POR QUE DO NORTE, SE FICA NO SUL?

(Dedicado a Carlos José Figueiredo, que sugeriu o assunto.)

Por volta de 1964, meu pai fechou sua pequena venda de secos e molhados, vendeu nossa casa, na vila de Carabuçu, e foi com a família para a sede do município. Na verdade, a sede do município é, em alma, uma cidade composta por duas, divididas por um rio, separadas em estados distintos, mas que formam uma mesma comunidade. São elas Bom Jesus do Itabapoana e Bom Jesus do Norte, a primeira no norte do Rio de Janeiro e a segunda no sul do Espírito Santo.

Como a cidade capixaba é menor, menos populosa e de atividade econômica mais simples, o custo de vida relativamente a moradia ali é um pouco mais baixo do que na do lado fluminense.

Então meu pai optou por morar em Bom Jesus do Norte, até porque seu novo emprego, na cooperativa de laticínios, era justamente nessa cidade.

Nunca ouvi de qualquer bonjesuense, de um ou de outro lado do rio Itabapoana, questionamento sobre a denominação do município espírito-santense, embora o tenha ouvido de forasteiros.

A primeira vez em que tive a atenção chamada pela possível estranheza do nome foi em 1962, numa excursão que o Colégio Cel. Antônio Honório fez a Vitória. Na visita dos alunos à Assembleia Legislativa, ouvimos de um deputado sua intenção de propor a mudança da denominação do município, em vista da incongruência nela contida. Segundo seu entendimento, como pode ser Bom Jesus do Norte, se fica no extremo sul do Espírito Santo?

Só sei que jamais houve alteração do nome da cidade.

No entanto é possível explicá-lo.

A cidade fluminense nasceu Bom Jesus, em referência ao lugarejo mineiro de Bom Jesus da Vista Alegre, terra natal dos fundadores do povoado que gerou a cidade de hoje. À denominação foi acrescido posteriormente o nome do rio que corta suas terras, na divisa com o Espírito Santo. Já a localidade além da margem do rio, fundada pouco tempo depois, nasceu Bom Jesus do Jardim, quando foi elevada à categoria de distrito de São José do Calçado. Porém, em 1938, passou a denominar-se Bom Jesus do Norte, por se localizar ao norte do rio, ao norte da outra Bom Jesus, ainda que esteja no extremo sul do estado capixaba. Desde 1964 ela se emancipou de São José do Calçado, mantendo o nome no novo município.

Deste ponto de vista, não há nenhuma incongruência, já que a referência é feita ao rio Itabapoana, que divide os dois estados por cerca de duzentos e cinquenta quilômetros, até desaguar no oceano Atlântico.

Aí está a explicação de por que, mesmo estando no sul, é do norte.

O rio Itabapoana, num fim de tarde. À esquerda, RJ; à direita, ES.

A NOVA EMPREGADA

Há muitos carnavais, lá pelos oitenta, Jane resolveu trazer de Miracema uma jovem mulher para nos auxiliar nos serviços domésticos. Para tanto, alguns dias antes, ligou para sua mãe pedindo ajuda na escolha da nossa nova funcionária.

No Carnaval daquele ano – nossos filhos ainda nem tinham entrado na adolescência – nós a traríamos, ao voltar a Niterói.

Tão logo chegamos a Miracema, fomos conhecer a moça escolhida por Dona Judith. Ela morava no morro do cemitério, numa casa simples, de paredes amarelas e com uma cerca de bambu a proteger o quintal. Dona Judith nos disse o nome da moça e deu as referências costumeiras à época: era de confiança, boa de serviço e tinha trabalhado na casa de uma amiga da Jane durante algum tempo.

Era a tarde de sábado de Carnaval, quando subimos o morro para conhecer a moça e combinar detalhes da sua vinda para Niterói.

Reconhecemos a casa referida, paramos o carro, e a Jane bateu palmas, chamando-a pelo nome:

– Fulana! Fulana!

De dentro da casa simples, mas muito bem cuidada, de imediato veio a resposta:

– Um momento! Já vou! Saí do banho agora.

Rapidinho, aparece ela sorridente pela porta lateral, acabando de pentear os cabelos, ainda molhados.

Jane se apresentou, trocou algumas ideias com ela sobre suas tarefas em nossa casa, combinou o salário e marcou de passar na terça-feira após o café da manhã para pegá-la, desde que ela estivesse de acordo. A moça concordou com tudo, informou à Jane que tinha uma filha de oito anos, que deixaria com sua mãe – todos moravam naquela casa – e que estaria de malas prontas no dia marcado. Ela estava, de fato, precisando trabalhar.

Jane ainda ponderou sobre a situação da filha, mas a moça disse que já tinha conversado com ela, que não haveria problemas, já que a avó também ajudava na criação da pequena.

Terminada a conversa, subi um pouco mais a rua, para manobrar o carro para a volta, e entrei com minhas observações.

– Jane, percebi pelas feições da moça que ela bebe. Vamos levá-la para casa e ela vai beber minhas cachaças todas. Veja lá!

– Que isso? Não vi nada disso! Você cismou com ela assim do nada!

