É NENÉM NA DIREÇÃO

Naquele horário, o motorista era sempre o Neném.

As duas amigas saíam do trabalho às dezenove horas. O ponto inicial da linha Praça XV-Vilar dos Teles ficava a duzentos metros, se tanto, de seu local de trabalho, na Rua Dom Manuel, no centro do Rio de Janeiro. Elas não conseguiam embarcar no ônibus das dezoito e quarenta e cinco, mas pegavam o próximo, das dezenove e quinze. Isso era a rotina.

Aquele era o horário fatídico: sempre coincidia ser Neném o motorista, que chegava de Vilar dos Teles, voando baixo, a fim de cumprir a meta da empresa de transportar tantos passageiros por viagem, versus o tempo determinado para o trajeto. É claro que Neném aproveitava para dar vazão aos seus discutíveis instintos de piloto de Fórmula 1. E as amigas, que sempre pegavam seu ônibus, sabiam disso. Aliás, temiam isso!

Era mal o ônibus sair do terminal ao lado da antiga Praça Rui Barbosa, para as atribulações começarem.

Invariavelmente iam no primeiro banco, uma ao lado da outra, para serem testemunhas de uma possível catástrofe rodoviária, acidentarem-se juntas, talvez até coisa pior, mas sempre com o auxílio da fraternidade que nutriam mutuamente.

Tão logo Neném adentrava seu ônibus na Avenida Brasil, aquela artéria pulsante de tráfego a qualquer hora do dia, ele aplicava seu pesado pé sobre o acelerador do veículo que, de um simples coletivo da Auto Expresso Meritiense, se transformava num bólido infernal, a comer asfalto; a ziguezaguear entre as faixas, conforme o parceiro adiante estivesse em velocidade civilizada; a ultrapassar os retardatários, aqueles que obedeciam o limite de velocidade da via, num tempo em que os radares ainda não existiam.

As duas amigas, quase sempre, se davam as mãos e fechavam os olhos durante as manobras mais radicais. Muitas vezes, por ser Isabel a mais religiosa, lançavam mão de preces, pedidos e promessas aos santos da devoção. Ou não! Nessa hora, qualquer santo que atendesse seria bem-vindo. Lu resolvia acompanhar a amiga nas invocações, em voz bem baixinha, a fim de não atiçar ainda mais os hormônios da velocidade de que Neném parecia possuído. Assim só os santos, com seus ouvidos sensíveis às agruras dos devotos, seriam capazes de captar o desespero em que as amigas viajavam.

Nesses momentos, o semblante de Neném se transtornava: olhos injetados, rictos nas bochechas, e os nervos e músculos dos braços vibrando a cada manobra, a cada negaça na direção daquele corpo celeste baixado na avenida, sob sua direção. No estandarte pendurado atrás da cadeira do motorista, com um São Cristóvão a carregar o Menino Jesus às costas, estava bordada com capricho, em fios vermelhos, a frase mentirosa: Dirigido por mim, guiado por Deus. As amigas tinham certeza de que o Coisa-ruim era quem comandava as ações.

A piorar a situação, aquele cenário em que se desenrolavam as ações, Neném apagava as luzes do salão do coletivo. O breu interno contrastava com o exterior, que parecia uma sucessão de pontos de luz a correrem desatinadamente em direção contrária. Era como um túnel aterrorizante, a levar seus ocupantes para lugar incerto, não sabido e sem volta. Lu só não desmaiava, para não deixar a amiga sozinha. Mas sua vontade era percorrer todo o trajeto fora de seu juízo, alheada da realidade, sem perceber nada.

Nem mesmo a cobradora, pobre parceira diária do motorista, seguia tranquila. Não era incomum vê-la traçar no rosto o sinal da cruz repetidas vezes, como a pedir proteção contra as peripécias do alucinado.

As amigas, por outro lado, desconheciam se os demais passageiros sentiam o mesmo pavor por que passavam. Alguns, talvez desprovidos de sistema nervoso central, periférico e adjacente, dormiam de babar na gola da camisa. Assim que passavam a primeira curva do Caju, ali onde conflui a rua do conjunto de cemitérios, provavelmente eles só acordariam no ponto final, quando a pressão dos freios, acionados com vontade, faziam o estardalhaço de sempre: Tchu! Tchuu! Tchuuuuuu!

