CERTOS PREGÕES

Meu netinho é encantado com o pregão da caminhonete que passa pelas ruas do bairro à cata de velharias:

– Panela velha, máquina de lavar velha, geladeira velha!

A emissão que se espalha no ar vem metalizada pela baixa qualidade do sistema de som do carro. Talvez seja isso o mais interessante para ele. A voz do locutor sai espremida, rascante, metálica:

– Ventilador velho, liquidificador velho, geladeira velha!

Certo dia, rindo, ele emendou:

– Vovô velho!

Mas ficou chateado quando eu disse “Francisco velho!”.

Os pregões são formas orais tradicionais usadas por ambulantes para anunciar a mercadoria à venda. Vem desde que o homem saiu com os produtos de sua colheita ao encontro de possíveis compradores, pelas ruas das vilas e das cidades. Era preciso anunciar.

No caso específico da caminhonete do ferro-velho, o que se anuncia é o que se compra, diferentemente dos pregões tradicionais.

Normalmente os pregões se resumem a enunciar o nome da mercadoria ou do seu vendedor:

– Olha a banana! Olha o bananeiro!

– Olha o peixeiro!

– Olha a laranja! Olha o laranjeiro!

Um ou outro tinham formas mais elaboradas, como versinhos rústicos, como do vendedor de pirulitos:

– Olha o pirulito americano: bota na boca e sai “chupano”!

Uns usavam o humor para chamar a atenção:

– Moça bonita não paga. Mas também não leva!

Escuto pregões desde que me entendo por gente. Lá na minha Carabuçu natal eles existiam. Eu mesmo já os produzi, em moleque. Saía à venda das laranjas da minha avó. Confesso, no entanto, que tinha certa vergonha de sair gritando pelas ruas miúdas da vila.

Quando cheguei a Niterói, em 1967, deparei com o centro da cidade coalhada de camelôs, uns mais histriônicos que outros, mas todos com seus pregões reconhecidos, à cata de clientes.

Havia um que sempre se postava na esquina da Avenida Amaral Peixoto com a Rua Visconde do Uruguai e anunciava, com sua voz espremida e ligeiramente gutural, um pregão bem diferente, só decodificado ao se ver o ele que vendia:

– Quem tem criança na escola! Quem tem criança na escola!

O /s/ de escola saía bastante chiado, como é comum ao carioca. Assim era a forma de tentar vender seus cadernos.

Outro, que vendia traquitanas para a cozinha, nas imediações, dizia uma frase também bem estranha, enquanto manipulava o objeto:

– Não resta prática, nem tampouco habilidade!

E eu ficava intrigado com aquele verbo restar na frase. Até que meu amigo Valter Bretas esclareceu que o camelô deveria querer dizer “não requer prática”. Era realmente isso: o treco era de fácil manejo.

Tempos depois tive minha atenção despertada pelos camelôs de La Paz, na Bolívia. Observei que seus pregões tinham uma estrutura fixa, na maior parte das vezes: o nome da mercadoria era enunciado duas vez na forma normal e uma terceira vez, na forma diminutiva.

– Pañuelos! Pañuelos! Pañuelitos!

– Chompas! Chompas! Chompitas!

– Ponchos! Ponchos! Ponchitos!

Ainda que o terceiro termo não estivesse no diminutivo, a forma tríplice era uma constante:

– Chicha blanca! Chica blanca! Chicha blanca!

Outro camelô, este já no Rio de Janeiro, no calçadão da Rua São José, lá pelos anos 70/80, era uma figura e tanto. Estava sempre de paletó e gravata, óculos escuros, cabelos cortados rentes. Vendia baralhos, que expunha sobre sua pequena banca, e pomada japonesa, que ficava escondida sob ela. Os baralhos eram anunciados aos brados; a pomada japonesa, contudo, era apregoada em um tom bem baixo.

– BARALHOS DE NYLON! BARALHOS DE PLÁSTICO! Pomada japonesa!

Cada um encontra o tom certo, o ritmo adequado, a fórmula capaz de encantar o possível comprador. Outros, contudo, por certas limitações, acabam criando quase um pânico nos ouvintes. Era o caso do Zé do Ovo, já citado aqui em outra postagem.

Zé do Ovo era um pobre coitado, deserdado da vida e do juízo perfeito, que minha sogra como que adotou ainda adolescente. Por vezes ele passava uma temporada em sua casa e era tratado com um filho a mais. Mas sempre apresentou algum transtorno e era tido como meio lelé da cuca. Quando eu o conheci, ele já era um homem feito e sempre estava por lá. Em alguns momentos, colhia folhas de couve da horta da dona Judith, colocava numa cesta e saía a apregoar pelas ruas de Miracema:

– Olha o “coveiro”! Olha o “coveiro”!

