CERTOS TIOS

Meu conterrâneo real e amigo virtual Jonatas Nascimento confessa em público pelo Facebook que lá pelos seus verdes anos, quando ainda morava em nossa vilazinha natal, era vizinho de um certo Tijorge, que era a forma como se diz comumente aquilo que seria Tio Jorge, com a aglutinação do título ao nome. Só mais tarde, ainda segundo ele, descobriu que o tal vizinho não era tio, o que, no entanto, sofreu uma reviravolta porque, aí bem mais tarde, soube que aquele Jorge que havia sido e deixado de ser tio era, na verdade, tio por afinidade, por ser casado com uma irmã de sua avó. Na vila, dizia-se, nesses casos, tio emprestado. Então justificava-se o Tijorge, como ele fora inicialmente chamado.

E isto é interessante observar, pois na Carabuçu da minha infância (Com certeza, sou um pouco mais velho que o Jonatas!), não havia o hábito de se chamar tio/tia às pessoas mais velhas. Tal denominação era restrita àqueles que, por consanguinidade ou por afinidade, fossem “realmente” tios/tias. Às demais pessoas, as crianças chamavam de Seu Fulano e Dona Cicrana: Seu Valdemar e Dona Tana, por exemplo, nossos vizinhos de frente.

Também ocorria não tratarmos por tio alguns tios reais, pela pouca diferença etária para nós, como no meu caso os tios Paulo, Louro e José Catarina, o Cate. Eles mesmos dispensaram os sobrinhos de assim se dirigirem a eles, inclusive com a solicitação de bênção, tão comum à época:

– Bença, tio! Bença, tia!

O mesmo ocorria com minha mãe. Dos diversos irmãos de sua mãe, apenas o mais velho merecia tal tratamento, talvez pela mesma razão como acontecia comigo: o João, que ela e os demais chamávamos de TitiJoão, era seu tio mais velho. Os demais ela os tratava apenas pelo nome ou o apelido: Raul, Carlito, Cícero, Tônio, Chiquito e Tieca.

Relativamente a este último, meu tio-avô Tieca, que dizíamos Titieca, certa vez ocorreu um fato interessante. O vigário da paróquia de Bom Jesus do Itabapoana, Padre Francisco Apoliano, que, uma vez por mês, atendia à capela da vila, precisava da autorização do meu tio, cuja casa era vizinha ao pequeno templo, para a instalação de um novo e mais poderoso sino, justamente situado na divisa com seu quintal. Para facilitar as coisas, foi falar com nossa prima Juracy, que sabia ser sobrinha dele, para que falasse com o “Sr. Eca” sobre o assunto. Juracy sorriu e explicou para ele que o nome, ou antes, o apelido do tio era Tieca, e não Eca. O padre então disse que ele não era seu tio e achou muita graça com a confusão, pois imaginava que, quando a ele se referia, já se fizesse a aglutinação de tio a Eca, como era comum ao nosso jeito de falar.

Tal também era a percepção que Jonatas tinha do nome do meu tio-avô, como disse na sequência do diálogo que mantivemos, por esses dias, pela página do Facebook.

Por isso é que Jonatas, quando criança, alimentasse a esperança de, no dia em que fosse ao Rio de Janeiro, encontrar por lá um certo parente seu a que sempre em sua casa se faziam menções: Tijuca. Talvez até mesmo irmão do Tijorge. Sabe-se lá!

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DO LEITE E SUAS CONSEQUÊNCIAS: O PUDIM

O leite, malgrado ser um dos alimentos mais completos, sobretudo se for o materno em relação ao filho, é muito mal falado. Dizem misérias dele pelo tanto de complicações que algumas pessoas sentem ao ingeri-lo. Cheguei mesmo a ouvir de certo médico, no programa Sem Censura, da TV Brasil, há algum tempo, que o ser humano adulto não deveria beber leite. Mesmo sem ser especialista, achei uma estupidez o que ele disse. A seguir tal raciocínio, o ser humano não deveria beber cerveja, vinho, cachaça, conhaque, vodca, tequila, pisco, suco engarrafado, água mineral gasosa, dentre outras coisas que ingerimos, vida afora.