– Sei não! Sei não! Pelo que observei, ela bebe. E se lembra daquela baianinha que comeu todo o meu vidro de pimenta com pão? Veja lá!

Ao chegar à casa dos meus sogros, Jane resolveu telefonar para sua saudosa amiga Laurecy, ex-patroa da moça, a fim de esclarecer essa minha desconfiança.

– Olá, Laurecy! É a Jane! Tudo bem? Veja só: estamos pensando em levar a Fulana para Niterói, para trabalhar conosco. Ela foi sua empregada, não é mesmo? Mas o Saint-Clair desconfiou de que ela bebe. O que você me diz?

Laurecy não fez rodeios:

– Jane, ela só trabalha tonta! E canta Odair José o tempo todo!

Na segunda-feira pela manhã, a moça chega à janela da casa e chama pela Jane. Tinha vindo dizer que, depois de refletir bastante, não mais iria conosco. Não conseguiria ficar longe da sua menina, ainda muito novinha para estar sem ela.

A decisão da moça aliviou a Jane de uma desculpa para não a trazer conosco, como combinado, e salvou a minha coleção de cachaças. Que eu mesmo me incumbiria da tarefa de lhe dar um bom destino.

Imagem em freepik.com.

O LEC FAZ 85 ANOS

Temos na casa de nossos pais uma antiga foto em preto e branco do time do Liberdade que, à época, se chamava Comercial. Nela, dentre os jogadores, aparecem meu pai, Argemiro, então considerado um bom ponta-esquerda; meu tio-avô Nalim, também hábil jogador; o Creval Mestre, goleiro com pinta do russo Yashin; e o meu avô paterno, Chico Albino, dentre os cartolas, elegantemente trajado para a ocasião.

Não sei em que ano se deu a mudança do nome, pois, desde que me entendi por gente, lá pelos idos de 1950, o clube já tinha o nome atual. Tanto que, na segunda série do antigo curso primário, aos nove anos, fiz o meu primeiro poema – era o dever de casa -, que tratava justamente do jogo daquele fim de semana entre o meu time e o Ordem e Progresso, de Bom Jesus do Norte, cujas primeiras estrofes, corrigidas pela querida professora Maria Amélia Figueiredo, ainda tenho na memória:

Os canarinhos entraram em campo
Contentes e animados
Com a ordem do técnico
O Liberdade entra no gramado.

Logo foi tirado o toss
O Liberdade ganhou
Progresso deu a saída
Progresso foi vencedor.

Por isso é que posso afirmar que o Liberdade Esporte Clube foi uma das minhas primeiras paixões na vida. É claro que eu tinha outras também: algumas coleguinhas do Grupo Escolar Marcílio Dias, que me encantavam com sua beleza. Mas essa era outra qualidade de paixão, diferente, que exigia retorno. A paixão pelo LEC era de mão única. O time nem precisava vencer, para que eu o amasse.

E, como toda paixão, me exigia sacrifícios. Uma vez por mês, no primeiro domingo, o Padre Francisco Apoliano vinha à vila celebrar a missa, que invariavelmente coincidia com, pelo menos, o primeiro tempo das partidas.

Caso coincidissem missa e jogo pelo campeonato bonjesuense, eu me mortificava ainda mais durante a obrigação religiosa, na qual rezava para que ainda conseguisse, após o Ite! Missa est., as derradeiras palavras do padre, pegar uma parte do segundo tempo. Por aquela altura, as missas eram celebradas em latim. Mas o sentido das palavras já conhecia de muito: Ide! A missa terminou. E partia correndo para o estádio.

Por essa época, em minha percepção de menino, o Liberdade tinha uma equipe hábil e poderosa, ainda que eventualmente perdesse. E, a cada jogo no Estádio Doutor César Ferolla, nome do médico benemérito que doou o terreno onde se construiu o campo de jogo, eu estava lá, inclusive dentro do vestiário, para assistir à preparação dos craques, à preleção do técnico João Coleto e também aproveitar para sentir o odor inebriante da cânfora misturada ao óleo com que os jogadores untavam as pernas, antes de adentrar o gramado.

Então corria a subir o barranco, espécie de arquibancada rústica, numa das margens do campo. Ali me sentava ao lado do meu pai, sob um pequeno arbusto que gerava uma minúscula sombra.

Quando a equipe entrava no gramado, era uma euforia. Vinham eles com a tradicional camisa de listras brancas e azuis, em fila, até o círculo central.

Lembro-me de muitos deles.

Reginaldo, o pequeno goleiro carioca que se apaixonou pela vila e morreu tragicamente nas águas do Itabapoana. Um gigante sob a baliza, malgrado seu pequeno porte. Depois veio Bié, deslocado da ponta esquerda para o gol, posteriormente substituído pelo Cocote, um dos mais longevos na posição.

Havia o Paulinho Sucanga, irmão da minha mãe, um dos maiores jogadores que vi jogar. Baixinho, com um pequeno problema congênito no quadril que o fazia manquitolar, era um portento na posição de beque central. Impressionava ver sua habilidade, sua desenvoltura com a bola. Em certo jogo, durante a cobrança de escanteio pelo time adversário, ele dominou a bola com a cabeça e saiu da área, levando-a assim, com cabeceios, até passar a um companheiro.

