HISTORINHAS RÁPIDAS I

1. HISTORINHA TEATRAL

Eu era bem pequeno. Talvez tivesse lá meus sete-oito anos e resolvi participar de um grupo de teatro criado na vila pela mãe do meu coleguinha Carlos Heitor. Ela ia encenar a história de Chapeuzinho Vermelho, cujo papel era da Maria Zilma, irmã mais velha do meu amigo Concely. Maria Zilma talvez tivesse uns doze anos. Era uma morena muito bonita. Meu primo Zé Carlos, já mais adolescente, de topete moldado a brilhantina, faria uma espécie de galã. Meu tio José Catarina seria o caçador, a matar o Lobo Mau, cujo intérprete não me ocorre, talvez porque estivesse escondido sob a fantasia do bicho.

Como a história se passava em Carabuçu, foi adaptada aos trópicos, e eu fiz o macaco. Em dado momento, Chapeuzinho ia pela floresta cantando, com sua cesta de guloseimas, e oferecia uma banana para o macaquinho.

Após vários ensaios, marcou-se a apresentação da peça no salão do Liberdade Esporte Clube.

Quando para lá me dirigia, minha mãe recomendou que eu só comesse uma banana nanica durante a peça, pois já era noite e banana é indigesta naquele horário.

A peça se desenrolava muito bem. Zé Carlos tinha cantado uma bela canção e preparava a entrada de Chapeuzinho no caminho da floresta. Lá vem ela, toda bonita, toda faceira, cantando. Assim que viu o macaquinho, lhe deu uma banana, que foi comida em pleno palco, entre imitações de sons de macacos. E Chapeuzinho continuou a rodar pelo cenário, cantando e espalhando charme, até que passou novamente pelo macaquinho, a quem deu a segunda banana.

Neste instante, o macaquinho sem fala, abandonou os arremedos de símio e, obedecendo ao sinal da mãe na plateia, disse para Chapeuzinho, em tom ouvido por toda a atenta assistência:

– Minha mãe falou que eu só posso comer uma banana.

Aquele semidrama infantil, com requintes de história de suspense, se transformou, na hora, numa comédia.

A plateia veio abaixo!

 

2. HISTORINHA ZOOLÓGICA

Seu Paulo Otávio (Troquei o nome, para evitar encrenca.), proprietário rural com casa bem montada no centro de Bom Jesus do Itabapoana, era tido como homem brabo, meio ignorante no trato com as pessoas, tanto que já dera uns tiros na cumeeira de uns e outros por bobagens. E era viciado no jogo do bicho. Não passava um dia sem que fizesse uma fezinha na loteria zoológica.
Certa manhã, estava ele sentado na sala de casa, quando cruza o espaço, de uma janela a outra, uma bela borboleta. Uma sobrinha que ali estava sugere a ele:
– Tio, aí uma boa sugestão para o senhor jogar no bicho: borboleta!
Ele, sem tirar a carranca da cara, responde gentilmente;
– Deixe de ser ignorante, Lourdinha. Se fosse assim, nunca ia jogar no leão. Não passa leão aqui na minha sala.

 

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PRAGA DE BOTAFOGUENSE É FATAL

Há algum tempo descobri, por indicação de um taxista, que a Leiteira Vitória, na Rua Dr. Celestino, quase esquina de Marquês de Paraná, fazia um torresmo muito bom. Para provar o que dissera, o motorista parou o táxi em frente ao estabelecimento, deixou-me ir até o balcão pegar um torresmo graúdo – pediu também que lhe levasse um –, sincronizando uma dentada comigo, no momento em que recolocava a viatura em marcha. Era, de fato, muito saboroso e crocante, apesar do tamanho um tanto exagerado.

Então ao fazer uma feijoada e no intuito de facilitar minha vida de cozinheiro, resolvi encomendar uma porção da iguaria, num calibre bem menor, em vez de ter a trabalheira toda em produzir meus próprios torresmos, se fosse seguir a receita que peguei com minha irmã Elizabeth.

No dia e na hora de pegar a encomenda, fui até o estabelecimento com a nota do pedido na mão. O dono pega o papel, vai até o fundo do espaço, e, sob uma tosca escada de madeira, longe da minha visão, pergunta ao cozinheiro, num tom de voz que seria para não ser ouvido, mas que meus ouvidos de tuberculoso escutaram claramente:

– Fulano, o torresmo do coroa está pronto?

