PASSANDO OS OLHOS NA MÍDIA II

1. Testes vão definir futuro de Adriano, o Imperador de si mesmo: do pezinho, do bafômetro, psicológico e de periculosidade.

2. Não demora, o DEM põe o Demóstenes para correr. Quem viver verá, embora seja difícil de se crer. Galinha de piolho contamina todo o galinheiro.

3. TAM e Gol, juntas, têm prejuízo de um bilhão de reais. Tem gol contra nos ares.

4. O STF proíbe que se dê continuidade a inquérito contra Mantega, no caso Casa da Moeda. Aquilo lá não é casa da mãe Joana, como se pensava. E o Mantega têm as costas quentes. Vai acabar derretendo.

5. Depois que um bonde de Santa Teresa tombou, em 2011, com algumas mortes, o sistema de bondes do Rio de Janeiro sofre tombamento. De novo, não!

6. Ano letivo nos EUA continua sua rotina didática: mais uma carnificina foi registrada. Desta vez, são sete mortos numa faculdade da Califórnia.

7. Na Colômbia, Farc libertam dez reféns após doze anos detidos. É que eles receberam o benefício da liberdade condicional, por bom comportamento. Se fizerem qualquer besteira capitalista, voltam em cana. Nada como o estado de direito revolucionário!

8. Deputado federal pelo PPS-RJ, Stepan Nercessian (Aliás, em quem votei nas últimas eleições! Saco!), envolvido com contraventor aquoso de Goiás se licencia. Isto vem provar que a falta de ética na política brasileira não tem preconceito ideológico: vai da esquerda à direita. Ou da direita à esquerda. Aí tanto faz! O tal contraventor é o mesmo cidadão por quem as Torres de Demóstenes ruirão.

9. Bethânia, irmã de Caê, depois de trombeteada na pretensão de angariar 1,3 milhão para seu blog de poesias, desistiu da ideia. Ia ser engraçado Bethânia arranjar tanta grana com poesia alheia. Se quiserem mandar a bufunfa para este aqui, fiquem à vontade. Depois poderão abater no imposto da renda. Forneço até recibo superfaturado.

10. Walcyr Carrasco faz novas vítimas, agora por embotamento cerebral: os contumazes espectadores de suas novelas.

FALANDO DE MUSICAIS

Ninguém é perfeito. Nem mesmo eu! Embora tenha cá minhas dúvidas. E, além de não ser perfeito – vá lá! –, também tenho minhas manias, minhas antipatias e implicâncias, como qualquer pessoa.

Algumas manias atrapalham outras pessoas; algumas, não. Atrapalham apenas a quem as tem. É possível que você possa minimizá-las ou mesmo fazê-las desaparecer, para que viva mais confortavelmente.

As antipatias são mais difíceis de ser apagadas. Sobretudo as antipatias gratuitas. Você tem uma antipatia gratuita por determinada coisa ou pessoa e é quase como ter um calo ósseo, um esporão no espírito – mesmo quem não tenha espírito, como eu –, de remoção quase impossível.

E tanto as manias, quanto as antipatias e implicâncias, têm por característica a falta de lógica. É mais ou menos como ter fé em algo. Não faz parte do departamento lógico do ser humano.

Por exemplo: tenho uma antipatia solene por musicais – filmes e peças teatrais, embora goste muito de música, de shows. Aqueles filmes em que os atores cantam, em lugar de falar, então, acho um saco. Jamais tive a mínima vontade de ver a maravilhosa Catherine Deneuve em Os guarda-chuvas do amor (1965, no original Les parapluies de Cherbourg), de Jacques Demy. Contudo, minha antipatia solene toma ares majestáticos quando se trata de filmes musicais com dança, com aqueles atores saltitando “na rua, na chuva, na fazenda”¹.

Cheguei mesmo, tempos atrás, a dizer que filmes assim são a manifestação mais bem acabada da decadência da civilização capitalista ocidental. Acho até que, na época da União Soviética, os comunistas tinham a certeza de que venceriam a Guerra Fria, porque o Ocidente era dado a essas frescuras.

Por exemplo, aquela cena do Gene Kelly dançando e cantando na chuva (no original Singin’ in the rain, 1952, de Stanley Donen e Gene Kelly), agarrando-se a postes, de guarda-chuva na mão, e rodopiando “ao longo da sarjeta, na enxurrada”², acho um horror. E é uma cena clássica. E Gene Kelly é um dos melhores no gênero.

Nunca suportei – e eis outro exemplo (Não me crucifiquem, por favor!) – A noviça rebelde (1965, no original The sound of music), de Robert Wise. Jamais vi o filme. Ou antes, jamais consegui passar das primeiras cantorias. Não sei até onde Julie Andrews rodou sua baiana naquela história. Nem quero saber!