E Neném pulava de seu posto de piloto, um simulacro de cockpit, lépido e fagueiro, com um sorriso de lado a lado naquela cara bexiguenta, saudando os passageiros de sua última viagem do dia. Isabel e Lu, ainda com as pernas trêmulas pelo nervosismo, desciam do coletivo, segurando-se nos balaústres, até enfim pousar seus pés em terra firme e despedir-se, com alívio, daquele motorista insano, que certamente as conduziria em outras viagens de volta a casa, ao final de mais um dia de trabalho. Elas apenas esperavam que todo o sofrimento fosse posto em seu crédito, quando fossem ajustar contas lá em cima. Os santos lhes seriam testemunhas de defesa.

Imagem em pngegg.com.

A NOVA EMPREGADA

Há muitos carnavais, lá pelos oitenta, Jane resolveu trazer de Miracema uma jovem mulher para nos auxiliar nos serviços domésticos. Para tanto, alguns dias antes, ligou para sua mãe pedindo ajuda na escolha da nossa nova funcionária.

No Carnaval daquele ano – nossos filhos ainda nem tinham entrado na adolescência – nós a traríamos, ao voltar a Niterói.

Tão logo chegamos a Miracema, fomos conhecer a moça escolhida por Dona Judith. Ela morava no morro do cemitério, numa casa simples, de paredes amarelas e com uma cerca de bambu a proteger o quintal. Dona Judith nos disse o nome da moça e deu as referências costumeiras à época: era de confiança, boa de serviço e tinha trabalhado na casa de uma amiga da Jane durante algum tempo.

Era a tarde de sábado de Carnaval, quando subimos o morro para conhecer a moça e combinar detalhes da sua vinda para Niterói.

Reconhecemos a casa referida, paramos o carro, e a Jane bateu palmas, chamando-a pelo nome:

– Fulana! Fulana!

De dentro da casa simples, mas muito bem cuidada, de imediato veio a resposta:

– Um momento! Já vou! Saí do banho agora.

Rapidinho, aparece ela sorridente pela porta lateral, acabando de pentear os cabelos, ainda molhados.

Jane se apresentou, trocou algumas ideias com ela sobre suas tarefas em nossa casa, combinou o salário e marcou de passar na terça-feira após o café da manhã para pegá-la, desde que ela estivesse de acordo. A moça concordou com tudo, informou à Jane que tinha uma filha de oito anos, que deixaria com sua mãe – todos moravam naquela casa – e que estaria de malas prontas no dia marcado. Ela estava, de fato, precisando trabalhar.

Jane ainda ponderou sobre a situação da filha, mas a moça disse que já tinha conversado com ela, que não haveria problemas, já que a avó também ajudava na criação da pequena.

Terminada a conversa, subi um pouco mais a rua, para manobrar o carro para a volta, e entrei com minhas observações.

– Jane, percebi pelas feições da moça que ela bebe. Vamos levá-la para casa e ela vai beber minhas cachaças todas. Veja lá!

– Que isso? Não vi nada disso! Você cismou com ela assim do nada!

– Sei não! Sei não! Pelo que observei, ela bebe. E se lembra daquela baianinha que comeu todo o meu vidro de pimenta com pão? Veja lá!

Ao chegar à casa dos meus sogros, Jane resolveu telefonar para sua saudosa amiga Laurecy, ex-patroa da moça, a fim de esclarecer essa minha desconfiança.

– Olá, Laurecy! É a Jane! Tudo bem? Veja só: estamos pensando em levar a Fulana para Niterói, para trabalhar conosco. Ela foi sua empregada, não é mesmo? Mas o Saint-Clair desconfiou de que ela bebe. O que você me diz?

Laurecy não fez rodeios:

– Jane, ela só trabalha tonta! E canta Odair José o tempo todo!

Na segunda-feira pela manhã, a moça chega à janela da casa e chama pela Jane. Tinha vindo dizer que, depois de refletir bastante, não mais iria conosco. Não conseguiria ficar longe da sua menina, ainda muito novinha para estar sem ela.