Logo a seguir, volta até o balcão e me diz que a encomenda estava sendo embalada.

Embora seja coroa, não gostei de ser chamado de coroa. Aliás, que eu saiba, nenhum coroa gosta. Assim, na hora, peguei birra com ele – também nem tão novo assim – e, com a força do meu pensamento corrosivo, lancei uma maldição contra aquela microempresa de implementação do colesterol alheio.

Pois muito bem, a Leiteira Vitória, bem como o prédio onde se localizava, hoje não mais existem. Vão virar chão de rua, pista de rolamento de veículos, sarjeta por onde correrá futuras enxurradas.

O pior de tudo é que fiquei sem os deliciosos torresmos da Leiteira Vitória.

A maldição foi excessiva. Não precisava tanto. Bastava um curto-circuito no velho freezer, uma infestação de ratos no depósito de mercadorias ou uma multa da Vigilância Sanitária ou, quem sabe, do INSS, ao fiscalizar a correção do contrato de trabalho das mãos mágicas que produziam aquela gostosura.

 

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Imagem em xtudoreceitas.com.

CHATO, ZABUMBA E CRICRI

Em Bom Jesus da minha juventude, o cara chato passou a ter uma classificação tríplice, conforme sua chatura.

Não sei se o leitor amigo sabe da origem do uso do termo chato para taxar as pessoas incomodativas, aquelas que se apegam a um assunto desinteressante e ficam penduradas no ouvido alheio, com conversas intermináveis que não produzem o mínimo efeito prático.

Pois tal designação veio derivada do parasita pubiano, também chamado chato, que infesta a área de lazer das pessoas tomadas por tufos de cabelos, cujo nome popular a educação me sugere não dizer aqui, mas de que todos estão cansados de saber.

Com a moda de se depilar tal área, sobretudo entre as mulheres, e um maior cuidado nas relações sexuais, a presença do tal piolho-da-púbis, cientificamente chamado de Phthirus pubis, não tem feito muitas vítimas.

Mas na Bom Jesus da minha juventude, lá pelos anos 60, com a guaxa funcionando a todo vapor, volta e meia, como se dizia então, aparecia algum conhecido com o horrível gesto de estar se coçando lá naquele lugar, porque tinha sido tomado por uma fenomenal infestação de chatos. E esse parasita incomodava demais aqueles sortudos. Alguns, inclusive, na ânsia de dar fim ao parasita, quase ateavam fogo aos tais pelos pubianos, ou se valiam de métodos de cura que deixavam a área reduzida drasticamente em suas dimensões.

Por essa razão, as pessoas que incomodavam passaram a ser chamadas de chatas. E havia por todo lado chusmas de chatos – agora pessoas –, que os não-chatos, quer dizer, as pessoas normais, nem sempre conseguiam evitar.

Chegou-se, então, ao ponto de se instituir uma classificação mais detalhada da “quantidade”, isto é, a exorbitância de incômodo que um chato podia produzir em sua vítima.

Criou-se, assim, uma classificação tripartite, do menos chato, para o mais chato, que assim ficou constituída: chato, zabumba e cricri. E a classificação era autoexplicativa.

O chato todos já o conheciam, sendo mesmo possível nomear alguns deles, só de olhar a Praça Governador Portela numa manhã singela de segunda-feira, por exemplo.

Depois, vinha o zabumba, mais chato que o chato. E a explicação era insofismável: o zabumba dava no saco do chato.

E terminava com o cricri, que era aquele que dava no saco do zabumba.

Imagine o leitor amigo a que grau de chatice chegava uma pessoa classificada como cricri. Esta palavra, inclusive, passou à gíria nacional, muito por conta do jornal O Pasquim, onde o humorista Henfil tinha uma tira com um personagem com esse nome.

O zabumba, infelizmente, não teve essa glória nacional, restando apenas na área semântica da música nordestina, e ficou, com tal sentido, restrito a Bom Jesus do Itabapoana, onde, não sei, se ainda sobrevive.

Espero não ter sido chato. Muito menos, zabumba ou cricri.

