O POLITICAMENTE CORRETO, NO CAMINHO ERRADO

A preocupação com o politicamente correto, com a verdade histórica, doa a quem doer, custe o que custar, começou a fazer vítimas de tenra idade.

Pois vejam este fato.

Meu sobrinho-neto Davi, de sete anos, ia para Bom Jesus, a partir de Muriaé, onde mora, com minhas irmãs e as filhas de uma delas. Lá pelas tantas da viagem, Davi pergunta para uma de minhas irmãs:

– Tia Beth, a senhora viveu na ditadura?

Minha irmã respondeu que sim, o que o fez emendar com esta outra indagação:

– E a senhora apanhou?

Então minha irmã explicou para ele que não, que nem todos os que viveram durante a ditadura apanharam.

Davi estava assombrado pelo filme que fora mostrado na escola para ele e seus coleguinhas de turma: Zuzu Angel, que ele pronuncia colocando como tônica a última sílaba de Angel.

Diante do assombro das quatro mulheres adultas que estavam no carro, ele então explicou que a professora lhes falou sobre a ditadura e, como ilustração, projetou o drama da mãe do militante Stuart Angel, morto em dependências militares.

Ora, amigos leitores, quer-me parecer totalmente descabido submeter crianças de sete anos a um filme com a dramaticidade e a densidade emocional como este de Sérgio Rezende. O que elas hão de entender a mais da história do país, que naturalmente é o objetivo da disciplina, assistindo a um filme que não foi feito para sua faixa etária?

Guardadas as devidas proporções, é como sugerir a leitura de Dom Casmurro, de Machado de Assis, um romance psicologicamente denso, ou Cemitério de elefantes, de Dalton Trevisan, um texto forte do ponto de vista temático e de construção frasal complexa, para este mesmo tipo de público.

Minha outra irmã, Cristina, então fez um teste para ver até onde ia a coisa:

– Davi, quem descobriu o Brasil?

E ele fez uma cara estranha, franzindo a testa em sinal de desconhecimento total da questão:

– Não sei, tia!

Qual é o critério que faz com que se ensine sobre a ditadura militar e não sobre o descobrimento para crianças desta idade? E que, diabos, faz com que se projete um filme assim para esses meninos e essas meninas?

É óbvio que à escola cabe informar seus clientes sobre os conteúdos programáticos. No entanto tais conteúdos devem estar adequados à maturidade intelectual e emocional de cada faixa etária, a fim de que a apreensão se dê de forma consistente, em crescente complexidade.

Davi tem apenas sete anos. O tempo e o amadurecimento farão dele, certamente, um cidadão consciente e responsável, até porque seus pais também o são. Mas é preciso que a escola tenha o discernimento de mostrar a ele e a seus coleguinhas a realidade e a história do país com adequação, sem atropelar o tempo certo e sua maturidade intelectual e emocional.

Pois ele estava mais apavorado do que informado.

Cartaz do filme de Sérgio Rezende (em meucinemabrasileiro.com).

A USP EM PÉ DE GUERRA

É engraçado como, com os desdobramentos da crise da USP, mais nos parece que os universitários estão vazios de razão.

Estava marcada, para a última quinta feira, passeata pela Avenida Paulista, com concentração em frente ao MASP, onde eles pretendiam encenar uma aula de democracia, como resposta debochada ao governador Geraldo Alckmin.

Além disso, exigem a renúncia do reitor, a revogação do convênio com a PM e o cancelamento dos processos contra setenta e três alunos por depredação do patrimônio público, fato ocorrido durante a ocupação da Reitoria, há cerca de um mês.

O reitor foi eleito e nomeado pelo governador do estado segundo regras previamente estabelecidas. Pode-se até batalhar por mudanças nelas. Ou mesmo exigir a renúncia, se a autoridade cometer falta grave no exercício de sua função. E este não é o caso. Como ocorreu, por exemplo, na Universidade Federal de Rondônia.

Quanto à aula, penso que deve ter sido uma pantomima. Democracia não se ensina em uma aula. Penso também que autoridades não são seus melhores professores. Bem como os que a elas se opõem. Talvez seja justamente do embate diuturno entre as duas partes (ou mais) que se aprimore a democracia.