A decisão da moça aliviou a Jane de uma desculpa para não a trazer conosco, como combinado, e salvou a minha coleção de cachaças. Que eu mesmo me incumbiria da tarefa de lhe dar um bom destino.

Imagem em freepik.com.

SEM CONDIÇÕES DE SE APOSENTAR

Um dia, assim que Sarmento chega ao trabalho, toca o telefone com uma chamada para ele. Era seu colega Alex. Ele se atrasaria, mas queria lhe pedir um favor. Se sua mulher ligasse, perguntando por um trabalho que os dois foram fazer na Comarca de Nova Iguaçu no dia anterior, o qual lhes consumiu toda a tarde e parte do início da noite, Sarmento confirmasse tudo. E, assim que chegasse à repartição, ele esclareceria os mínimos detalhes do imbroglio em que meteu o companheiro. Ou quase.

Sarmento ficou torcendo para que a mulher não ligasse para tirar satisfações com ele, sobre a roubada a que levara seu angelical marido. Certamente, imaginou, ele seria o culpado pelo outro ter chegado tarde em casa naquele dia.

Definitivamente ele não gostou daquilo. Não era homem afeito a mentiras que não fossem para livrar a própria pele. Quanto à pele alheia, com certeza que não tinha know-how para defender. Nem elevação de alma. Sobretudo em casos como esse.

Alex fora transferido para seu setor de trabalho havia cerca de um ano. Funcionário mais antigo que ele, chegou lá com seus cabelos grisalhos, seu bigode bem aparado, uma ligeira claudicância na perna direita, resultado de acidente automobilístico, e sua fácil comunicação por mais anos de casa. Pela aparência, Sarmento percebeu que o colega já poderia estar aposentado, mas ainda, como é comum ouvir nos corredores formais de um órgão judiciário, mourejava entre processos e carimbos. Perguntou-lhe, então, por que razão ainda não pedira aposentadoria, vez que havia perdido seu cargo de secretário de órgão julgador e fora lotado naquele setor, para lá ficar como um velho processo já transitado em julgado. Com uma sinceridade comovente, Alex disse:

– Não tenho condições psicológicas para me aposentar. Estou ainda muito apegado ao trabalho.

Sarmento ficou sensibilizado com aquela dedicação à rotina, à matrícula e aos móveis e utensílios da Corte. Talvez às pessoas também.

Uma hora após o telefonema, chega Alex um tanto esbaforido e suado. Era janeiro dos brabos no Rio de Janeiro. Imediatamente fez um sinal para o colega, para que fossem ao fundo da grande sala onde trabalhavam e disse, quase em surdina, que tinha aprontado, sem esclarecer pormenores, e inventara para a mulher uma ida a trabalho até aquele município da Baixada Fluminense, atendendo a solicitação da Vara de Família, com o objetivo de fazer o levantando dos documentos a serem microfilmados por eles. Como se tratasse de material vasto e complexo, demoraram além do previsto, mas a viatura que os conduziu até lá também os trouxe de volta, de modo a não retardar ainda mais o retorno ao sacrossanto recesso dos seus lares.

Talvez a providência divina ou o acaso tenham desvencilhado Sarmento de uma saia justa com uma pessoa que nunca vira mais gorda. A mulher do Alex não lhe ligou. Pois imaginava ele que, durante a discussão doméstica, o marido dissera à esposa:

– Pode ligar para o Sarmento, que não me deixará mentir.

Um pouco depois, durante o almoço com outro colega – e este, seu amigo fraterno –, Sarmento contou a embrulhada em que Alex o metera e aproveitou para reclamar que sua permanência em serviço iria acabar queimando seu filme. Ou melhor, seu microfilme.

O amigo deu um sorriso debochado e esclareceu parte do problema:

– A falta de condições psicológicas do Alex para se aposentar é uma mulata bonita que trabalhava com ele na secretaria.