Mas, normalmente, voltava para casa todo feliz, com seu sorriso banguela, a cesta vazia e o dinheirinho miúdo no bolso.

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Jean Baptiste Debret, Negras quitandeiras, séc. 19 (em pinterest.com).

FUGINDO DA MORTE

 

Nascemos já com o compromisso de resistir, de tentar ficar longe da morte, a inominada, a Dama Branca de Manuel Bandeira, que o espreitou, tuberculoso que era, desde jovem até o seu passamento, já com oitenta e dois anos. Eu não fujo à regra. Adentrei os setenta com o vigor da idade, a despeito da avaliação de menoscabo do esculápio que me submeteu a uma prova de esforço nos primeiros dias do ano, numa esteira ergométrica miserenta, e revelou que meu preparo físico é fraco. Não precisava disso. Eu já sabia. Abuso na preguiça, por conta de não haver cardíacos na família. Morremos de câncer, normalmente, ou de diabetes. O que vier primeiro. Sem preferências. Por isso me cuido. Ao meu modo, evidentemente. Tudo porque, como disse alhures, não almejo a paz dos cemitérios tão cedo.

Vou aqui, então, relatar aos amigos as providências, condutas e jeitinhos para adiar o mais que puder a morte, através da explicação de seus diversos torneios vocabulares, a fim de que possa orientá-los em suas vidas. Minha família tem o péssimo hábito de ser longeva.

Vamos a eles.

ABOTOAR O PALETÓ: Não tenho mais paletós. Minto. Até tenho, para cerimônias formais, mas não lhes dou confiança. Aliás vou doá-los, assim que termine este texto. Se não conseguir me desvencilhar deles tão logo, vou arrancar-lhes os botões, a fim de não correr risco de abotoá-los inadvertidamente.

ESPICHAR AS CANELAS: Sou renitente! Não espicho! Tenho o cuidado de sempre manter meus joelhos dobrados, até mesmo quando durmo, no intuito de prevenir qualquer incidente grave.

COMER CAPIM PELA RAIZ: Raiz? Não tenho comido nada. Nem aipim, beterraba, batata, inhame, cenoura. Minha glicose anda saliente, e estou me abstendo de consumir coisas subterrâneas. Todas, invariavelmente, viram açúcar.

VESTIR O PALETÓ DE MADEIRA: Se estou abrindo mão dos paletós de tecido, muito mais confortáveis, por que iria usar paletó de madeira? Seria, inclusive, pouco ecológico. E, também, porque o caimento não fica bem. A madeira não se conforma à minha anatomia um tanto irregular, na parte situada nas imediações do ventre. Se é que me entendem.

PASSAR DESTA PARA MELHOR: Não comprei nenhuma passagem para melhor. Portanto não vou passar para lugar nenhum. Se houver vale transporte para isso, pode ser que eu estude a possibilidade, num remoto futuro. Caso contrário, fico por aqui mesmo: nesta!

VIRAR PRESUNTO: Não fui criado com bolotas, nem nasci em áreas demarcadas propícias, o famoso terroir. A não ser que Carabuçu seja considerado um terroir caboclo! Assim minha carne e minha gordura não se prestam a virar um bom presunto de Chaves, Barroso, Barrancos, Vinhais, Pata Negra, de Parma, dentre outros menos conhecidos. Nem mesmo acredito que sirvam para mortandela.

TER AS HORAS CONTADAS: Não uso relógio desde a juventude. Assim que terminei o curso primário, no saudoso Grupo Escolar Marcílio Dias, em Carabuçu, ganhei um relógio de presente do prefeito do município. Foi o único. Nem sei onde anda mais. Por isso, não conto as horas. Deixo para os mais preocupados com o tempo.

IR PARA A CIDADE DOS PÉS JUNTOS: Como no caso de partir desta para melhor, não comprei passagem. E, ademais, não encontrei tal cidade no planisfério. Nem mesmo o GPS, o Viber ou o Google Maps conseguiram localizá-la. Estou abortando a viagem sempre.

ENTRAR NO SONO ETERNO: Não consigo dormir muito, embora goste bastante. Um pouquinho só, umas oito horas, me basta a cada dia. Esse negócio de sono eterno não faz minha cabeça. Prefiro acordar sempre no dia seguinte e beber um generoso e fumegante gole de café amargo. Assim também vale para o tal descanso eterno. Como diz o vulgo, prefiro viver cansado, embora aposentado em tempo integral.

