O LEC FAZ 85 ANOS

Temos na casa de nossos pais uma antiga foto em preto e branco do time do Liberdade que, à época, se chamava Comercial. Nela, dentre os jogadores, aparecem meu pai, Argemiro, então considerado um bom ponta-esquerda; meu tio-avô Nalim, também hábil jogador; o Creval Mestre, goleiro com pinta do russo Yashin; e o meu avô paterno, Chico Albino, dentre os cartolas, elegantemente trajado para a ocasião.

Não sei em que ano se deu a mudança do nome, pois, desde que me entendi por gente, lá pelos idos de 1950, o clube já tinha o nome atual. Tanto que, na segunda série do antigo curso primário, aos nove anos, fiz o meu primeiro poema – era o dever de casa -, que tratava justamente do jogo daquele fim de semana entre o meu time e o Ordem e Progresso, de Bom Jesus do Norte, cujas primeiras estrofes, corrigidas pela querida professora Maria Amélia Figueiredo, ainda tenho na memória:

Os canarinhos entraram em campo
Contentes e animados
Com a ordem do técnico
O Liberdade entra no gramado.

Logo foi tirado o toss
O Liberdade ganhou
Progresso deu a saída
Progresso foi vencedor.

Por isso é que posso afirmar que o Liberdade Esporte Clube foi uma das minhas primeiras paixões na vida. É claro que eu tinha outras também: algumas coleguinhas do Grupo Escolar Marcílio Dias, que me encantavam com sua beleza. Mas essa era outra qualidade de paixão, diferente, que exigia retorno. A paixão pelo LEC era de mão única. O time nem precisava vencer, para que eu o amasse.

E, como toda paixão, me exigia sacrifícios. Uma vez por mês, no primeiro domingo, o Padre Francisco Apoliano vinha à vila celebrar a missa, que invariavelmente coincidia com, pelo menos, o primeiro tempo das partidas.

Caso coincidissem missa e jogo pelo campeonato bonjesuense, eu me mortificava ainda mais durante a obrigação religiosa, na qual rezava para que ainda conseguisse, após o Ite! Missa est., as derradeiras palavras do padre, pegar uma parte do segundo tempo. Por aquela altura, as missas eram celebradas em latim. Mas o sentido das palavras já conhecia de muito: Ide! A missa terminou. E partia correndo para o estádio.

Por essa época, em minha percepção de menino, o Liberdade tinha uma equipe hábil e poderosa, ainda que eventualmente perdesse. E, a cada jogo no Estádio Doutor César Ferolla, nome do médico benemérito que doou o terreno onde se construiu o campo de jogo, eu estava lá, inclusive dentro do vestiário, para assistir à preparação dos craques, à preleção do técnico João Coleto e também aproveitar para sentir o odor inebriante da cânfora misturada ao óleo com que os jogadores untavam as pernas, antes de adentrar o gramado.

Então corria a subir o barranco, espécie de arquibancada rústica, numa das margens do campo. Ali me sentava ao lado do meu pai, sob um pequeno arbusto que gerava uma minúscula sombra.

Quando a equipe entrava no gramado, era uma euforia. Vinham eles com a tradicional camisa de listras brancas e azuis, em fila, até o círculo central.

Lembro-me de muitos deles.

Reginaldo, o pequeno goleiro carioca que se apaixonou pela vila e morreu tragicamente nas águas do Itabapoana. Um gigante sob a baliza, malgrado seu pequeno porte. Depois veio Bié, deslocado da ponta esquerda para o gol, posteriormente substituído pelo Cocote, um dos mais longevos na posição.

Havia o Paulinho Sucanga, irmão da minha mãe, um dos maiores jogadores que vi jogar. Baixinho, com um pequeno problema congênito no quadril que o fazia manquitolar, era um portento na posição de beque central. Impressionava ver sua habilidade, sua desenvoltura com a bola. Em certo jogo, durante a cobrança de escanteio pelo time adversário, ele dominou a bola com a cabeça e saiu da área, levando-a assim, com cabeceios, até passar a um companheiro.

Dividia a zaga com ele, outro baixinho habilidoso, o Durvalzinho Assis. Os dois formavam a mais improvável dupla de zaga, se analisássemos apenas sob o aspecto físico. Algumas vezes, atuava como zagueiro o Filhinho Schuab, que tinha o apelido de Carijó, pela profusão de sardas no rosto, e se vangloriava de sua filosofia de jogo: Por mim, ou passa a bola, ou passa o adversário; os dois juntos, nunca! E dava gargalhadas, ao dizer isso. Outro que substituiu o Filhinho foi o Todinho Quintal, um pouco mais novo que o Paulinho, mas alto o bastante para proteger a área das bolas levantadas. Enquanto Filhinho era vigoroso e botineiro, Todinho tinha mais habilidade e categoria.

