DE COMPROMISSOS E LEITURAS

É sempre bom ainda ter tempo de cumprir seus compromissos. É o que fiz agora. E com que prazer!

Justifico-me.

Em junho do ano passado, adquiri pelo comércio eletrônico o livro Crônicas – Cotidianas, humorísticas e fantásticas, de H. Francisconi, publicado pela editora Viseu.

À época, tinha iniciado a leitura de um outro livro, um calhamaço de mais de novecentas páginas, e resolvi, na ordenação de leituras que às vezes faço, deixar a leitura das crônicas de Francisconi para depois.

Após alguns dias que me chegara o livro, por via postal, recebi de presente, autografado pelo autor, outro exemplar. Não disse a ele que já o tinha, pois não poderia prescindir de um com a dedicatória a que fazem jus os amigos dos escritores. Pois H. Francisconi, sobre ser autor de vários livros, foi meu aluno na faculdade e, via de consequência, tornou-se meu amigo. O outro volume, pensei logo, daria para minha mãe, também leitora atenta e interessada.

Ocorreu, no entanto, que, durante o tempo em que decorria a leitura do calhamaço, fizemos – minha mulher e eu – um novo arranjo num dos quartos do apartamento, justamente onde fica a minha coleção de livros. Tiramos tudo de dentro dos velhos armários, para receber os móveis novos; voltamos a colocar tudo nos lugares, já distintos dos antigos; e o livro do meu amigo se perdeu na confusa arrumação de agora.

Embora já o tivesse procurado por vários lugares, não logrei encontrá-lo, o que só ocorreu agora, por conta da quarentena a que fomos impostos pela pandemia desse maldito Covid-19, de tão malfadada existência.

Toda essa introdução é muito mais para me justificar com o amigo H. Francisconi, do que para informar ao caro leitor acerca da minha experiência de leitor com o que lá se contém. E é o que passo a fazer.

Francisconi, não por ter sido meu aluno, longe disso, escreve bem à beça, para ficar numa expressão muito ao gosto do brasileiro, sem os exageros a que se pode chegar com outra expressão. Ele tem o domínio da língua, de seus recursos estilísticos e da fabulação que todo ficcionista deve possuir.

No livro, os contos estão divididos nos três tons destacados no título: cotidianos, humorísticos e fantásticos. E não há, em nenhum deles, o menor resquício de descuido na abordagem do tema.

Francisconi sabe lidar com a língua; sabe ser correto com o idioma e dele tirar o frescor da frase, a inteligência da argumentação e o inusitado das imagens. Eu diria, para ficar no plano descontraído, que ele sabe brincar com as palavras e tira delas o maior proveito possível na e para a intenção do seu texto.

Se, em algumas frases, brinca com as aliterações e os trocadilhos, em outras, utiliza de sugestões históricas implícitas no tema que desenvolve, como a puxar do leitor a memória de coisas vistas e sabidas anteriormente.

E pode ser tanto lírico, como satírico e delirante, como sugerem os vocábulos que servem de título de suas crônicas. Mas, em qualquer tom, seu texto dá um prazer danado – olhem aqui outra expressão doméstica – de ser lido.

E tem, como fabulador, a capacidade de penetrar no outro, de ter sua visão e seu sentimento. Passeia entre o eu do narrador e o da personagem com uma sem-cerimônia criativa. E isto me chamou bastante a atenção. E disfarça, com a astúcia do escritor, seu sentimento de avô em textos sensíveis, criados por e para seu netinho.

No caso de suas crônicas fantásticas, inclusive, se permite passear pelo tempo, flagrando momentos não registrados pela história oficial, para criar uma narrativa irônica, humorística e sensível. Como Dante, chega até a ir ao inferno e trocar uns dedos de prosa com o Decaído.

Felizmente, sob esse aspecto, a quarentena produziu algo bom: permitiu empreender uma busca mais detalhada, que me fez encontrar o livro e ter o prazer de o ler. De cabo a rabo, de enfiada. Como também se diz popularmente.