ESTAR COM O PÉ NA COVA: Não sou couve, alface ou rúcula, para enfiar o pé em cova nenhuma. Talvez um pouco hidropônico. Sou desenraizado. Plano acima da linha do chão por dois centímetros de sola de sapato ou de sandálias de dedo, que me hão de evitar enfiar o pé na cova. Estou fora!

BATER AS BOTAS: Desde os dezoito anos, época em que servi o glorioso exército nacional, não uso botas. Nem nunca comprei. Já há bom tempo só tenho mocassins, que não servem para bater em nada, nem em ninguém. E, quando entro na areia da praia para fotografar, lá mesmo bato os mocassins na beira do calçadão, para me livrar dos grãozinhos que penetram sem convite.

DAR COM OS COSTADOS NA CERCA: Acerca, sem trocadilho, desta expressão, já me expressei aqui em outra postagem (Clique aqui para ver.). Nem chego perto de cerca, a fim de evitar, se falsear a passada, que eu possa esbarrar em qualquer tipo de cerca, de madeira, bambu, cerca-pinto, arame farpado, ou mesmo e sobretudo elétrica. Minhas costas estão incólumes até hoje.

DAR O ÚLTIMO SUSPIRO: Esta expressão é dúbia. Suspiro é também o nome de um doce muito apreciado, feito de clara de ovo, açúcar e tenras farpelas de casca de limão, que se desmancha na boca milagrosamente, mas que também eleva a taxa de glicose aos píncaros. Quem compra um pacote de suspiros dá qualquer um deles, menos o último, que é justamente o que encerra, enfeixa, potencializa seu derradeiro paladar. Ninguém dá o último suspiro. Eu, por questões já ditas acima, nem compro o pacote. Ainda mais dar o último suspiro! Quanto ao suspiro propriamente dito, esse que movimenta o ar que entra e sai dos pulmões, quero informar que vai bem obrigado. Meu fole anatômico tem funcionado muito bem. Os pulmões continuam livres e desimpedidos. Espero, assim, dar o último suspiro só depois de morto.

Por hoje é isso! Até a próxima encarnação!

 

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Ilustração de Albrecht Dürer (1471-1528),

FAZER OU NÃO FAZER

Mesmo que você seja um preguiço contumaz – e não vou aqui enumerar alguns que me conheço –, sempre terá o que fazer do ponto de vista linguístico. Nossa língua nos provê de um bom número de expressões do fazer que, propriamente, podem não produzir nenhuma obra que se preze, mas, ao contrário, servirão para expressar muitos e variados conceitos. Aliás, conceitos pertinentes a respeito das coisas do dia a dia (Até hoje não concordo muito com a reforma ortográfica que suprimiu o trema e escorraçou o hífen de muitas palavras de forma inexplicável.).

Consegui arrolar algumas delas para a sua apreciação, caro leitor.

Aí vão.

Fazer a vida – Trabalhar; exercer certo ramo de atividade; sair do estado de inatividade para o de produtividade.

Fazer água – Romper-se o casco, com a consequente entrada de água na embarcação. Produzir resultado pífio ou aquém da expectativa; resultar uma ação em consequência desprezível.

Fazer barulho – Alardear; manifestar-se em altos brados; propagar; tornar público.

Fazer beiço/beicinho – Chorar; começar a chorar; fingir chorar a fim de comover o outro.

Fazer bobice – Fornicar; manter relações sexuais. Agir de forma debochada, ou com brincadeira. / Também na forma popular interiorana: fazer bobiça.

Fazer cara de paisagem: Fingir distanciamento do que acontece; mostrar-se alheio ou indiferente à situação.

Fazer caminho – Viajar; ir em busca de realizar algo; sair. Procurar um rumo na vida.

Fazer cera – Demorar propositadamente a fazer algo, na intenção de ganhar tempo; remanchar; retardar a execução de uma tarefa. No futebol, demorar na reposição da bola em jogo, a fim de ganhar tempo, quando o próprio time está com o placar favorável.

Fazer chacota – Zombar; tratar com desconsideração ou desprezo.

Fazer comichão – Instigar; incentivar; motivar.

Fazer (cu) doce – Colocar-se acima da situação, fingindo não se interessar por aquilo que acontece; fingir distanciamento; fingir superioridade.

Fazer das tripas coração – Transformar, pelo trabalho exaustivo, algo negativo em positivo. Produzir bom resultado, a partir de dados negativos.

Fazer de conta – Fingir; fabular.

Fazer feio/ bonito – Realizar algo com bom/mau resultado; errar/acertar na execução de uma tarefa.