Amor, sublime amor (1961, no original West side story), também de Robert Wise, com uma das minhas musas da juventude, Nathalie Wood (1938-1981), suportei, porque era apaixonado por ela. Mas achei um porre aquele troço!

E agora, recentemente, já passadas várias décadas na minha existência, é que fui descobrir a razão desta minha ojeriza a este tipo de arte. Que trauma desencadeou isto!

É que, quando jovem, tive o desprazer de ver Um americano em Paris (1951, no original An american in Paris), de Vincente Minelli, com a linguiça feia e presunçosa de Fred Astaire, já coroa, conquistando a deusa Leslie Caron (*1931), na flor de sua idade – e de seus lábios carnudos e de seus seios empinados e de seus tornozelos roliços e de sua beleza estonteante –, numa trama ridícula, sem a mínima verossimilhança, que é a base de qualquer obra de ficção. Sem a tal verossimilhança, não se constrói um discurso ficcional plausível.

Veja como era Leslie Caron, à época (cinemaemcena.tumbir.com).

Pois muito bem! Lá na história do filme, aquele americano bobo, feio, magro como um esqueleto e velho, conquista o amor da maravilhosa Leslie Caron, só porque sabia fazer aquele sapateado ridículo e desconchavado. Não vi o resto do filme. Saí indignado da sala, com aquela baboseira hollywoodiana, a exaltar o pretenso encanto que o american way of life despertava numa Europa recém-destroçada pela guerra.

Veja agora Frede Astaire, também à época (cemiteriosfamosos.blogspot.com).

Aquilo foi demais para mim.

A partir de então tenho a maior rejeição a musicais.

E, aproveitando minha bílis ativa, quero dizer também que acho um desfavor à cultura brasileira essa enxurrada de musicais estrangeiros que para cá trazem Cláudio Botelho e Charles Moeller (não vou usar o trema no nome dele, pois sou proibido de usá-lo em linguiça).

Se gostam tanto assim de musicais, que incentivem nossos autores a fazerem musicais. Talvez até passe a gostar deles.

Aliás, obrigado por minha mulher a ir ver Emilinha & Marlene, no Teatro Maison de France, embora não fosse admirador de nenhuma das duas, devo dar o braço a torcer: este musical é muito interessante.

Vejam como implicância é uma coisa sem a mínima lógica!

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¹ Direitos autorais intelectuais depositados em favor de Hyldon.
² Do soneto Barcos de papel, de Guilherme de Almeida.

CERVEJA NA SERRA DE TERESÓPOLIS

Subimos a serra de Teresópolis, eu e Jane, na sexta-feira para comemorar o aniversário da amiga Rosa Helena, namorida do meu amigo de fé irmão camarada Rogério Barbosa.

A esbórnia estava marcada para o sábado, mas resolvemos antecipar, por conta de reportagem da revista Viagem do jornal O Globo, de alguns dias atrás, sobre um novo espaço na cidade para os amantes da cerveja.

Alertado por Rosa, fiz reserva, antecipadamente, para mim e minha mulher para a sexta-feira, às 19 horas.

Porém não estou aqui para falar de nossas peripécias pela serra teresopolitana. Estou para recomendar a ida a quem gosta de cerveja, chope e demais derivados para uma visita a este novo espaço, inaugurado em novembro do ano passado: a Vila St. Gallen, do grupo da Cervejaria Terezopópolis.

O complexo, formado por duas casas e mais alguns espaços menores, está localizado na Rua Augusto do Amaral Peixoto, 166, no Bairro Alto.

Para os apreciadores da cerveja há dois espaços principais: o Bierfest, coberto, e o Biergarten, aberto, com proteção de guarda-sóis junto às mesas.

No conjunto, há uma pequena capela com bancos, mas sem imagens, onde se pode sentar e ouvir canto gregoriano saindo dos alto-falantes do teto. Há loja para venda de vários tipos de canecas e taças e também de cervejas da Terezópolis. Um café, uma boutique de roupas femininas e um quiosque da Fazenda Genève, com queijos, pastas, conservas, doces, sucos e outras guloseimas.

O acesso a qualquer dos dois espaços é controlado por recepcionista, que guia os clientes até a mesa. Os garçons são atenciosos e gentis e o atendimento é rápido.

Há dois cardápios com apresentação bem diferente: o de bebidas – chopes, cervejas (algumas importadas) e alguns tipos de drinques – é em forma de caneca de chope; o de comidinhas variadas é em forma de pato, ambos em tamanho grande. É um tanto engraçado consultar as ofertas, manipulando aqueles objetos grandes demais para a finalidade.

Bota de chope de um litro.