Ave, H. Francisco!

—–

Francisconi, H. Crônicas – Cotidianas, humorísticas, fantásticas. Maringá, Ed. Viseu, 2018. 80p.

CERTOS PREGÕES

Meu netinho é encantado com o pregão da caminhonete que passa pelas ruas do bairro à cata de velharias:

– Panela velha, máquina de lavar velha, geladeira velha!

A emissão que se espalha no ar vem metalizada pela baixa qualidade do sistema de som do carro. Talvez seja isso o mais interessante para ele. A voz do locutor sai espremida, rascante, metálica:

– Ventilador velho, liquidificador velho, geladeira velha!

Certo dia, rindo, ele emendou:

– Vovô velho!

Mas ficou chateado quando eu disse “Francisco velho!”.

Os pregões são formas orais tradicionais usadas por ambulantes para anunciar a mercadoria à venda. Vem desde que o homem saiu com os produtos de sua colheita ao encontro de possíveis compradores, pelas ruas das vilas e das cidades. Era preciso anunciar.

No caso específico da caminhonete do ferro-velho, o que se anuncia é o que se compra, diferentemente dos pregões tradicionais.

Normalmente os pregões se resumem a enunciar o nome da mercadoria ou do seu vendedor:

– Olha a banana! Olha o bananeiro!

– Olha o peixeiro!

– Olha a laranja! Olha o laranjeiro!

Um ou outro tinham formas mais elaboradas, como versinhos rústicos, como do vendedor de pirulitos:

– Olha o pirulito americano: bota na boca e sai “chupano”!

Uns usavam o humor para chamar a atenção:

– Moça bonita não paga. Mas também não leva!

Escuto pregões desde que me entendo por gente. Lá na minha Carabuçu natal eles existiam. Eu mesmo já os produzi, em moleque. Saía à venda das laranjas da minha avó. Confesso, no entanto, que tinha certa vergonha de sair gritando pelas ruas miúdas da vila.

Quando cheguei a Niterói, em 1967, deparei com o centro da cidade coalhada de camelôs, uns mais histriônicos que outros, mas todos com seus pregões reconhecidos, à cata de clientes.

Havia um que sempre se postava na esquina da Avenida Amaral Peixoto com a Rua Visconde do Uruguai e anunciava, com sua voz espremida e ligeiramente gutural, um pregão bem diferente, só decodificado ao se ver o ele que vendia:

– Quem tem criança na escola! Quem tem criança na escola!

O /s/ de escola saía bastante chiado, como é comum ao carioca. Assim era a forma de tentar vender seus cadernos.

Outro, que vendia traquitanas para a cozinha, nas imediações, dizia uma frase também bem estranha, enquanto manipulava o objeto:

– Não resta prática, nem tampouco habilidade!

E eu ficava intrigado com aquele verbo restar na frase. Até que meu amigo Valter Bretas esclareceu que o camelô deveria querer dizer “não requer prática”. Era realmente isso: o treco era de fácil manejo.

Tempos depois tive minha atenção despertada pelos camelôs de La Paz, na Bolívia. Observei que seus pregões tinham uma estrutura fixa, na maior parte das vezes: o nome da mercadoria era enunciado duas vez na forma normal e uma terceira vez, na forma diminutiva.

– Pañuelos! Pañuelos! Pañuelitos!

– Chompas! Chompas! Chompitas!

– Ponchos! Ponchos! Ponchitos!

Ainda que o terceiro termo não estivesse no diminutivo, a forma tríplice era uma constante:

– Chicha blanca! Chica blanca! Chicha blanca!

Outro camelô, este já no Rio de Janeiro, no calçadão da Rua São José, lá pelos anos 70/80, era uma figura e tanto. Estava sempre de paletó e gravata, óculos escuros, cabelos cortados rentes. Vendia baralhos, que expunha sobre sua pequena banca, e pomada japonesa, que ficava escondida sob ela. Os baralhos eram anunciados aos brados; a pomada japonesa, contudo, era apregoada em um tom bem baixo.

