O TEMPO NÃO PARA

O conceito de tempo é um problema para a Filosofia e a Literatura. Para o resto das disciplinas humanas, não; principalmente para as indisciplinas.

Quando fiz o Curso de Letras, lá pelos idos de 60/70 do século passado (Isso é tempo!), aprendi a diferença entre o tempo físico – entidade concreta da realidade, mensurável por um aparelho então mecânico à época – e o tempo psicológico – entidade que se incorpora na pessoa conforme, por exemplo, o aperto por que passa e o tempo que tem para dele se safar.

Além disso, volta e meia surge um estudioso a dizer que o tempo simplesmente não existe, que é um conceito inventado pelo ser humano, para tentar organizar a zona em que transformou sua vida, a partir da primeira fogueira acesa numa caverna lá nos tempos paleolíticos (“antiga pedra”, em grego antigo). Ou será que esses tempos também não existiram?

Contudo o problema se tornou maior quando as tribos resolveram sentar praça num sítio mais propício à agricultura e passaram a observar a sucessão de estações do ano: outono, inverno, primavera e verão. E viram que aquilo as ajudava a obter maior vantagem das sementes que atiravam à terra. Era preciso prestar atenção a tal sucessão de tempo.

Quando, enfim, (Olha a noção de tempo novamente na conjunção!) domesticaram o gado e inadvertidamente deixaram talhar o leite de um dia para o outro, sob o escaldante calor de um verão qualquer do neolítico (“nova pedra”, em grego antigo – Outra vez esse tempo reincidente!), chegaram ao impasse de ter de beber todo o produto da ordenha num mesmo dia, ou passar a fazer queijo com a transformação láctea ocorrida. Até porque ainda não existia a geladeira, que seria inventada nos anos 1900 de um tempo de que ainda nem tinham noção.

Um pouco tempo depois, 3500 a.C. (Será verdade isso?), foi criado o primeiro relógio de sol no antigo Egito, a fim de sistematizar os trabalhos a serem desenvolvidos na construção das pirâmides enquanto o astro rei estivesse presente no firmamento.

Bem depois vieram os suíços e sua mania de precisão a produzir relógios mecânicos, por volta do século XVIII, embora a traquitana já tivesse sido inventada no século XIV (Estão notando como tudo tem a marca de tempo?). Desde então ninguém pôde mais alegar perder a hora, como me disse certa vez meu finado dentista, quando cheguei atrasado para a consulta do dia:

– Saint-Clair, depois da invenção do relógio, ninguém mais tem o direito de perder a hora.

E ele estava cheio de razão, já naquela ocasião, na dobra da primeira para a segunda metade do século XX. Aliás, tal lição aprendi-a de tal forma, que passei a ser quase um suíço, ou um alemão, que dizem ser o verdadeiro psicótico com o tempo, no cumprimento de horários. Segundo um amigo me disse, na Alemanha nenhum trem parte em horário cheio, mas sempre em horário fracionado: Berlim > Munique: 8h17, plataforma 1.

Entretanto – e sobretudo – creio que o que definitivamente põe por terra o argumento do filósofo de que o tempo não existe foi a consagração do crediário. Principalmente o de longo prazo, aquele de trinta anos, por exemplo, para a quitação da casa própria. Quando, a cada ano (Olha o tempo escorrendo novamente!), o adquirente recebe da instituição financeira o bloco de boletos de pagamento de suas prestações, ele tem a certeza insofismável de que o tempo não para. Que veio lá desde o sinal para a aquisição do imóvel, até o último boleto, quando então será o rei de seu castelo doméstico. Caso não tenha falecido durante a vigência do contrato, e não tenham os herdeiros de se beneficiar pela cláusula de seguro contra morte.

E, para pôr um fim a essa baboseira toda e reforçar meu argumento contra a temeridade da afirmação do filósofo, posso referir Caetano Veloso (Oração ao tempo), Cazuza e Arnaldo Brandão (O tempo não para), Camões (Mudam-se os tempos, muda-se a vontade), Manuel Bandeira (Canção do vento e da minha vida), que não me deixam mentir. Porém, principal e definitivamente, o carnê do IPTU que me aponta o mês de dezembro de 2021 como minha obrigação de estar presente no tempo, para que eu não caia na seção de Dívida Ativa da municipalidade de Niterói.