O meio-campo contava com dois jogadores diversos, porém com muita eficiência em seus estilos. O Helvécio Portugal, meu primo, praticava um toque refinado e uma fleugma britânica para o jogo. Antecipava o jeito de jogar do Gerson, o Canhotinha de Ouro. Já o Elias Pelanquinha, outro primo, oposto ao Helvécio, porquanto jogasse com vigor e com sangue nos olhos, era voluntarioso e briguento. Enquanto o primeiro arrumava o time no meio-campo e pouco subia ao ataque, o outro também partia em auxílio à conclusão das jogadas. Tempo depois eles foram substituídos por duas novas promessas do LEC: José Elias, irmão do Gonçalves, que atuava como zagueiro; e Adilson Zé Mané, também meu primo, mas um pouco mais velho que eu. Ambos jogadores de grande habilidade. Adilson, inclusive, foi levado para jogar no Unidos, de Itaperuna.

Neste setor, algumas vezes atuava o Ciloca Peçanha, que ganhou um segundo apelido, Pé Redondo, pelo formato arredondado dos pés que dificilmente encontravam chuteiras que os acomodassem. Por isso jogava sempre descalço.

Moreninho, o principal barbeiro da vila, também corria pela lateral direita, enquanto Anoredino Pé de Chumbo corria pela esquerda. Mas nem sempre estavam em todos os jogos. Já o Geraldinho, filho do Juca Jacó, mostrava suas habilidades tanto pela meia-direita, com a camisa 8, quanto pela meia-esquerda do campo, com a camisa 10, participando das ações de ataque.

Quando o Bié foi deslocado da ponta esquerda para o gol, após a morte do Reginaldo, Isaías Bonga, que também dava suas botinadas na lateral esquerda, foi ocupar aquele espaço e, com frequência, veloz como ele só, mas sem grandes habilidades, chegava ao fundo do campo para cruzar a redonda em direção à área.

Caso o ataque se desse pela direita, aí as coisas ficavam mais eficientes. Vislumbrava-se a possibilidade de gol. Lá estava o Cristhovinho Padilha, baixinho, arisco, veloz, a penetrar a zaga adversária, aonde quase sempre levava o desespero aos defensores com seus dribles.

Os gêmeos Adelson e Adilson Moulins marcaram época, por suas habilidades e deslocamentos velozes no ataque. O irmão mais velho, Dalzy, atuava no meio-campo com cadência e ritmo.

E, tanto vindo da esquerda, quanto da direita, a bola quase sempre encontrava dentro da área, disposto a enfiá-la nas redes, outro baixinho endiabrado, o Jadir Modesto, ou Jadir Bodinho, alcunha devida a seu cavanhaque minguado e seu bigode ralo.

Bodinho, inclusive, foi protagonista de uma das mais belas jogadas que aconteceram naquele campo.

A Portuguesa do Rio de Janeiro estava em excursão pelo Norte e Noroeste do estado, em amistosos preparatórios para o próximo campeonato carioca. E, por todos os lugares por que passara, venceu seus jogos. Até que chegou a Carabuçu.

Fazia um belo domingo de sol e calor. Os times entraram em campo com disposição para o jogo. Era um amistoso nem tão amigável assim. E seguia a partida emperrada no zero a zero, até que um cruzamento da esquerda encontra nosso ataque, ou melhor, Jadir Bodinho correndo em direção à defesa adversária. Nesse dia, eu via o jogo encostado à cerca interna, acompanhando o ataque do Liberdade. E fui testemunha ocular daquela pintura, que até hoje está gravada em minha memória. A bola veio quase à altura do Jadir Bodinho, que não era muito alto. Pois o endiabrado deu um pulo, que à época chamávamos sem-pulo, inacreditável para seu tamanho. Pois bem, ele deu um sem-pulo, jogando o corpo na horizontal e pegando a bola com o pé direito, numa chicotada fulminante, da entrada da grande área. A pelota estufou a rede à esquerda do goleiro, que nada pôde fazer. Ela entrou na região onde a coruja dorme, se é que me entendem. O LEC venceu a partida por 1×0. O delírio que tomou conta da grande torcida ali presente foi indescritível. Nosso time foi o único a vencer a Portuguesa em sua excursão por nossas bandas.

Posteriormente contaram que o dirigente do clube carioca, chefe da delegação, quis levar o Jadir Bodinho para a Ilha do Governador, sede da Portuguesa. Essas mesmas informações, agora maldosas e debochadas, garantiam que Jadir não quis ir, porque estava aprendendo o ofício de sapateiro com o Filhinho Gregório.