Dividia a zaga com ele, outro baixinho habilidoso, o Durvalzinho Assis. Os dois formavam a mais improvável dupla de zaga, se analisássemos apenas sob o aspecto físico. Algumas vezes, atuava como zagueiro o Filhinho Schuab, que tinha o apelido de Carijó, pela profusão de sardas no rosto, e se vangloriava de sua filosofia de jogo: Por mim, ou passa a bola, ou passa o adversário; os dois juntos, nunca! E dava gargalhadas, ao dizer isso. Outro que substituiu o Filhinho foi o Todinho Quintal, um pouco mais novo que o Paulinho, mas alto o bastante para proteger a área das bolas levantadas. Enquanto Filhinho era vigoroso e botineiro, Todinho tinha mais habilidade e categoria.

O meio-campo contava com dois jogadores diversos, porém com muita eficiência em seus estilos. O Helvécio Portugal, meu primo, praticava um toque refinado e uma fleugma britânica para o jogo. Antecipava o jeito de jogar do Gerson, o Canhotinha de Ouro. Já o Elias Pelanquinha, outro primo, oposto ao Helvécio, porquanto jogasse com vigor e com sangue nos olhos, era voluntarioso e briguento. Enquanto o primeiro arrumava o time no meio-campo e pouco subia ao ataque, o outro também partia em auxílio à conclusão das jogadas. Tempo depois eles foram substituídos por duas novas promessas do LEC: José Elias, irmão do Gonçalves, que atuava como zagueiro; e Adilson Zé Mané, também meu primo, mas um pouco mais velho que eu. Ambos jogadores de grande habilidade. Adilson, inclusive, foi levado para jogar no Unidos, de Itaperuna.

Neste setor, algumas vezes atuava o Ciloca Peçanha, que ganhou um segundo apelido, Pé Redondo, pelo formato arredondado dos pés que dificilmente encontravam chuteiras que os acomodassem. Por isso jogava sempre descalço.

Moreninho, o principal barbeiro da vila, também corria pela lateral direita, enquanto Anoredino Pé de Chumbo corria pela esquerda. Mas nem sempre estavam em todos os jogos. Já o Geraldinho, filho do Juca Jacó, mostrava suas habilidades tanto pela meia-direita, com a camisa 8, quanto pela meia-esquerda do campo, com a camisa 10, participando das ações de ataque.

Quando o Bié foi deslocado da ponta esquerda para o gol, após a morte do Reginaldo, Isaías Bonga, que também dava suas botinadas na lateral esquerda, foi ocupar aquele espaço e, com frequência, veloz como ele só, mas sem grandes habilidades, chegava ao fundo do campo para cruzar a redonda em direção à área.

Caso o ataque se desse pela direita, aí as coisas ficavam mais eficientes. Vislumbrava-se a possibilidade de gol. Lá estava o Cristhovinho Padilha, baixinho, arisco, veloz, a penetrar a zaga adversária, aonde quase sempre levava o desespero aos defensores com seus dribles.

Os gêmeos Adelson e Adilson Moulins marcaram época, por suas habilidades e deslocamentos velozes no ataque. O irmão mais velho, Dalzy, atuava no meio-campo com cadência e ritmo.

E, tanto vindo da esquerda, quanto da direita, a bola quase sempre encontrava dentro da área, disposto a enfiá-la nas redes, outro baixinho endiabrado, o Jadir Modesto, ou Jadir Bodinho, alcunha devida a seu cavanhaque minguado e seu bigode ralo.

Bodinho, inclusive, foi protagonista de uma das mais belas jogadas que aconteceram naquele campo.

A Portuguesa do Rio de Janeiro estava em excursão pelo Norte e Noroeste do estado, em amistosos preparatórios para o próximo campeonato carioca. E, por todos os lugares por que passara, venceu seus jogos. Até que chegou a Carabuçu.

Fazia um belo domingo de sol e calor. Os times entraram em campo com disposição para o jogo. Era um amistoso nem tão amigável assim. E seguia a partida emperrada no zero a zero, até que um cruzamento da esquerda encontra nosso ataque, ou melhor, Jadir Bodinho correndo em direção à defesa adversária. Nesse dia, eu via o jogo encostado à cerca interna, acompanhando o ataque do Liberdade. E fui testemunha ocular daquela pintura, que até hoje está gravada em minha memória. A bola veio quase à altura do Jadir Bodinho, que não era muito alto. Pois o endiabrado deu um pulo, que à época chamávamos sem-pulo, inacreditável para seu tamanho. Pois bem, ele deu um sem-pulo, jogando o corpo na horizontal e pegando a bola com o pé direito, numa chicotada fulminante, da entrada da grande área. A pelota estufou a rede à esquerda do goleiro, que nada pôde fazer. Ela entrou na região onde a coruja dorme, se é que me entendem. O LEC venceu a partida por 1×0. O delírio que tomou conta da grande torcida ali presente foi indescritível. Nosso time foi o único a vencer a Portuguesa em sua excursão por nossas bandas.

