois, três meses fizera limpeza semelhante. E seus ouvidos não seriam capazes de gerar quantidade de cera necessária a produzir ruídos como os que ouvira. Agora mesmo, ali tomando o café com ela, não ouvia nada estranho. Eram os barulhos naturais da vida. Aquilo não foi normal. Foi algo muito estranho.

A mulher indagou, então, se, por acaso, por uma remota hipótese, ele não teria sonhado e, sonâmbulo, saído porta afora da casa no meio da noite, para pitar um cigarrinho, vício que ainda acabaria por levá-lo ao cemitério, como asseverava contrariada.

– Claro que não, mulher! Então eu não vou saber se estou dormindo ou acordado. Aliás só sei mesmo quando estou acordado, porque dormindo não tenho consciência de nada. Foi isso que eu te disse: ouvi o barulho das estrelas se movimentando no infinito e uma espécie de vozes estridentes, falando uma língua esquisita, entre ruídos de rádio sendo sintonizado.

Ele tinha certeza de que ouvira. Só não sabia o que ouvira.

A mulher olhou para ele incrédula, lambuzou de manteiga uma fatia de pão, molhou no café e tirou um bom pedaço. Deu um muxoxo, como que conformada.

– Realmente não sei o que lhe falar. Não sendo cera no ouvido, fica complicado. Vamos ver se isso se repete. Caso aconteça, é bom procurar um médico, para descobrir o que está acontecendo. Ninguém ouve ruídos de estrelas. Eles não chegam até aqui.

Aquela próxima noite passou sem novidades. O casal acordou no horário habitual e, durante o café, Juquita comentou:

– Hoje dormi sem novidades. Não ouvi ruído nenhum. Foi um sono só, até agora de manhã.

– Então, Juquita, não foi nada demais. Você deve ter sonhado. Já ouvi falar num tal sonho vívido, que a pessoa sente como se fosse realidade. E você sabe disso.

– Sei não, mulher! Sei não! Mas que foi esquisito, lá isso foi. Mas vamos tocar a vida em frente como se nada tivesse acontecido. Quero esquecer.

E o dia rolou tranquilo, sem novidades, naquela casa simples, na pequena cidade interiorana.

Na segunda noite do ocorrido, lá vai Juquita, sob o manto da madrugada, até o quintal, para atender ao mesmo incômodo sentido na antevéspera. Tirou o cigarro, que acendeu com o velho isqueiro Ronson, puxou uma longa baforada e se pôs a examinar o firmamento estrelado. Por um instante acreditou ter visto uma estrela piscar mais fortemente, enquanto passava o olhar pela quadra do céu bem acima do Morro das Andorinhas, a se insinuar no horizonte escuro. E tornou a experimentar a sensação de ouvir vozes e ruídos estranhos.

Mal a mulher acordou, contou a ela o ocorrido. E ela não teve dúvidas:

– Vamos marcar uma consulta com o doutor Modesto, para saber o que está acontecendo.

O resultado da consulta, quatro dias depois, deu em nada. O otorrino nada encontrou a justificar os incômodos narrados pelo paciente. E o casal voltou para casa ainda mais desconcertado.

E uma terceira vez voltou a ocorrer o mesmo fenômeno com Juquita. Agora, um tanto receoso da sua condição, disse à mulher que a despertaria, quando se repetisse aquilo, para que ela fosse testemunha.

Na quarta vez, era véspera do Dia de São João, o céu abarrotado de estrelas, Juquita chamou a mulher, com um toque no ombro:

– Acorda, Zefa! Estou tendo aquela mesma sensação. Vou lá para o quintal.

E saiu, já levando o cigarro e seu isqueiro à mão, enquanto a mulher tentava arrumar os cabelos e vestir alguma coisa que a protegesse do sereno da madrugada.

Quando ela, por fim, passados talvez quatro, cinco minutos, chegou à soleira da porta, viu o marido entrando num objeto luminoso, que baixara uma rampa até perto da jaqueira do quintal. Ela, apavorada, ainda gritou pelo marido:

– Juquita!

E mais tempo não houve para nada. O objeto levantou voo, com um suave ruído de motor elétrico, erguendo do chão uma profusão de folhas caídas e subindo ao céu como um dardo de luz.

No chão, próximo à jaqueira, restou apenas o isqueiro antigo, presente que a Zefa lhe dera pelo primeiro Dia dos Namorados que comemoram juntos, dezenas de anos atrás.

Dias depois, Zefa foi levada pelos filhos para tratamento em uma clínica psiquiátrica. E do Juquita nunca mais se teve notícia.