Meu tempo acabou. Até a próxima oportunidade.

Relógio de sol de Machu Picchu, Peru (foto colhida na Internet, embora eu já tenha estado lá.).

O PROFESSOR ESQUISITO

Nos anos 80 fui a Goiás ministrar curso de Língua Portuguesa de uma semana, inserido na programação mais ampla de uma pós-graduação “lato sensu” para professores da rede pública do estado. A cidade, ao norte de Goiânia, era Itapuranga, que está lá até hoje – e também no mapa do estado – com a sua divisão referida pelos moradores, entre a parte antiga e a mais recente, por um apelido carinhoso: Xixá e Xixazinho, se não me falha a memória, que é o nome de uma árvore frondosa comum na região.

No terceiro dia em que lá estava, hospedado num pequeno e simpático hotel, ironicamente nomeado Grande Hotel, de cuja existência não mais tenho ciência, faltou água na cidade. E fazia um calor danado! Era verão!

A carga horária do curso se concentrava em aulas pela manhã e à tarde. Ao fim do dia, eu saía da escola estadual em que elas ocorriam suado e reclamando por um bom banho de água fria. Na verdade, com o calor, a água rigorosamente não era fria. Então fui surpreendido, naquela terça-feira à tardinha, com a informação da simpática proprietária, que me lembrava a imagem da minha avó materna, de que não havia água na cidade.

Diante do hotel e à margem do Rio Vermelho, que corta a cidade, havia um posto de gasolina onde davam banho à força em um morador de rua, assim que as cascas de sujeira tomavam conta da sua pele. Segundo fui informado, o homem tinha de ser agarrado por outros dois, para que pudesse passar pela ducha de lavar carros. Tive vontade de ir lá pedir que me fizessem também tal favor. Mas, pombas!, não havia água na cidade inteira! Me atirar no rio estava fora de cogitação: sou inapto para água corrente ou semovente desde que nasci. Contudo eu não poderia continuar a viver em paz, dormir com certo conforto, voltar à aula no dia seguinte, sem um banho pelo menos razoável. E, após o jantar, a neta da proprietária, muito interessada em novidades, gostava de conversar com o professor da cidade grande. E eu não poderia estar em estado deplorável diante daquela adolescente curiosa.

Não tive saída! Fui até a pequena mercearia ao lado do hotel e comprei várias garrafas de um litro e meio de água mineral. A dona do hotel riu da minha iniciativa. Mas tomei um revigorante banho a cavalo, como dizemos na minha terra, de água mineral das profundezas das terras goianas, e pude me apresentar limpinho para o jantar daquela noite.

No dia seguinte, descobri que corria à boca pequena entre os moradores das imediações que ali, no Grande Hotel, se hospedava um professor que tomava banhos com água mineral.

A maledicência humana corre veloz!

Xixá (foto colhida na Internet).
Fruto do xixá.

TAMBÉM TENHO O MEU FOLCLORE POLÍTICO

O cara era meu conterrâneo, mas eu não o conhecia, o que só ocorreu em Lisboa, em 2003. Fui encontrá-lo, com a Jane e mais o casal que viajava conosco, em sua cervejaria no Cais Sodré, um belo espaço de gastronomia e entretenimento à margem do Rio Tejo.

Dentre os muitos assuntos que rolaram durante o tempo em que ele permaneceu conosco, o relativo à explicação de como fora parar na cidade ficou até hoje em minha memória, por seu caráter inusitado e mesmo hilariante.

Ele é arquiteto de formação e recebeu convite do então indicado ao cargo de embaixador brasileiro em Portugal, Itamar Franco, para que realizasse algumas obras na residência oficial em Lisboa. Era o ano de 1995.