– BARALHOS DE NYLON! BARALHOS DE PLÁSTICO! Pomada japonesa!

Cada um encontra o tom certo, o ritmo adequado, a fórmula capaz de encantar o possível comprador. Outros, contudo, por certas limitações, acabam criando quase um pânico nos ouvintes. Era o caso do Zé do Ovo, já citado aqui em outra postagem.

Zé do Ovo era um pobre coitado, deserdado da vida e do juízo perfeito, que minha sogra como que adotou ainda adolescente. Por vezes ele passava uma temporada em sua casa e era tratado com um filho a mais. Mas sempre apresentou algum transtorno e era tido como meio lelé da cuca. Quando eu o conheci, ele já era um homem feito e sempre estava por lá. Em alguns momentos, colhia folhas de couve da horta da dona Judith, colocava numa cesta e saía a apregoar pelas ruas de Miracema:

– Olha o “coveiro”! Olha o “coveiro”!

Mas, normalmente, voltava para casa todo feliz, com seu sorriso banguela, a cesta vazia e o dinheirinho miúdo no bolso.

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Jean Baptiste Debret, Negras quitandeiras, séc. 19 (em pinterest.com).

FUGINDO DA MORTE

 

Nascemos já com o compromisso de resistir, de tentar ficar longe da morte, a inominada, a Dama Branca de Manuel Bandeira, que o espreitou, tuberculoso que era, desde jovem até o seu passamento, já com oitenta e dois anos. Eu não fujo à regra. Adentrei os setenta com o vigor da idade, a despeito da avaliação de menoscabo do esculápio que me submeteu a uma prova de esforço nos primeiros dias do ano, numa esteira ergométrica miserenta, e revelou que meu preparo físico é fraco. Não precisava disso. Eu já sabia. Abuso na preguiça, por conta de não haver cardíacos na família. Morremos de câncer, normalmente, ou de diabetes. O que vier primeiro. Sem preferências. Por isso me cuido. Ao meu modo, evidentemente. Tudo porque, como disse alhures, não almejo a paz dos cemitérios tão cedo.

Vou aqui, então, relatar aos amigos as providências, condutas e jeitinhos para adiar o mais que puder a morte, através da explicação de seus diversos torneios vocabulares, a fim de que possa orientá-los em suas vidas. Minha família tem o péssimo hábito de ser longeva.

Vamos a eles.

ABOTOAR O PALETÓ: Não tenho mais paletós. Minto. Até tenho, para cerimônias formais, mas não lhes dou confiança. Aliás vou doá-los, assim que termine este texto. Se não conseguir me desvencilhar deles tão logo, vou arrancar-lhes os botões, a fim de não correr risco de abotoá-los inadvertidamente.

ESPICHAR AS CANELAS: Sou renitente! Não espicho! Tenho o cuidado de sempre manter meus joelhos dobrados, até mesmo quando durmo, no intuito de prevenir qualquer incidente grave.

COMER CAPIM PELA RAIZ: Raiz? Não tenho comido nada. Nem aipim, beterraba, batata, inhame, cenoura. Minha glicose anda saliente, e estou me abstendo de consumir coisas subterrâneas. Todas, invariavelmente, viram açúcar.

VESTIR O PALETÓ DE MADEIRA: Se estou abrindo mão dos paletós de tecido, muito mais confortáveis, por que iria usar paletó de madeira? Seria, inclusive, pouco ecológico. E, também, porque o caimento não fica bem. A madeira não se conforma à minha anatomia um tanto irregular, na parte situada nas imediações do ventre. Se é que me entendem.

PASSAR DESTA PARA MELHOR: Não comprei nenhuma passagem para melhor. Portanto não vou passar para lugar nenhum. Se houver vale transporte para isso, pode ser que eu estude a possibilidade, num remoto futuro. Caso contrário, fico por aqui mesmo: nesta!