Atacamos, inicialmente, com uma ripa de degustação, composta por quatro copos de 150ml de diferentes tipos de chope: gold (tradicional), weissbier (de trigo), stout (escuro e encorpado) e um sazonal,um golden ale (de cor âmbar e sabor intenso). A garçonete que traz o pedido explica cada um deles, ordenados pelo teor alcoólico. Minha mulher e eu os experimentamos alternadamente para sentir os distintos sabores, odores e intensidades. Para acompanhar, pedimos um prato de minissalsichas cozidas, com dois tipos de mostarda.

A partir daí, Jane ficou com o tradicional, que vem em várias medidas e tem menor teor alcoólico, e eu recomecei com o stout encorpado e com ligeiro sabor de café e chocolate. Passei depois para um golden ale, ligeiramente frutado, e fechei com o chope de trigo. Esta fase foi acompanhada por macio filé aperitivo acebolado e farofinha de bacon.

No dia seguinte, após a chegada dos demais convivas para o aniversário de Rosa, comemorado com uma pantagruélica refeição no Restaurante Dona Irene (depois falo alguma coisa sobre), eu e minha mulher demos as boas referências do local: muito bonito, bem instalado, arquitetura interessante, atendimento de primeira. Resumimos dizendo que não parecia Brasil, não fosse a cortesia dos garçons e a nossa sonora língua portuguesa. Um lugar de cair o queixo, como se diz comumente.

E partimos todos de volta no sábado à noite, depois de um bom descanso pós-almoço, para uma reinação a oito, cada um com seu interesse, seu paladar, sua preferência. Acomodamo-nos, desta vez, no Biergarten, porque não conseguimos fazer reserva para a parte coberta, o Bierfest.

Então rolaram costelinha de porco, servida num pequeno balde, sopa de shitake, caldinho de feijão, uma massinha parecida com nhoque, mas de nome estranho que, no meio de tantas cervejas e chopes, ficou esquecido. Terminaram eles lá – tenho minhas limitações com açúcar – com dois strudels de maçã, flambados ao vivo, diante dos olhos de todos. Com certeza estavam muito bons, porque as sete colheres que se lançaram sobre os doces os destruíram em poucos minutos.

Ao final, depois de comprar queijos da Genève, taças e cervejas, Rosa Helena deu por muito bem comemorado seu aniversário e, assim, voltamos à pousada, porque também ninguém é de ferro!

Nessa altura, em pleno verão tropical, corria um friozinho que fez com que as mulheres cobrissem os braços.

Ah! quase ia-me esquecendo de dizer: a trilha sonora que rola no sistema de som é de primeira qualidade.

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Vila St. Gallen, Rua Augusto do Amaral Peixoto, 166, Bairro Alto, Teresópolis. Telefone: (21)2642-1575. É bom ligar para fazer reservas, sobretudo se for chegar após as 20h e se o grupo for grande.

NOTÍCIAS COMENTADAS V

1. “PR quer Tiririca como candidato à prefeitura de SP” (JB online, ontem) – Será bem feito para São Paulo, se ele for candidato, e uma tragédia, se ele ganhar.

2. “Com gol contra no final, Brasil supera a Bósnia” (JB online, ontem) – A Bósnia fez dois gols; o Brasil, um; mas acabamos vencendo, em virtude da matemática esquisita do futebol. Porém não jogamos nada!

3. “Luxemburgo diz que demissão no Fla foi episódio mais triste” (JB online, ontem) – Eu, por exemplo, achei muito divertida a sua demissão do time da Gávea. Ri às bandeiras despregadas. Bem feito!

4. “Garçom derruba cinco copos de bebida em cima da chanceler da Alemanha Angela Merkel” (O Dia online, ontem) – Melhor um banho de cerveja, que alguns tiros no lombo, como ocorreu com Indira Gandhi em 1984. Preso e interrogado, o garçom disse que acha a chanceler uma mulher muito seca.

5. “Estelionatário usava foto do ator Jack Nicholson na identidade para abrir conta” (O Dia online, ontem) – O pior é que a foto é daquele filme em que Nicholson faz um doido (Um estranho no ninho, de Milos Forman). Aí a “otoridade” não teve dúvidas: trancafiou o metido a esperto.

6. “Engenheiro do Hopi Hari descarta falha mecânica em brinquedo (Folha online, ontem) – Deve ter sido falha da jovem que caiu de lá. Parece que o brinquedo é perfeito, não falha.

7. “Policial é preso sob suspeita de atuação no tráfico de drogas” (Folha online, ontem) – Tá bem, conta outra!

8. “Jovem escolheu vítimas de tiros de forma aleatória, diz promotor“ (Folha online, ontem) – Humor negro: pelo menos ninguém pode reclamar de favorecimento ilícito.