RO – vou apenas indicar as iniciais do seu nome – viajou então para a capital portuguesa, a fim de atender nosso representante diplomático na Terrinha. Em lá chegando, descobriu que o trabalho consistia na construção de um galinheiro, para que nosso novel embaixador pudesse manter seu arraigado hábito mineiro de comer galinha ao molho pardo, pelo menos uma vez por semana, sem o desconforto de sair procurando galináceos em abatedouros lisboetas. Obviamente que um galinheiro de embaixada não poderia ser feito por qualquer mestre de obra canhestro. Requeria a ciência e a arte de arquiteto diplomado por universidade nacional.

E foi o primeiro galinheiro que RO construiu em sua vida. Até o instante em que ele nos contava a história, entre um trago e outro de chope, acolitado por tira-gostos, tudo por conta da casa, como manda o manual do bem receber visitas inesperadas, RO não tinha feito nenhum outro. Mas, com o prestígio do trabalho realizado na casa do novo embaixador, começaram a pipocar requisições para outros tantos trabalhos em imóveis de brasileiros e de lusitanos na cidade. Tanto é que nunca mais voltou ao Brasil. Por lá ficou, casou e tinha então uma filhinha recém-nascida, motivo que o fez sair um pouco mais cedo, deixando-nos a dolorosa tarefa de secar canecos de chope e dar fim a uma sequência de petiscos, tudo por conta da casa e da boa amizade.

E, como a prever já outro desafio em sua vida de arquiteto, RO nos confidenciou, ao sair, que o diplomata indicado naquele mesmo ano de 2003 para Portugal mandou convocá-lo à embaixada, pois tinha certa obra a lhe encomendar. Era o ex-deputado cearense Paes de Andrade, figura folclórica no cenário político brasileiro, por ter, como presidente da Câmara Federal e em substituição ao presidente da república da ocasião, viajado no avião presidencial até Mombaça, sua terrinha natal, a mostrar a que altura chegara seu filho importante.

RO nos disse, então, que temia ser desafiado a construir um capril, para que o novo embaixador pudesse criar cabras que lhe dessem suculentas e olorosas buchadas de bode.

Fomos embora da cidade no dia seguinte, e nunca soube do desfecho daquele convite que meu conterrâneo arquiteto recebeu de Sua Excelência, o novo Embaixador do Brasil em Portugal.

Vai dar bode! (foto do autor),

SOBRE COMER

Dia desses, o amigo Marcelino Medeiros compartilhou no Facebook alguns pensamentos rabínicos muito pertinentes. Um deles me chamou a atenção. É este:

                “Aquele que come sozinho morre sozinho.”

O pensamento é também a tentativa de um ensinamento, porque porta um conceito moral, capaz de melhorar a vida dos que o leem, caso queiram aplicar seu ensinamento: melhor é ter amigos e familiares à volta do que viver e morrer só.

Contudo o que me despertou o desejo de escrever este texto é um sentido escondido dentro da própria frase que escapa às pessoas que não passaram pelo curso de Letras, não estudaram a tal Etimologia, que é a parte dos estudos da língua voltada para a origem das palavras, e que vai justificar muito bem o sentido primordial da sentença.

Repare bem o meu leitor.

A nossa bela língua portuguesa é uma evolução natural do chamado latim vulgar, isto é, o latim popular, falado pelas tropas romanas que, por volta do século I da nossa era, após vencerem os lusitanos de Viriato e Sertório, se estabeleceram no extremo oeste da Península Ibérica, onde está Portugal. Como parte de sua política expansionista, Roma exigia que os povos dominados falassem sua língua, o latim.

O processo evolutivo do latim ao português levou séculos, até que aquela língua falada na região estivesse tão distinta da língua-mãe, que levasse ao surgimento de uma nova língua – o galaico-português e, posteriormente, o português arcaico –, sem que houvesse solução de continuidade no uso da língua, porém já revelando estrutura gramatical e vocabular distinta do latim.

O verbo comer atual, moderno, passou por todo esse período evolutivo, até chegar a este jeitão reconhecido hoje por qualquer falante. Mas guarda em sua trajetória uma história interessante.

