TRAQUINAGEM POÉTICA





Aristóteles e Horácio, na Antiguidade Clássica, lançaram as bases da arte poética, posteriormente atualizadas ao espírito do Renascimento por Boileau, poeta francês do século XVII, que também lançou sua Arte poética, em Paris, em 1674.
Como não desejo passar em brancas nuvens neste universo, mas tendo o senso de minhas limitações caboclas, permito-me também marcar minha estada no ambiente com estas minhas observações acerca do fazer poético, que resolvi chamar de Traquinagem poética, em que arte assume outro de seus sentidos, coisa que toda criança sabe muito bem o que é.
E seja lá o que Boileau quiser!

I.
O POETA E O VERSO
O poeta tenta
Num esforço de besta
Um verso de esteta.
Esquenta a cabeça
Rasga folhas
Racha a testa
E a porra do verso
Não presta. 

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II.
VERSO DE PÉ QUEBRADO
Distraído
O poeta ébrio
Tropeça no metro 
Do seu próprio verso
De pé quebrado
Como aliás ficou
O inglório pé
Do poeta ébrio
Após esse tropeço.

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III. 
VERSO LIVRE
O poeta está preso
Ao verso livre
E disso não escapa.
Recusa o metro sincrônico
Que amarra o verso.
Mas não tergiversa
E continua controverso
Em sua luta
Pela liberdade do verso.

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IV.
RIMA RICA I
A rima rica
Escrita	
Sobre a folha em branco
É como pérola perdida
Daquelas lançadas aos bichos
Que se depositam em bancos
De jardins de lixo. 
Se tanto!

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V.
RIMA POBRE
Às vezes
Quando pode
O poeta se socorre
De uma rima pobre.
E se alguém lhe censura
Tal recurso antiesteta
Como um urso vocifera:
Vá à merda!

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VI.
O COROLÁRIO DO POEMA
Versos iâmbicos 
Versos esdrúxulos
Palíndromos
Anacolutos 
Palimpsestos
Papiros incompletos.
Todo poema
É um susto do poeta.
E o leitor insone
Que de poesia nada entende
Fica com cara de anteontem.

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VII.
ALQUIMIA POÉTICA
O lavor do poeta não cessa:
Metáforas herméticas
Metonímias diretas
Elipses cortantes
Preciosos hipérbatos
Silepses perfeitas
Linguagem escorreita
E alguma coisa imprecisa
Que faça do seu verso
Uma festa. 

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VIII.
DILEMA DA FORMA
Entre um poema clássico
E um moderno
O estro do poeta vacila.
Ora uma rima inesperada
Ora uma aliteração cristalina
E a liberdade de versos brancos
Pululam em sua oficina
De poesia bissexta.
E o poeta hesita
Se publica ou não publica
Aquela poesia esquisita.

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IX.
RIMA RICA II
A rima é rica
Mas o poeta é pobre
A rima escorre
Como uma baba mole
Pelos dedos magros
Do poeta insone
Pela madrugada
Aberta sobre o nada.
E pela manhã cedinho
Aflora mais um poema disforme...

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X.
VERSOS E ESTROFES
Tercetos e quartetos
Quintilhas e sextilhas 
Alexandrinos debordados
Trovas incontidas
Dísticos e sonetos
Espalhados aos quatro ventos.
Mas para o ano
Só martelo alagoano.

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XI.
A GÊNESE DO POETA
Não nasceu Horácio
Não nasceu Homero
Não é Petrarca
Camões não é
Ou Virgílio
Ou Dante Alighieri
Muito menos Baudelaire
Rimbaud Bocage Chaucer
Shakespeare 
Gregório ou Góngora
Drummond de Andrade
Prévert ou Poe.
Como poeta
Soa como um grou 
Um corvo 
Uma acauã soturna.
Sua voz cavernosa
Canta versos sombrios
Anunciando o inferno
E seus desafios.