Meses depois, Sarmento e a mulher foram conhecer Conservatória, a Cidade da Seresta, na verdade o sexto distrito do município de Valença, e, entre um torresmo e uma caipirinha, um vinho e um queijo, encontraram, durante caminhada pelas ruas do centro da vila, o Alex de mãos dadas com a tal mulata fornida em seus contornos, bela em seu sorriso, faceira em seu andar.

De imediato, Alex atravessou a rua naquele seu passo conhecido e chegou até ele, que nem teve tempo de apresentar a esposa ao colega, e disse sofregamente:

– Você não me viu aqui! Eu não estou aqui! Depois a gente conversa.

Terminados os acordes sonantes d’A volta do boêmio e de Chão de estrelas, naquela bela vila de Conservatória, voltaram todos à rotina dos corredores do judiciário.

Alex quase lhe detalhou toda a sua aventura. Pôs até parte da culpa na esposa de papel passado, doentinha, doentinha, para as reinações que andava aprontando.

Sarmento se aposentou antes de Alex e nunca mais soube dele, nem ciência teve. Seria talvez um caso de busca e apreensão, para que esta história tivesse uma conclusão de mérito.

Imagem colhida na Internet (amodireito.combr).

TRAQUINAGEM POÉTICA





Aristóteles e Horácio, na Antiguidade Clássica, lançaram as bases da arte poética, posteriormente atualizadas ao espírito do Renascimento por Boileau, poeta francês do século XVII, que também lançou sua Arte poética, em Paris, em 1674.
Como não desejo passar em brancas nuvens neste universo, mas tendo o senso de minhas limitações caboclas, permito-me também marcar minha estada no ambiente com estas minhas observações acerca do fazer poético, que resolvi chamar de Traquinagem poética, em que arte assume outro de seus sentidos, coisa que toda criança sabe muito bem o que é.
E seja lá o que Boileau quiser!

I.
O POETA E O VERSO
O poeta tenta
Num esforço de besta
Um verso de esteta.
Esquenta a cabeça
Rasga folhas
Racha a testa
E a porra do verso
Não presta.

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II.
VERSO DE PÉ QUEBRADO
Distraído
O poeta ébrio
Tropeça no metro
Do seu próprio verso
De pé quebrado
Como aliás ficou
O inglório pé
Do poeta ébrio
Após esse tropeço.

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III.
VERSO LIVRE
O poeta está preso
Ao verso livre
E disso não escapa.
Recusa o metro sincrônico
Que amarra o verso.
Mas não tergiversa
E continua controverso
Em sua luta
Pela liberdade do verso.

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IV.
RIMA RICA I
A rima rica
Escrita
Sobre a folha em branco
É como pérola perdida
Daquelas lançadas aos bichos
Que se depositam em bancos
De jardins de lixo.
Se tanto!

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V.
RIMA POBRE
Às vezes
Quando pode
O poeta se socorre
De uma rima pobre.
E se alguém lhe censura
Tal recurso antiesteta
Como um urso vocifera:
Vá à merda!

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VI.
O COROLÁRIO DO POEMA
Versos iâmbicos
Versos esdrúxulos
Palíndromos
Anacolutos
Palimpsestos
Papiros incompletos.
Todo poema
É um susto do poeta.
E o leitor insone
Que de poesia nada entende
Fica com cara de anteontem.

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VII.
ALQUIMIA POÉTICA
O lavor do poeta não cessa:
Metáforas herméticas
Metonímias diretas
Elipses cortantes
Preciosos hipérbatos
Silepses perfeitas
Linguagem escorreita
E alguma coisa imprecisa
Que faça do seu verso
Uma festa.

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VIII.
DILEMA DA FORMA
Entre um poema clássico
E um moderno
O estro do poeta vacila.
Ora uma rima inesperada
Ora uma aliteração cristalina
E a liberdade de versos brancos
Pululam em sua oficina
De poesia bissexta.
E o poeta hesita
Se publica ou não publica
Aquela poesia esquisita.

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IX.
RIMA RICA II
A rima é rica
Mas o poeta é pobre
A rima escorre
Como uma baba mole
Pelos dedos magros
Do poeta insone
Pela madrugada
Aberta sobre o nada.
E pela manhã cedinho
Aflora mais um poema disforme...