Em latim clássico, forma da linguagem que os soldados naturalmente não usavam, comer era edere (com a sílaba forte no primeiro /e/). A forma é composta de um radical ed-, que guarda o sentido básico – “ingerir alimento, alimentar-se” –, seguido da vogal identificadora da segunda conjugação, a famosa vogal temática, -e-,  e terminando pela desinência de infinitivo –re.

Aqui é interessante observar que a forma latina tem o radical bem próximo da forma inglesa: eat. Ambas as línguas vieram de um tronco comum a que os estudiosos dão o nome de indoeuropeu, a língua-mãe da maioria das línguas europeias e de outras tantas da Ásia. Também em sueco, outra língua-irmã, o termo é äta, em que a primeira vogal tem do som do /e/ aberto.

Como o romano, diferente de outros povos, entendesse que o ato de se alimentar não era um ato isolado, individual, mas, sobretudo, um ato social, em que se pressupõe a companhia de outros, isto se refletiu na língua, que acrescentou à forma edere o prefixo indicativo de companha: cum-. Desta maneira, a forma que chegou até à Península Ibérica trazida pelos legionários romanos foi cumedere – “ingerir alimento em companhia de outro”.

A partir daí é que se processa a gradual mudança evolutiva da forma latina até chegar ao que temos hoje.

Dois fenômenos de pronúncia foram sistemáticos. As consoantes sonoras entre vogais (no caso do verbo, o /d/) desapareceram, o mesmo ocorrendo com a vogal final do infinitivo. Num primeiro instante – e isso tem comprovação escrita –, cumedere passou a cumeer. Em seguida, comeer (o /u/ inicial, por ser breve, passou a /o/ fechado em português) e, finalmente, comer (com a crase entre os dois /e/), dando a forma atual.

Embora o radical da palavra tenha desaparecido, aquilo que era o prefixo cum- se manteve e assumiu o valor do sentido da palavra. Passou a ser o radical em português.

Assim é fácil perceber que o ato de comer, por tudo isso, representa uma atividade a que nós, falantes de português, atribuímos um valor social, de confraternização e compartilhamento. Nossos alimentos mais emblemáticos refletem isso: feijoada, bacalhoada, cozido, moqueca, dentre os mais famosos.

Por isso é que me parece bem fundamentada a frase inicial: Aquele que come sozinho morre sozinho.

Até a próxima feijoada!

Conheça a feijoada do restaurante O Jardineiro
Imagem em clubegazetadopovo.com.br.

DO PRINCÍPIO AO FIM

No princípio, bem na entrada da vila, está o Morro do Marta. Um homem de sobrenome Marta, há muitos anos, morou lá e acabou identificando o lugar. Hoje os mais novos não sabem disso e o chamam de Morro do Mato. O epônimo acabou se perdendo.

No meio da praça em frente à capela, o descampado. Sem capim, sem mato, sem bancos, sem canteiros. A praça era como um terreno baldio nu. Era onde as crianças aprendiam a andar de bicicleta. Seu nome, então, era Praça do Sabiá, apelido do fundador da vila.

Na beirada do valão Liberdade, os moleques improvisaram uma rampa de salto. Pulava um, pulava outro, e outro mais. Como se fosse uma ingênua olímpiada infantil.

Atrás do muro do campo do Liberdade, ficava o espaço proibido do gramado, onde o time da vila disputava seus jogos do campeonato. Nos momentos sem uso, os moleques o invadiam sorrateiramente, através do muro, e disputavam partidas inolvidáveis.

À frente o grupo escolar, estava a casa da minha avó. Todos os dias ia lá, pegar os pequenos latões de alumínio e me dirigir ao curral do meu tio-avô, irmão dela, pegar o leite que ele nos dava. Quase sempre, quando ele lá estava, eu tomava uma caneca de leite quentinho com açúcar, cheio de espuma e saído diretamente das tetas da vaca.

Acima das nossas cabeças, revoavam as andorinhas nos fins de tarde, antes de procurar abrigo no forro da capela. Chilreavam tanto, que pareciam alegres como gente. E faziam com que os moleques também sonhassem em poder voar um dia.