Posteriormente contaram que o dirigente do clube carioca, chefe da delegação, quis levar o Jadir Bodinho para a Ilha do Governador, sede da Portuguesa. Essas mesmas informações, agora maldosas e debochadas, garantiam que Jadir não quis ir, porque estava aprendendo o ofício de sapateiro com o Filhinho Gregório.

O Liberdade, anos depois, ganhou o campeonato da LBD, Liga Bonjesuense de Desportos. Mas eu já estava morando longe e não pude testemunhar essa glória. Contudo, isso, em hipótese nenhuma, fez com que eu me sentisse culpado por não estar presente. A vida nos conduz a caminhos inevitáveis, onde trafegamos nossa experiência, sem que possamos mudar seu rumo, conforme nossos desejos.

Agora, em fevereiro de 2022, o Liberdade Esporte Clube comemora oitenta e cinco anos, dez a mais que eu, que, em menino pequeno, ganhava uns trocados para gozar o extinto time adversário da vila, cujo modesto campo de jogo ficava nos pastos para além da ponte do Valão Liberdade: era o Palmeiras, nome dado em função de algumas dessas árvores próximas, mas que nós, torcedores do glorioso Esquadrão Alvianil, debochadamente chamávamos de Bostinha, por causa dos excrementos deixados pelo gado que aparava a grama da cancha espontaneamente. Rivalidade, aliás, que se perdeu no tempo.

Viva o Liberdade! Glória ao Liberdade!

Saint-Clair Machado de Mello

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(Agradeço ao meu irmão Gutenberg, que também brilhou com seu talento no futebol, as dicas importantes que refrescaram a minha memória.)





Foto do início dos anos 40 do século passado com o time do Comercial Sport Clube, antecessor do Liberdade Esporte Clube. O meu pai, Argemiro, é o último sentado da esquerda para a direita.

O TEMPO NÃO PARA

O conceito de tempo é um problema para a Filosofia e a Literatura. Para o resto das disciplinas humanas, não; principalmente para as indisciplinas.

Quando fiz o Curso de Letras, lá pelos idos de 60/70 do século passado (Isso é tempo!), aprendi a diferença entre o tempo físico – entidade concreta da realidade, mensurável por um aparelho então mecânico à época – e o tempo psicológico – entidade que se incorpora na pessoa conforme, por exemplo, o aperto por que passa e o tempo que tem para dele se safar.

Além disso, volta e meia surge um estudioso a dizer que o tempo simplesmente não existe, que é um conceito inventado pelo ser humano, para tentar organizar a zona em que transformou sua vida, a partir da primeira fogueira acesa numa caverna lá nos tempos paleolíticos (“antiga pedra”, em grego antigo). Ou será que esses tempos também não existiram?

Contudo o problema se tornou maior quando as tribos resolveram sentar praça num sítio mais propício à agricultura e passaram a observar a sucessão de estações do ano: outono, inverno, primavera e verão. E viram que aquilo as ajudava a obter maior vantagem das sementes que atiravam à terra. Era preciso prestar atenção a tal sucessão de tempo.

Quando, enfim, (Olha a noção de tempo novamente na conjunção!) domesticaram o gado e inadvertidamente deixaram talhar o leite de um dia para o outro, sob o escaldante calor de um verão qualquer do neolítico (“nova pedra”, em grego antigo – Outra vez esse tempo reincidente!), chegaram ao impasse de ter de beber todo o produto da ordenha num mesmo dia, ou passar a fazer queijo com a transformação láctea ocorrida. Até porque ainda não existia a geladeira, que seria inventada nos anos 1900 de um tempo de que ainda nem tinham noção.

Um pouco tempo depois, 3500 a.C. (Será verdade isso?), foi criado o primeiro relógio de sol no antigo Egito, a fim de sistematizar os trabalhos a serem desenvolvidos na construção das pirâmides enquanto o astro rei estivesse presente no firmamento.

Bem depois vieram os suíços e sua mania de precisão a produzir relógios mecânicos, por volta do século XVIII, embora a traquitana já tivesse sido inventada no século XIV (Estão notando como tudo tem a marca de tempo?). Desde então ninguém pôde mais alegar perder a hora, como me disse certa vez meu finado dentista, quando cheguei atrasado para a consulta do dia:

– Saint-Clair, depois da invenção do relógio, ninguém mais tem o direito de perder a hora.

E ele estava cheio de razão, já naquela ocasião, na dobra da primeira para a segunda metade do século XX. Aliás, tal lição aprendi-a de tal forma, que passei a ser quase um suíço, ou um alemão, que dizem ser o verdadeiro psicótico com o tempo, no cumprimento de horários. Segundo um amigo me disse, na Alemanha nenhum trem parte em horário cheio, mas sempre em horário fracionado: Berlim > Munique: 8h17, plataforma 1.

Entretanto – e sobretudo – creio que o que definitivamente põe por terra o argumento do filósofo de que o tempo não existe foi a consagração do crediário. Principalmente o de longo prazo, aquele de trinta anos, por exemplo, para a quitação da casa própria. Quando, a cada ano (Olha o tempo escorrendo novamente!), o adquirente recebe da instituição financeira o bloco de boletos de pagamento de suas prestações, ele tem a certeza insofismável de que o tempo não para. Que veio lá desde o sinal para a aquisição do imóvel, até o último boleto, quando então será o rei de seu castelo doméstico. Caso não tenha falecido durante a vigência do contrato, e não tenham os herdeiros de se beneficiar pela cláusula de seguro contra morte.