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X.
VERSOS E ESTROFES
Tercetos e quartetos
Quintilhas e sextilhas
Alexandrinos debordados
Trovas incontidas
Dísticos e sonetos
Espalhados aos quatro ventos.
Mas para o ano
Só martelo alagoano.

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XI.
A GÊNESE DO POETA
Não nasceu Horácio
Não nasceu Homero
Não é Petrarca
Camões não é
Ou Virgílio
Ou Dante Alighieri
Muito menos Baudelaire
Rimbaud Bocage Chaucer
Shakespeare
Gregório ou Góngora
Drummond de Andrade
Prévert ou Poe.
Como poeta
Soa como um grou
Um corvo
Uma acauã soturna.
Sua voz cavernosa
Canta versos sombrios
Anunciando o inferno
E seus desafios.

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XII.
PROSA E VERSO
O avesso do verso
É bem que não presta
Na imaginação do poeta.
Tudo que se diz em letra
Há de ter o ritmo certo
O metro correto
Uma dolente cadência.
A estética do canto
Está acima do desencanto
Da prosa.
E só o poema se salva
Desde que Adão e Eva
Se perderam
No paraíso primevo
Crê o poeta.
Nicolas Boileau, poeta francês do século XVII (imagem colhida na Internet).

FUTEBOL: TEORIA E PRÁXIS

  1. O jogador discute com o adversário a correta posição da bola para a cobrança da falta, vence a disputa e consegue adiantar um metro, em relação ao ponto de ocorrência da infração, sob a indiferença de Sua Senhoria. O árbitro autoriza a cobrança, e o jogador recua a bola ao seu companheiro mais atrás.
  2. O jogador vai cobrar o escanteio e tenta ser esperto, adiantando a bola cerca de dois centímetros além da marca do semicírculo do escanteio, impossível de ser percebido pelo árbitro. Isso representa cerca de 0,0058823529% da distância até o meio da pequena área.  Nada que uma ínfima força a mais no chute não supere com sobras.
  3. Numa bola cruzada sobre a pequena área, defensor e atacante se precipitam em sua direção na ânsia ou de mandá-la para fora, ou de metê-la na rede. Os dois chegam juntos. A bola, capciosamente, esbarra na cabeça do defensor e vai para as redes. Como os dois estivessem ao mesmo tempo no lance, o atacante sai comemorando o tento, como se tivesse sido sua cabeçada a impulsionar a pelota para o fundo da meta. Os companheiros correm para abraçá-lo, e ele joga beijinhos para a câmara colocada à margem do campo. Só depois o VAR confirma o gol contra.
  4. O futebol é o único esporte que, após noventa minutos do tempo normal e, às vezes, mais trinta minutos de prorrogação, permite que um jogo termine sem um único gol e, ainda assim, que este mesmo jogo seja motivo de mesas redondas, comentários e análises profundas de suas causas e consequências, por uma vasta equipe de especialistas.
  5. O futebol é o único esporte em que, num jogo, um time seja superior ao outro em posse de bola, em domínio de campo, em chutes a gol, e, ainda assim, saia derrotado pelo time de pior desempenho, que atirou uma única vez a pelota em direção à meta do adversário.
  6. Não há nada mais desonroso do que, numa goleada, o famigerado gol de honra. Seria melhor assumir a desonra, sem incomodar o vencedor.
  7. O VAR, no futebol brasileiro, leva mais tempo para revisar um lance do que em outros países mundo afora, porque aqui a nossa incredulidade é tão grande, que não nos permite crer naquilo que vemos, senão naquilo que gostaríamos de ver.
  8. A cotovelada, que não é autorizada em nenhum outro esporte, é recurso comezinho na prática no nobre esporte bretão. Leonardo, jogador da seleção brasileira que foi à Copa do Mundo dos Estados Unidos em 1994, muito fez em prol da sua difusão.
  9. Dado o início do jogo, tudo que foi conjecturado antes da partida fica em suspenso, até que posteriormente as mesas-redondas tentem explicar o inexplicável: a derrota do time de melhor desempenho nos noventa minutos.
  10. O jogador que comete uma falta violenta, é expulso e reconhece, ao ser entrevistado ao final da partida, que o árbitro agiu corretamente ainda não foi inventado.
Imagem em wikipedia.org.