Até a próxima!

Retrato falado do chato (Phthuris pubis), ao lado de um fio de cabelo (imagem em mdsaude.com).

HOSPEDARIA DA DONA FINAZINHA

Dona Finazinha enterrou o finado marido Diomedes num fim de semana caracaxento e, sete dias depois, já tinha posto pedreiro e ajudante para obra de remodelação de um dos quartos. Queria aproveitar o próximo festival de sanfona e viola a ocorrer daí a quatro meses, a fim de começar a amealhar uns trocados a mais com o aluguel. Ela não podia contar apenas com a pensão minguada que, por certo, o marido defunto lhe deixaria.

Diomedes dos Santos deu baixa em sua habilitação de vivente numa sexta-feira treze, sem tugir, nem mugir. Estava de prosa com os amigos no bar da praça da igreja, quando sentiu uma espécie de coice no peito, do lado esquerdo, que só lhe franqueou levar a mão ao peito, soltar um ãh forte e cair do banco, para se estatelar nos paralelepípedos do chão, com o cigarro de papel especial a chamuscar o bigode esbranquiçado. Estava morto.

Quando levaram a notícia à Dona Finazinha, Delfina de Souza Santos na certidão de casamento, com todo o jeitinho para que ela também não sofresse um afrontamento, ela marejou os olhos miúdos, disse ai meu deus e, em seguida, emendou baixinho uma oração, já encomendando a alma do finado.

Por isso é que o sepultamento de Diomedes se deu no sábado seguinte, com o céu apedrejado de nuvens escuras, golpeando trovões para os lados de Mimoso do Sul, como se o céu fosse desabar sobre morros e grotas, vilas e descampados, pastagens e roçados.

São Pedro do Itabapoana, às vezes, sofre desses destemperos naturais, porque está encarapitado no alto de um morro, a não mais de quinhentos metros de altura, no meio de uma morraria circundante mais alta, na serra capixaba ao sul, quase na fronteira com o Rio de Janeiro.

Mas o enterro se deu sem maiores aguaceiros. O que era ameaça mais ficou só em ameaça. Sem percalços, cantando “Com minha mãe estarei”, o cortejo dolente subiu o morro do cemitério, de onde se tem uma vista bonita do casario colonial que compõe a vila, esquecida do tempo e do mapa do Brasil, não fosse o interesse do povo miúdo que lá habita por essas questões de cultura, música, sanfona, viola, orquestra e coral, que movimentam suas ruas vez em quando. E um modo todo especial de fazer uma das melhores cachaças que se pode beber. De modo que, caso um desconhecido chegue lá e contemple aquele bem cuidado amontado de casas do tempo de Tiradentes, no sossego da hora de depois do almoço, não há de imaginar que ali mora um povo que gosta de festa.

Por esse motivo é que Dona Finazinha, que tinha lá seus guardados de dinheiro e um plano montado há algum tempo, resolveu mandar iniciar a obra de reforma da casa, um pouco antes da missa de sétimo dia, visando a atender a alta demanda por conta do tal festival, que ocorre sempre no fim do mês de julho de cada ano.

Além do finado Diomedes, também moravam na casa de antigos estuques, cobertura de telha canal e recortes de eira e beira, a filha do casal, Joana, e suas trigêmeas univitelinas Sandra, Sônia e Soraia. As meninas, então com nove anos, eram tão parecidas, que os nomes ficaram quase idênticos como as três, de forma que resolveram atender a quem as chamasse, não importa o nome usado. E desenvolveram, talvez por isso mesmo, a habilidade de aprontarem traquinagens com todos, apenas com o intuito de se divertir. Nem mesmo a avó, Dona Finazinha, conseguia distinguir uma neta da outra. Apenas a mãe, por um desses milagres que só a maternidade explica, é que sabia com certeza que esta é a Sandra; aquela ali, a Sônia e aquela outra lá, a Soraia.

Foi só o tempo de a obra durar, para que Dona Finazinha recebesse o primeiro pedido de hospedagem para o festival daquele ano. Cristina e mais outra amiga souberam da nova opção bem no centro da vila e se adiantaram na reserva. O quarto era amplo e comportaria com conforto as amigas, que dividiriam o espaço restante da casa com a família.