E, para pôr um fim a essa baboseira toda e reforçar meu argumento contra a temeridade da afirmação do filósofo, posso referir Caetano Veloso (Oração ao tempo), Cazuza e Arnaldo Brandão (O tempo não para), Camões (Mudam-se os tempos, muda-se a vontade), Manuel Bandeira (Canção do vento e da minha vida), que não me deixam mentir. Porém, principal e definitivamente, o carnê do IPTU que me aponta o mês de dezembro de 2021 como minha obrigação de estar presente no tempo, para que eu não caia na seção de Dívida Ativa da municipalidade de Niterói.

Meu tempo acabou. Até a próxima oportunidade.

Relógio de sol de Machu Picchu, Peru (foto colhida na Internet, embora eu já tenha estado lá.).

O PROFESSOR ESQUISITO

Nos anos 80 fui a Goiás ministrar curso de Língua Portuguesa de uma semana, inserido na programação mais ampla de uma pós-graduação “lato sensu” para professores da rede pública do estado. A cidade, ao norte de Goiânia, era Itapuranga, que está lá até hoje – e também no mapa do estado – com a sua divisão referida pelos moradores, entre a parte antiga e a mais recente, por um apelido carinhoso: Xixá e Xixazinho, se não me falha a memória, que é o nome de uma árvore frondosa comum na região.

No terceiro dia em que lá estava, hospedado num pequeno e simpático hotel, ironicamente nomeado Grande Hotel, de cuja existência não mais tenho ciência, faltou água na cidade. E fazia um calor danado! Era verão!

A carga horária do curso se concentrava em aulas pela manhã e à tarde. Ao fim do dia, eu saía da escola estadual em que elas ocorriam suado e reclamando por um bom banho de água fria. Na verdade, com o calor, a água rigorosamente não era fria. Então fui surpreendido, naquela terça-feira à tardinha, com a informação da simpática proprietária, que me lembrava a imagem da minha avó materna, de que não havia água na cidade.

Diante do hotel e à margem do Rio Vermelho, que corta a cidade, havia um posto de gasolina onde davam banho à força em um morador de rua, assim que as cascas de sujeira tomavam conta da sua pele. Segundo fui informado, o homem tinha de ser agarrado por outros dois, para que pudesse passar pela ducha de lavar carros. Tive vontade de ir lá pedir que me fizessem também tal favor. Mas, pombas!, não havia água na cidade inteira! Me atirar no rio estava fora de cogitação: sou inapto para água corrente ou semovente desde que nasci. Contudo eu não poderia continuar a viver em paz, dormir com certo conforto, voltar à aula no dia seguinte, sem um banho pelo menos razoável. E, após o jantar, a neta da proprietária, muito interessada em novidades, gostava de conversar com o professor da cidade grande. E eu não poderia estar em estado deplorável diante daquela adolescente curiosa.

Não tive saída! Fui até a pequena mercearia ao lado do hotel e comprei várias garrafas de um litro e meio de água mineral. A dona do hotel riu da minha iniciativa. Mas tomei um revigorante banho a cavalo, como dizemos na minha terra, de água mineral das profundezas das terras goianas, e pude me apresentar limpinho para o jantar daquela noite.

No dia seguinte, descobri que corria à boca pequena entre os moradores das imediações que ali, no Grande Hotel, se hospedava um professor que tomava banhos com água mineral.

A maledicência humana corre veloz!

Xixá (foto colhida na Internet).
Fruto do xixá.

TAMBÉM TENHO O MEU FOLCLORE POLÍTICO

O cara era meu conterrâneo, mas eu não o conhecia, o que só ocorreu em Lisboa, em 2003. Fui encontrá-lo, com a Jane e mais o casal que viajava conosco, em sua cervejaria no Cais Sodré, um belo espaço de gastronomia e entretenimento à margem do Rio Tejo.

Dentre os muitos assuntos que rolaram durante o tempo em que ele permaneceu conosco, o relativo à explicação de como fora parar na cidade ficou até hoje em minha memória, por seu caráter inusitado e mesmo hilariante.

Ele é arquiteto de formação e recebeu convite do então indicado ao cargo de embaixador brasileiro em Portugal, Itamar Franco, para que realizasse algumas obras na residência oficial em Lisboa. Era o ano de 1995.

RO – vou apenas indicar as iniciais do seu nome – viajou então para a capital portuguesa, a fim de atender nosso representante diplomático na Terrinha. Em lá chegando, descobriu que o trabalho consistia na construção de um galinheiro, para que nosso novel embaixador pudesse manter seu arraigado hábito mineiro de comer galinha ao molho pardo, pelo menos uma vez por semana, sem o desconforto de sair procurando galináceos em abatedouros lisboetas. Obviamente que um galinheiro de embaixada não poderia ser feito por qualquer mestre de obra canhestro. Requeria a ciência e a arte de arquiteto diplomado por universidade nacional.