Li que cientistas e pesquisadores tinham chegado à conclusão de que a ingestão de leite por povos africanos ancestrais, que domesticaram o gado bovino, é o que tinha promovido a proliferação de seres humanos no planeta. A ingesta de leite os tornou mais fecundos.

Os tais cientistas e pesquisadores chegaram a estabelecer, após pesquisa exaustiva, o grau de tolerância ao leite em diversos povos e chegou à constatação de que os suecos, que guardam o mesmo DNA ancestral africano, são os mais tolerantes: quase a totalidade da população ingere o alimento ou produtos que o tenham em sua composição, sem qualquer espécie de estranhamento orgânico.

Contudo sabemos que a natureza dispara nos mamíferos, após determinado período inicial de suas vidas, um dispositivo para que eles deixem de tomar leite. Isso é compreensível, já que promove o desmame de um filhote, em benefício  do próximo a nascer. Caso contrário, a perpetuação da espécie seria comprometida pelo agarramento às tetas maternas, sempre tão generosas, como se pode constatar.

Ora, ao chegar ao desmame, o organismo do mamífero informa que ele não aceita mais leite. Daí a tal intolerância ou mesmo a alergia à lactose que ocorre em seres humanos.

Entretanto, na história da formação e expansão do gênero humano sobre a face do planeta, os referidos estudos indicam que os povos que haviam domesticado o gado redescobriram que o leite era uma excelente fonte alimentar e, aos trancos e barrancos, com o passar do tempo, forçaram o organismo a aceitá-lo novamente. Isso levou tais tribos a uma capacidade reprodutiva maior que as tribos que não tinham o leite como alimento. E acabaram se espalhando pela Terra, a partir da Mãe África. Certamente desses povos descendem os europeus e, consequentemente, alguns de nós, senão todos, aqui abaixo do Equador.

A expansão para terras cada vez mais ao norte foi provocando o clareamento da pele, a fim de que os raios solares, mais brandos no Setentrião, pudessem fixar a vitamina D necessária ao organismo humano. Aí a razão dos nórdicos branquinhos, em contraste com seus antigos irmãos de pele tisnada, cheia de melanina

Pode-se pensar, então, que o fato de tolerar ou não o consumo de leite divide os seres humanos em mais modernos e mais primitivos. Eu, por exemplo, sou moderno. Meu netinho Francisco, de cinco anos, é mais primitivo, porque tem intolerância à lactose. E, por isso, se priva de um sem-número de produtos feitos à base de leite. Como os maravilhosos queijos! Imaginem mineiros, franceses e holandeses impedidos de comerem seus queijos extraordinários!

No entanto a ciência já conseguiu produzir um remédio que, ingerido antes, permite que, nas duas horas seguintes, os intolerantes ao leite possam apreciar a vasta gama de produtos que o contenham. É o que se deu com o Francisco nesses últimos dias. Sua mãe, em viagem à Alemanha, encontrou lá o tal remédio e o trouxe. Ver o Francisco se deliciar com seu primeiro doce de leite pastoso foi de emocionar. Ele ficou numa alegria indescritível. E o que dizer do seu prazer em comer chocolate ao leite! Agora, sempre que há a possibilidade de se encontrar com um desses produtos com leite, o pequeno já pede que se lhe dê o remedinho milagroso.

Por uma dessas é que fico a imaginar a hipótese de a Ciência também desenvolver uma pílula que permita aos intolerantes ao açúcar, como eu, poderem voltar a sentir o paladar inenarrável de uma deliciosa fatia de pudim de leite, talvez a consequência mais avassaladora que esse tão mal falado líquido produza, em termos de confeitaria. E eu voltarei a experimentar a alegria que o Francisco teve ao se deliciar com seu primeiro doce de leite.