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XII.
PROSA E VERSO
O avesso do verso
É bem que não presta
Na imaginação do poeta.
Tudo que se diz em letra
Há de ter o ritmo certo
O metro correto
Uma dolente cadência. 
A estética do canto
Está acima do desencanto
Da prosa.
E só o poema se salva
Desde que Adão e Eva
Se perderam
No paraíso primevo
Crê o poeta.
Nicolas Boileau, poeta francês do século XVII (imagem colhida na Internet).

FUTEBOL: TEORIA E PRÁXIS

  1. O jogador discute com o adversário a correta posição da bola para a cobrança da falta, vence a disputa e consegue adiantar um metro, em relação ao ponto de ocorrência da infração, sob a indiferença de Sua Senhoria. O árbitro autoriza a cobrança, e o jogador recua a bola ao seu companheiro mais atrás.
  2. O jogador vai cobrar o escanteio e tenta ser esperto, adiantando a bola cerca de dois centímetros além da marca do semicírculo do escanteio, impossível de ser percebido pelo árbitro. Isso representa cerca de 0,0058823529% da distância até o meio da pequena área.  Nada que uma ínfima força a mais no chute não supere com sobras.
  3. Numa bola cruzada sobre a pequena área, defensor e atacante se precipitam em sua direção na ânsia ou de mandá-la para fora, ou de metê-la na rede. Os dois chegam juntos. A bola, capciosamente, esbarra na cabeça do defensor e vai para as redes. Como os dois estivessem ao mesmo tempo no lance, o atacante sai comemorando o tento, como se tivesse sido sua cabeçada a impulsionar a pelota para o fundo da meta. Os companheiros correm para abraçá-lo, e ele joga beijinhos para a câmara colocada à margem do campo. Só depois o VAR confirma o gol contra.
  4. O futebol é o único esporte que, após noventa minutos do tempo normal e, às vezes, mais trinta minutos de prorrogação, permite que um jogo termine sem um único gol e, ainda assim, que este mesmo jogo seja motivo de mesas redondas, comentários e análises profundas de suas causas e consequências, por uma vasta equipe de especialistas.
  5. O futebol é o único esporte em que, num jogo, um time seja superior ao outro em posse de bola, em domínio de campo, em chutes a gol, e, ainda assim, saia derrotado pelo time de pior desempenho, que atirou uma única vez a pelota em direção à meta do adversário.
  6. Não há nada mais desonroso do que, numa goleada, o famigerado gol de honra. Seria melhor assumir a desonra, sem incomodar o vencedor.
  7. O VAR, no futebol brasileiro, leva mais tempo para revisar um lance do que em outros países mundo afora, porque aqui a nossa incredulidade é tão grande, que não nos permite crer naquilo que vemos, senão naquilo que gostaríamos de ver.
  8. A cotovelada, que não é autorizada em nenhum outro esporte, é recurso comezinho na prática no nobre esporte bretão. Leonardo, jogador da seleção brasileira que foi à Copa do Mundo dos Estados Unidos em 1994, muito fez em prol da sua difusão.
  9. Dado o início do jogo, tudo que foi conjecturado antes da partida fica em suspenso, até que posteriormente as mesas-redondas tentem explicar o inexplicável: a derrota do time de melhor desempenho nos noventa minutos.
  10. O jogador que comete uma falta violenta, é expulso e reconhece, ao ser entrevistado ao final da partida, que o árbitro agiu corretamente ainda não foi inventado.
Imagem em wikipedia.org.

O TEMPO NÃO PARA

O conceito de tempo é um problema para a Filosofia e a Literatura. Para o resto das disciplinas humanas, não; principalmente para as indisciplinas.

Quando fiz o Curso de Letras, lá pelos idos de 60/70 do século passado (Isso é tempo!), aprendi a diferença entre o tempo físico – entidade concreta da realidade, mensurável por um aparelho então mecânico à época – e o tempo psicológico – entidade que se incorpora na pessoa conforme, por exemplo, o aperto por que passa e o tempo que tem para dele se safar.

Além disso, volta e meia surge um estudioso a dizer que o tempo simplesmente não existe, que é um conceito inventado pelo ser humano, para tentar organizar a zona em que transformou sua vida, a partir da primeira fogueira acesa numa caverna lá nos tempos paleolíticos (“antiga pedra”, em grego antigo). Ou será que esses tempos também não existiram?