E foi o primeiro galinheiro que RO construiu em sua vida. Até o instante em que ele nos contava a história, entre um trago e outro de chope, acolitado por tira-gostos, tudo por conta da casa, como manda o manual do bem receber visitas inesperadas, RO não tinha feito nenhum outro. Mas, com o prestígio do trabalho realizado na casa do novo embaixador, começaram a pipocar requisições para outros tantos trabalhos em imóveis de brasileiros e de lusitanos na cidade. Tanto é que nunca mais voltou ao Brasil. Por lá ficou, casou e tinha então uma filhinha recém-nascida, motivo que o fez sair um pouco mais cedo, deixando-nos a dolorosa tarefa de secar canecos de chope e dar fim a uma sequência de petiscos, tudo por conta da casa e da boa amizade.

E, como a prever já outro desafio em sua vida de arquiteto, RO nos confidenciou, ao sair, que o diplomata indicado naquele mesmo ano de 2003 para Portugal mandou convocá-lo à embaixada, pois tinha certa obra a lhe encomendar. Era o ex-deputado cearense Paes de Andrade, figura folclórica no cenário político brasileiro, por ter, como presidente da Câmara Federal e em substituição ao presidente da república da ocasião, viajado no avião presidencial até Mombaça, sua terrinha natal, a mostrar a que altura chegara seu filho importante.

RO nos disse, então, que temia ser desafiado a construir um capril, para que o novo embaixador pudesse criar cabras que lhe dessem suculentas e olorosas buchadas de bode.

Fomos embora da cidade no dia seguinte, e nunca soube do desfecho daquele convite que meu conterrâneo arquiteto recebeu de Sua Excelência, o novo Embaixador do Brasil em Portugal.

Vai dar bode! (foto do autor),

SOBRE COMER

Dia desses, o amigo Marcelino Medeiros compartilhou no Facebook alguns pensamentos rabínicos muito pertinentes. Um deles me chamou a atenção. É este:

                “Aquele que come sozinho morre sozinho.”

O pensamento é também a tentativa de um ensinamento, porque porta um conceito moral, capaz de melhorar a vida dos que o leem, caso queiram aplicar seu ensinamento: melhor é ter amigos e familiares à volta do que viver e morrer só.

Contudo o que me despertou o desejo de escrever este texto é um sentido escondido dentro da própria frase que escapa às pessoas que não passaram pelo curso de Letras, não estudaram a tal Etimologia, que é a parte dos estudos da língua voltada para a origem das palavras, e que vai justificar muito bem o sentido primordial da sentença.

Repare bem o meu leitor.

A nossa bela língua portuguesa é uma evolução natural do chamado latim vulgar, isto é, o latim popular, falado pelas tropas romanas que, por volta do século I da nossa era, após vencerem os lusitanos de Viriato e Sertório, se estabeleceram no extremo oeste da Península Ibérica, onde está Portugal. Como parte de sua política expansionista, Roma exigia que os povos dominados falassem sua língua, o latim.

O processo evolutivo do latim ao português levou séculos, até que aquela língua falada na região estivesse tão distinta da língua-mãe, que levasse ao surgimento de uma nova língua – o galaico-português e, posteriormente, o português arcaico –, sem que houvesse solução de continuidade no uso da língua, porém já revelando estrutura gramatical e vocabular distinta do latim.

O verbo comer atual, moderno, passou por todo esse período evolutivo, até chegar a este jeitão reconhecido hoje por qualquer falante. Mas guarda em sua trajetória uma história interessante.

Em latim clássico, forma da linguagem que os soldados naturalmente não usavam, comer era edere (com a sílaba forte no primeiro /e/). A forma é composta de um radical ed-, que guarda o sentido básico – “ingerir alimento, alimentar-se” –, seguido da vogal identificadora da segunda conjugação, a famosa vogal temática, -e-,  e terminando pela desinência de infinitivo –re.

Aqui é interessante observar que a forma latina tem o radical bem próximo da forma inglesa: eat. Ambas as línguas vieram de um tronco comum a que os estudiosos dão o nome de indoeuropeu, a língua-mãe da maioria das línguas europeias e de outras tantas da Ásia. Também em sueco, outra língua-irmã, o termo é äta, em que a primeira vogal tem do som do /e/ aberto.

Como o romano, diferente de outros povos, entendesse que o ato de se alimentar não era um ato isolado, individual, mas, sobretudo, um ato social, em que se pressupõe a companhia de outros, isto se refletiu na língua, que acrescentou à forma edere o prefixo indicativo de companhia: cum-. Desta maneira, a forma que chegou até à Península Ibérica trazida pelos legionários romanos foi cumedere – “ingerir alimento em companhia de outro”.

A partir daí é que se processa a gradual mudança evolutiva da forma latina até chegar ao que temos hoje.

Dois fenômenos de pronúncia foram sistemáticos. As consoantes sonoras entre vogais (no caso do verbo, o /d/) desapareceram, o mesmo ocorrendo com a vogal final do infinitivo. Num primeiro instante – e isso tem comprovação escrita –, cumedere passou a cumeer. Em seguida, comeer (o /u/ inicial, por ser breve, passou a /o/ fechado em português) e, finalmente, comer (com a crase entre os dois /e/), dando a forma atual.