9. “Usuários vão poder medir velocidade de banda larga fixa” (O Globo online, ontem) – Isso será extremamente fácil: se ela está fixa, a velocidade é zero, não é mesmo, O Globo? Qualé?!

10. “Lobão: ‘Governo não tem intenção de elevar os preços dos combustíveis’” (Estadão online, ontem) – Podem anotar aí: o Governo vai autorizar aumento dos combustíveis. Isto é assim desde a ditadura militar. Quantas vezes Delfim Neto garantia no noticiário televisivo das vinte horas que não haveria aumento de combustíveis, para daí a pouco sair a notícia do aumento? Foram inúmeras! E saíam os proprietários de automóveis, como loucos, pela cidade, à cata de postos ainda abertos, para economizar uns trocados.

11. “Enredo da Unidos da Tijuca pode ser sobre a Nike” (O Dia online, ontem) – Se se confirmar esta idiotice, vou dar gargalhadas de ver um bando de zés manés pagando para desfilar propaganda da Nike no Sambódromo. E mais os milhares de espectadores aplaudindo este descaramento. Abrir mão da grana do bicho não significa que se tenha de vender a alma do carnaval ao diabo. Aliás, algumas escolas já se vendem, com enredos patrocinados. As almas de Natal da Portela, Mano Décio da Viola, Silas de Oliveira e outros mais devem estar dando piruetas no Além!

12. “Mano admite má fase de Júlio César e faz críticas a Ronaldinho” (Folha online, ontem) – Este Mano não é irmão de ninguém. Não é brother, cara! Chama os caras e depois fala mal. Pior que ele, só o pai do Fred, que divulgou tramoia de seu filho e do médico do Flu, para que o atacante não servisse a Seleção em setembro do ano passado, alegando grave problema muscular.

EXORTAÇÃO PÚBLICA

Tinha pensado em lançar uma exortação pública ao povinho do Brasil, como dizia o grande José Cândido de Carvalho, em prol do trampo, do trabalho, do batente, já que o Carnaval acabou ontem.

Porém me dei conta de que isto não é totalmente verdadeiro.

Em primeiro lugar, ainda na Bahia e em Olinda, os foliões continuam a seguir blocos e bonecos. Em segundo lugar, falta a apuração do desfile das escolas de samba no Rio de Janeiro, o que deve ocorrer hoje à tarde. Em terceiro lugar, no sábado ocorrerá o desfile das campeãs.

Então, começar mesmo a se pensar em trabalho só para o mês de março. E olhe lá!

Eu mesmo, do conforto da aposentadoria, estou com uma preguiça danada!

Este é ou não é um país maravilhoso? E, para comprovar esta maravilha toda, aí vai uma imagem do tríduo momesco: a linda Vanessa da Mata, encarnando a grande Clara Nunes, no desfile da Portela, no Rio de Janeiro (imagem em carnaval.uol.com.br)

 

 

RÁPIDAS ANOTAÇÕES DE ESPECTADOR

1. O primeiro show que vi, quando cheguei a Niterói e já um tanto habituado a circular por Niterói e Rio de Janeiro, foi o de Tim Maia. Isto se deu logo após o lançamento de seu primeiro disco, Tim Maia, de 1970. Foi no Teatro Opinião, que ficava num edifício da Rua Siqueira Campos, em Copacabana. Vi outros mais. Deve ter sido o artista de quem mais vi shows. E ele nunca faltou a nenhum deles. E não houve nenhum que tenha sido mais ou menos: todos ótimos!

Meu santo era mais forte do que as idiossincrasias do Tim.

2. Lá pela década de 80, eu e minha mulher subimos o Morro da Urca, para ver um show do mineiro Beto Guedes, já mais do que badalado.

Beto ficou famoso por sua timidez no palco.

A primeira parte rolava e, de vez em quando, alguém da plateia gritava:

– Aí, mineiro, manda Lumiar!

Ele, com aquele jeito sem jeito característico, passando a mão sobre os longos cabelos, dizia, com sua voz bastante nasalada:

– Vai rolar! Vai rolar!

Terminou a primeira parte e nada de Lumiar, certamente seu sucesso de maior apelo.

Voltam ele e a banda para o segundo set do show. Novamente a voz da plateia, agora mais incisiva:

– Aí, mineiro maluco, toca Lumiar!

Parece que foi provocação. Beto Guedes entrou com um arranjo rock’n’roll poderoso para sua música, que arrepiou todo mundo. Deve ter sido a execução mais poderosa que já ouvi.

Ao final, ouviam-se urros de aprovação da plateia.

3. Fomos eu e meu primo Roberto Bedu ver o show de Roger Waters – que ele sistematicamente chama de Rogério Águas –, na Praça da Apoteose, no Sambódromo do Rio de Janeiro, em 23/3/2007, em que o baixista e compositor do Pink Floyd apresentou o repertório da obra-prima The dark side of the moon.