VIRAR PRESUNTO: Não fui criado com bolotas, nem nasci em áreas demarcadas propícias, o famoso terroir. A não ser que Carabuçu seja considerado um terroir caboclo! Assim minha carne e minha gordura não se prestam a virar um bom presunto de Chaves, Barroso, Barrancos, Vinhais, Pata Negra, de Parma, dentre outros menos conhecidos. Nem mesmo acredito que sirvam para mortandela.

TER AS HORAS CONTADAS: Não uso relógio desde a juventude. Assim que terminei o curso primário, no saudoso Grupo Escolar Marcílio Dias, em Carabuçu, ganhei um relógio de presente do prefeito do município. Foi o único. Nem sei onde anda mais. Por isso, não conto as horas. Deixo para os mais preocupados com o tempo.

IR PARA A CIDADE DOS PÉS JUNTOS: Como no caso de partir desta para melhor, não comprei passagem. E, ademais, não encontrei tal cidade no planisfério. Nem mesmo o GPS, o Viber ou o Google Maps conseguiram localizá-la. Estou abortando a viagem sempre.

ENTRAR NO SONO ETERNO: Não consigo dormir muito, embora goste bastante. Um pouquinho só, umas oito horas, me basta a cada dia. Esse negócio de sono eterno não faz minha cabeça. Prefiro acordar sempre no dia seguinte e beber um generoso e fumegante gole de café amargo. Assim também vale para o tal descanso eterno. Como diz o vulgo, prefiro viver cansado, embora aposentado em tempo integral.

ESTAR COM O PÉ NA COVA: Não sou couve, alface ou rúcula, para enfiar o pé em cova nenhuma. Talvez um pouco hidropônico. Sou desenraizado. Plano acima da linha do chão por dois centímetros de sola de sapato ou de sandálias de dedo, que me hão de evitar enfiar o pé na cova. Estou fora!

BATER AS BOTAS: Desde os dezoito anos, época em que servi o glorioso exército nacional, não uso botas. Nem nunca comprei. Já há bom tempo só tenho mocassins, que não servem para bater em nada, nem em ninguém. E, quando entro na areia da praia para fotografar, lá mesmo bato os mocassins na beira do calçadão, para me livrar dos grãozinhos que penetram sem convite.

DAR COM OS COSTADOS NA CERCA: Acerca, sem trocadilho, desta expressão, já me expressei aqui em outra postagem (Clique aqui para ver.). Nem chego perto de cerca, a fim de evitar, se falsear a passada, que eu possa esbarrar em qualquer tipo de cerca, de madeira, bambu, cerca-pinto, arame farpado, ou mesmo e sobretudo elétrica. Minhas costas estão incólumes até hoje.

DAR O ÚLTIMO SUSPIRO: Esta expressão é dúbia. Suspiro é também o nome de um doce muito apreciado, feito de clara de ovo, açúcar e tenras farpelas de casca de limão, que se desmancha na boca milagrosamente, mas que também eleva a taxa de glicose aos píncaros. Quem compra um pacote de suspiros dá qualquer um deles, menos o último, que é justamente o que encerra, enfeixa, potencializa seu derradeiro paladar. Ninguém dá o último suspiro. Eu, por questões já ditas acima, nem compro o pacote. Ainda mais dar o último suspiro! Quanto ao suspiro propriamente dito, esse que movimenta o ar que entra e sai dos pulmões, quero informar que vai bem obrigado. Meu fole anatômico tem funcionado muito bem. Os pulmões continuam livres e desimpedidos. Espero, assim, dar o último suspiro só depois de morto.

Por hoje é isso! Até a próxima encarnação!

 

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Ilustração de Albrecht Dürer (1471-1528),

PARALIMPÍADAS/PAROLIMPÍADAS

A propósito do início de uma nova etapa nos jogos olímpicos RIO 2016, trago aqui uma discussão muito restrita, mas também com sua relevância. Pelo menos, para mim que tenho o maior zelo com o uso dessa nossa tão bela língua portuguesa.