Abaixo da terra, a sete palmos, no cemitério da vila, enterram-se sonhos e esperanças. Mas nunca há choro desesperado dos que ficam. No interior, se aprende que a morte é quase igual à vida. Apenas um pouquinho mais dolorida.

Do lado de fora, quem passasse pelas ruas de paralelepípedo imaginaria, ao ver as casas sossegadas de janelas abertas, as mulheres cozinhando, os meninos se aprontando para a escola, os maridos coçando o bigode à espera do almoço.

Dentro das casas, nunca havia dramas irresolvíveis, nem tragédias anunciadas. Vivia-se a pacífica vida do interior, sem muitas novidades, mas também sem sobressaltos. O desespero do progresso sempre lá chegou de mansinho, sem bulício.

Na subida do morro da escola, ficava o pau-d’alho frondoso, ao lado de uma serraria a céu aberto, com um balanço – que então chamávamos balango – dependurado de um galho alto por cordas de juta. Vez e outra um moleque se despencava dele.

Na descida do morro do cemitério, chega-se à Coreia, uma espécie de bairro da vila pequenina. Em minha cabeça de menino, havia mais distância entre a Coreia e a Rua, como chamávamos a vila, do que os passos que a distavam geograficamente.

No fim do dia, a iluminação pública começava a alumiar as ruas com lâmpadas de amarelada fraqueza, quase tomates de vez. Que apenas não deixavam as visagens noturnas do entorno assombrar nossa vida singela.

Revoada das andorinhas faz festa no céu de Teresina

Imagem colhida na Internet (meionorte.com).

MARIA FALA (Histórias de avós e neta)

Maria fez ligeiros quatro anos este mês, mas fala como se tivesse bem mais. Embora seja Cebolinha total, em relação ao chamado erre duro – de caro, barata, prata, que ela diz calo, balata, plata – consegue falar com fidelidade todos os demais fonemas e capricha nos plurais e nas concordâncias, no uso do subjuntivo e do futuro do pretérito, que até espanta os adultos. E ainda fez comentário desairoso sobre a personagem de Maurício de Souza:

– O Cebolinha não sabe falar o erre!

Evidentemente que há aí o estímulo das mídias modernas, mas, quero crer, muito também de uma habilidade inata, daquele tipo que faz uma pessoa ter facilidade para desenhar, esculpir, cantar, dançar, por exemplo. Pois Maria tem uma habilidade danada para falar. E como fala!

Dia desses fomos apanhá-la para passar uns dias conosco. Seus irmãos mais velhos vieram juntos. O encontro com o pai, que os trazia, se deu no estacionamento do aeroporto Santos Dumont. Já de volta para casa, ao passarmos sobre a ponte Rio-Niterói, ela começou com um assunto que a preocupava então: queria conhecer o mar aberto. E observou que a baía sobre que trafegávamos não era mar aberto. E quisemos saber o porquê desse interesse dela por esse mar aberto. Então ela explicou que era por causa da Moana, que desobedeceu sua avó e foi para o mar aberto. Assim ela queria saber onde era esse tal mar.

Aqui cabe uma digressão para os que não estão atualizados sobre a indigitada Moana. Moana é a personagem de uma bela animação cinematográfica de 2016 – Moana – um mar de aventuras. Ela é uma menina maori, filha do chefe da tribo, que vê como missão salvar seu povo de uma catástrofe natural. O desenho é plasticamente muito bonito e a mensagem, altamente positiva.

Para atender sua curiosidade, numa tarde, levamos Maria até Piratininga, para que ela visse o mar aberto. Em lá chegando, a imaginação da pequena voou de passarinho, e ela conseguiu instalar sua heroína numa das ilhas próximas e dali fazê-la partir na jornada pelo oceano afora, com todas as peripécias, como no roteiro do filme.

Jane, que não vira o filme (Eu levei o Francisco ao cinema e sabia do que se tratava.), quis saber da netinha a razão que fez com que Moana se lançasse ao mar:

– Maria, o que a Moana foi fazer?

– Óbvio! Foi pla morrer!

Claro que no filme a personagem não morre, mas na cabeça dela, tendo desobedecido a avó, a princesa estaria correndo sérios riscos e procurando a morte no mar aberto.