Acerca da revogação do convênio com a PM paulista, cuja presença no campus foi reclamada anteriormente pelos próprios alunos, em vista da ocorrência de crimes violentos ali, a reivindicação cheira a permitir que aquele espaço da cidade se transforme em território livre para que eles façam o que bem entenderem. Território universitário ou não, aquele local tem de estar também submetido à legislação civil e penal que se aplica em toda a extensão do país. O campus não pode transformar-se num feudo, ou, pior, num gueto.

Sobre o cancelamento dos processos por depredação, aí a coisa é mais simples: todos são maiores de idade, responsáveis por seus atos, por cuja gravidade e consequência devem responder. Ninguém pode depredar patrimônio público. Principalmente quando dele usufrui sem paga pessoal, pois que todo contribuinte o faz por ele.

Assim, parece, aos alunos da USP restará a memória, daqui mais uns anos, de uma luta por motivos muito pouco, ou nada, nobres. O que, para o conjunto da sociedade e para a verdadeira luta por maiores liberdades públicas, não significará nenhum avanço.

ESSES ALUNOS DA USP SÃO DUCA!

Voltam novamente os alunos da USP ao noticiário, agora com a polêmica acerca do cartaz de formatura em Direito da turma 180 (Se quiser ler a notícia, veiculada no UOL de ontem, clique aqui.)

Mesmo entre os formandos houve quem não gostasse da peça publicitária de mau gosto.

Nela um jovem bem trajado, sentado numa poltrona, tem a sua frente um mendigo e atrás, uma prostituta (melhor seria dizer garota de programa, mais moderno).

Um dos membros da comissão (ou será comição) de formatura não viu nada demais no cartaz, mas disse que se decidiu pela sua não impressão (o cartaz é meramente virtual).

Ora, se um bando de formandos em Direito não consegue ter o discernimento para saber o que é de bom gosto e o que não é, o que ofende ou não ofende, o que é risível ou que não causa nenhum riso, é de se perguntar como será este advogado no exercício de sua profissão. Ou será mais um adevogado por aí?

Não sou passadista – sou apenas uma pessoa com bastante uso –, mas às vezes fico matutando sobre as atitudes que muitos dos nossos universitários têm tomado.

Com certa frequência, lemos notícias de trotes violentos, que chegam até à morte de colega. Há pouco foi a baderna no campus desta mesma USP, sobre episódio em que se envolveram três estudantes + polícia + um grupo grande de outros estudantes, em função de fumacê no local. Depois foi a greve de protesto por parte do alunado acerca do mesmo episódio.

É claro que o noticiário se faz pela exceção e não pela regra. Por isso só sabemos dos nossos universitários, quando rola algum bochicho, nem sempre bem recomendado. Bando de alunos estudando com afinco para as provas, nem pensar!

Veja o cartaz da discórdia aí. (uol.com.br).

ENCURTA O ORÇAMENTO DA CULTURA

Está em O Globo de hoje, na primeira página do segundo caderno, artigo sobre a redução do orçamento do Ministério da Cultura – MinC – para 2012, o que ocorre pelo segundo ano consecutivo – ambos no governo Dilma.

Durante o governo Lula, a Cultura teve seu orçamento sempre crescente, passando de 397 milhões, em 2003, para 2,29 bilhões, em 2010.

Ocorre que o MinC não vem aplicando integralmente o orçamento que lhe é destinado. Este ano, por exemplo, até setembro, apenas cerca de 20% foram utilizados. Nesses casos, o que faz o Executivo? Simplesmente diminui o orçamento seguinte. E isto é prática comum na gestão pública. Se um determinado órgão projeta seus gastos e solicita ao Governo a aprovação dos projetos em que eles se darão e os tem aprovados, presume-se que tal dinheiro será usado em suas ações. Se tal não se dá – e não se vem dando – o Executivo não tem por que continuar a disponibilizar aqueles valores, que não serão gastos e retornarão a seu caixa.

Fica parecendo que o órgão superestimou suas ações ou, ao contrário, foi incapaz de realizar aquilo que planejou. Em qualquer dos casos, revela-se uma administração sem a perícia necessária para gerir seus próprios destinos.