 

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PREVISÕES IMPREVISÍVEIS DE PAI PRUDENÇO PARA 2018

Saravá, zifio e zifia! Tumém entrei nessa tar onda do politicamente correto. Ninguém vai pudê dizê que num prest’enção nas coisa.

Trazo aqui as minha previsão para 2018. Quero qu’ocês bote sentido no que vô dizê, pra despois num vim chorá nos pé de Pai Prudenço, requereno socorro espirituá. Despois do trem obrado, fica difice das entidade desobrá.

Aqui vai as treze previsão de carate gerá para o ano que evém aí:

  1. Quarqué previsão que o mundo vai acabá por causa duns meteoro, num vai! É tudo prosa, conversa fiada de quem num tem nada mió que fazê e fica espaiano cagaço ni suncês. É só deixá que as autoridade mesmo se encarrega da desgracera toda.
  2. Os preço vão subi, mas o governo vai dizê que tá baixano. Aí é só suncês conferi as merreca no fim do mês, pra vê onde tá a verdade. Se suncê num é político, num vai sobrá nada no seu salaro.
  3. Vai caí avião; vai afundá navio; vai descarrilhá trem; vai trombá carro uns nos outro; vai pipocá curisco e trovejo no varejo e no atacado; vai dá enchente e secura: aqui, ali e aculá. Cada quar tem de segurá sua onda, senão num empracá 2019.
  4. Vai morrê um monte de vivo. Uns famoso, otros desconhecido. E o mundo vai continuá dano seus sacolejo no espaço siderá sem nem querê sabê.
  5. Uns vão casá, otros vão separá. Otro tanto vai ficá só no tico-tico no fubá. E uma montoera de menino-hômi e menina-muié vai continuá nasceno sem pai, nem mãe. E sem escola, sem saúde e sem inducação tumém.
  6. Quem tive pranejano arguma coisa boa pra 2018 é mió despranejá. O trem vai tá feio! E num tem prano que reseste!
  7. Vai aparecê mais político honesto no Brazi. É só a Puliça Federá apertá o cerco, que vai brotá honestidade de todo lado. Vai parecê busca-pé em festa de São João.
  8. A tar Copa da Russa não vai dá pra nóis. Nóis só vão lá passeá e tumá umas vodka e comê um tar de caviá. Nóis num tá cum nada nesse tar de futebó, des que aquele minino gorducho pindurô as chutera.
  9. É mió os time do Rio de Janero tumá tenença no campeonato nacioná, que senão eis cai do cavalo e vão batê na segundona.
  10. O vampirão vai continuá cos dente na jugulá de suncês, inté chupá o sangue todim. Mas suncês vão resisti, causa que precisa pagá mais imposto pra sustentá eis lá em riba.
  11. No finá do ano, vai acontecê o tá de Fora Teme! Dia primero de janero de 2019 já tem otro espertaião comandano o país. Suncês num perde por esperá!
  12. Quero chamá atenção de suncês para as inleição do ano que vem. Se continuá votano do que jeito que evém votano, nada vai mudá.
  13. No prano internacioná, tudo vai ficá na merma batida. Não tem previsão de miora de nada. Pode mermo é piorá, que é mais fáci que miorá. Nóis semo mais programado pra fazê merda, do que pra fazê a coisa certa.

Despois num diga que num avisei!

Inté!

Pai Prudenço refletindo sobre o próximo ano.

FANTASMAS

Esta também me foi contada por meu sobrinho Bruno, médico num hospital em Muriaé.

Como ocorre, morrem pacientes em hospitais, que não conseguem salvar a vida de todos que deles se socorrem. Ora, se há mortos, há almas, espíritos, ectoplasmas, fantasmas a rondar esses lugares de sua última morada na Terra. Assim creem muitas pessoas. Então, lá no hospital onde ele trabalha, há notícias de fantasmas de antigos pacientes apegados àqueles locais, como referem alguns funcionários. E nisso acredita piamente o Genival, auxiliar de enfermagem encarregado de cuidar dos pacientes que morrem.