O TEMPO NÃO PARA

O conceito de tempo é um problema para a Filosofia e a Literatura. Para o resto das disciplinas humanas, não; principalmente para as indisciplinas.

Quando fiz o Curso de Letras, lá pelos idos de 60/70 do século passado (Isso é tempo!), aprendi a diferença entre o tempo físico – entidade concreta da realidade, mensurável por um aparelho então mecânico à época – e o tempo psicológico – entidade que se incorpora na pessoa conforme, por exemplo, o aperto por que passa e o tempo que tem para dele se safar.

Além disso, volta e meia surge um estudioso a dizer que o tempo simplesmente não existe, que é um conceito inventado pelo ser humano, para tentar organizar a zona em que transformou sua vida, a partir da primeira fogueira acesa numa caverna lá nos tempos paleolíticos (“antiga pedra”, em grego antigo). Ou será que esses tempos também não existiram?

Contudo o problema se tornou maior quando as tribos resolveram sentar praça num sítio mais propício à agricultura e passaram a observar a sucessão de estações do ano: outono, inverno, primavera e verão. E viram que aquilo as ajudava a obter maior vantagem das sementes que atiravam à terra. Era preciso prestar atenção a tal sucessão de tempo.

Quando, enfim, (Olha a noção de tempo novamente na conjunção!) domesticaram o gado e inadvertidamente deixaram talhar o leite de um dia para o outro, sob o escaldante calor de um verão qualquer do neolítico (“nova pedra”, em grego antigo – Outra vez esse tempo reincidente!), chegaram ao impasse de ter de beber todo o produto da ordenha num mesmo dia, ou passar a fazer queijo com a transformação láctea ocorrida. Até porque ainda não existia a geladeira, que seria inventada nos anos 1900 de um tempo de que ainda nem tinham noção.

Um pouco tempo depois, 3500 a.C. (Será verdade isso?), foi criado o primeiro relógio de sol no antigo Egito, a fim de sistematizar os trabalhos a serem desenvolvidos na construção das pirâmides enquanto o astro rei estivesse presente no firmamento.

Bem depois vieram os suíços e sua mania de precisão a produzir relógios mecânicos, por volta do século XVIII, embora a traquitana já tivesse sido inventada no século XIV (Estão notando como tudo tem a marca de tempo?). Desde então ninguém pôde mais alegar perder a hora, como me disse certa vez meu finado dentista, quando cheguei atrasado para a consulta do dia:

– Saint-Clair, depois da invenção do relógio, ninguém mais tem o direito de perder a hora.

E ele estava cheio de razão, já naquela ocasião, na dobra da primeira para a segunda metade do século XX. Aliás, tal lição aprendi-a de tal forma, que passei a ser quase um suíço, ou um alemão, que dizem ser o verdadeiro psicótico com o tempo, no cumprimento de horários. Segundo um amigo me disse, na Alemanha nenhum trem parte em horário cheio, mas sempre em horário fracionado: Berlim > Munique: 8h17, plataforma 1.

Entretanto – e sobretudo – creio que o que definitivamente põe por terra o argumento do filósofo de que o tempo não existe foi a consagração do crediário. Principalmente o de longo prazo, aquele de trinta anos, por exemplo, para a quitação da casa própria. Quando, a cada ano (Olha o tempo escorrendo novamente!), o adquirente recebe da instituição financeira o bloco de boletos de pagamento de suas prestações, ele tem a certeza insofismável de que o tempo não para. Que veio lá desde o sinal para a aquisição do imóvel, até o último boleto, quando então será o rei de seu castelo doméstico. Caso não tenha falecido durante a vigência do contrato, e não tenham os herdeiros de se beneficiar pela cláusula de seguro contra morte.

E, para pôr um fim a essa baboseira toda e reforçar meu argumento contra a temeridade da afirmação do filósofo, posso referir Caetano Veloso (Oração ao tempo), Cazuza e Arnaldo Brandão (O tempo não para), Camões (Mudam-se os tempos, muda-se a vontade), Manuel Bandeira (Canção do vento e da minha vida), que não me deixam mentir. Porém, principal e definitivamente, o carnê do IPTU que me aponta o mês de dezembro de 2021 como minha obrigação de estar presente no tempo, para que eu não caia na seção de Dívida Ativa da municipalidade de Niterói.