A ministra Ana de Holanda tem desentoado na condução de seu ministério, como se vê no texto da matéria. Segundo alguns, falta-lhe diálogo com a famosa sociedade civil, massa amorfa sempre referida nessas ocasiões. Mas há reclamações de pessoas ligadas à área sobre esta falta de interação.

Desta forma, o Ministério da Cultura, no próximo exercício – 2012 – não gastará 16% do que não gastou no atual. O que, convenhamos, fará pouca diferença, já que só um quinto daquilo que o MinC prometeu fazer – como sói acontecer – foi efetivamente realizado até setembro.

Ou será que todo o restante de tal dinheiro seria gasto até o Natal com peru, rabanada e as folias de reis de Miracema?

Por isso é que a Cultura voltará a encurtar!

Palhaços da folia de reis na noite de Natal em Miracema (miracema.wordpress.com).

O CASO USP

Vou-me meter num vespeiro dos brabos: o caso dos alunos da USP, em São Paulo!

Tenho acompanhado entre perplexo e triste as notícias sobre a luta travada por parte dos estudantes da USP, principalmente da chamada área de Humanas.

Para situar, lembro que, há algum tempo, após episódio de violência no campus daquela Universidade, inclusive com a morte de um estudante por assaltante, um grupo protestou por maior segurança. A direção da Universidade, então, estabeleceu convênio com a Polícia Militar de São Paulo, a fim de oferecer mais segurança a todos que por ali circulam, uma vez que a guarda de que a entidade dispõe é muito limitada em suas ações.

Pois muito bem!

Desde então as coisas vinham caminhando de modo civilizado, pacificamente, até ocorrer o episódio da prisão de três estudantes com droga (maconha).

Aí a coisa degringolou!

Parte da estudantada, no momento da prisão dos colegas, armou uma grande confusão, a fim de evitar que seus colegas fossem conduzidos à delegacia e, posteriormente, indiciados. O confronto foi violento e provocou uma onda de atitudes, que culminaram na invasão do prédio, através de ações violentas, em que muitos dos ativistas escondiam o rosto como comumente vemos no noticiário televisivo acerca da ação de marginais.

As cenas me chocaram.

Passei pelos bancos universitários entre 1968 e 1971, na graduação, período complicadíssimo para a Universidade brasileira, acuada pelos militares que tomaram o poder em 1964. Sofremos muito com a edição do famigerado AI-5, o ato de exceção em sua plenitude, que tirou as liberdades públicas, impôs um regime de desconfiança geral no país. E os estudantes, na medida do impossível, procuraram resistir a isso como se fosse possível. Era complicado enfrentar a força das armas.

Porém o que era possível e plausível era feito. Alguns acabaram por entrar na luta armada, no desespero de tentar pôr fim ao regime de exceção vigente.

E o movimento estudantil foi vigoroso por muitos anos. E também combatido pelo mesmo tempo.

Agora, vemos os estudantes se batendo contra a força policial, bradando frases parecidas com as daquele tempo, porém tendo como móvel uma liberdade que a ninguém trará benefícios: a autodeterminação universitária para compactuar com o uso e o tráfico de drogas no campus da Universidade.

E o Brasil está cheio de motivos para que os estudantes universitários, que sempre representaram a vanguarda da sociedade, direcionem a energia de suas lutas.

Vão-me acusar de conservador, velho, ultrapassado. No entanto, nada disso vai tirar a tristeza da constatação de que, agora, a luta é inglória, é vã. E, a final, vai dar em nada. Mesmo com toda a liberdade que hoje vivemos, é preciso que certos parâmetros se mantenham, sob pena de que a esculhambação geral seja a bandeira desses novos universitários.

E, penso, não foi para isso que se lutou!

ACORREGE A PRENUNÇA, BONNER!

Há algum tempo iniciei campanha quixotesca para tentar fazer com que William Bonner pronuncie certas palavras de acordo com a pessoa que ele é, de onde ele é, com a formação que ele tem, com a classe sociocultural a que pertence, na situação em que fala e, por fim, de acordo com a pronúncia padrão brasileira.