Fazer figa – Tentar precaver-se de maus resultados; Fingir não dar importância a algo.

Fazer figura/cena – Fazer pose; fingir um estado de espírito; mostrar-se; pavonear-se.

Fazer filho – Engravidar alguém (o homem); engravidar-se (a mulher).

Fazer firula – Expressão oriunda da linguagem do futebol: tentar ou executar jogada de efeito bonito, mas sem aplicação prática na partida. Fazer algo sem praticidade, apenas na tentativa de aparecer para o outro.

Fazer gato e sapato – Tratar de maneira irresponsável reiteradamente; abusar.

Fazer mal – Manter o homem relações sexuais com mulher inexperiente, normalmente virgem.

Fazer merda/cagada – Fazer algo que produza resultado negativo, por imperícia ou precipitação; fazer algo malfeito, inútil ou sem bom acabamento.

Fazer mundo – Viajar; viajar sem roteiro pré-programado; sair em busca de realizar algo; viver vida errante.

Fazer o diabo – Agir de forma abusada e excessiva. Exercer muitas atividades; fazer muitas coisas.

Fazer onda – Mostrar-se superior diante do outro em determinada situação. Também se diz tirar onda.

Fazer ouvidos de mercador – Fingir que não ouve algo que é dito, a fim de não se obrigar a reagir.

Fazer piada/troça – Zombar; não levar a sério um assunto; ridicularizar.

Fazer pouco – Desconsiderar; levar em pouca conta ou consideração.

Fazer presença – Estar presente; comparecer; estar em determinado lugar ou situação, sem se comprometer com o que ocorre.

Fazer-se ao mar – Partir em viagem marítima; navegar.

Fazer-se de morto – Não participar de determinada atividade ou opinião, para não se compromete; omitir-se.

Fazer-se de vítima – Aparentar inocência para fugir à responsabilidade de sua própria ação; dissimular.

Se você, leitor, quiser aplicar algumas dessas expressões a alguém que conheça, da vida pública ou privada, esteja à vontade. Não sou proprietário delas; é a língua que nos provê deste vasto repertório de palavras e expressões de que podemos dispor, para exprimir nosso conceito do mundo que nos cera. E pelos sete lados, como numa aposta do jogo de bicho.

Até a próxima, que tenho mais o que fazer!

 

Tiziano, Sísifo, 1549, Museu do Prado (em pt.wikipedia.org).

BRASIL DE CABO A RABO (III)

Continuando nossa saga de maledicência, escárnio e maldizer dos brasileiros, aí vão mais dez frases de (d)efeito, segundo a minha visão deturpada de nossa pátria mãe gentil e seus asseclas. Devo dizer aos queridos leitores que O Boca do Inferno, Gregório de Matos, muito mais já disse, em piores termos e há muito tempo. Portanto tenho precedentes que me justificam. Aliás, sou até soft, se é que me entendem.

  1. Em Mato Grosso do Sul há norte ou o estado é desnorteado?
  2. Falta alguma coisa na identidade de Mato Grosso, em comparação ao vizinho do sul.
  3. Rondon rondou Guaporé por tanto tempo que acabou descobrindo Rondônia.
  4. No Pará os paraenses não param nem para descansar.
  5. Nas Alagoas, alagoano distraído se afoga até em Cacimbinhas.
  6. Paraíba já era moderna desde Luiz Gonzaga: “Paraíba masculina, muié macho, sim, sinhô!”.
  7. São Paulo vive entre as chuvas copiosas e as secas sequiosas.
  8. O Rio de Janeiro, além de lindo e maravilhoso, é um horror nos outros quesitos do desfile.
  9. De charque em charque, o gaúcho tem seus achaques.
  10. Em Tocantins, se toca mais boi que instrumentos afins.

Até a próxima!

 

Gregório de Matos Guerra (ilustração em pt.wikipedia.org).

BRASIL DE CABO A RABO (II)

Estou dando sequência à série de frases sobre os mais distintos brasileiros. Espero que não arranje inimizades interestaduais e regionais. Logo eu que gosto tanto de andar por todos os lados deste país de dimensões sentimentais!

Aí vão mais dez observações sobre os brasileiros.