Embora o radical da palavra tenha desaparecido, aquilo que era o prefixo cum- se manteve e assumiu o valor do sentido da palavra. Passou a ser o radical em português.

Assim é fácil perceber que o ato de comer, por tudo isso, representa uma atividade a que nós, falantes de português, atribuímos um valor social, de confraternização e compartilhamento. Nossos alimentos mais emblemáticos refletem isso: feijoada, bacalhoada, cozido, moqueca, dentre os mais famosos.

Por isso é que me parece bem fundamentada a frase inicial: Aquele que come sozinho morre sozinho.

Até a próxima feijoada!

Conheça a feijoada do restaurante O Jardineiro
Imagem em clubegazetadopovo.com.br.

DO PRINCÍPIO AO FIM

No princípio, bem na entrada da vila, está o Morro do Marta. Um homem de sobrenome Marta, há muitos anos, morou lá e acabou identificando o lugar. Hoje os mais novos não sabem disso e o chamam de Morro do Mato. O epônimo acabou se perdendo.

No meio da praça em frente à capela, o descampado. Sem capim, sem mato, sem bancos, sem canteiros. A praça era como um terreno baldio nu. Era onde as crianças aprendiam a andar de bicicleta. Seu nome, então, era Praça do Sabiá, apelido do fundador da vila.

Na beirada do valão Liberdade, os moleques improvisaram uma rampa de salto. Pulava um, pulava outro, e outro mais. Como se fosse uma ingênua olímpiada infantil.

Atrás do muro do campo do Liberdade, ficava o espaço proibido do gramado, onde o time da vila disputava seus jogos do campeonato. Nos momentos sem uso, os moleques o invadiam sorrateiramente, através do muro, e disputavam partidas inolvidáveis.

À frente o grupo escolar, estava a casa da minha avó. Todos os dias ia lá, pegar os pequenos latões de alumínio e me dirigir ao curral do meu tio-avô, irmão dela, pegar o leite que ele nos dava. Quase sempre, quando ele lá estava, eu tomava uma caneca de leite quentinho com açúcar, cheio de espuma e saído diretamente das tetas da vaca.

Acima das nossas cabeças, revoavam as andorinhas nos fins de tarde, antes de procurar abrigo no forro da capela. Chilreavam tanto, que pareciam alegres como gente. E faziam com que os moleques também sonhassem em poder voar um dia.

Abaixo da terra, a sete palmos, no cemitério da vila, enterram-se sonhos e esperanças. Mas nunca há choro desesperado dos que ficam. No interior, se aprende que a morte é quase igual à vida. Apenas um pouquinho mais dolorida.

Do lado de fora, quem passasse pelas ruas de paralelepípedo imaginaria, ao ver as casas sossegadas de janelas abertas, as mulheres cozinhando, os meninos se aprontando para a escola, os maridos coçando o bigode à espera do almoço.

Dentro das casas, nunca havia dramas irresolvíveis, nem tragédias anunciadas. Vivia-se a pacífica vida do interior, sem muitas novidades, mas também sem sobressaltos. O desespero do progresso sempre lá chegou de mansinho, sem bulício.

Na subida do morro da escola, ficava o pau-d’alho frondoso, ao lado de uma serraria a céu aberto, com um balanço – que então chamávamos balango – dependurado de um galho alto por cordas de juta. Vez e outra um moleque se despencava dele.

Na descida do morro do cemitério, chega-se à Coreia, uma espécie de bairro da vila pequenina. Em minha cabeça de menino, havia mais distância entre a Coreia e a Rua, como chamávamos a vila, do que os passos que a distavam geograficamente.

No fim do dia, a iluminação pública começava a alumiar as ruas com lâmpadas de amarelada fraqueza, quase tomates de vez. Que apenas não deixavam as visagens noturnas do entorno assombrar nossa vida singela.

Revoada das andorinhas faz festa no céu de Teresina

Imagem colhida na Internet (meionorte.com).

MARIA FALA (Histórias de avós e neta)

Maria fez ligeiros quatro anos este mês, mas fala como se tivesse bem mais. Embora seja Cebolinha total, em relação ao chamado erre duro – de caro, barata, prata, que ela diz calo, balata, plata – consegue falar com fidelidade todos os demais fonemas e capricha nos plurais e nas concordâncias, no uso do subjuntivo e do futuro do pretérito, que até espanta os adultos. E ainda fez comentário desairoso sobre a personagem de Maurício de Souza:

– O Cebolinha não sabe falar o erre!

Evidentemente que há aí o estímulo das mídias modernas, mas, quero crer, muito também de uma habilidade inata, daquele tipo que faz uma pessoa ter facilidade para desenhar, esculpir, cantar, dançar, por exemplo. Pois Maria tem uma habilidade danada para falar. E como fala!

Dia desses fomos apanhá-la para passar uns dias conosco. Seus irmãos mais velhos vieram juntos. O encontro com o pai, que os trazia, se deu no estacionamento do aeroporto Santos Dumont. Já de volta para casa, ao passarmos sobre a ponte Rio-Niterói, ela começou com um assunto que a preocupava então: queria conhecer o mar aberto. E observou que a baía sobre que trafegávamos não era mar aberto. E quisemos saber o porquê desse interesse dela por esse mar aberto. Então ela explicou que era por causa da Moana, que desobedeceu sua avó e foi para o mar aberto. Assim ela queria saber onde era esse tal mar.