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HISTORINHAS RÁPIDAS XIII

HISTORINHAS COM DENDÊ (cont.)

26. NA EMERGÊNCIA

No aglomerado de gente à porta do hospital público, toca o celular da senhora ao lado. Ela atende e começa a explicar o ocorrido:

– Foi uma livração, fulana! Ele pegou a faca e foi para cima dela, para dar uma facada na coitada. Aí a cachorra avançou nele e não deixou. Protegeu a dona! Foi o Senhor Jesus e a cachorra que salvou (sic) ele!

É a primeira vez que ouço falar do auxílio de um cachorro a Jesus.

27. NA ALTA

À saída do hospital público, com alta médica, a paciente comenta com a oftalmologista que fez sua avaliação final e que a via pela primeira vez, após a cirurgia:

– Eu tive um desmaio, já na hora de me dirigir para o ônibus da excursão para ir embora, ao fim do passeio. Caí com o rosto no chão e tive esse problema todo no olho.

A médica ouvia tudo com atenção, exclamando a instantes, com o acento baiano:
– Ah, foi?!

E a paciente continuou a narrar os detalhes da situação por que tinha passado. Até que no final, ouviu da médica:

– Graças a Deus!

A paciente, sem entender, perguntou o porquê do “graças a Deus”. E a médica com a lógica afiada:

– Porque foi no fim do passeio. Você já tinha visto tudo, passeado à vontade, conhecido todos os pontos turísticos de Salvador. Já pensou se fosse na chegada? Você vai ter história para contar daqui.

28. COM OU SEM EMOÇÃO?

A paciente aguarda na maca, na emergência do hospital público de Salvador, o momento de ser conduzida à sala de cirurgia.

Daí a instante, atendendo o grito “Apoio!” da enfermeira acompanhante, chega o maqueiro simpático, que a cumprimenta, diz seu nome, fala que a conduzirá e pergunta:

– Quer com emoção ou sem emoção?

Na Bahia, até mesmo a simples condução de uma prosaica maca hospitalar, pode ser com este diferencial.

A paciente responde, então, que quer da melhor forma possível.

O maqueiro empunha a maca e sai pelos corredores, em velocidade de cruzeiro, curvando aqui e ali; desviando-se de um e outro obstáculo; produzindo sonoplastia de ambulância – Uó! Uó! Uó! – para abrir passagem; acenando a cada um que o cumprimenta – Aí, Valtinho! -; e brecando o veículo alucinado, com a descarga da pressão dos freios, à porta da sala: Shiiiiii! Shiiiiii! Shiiiiii!
Valtinho é um maqueiro beatbox.

Daquela viagem, a paciente estava salva. Espantada, mas salva.

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HISTORINHAS RÁPIDAS XI

21. HISTORINHA ORTOPÉDICA

Gavião era meu aluno na faculdade e me contou esta historinha.

Morava com a família, havia algum tempo, o seu avô viúvo, que tinha como maior característica não resistir a uma promoção do comércio. Era um perigo o avô passar diante de um produto em promoção, sem ser tentado a levá-lo para casa.

Certo fim de tarde, após um périplo pelas ruas próximas, o avô chega a casa com um reluzente par de muletas de madeira, muito bem-acabado e envernizado, com o apoio dos braços em couro acolchoado. A família ficou espantada com aquilo e indagou dele o porquê das muletas, já que não havia ninguém estropiado em casa.

– É que eu passei em frente àquela loja de material hospitalar, e as muletas estavam na promoção por um precinho ótimo. Aí não resisti.

– Mas, vovô, agora o senhor exagerou! – reclamou Gavião – Ninguém aqui está precisando disso!

– Mas vai que, um dia – Deus nos livre! Nunca se sabe! –  alguém precise! – retorquiu o velho com segurança.

Cerca de três meses depois, ao tomar banho, o avô escorregou no banheiro e fez pequena fratura num ossinho do pé direito. Ao voltar para casa, após ser atendido na clínica ortopédica, de onde saiu com uma bota de gesso, falou para o neto:

– Pega lá aquele par de muletas que comprei por um preço baratinho. Não disse que, um dia, alguém iria precisar!

22. HISTORINHA SEXY

Minha amiga colocou aquela braçada de roupa suja na máquina de lavar, ajustou a programação e foi assistir à novela. Ao fim da lavagem, tratou de estender a roupa no varal. Vai uma peça, vai outra, e mais outra, até que pegou entre os dedos uma calcinha feminina, tipo fio dental, no padrão oncinha, com um piercing insinuantemente fixado na parte frontal da mimosa peça.