Há duas edições das Olimpíadas para atletas com restrições físicas, os organizadores resolveram chamar esses jogos de PARALIMPÍADAS, embora tais jogos tivessem sido designados até então PAROLIMPÍADAS.

A mudança é um erro linguístico, ou, pelo menos, normativo, no uso da nova palavra.

Ela é constituída do prefixo de origem grega PARA e da palavra OLIMPÍADA, já consagrada. Ora, no momento da criação da palavra, que se dá por prefixação – é uma derivação, do ponto de vista gramatical –, isto é, a adjunção de um prefixo a um vocábulo, há a perda de um elemento fonético. Isto ocorre sempre em que há uma vogal ao final do prefixo e uma vogal no início do vocábulo principal. Tal vocábulo é sempre uma palavra, quer dizer, um substantivo ou um adjetivo que traduzem um sentido do mundo (um ser ou uma qualidade).

Em princípio, todos os nomes – substantivos e adjetivos – são vocábulos tônicos, isto é, vocábulos com força fonética em sua emissão no âmbito da frase, a unidade básica de comunicação verbal. Ao passo que os prefixos e os sufixos são elementos de composição – não-palavras, mas vocábulos gramaticais – átonos, isto é, de emissão fonética branda, sem força nesse mesmo contexto.

Assim, via de regra, quando há perda de um elemento fonético, ao se combinarem prefixo + palavra, é o prefixo que perde fonema, e não a palavra.

O prefixo PARA, entra, por exemplo, na composição de PARÔNIMO, PARONOMÁSIA, que são a combinação, por derivação, do mesmo prefixo PARA, mais o vocábulo de origem grega ÔNOMA (=nome), para formar esses novos vocábulos (“nome semelhante”).

Por esta razão, a palavra a designar as Olimpíadas de atletas com limitações físicas deveria ser PAROLIMPÍADAS e não PARALIMPÍADAS.

 

Resultado de imagem para paralimpiadas 2016 calendario

FAZER OU NÃO FAZER

Mesmo que você seja um preguiço contumaz – e não vou aqui enumerar alguns que me conheço –, sempre terá o que fazer do ponto de vista linguístico. Nossa língua nos provê de um bom número de expressões do fazer que, propriamente, podem não produzir nenhuma obra que se preze, mas, ao contrário, servirão para expressar muitos e variados conceitos. Aliás, conceitos pertinentes a respeito das coisas do dia a dia (Até hoje não concordo muito com a reforma ortográfica que suprimiu o trema e escorraçou o hífen de muitas palavras de forma inexplicável.).

Consegui arrolar algumas delas para a sua apreciação, caro leitor.

Aí vão.

Fazer a vida – Trabalhar; exercer certo ramo de atividade; sair do estado de inatividade para o de produtividade.

Fazer água – Romper-se o casco, com a consequente entrada de água na embarcação. Produzir resultado pífio ou aquém da expectativa; resultar uma ação em consequência desprezível.

Fazer barulho – Alardear; manifestar-se em altos brados; propagar; tornar público.

Fazer beiço/beicinho – Chorar; começar a chorar; fingir chorar a fim de comover o outro.

Fazer bobice – Fornicar; manter relações sexuais. Agir de forma debochada, ou com brincadeira. / Também na forma popular interiorana: fazer bobiça.

Fazer cara de paisagem: Fingir distanciamento do que acontece; mostrar-se alheio ou indiferente à situação.

Fazer caminho – Viajar; ir em busca de realizar algo; sair. Procurar um rumo na vida.

Fazer cera – Demorar propositadamente a fazer algo, na intenção de ganhar tempo; remanchar; retardar a execução de uma tarefa. No futebol, demorar na reposição da bola em jogo, a fim de ganhar tempo, quando o próprio time está com o placar favorável.

Fazer chacota – Zombar; tratar com desconsideração ou desprezo.

Fazer comichão – Instigar; incentivar; motivar.