Lá pela metade do show, cheio de recursos técnicos, um som poderosíssimo e efeitos especiais, no crescendo final de determinada música ouvimos um estrondo e as luzes se apagaram. Todo o público vibrou com o arranjo inusitado e ficou na expectativa da sequência da apresentação.

Passaram-se alguns minutos. Então Bedu e eu começamos a estranhar. Se era um recurso, um novo arranjo, o troço já estava demorando demais. Foi o que comentamos na hora.

Daí a alguns minutos, veio a informação do palco: um gerador do sistema elétrico não  suportara a massa sonora. Aquilo, portanto, não era mais uma invenção do rock progressivo. Foi um prosaico defeito técnico.

4. Teatro João Caetano, Praça Tiradentes, Rio de Janeiro. Show da Gal Costa, que tinha lançado recentemente o elepê Índia (1973). O grande teatro estava lotado, tanto que eu e Jane só conseguimos lugares no mezanino. Entra Gal, com uma saia de tiras. Senta-se num banquinho alto, ajeita o violão e começa a cantar: pontas dos pés apoiadas nas travessas inferiores do banco, as suas lindas e roliças pernas abertas, expostas pela saia de tiras, em movimento ritmado de abrir e fechar, acompanhando o canto. De repente, da parte de baixo da plateia, uma mulher urra com toda a força de seu útero, ou de seu clitóris, sei lá:

– Gostosa!

Aquela louca teve a ousadia de vociferar um elogio que, da boca de um homem, soaria uma ofensa, coisa de porco chauvinista grosseirão. Mas aqueles já eram tempos de muita tolerância, e não se ouviu um protesto sequer.

Houve alguns segundos de perplexidade. Gal deu um sorriso amarelo, retomou o fio da melodia e continuou balançando suas lindas e maravilhosas pernas para o deleite dos marmanjos e de mais um bando de sapatões, naturalmente.

Rumbeira style, babados de lamê, pernas abertas, flores nos cabelos e violão no colo: a primeira montagem de

Esta foi a imagem que tivemos no show referido (foto do arquivo pessoal da cantora, colhida em galcosta.com.br).

O RECANTO DA GAL

Capa do CD de Gal Costa, Recanto, em foto de Gilda Midani.

No final de 2011, quando Gal Costa lançou seu último trabalho, Recanto, com músicas de Caetano Veloso, procurei pelo CD em uma das lojas de que sou contumaz comprador, localizada no Centro do Rio de Janeiro.

Atendia-me, na oportunidade, um funcionário relativamente novo na casa e de quem já ouvira lamentações de sua vida pessoal, para as quais me solicitou, como velho e conhecido cliente, a paciência de o escutar. Naquela oportunidade, dei-lhe a atenção que me parecia necessária.

Agora, ali, ao perguntar pelo CD, ele, na função de conselheiro musical, me desaconselhou, embora a mercadoria estivesse esgotada na loja:

– É muito estranho. Está muito eletrônico. Só é recomendável para fãs da Gal. O senhor é fã da Gal?

Não quis confessar-lhe que sou fã de Gal Costa, desde que ela apareceu, meio descabelada, toda hippie, a boca carnuda debruada com batom vermelho e umas pernas maravilhosas; com todo aquele jeito estranho de cantar correndo pelo palco, revirando os olhinhos e dizendo que era filha de São Salvador.

Mesmo quando ela tomou certas atitudes inusitadas, pretensamente ousadas, como mostrar o seio – já então meio muxiba – num show, deixei de ser seu admirador.

Contudo não quis demonstrar esta minha quase devoção pela baiana para o vendedor, que, na verdade, não me conhece bem como consumidor de música.

Aliás, na minha vida de comprador de discos, que vem desde o final da década de 60 do século passado, só encontrei três vendedores que conheciam razoavelmente meu gosto: a Maria, da extinta loja Ultralar; a Graça, da também falecida Mesbla, que foi instruída por Maria a me atender, quando a Ultralar deixou de vender elepês; e Roberto, da Tropical Music do Plaza Shopping.

Porém aquela opinião do rapaz sobre o disco me deixou com certa má vontade, até que um dia, no rádio do carro, ouvi uma das músicas que fazem parte desse CD. A música me agradou muito, e quase o xinguei, por ter dado uma opinião bastante particular e discutível.

Anteontem, na Tropical Music, comprei o disco, que ontem ouvi com atenção.

São onze faixas, todas de Caetano Veloso, que divide a direção artística do trabalho com seu filho Moreno, para a Universal Music.