Pois as duas amigas chegaram para o festival já na quinta-feira no fim da tarde, deixaram as bagagens na casa de Dona Finazinha e partiram para curtir o primeiro dia da festa.

Entre uma e outra apresentação das várias atrações programadas, passeavam pelas muitas barraquinhas armadas na rua principal, a partir da praça da igrejinha, até quase a saída para as roças do entorno, e pelos diversos bares e botequins, alguns de ocasião, bebendo aqui e ali, beliscando tira-gosto, confraternizando com outros amigos que para lá também foram. E seguiram na função durante o tempo que duraram os shows e até bem depois, já então apenas no desfrute de libar o que fosse líquido e mordiscar aquilo que fosse sólido.

Foram dormir lá pelas tantas!

Ao acordar no dia seguinte, Cristina levou um susto. Mal levantara do travesseiro a cabeça, um tanto pesada em função da noite anterior, viu à entrada do quarto três meninas loirinhas, com a mesma roupa, o mesmo penteado e o mesmo sorriso maroto naqueles rostinhos lindos. Pediu socorro à amiga:

– Bete, pelo amor de Deus, não estou bem! Ontem eu bebi tanto assim, Bete? Me diga!

E voltou a olhar em direção à porta e já não viu mais aquela aparição inesperada.

Bete, que saía do banheiro naquele instante, quis saber a razão do desespero matinal. E Cristina tentou explicar:

– Acho que estou mal, Bete! Tive visão tripla. Sempre soube que porre e ressaca podem provocar visão dupla, mas tive visão tripla. Vi três anjinhos loirinhos aqui na porta do quarto. De repente, olhei outra vez e eles já haviam desaparecido. Do jeito que apareceram, desapareceram! Vou marcar neurologista, para quando voltar, Bete! Realmente, não estou nada bem!

Bete não vira nada e bebera os mesmos álcoois que Cristina, na véspera.

Um pouco depois, durante o café da manhã tomado à mesa colocada na grande cozinha da casa, Dona Finazinha, avó das meninas, explicou a visão tripla. É que as traquinas sempre faziam tais aparições inesperadas para as pessoas que ainda não as conheciam, só para ver a reação.

Cristina, ainda um tanto zonza, sorveu um gole generoso de café e se sentiu aliviada. A mistura da noite anterior não fora por demais exagerada.

 

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Imagem em elo7.com.br.

EDILBERTO, O CORAJOSO

O Brasil acabara de declarar guerra às potências do Eixo e precisava convocar soldados em todos os rincões da pátria.

E Bom Jesus do Itabapoana não poderia ficar fora do esforço patriótico de barrar a expansão do império do mal liderado por Hitler e Mussolini, ou não estaria incluída no mapa do Brasil.

O jovem Edilberto, no entanto, não pensava assim. Não declarei guerra a ninguém, dizia ele na roda de amigos, enquanto jogava sinuca no bar da Praça Governador Portela. E, na iminência de ser convocado para a guerra, resolveu antecipar um acidente que o livrasse do compromisso com os Aliados: deu um jeito de meter a catana, um instrumento avantajado de cortar cana-de-açúcar, no dedo fura-bolo da mão direita, aquele mesmo que seria destinado a puxar o gatilho para matar o inimigo, a fim de decepar-lhe a tal falangeta, deixando intactas a falange e a falanginha. Como era bem frouxo de coragem e para não ver a cabeça do dedo voando entre jorros de sangue, fechou os olhos no instante de desferir o golpe sobre seu desamparado dedo indicador repousado num toco de madeira, próximo ao chiqueiro dos porcos na chácara dos pais, à saída da cidade em direção ao Rebenta Rabicho.

A mão – esquerda – que segurava a arma fatídica não se prestava a muitas coisas e vacilou na precisão do corte. O dedo fura-bolo de Edilberto escapou de ser guilhotinado, mas sofreu sérias avarias.

Gritando como um alucinado, correu até a casa dos pais a cem metros do local do sacrifício, com uma banda do dedo dependurada por parte de pele e de nervos. Em desespero, a mãe cuidou de enrolar a vítima em um paninho branco e acompanhar o filho desastrado ao Hospital São Vicente de Paula, onde Edilberto deu entrada com anotações de acidente ao picar abóbora para os porcos.