Meu tempo acabou. Até a próxima oportunidade.

Relógio de sol de Machu Picchu, Peru (foto colhida na Internet, embora eu já tenha estado lá.).

TAMBÉM TENHO O MEU FOLCLORE POLÍTICO

O cara era meu conterrâneo, mas eu não o conhecia, o que só ocorreu em Lisboa, em 2003. Fui encontrá-lo, com a Jane e mais o casal que viajava conosco, em sua cervejaria no Cais Sodré, um belo espaço de gastronomia e entretenimento à margem do Rio Tejo.

Dentre os muitos assuntos que rolaram durante o tempo em que ele permaneceu conosco, o relativo à explicação de como fora parar na cidade ficou até hoje em minha memória, por seu caráter inusitado e mesmo hilariante.

Ele é arquiteto de formação e recebeu convite do então indicado ao cargo de embaixador brasileiro em Portugal, Itamar Franco, para que realizasse algumas obras na residência oficial em Lisboa. Era o ano de 1995.

RO – vou apenas indicar as iniciais do seu nome – viajou então para a capital portuguesa, a fim de atender nosso representante diplomático na Terrinha. Em lá chegando, descobriu que o trabalho consistia na construção de um galinheiro, para que nosso novel embaixador pudesse manter seu arraigado hábito mineiro de comer galinha ao molho pardo, pelo menos uma vez por semana, sem o desconforto de sair procurando galináceos em abatedouros lisboetas. Obviamente que um galinheiro de embaixada não poderia ser feito por qualquer mestre de obra canhestro. Requeria a ciência e a arte de arquiteto diplomado por universidade nacional.

E foi o primeiro galinheiro que RO construiu em sua vida. Até o instante em que ele nos contava a história, entre um trago e outro de chope, acolitado por tira-gostos, tudo por conta da casa, como manda o manual do bem receber visitas inesperadas, RO não tinha feito nenhum outro. Mas, com o prestígio do trabalho realizado na casa do novo embaixador, começaram a pipocar requisições para outros tantos trabalhos em imóveis de brasileiros e de lusitanos na cidade. Tanto é que nunca mais voltou ao Brasil. Por lá ficou, casou e tinha então uma filhinha recém-nascida, motivo que o fez sair um pouco mais cedo, deixando-nos a dolorosa tarefa de secar canecos de chope e dar fim a uma sequência de petiscos, tudo por conta da casa e da boa amizade.

E, como a prever já outro desafio em sua vida de arquiteto, RO nos confidenciou, ao sair, que o diplomata indicado naquele mesmo ano de 2003 para Portugal mandou convocá-lo à embaixada, pois tinha certa obra a lhe encomendar. Era o ex-deputado cearense Paes de Andrade, figura folclórica no cenário político brasileiro, por ter, como presidente da Câmara Federal e em substituição ao presidente da república da ocasião, viajado no avião presidencial até Mombaça, sua terrinha natal, a mostrar a que altura chegara seu filho importante.

RO nos disse, então, que temia ser desafiado a construir um capril, para que o novo embaixador pudesse criar cabras que lhe dessem suculentas e olorosas buchadas de bode.

Fomos embora da cidade no dia seguinte, e nunca soube do desfecho daquele convite que meu conterrâneo arquiteto recebeu de Sua Excelência, o novo Embaixador do Brasil em Portugal.

Vai dar bode! (foto do autor),

VELÓRIO SUSPENSO

Apaguem as velas
Desfaçam as coroas
Suspendam as orações sinceras
As encomendas fúnebres
Não estou defunto ainda
Posso parecer um pouco fraco
Talvez meio alquebrado
Um tanto à beira do fim
Mas respiro sem auxílio de aparelhos
Cuido bem dos meus joelhos
E ainda tenho o prazer de fruir a beleza
Que gira grácil em torno de mim.

Cemitério de Carabuçu (foto do autor).