Genival, com seus quarenta e poucos anos, é uma pessoa simples, que mora numa espécie de chácara, um pouco afastada da área urbana. Profissional eficiente a executar sem assombro sua função de tanatopraxista, tem, no entanto, verdadeiro pavor de ir até o necrotério da instituição. Prepara os corpos tranquilamente, mas pede com veemência que não seja obrigado a conduzir o cadáver até as gavetas daquele espaço sombrio. Alguém que faça aquilo por ele!

Certo dia, contudo, como não houvesse colega a fazer o traslado do corpo, foi ele obrigado a levar os restos mortais até o local. Apreensivo, foi empurrando a maca com o de cujus inerte, de canelas espichadas, como  sói acontecer. Chegou lá com os olhos semicerrados, a fim de não ver o que teme, abriu a gaveta e lá depositou o morto, tão rapidamente quanto possível.

Ao virar as costas e tomar o corredor de volta, viu vindo em sua direção o morto, a caminhar em passos lentos, mas firmes. Sem mais essa ou aquela, sofreu uma tontura tão vertiginosa, um escurecimento das vistas, o mundo a rodopiar à sua volta, que teve de se agarrar à parede como uma lagartixa, antes que desabasse no chão quase imaculado do nosocômio. O “morto “, pressuroso, ainda o ajudou a se levantar e disse a ele, à medida que Genival se refazia do susto com a aparição:

– Escorregou?  Bom dia! Eu sou irmão gêmeo do morto e vim aqui providenciar o enterro dele.

Por um triz, quase que Genival também vira fantasma!

 

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LOST WORLD (MUNDO PERDIDO)

O título desta crônica está em inglês, porque o assunto vem dos Estados Unidos, e eu quero mostrar que também sei um pouco da língua do Pato Donald.

Li, com um misto de estarrecimento e bacon, a notícia de que uma jovem prostituta americana, de carinha cândida (Pelo menos, é o que pude sentir por sua foto na matéria.), de apenas vinte e um anos, deu dois tiros na cabeça do seu cliente, sob a alegação de que ele não sabia fazer o famoso cunilingus.

O infausto cliente, que ainda teve a sua carteira roubada pela jovem, após se safar de ir para a cidade dos pés juntos, estava um tanto aéreo, sem saber o que de fato lhe tinha acontecido.

Presa, a mocinha explicou ao xerife que atirou apenas porque não sabia como dizer ao homem que ele estava fazendo tudo errado.

Imagine se, sempre que alguém não souber dizer ao outro aquilo que deseja, resolva despejar sobre o interlocutor uma saraivada de balas? É uma coisa de doido!

Acho bastante factível que seja possível errar o alvo nesses momentos. A pessoa fica excitada, nervosa, e a pontaria nunca sai perfeita. O homem, e não a mulher, lógico! Mas o amigo leitor há de convir que é estranho que uma prostituta fique chateada com o equívoco. A não ser que ela quisesse, de fato, praticar o ato com todas as suas consequências gozosas, prazerosas e, por que não dizer, libidinosas. Pelo que se sabe, o serviço é sem emoção. Mais ou menos como um funcionário público metendo o carimbo num requerimento qualquer.

No entanto, sem conhecer a tabelinha orgânica da moça, fico a imaginar que ela estivesse na tal fase da TPM. É que há algumas mulheres que, no auge da crise, são capazes de dar tiro a esmo, até por motivos de somenos importância. E o infeliz do cliente contratou o serviço da jovem justamente durante o clímax desse incômodo e quase pagou com a vida por um pequeno erro de cálculo. Ou de execução!

Por isso é que aproveito também para alertar os possíveis viajantes àquele país que o nome da moça é Marissa Wallen e presta seus serviços na cidade de Washington. Acho que até bem próximo à Casa Branca. Ou White House, na língua de Donald Duck e Donald Trump.

Este mundo está mesmo perdido!

Take it easy, man!

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Imagem em dreamstime.com.

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PS: Se quiser ver a notícia, clique aqui.