O Liberdade, anos depois, ganhou o campeonato da LBD, Liga Bonjesuense de Desportos. Mas eu já estava morando longe e não pude testemunhar essa glória. Contudo, isso, em hipótese nenhuma, fez com que eu me sentisse culpado por não estar presente. A vida nos conduz a caminhos inevitáveis, onde trafegamos nossa experiência, sem que possamos mudar seu rumo, conforme nossos desejos.

Agora, em fevereiro de 2022, o Liberdade Esporte Clube comemora oitenta e cinco anos, dez a mais que eu, que, em menino pequeno, ganhava uns trocados para gozar o extinto time adversário da vila, cujo modesto campo de jogo ficava nos pastos para além da ponte do Valão Liberdade: era o Palmeiras, nome dado em função de algumas dessas árvores próximas, mas que nós, torcedores do glorioso Esquadrão Alvianil, debochadamente chamávamos de Bostinha, por causa dos excrementos deixados pelo gado que aparava a grama da cancha espontaneamente. Rivalidade, aliás, que se perdeu no tempo.

Viva o Liberdade! Glória ao Liberdade!

Saint-Clair Machado de Mello

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(Agradeço ao meu irmão Gutenberg, que também brilhou com seu talento no futebol, as dicas importantes que refrescaram a minha memória.)





Foto do início dos anos 40 do século passado com o time do Comercial Sport Clube, antecessor do Liberdade Esporte Clube. O meu pai, Argemiro, é o último sentado da esquerda para a direita.

FUTEBOL: TEORIA E PRÁXIS

  1. O jogador discute com o adversário a correta posição da bola para a cobrança da falta, vence a disputa e consegue adiantar um metro, em relação ao ponto de ocorrência da infração, sob a indiferença de Sua Senhoria. O árbitro autoriza a cobrança, e o jogador recua a bola ao seu companheiro mais atrás.
  2. O jogador vai cobrar o escanteio e tenta ser esperto, adiantando a bola cerca de dois centímetros além da marca do semicírculo do escanteio, impossível de ser percebido pelo árbitro. Isso representa cerca de 0,0058823529% da distância até o meio da pequena área.  Nada que uma ínfima força a mais no chute não supere com sobras.
  3. Numa bola cruzada sobre a pequena área, defensor e atacante se precipitam em sua direção na ânsia ou de mandá-la para fora, ou de metê-la na rede. Os dois chegam juntos. A bola, capciosamente, esbarra na cabeça do defensor e vai para as redes. Como os dois estivessem ao mesmo tempo no lance, o atacante sai comemorando o tento, como se tivesse sido sua cabeçada a impulsionar a pelota para o fundo da meta. Os companheiros correm para abraçá-lo, e ele joga beijinhos para a câmara colocada à margem do campo. Só depois o VAR confirma o gol contra.
  4. O futebol é o único esporte que, após noventa minutos do tempo normal e, às vezes, mais trinta minutos de prorrogação, permite que um jogo termine sem um único gol e, ainda assim, que este mesmo jogo seja motivo de mesas redondas, comentários e análises profundas de suas causas e consequências, por uma vasta equipe de especialistas.
  5. O futebol é o único esporte em que, num jogo, um time seja superior ao outro em posse de bola, em domínio de campo, em chutes a gol, e, ainda assim, saia derrotado pelo time de pior desempenho, que atirou uma única vez a pelota em direção à meta do adversário.
  6. Não há nada mais desonroso do que, numa goleada, o famigerado gol de honra. Seria melhor assumir a desonra, sem incomodar o vencedor.
  7. O VAR, no futebol brasileiro, leva mais tempo para revisar um lance do que em outros países mundo afora, porque aqui a nossa incredulidade é tão grande, que não nos permite crer naquilo que vemos, senão naquilo que gostaríamos de ver.
  8. A cotovelada, que não é autorizada em nenhum outro esporte, é recurso comezinho na prática no nobre esporte bretão. Leonardo, jogador da seleção brasileira que foi à Copa do Mundo dos Estados Unidos em 1994, muito fez em prol da sua difusão.
  9. Dado o início do jogo, tudo que foi conjecturado antes da partida fica em suspenso, até que posteriormente as mesas-redondas tentem explicar o inexplicável: a derrota do time de melhor desempenho nos noventa minutos.
  10. O jogador que comete uma falta violenta, é expulso e reconhece, ao ser entrevistado ao final da partida, que o árbitro agiu corretamente ainda não foi inventado.
Imagem em wikipedia.org.

SOBRE ONTEM À TARDE

Indubitavelmente…

Sempre quis começar um texto com indubitavelmente. Parece que dele virá coisa importante. Pois agora o momento chegou. Eu já na casa dos septuagenários quase desencarno, sem tal oportunidade. Mas voltemos ao que desinteressa.