Não há créditos para os arranjos, mas se presume, pela parafernália eletrônica usada – sintetizadores, wurlitzer, bateria eletrônica, melotron e mais programação computadorizada –, que são os que manipulam tais instrumentos os responsáveis pela roupagem que os versos de Caetano assumem ao serem cantados por Gal.

Todas as faixas soam estranhas para a maioria dos nossos ouvidos. Eu, entretanto, como sempre gostei de novidades e estranhamentos, aprendi a aceitar esse tipo de coisa, em princípio, e, posteriormente, a gostar, com raras exceções.

Aprecio, por exemplo, e muito, a música incomum e complexa de Arrigo Barnabé, Tom Zé, Marlos Nobre, Karlheinz Stockhausen, Kraftwerk, King Crimson, Gentle Giant, Amon Duul II, para citar apenas alguns, na variada gama de MPB, Clássica e Rock Progressivo.

Deste modo, ouvi com prazer cada faixa esquisita, pontuada, sobretudo, por sintetizadores e melotrons, com participação mínima de guitarra, piano, bateria e percussão. Em todas as faixas, a voz da Gal, já denotando a idade – o seu recanto talvez esteja aí também -, segura a onda de uma melodia, por vezes, monocórdia, porém agradável, que diz um texto caracteristicamente à Caetano, também cheio de estranhamentos e lembrando, às vezes, sua aproximação com a Poesia Concreta. Todos, no entanto, muito bem construídos e resolvidos poeticamente. Caetano sabe fazer isto muito bem!

Diria mesmo que a participação instrumental é minimalista, quase incidental, porque – a mim pareceu – o que se quer destacar é o texto, a letra, a poesia. Não que, para a beleza do disco, se possa abstrair a participação de Kassin, Moreno e Zeca Veloso, Alberto Continentino, Luiz Felipe de Lima, Donatinho, Pedro Sá, Davi Moraes, a Banda Rabotinik, Bartolo, Léo Monteiro, Jacques Morelenbaum, Daniel Jobim, Gabi Gudes, Iuri Passos, Jaime Nascimento e o próprio Caetano, em uma única faixa. Como se vê, um time da pesada.

Muitos, talvez, não irão gostar; outros, até mesmo detestar.

Eu, que sempre fui chegado a novidades e estranhamentos, gostei muito do CD. E desculpo o vendedor, que não conhece este meu excêntrico gosto e não comunga dele.

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GAL COSTA, Recanto, Universal Music, 2011. – Faixas: 1: Recanto escuro; 2: Cara do mundo; 3: Autotune autoerótico; 4: Tudo dói; 5: Neguinho; 6: Menino; 7: Madre Deus; 8: Mansidão; 9: Sexo e dinheiro; 10: Miami maculelê; 11: Segunda (Todas as músicas são de Caetano Veloso).

7 HISTÓRIAS INTERESSANTES

1. Certa vez, Groucho Marx (1890-1977), comediante norte-americano, afirmou, após ser informado de que ganharia o título de sócio de um clube de Los Angeles:

– Não frequento clubes que me aceitem como sócio.

Groucho Marx (pt.wikipedia.org).

2. Ao ser indagado sobre o lugar mais estranho em que já fizera amor, o humorista carioca Bussunda (1962-2006) respondeu de pronto e sem pestanejar:

-Em São Paulo.

3. Falando sobre a solidão, o escritor carioca Nelson Rodrigues (1912-1980) disse que “a pior espécie de solidão é a companhia de um paulista”.

4. O jornal O Pasquim tinha uma coluna em que fazia comentários, quase sempre desairosos, sobre os lançamentos de discos. Belchior e Djavan estavam lançando novos discos, de uma carreira ainda no início. O comentarista juntou os dois em um comentário só: “Um não sabe fazer música, outro não sabe fazer letra: por que não se juntam os dois?”

5. Era uma exposição de cartuns de humor no Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro, lá pelos anos 70. Após pegar o programa impresso sobre os cartunistas expostos, parti para conseguir autógrafos de cada um deles. Millôr Fernandes não comparecera, por estar adoentado na ocasião. Ao chegar junto ao Jaguar, como sempre ele estava com um copo à mão e houve aquela dificuldade de segurar o impresso, dar o autógrafo e segurar o copo. Dispus-me a segurar o copo para ele, para facilitar as coisas, quando ele, colocando o copo embaixo do braço, junto ao corpo, disse;

– Pra segurar o copo, nem na minha mãe eu confio!