Já enviei mensagens para a Globo, para ele e Evaristo Costa, já publiquei postagem no blog, já enviei mensagem para o sítio eletrônico do Millôr, porém foi tudo em vão, como é de se esperar. Quem há de contestar o poder da Globo, até para falar bobagem ou pronunciar palavras de forma incorreta?

Algumas vezes, eles têm a humildade de usar o recurso da “falha nossa”. No caso, porém, isto nunca aconteceu.

Esta minha peroração voltou à tona porque, anteontem, durante o Jornal Nacional, Bonner se referiu ao estado natal de Fagner, Belchior e Tiririca, chamando-o de /Ciará/.

É bom deixar claro que nossa pronúncia padrão prevê a pronúncia /Ceará/, com /e/ e não com /i/. Quem pronuncia como ele o fez é o pessoal de Recife, que lá diz /Ricifi/ e /Bibiribi/.

A respeito de minha campanha anterior, digo-lhes que meu moinho de vento está na pronúncia que a Globo faz – e  isto contaminou outras emissoras – do nome do estado de Roraima. Sistematicamente dizem /Roráima/, o que na pronúncia padrão brasileira – aquela que deveria estar presente nos meios de comunicação de caráter nacional – se dá com o fechamento do /ai/ que precede a sílaba seguinte, iniciada com a nasal /m/.

Nestas situações, isto é, nestes contextos fonéticos, o brasileiro, diferentemente do lusitano, tende a fechar (ou nasalar) a vogal que precede fonema nasal: /m/, /n/ e /nh/ (grafo assim para facilitar a compreensão). Dizemos, então: /câma/, /câna/ e /arânha/. Deste modo, Roraima deve ser /Rorâima/, como, aliás, fazemos com faina, lenha, fronha. Em Portugal, por exemplo, grafa-se e diz-se António. Aqui, é Antônio, pela mesma razão.

A justificativa que já ouvi é de que, lá em Roraima, os habitantes abrem o ditongo e dizem /Roráima/. Estaríamos, deste modo, apenas pronunciando como eles o fazem. Isto, no entanto, constitui um traço regional da pronúncia, e não a pronúncia padrão. Uma comunidade de falantes não tem nenhum compromisso com a pronúncia alheia. Cada um faz a sua, de modo natural.

Assim, tal argumento não se sustenta do ponto de vista linguístico, já que, na pronúncia padrão brasileira, não dizemos /Ricifi/, /Parri/, /London/ ou /Nuiork/, para os nomes das cidades de Recife, Paris, Londres ou Nova Iorque, que é como, mais ou menos, dizem os habitantes desses lugares.

Outra pronúncia estranha que Bonner realiza é a da palavra sem-terra, composta por justaposição da preposição ao substantivo. Neste caso, a preposição tem a pronúncia de um vocábulo livre, na língua, com a ocorrência de uma semivogal /i/: /seim/. É como fazemos para bem, tem, vem, pronunciadas /beim/, /teim/, /veim/. E não como uma simples sílaba de uma palavra com sentença, onde não ocorre a ditongação da primeira e da segunda sílabas. Não dizemos /seinteinça/, mas sim /sentença/. Bonner diz /senterra/, quando a pronúncia deve ser /seimterra/, porque se trata de uma palavra composta. Pelo menos, é só ele que assim o faz. Nem mesmo sua simpática colega de noticiário e esposa, Fátima Bernardes, diz de tal forma.

A qualquer momento, posso voltar como minha lança, meu cavalo Rocinante e meu amigo Sancho Pança, para combater meus fantasmas. No entanto, como não dão jeito nem na saúde, nem na educação, dificilmente alguém há de pensar em coisas de somenos importância como o Bonner falar assim ou assado. Mas cada mania tem seu próprio doido!

Aguardem-me!

Dom Quixote e Sancho Pança, por Gustave Doré (pt.wikipedia.org).

PROPAGANDA DO MEC LIGEIRAMENTE ANALFA

Vi na noite de hoje, veiculada na tevê, propaganda do Ministério da Educação – MEC – em que a palavra campus, que identifica o espaço físico ocupado por uma universidade e é latim, aparece grafada câmpus.