Indubitavelmente houve impedimento quíntuplo no segundo gol do Botafogo sobre o Fluminense.

A bem da verdade, cochilei à tarde e, quando dei por mim, já lá iam os 2×0 na sacola tricolor. Se fosse um pouquinho só supersticioso, teria voltado ao meu ronco, a fim de não trazer o azar do jogo anterior, quando também fizemos o mesmo placar no primeiro tempo. E passei todo o resto da primeira parte ouvindo o Edinho, aquele chato, reclamar. Segundo ele e o narrador, o segundo gol fora impedido. O primeiro, marcado por Igor Rabello, embora legal, segundo ele, poderia ter sido defendido, se o goleiro estivesse mais bem colocado; ou, na melhor das hipóteses, a bola fosse para fora. Portanto, o placar moral para eles estaria em 0x0, ainda que tal resultado levasse o Glorioso à final da Taça Rio, pelos critérios sem o mínimo critério do regulamento do campeonato.

Veio o intervalo. Fui tomar um gole d’água, para voltar à segunda etapa, refestelado no meu sofá. Nesse intervalo, fiquei pedindo aos deuses botafoguenses do futebol, que, aliás, são os maiores – Garrinhcha, Didi, Nilton Santos, para citar apenas a trindade –, que permitissem que nosso time fizesse um terceiro gol de forma indubitável (Olha a palavra aí outra vez!), para que qualquer choro não tivesse o aval da dúvida.

Sassá atendeu minhas preces, logo aos dois minutos da etapa derradeira, sem que se pudesse levantar qualquer dúvida à sua licitude. Apesar de o Edinho ter explicado que o zagueiro do Flu poderia ter-se postado melhor, para evitar que o Sassá o deixasse a ver navios dentro da área. Para o comentarista, era uma questão de postura.

O gol tricolor no fim do jogo foi prêmio de consolação.

E de nada adiantaram as hipóteses levantadas pelo Edinho para que o resultado da partida não fosse aquele ali estampado no placar do Niltão: 3×1.

Então vieram, posteriormente à partida, algumas observações pertinentes.

Em primeiro lugar, entraremos para o livro dos recordes como o maior impedimento do mundo: cinco jogadores nossos mostraram apetite para enfiar a bola nas redes tricolores, adiantaram-se à última linha dos zagueiros e lá ficaram até que a bola estufou o filó, como diria antigo narrador, na cabeçada de Dudu Cearense. O juiz não viu, o bandeirinha não assinalou, o juiz de trás do gol fez-se de morto, e o nosso gol valeu. Azar o do Fluminense!

Agora hoje, recebo reclamações do Pedro, meu filho, desde São Paulo, via Whatsapp, as quais transcrevo aqui:

“Fico puto com o BFR. Não tem padrão de jogo.”
“Kd a bicicleta ontem contra o Flu?
“É por isso que o time ñ vai pra frente.”
“F…!” (Excluí as letras o-d-a, para não aparecer o palavrão.)
“#forajair”

Ao que meu sobrinho Lucas, também outro botafoguense equilibrado, comenta:

“Time inconstante!”

É isso, amigos! Perdemos tempo em ver um jogo do Botafogo em que ninguém teve o trabalho de fazer uma reles bicicleta contra os tricolores. Parece exagero de respeito.

Assim fica difícil!

 

Imagem em aqipossa.blospot.com.br.