Na volta para casa, assunto puxa assunto, Jane referiu uma história do pai da miúda quando também pequeno:

– Maria, uma vez o seu pai, quando era pequeno, se perdeu na praia. A vovó ficou desesperada, a praia estava cheia, e eu saí gritando por ele: Pedro! Pedro!

Maria, muito solidária nessas situações, disse para a avó:

– Vovó, ela só me chamar, que eu glitalia meu glito plóplio: PAPAI!

Na noite da véspera da volta à sua casa, eu e ela estávamos deitados, já preparando a hora de a pequena dormir. Contei histórias, cantei antigas canções suaves, mas ela dizia que estava sem sono. Então ela propôs brincar de fazer perguntas. Quem acertasse, poderia fazer duas perguntas seguidas. A brincadeira começou: eu pergunto, ela responde; ela pergunta, eu respondo. Instantes depois, era a minha vez. Como levei pequeno tempo a imaginar pergunta mais complicada para lhe fazer, ela dá tapinhas no meu ombro e diz, em forma de desafio:

– E aí, parceilão?!

Em seguida chega a avó e propõe que ela durma conosco, no meio da cama. A princípio ela aceita a ideia, mas um pouco depois diz para a avó:

– Vovó, pensei bem. Eu não falei com a Lela (a irmã) e acho que ela não vai gostar. Eu vou pla lá.

E foi para o outro quarto, dividir a cama com a irmã adolescente, como vinha fazendo.

Para não me alongar e ser taxado de avô babão, vai a última.

Maria olhava a decoração sobre o rack da sala e, observando o conjunto que aparece na ilustração deste texto, pergunta à avó:

– É sua, vovó, essa família indo embola?

Fecha o pano!

Foto do autor.

UM CHOCOLATE QUENTE NA LEITERIA

Era um sábado à noite. Fazia certo frio na Bom Jesus do Itabapoana do início dos anos sessenta do século passado.

Andorinha, Zé Fábio e eu fomos até a Leiteria Bom Jesus, junto à Praça Governador Portela, beber um chocolate quente. Cornélio, o cozinheiro da Leiteria, era famoso por fazer coisas gostosas, apesar de alguns detratores reclamarem da higiene da manipulação, por conta de uma sinusite renitente que o perseguia.

Sentamos a uma mesa e logo fizemos o pedido. Em seguida, chega nosso contemporâneo Índio, com alguns amigos, e todos se sentam próximos. E todos, lá também, solicitaram o mesmo, famoso e denso chocolate quente.

Por essa época, nós três trabalhávamos nas oficinas gráficas do jornal O Norte Fluminense, enquanto o Índio era um dos gráficos do jornal A Voz do Povo. Por conta disso, havia velada ciumeira entre uns e outros, sem, contudo, declaração de animosidade.

Daí a pouco Cornélio traz os canecos com a bebida, e Andorinha, sempre muito sacana, combinou com ele de aplicar uma peça no Índio. Ia reclamar que o chocolate estava frio, assim que ele estivesse trazendo o pedido do Índio.

Cornélio, que também gostava de uma brincadeira sem graça, esquentou o mais que pode o pedido do Índio e o trouxe, no justo momento em que Andorinha levanta a voz:

– Pô, Cornélio! Esse chocolate está frio. Você nem esquentou, caramba!

De imediato, Índio pegou na alça da caneca e sorveu um gole generoso daquele suposto líquido apenas morno. E, no que o pôs na boca, devolveu de imediato, fazendo uma sujeira sobre a mesa.

E rimos às bandeiras despregadas, conforme expressão que ainda tinha certa circulação por aquela época.

E Cornélio ainda se aproveitou para dizer que aquilo que se via à tona da caneca não era nata, mas sim o couro do céu da boca do Índio.

5 receitas para te transformares no mestre do chocolate quente ...

Imagem em fnac.pt.

DE COMPROMISSOS E LEITURAS

É sempre bom ainda ter tempo de cumprir seus compromissos. É o que fiz agora. E com que prazer!

Justifico-me.