MIRACEMA DE SABORES

Jane e eu voltamos a Miracema neste último feriadão. Depois de alguns meses, estava contando em voltar ao bar do Marquinhos para me deliciar com a arte da cozinha trivial da esposa dele, dona Eliane. Inclusive preparei meu espírito, que sempre orienta o paladar, para o jiló recheado e a joelho de porco. Era sexta-feira, o dia em que tais iguarias entram no exíguo cardápio do pequeno botequim. O restante do paladar, esquentado por pinga e pimenta, fica por conta da conversa fiada tradicional que esse tipo de ambiente propicia. Fiquei só na saudade. Ao encontrar uma amiga, companheira certa dessas libações, ela me disse que o casal proprietário estava de férias, portanto o estabelecimento estava fechado. Pensei até em enfiar sob a porta de aço um recado malcriado, manifestando minha frustração. Melhor, não!

Pois não é que outra amiga a quem falei do fato me disse que havia um outro bar muito bom, com serviço atencioso e comida de primeira qualidade.

Aqui devo fazer um parágrafo. Quando digo comida de primeira qualidade estou a dizer da comida tradicional do interior, sem sofisticação, sem modismos, mas feita com carinho e competência, o que eleva seu sabor ao máximo.

À noite do dia seguinte fomos ao tal bar, LC Hamburgueria e Cia., numa rua perpendicular à Rua da Laje. O lugar é pequeno, limpo, com as paredes decoradas por fotos bem feitas de alguns pratos preparados pelas mãos habilidosas da proprietária, Lúcia.

Éramos quatro: as duas amigas miracemenses Aparecida e Branca, Jane e eu. Enquanto examinávamos o cardápio, pedimos a cerveja, que veio no ponto exato do gelo, sem exageros. Depois de alguma hesitação entre a variedade de ofertas, optamos por meia porção de língua recheada. E ficamos bebendo e conversando, contando causos e rindo de histórias mirabolantes que uma e outra referiam. Até que veio o petisco. Estou para dizer aos amigos leitores que jamais, em tempo algum, comi uma língua com tal paladar. Nem mesmo a que Haroldinho oferecia em seu bar, lá pelos anos 90 em Bom Jesus do Itabapoana, uma maravilha ao paladar, se igualava a esta que comemos no bar da Lúcia. Mergulhadas num molho à base de tomate, com finas fatias de cebola roxa crua e temperos verdes, os nacos de língua estavam tenros, no ponto certo, na consistência exata e com um paladar excepcional. Era só colocá-los na torrada que acompanha o prato, acrescentar uma ou duas gotas de pimenta malagueta e sentir a boca ser invadida por um sabor inesquecível.

Aparecida, amiga da Lúcia, ainda pediu que ela viesse até nós, para que pudéssemos agradecer aquela experiência marcante.

Miracema tem dessas coisas: a simplicidade elevada ao seu mais alto grau de prazer.

 

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Obelix e Asterix, criação de Goscinny e Uderzo (em mojtv.net).

CERTOS PREGÕES

Meu netinho é encantado com o pregão da caminhonete que passa pelas ruas do bairro à cata de velharias:

– Panela velha, máquina de lavar velha, geladeira velha!

A emissão que se espalha no ar vem metalizada pela baixa qualidade do sistema de som do carro. Talvez seja isso o mais interessante para ele. A voz do locutor sai espremida, rascante, metálica:

– Ventilador velho, liquidificador velho, geladeira velha!

Certo dia, rindo, ele emendou:

– Vovô velho!

Mas ficou chateado quando eu disse “Francisco velho!”.

Os pregões são formas orais tradicionais usadas por ambulantes para anunciar a mercadoria à venda. Vem desde que o homem saiu com os produtos de sua colheita ao encontro de possíveis compradores, pelas ruas das vilas e das cidades. Era preciso anunciar.

No caso específico da caminhonete do ferro-velho, o que se anuncia é o que se compra, diferentemente dos pregões tradicionais.