Tenho a impressão de que o redator do texto é ligeiramente analfa, como dizíamos há algum tempo, pois não conheço tal grafia. E, o mais grave, a palavra não foi aportuguesada, como ocorreu com várias outras. Ainda se mantém o uso do vocábulo latino.

Curriculum vitae também é uma expressão latina de uso corrente e pode ser substituída por currículo.

Isto, porém, não ocorre com campus. E aí a propaganda dá de colocar, por exemplo, “25 câmpus novos no país”, inventando uma palavra sem flexão de plural.

Outro erro, já que o plural de campus é campi.

Será que é por aí que vai a Educação do Ministério?

Eh, Brasilzão lascado, sô!

ÉTICA NA BANGUELA

Há cerca de uns dez dias, uma mulher sem habilitação, dirigindo um veículo, atropelou e matou pessoas.

Antes, a metade da dupla Bruno e Marrone – em duplas caipiras, nunca sei quem é quem -, pilotando, também sem habilitação, precipitou um helicóptero ao solo, causando vítimas.

Mais recentemente, ocorreu a queda de helicóptero na Bahia, pilotado por pessoa sem a devida habilitação, e lá se foram sete vidas.

Neste fim de semana, em Santa Catarina, jogador do Avaí, sem habilitação e bêbado, bate com o carro que dirigia e causa a morte de três amigos.

O que é que está havendo com o brasileiro?

O que estamos pensando da vida? Estamos brincando? Estamos levando tudo na base da sacanagem? Da esbórnia?

Aonde queremos ir com um comportamento irresponsável como este? Em que tipo de gente nos estamos transformando?

Na verdade, amigos, tudo isso, e mais um sem número de ações criminosas, ilegais, imorais, indecentes, espúrias, reprováveis, suspeitas, malandras, espertas, lesivas, envolvendo homens públicos, empresários, servidores públicos, homens da lei, gente de todas as classes sociais e econômicas, mostram a face monstruosa de um povo sem ética, sem responsabilidade social, sem respeito à lei.

O desvio já se está tornando a norma; a exceção, a regra. E aí está o perigo! Tudo, repetindo-se como se tem repetido, banaliza e erro, vulgariza o crime, que passam a ser aceitos como uma fatalidade do fato de ser brasileiro.

Espero que eu esteja completamente errado nesta análise.

Tenho dois netinhos miúdos e temo pelo país que podemos deixar para eles e para os milhões de brasileirinhos que, neste momento, confiam cegamente em nós, sentindo no fundo de seus coraçõezinhos inocentes que somos confiáveis.

E nós não podemos decepcioná-los.

Imagem em bananjack.com.br.

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Em tempo: Ocorreu-me agora uma dúvida cruel: Será que todos os nossos dirigentes têm habilitação para nos dirigir?

DISNEY ON ICE E O MINISTÉRIO DA CULTURA

 

Imagem em discaslegais.net.

Vi na tevê propaganda do Disney On Ice, que está no Brasil.

Até aí, nada de mais, nem de menos. É assim mesmo. Temos de nos conformar. Somos um país aberto – talvez até um tanto escancarado -, participamos de um mundo globalizado e a Internet está aí para não deixar dúvidas de que viramos a tal “aldeia global”.

Mas o Governo brasileiro, através do Ministério da Cultura, estar patrocinando a vinda da troupe ao país já é, como se dizia em minha terra, meio muito.

Quantas manifestações artísticas e culturais brasileiras vivem da teimosia de uns tantos entusiastas abnegados, à margem de qualquer incentivo ou de benesses oficiais? Quantas outras já estão extintas, ou em vias de desaparecimento, por não terem conseguido sobreviver num ambiente cultural que não lhes deu oportunidades a que se mantivessem? Ou não terem merecido das autoridades competentes a atenção devida?

Quantas obras relevantes do nosso patrimônio histórico e artístico estão em situação lamentável?

Quantos talentos o país perde, sem que se lhes deem oportunidades ou apoio?

E agora vem o MinC com patrocínio para Disney On Ice?

Ora, façam-me o favor!

É muito mais que meio muito. É inconcebível!

Porém não é de se estranhar. É do mesmo governo que vai adotar livro didático de língua portuguesa com orientação equivocada, quanto ao papel da Educação na formação de nossos jovens, relativamente ao nosso maior bem cultural: a língua portuguesa, o instrumento de comunicação do nosso povo*.