BALANÇO PESSOAL DOS JOGOS OLÍMPICOS E PAROLÍMPICOS

  1. Para início de conversa, acho o nome Paralimpíadas meio estranho. Segundo meu fraco entendimento, deveria ser Parolimpíadas, como já explanei numa postagem por aí.
  2. Os atletas olímpicos não me servem de modelo: todos são mais capazes do que eu. Já os atletas parolímpicos me fazem sentir vergonha da minha preguiça.
  3. Fui ver as competições de ciclismo de velocidade no Velódromo. Cegos guiavam bicicletas, amputados pedalavam velozmente, numa surpreendente demonstração de quanto são eficientes.
  4. O estranho esporte badminton não é tão estranho assim para mim. Na infância, certa vez ganhei um conjunto de duas raquetes e uma petequinha de plástico, que nunca soube muito bem para que servia. Era o badminton se insinuando em minha vida.
  5. Até as Olimpíadas serviram para confirmar o dito popular que pontifica que é mais fácil pegar um mentiroso do que um coxo. Houve coxos e amputados nos cem metros rasos que eram ariscos à beça.
  6. A chuva foi a segunda principal atração das cerimônias de encerramento.
  7. O Brasil e o Rio de Janeiro em particular provaram que sabem fazer uma grande festa. Agora, é hora de trabalhar, cambada, porque as contas vão começar a chegar!
  8. Houve muito choro durante os jogos, mas quero crer que nenhum ranger de dentes.
  9. Duas mortes trágicas – a do técnico alemão e a do paratleta iraniano – a comprovarem que o Brasil continua um país de alto risco.
  10. Pelo que minha memória reteve das informações das competições olímpicas, o badminton foi o esporte mais presente: todo dia havia um jogo. Acho que até depois que as Olimpíadas terminaram continuaram a ocorrer jogos.
  11. No vôlei sentado das Parolimpíadas, tão logo um time cravava a bola na quadra adversária, mais da metade dos atletas se levantava para comemorar o ponto.
  12. Os deficientes visuais de todos os graus do futebol de cinco deixaram visível para todos nós que eles têm mais visão de gol do que nossos jogadores “normais”: faziam gols de olhos vendados.
  13. Nunca entendi a finalidade de um cidadão levantar duzentos, trezentos quilos de peso, se há equipamentos capazes de levantar até muito mais do que isso.
  14. O arqueiro sem braços – que atirava a seta com os pés – acertou mais setas na mosca do que os arqueiros com todos os braços e pernas.
  15. Nenhum árbitro foi chamado de ladrão, nem teve sua genitora denegrida durante as diversas disputas. Sinal de que não havia torcida (des)organizada nas arquibancadas.
  16. A cerveja vendida no Parque Olímpico tinha o valor das do Mondial de la Bière, porém sem atingir a qualidade das concorrentes desta última competição.
  17. Estive tentado a perguntar a dois soldados da Força Nacional de serviço no Parque Olímpico, onde o clima era totalmente pacífico, se eles estavam tendo muito trabalho. Porém pensei bem e achei que isto já seria trabalhoso para eles.
  18. Como em outros grandes eventos, ficou provado pelo esquema de segurança dos jogos que é mais fácil prevenir do que remediar, já que, quando se trata de crime, às vezes o remédio nunca será o bastante para curar a ferida.
  19. Observei que a segunda camisa de clube mais usada no Parque Olímpico, no dia em que lá estive, era a do meu Botafogo. Do Vasco, por exemplo, não vi nenhuma.
  20. A matemática das medalhas é muito esquisita: quanto mais medalhas o Brasil ganhava, mais descia na tabela de classificação.

 

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UM MAR DE LAMA

Desde o ano de 2014, resolvi deixar o futebol no lugar que merece em minha vida: num canto escuro da casa, num escaninho menor do meu cérebro nervoso.

Além do rebaixamento do meu Botafogo à série B do campeonato brasileiro, a famigerada Segundona, pela segunda vez (Carimbamos a volta à Série A no jogo de ontem, contra a Luverdense.), houve o episódio trágico da Copa do Mundo da FIFA em terras brasílicas e o vexatório placar de 7×1 para a equipe alemã. Nunca na história desta Seleção, houve derrota igual, mais humilhante, mais sem propósito. A tragédia da Copa de 50, conhecida como Maracanazo, quando perdemos para a seleção uruguaia, pareceu coisa de criança diante desta última derrota.

Aliás, por falar nisto, vi o blog do jornalista argentino Fernando Taveira, que estampa em uma de suas crônicas que houve suicídio em massa no Brasil pela derrota da Copa de 50. De fato, ele não conhece o brasileiro! Nem quando o Getúlio Vargas, o Pai dos Pobres, se matou, houve suicídio de brasileiros.

Pois estou eu agora falando de algo que deveria estar morto e enterrado, para o bem de todos, porque à miúde sou acordado em plena madrugada, aos sobressaltos, com mais um gol da Alemanha ressoando em meus ouvidos. E olhem que sou acometido por um zumbido terrível desde a infância – ainda agora, no momento em que traço essas linhas, estou a escutá-lo em surround estereofônico.

Se não consigo entender por que a Maitê disse que não vai ficar pelada, como havia prometido, caso o Glorioso voltasse à elite do futebol tupiniquim, muito menos entendo esse meu estado diante de um fato consumado, com uma seleção que, de modo algum, despertou a minha menor paixão. Há muito que o time da CBF vem com a suspeita de ser uma equipe armada pelos interesses da cartolagem, de certa mídia e de empresários que lucram horrores com este futebol de segunda.

Deixamos de ser, já há algum tempo, o melhor futebol do mundo. Quando os meninos interessados procuram uma escolinha de futebol e começam a ser treinados na parte física e tática, isto significa dizer que o futebol arte já deixou de existir. E por esta visão deturpada do verdadeiro sentido do futebol brasileiro, chegamos ao estágio atual.