Aqui cabe uma digressão para os que não estão atualizados sobre a indigitada Moana. Moana é a personagem de uma bela animação cinematográfica de 2016 – Moana – um mar de aventuras. Ela é uma menina maori, filha do chefe da tribo, que vê como missão salvar seu povo de uma catástrofe natural. O desenho é plasticamente muito bonito e a mensagem, altamente positiva.

Para atender sua curiosidade, numa tarde, levamos Maria até Piratininga, para que ela visse o mar aberto. Em lá chegando, a imaginação da pequena voou de passarinho, e ela conseguiu instalar sua heroína numa das ilhas próximas e dali fazê-la partir na jornada pelo oceano afora, com todas as peripécias, como no roteiro do filme.

Jane, que não vira o filme (Eu levei o Francisco ao cinema e sabia do que se tratava.), quis saber da netinha a razão que fez com que Moana se lançasse ao mar:

– Maria, o que a Moana foi fazer?

– Óbvio! Foi pla morrer!

Claro que no filme a personagem não morre, mas na cabeça dela, tendo desobedecido a avó, a princesa estaria correndo sérios riscos e procurando a morte no mar aberto.

Na volta para casa, assunto puxa assunto, Jane referiu uma história do pai da miúda quando também pequeno:

– Maria, uma vez o seu pai, quando era pequeno, se perdeu na praia. A vovó ficou desesperada, a praia estava cheia, e eu saí gritando por ele: Pedro! Pedro!

Maria, muito solidária nessas situações, disse para a avó:

– Vovó, ela só me chamar, que eu glitalia meu glito plóplio: PAPAI!

Na noite da véspera da volta à sua casa, eu e ela estávamos deitados, já preparando a hora de a pequena dormir. Contei histórias, cantei antigas canções suaves, mas ela dizia que estava sem sono. Então ela propôs brincar de fazer perguntas. Quem acertasse, poderia fazer duas perguntas seguidas. A brincadeira começou: eu pergunto, ela responde; ela pergunta, eu respondo. Instantes depois, era a minha vez. Como levei pequeno tempo a imaginar pergunta mais complicada para lhe fazer, ela dá tapinhas no meu ombro e diz, em forma de desafio:

– E aí, parceilão?!

Em seguida chega a avó e propõe que ela durma conosco, no meio da cama. A princípio ela aceita a ideia, mas um pouco depois diz para a avó:

– Vovó, pensei bem. Eu não falei com a Lela (a irmã) e acho que ela não vai gostar. Eu vou pla lá.

E foi para o outro quarto, dividir a cama com a irmã adolescente, como vinha fazendo.

Para não me alongar e ser taxado de avô babão, vai a última.

Maria olhava a decoração sobre o rack da sala e, observando o conjunto que aparece na ilustração deste texto, pergunta à avó:

– É sua, vovó, essa família indo embola?

Fecha o pano!

Foto do autor.

UM CHOCOLATE QUENTE NA LEITERIA

Era um sábado à noite. Fazia certo frio na Bom Jesus do Itabapoana do início dos anos sessenta do século passado.

Andorinha, Zé Fábio e eu fomos até a Leiteria Bom Jesus, junto à Praça Governador Portela, beber um chocolate quente. Cornélio, o cozinheiro da Leiteria, era famoso por fazer coisas gostosas, apesar de alguns detratores reclamarem da higiene da manipulação, por conta de uma sinusite renitente que o perseguia.

Sentamos a uma mesa e logo fizemos o pedido. Em seguida, chega nosso contemporâneo Índio, com alguns amigos, e todos se sentam próximos. E todos, lá também, solicitaram o mesmo, famoso e denso chocolate quente.

Por essa época, nós três trabalhávamos nas oficinas gráficas do jornal O Norte Fluminense, enquanto o Índio era um dos gráficos do jornal A Voz do Povo. Por conta disso, havia velada ciumeira entre uns e outros, sem, contudo, declaração de animosidade.

Daí a pouco Cornélio traz os canecos com a bebida, e Andorinha, sempre muito sacana, combinou com ele de aplicar uma peça no Índio. Ia reclamar que o chocolate estava frio, assim que ele estivesse trazendo o pedido do Índio.

Cornélio, que também gostava de uma brincadeira sem graça, esquentou o mais que pode o pedido do Índio e o trouxe, no justo momento em que Andorinha levanta a voz:

– Pô, Cornélio! Esse chocolate está frio. Você nem esquentou, caramba!

De imediato, Índio pegou na alça da caneca e sorveu um gole generoso daquele suposto líquido apenas morno. E, no que o pôs na boca, devolveu de imediato, fazendo uma sujeira sobre a mesa.

E rimos às bandeiras despregadas, conforme expressão que ainda tinha certa circulação por aquela época.

E Cornélio ainda se aproveitou para dizer que aquilo que se via à tona da caneca não era nata, mas sim o couro do céu da boca do Índio.

5 receitas para te transformares no mestre do chocolate quente ...

Imagem em fnac.pt.