À época, fez-se o serviço possível, com tudo aquilo que a Medicina dispunha naquela cidade perdida do antigo Norte Fluminense, no que resultou, ao fim do período de recuperação, um dedo duro, no sentido referencial, que não permitia mais a Edilberto fechar a mão direita totalmente. Ficava aquele trambolho a apontar alguma coisa em lugar incerto e não sabido nas imediações de onde estivesse.

Passado o tempo das dores e da recuperação, ele foi-se habituando a conviver com o incômodo do dedo rígido.

Até que chegou à cidade, partindo de Niterói, a antiga capital do Rio de Janeiro, a sinistra junta de recrutamento de novos pracinhas a serem enviados aos campos de batalha da Europa, a fim de preservar a democracia no mundo, ou em parte dele, pelo menos.

O edital de convocação não discriminava ninguém. Apenas fixava os anos de nascimento para aqueles julgados aptos a desferir tiros dos mais diversos calibres contra  nazistas e fascistas recalcitrantes.

Lá foi tranquilo o Edilberto a atender o chamado da pátria nessa hora crucial, com a convicção de que o dedo o livraria do incômodo de matar inimigos.

A chamada para o exame dos candidatos a heróis da pátria se fez em ordem de chegada, já que não houve uma inscrição prévia dos chamados conscritos.

À medida que decorria o tempo de espera, Edilberto observava o semblante de cada um a sair da sala, na sede do Tiro de Guerra, após o encontro com a junta militar. Uns aliviados, por não terem sido convocados; outros circunspectos, por atenderem o chamado da nação; uns alegres, por poderem meter bala no inimigo; outros tristes, por terem de meter bala no inimigo.

E lá estava o Edilberto, sem muitos sobressaltos no espírito de porco que carregava em seu invólucro carnal, na confiança de que o dedo duro o livraria de qualquer enrascada mais séria.

E chegou sua hora!

A ordem era que todos se despissem, fossem pesados e medidos, em altura, largura e profundidade. Depois de anotados os números, o candidato se postava de pé, com a roupa com que veio ao mundo, diante do capitão médico responsável pela junta. Com tudo mole, mas com o dedo duro, o possível convocado foi indagado pelo capitão sobre o que acontecera. Edilberto, com certa hesitação na voz, informou sobre o tal acidente ao picar abóbora para os porcos e o resultado final que lhe deixara o indicador enrijecido. E acrescentou, tentando aumentar as chances de defesa, que ele era destro e que, portanto, não poderia nunca puxar o gatilho para disparar qualquer tipo de arma de fogo. Desde uma simples garrucha vinte e dois, até um perigoso fuzil Springfield, calibre 30-06, cujo acionamento dependia da ação muscular do atirador, e que era uma das armas da Força Expedicionária Brasileira.

E, para assegurar de que não mais dispunha do movimento regular do indicador, fez o gesto de abrir e fechar a mão direita algumas vezes, terminando por afirmar:

– Com o dedo assim, capitão, acho que não sirvo para a guerra.

O capitão olhou bem a cara do malandro Edilberto, pensou alguns instantes e lhe disse:

– Serve sim! Você irá à frente da tropa, indicando a posição do inimigo: Ali! Ali! Ali! – e fez o gesto com seu dedo, a mostrar a Edilberto que o dedo rígido dele também teria sua serventia no campo de batalha, apontando onde estaria escondido o inimigo.

Edilberto suou frio. Seus pertences inferiores, ante a notícia, murcharam, e ele se virou, após a ordem do capitão para que todos se vestissem.

Antes que o grupo saísse da sala, o militar chamou por seu nome, deu um sorriso debochado e disse para o corajoso Edilberto que aquilo tinha sido uma brincadeira. Ele não precisava ir à Europa dar tiro em nenhum tedesco.

 

Fuzil Springfield (segundaguerra.net).