Amanhã enfrentaremos a Argentina pelas eliminatórias da suspeitíssima Copa da Rússia 2018. Los hermanos vêm cheios de problemas, contudo periga que nosso time – aliás, o time lá da CBF – apronte o vexame maior, que será não se classificar para Moscou.

Na verdade, estou com muita má vontade com todo esse estado de coisas a que chegamos. O futebol, o esporte mais difundido no planeta, está soterrado sob um mar de lama, sem parâmetro na história. E não é de agora! Agora é que a barragem cedeu e a lama se espalhou por todos os lados.

 

Imagem em fiamfaam.br.

PREPARANDO A VIAGEM

Vou-lhes dizer que estou preocupado com a próxima viagem que o Sr. Eurico “O Respeito Voltou” Miranda, com seus charutos, empreenderá em direção à Sibéria. E já comecei a procurar um lugarzinho aprazível e agradável, pequeno, porém decente, para que ele repouse a sua empáfia, tão logo a nau vascaína dê com os cascos no fundo do poço.

É que também quero fazer a minha parte. Já que não consigo resolver os sérios problemas por que passa nosso país, nem minimizar as agruras dos povos submetidos a guerras e misérias, desejo demonstrar a fraternidade que nos une a nós todos, torcedores do balipodismo, do pebolismo, do futebol, do nobre esporte bretão, enfim.

Quando o Eurico Miranda voltou com o discurso monofrásico do respeito que voltaria com ele, fiquei preocupado, pois que não há hipótese de que isto fosse ser levado a cabo de maneira cristalina, meridiana, legal e ética. Dele se pode esperar tudo o que não queremos que aconteça. E, dita a tal monocórdia frase, acendeu um dos seus charutos, a fim de mostrar poder alcapônico, de que os comuns dos mortais devem ter o maior respeito.

Como diria um meu conterrâneo, depois de algumas doses daquela que matou o guarda, Eurico se lascou-se. Isto é se ferrou de frente e de fundos. Seu time anda pior que carro atolado, é motivo de chacotas até de torcedores de equipes da segunda divisão, cujos nomes não citarei aqui para não me denunciar, nem ao meus amigos Zatonio Lahud Neto, Zé Sérgio, Ricardo Baresi, Fábio Neves, Sílvia Brito, Sueli Senna, para ficar só nos mais comedidos e equilibrados.

Por isso tudo é que estou pesquisando um bom lugar para que ele ancore seu “Respeito voltou”, e encontrei um bom sítio, como dizem nossos amigos lusos, que aí vai até mesmo com o código de endereçamento postal, para facilitar a que lhe passemos telegramas de boa chegada: Billings, Chukotka Autonomous Okrug, Russia, 689380. Aproveito, também, para apresentar o mapa de onde encontrar Billings.

Boa viagem, Eurico “O Respeito Voltou” Miranda! Vaya com Dios, querido! Vaya com Dios, amor!*

Map of Russia - Chukotka Autonomous Okrug (2008-03).svg

Billings fica em algum lugar ao norte daquela mancha vermelha, na Sibéria (imagem em pt.wikipedia.org).

Биллингс.jpg

Eis Billings (em pt.wikipedia.org).

 

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* Refrão do bolero Vaya com Dios, de autoria de Larry Russel / Inez James / Buddy Pepper.

FIM DA COPA, FIM DA LINHA

A nossa Copa, aquela que prometeu – e tenho a impressão de que, em parte, cumpriu – ser a melhor de todas as Copas, terminou para nós, brasileiros, na vala suja da rua. Nem mesmo uma cozinha mal arranjada sobrou para o nosso futebol.

Claro que há muito não detemos o monopólio do nobre esporte bretão, como já o fizemos. Perdemos a preciosidade do drible, do toque de bola – não esse tic-tac enfadonho inventado na Espanha e que tanto me entorpece ao ver os jogos –, mas aquele toque refinado, aquele passe preciso e precioso, que nos fez ser reconhecidos como país do futebol. Hoje não passamos de um arremedo daquilo que já soubemos fazer tão bem.

O tal de futebol de resultados, apregoado por uns tantos, não resultou em nada. Nossa participação na “nossa” Copa foi catastrófica, vergonhosa. Muito pior do que em 1950. Só não foi trágica como aquela, porque a tragédia foi tão grande que se transformou numa comédia de mau gosto.