Em junho do ano passado, adquiri pelo comércio eletrônico o livro Crônicas – Cotidianas, humorísticas e fantásticas, de H. Francisconi, publicado pela editora Viseu.

À época, tinha iniciado a leitura de um outro livro, um calhamaço de mais de novecentas páginas, e resolvi, na ordenação de leituras que às vezes faço, deixar a leitura das crônicas de Francisconi para depois.

Após alguns dias que me chegara o livro, por via postal, recebi de presente, autografado pelo autor, outro exemplar. Não disse a ele que já o tinha, pois não poderia prescindir de um com a dedicatória a que fazem jus os amigos dos escritores. Pois H. Francisconi, sobre ser autor de vários livros, foi meu aluno na faculdade e, via de consequência, tornou-se meu amigo. O outro volume, pensei logo, daria para minha mãe, também leitora atenta e interessada.

Ocorreu, no entanto, que, durante o tempo em que decorria a leitura do calhamaço, fizemos – minha mulher e eu – um novo arranjo num dos quartos do apartamento, justamente onde fica a minha coleção de livros. Tiramos tudo de dentro dos velhos armários, para receber os móveis novos; voltamos a colocar tudo nos lugares, já distintos dos antigos; e o livro do meu amigo se perdeu na confusa arrumação de agora.

Embora já o tivesse procurado por vários lugares, não logrei encontrá-lo, o que só ocorreu agora, por conta da quarentena a que fomos impostos pela pandemia desse maldito Covid-19, de tão malfadada existência.

Toda essa introdução é muito mais para me justificar com o amigo H. Francisconi, do que para informar ao caro leitor acerca da minha experiência de leitor com o que lá se contém. E é o que passo a fazer.

Francisconi, não por ter sido meu aluno, longe disso, escreve bem à beça, para ficar numa expressão muito ao gosto do brasileiro, sem os exageros a que se pode chegar com outra expressão. Ele tem o domínio da língua, de seus recursos estilísticos e da fabulação que todo ficcionista deve possuir.

No livro, os contos estão divididos nos três tons destacados no título: cotidianos, humorísticos e fantásticos. E não há, em nenhum deles, o menor resquício de descuido na abordagem do tema.

Francisconi sabe lidar com a língua; sabe ser correto com o idioma e dele tirar o frescor da frase, a inteligência da argumentação e o inusitado das imagens. Eu diria, para ficar no plano descontraído, que ele sabe brincar com as palavras e tira delas o maior proveito possível na e para a intenção do seu texto.

Se, em algumas frases, brinca com as aliterações e os trocadilhos, em outras, utiliza de sugestões históricas implícitas no tema que desenvolve, como a puxar do leitor a memória de coisas vistas e sabidas anteriormente.

E pode ser tanto lírico, como satírico e delirante, como sugerem os vocábulos que servem de título de suas crônicas. Mas, em qualquer tom, seu texto dá um prazer danado – olhem aqui outra expressão doméstica – de ser lido.

E tem, como fabulador, a capacidade de penetrar no outro, de ter sua visão e seu sentimento. Passeia entre o eu do narrador e o da personagem com uma sem-cerimônia criativa. E isto me chamou bastante a atenção. E disfarça, com a astúcia do escritor, seu sentimento de avô em textos sensíveis, criados por e para seu netinho.

No caso de suas crônicas fantásticas, inclusive, se permite passear pelo tempo, flagrando momentos não registrados pela história oficial, para criar uma narrativa irônica, humorística e sensível. Como Dante, chega até a ir ao inferno e trocar uns dedos de prosa com o Decaído.

Felizmente, sob esse aspecto, a quarentena produziu algo bom: permitiu empreender uma busca mais detalhada, que me fez encontrar o livro e ter o prazer de o ler. De cabo a rabo, de enfiada. Como também se diz popularmente.

Ave, H. Francisco!

—–

Francisconi, H. Crônicas – Cotidianas, humorísticas, fantásticas. Maringá, Ed. Viseu, 2018. 80p.