DO LEITE E SUAS CONSEQUÊNCIAS: O PUDIM

O leite, malgrado ser um dos alimentos mais completos, sobretudo se for o materno em relação ao filho, é muito mal falado. Dizem misérias dele pelo tanto de complicações que algumas pessoas sentem ao ingeri-lo. Cheguei mesmo a ouvir de certo médico, no programa Sem Censura, da TV Brasil, há algum tempo, que o ser humano adulto não deveria beber leite. Mesmo sem ser especialista, achei uma estupidez o que ele disse. A seguir tal raciocínio, o ser humano não deveria beber cerveja, vinho, cachaça, conhaque, vodca, tequila, pisco, suco engarrafado, água mineral gasosa, dentre outras coisas que ingerimos, vida afora.

Li que cientistas e pesquisadores tinham chegado à conclusão de que a ingestão de leite por povos africanos ancestrais, que domesticaram o gado bovino, é o que tinha promovido a proliferação de seres humanos no planeta. A ingesta de leite os tornou mais fecundos.

Os tais cientistas e pesquisadores chegaram a estabelecer, após pesquisa exaustiva, o grau de tolerância ao leite em diversos povos e chegou à constatação de que os suecos, que guardam o mesmo DNA ancestral africano, são os mais tolerantes: quase a totalidade da população ingere o alimento ou produtos que o tenham em sua composição, sem qualquer espécie de estranhamento orgânico.

Contudo sabemos que a natureza dispara nos mamíferos, após determinado período inicial de suas vidas, um dispositivo para que eles deixem de tomar leite. Isso é compreensível, já que promove o desmame de um filhote, em benefício  do próximo a nascer. Caso contrário, a perpetuação da espécie seria comprometida pelo agarramento às tetas maternas, sempre tão generosas, como se pode constatar.

Ora, ao chegar ao desmame, o organismo do mamífero informa que ele não aceita mais leite. Daí a tal intolerância ou mesmo a alergia à lactose que ocorre em seres humanos.

Entretanto, na história da formação e expansão do gênero humano sobre a face do planeta, os referidos estudos indicam que os povos que haviam domesticado o gado redescobriram que o leite era uma excelente fonte alimentar e, aos trancos e barrancos, com o passar do tempo, forçaram o organismo a aceitá-lo novamente. Isso levou tais tribos a uma capacidade reprodutiva maior que as tribos que não tinham o leite como alimento. E acabaram se espalhando pela Terra, a partir da Mãe África. Certamente desses povos descendem os europeus e, consequentemente, alguns de nós, senão todos, aqui abaixo do Equador.

A expansão para terras cada vez mais ao norte foi provocando o clareamento da pele, a fim de que os raios solares, mais brandos no Setentrião, pudessem fixar a vitamina D necessária ao organismo humano. Aí a razão dos nórdicos branquinhos, em contraste com seus antigos irmãos de pele tisnada, cheia de melanina

Pode-se pensar, então, que o fato de tolerar ou não o consumo de leite divide os seres humanos em mais modernos e mais primitivos. Eu, por exemplo, sou moderno. Meu netinho Francisco, de cinco anos, é mais primitivo, porque tem intolerância à lactose. E, por isso, se priva de um sem-número de produtos feitos à base de leite. Como os maravilhosos queijos! Imaginem mineiros, franceses e holandeses impedidos de comerem seus queijos extraordinários!

No entanto a ciência já conseguiu produzir um remédio que, ingerido antes, permite que, nas duas horas seguintes, os intolerantes ao leite possam apreciar a vasta gama de produtos que o contenham. É o que se deu com o Francisco nesses últimos dias. Sua mãe, em viagem à Alemanha, encontrou lá o tal remédio e o trouxe. Ver o Francisco se deliciar com seu primeiro doce de leite pastoso foi de emocionar. Ele ficou numa alegria indescritível. E o que dizer do seu prazer em comer chocolate ao leite! Agora, sempre que há a possibilidade de se encontrar com um desses produtos com leite, o pequeno já pede que se lhe dê o remedinho milagroso.

Por uma dessas é que fico a imaginar a hipótese de a Ciência também desenvolver uma pílula que permita aos intolerantes ao açúcar, como eu, poderem voltar a sentir o paladar inenarrável de uma deliciosa fatia de pudim de leite, talvez a consequência mais avassaladora que esse tão mal falado líquido produza, em termos de confeitaria. E eu voltarei a experimentar a alegria que o Francisco teve ao se deliciar com seu primeiro doce de leite.

 

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Imagem em gshow.globo.com.