6. Um domingo, após a missa da manhã na igreja de São Jorge que fica próxima, o poeta Olavo Bilac (1865-1918), como de costume, foi sentar-se em um banco do Campo de Santana (atual Praça da República), para ver o movimento dominical. Avistou num banco em frente, distante alguns metros, um casal de amigos e seu filho pequeno, que comia uma fatia de pão. O garoto, assim que reconheceu o “tio”, veio correndo em sua direção e fez-lhe festa nas pernas da calça. O poeta, de imediato, tirou do bolso do paletó papel e caneta, escreveu alguma coisa, colocou-a sobre o banco e se despediu do casal, saindo inopinadamente. O casal, intrigado, foi até o banco e viu escrito no papel:

“Criança meiga e bonita,
Para os pais anjo celeste,
Para os outros uma peste,
Que emporcalha de manteiga,
As calças que a gente veste.”

7. Paula Nei (1858-1897), jornalista, boêmio e poeta carioca, que fazia muito sucesso nos jornais da época, foi a um teatro de revista e ficou sendo paquerado por uma bailarina que participava do espetáculo. Assim que terminou seu número, a bailarina, muito saída, muito dada, foi sentar-se ao lado de Paula Nei. Ele, incomodado por sua presença, olhou para trás e verificou que havia lugares vagos. Então, em alto e bom som, disse a seguinte frase, ao pular sobre as fileiras:

– Atriz atroz, atrás há três!

COISAS INSUPORTÁVEIS

(A postagem de hoje é dedicada a meu filho Pedro.)

Quando chegamos a certa idade (forma eufemística de dizer que estamos mais pra lá do que pra cá), damo-nos o direito de achar certas coisas insuportáveis. Se somos jovens, isto é apenas frescura. Assim que nem eu, já passa a ser direito inerente, inalienável e irremovível.

Li a matéria de capa do segundo caderno de O Globo de ontem sobre Alceu Valença e as homenagens que lhe serão prestadas durante o carnaval deste ano, por seus quarenta anos de carreira.

Bicho maluco beleza (imagem em alceuvalenca.com.br).

Sou admirador de Alceu, de sua música, de sua arte. Tenho, praticamente, todos os seus discos, desde bolachas de vinil a cds. Vi seu primeiro show no Rio de Janeiro – Vou danado pra Catende – e outros mais. Admiro sua postura como artista engajado e comprometido com a cultura brasileira mais autêntica. E também gosto de sua incontinência verbal, seu humor e sua ironia.

Lá pelas tantas, na matéria do jornal, Alceu soltou sua metralhadora contra o panorama da difusão de música no país: se não é o estilo brega, é, segundo ele, o “americanalhado”, com cantores fingindo uma emissão anasalada em imitação aos norte-americanos.

Aliás, são vários os que fazem isso, sobretudo a teteia Paula Fernandes.

Desde que essa linda menina apareceu na mídia, apesar das louvações a ela, tenho criticado no meu círculo de amigos a falsidade de seu canto nasal, nitidamente forçado, claramente fake. Ela, ao falar, não apresenta qualquer traço de fanhosidade. Por que, então, cantar assim, a não ser por imitação aos ianques?

Por outro lado, ressalte-se a grita de Alceu contra esta ditadura do mau gosto que tomou conta da maioria de nossas emissoras de rádio, principalmente, e de televisão. Parece que a música brasileira se resume a este tipo de subproduto, de baixíssima qualidade harmônica, melódica e poética. Não é que não existam novos valores – se bem que poucos -, mas a mídia está comprometida com a difusão disto. Parece que há uma nítida intenção de se abastardar aquilo que já foi nosso orgulho: a música popular. Com que intenção? A quem interessaria isso?

As nossas emissoras também estão tomadas por uma profusão de seitas e religiões, com seus pregadores oportunistas (a própria cara os denuncia), gritando verdades suspeitas, fazendo campanhas para angariar dízimos, prometendo milagres, enfim, ludibriando a fé pública, com o beneplácito de nossas autoridades do setor, que concedem um serviço de utilidade pública para proselitismo religioso.

Para se constatar isso, basta que passeie pelo dial de seu aparelho de rádio. É difícil encontrar uma emissora com programação de qualidade. São pouquíssimas.

Quando se viaja pelas estradas deste país, fica até mais difícil ouvir as rádios regionais. Praticamente todas estão tomadas por este tipo de programação.

E isto acaba ficando insuportável, quando se chega a certa idade.

EU E O CARNAVAL

As cuícas já estão roncando à minha porta para mais uma fuzarca momesca.

Devo confessar que nunca, jamais, em toda a minha vida e na história deste país, como dizia Lula, gostei de carnaval. E isto desde que eu era criança pequena lá em Carabuçu.

Lembro-me de que eu, muito pequeno, fui levado por meu pai com meu irmão, dois anos mais novo, portanto ainda menorzinho, a um baile de carnaval. Minha mãe nos fez uma bonita fantasia de palhaço: calça folgada amarelo-ovo, com suspensório, camisa branca, chapeuzinho, tudo de cetim. Talvez tenha sido uma das poucas vezes na vida em que me senti realmente bonito.