FIM DO MUNDO

Estou com certa nostalgia daqueles fins de mundo, anunciados periodicamente alguns anos atrás, por um sem-número de malucos. Ficava contando com eles, para ver o fim de boletos e impostos, taxas e governos, deputados e senadores, esquerda e direita, intolerâncias e tolerâncias.

Nem mesmo o meteoro desgovernado, anunciado recentemente pela NASA, de credibilidade científica até então intacta para mim, cumpriu a previsão de passagem triscante com a Terra, que se daria entre o Natal de 2019 e o Dia de Reis de 2020. Foi um fiasco completo, de nem ser noticiado. Passou batido por aqui, de não deixar nem uma poeirinha tóxica, nem uma pequena catástrofe localizada. Nada que se pudesse comparar àquela outra, de alguns milênios atrás, que acabou com os dinossauros e seus companheiros de fauna e flora.

Aí fico nostálgico de sobressaltos e medos. Nunca fui testemunha de uma catástrofe natural de grandes proporções. Só mesmo a nossa política me dá certa sensação dela. Parece que este mundo não se irá acabar mesmo. Perco até a esperança de um futuro zero-gente, zero-natureza, como diz meu netinho Francisco.

Que pena que o mundo não se tenha acabado! Tinha tantos planos por não realizar!

 

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HISTORINHAS RÁPIDAS XII

HISTORINHAS COM DENDÊ

23. CARTÃO DE VISTA

Chegamos ao aeroporto de Salvador no domingo, por volta das 11h30. Pegamos um táxi até o hotel, onde deixaríamos as malas, para depois nos encaminhar ao hospital público do estado.

Durante a viagem, comentamos o motivo da nossa vinda à cidade com a simpática motorista do táxi, a quem perguntamos se o hospital é longe do hotel. Ela disse que não muito distante.

Chegamos ao hotel, e ela gentilmente se prontificou a aguardar que fizéssemos o check-in, a fim de nos levar até o hospital. Agradeci. Jane e eu nos dirigimos à recepção, onde fomos informados de que o apartamento ainda não estava liberado.

Voltei ao táxi e disse à motorista que iria demorar, que ela estaria livre.

Ela então, baianamente, falou:

– Trinta ou quarenta minutos? Tem problema não. Tou com pressa não.

Fomos com ela até o hospital.

Ah! E não demoramos nem dez minutos.

 

24. VOLTANDO DE SALVADOR

Fizemos o check-in de embarque no portão 16 do aeroporto de Salvador, fila preferencial, e aguardamos por um instante para nos dirigir ao avião.

Assim que a fila começou a andar, a mulher que estava atrás de mim começou a orar em voz alta, pedindo a proteção do sangue de Jesus para o bom encaminhamento da viagem, e repetia tanto a invocação ao sangue de Jesus, durante o trajeto e até entrar na aeronave, que, confesso, bateu um certo desconforto (medo?) de que aquele pássaro de metal não fosse se dar bem no ar.

A proteção dos céus pode até fazer bem, mas pedida assim com tanta insistência e certo desespero, provoca a quase certeza de que a coisa não sairá bem.

Mas chegamos sãos e salvos.

 

25. É BALALAU NA DIREÇÃO

A excursão estava saindo de Salvador, de volta a Campos dos Goytacazes, de onde partira. Na condução do veículo, dois motoristas que se revezavam. Um deles é o José Manuel, meu primo, que tem um apelido de infância só conhecido, até agora, dos familiares: Balalau.

Entre todos os passageiros adultos, estava o pequeno Gustavo, quatro anos, acompanhado de pais e avós. Falante, comunicativo e simpático, fez camaradagem com todos, inclusive com meu primo, cujo apelido ficou conhecendo.

Já sua avó, além de outras atividades, é também pastora evangélica e começou a orar, assim quer o ônibus se pôs em movimento:

– Amigos, vamos orar para que a viagem seja tranquila. Invoco o nome do Senhor Jesus para nos proteger. Colocamos em vossas mãos nossa vida. Aleluia! Senhor Jesus, guie nosso ônibus em segurança até nossa cidade.

Imediatamente Gustavo interveio na oração da avó:

– Vó, quem vai dirigir o ônibus é o Balalau!

 

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