Vou aproveitar a oportunidade, como faço sempre, para protestar também contra a invasão de musicais americanos e americanizados em nossos palcos. Mesmo não sendo comunista de nenhuma tendência, acho musical a manifestação mais bem acabada da decadência da cultura americana. Para mim, aquilo é um lixo!

E vejam o seguinte: não sou xenófobo, homofóbico ou colérico, talvez até um pouco heteronômico, metódico ou sorumbático.

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(*A este respeito, ver a postagem “A Escola como manutenção de castas”, do dia 16/5/2011. Nosso galã Ministro da Educação, apesar de todos os protestos a respeito, teimosamente afirmou que manterá a utilização de tão nefasto livro.)

A ESCOLA COMO MANUTENÇÃO DE CASTAS

Tomei um susto com a notícia da adoção pelo Ministério de Educação e Cultura de livro didático de Língua Portuguesa que consagra como formas aceitáveis, no processo educacional, registros da chamada língua popular, em que não se manifesta o plural com o caráter redundante da forma culta da língua portuguesa.

Devo dizer que não conheço o livro e, por isso, minha opinião se baseia simplesmente nesta amostra do que pode significar todo o seu conteúdo.

Assim seriam consideradas “corretas” formas como “Os livro novo estão nas prateleira”, por exemplo. Isto com o argumento linguístico da relatividade do conceito de erro e acerto em linguagem, aliado à noção de diversidade dos usos linguísticos.

A Escola existe, em princípio e primordialmente, como espaço de promoção sociocultural do aluno. Isto significa dizer que a escola recebe seu “cliente” com a obrigação de, ao fim de determinado período, entregá-lo em estágio mais avançado do ponto de vista de suas habilidades e competências em diversos ramos do saber comum: em línguas (entendimento e expressão de textos), em matemáticas (compreensão de fenômenos ligados às quantidades naturais), em consciência, enfim, como cidadão, através do conhecimento da história e da sociedade em que se insere.

Tomar a criança com seis/sete anos e, ao cabo de um processo educacional, devolvê-lo muito próximo das competências que ele trouxe como bagagem é simplesmente estabelecer um sistema de castas, no qual os provenientes das camadas mais simples da população serão mantidos em tal condição.

Talvez seja este mesmo o objetivo de uma Escola que não tem a perspectiva da Educação como o processo de crescimento e libertação da pessoa humana, mas desgraçadamente com a produção de trabalhadores com níveis de capacidade diferenciada, destinados por ela, escola, para as diversas funções laborais.

Estaremos instituindo, via Educação, o sistema odioso de castas que prevalece, por exemplo, na Índia. E digo aqui odioso sem o mínimo pudor, por entender que o ser humano não pode estar atrelado, de forma definitiva, à sua condição de nascimento. Não nascemos para isto. Cada um de nós pode procurar o melhor caminho a trilhar e não há de ser a origem um limitador disso. E a Escola tem a obrigação de trabalhar em favor do aluno.

Deste modo, vejo na adoção totalmente equivocada de conceitos pedagógicos como este o desejo escondido de que os pobres e os oriundos das camadas culturalmente menos complexas se mantenham no lugar “que lhes é destinado”.

Aprendi, durante o curso de Letras, através da Linguística, que uma língua se manifesta em vários níveis e registros, tanto do ponto de vista social, quanto do regional ou geográfico e mesmo do pessoal. Nenhum deles pode ser tachado de errado, desde que esteja adequado ao momento em que é produzido, ao falante e ao ouvinte, os elementos básicos do processo de comunicação.

Na verdade, considera-se “erro” em língua aquilo que não é adequado a esse tripé. À Escola, no entanto, cabe o papel de habilitar o aluno a galgar a escala da maior eficiência na compreensão e na expressão em língua pátria.

O resto é perfumaria pseudoliberal. Ou será que isto é a política educacional do governo?

A Escola que assim proceder trabalhará pela manutenção do status quo, e os reflexos disto se farão notar em breve.

Imagem em eb1-figueiredo-alva-rcts.pt.