Fazer (cu) doce – Colocar-se acima da situação, fingindo não se interessar por aquilo que acontece; fingir distanciamento; fingir superioridade.

Fazer das tripas coração – Transformar, pelo trabalho exaustivo, algo negativo em positivo. Produzir bom resultado, a partir de dados negativos.

Fazer de conta – Fingir; fabular.

Fazer feio/ bonito – Realizar algo com bom/mau resultado; errar/acertar na execução de uma tarefa.

Fazer figa – Tentar precaver-se de maus resultados; Fingir não dar importância a algo.

Fazer figura/cena – Fazer pose; fingir um estado de espírito; mostrar-se; pavonear-se.

Fazer filho – Engravidar alguém (o homem); engravidar-se (a mulher).

Fazer firula – Expressão oriunda da linguagem do futebol: tentar ou executar jogada de efeito bonito, mas sem aplicação prática na partida. Fazer algo sem praticidade, apenas na tentativa de aparecer para o outro.

Fazer gato e sapato – Tratar de maneira irresponsável reiteradamente; abusar.

Fazer mal – Manter o homem relações sexuais com mulher inexperiente, normalmente virgem.

Fazer merda/cagada – Fazer algo que produza resultado negativo, por imperícia ou precipitação; fazer algo malfeito, inútil ou sem bom acabamento.

Fazer mundo – Viajar; viajar sem roteiro pré-programado; sair em busca de realizar algo; viver vida errante.

Fazer o diabo – Agir de forma abusada e excessiva. Exercer muitas atividades; fazer muitas coisas.

Fazer onda – Mostrar-se superior diante do outro em determinada situação. Também se diz tirar onda.

Fazer ouvidos de mercador – Fingir que não ouve algo que é dito, a fim de não se obrigar a reagir.

Fazer piada/troça – Zombar; não levar a sério um assunto; ridicularizar.

Fazer pouco – Desconsiderar; levar em pouca conta ou consideração.

Fazer presença – Estar presente; comparecer; estar em determinado lugar ou situação, sem se comprometer com o que ocorre.

Fazer-se ao mar – Partir em viagem marítima; navegar.

Fazer-se de morto – Não participar de determinada atividade ou opinião, para não se compromete; omitir-se.

Fazer-se de vítima – Aparentar inocência para fugir à responsabilidade de sua própria ação; dissimular.

Se você, leitor, quiser aplicar algumas dessas expressões a alguém que conheça, da vida pública ou privada, esteja à vontade. Não sou proprietário delas; é a língua que nos provê deste vasto repertório de palavras e expressões de que podemos dispor, para exprimir nosso conceito do mundo que nos cera. E pelos sete lados, como numa aposta do jogo de bicho.

Até a próxima, que tenho mais o que fazer!

 

Tiziano, Sísifo, 1549, Museu do Prado (em pt.wikipedia.org).

PALAVRAS E COMICHÕES

Falamos hoje sem a percepção da história que há por trás das palavras. Na verdade, a palavra vale como a pule do jogo do bicho: pro dia. O que é passado é esquecido. Quando dizemos alguma coisa, não imaginamos, nem de longe, o quanto aquela palavra andou pelo tempo, tropeçou em línguas e bocas, cortou voltas por caravanas e caravelas, até chegar ao que hoje soa e significa. Parece que, por velha, parece saída requentada do forno. Nosso saber linguístico é contemporâneo. Só nos assustamos quando ouvimos uma pessoa de mais idade usando um termo desconhecido, ou quando nos deparamos com textos escritos de décadas ou séculos atrás. Mas a palavra é uma viajora. Vem de longe, tanto no tempo, quanto no espaço. E, por isto, às vezes perde pedaços pelos caminhos que percorre, troca de trilha, muda de sentido, altera a pronúncia, mas está sempre fervendo de nova em nossa boca, a comunicar nossos pensamentos, sentimentos, emoções. A servir para nos entendermos e, por vezes, nos desentendermos com o outro.

E isso em qualquer língua. Não só na nossa.