Normalmente os pregões se resumem a enunciar o nome da mercadoria ou do seu vendedor:

– Olha a banana! Olha o bananeiro!

– Olha o peixeiro!

– Olha a laranja! Olha o laranjeiro!

Um ou outro tinham formas mais elaboradas, como versinhos rústicos, como do vendedor de pirulitos:

– Olha o pirulito americano: bota na boca e sai “chupano”!

Uns usavam o humor para chamar a atenção:

– Moça bonita não paga. Mas também não leva!

Escuto pregões desde que me entendo por gente. Lá na minha Carabuçu natal eles existiam. Eu mesmo já os produzi, em moleque. Saía à venda das laranjas da minha avó. Confesso, no entanto, que tinha certa vergonha de sair gritando pelas ruas miúdas da vila.

Quando cheguei a Niterói, em 1967, deparei com o centro da cidade coalhada de camelôs, uns mais histriônicos que outros, mas todos com seus pregões reconhecidos, à cata de clientes.

Havia um que sempre se postava na esquina da Avenida Amaral Peixoto com a Rua Visconde do Uruguai e anunciava, com sua voz espremida e ligeiramente gutural, um pregão bem diferente, só decodificado ao se ver o ele que vendia:

– Quem tem criança na escola! Quem tem criança na escola!

O /s/ de escola saía bastante chiado, como é comum ao carioca. Assim era a forma de tentar vender seus cadernos.

Outro, que vendia traquitanas para a cozinha, nas imediações, dizia uma frase também bem estranha, enquanto manipulava o objeto:

– Não resta prática, nem tampouco habilidade!

E eu ficava intrigado com aquele verbo restar na frase. Até que meu amigo Valter Bretas esclareceu que o camelô deveria querer dizer “não requer prática”. Era realmente isso: o treco era de fácil manejo.

Tempos depois tive minha atenção despertada pelos camelôs de La Paz, na Bolívia. Observei que seus pregões tinham uma estrutura fixa, na maior parte das vezes: o nome da mercadoria era enunciado duas vez na forma normal e uma terceira vez, na forma diminutiva.

– Pañuelos! Pañuelos! Pañuelitos!

– Chompas! Chompas! Chompitas!

– Ponchos! Ponchos! Ponchitos!

Ainda que o terceiro termo não estivesse no diminutivo, a forma tríplice era uma constante:

– Chicha blanca! Chica blanca! Chicha blanca!

Outro camelô, este já no Rio de Janeiro, no calçadão da Rua São José, lá pelos anos 70/80, era uma figura e tanto. Estava sempre de paletó e gravata, óculos escuros, cabelos cortados rentes. Vendia baralhos, que expunha sobre sua pequena banca, e pomada japonesa, que ficava escondida sob ela. Os baralhos eram anunciados aos brados; a pomada japonesa, contudo, era apregoada em um tom bem baixo.

– BARALHOS DE NYLON! BARALHOS DE PLÁSTICO! Pomada japonesa!

Cada um encontra o tom certo, o ritmo adequado, a fórmula capaz de encantar o possível comprador. Outros, contudo, por certas limitações, acabam criando quase um pânico nos ouvintes. Era o caso do Zé do Ovo, já citado aqui em outra postagem.

Zé do Ovo era um pobre coitado, deserdado da vida e do juízo perfeito, que minha sogra como que adotou ainda adolescente. Por vezes ele passava uma temporada em sua casa e era tratado com um filho a mais. Mas sempre apresentou algum transtorno e era tido como meio lelé da cuca. Quando eu o conheci, ele já era um homem feito e sempre estava por lá. Em alguns momentos, colhia folhas de couve da horta da dona Judith, colocava numa cesta e saía a apregoar pelas ruas de Miracema:

– Olha o “coveiro”! Olha o “coveiro”!

Mas, normalmente, voltava para casa todo feliz, com seu sorriso banguela, a cesta vazia e o dinheirinho miúdo no bolso.

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Jean Baptiste Debret, Negras quitandeiras, séc. 19 (em pinterest.com).