Chegamos ao salão, onde a folia já roncava firme, e ficamos agarrados à mão de papai. Passado algum tempo, sem que nos dispuséssemos a cair na folia, voltamos para casa e,  minha memória guarda, ainda que não tenha confirmado isso posteriormente,  o que meu pai disse para mamãe:

– Zezé, besteira levar os dois para o carnaval. Eles não gostam.

Já rapaz, até andei indo a um e outro baile, porém no intuito maior de arranjar uma gata que pudesse chamar de minha, nem que fosse por uns momentos.

Depois me casei. E não é que minha mulher é apaixonada por carnaval! Sempre foi! Dessas que gostam de fazer agenda do tríduo, para não perder as principais atrações.  Assim, por conta desse casamento com comunhão de carnavais, vou atrás de blocos, vou a bailes, já fui a alguns desfiles de escola de samba. Tudo sem a menor vontade, mas com a cumplicidade que, às vezes, penso ser importante para que a relação não azede. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra, não é mesmo?

Felizmente, depois de todos esses anos fazendo o sacrifício que, em havendo outra vida, espero que seus guardiões estejam anotando tudo no meu crédito, minha mulher anda um tanto decepcionada.

Após sair atrás do Cordão da Bola Preta durante alguns anos, no meio de uma multidão infernal, sob um sol escaldante – ela se acabando de cantar e pular e eu atrás igual a um dois de paus –, acho que ficou muito chateada com a situação em que transcorrem os desfiles atuais.

No último a que fomos, dividimos a sofreguidão do embalo com uma cidade suja, abandonada, ruas que eram poças de urina, uma fedentina de quinto mundo. À época, disseram que o Prefeito Maluquinho tinha ido passar os três dias em Paris e largou mão da confusão daqui. Aquele dantesco espetáculo periférico foi demais para nossa terceira idade.

No entanto, até o ano passado, ainda fui arrastado por ela para alguns eventos, como o bloco Cordão do Boitatá, que se concentra no domingo pela manhã na Praça Quinze, no Centro do Rio de Janeiro. Talvez este seja um carnaval menos traumático, porque não há cortejo – não temos de sair como malucos atrás de um carro de som alucinado –; também normalmente corre um vento fresco da baía e há a possibilidade de se ficar sob a sombra da Avenida Perimetral. Urinar em local apropriado, no entanto, é quase uma odisseia, sobretudo para as mulheres.

Contudo ela não se contenta em ficar à margem da multidão: gosta é de se meter pelo meio de gente, carrinho de cerveja, vendedor de churrasquinho – um verdadeiro pandemônio. Por que carnavalesco é assim meio insano? Não basta ficar sob a sombra, tomando a cerveja gelada, cantando, pulando? Não! É preciso enfiar-se na confusão, acotovelar-se, pisar no pé alheio, ter o seu pisado, para que se sinta em plena folia. É, mais ou menos, como ir a Roma para ver o Papa. Move-se até a terra, para conseguir o intento!

Definitivamente, estou fora! Todavia estou sempre lá. Isto é apenas uma atitude mental. Só estou lá de corpo presente. Meu espírito – que nem sei se existe realmente – vagueia por outros paramos.

E quando tenho de acompanhar blocos que desfilam, por exemplo, pela orla de Ipanema, durante cinco horas, cantando o mesmo samba enredo, que me parece igual a todos os demais sambas enredo de ontem, de hoje e de sempre, no furdunço atrás do caminhão de som, sendo atropelado por um sem número de vendedores e seus bares ambulantes sobre rodas de rolimã? É a antessala do inferno!

Há outro caso: o Bloco da Segunda, que parte da COBAL do Humaitá. A concentração é no pátio de estacionamento, acimentado, com um calor insuportável subindo pelas pernas acima. Não há cerveja, água, suco gelado que minimize o vapor ascendente. A temperatura é tão grande, que sempre está lá um carro do Corpo de Bombeiros jogando água na multidão, para que ninguém – homem, mulher, criança, enrustido ou bicha – entre em colapso e tenha um piripaque. Nessa hora, cabe bem aquela música que diz “me segura, que eu vou dar um troço”!

E o mais engraçado de tudo isso é que, a cada carnaval, a moça da padaria perto de casa vem brincar comigo, dizendo que nos aguarda, a mim e à minha mulher, bem cedinho, para tomarmos o café da manhã, tresnoitados, com cara de Quarta-feira de Cinzas, após uma noite esfalfante na Marquês de Sapucaí.

Eu não mereço esta fama!

Cordão do Boitatá. Veja se você consegue me ver lá no meio. (imagem em extra.globo.com).