  1. Todo carioca é fluminense; alguns, porém, são botafoguenses, vascaínos, flamenguistas. Até americanos há!
  2. No Ceará, não tem disso, nem daquilo; tem é Padim Padre Ciço; mas também tem Cid, mas tem Ciro. E olhe lá!
  3. No mapa do Brasil, o Piauí é um odre de couro de bode, repleto de piauienses.
  4. Em Brasília, vale o neoditado: Aqui se faz, aqui se paga a propina.
  5. No Maranhão, se há sarna não sei, não é, Sarney?
  6. Creia: o Acre existe, apesar dos acreanos incréus.
  7. Roraima, para os jornalistas da Globo, é apenas uma questão de prosódia.
  8. Desde que Sarney se elegeu senador pelo Amapá, o estado vai de mal a pior, sem parar.
  9. Goiás está afundado em superprodução de duplas sertanejas.
  10. Um jeito besta de ser do contra em Sergipe é ser gente.

Até a próxima!

 

Mapa do Brasil de 1822, ano da Independência (imagem em bloguito.com.br).

DEUS E O DIABO (II)

Dando continuidade a algo que nem deveria ter começado, trago hoje mais dez pretensiosas observações acerca da eterna disputa entre Deus e o Diabo, na verdade Criador e Criatura, cujas consequências recaem sobre nós, pobres mortais.

Espero que com essas frases a vida de meus leitores se torne menos amarga, ou, pelo menos, mais risível.

Aí vão elas.

  1. Deus criou o azeite de dendê; o Diabo, a diarreia.
  2. Deus criou a compra a prestação; o Diabo, o SPC e o SERASA.
  3. Deus criou as licitações do governo; o Diabo, a delação premiada.
  4. Deus criou o paraíso; o Diabo, a demarcação de terras.
  5. Deus criou o pudim de leite condensado; o Diabo, o diabetes.
  6. Deus criou o cinema mudo; o Diabo, o filme musical.
  7. Deus criou o asfalto liso; o Diabo, as estradas brasileiras.
  8. Deus criou os rios, os lagos e os açudes: o Diabo, a SABESP.
  9. Deus criou os livros e as bibliotecas; o Diabo, a traça.
  10. Deus criou as férias; o Diabo, o câmbio e o preço dos hotéis.

 

Ilustração em joaoparanista.blogspot.com.

DEUS E O DIABO

Glauber Rocha (1939-1981), gênio irrequieto da cena cultural brasileira e cineasta multívoco, criou alguns dos filmes mais representativos do cinema brasileiro, naquilo que se convencionou chamar de Cinema Novo. Dentre suas obras mais importantes, está Deus e o Diabo na terra do sol, espécie de faroeste caboclo, como diz a letra daquela música daquele grupo daquele menino que morreu daquilo.

Glauber era um gênio, até mesmo incompreendido. É que vários espectadores saíam das salas de cinema sem entender muito bem o sentido de suas obras.

Mas não é isso que eu quero dizer aqui para você, meu caro leitor.

É que, estimulado pelo filme famoso – e só agora, mais de cinquenta anos do seu lançamento (1963) – venci certa preguiça baiana que me acompanha e produzi um série de frases de (d)efeito com o tema. Trago algumas delas hoje aqui, para sua apreciação. Ou não! – como diria outro baiano famoso. Você pode muito bem achar tudo uma grande bobagem. E não estará errado. É tudo mesmo uma grande bobagem.

Aí vão as dez primeiras da série DEUS E O DIABO.

  1. Deus criou o dente; o Diabo botou azeitona com caroço na empada.
  2. Deus criou a buchada de bode; o Diabo, a pimenta malagueta.
  3. Deus criou a nudez feminina; o Diabo, a cegueira masculina.
  4. Deus criou o futebol; o Diabo, a FIFA, a CBF, as federações estaduais e seus dirigentes.
  5. Deus criou a seleção brasileira; o Diabo, a alemã.
  6. Deus criou o dinheiro; o Diabo, o sistema bancário.
  7. Deus criou o trabalho; o Diabo, o patrão.
  8. Deus criou a aposentadoria; o Diabo, o fator previdenciário.
  9. Deus criou o sexo; o Diabo, o preservativo.
  10. Deus criou a adesão; o Diabo, o PMDB.

 

Até a próxima!

 

Cartaz do famoso filme de Glauber Rocha.