O DEFUNTO ENQUANTO VIVO

Agora, estirado ali, canelas espichadas, o jaquetão antigo de seis botões enfileirados aos pares, o ar desgostoso de ter morrido sem vontade, Genivaldo Pedroso não ostentava a vasta canalhice com que vivera a vida quase inteira. Salvava-se apenas a parte que antecedia à maioridade, aqueles primeiros anos em que a maioria de nós madorna numa quase inocência pueril, por ainda desavisado das armações que a vida proporciona.

Contudo, a partir da alforria da lei, passou a obrar no que de pior se possa esperar de um sujeito. Sujeito mesmo, assim com um tom pejorativo, porque de um cidadão se esperam melhores atitudes. Porém Genivaldo nunca cogitou em ser cidadão. Bastava-lhe a camada fina de lustre de gente apresentável. Cidadão era coisa que não estava no rol de suas cogitações. Procurava sempre levar vantagem em tudo que pudesse, ainda que, para isso, tivesse de passar por sobre possíveis pudores éticos.

Para início de suas atividades, ganhou de presente cargo de responsabilidade num banco estatal, por obra de um parente seu envolvido com política, e foi quase que de imediato guindado a uma chefia setorial. Em três anos de ataques, desviou mais de três milhões de reais da agência bancária, o que lhe rendeu um processo de demissão por justa causa.

A notícia não rendeu muito nas folhas, mas o preparou para seu grande passo: tentar também a vida pública, assim como seu parente benfeitor. Era o perfil ideal para a política nacional.

Inscreveu-se logo como membro do partido, no diretório regional do bairro, onde, muito celeremente, chegou ao cargo de secretário geral, amarrando alianças com nós pútridos. De vereador a deputado estadual, pulou, ainda por meio de tais alianças, ao cargo de secretário de estado, que lhe permitiu continuar na devastação do patrimônio público, sem o mínimo verniz de compostura.

Dali para o Congresso Nacional em Brasília, foi questão de saber distribuir a verba de campanha no momento exato, para as pessoas certas. E ganhou de bandeja uma vaga na Câmara dos Deputados.

Quanto mais galgava na carreira, mais incólume parecia sua máscara facial. Entretanto, por um deslize que julgava de menor importância, de que supostamente nunca seria acusado, seu belo nome entrou em cadeia nacional pela porta dos fundos.

E aí começaram suas desgraças.

Embora tudo negasse, reafirmasse sua mais casta inocência, chegando inclusive a chorar em rede de tevê aberta, precisou abrir mão do cargo, muito a contragosto, diga-se de passagem, para que pudesse “se defender das infames acusações de que era vítima”, conforme suas palavras.

Para piorar a situação, a polícia encontrou, numa casa em uma de suas múltiplas propriedades rurais, um quarto cheio de barras de ouro, de procedência duvidosa. E, embora suas impressões digitais estivessem gravadas em cada uma delas, disse que desconhecia a origem do tesouro, que alguém poderia tê-lo plantado ali para o incriminar, que há mais de um ano não ia a tal sítio, dentre outras esfarrapadas desculpas costumeiras.

Quando, enfim, recebeu, numa sexta-feira pela manhãzinha, a visita do camburão da polícia para o levar a depor, o coração lhe deu um coice peçonhento, que o fez bandear daqui para lá, desta para a melhor, para a cidade dos pés juntos, com sua papada de capado engordado a ração e sua hipotética inocência.

Agora, estirado ali, com o terno de vidro a moldar sua ex-pessoa, ou o que dela sobrava, aguardava o instante de ser enterrado sem barras de ouro, sem prestígio político, sem mais nada. A não ser todos os opróbios que amealhou existência afora, os quais eram repassados pelos presentes ao velório. Ninguém se lembrava de nenhum gesto altruísta que lhe pudesse aliviar as penas da condenação eterna. Repassavam apenas as falcatruas, as negociatas, as propinas, as mamatas, os jeitinhos, os desvios, com que moldou sua vida. E somente os mais chegados por laços de sangue pediam aos céus que seu sofrimento fosse abreviado, tão logo aquela alma putrefata adentrasse os confins do Coisa Ruim.

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Charge de Erasmo (em newsrondonia.com.br).