Contudo o problema se tornou maior quando as tribos resolveram sentar praça num sítio mais propício à agricultura e passaram a observar a sucessão de estações do ano: outono, inverno, primavera e verão. E viram que aquilo as ajudava a obter maior vantagem das sementes que atiravam à terra. Era preciso prestar atenção a tal sucessão de tempo.

Quando, enfim, (Olha a noção de tempo novamente na conjunção!) domesticaram o gado e inadvertidamente deixaram talhar o leite de um dia para o outro, sob o escaldante calor de um verão qualquer do neolítico (“nova pedra”, em grego antigo – Outra vez esse tempo reincidente!), chegaram ao impasse de ter de beber todo o produto da ordenha num mesmo dia, ou passar a fazer queijo com a transformação láctea ocorrida. Até porque ainda não existia a geladeira, que seria inventada nos anos 1900 de um tempo de que ainda nem tinham noção.

Um pouco tempo depois, 3500 a.C. (Será verdade isso?), foi criado o primeiro relógio de sol no antigo Egito, a fim de sistematizar os trabalhos a serem desenvolvidos na construção das pirâmides enquanto o astro rei estivesse presente no firmamento.

Bem depois vieram os suíços e sua mania de precisão a produzir relógios mecânicos, por volta do século XVIII, embora a traquitana já tivesse sido inventada no século XIV (Estão notando como tudo tem a marca de tempo?). Desde então ninguém pôde mais alegar perder a hora, como me disse certa vez meu finado dentista, quando cheguei atrasado para a consulta do dia:

– Saint-Clair, depois da invenção do relógio, ninguém mais tem o direito de perder a hora.

E ele estava cheio de razão, já naquela ocasião, na dobra da primeira para a segunda metade do século XX. Aliás, tal lição aprendi-a de tal forma, que passei a ser quase um suíço, ou um alemão, que dizem ser o verdadeiro psicótico com o tempo, no cumprimento de horários. Segundo um amigo me disse, na Alemanha nenhum trem parte em horário cheio, mas sempre em horário fracionado: Berlim > Munique: 8h17, plataforma 1.

Entretanto – e sobretudo – creio que o que definitivamente põe por terra o argumento do filósofo de que o tempo não existe foi a consagração do crediário. Principalmente o de longo prazo, aquele de trinta anos, por exemplo, para a quitação da casa própria. Quando, a cada ano (Olha o tempo escorrendo novamente!), o adquirente recebe da instituição financeira o bloco de boletos de pagamento de suas prestações, ele tem a certeza insofismável de que o tempo não para. Que veio lá desde o sinal para a aquisição do imóvel, até o último boleto, quando então será o rei de seu castelo doméstico. Caso não tenha falecido durante a vigência do contrato, e não tenham os herdeiros de se beneficiar pela cláusula de seguro contra morte.

E, para pôr um fim a essa baboseira toda e reforçar meu argumento contra a temeridade da afirmação do filósofo, posso referir Caetano Veloso (Oração ao tempo), Cazuza e Arnaldo Brandão (O tempo não para), Camões (Mudam-se os tempos, muda-se a vontade), Manuel Bandeira (Canção do vento e da minha vida), que não me deixam mentir. Porém, principal e definitivamente, o carnê do IPTU que me aponta o mês de dezembro de 2021 como minha obrigação de estar presente no tempo, para que eu não caia na seção de Dívida Ativa da municipalidade de Niterói.

Meu tempo acabou. Até a próxima oportunidade.

Relógio de sol de Machu Picchu, Peru (foto colhida na Internet, embora eu já tenha estado lá.).

TAMBÉM TENHO O MEU FOLCLORE POLÍTICO

O cara era meu conterrâneo, mas eu não o conhecia, o que só ocorreu em Lisboa, em 2003. Fui encontrá-lo, com a Jane e mais o casal que viajava conosco, em sua cervejaria no Cais Sodré, um belo espaço de gastronomia e entretenimento à margem do Rio Tejo.

Dentre os muitos assuntos que rolaram durante o tempo em que ele permaneceu conosco, o relativo à explicação de como fora parar na cidade ficou até hoje em minha memória, por seu caráter inusitado e mesmo hilariante.