ALGUMAS VERDADES QUE ESTOU FORMULANDO PARA CRIAR UMA RELIGIÃO, UMA FILOSOFIA, UM PARTIDO POLÍTICO OU UM PAPO DE BOTEQUIM

  1. A natureza humana é tão desumana, que – penso – nem chega a ser natural.
  2. Quando dois intrusos se metem em negócio alheio, podem ter certeza de que eles é que lucrarão.
  3. A pior espécie de canalha pode ser mais letal que cicuta, veneno de surucucu ou chumbinho para rato.
  4. Numa sociedade desequilibrada, não há balança que resista.
  5. A violência gera violência, assim como a impaciência é um empecilho à paciência. Ora, tenham paciência!
  6. Quanto mais ideias pululam na cabeça de um desocupado, mais cabeças hão de rolar em nome delas.
  7. Uma premissa bem pensada pode levar um sábio a gastar bom tempo para despremissá-la.
  8. A urna não tem mais boca. Tem tela. E tenho a impressão de que nunca teve juízo perfeito. Nem mesmo quando pensávamos que ela estaria certa.
  9. Alguns políticos não resistem nem mesmo a uma análise morfológica. Quanto mais a uma análise ética.
  10. É preciso muito amor para suportar ser brasileiro. (Desculpe, Noca da Portela e Tião da Miracema!)
  11. Quando me distraio muito, é porque estou prestando atenção ao que não interessa aos outros. Quando estou concentrado, podem saber que lá vem bobagem. Mais ou menos por aí.
  12. Já compus muita música embaixo do chuveiro. Pena que a tecnologia não tenha inventado um chuveiro com gravador. O mundo não sabe o compositor que perde.
  13. Todo lucro é capitalista. Todo imposto é socialista. Todo prejuízo é do povo, mesmo!
  14. Misericórdia é um coração miserável que está de acordo com quase tudo de errado que se faz no mundo.
  15. Athina Onassis, imagino, nunca atinou bem com o montante da herança que recebeu do avô e fica dando pulinhos de cavalo mundo afora.
  16. É bom que se diga que Aristóteles Onassis não foi aluno de Platão. Mas, de John Locke e Adam Smith, certamente foi um dos melhores.
  17. Podem ter certeza: todo grande pensador jamais teve um eito de lavoura para carpir, nem uma mulher exigindo que ele consertasse o gotejamento do chuveiro todo santo dia. Não há filosofia que resista a tanto!
  18. Toda formulação de prioridades governamentais é precedida da composição de uma comissão específica e, quase sempre, regiamente remunerada. Depois de formuladas, as prioridades são esquecidas em nome da governabilidade, que se constitui em distribuir cargos aos correligionários de primeira e última hora.
  19. Houve um presidente que disse que governar é abrir estradas. De lá para cá, todos os demais presidentes têm o cuidado de abrir buracos nas estradas que aquele lá idealizou.
  20. Sempre votei. Nunca me omiti. Nunca votei em branco. Sempre compareci às eleições e indiquei os candidatos que me pareciam os melhores. Hoje não tenho muita certeza de nada. Acho que andei votando como nossos políticos votam no Congresso Nacional, nas Assembleias Legislativas e nas Câmaras de Vereadores. Isso, quando votam!

 

Ficheiro:Aristotle Altemps Detail.jpg

Aristóteles, não-Onassis (em pt.wikipedia.org).

LÍNGUA ESTROPIADA

Começa que depauperado não é o cara que fez cirurgia de fimose.

E aí as pessoas vão confundindo as coisas, usando as palavras de qualquer maneira, sem pensar um pouco. Esquecem-se de que o pensamento precede a expressão. Então é preciso refletir, antes de abrir a boca e deixar sair uma enxurrada de besteiras.

Tive uma colega de trabalho que fingia ter feito Direito – ou, de fato, teria feito, só que nas coxas – e se metia a falar difícil, a usar frases feitas, expressões consagradas, completamente deslocadas do contexto ou, simplesmente, misturadas. Nessas oportunidades, sempre que ia soltar uma pérola, ajeitava os óculos, como que a conferir autoridade no que diria. Ouvi-a, por exemplo, dizer que certo fato era “o inferno de Cervantes” e que uma atitude temerária de um colega, em prol da categoria, havia sido uma “atitude pixotesca”.

Há pessoas que ouvem o galo cantar, sem saber onde. Querem colher o ovo, antes que a galinha o ponha.

A língua dever servir como instrumento de comunicação. Já dizia Chacrinha, o grande filósofo da televisão brasileira (Hahaha!), que quem não se comunica se trumbica.

Há pessoas que falam, falam, falam, e, no final, você diz: Hã? E lá se foi todo aquele caudal verborrágico pelo ralo abaixo.

Por outro lado, a sabedoria popular diz que em boca fechada não entram moscas, num sério conselho a que nos mantenhamos calados. Ou, pelo menos, que falemos o menos possível. Como recomendado nos ônibus: só o indispensável.

Contudo falar só o indispensável pode ser muito pouco, muito lacônico, conciso.