Os sete a um que a Alemanha nos impôs, sem muito esforço, revelou que não estávamos preparados nem para tomar o metrô em direção ao estádio, quanto mais a pretender ser a equipe campeã do mundo. Os três que, posteriormente, a Holanda nos sapecou foram até melancólicos, sem gosto maior para os holandeses, diante de um bando de jogadores, pagos regiamente, mas que não fizeram seu serviço a contento. Ganham muito bem, cortam os cabelos dos modos mais estapafúrdios, mas não sabem cumprir com o mínimo que se espera de profissionais de alto nível, como se pensa que sejam.

A sorte é que hoje, diferentemente de 50, o povo brasileiro tem o espírito mais esculhambado, menos circunspecto, diante de tantas mazelas por que passa, que tirou de letra – para usar uma expressão do futebol – a vergonheira que esta Seleção lançou sobre a história do futebol brasileiro. Nunca na história deste país, passamos vexame tão grande; humilhação tão desclassificante em termos esportivos.

Que, pelo menos, isto sirva para mostrar aos poderosos que detêm os destinos do futebol brasileiro que chegamos ao fim da linha nesta Copa.

 

Imagem em sociedadedospoetasamigos.blogspot.com.

BRASIL X CHILE E O TRAVESSÃO

O jogo de ontem entre Brasil e Chile, pela Copa do Mundo, mostrou algumas coisas, segundo minha mais alta convicção.

Primeiro que não jogamos bem, sobretudo no segundo tempo da partida. Como, aliás, temos feito neste mundial, exceção, talvez, apenas ao jogo contra Camarões. Isto está sendo o prenúncio de algo mais interessante para nossa Seleção. Na Copa da Espanha, por exemplo, jogamos pra caramba e não ganhamos pô… nenhuma. E tínhamos uma equipe que alguns consideram até melhor do que as que ganharam alguma coisa. Eu, particularmente, não concordo.

Em segundo lugar, a equipe do Chile chegou aqui com a empáfia argentina, mas sem o seu futebol mais competitivo. E os deuses do futebol resolveram dar uma lição aos chilenos: antes, joguem mais, para que la suerte também esteja do seu lado. Ou o amigo não considera as bolas na trave milagres em favor do Brasil? Claro que foram. Isto entra na conta daquela velha premissa de Nelson Rodrigues: até para se atravessar uma rua, a pessoa tem de ter sorte. Era seu pressuposto para analisar vários lances de partidas em suas páginas memoráveis. Por isso é que tenho a convicção de que os deuses do futebol resolveram dar uma lição à seleção chilena. Quem é ela para chegar na casa da seleção mais vitoriosa da competição e achar que estava entrando pela porta da cozinha, cheia de intimidades, cheia de nós pelas costas?

Bem feito para os chilenos! E menos mal para nós, que tivemos a ventura de ter Júlio César de volta aos bons tempos, com defesas milagrosas, e a sorte de, na nossa meta, haver uma trave e um travessão, nossos 12° e 13° jogadores.

 

Imagem em crc22junhoamor.blogspot.com.

ROUBADO É MELHOR!

A afirmação do goleiro do Flamengo, ao final da partida com o Vasco, pela final do campeonato carioca de 2014, reflete muito bem o que tem ocorrido com frequência no futebol brasileiro de norte a sul. Uma falta de ética total, uma falta de respeito pela lisura do jogo, pelos princípios da correção nas relações humanas. O futebol acaba refletindo apenas o que ocorre na sociedade em geral. Mas haveremos de convir que, como dizíamos em Carabuçu, minha terrinha natal, é meio muito. Não se pode ter essa desfaçatez pública, achando que é coisa normal. Aliás, parece coisa normal no Brasil da famosa lei de Gérson (coitado do Gérson!). É preciso levar vantagem em tudo, a qualquer custo.

O Flamengo tem um histórico em vantagens ilegais e irregulares em suas conquistas mais que outros clubes. Seria o peso da torcida a favorecê-lo dentro de campo desta forma? Ou, simplesmente, os árbitros assumem sua paixão desavergonhadamente e apitam em favor do rubro-negro e não em favor da justiça do jogo?

E o pior é quando a mulher do árbitro solta em rede social que já sabe o resultado da partida antecipadamente. Será que o marido lhe confessou alguma coisa a respeito de sua conduta na partida? Ou será que isso é coisa que nem é preciso conversar com a esposa, pois já está implícito em sua conduta?

Mais esse campeonato do Flamengo fica, deste modo, manchado pelo “erro” suspeito. Eu mesmo, sentado em minha poltrona em casa, vi na hora do lance que a posição do ataque era irregular. E, como eu, penso que milhares de espectadores também perceberam isso. Mas o bandeirinha, bem colocado, diga-se de passagem, “não viu”. E ele está ali para ver, para observar. Ninguém melhor que ele seria capaz de notar a irregularidade, já que a sua posição é privilegiada. E ele foi treinado para isso, ganha para isso e tem a obrigação de desempenhar seu papel com isenção.