Ele é arquiteto de formação e recebeu convite do então indicado ao cargo de embaixador brasileiro em Portugal, Itamar Franco, para que realizasse algumas obras na residência oficial em Lisboa. Era o ano de 1995.

RO – vou apenas indicar as iniciais do seu nome – viajou então para a capital portuguesa, a fim de atender nosso representante diplomático na Terrinha. Em lá chegando, descobriu que o trabalho consistia na construção de um galinheiro, para que nosso novel embaixador pudesse manter seu arraigado hábito mineiro de comer galinha ao molho pardo, pelo menos uma vez por semana, sem o desconforto de sair procurando galináceos em abatedouros lisboetas. Obviamente que um galinheiro de embaixada não poderia ser feito por qualquer mestre de obra canhestro. Requeria a ciência e a arte de arquiteto diplomado por universidade nacional.

E foi o primeiro galinheiro que RO construiu em sua vida. Até o instante em que ele nos contava a história, entre um trago e outro de chope, acolitado por tira-gostos, tudo por conta da casa, como manda o manual do bem receber visitas inesperadas, RO não tinha feito nenhum outro. Mas, com o prestígio do trabalho realizado na casa do novo embaixador, começaram a pipocar requisições para outros tantos trabalhos em imóveis de brasileiros e de lusitanos na cidade. Tanto é que nunca mais voltou ao Brasil. Por lá ficou, casou e tinha então uma filhinha recém-nascida, motivo que o fez sair um pouco mais cedo, deixando-nos a dolorosa tarefa de secar canecos de chope e dar fim a uma sequência de petiscos, tudo por conta da casa e da boa amizade.

E, como a prever já outro desafio em sua vida de arquiteto, RO nos confidenciou, ao sair, que o diplomata indicado naquele mesmo ano de 2003 para Portugal mandou convocá-lo à embaixada, pois tinha certa obra a lhe encomendar. Era o ex-deputado cearense Paes de Andrade, figura folclórica no cenário político brasileiro, por ter, como presidente da Câmara Federal e em substituição ao presidente da república da ocasião, viajado no avião presidencial até Mombaça, sua terrinha natal, a mostrar a que altura chegara seu filho importante.

RO nos disse, então, que temia ser desafiado a construir um capril, para que o novo embaixador pudesse criar cabras que lhe dessem suculentas e olorosas buchadas de bode.

Fomos embora da cidade no dia seguinte, e nunca soube do desfecho daquele convite que meu conterrâneo arquiteto recebeu de Sua Excelência, o novo Embaixador do Brasil em Portugal.

Vai dar bode! (foto do autor),

VELÓRIO SUSPENSO

Apaguem as velas
Desfaçam as coroas
Suspendam as orações sinceras
As encomendas fúnebres
Não estou defunto ainda
Posso parecer um pouco fraco
Talvez meio alquebrado
Um tanto à beira do fim
Mas respiro sem auxílio de aparelhos
Cuido bem dos meus joelhos
E ainda tenho o prazer de fruir a beleza
Que gira grácil em torno de mim.

Cemitério de Carabuçu (foto do autor).

UM CHOCOLATE QUENTE NA LEITERIA

Era um sábado à noite. Fazia certo frio na Bom Jesus do Itabapoana do início dos anos sessenta do século passado.

Andorinha, Zé Fábio e eu fomos até a Leiteria Bom Jesus, junto à Praça Governador Portela, beber um chocolate quente. Cornélio, o cozinheiro da Leiteria, era famoso por fazer coisas gostosas, apesar de alguns detratores reclamarem da higiene da manipulação, por conta de uma sinusite renitente que o perseguia.

Sentamos a uma mesa e logo fizemos o pedido. Em seguida, chega nosso contemporâneo Índio, com alguns amigos, e todos se sentam próximos. E todos, lá também, solicitaram o mesmo, famoso e denso chocolate quente.