Pode não parecer, mas eu sempre tive um grande pendor pela economia das palavras. Certa vez, a professora de Literatura Francesa, no Instituto de Letras da UFF, pediu que respondêssemos às questões da prova sobre determinada leitura de um livro, com concisão. Ao trazer a prova corrigida, verifiquei que ela me tirara dois pontos, embora minhas respostas tivessem tocado os pontos certos. Reclamei. Ela alegou que as respostas haviam sido muito curtas.

– Mas a Senhora pediu concisão!

– Nem tanto, nem tanto!

E perdi lá meus dois pontos. Foi o que me fez lutar um pouco contra essa tendência.

Também quem fala menos, menos estropia a língua. Menos tem oportunidade para errar.

Uma colega de trabalho, há algum tempo, me perguntou por que as pessoas no Rio de Janeiro dizem “soltar do ônibus”. Respondi que é porque falam errado. Deve ser “saltar do ônibus”. “Ah!”, disse ela, compreendendo a expressão.

Semelhantemente ocorreu comigo, logo que cheguei a Niterói. Havia um camelô na esquina da Avenida Amaral Peixoto com Visconde Uruguai, que vendia uma traquitana para picar temperos. Aos gritos e fazendo funcionar o aparelho, anunciava:

– Não resta prática, nem tampouco habilidade!

Comentei com meu amigo Walter Bretas, manifestando meu estranhamento no uso do verbo restar. Ele, que também é de Niterói, e conhecia o camelô, deslindou o mistério:

– Ele quer dizer: não requer prática.

– Ah! – fiz eu, entendendo a linguagem estropiada do camelô.

Coitada da língua!

Imagem em seriesfreaks.blogspot.com.

DO TEMPO DO ONÇA

Há algum tempo (não muito, por certo!) publiquei no blog a postagem Lugares distantes, em que, de forma abreviada e superficial como é minha praxe, fiz um apanhado das expressões que denotam, nas frases, a noção de lugar. Aquilo que a gramática tradicional classifica como adjunto adverbial de lugar.

Como disse naquela oportunidade, pelo fato de ser interessado no fenômeno da linguagem, sempre vêm caraminholas linguísticas perturbar meu descanso remunerado de aposentadoria. Desta vez é a noção de tempo. E isto motivado por uma frase ouvida de pequeno falante de nossa mui bela língua.

Imagem em infoescola.com.

O tempo, do ponto de vista psicológico, pode ser bem diferente daquele que é medido pelo relógio e pelo calendário. As vinte e quatro horas do dia passam aceleradamente, caso você tenha muitos problemas a resolver, o que o leva a ansiar por um dia de vinte e cinco ou mais horas, por exemplo. Ao contrário, caso você esteja tranquilo, desfrutando de um ócio quase pernicioso – como se isso fosse possível –, é bem provável que aquelas mesmas horas lhe pareçam infinitas e maçantes. A este respeito, aliás, Millôr Fernandes tem uma frase excepcional, em que joga com a tensão entre essas duas percepções de tempo: “A cada mês, sobram mais dias no meu salário” (cito de memória).

No curso de Letras, aprendemos logo cedo a distinção entre o tal tempo psicológico – matéria básica da obra literária – e o tempo físico, astronômico, propriamente dito – aquele determinado para entrega dos trabalhos de literatura, por exemplo.

Mas a tradição da língua nos oferece algumas expressões interessantes, além dos óbvios hoje, ontem, amanhã, depois de amanhã, anteontem, trasantontem/ trasanteontem, agora, depois, logo, breve,, e por aí afora (Isto aqui não é aula de gramática!). Algumas dessas noções, lá em Carabuçu, dizíamos, por exemplo: onti, antonti ou antionti, tresantonti, istrudia (estoutro dia, há alguns dias) e dijaoje (hoje cedo, ainda há pouco).

As expressões que aqui me interessam estão impregnadas pelo caráter estilístico próprio de nossa língua. Vejam alguns exemplos e minhas impertinentes observações:

a)      Tempo do onça – Época antiga e imprecisa, mas bem antiga, que nos remete a um país menos povoado por gente e mais por onças e outros bichos do mato. Ou será que a falta de concordância da expressão do onça é por que já é um aportuguesamento do inglês once upon a time?

b)      Tempo do cagar de coque (de cócoras) – Tempo que precedeu à tecnologia do penico e, por consequência, à da casinha, à do vaso sanitário e, finalmente, à do water closet, com sua caixa de descarga ecológica, para xixi e cocô. Era também o tempo da frase “Vai cagar no mato!”, xingamento hoje muito brando, já que não inclui a progenitora do nosso adversário, como é próprio dos impropérios modernos. Às vezes, em determinadas situações e premido por certas circunstâncias intestinais que nem é bom lembrar, vamos da era da privada tecnológica ao tempo do cagar de coque num átimo. É só o intestino mandar!