Não sou vascaíno, nem flamenguista, como sabem os amigos. Na condição de eliminado prematuramente da disputa, estava pouco me importando com o time ganhador (ou perdedor), pois poderia fazer minha gozação com torcedores dos dois clubes. Mas é constrangedor que esse tipo de ocorrência venha se repetindo assim: o Flamengo é sempre beneficiado pela arbitragem em lances duvidosos – ou clamorosos, como o de ontem.

O Vasco foi vice mais uma vez. Azar do Vasco! Mas o campeonato do Flamengo está definitivamente manchado pelo garfo monumental que Sua Senhoria e seu auxiliar aplicaram no Bacalhau. Talvez tenha sido um tipo de premonição, mas sábado o bacalhau estava a muito bom preço no CADEG, em Benfica. Talvez isso já tenha sido um mau sinal.

Por outro lado – agora comentando apenas as ocorrências do jogo -, não posso deixar de concordar com meu irmão Gutenberg, em mensagem que enviou logo após o final do jogo: o zagueiro do Vasco não podia deixar o campo naquele momento. Fosse para o sacrifício, que teria muito mais mérito com a torcida. Talvez Nélson Rodrigues dissesse, diante do fato, que só com fratura exposta ele poderia se retirar. Todas as outras dores seriam mais suportáveis do que a vergonha de se repetir vice diante do maior rival. Mal comparando sua atitude, é como se o canhoneiro de Napoleão Bonaparte, no derradeiro instante de botar abaixo a brigada inimiga que avança, fosse para trás de uma moita cuidar de suas necessidades fisiológicas. O zagueiro do Vasco, também como dizíamos na terrinha natal, cagou na retranca.

Mas roubado é melhor só pode ser ética de ladrão! Não, de cidadão!

 

Imagem em toinhoffilho.blogspot.com.

O TIME DO BOTAFOGO É TÃO RUIM QUANTO O DO FLAMENGO

 

Hoje fico pensando no tanto que torci, que torcemos os botafoguenses, para que o Botafogo chegasse à zona de classificação para a Libertadores no último campeonato brasileiro. Torcemos demais, e todos sabem bem disso, até a última rodada. Torcemos pra caramba, como há muito não o fazíamos, para que tivéssemos o direito de disputar a copa sul-americana. Chegados à Libertadores, não nos foi dado o direito de torcer tanto, quanto fizemos anteriormente. Nosso pífio time foi desclassificado ontem, não tanto pelo time do Papa Francisco, mas pelo mau resultado contra o Unión Española no Maracanã, quando perdemos por 1×0.

Ontem, contudo, pudemos ver o interesse papal na disputa. E não adiantaram as mandigas que fizemos contra o San Lorenzo. Parece que Sua Santidade está com moral com O Lá de Cima. O primeiro gol, com certeza, teve o pé do Papa a desviar a bola para o fundo das redes. No segundo, foi a pata do demo a (des)orientar o pé do Ayrton, aquele que deveria jogar com um defensor público ao lado. Maldito! E o terceiro foi, definitivamente, para selar a dramática classificação do time dos nossos Hermanos, obra do Homem. Talvez tenha determinado a São Lourenço, em carne e espírito, apoderar-se do pé de Piatti.

Nosso time é fraco. Meu amigo Rogério Barbosa sempre disse tal coisa para mim, mas meus ouvidos de esperança não entendiam direito sua mensagem. E tentava argumentar que éramos melhores do que o Flamengo, por exemplo.

Eu estava completamente equivocado. Nosso time é tão ruim quanto o do Flamengo. Lodeiro e Jorge Wagner não produzem para o time. Este último, inclusive, contribuiu para o primeiro gol. Lodeiro, por exemplo, só acerta passes laterais e recuados. Passe à frente não está no cardápio de suas jogadas. Júlio César está constantemente brindando com jogadas peculiares, que mais ajudam o inimigo que a nós mesmos. E Dória, nossa grande revelação, tem-se revelado inseguro, ineficiente na função que lhe deram de sair com a bola de nosso campo de defesa. Para coroar, o time não tem padrão de jogo. Ou, aliás, tem padrão nenhum. O que dá no mesmo.

Do técnico não direi nada, pois a aposta foi da diretoria do clube e ela que se explique. Em paralelo com a Educação, só posso dizer que nunca soube de professor de pós-graduação que não tenha os títulos necessários a exercer a função. E a Libertadores é a pós-graduação para o futebol sul-americano, pois não?

Mas o Barcelona também foi eliminado. Estamos empatados também com o time catalão. Assim somos ruins como o Flamengo e o Barcelona.

Não sei se isso me conforma!

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