– Que isso?! – indagou, entre indignada e surpresa, de si para consigo.

Ela mesma, embora ainda uma jovem senhora, mãe de um casalzinho de crianças, não era dada a esse tipo de saliência. E não teve dúvidas. Foi até o quarto, onde o marido, esparramado na cama, via o jogo do seu time, naquele horário que coincide com a novela e tem sua exibição em outro canal.

– Marcelo, isso é seu?! – inquiriu em molde de investigador de polícia da famosa Invernada de Olaria, de elucidadas memórias.

– Claro que não! Eu uso cueca!

– Não se faça de desentendido! Você entendeu muito bem o que estou perguntando!

E a inquirição tinha por base o fim de semana que fora passar com as crianças na casa da mãe, lá pelos lados de Niterói. Enquanto ele, o marido, teve férias conjugais por três noites.

A situação do casamento chegou a um estágio periclitante. De nada adiantavam as explicações e justificativas do marido, que asseverava não saber a origem de peça tão sexy.

Até que minha amiga se lembrou de que alugara sua casa, pelo Airbnb, enquanto passava uma temporada em Bali. Pegou sua agenda telefônica e ligou para a locatária do imóvel:

– Mônica, boa tarde! Tudo bem com você? Olha, encontrei aqui em casa uma calcinha de oncinha, com um piercing. Por acaso é sua?

– Que vergonha, fulana (Omito o nome para evitar processo.)! É minha sim. Desculpe! Já tinha arranjado uma confusão com o Gérson, porque a tinha perdido. Ele que gosta tanto da calcinha. Pode mandar pra mim pelo Sedex?

E assim, esclarecido o imbróglio, se salvou o casamento da minha amiga.

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Faltou o piercing. (Imagem em mercadolivre.com.br)

HISTORINHAS RÁPIDAS X

19. HISTORINHA FRATERNA

Esta já contei há tempos, mas repito para os novos leitores.

Catito e Maria Lúcia, pais dos meus sobrinhos Dondinho e Dudu, hoje rapazes feitos, num domingo aprazível, foram almoçar em restaurante na Praia dos Cavaleiros, em Macaé.
Enquanto esperavam pelo pedido, os dois pequenos brincavam, brincavam, até que começaram a brigar.

Catito, para tentar acalmar os ânimos, leva os dois para a área em frente ao restaurante. Lá já estava um menininho um pouco mais novo, lourinho dos cabelos espetados e óculos redondo de lentes fundo de garrafa.

Catito, na tentativa de constranger os brigões, vira-se para o loirinho e pergunta:

– Você não acha feio dois irmãos brigando?

Do alto de sua sabedoria infantil de cerca de um metro, se tanto, o menino diz:

– Eu não se meto em briga de irmão dos outros!

 

20. HISTORINHA FUTEBOLÍSTICA

Gentil Cardoso era técnico de futebol, ativo entre as décadas 30 e 60 do século passado. Era um dos treinadores mais folclóricos do futebol brasileiro, em função de suas tiradas bem-humoradas e surpreendentes.

Uma das suas muitas histórias conta que, certa vez, durante treinamento, chamou às falas um dos seus jogadores, que andava maltratando a bola com chutões sem propósito para onde o nariz apontasse, utilizando o método socrático de busca da verdade, a fim de levar o pupilo ao seu ponto de vista:

– Meu filho, me diga aqui: a bola é feita de quê?
– De couro, seu Gentil. – Na época não se chamava o treinador de professor.
– E o couro vem de onde?
– Da vaca, seu Gentil.
– E a vaca come o quê, meu filho?
– Come grama, seu Gentil.
– Então põe a coitada da bola na grama, infeliz!

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Imagem em significadodossonhos.inf.br.

HISTORINHAS RÁPIDAS IX

17. HISTORINHA IMPRUDENTE

No posto de saúde do Vital Brasil, seu Prudêncio, 95 anos, aguardava, sentado numa cadeira especial, o começo da vacinação contra a gripe. Sua acompanhante informou que ele tinha quebrado a bacia, por isso a cadeira especial naquela fila de diversos outros idosos, inclusive eu e a Jane.

Meses antes, a mulher de seu Prudêncio quis subir na escada de abrir, para pegar algo na parte superior do armário, e ele não permitiu. Era um perigo. Ele mesmo faria isso. Subiu, caiu lá de cima sobre a companheira e fraturou a bacia. A mulher teve luxações generalizadas.