c)       Tempo em que se amarrava cachorro com linguiça – Tempo antiquíssimo que nos remete aos primeiros dias do Éden, antes de Adão e Eva fazerem a m*rda que fizeram. Naquela altura, até mesmo os animais carnívoros eram educados e se podia facilmente amarrar um cão com este tipo de corrente.

d)      Tempo da Carochinha – Esse é um tempo em que até mesmo nossos avós, bisavós e tataravós eram criancinhas. Está lá perdido no meio daqueles livros de histórias infantis, na memória da gente. É tempo velho do tempo de nós meninos. Mais ou menos por aí. E talvez seja o que nos dá mais saudades.

e)      Tempo do ‘derréis’ (dez réis) e do vintém – Tempo bom, em que “se vivia muito bem, sem haver reclamação”, como diz o samba famoso*. E não serei eu a contestar a afirmação do sambista. Contudo penso que este tempo caro à memória era concomitante ao que vem logo a seguir.

f)       Tempo de Dondom** – Também cheio de coisas boas, segundo o sambista, pois “nossa vida era mais simples de viver”, cheio de cortesias e de boas lembranças. Até de um jogador que ninguém conhece, de um time desconhecido, o Andaraí. O bairro é logo ali mesmo, e o tempo deve estar perdido em suas ruas e vielas. Pode ser que o tempo esteja a andar aí.

g)      Naquele tempo – Expressão consagrada pela Bíblia, que dela faz muito uso, e é tradução do latim da Vulgata in illo tempore. Como os textos da Bíblia já são muito antigos, quando falam daquele tempo, deve ser coisa beirando o tempo da criação do mundo. Sei lá! Mas sempre soa como coisa antiquíssima.

h)      Tempo do rei – Este é um tempo fácil de ser encontrado nos antigamentes: é de quando houve rei. Acabou-se o rei, findou-se o tempo. Ruy Castro o utilizou em um de seus livros: Era no tempo do rei***, em que fabula peripécias de um D. Pedro I na adolescência, reinando pelas ruas do antigo Rio de Janeiro, do tempo do rei.

i)        Tempo de D. João caroço – Já este tempo é indefinível, mas bem anterior ao do rei. Pelo menos é o que se sente da expressão. E do caroço de D. João.

j)        Tempo das vacas magras – Este é um tempo atemporal, individual ou coletivo. Pode ter sido ontem, há um mês, há um ano, há muito tempo. Há um borbotão de pessoas que ainda vivem no tempo das vacas magras e ainda não têm a perspectiva de escapar dele. Vejam, então, que é um tempo sem tempo definido. Como o do trabalhador brasileiro que, segundo a propaganda do governo, saiu dele, mas, conforme notícias atuais, para lá volta daqui a pouquinho.

k)      Tempo do cinema mudo/do cinema preto e branco – Este é um tempo facilmente marcável. É só você ir à Wikipedia e ver lá. Não vou perder tempo com isso.

l)        Tempo do rádio de rabo quente – Um pouco anterior ao tempo do cinema mudo. Os chamados rádios de rabo quente apareceram no princípio do século XX e eram a alegria das pessoas. O problema é que deviam ser ligados um pouco antes, para que esquentassem e começassem a espalhar seus encantos e maravilhas modernas no ar.

Finalmente volto ao motivo inicial que me despertou estas considerações.

Pois não é que ouvi, dia desses, um menino dizendo para o outro que o seu pai era velho “do tempo em que o papel higiênico não rasgava no picote”, como se tal grande avanço tecnológico tivesse sido conseguido há décadas. O colega se espantou, pensando tratar-se da coisa mais antiga do mundo. Onde é que já se viu o papel higiênico não rasgar no lugar picotado?! Aos dois parecia um despropósito. E o coleguinha ainda falou:

– Aê, mané! Seu pai é velho pra caraca!

Ou, como diria o grande José Cândido de Carvalho, “pratrasmente de muitos anos”.

Fico por aqui, pois meu tempo acabou!

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* Saco de feijão, de Chico Santana, gravado por Beth Carvalho no elepê Nos botequins da vida (RCA, 1977).

** Tempo do Dondom, de Nei Lopes, gravado pelo autor no cd De letras e música (Universal, 2000).

*** CASTRO, Ruy. Era no tempo do rei. 1. ed. Ed. Alfaguara Brasil, 2000.