Por essa época, nós três trabalhávamos nas oficinas gráficas do jornal O Norte Fluminense, enquanto o Índio era um dos gráficos do jornal A Voz do Povo. Por conta disso, havia velada ciumeira entre uns e outros, sem, contudo, declaração de animosidade.

Daí a pouco Cornélio traz os canecos com a bebida, e Andorinha, sempre muito sacana, combinou com ele de aplicar uma peça no Índio. Ia reclamar que o chocolate estava frio, assim que ele estivesse trazendo o pedido do Índio.

Cornélio, que também gostava de uma brincadeira sem graça, esquentou o mais que pode o pedido do Índio e o trouxe, no justo momento em que Andorinha levanta a voz:

– Pô, Cornélio! Esse chocolate está frio. Você nem esquentou, caramba!

De imediato, Índio pegou na alça da caneca e sorveu um gole generoso daquele suposto líquido apenas morno. E, no que o pôs na boca, devolveu de imediato, fazendo uma sujeira sobre a mesa.

E rimos às bandeiras despregadas, conforme expressão que ainda tinha certa circulação por aquela época.

E Cornélio ainda se aproveitou para dizer que aquilo que se via à tona da caneca não era nata, mas sim o couro do céu da boca do Índio.

5 receitas para te transformares no mestre do chocolate quente ...

Imagem em fnac.pt.

FIM DO MUNDO

Estou com certa nostalgia daqueles fins de mundo, anunciados periodicamente alguns anos atrás, por um sem-número de malucos. Ficava contando com eles, para ver o fim de boletos e impostos, taxas e governos, deputados e senadores, esquerda e direita, intolerâncias e tolerâncias.

Nem mesmo o meteoro desgovernado, anunciado recentemente pela NASA, de credibilidade científica até então intacta para mim, cumpriu a previsão de passagem triscante com a Terra, que se daria entre o Natal de 2019 e o Dia de Reis de 2020. Foi um fiasco completo, de nem ser noticiado. Passou batido por aqui, de não deixar nem uma poeirinha tóxica, nem uma pequena catástrofe localizada. Nada que se pudesse comparar àquela outra, de alguns milênios atrás, que acabou com os dinossauros e seus companheiros de fauna e flora.

Aí fico nostálgico de sobressaltos e medos. Nunca fui testemunha de uma catástrofe natural de grandes proporções. Só mesmo a nossa política me dá certa sensação dela. Parece que este mundo não se irá acabar mesmo. Perco até a esperança de um futuro zero-gente, zero-natureza, como diz meu netinho Francisco.

Que pena que o mundo não se tenha acabado! Tinha tantos planos por não realizar!

 

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HISTORINHAS RÁPIDAS XII

HISTORINHAS COM DENDÊ

23. CARTÃO DE VISTA

Chegamos ao aeroporto de Salvador no domingo, por volta das 11h30. Pegamos um táxi até o hotel, onde deixaríamos as malas, para depois nos encaminhar ao hospital público do estado.

Durante a viagem, comentamos o motivo da nossa vinda à cidade com a simpática motorista do táxi, a quem perguntamos se o hospital é longe do hotel. Ela disse que não muito distante.

Chegamos ao hotel, e ela gentilmente se prontificou a aguardar que fizéssemos o check-in, a fim de nos levar até o hospital. Agradeci. Jane e eu nos dirigimos à recepção, onde fomos informados de que o apartamento ainda não estava liberado.

Voltei ao táxi e disse à motorista que iria demorar, que ela estaria livre.

Ela então, baianamente, falou:

– Trinta ou quarenta minutos? Tem problema não. Tou com pressa não.

Fomos com ela até o hospital.

Ah! E não demoramos nem dez minutos.

 

24. VOLTANDO DE SALVADOR

Fizemos o check-in de embarque no portão 16 do aeroporto de Salvador, fila preferencial, e aguardamos por um instante para nos dirigir ao avião.

Assim que a fila começou a andar, a mulher que estava atrás de mim começou a orar em voz alta, pedindo a proteção do sangue de Jesus para o bom encaminhamento da viagem, e repetia tanto a invocação ao sangue de Jesus, durante o trajeto e até entrar na aeronave, que, confesso, bateu um certo desconforto (medo?) de que aquele pássaro de metal não fosse se dar bem no ar.