Agora o imprudente seu Prudêncio aguardava pacientemente que o atendimento do posto a começar às oito horas da manhã se iniciasse com meia hora de atraso.
Tomou a agulhada ali mesmo, sentado sobre a cadeira colocada no corredor. E ainda agradeceu com um sorriso lúcido e simpático à enfermeira que lhe furou o braço.

 

18. HISTORINHA FARMACÊUTICA

Na minha adolescência, em Carabuçu, fui aprendiz de barbeiro com o Moreninho, exímio craque da tesoura e da navalha. Próximo à barbearia, ficava a farmácia do Zé Rezende, onde Ronaldo, meu amigo e colega do grupo escolar, trabalhava. Eu não gostava muito daquela sujeira que o cabelo cortado fazia e, ao contrário, gostava do cheiro das poções e dos álcoois da manipulação de remédios. E tinha comentado isso com o Ronaldo. Mas, em lugar pequeno, nem sempre há vagas para mais um nos estabelecimentos comerciais, também pequenos.

Certo dia chegou à vila um circo, que tinha como atração alguns animais, dentre os quais uma hiena. Um amarra-cachorro do circo se fez de engraçadinho e foi urinar junto à jaula da hiena. Aí não prestou! O bicho enfiou o focinho através das grades e mordeu o pênis do mané, que foi levado à farmácia. Lá chegou ele com mais um furo no dito cujo a requerer cuidados.

Ronaldo, então, teve de atendê-lo. Antes porém de iniciar os trabalhos, mandou me chamar para saber, diante daquela cena, se eu ainda tinha desejos de ser auxiliar do Zé da Farmácia. Claro que abri mão do meu sonho na hora. Pelo menos, como barbeiro, eu só alisava cara de homem. E não outros setores da anatomia masculina.

 

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HISTORINHAS RÁPIDAS VIII

15. HISTORINHA NUPCIAL

Teteca, meu cunhado, bebia como sempre num dos pés-sujos do mercado de Miracema. E bebia bem. Naquela noite, nos idos dos 80, já um tanto avultado nos espíritos do destilado de cana, recebeu convite para ser padrinho de um casamento gay (Miracema sempre foi avançada!), a se realizar daí a pouco, na parte superior do prédio. F*, a noiva, o convidou para a cerimônia.

Como não estivesse fazendo nada, além de beber, e fosse desprovido de preconceitos, até mesmo por certo embotamento alcoólico, subiu para testemunhar o enlace, que teve juiz de paz de mentirinha, livro de mentirinha e padrinhos de mentirinha. Na época, é claro!

Terminada a cerimônia, a noiva resolveu subir até o quartinho que alugava, no andar acima, para tirar o vestido de ocasião, colocar algo mais vaporoso e voltar para a comemoração, em que reinavam bebidas e salgadinhos.

Só que, ao descer as escadas de volta, F* encontrou certo tipo bem-apessoado, com o qual acabou se agarrando nos degraus. O noivo, estranhando a demora, decidiu ir atrás da noiva e a flagrou engalfinhada com o tal tipo, o que gerou a distribuição de tapas, rabos de arraia e pescoções, no varejo e no atacado.

O conflito se generalizou de tal forma, que pegou meu cunhado no desaviso e produziu na sua pessoa contusões e pisaduras diversas.

Quando conseguiu se desvencilhar daquela chusma de contravapores, Teteca reclamou no meio dos circunstantes briguentos:

– Por que eu apanhei, gente? Não sou gay! Nem paquerei ninguém aqui! Nem adianta mais me chamar para padrinho de casamento gay! Nunca mais aceito!

 

16. HISTORINHA IMPRUDENTE

No posto de saúde do Vital Brasil, em Niterói, seu Prudêncio, 95 anos, aguardava, sentado numa cadeira especial, o começo da vacinação contra a gripe. Sua acompanhante informou que ele tinha quebrado a bacia, por isso a cadeira especial naquela fila de diversos outros idosos, inclusive eu e a Jane.

Meses antes, a mulher de seu Prudêncio quis subir na escada de abrir, para pegar algo na parte superior do armário, e ele não permitiu. Era um perigo. Ele mesmo faria isso. Subiu, caiu lá de cima sobre a companheira e fraturou a bacia. A mulher teve luxações generalizadas.

Agora o imprudente seu Prudêncio aguardava pacientemente que o atendimento do posto a começar às oito horas da manhã se iniciasse com meia hora de atraso.
Tomou a agulhada ali mesmo, sentado sobre a cadeira colocada no corredor. E ainda agradeceu com um sorriso lúcido e simpático à enfermeira que lhe furou o braço.

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Imagem em vivamaiscricacoelho.wordpress.com.

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*Por prudência, omiti o nome da noiva.