A proteção dos céus pode até fazer bem, mas pedida assim com tanta insistência e certo desespero, provoca a quase certeza de que a coisa não sairá bem.

Mas chegamos sãos e salvos.

 

25. É BALALAU NA DIREÇÃO

A excursão estava saindo de Salvador, de volta a Campos dos Goytacazes, de onde partira. Na condução do veículo, dois motoristas que se revezavam. Um deles é o José Manuel, meu primo, que tem um apelido de infância só conhecido, até agora, dos familiares: Balalau.

Entre todos os passageiros adultos, estava o pequeno Gustavo, quatro anos, acompanhado de pais e avós. Falante, comunicativo e simpático, fez camaradagem com todos, inclusive com meu primo, cujo apelido ficou conhecendo.

Já sua avó, além de outras atividades, é também pastora evangélica e começou a orar, assim quer o ônibus se pôs em movimento:

– Amigos, vamos orar para que a viagem seja tranquila. Invoco o nome do Senhor Jesus para nos proteger. Colocamos em vossas mãos nossa vida. Aleluia! Senhor Jesus, guie nosso ônibus em segurança até nossa cidade.

Imediatamente Gustavo interveio na oração da avó:

– Vó, quem vai dirigir o ônibus é o Balalau!

 

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SEMPRE UMA NOVIDADE

Seu Fulano estava de saída para a banca de jornal, quando a mulher lhe pede que comprasse o remédio para o exame que iria fazer.

Quando se chega à idade dos estragos, há um sem-número de exames a se fazerem. Aquele, especificamente, era do tipo desastroso: colonoscopia. O leitor mais jovem, com toda a certeza, nunca ouviu falar disso. O que é até razoável. Mas, depois que o Cabo da Boa Esperança é ultrapassado, as invasões corpóreas se dão de norte a sul: examina-se o estômago, por cima; e os intestinos, por baixo. Este é a colonoscopia. A palavra, se meu caro leitor tiver passado por aulas de etimologia, há de ser conhecida. Se não, não me custa dizer: visão do cólon. Quer dizer, é coisa de se introduzir um tipo de mangueira, com uma câmara na extremidade, naquilo que Mussum chamava de forévis, para a prospecção do pré-sal, se é que me entendem. Só de pensar, é de dar arrepios a frade de pedra, aquele lá do Espírito Santo.

Por isso é que, para que a visão intestina não tenha atrapalhos, se faz necessário limpar as tripas de todo tipo de detrito. Então, a recomendação dela para que Seu Fulano trouxesse o laxante, o destranca tripa. Leu ele lá no papel com as indicações do laboratório e verificou: Ducolax ou Lacto Purga.

– Querida, vou trazer Lacto Purga.

– Ah, não! Traga outro! Esse, não!

– Por que não esse que já conhecemos?

– É que quero variar um pouco. Não gosto de ficar repetindo coisas.

Ah! a mulher e sua incontrolável mania de novidades!

O marido achou estranho. Que ela quisesse um novo sapato, uma bolsa diferente, um vestido de corte moderno, tudo bem! São novidades previstas no cardápio do estilo feminino de ser. Mas, diabos, querer novidades em laxante intestinal aí já chega às raias da insensatez. E tentou ponderar com ela que nem sempre é preciso estar inovando, procurando ser diferente. Ela não iria a um desfile de cagonas, onde certamente diria dos benefícios de um novo remédio. Iria, bolas, apenas desobstruir os intestinos, para que o médico pudesse verificar se não haveria novidades indesejadas lá dentro. Até lhe falou – há sempre de se ter muito tato com o espírito feminino – do acerto dessa preocupação dela em estar sempre descobrindo coisas novas, para apresentar nas conversas com as amigas. Mas, para tudo, há um limite. Não seria necessário que um simples remédio fosse motivo para seu desejo novidadeiro.

Depois de alguns minutos de idas e vindas de argumentos, a mulher resolveu não inovar no remédio desta vez. Ele havia ganhado a batalha do piriri programado. Foi à farmácia e voltou com o bendito Lacto Purga.