O mais interessante, contudo, é que sempre achamos que falamos inteligivelmente. Qualquer pessoa nascida no nosso meio entende com perfeição o que dizemos, sem estranheza. Porém é só sair do país, para perceber como os outros falam complicado. É cada língua esquisita, que fica difícil acreditar que eles se entendam. E se entendem perfeitamente como nós mesmos nos entendemos, por mais estranha que tal língua possa parecer.

É que a palavra, como disse uma velha amiga de magistério, é uma experiência gestáltica. Às vezes não é necessário que a pronunciemos por inteiro para que seja entendida, sacumé? Chega a ser um simples comichão sonoro, sem sua integralidade, e é compreendida facilmente, né? Tá bom pr’ocê?

A maioria esmagadora das palavras da língua percorreu um longo caminho no tempo. Outras entraram por esses dias e já estão fazendo sucesso na boca de uns e outros. As línguas se permitem isso. São os chamados empréstimos linguísticos. A ciência, a tecnologia, os esportes, o comércio exterior, as comunicações ajudam a entrada e a saída de palavras e expressões. O uso massivo pode fazer com que elas entrem em definitivo para o léxico. O mais normal é que, ao entrarem em contato com o português, por exemplo, passem a funcionar como uma palavra comum de nossa língua.

Há, porém, algumas palavras vernáculas, provenientes do latim, que têm uma história interessante. Vou-me permitir mostrar-lhe algumas delas, leitor amigo.

As formas pronominais comigo, contigo, consigo, conosco e convosco – algumas mais usadas, outras nem tanto – vieram do latim. Lá eram, respectivamente, mecum, tecum, secum, noscum e voscum, formadas pelos pronomes mais a preposição  cum (com, em português), que indica companhia. No português arcaico, é possível encontrar atestadas formas como migo, tigo, etc., com o mesmo sentido dos pronomes modernos. Entretanto o falante deixou de perceber que o –go era a forma que o cum latino tinha assumido na passagem ao português. O que é que se fez, então? Simplesmente se acrescentou novamente a preposição de companhia, agora no início da forma: com+migo, com+tigo, etc., e criamos os pronomes comigo, contigo, etc. Assim, historicamente, tais formas têm duas vezes empregada a forma que indica companhia, uma antes e outra depois do pronome propriamente: co-mi-go.

Outra forma interessante é a do verbo comer. Em latim, a língua mãe, a noção de comer era expressa pelo verbo edere, da terceira conjugação. O radical da palavra, aquilo que expressa o sentido, é ed– (cf. inglês eat). –ere é a terminação verbal, que indica a conjugação (-e-) e o infinitivo (-re). Como o romano que levou o latim para a Península Ibérica entendia o ato de comer como um ato social e não apenas a necessidade humana de se nutrir, juntou ao verbo a preposição de companhia cum. Assim a forma passou a ser cumedere, isto é “comer em companhia de alguém”. Na passagem ao português, ocorreram regularmente certos fenômenos fonéticos. Um deles fez com que as consoantes sonoras do latim que estavam entre vogais viessem a desaparecer na passagem. Cumedere passou a comeer. Houve também a perda do –e final da forma verbal. Tal forma vigorou no português arcaico, com o hiato entre as duas vogais /e/. Como duas vogais iguais sofrem o fenômeno da crase, o verbo atual passou a comer. Vejam que o que, historicamente, compõe o verbo moderno é o que era, de início, a preposição de companhia e a terminação verbal (-e-, segunda conjugação, -r, infinitivo). Desapareceu, portanto, a raiz originária –ed-, que representa o sentido do verbo. O que a língua tratou de fazer? Simplesmente transferiu o sentido da palavra para aquilo que era o prefixo, a preposição com. Hoje temos uma gama de palavras derivadas, que o falante entende perfeitamente como membros da mesma família semântica: comida, comestível, comedouro, comilança, comensal, etc., cujo radical é com-.

Em francês há um caso interessantíssimo. Hoje, na moderna língua, é aujourd’hui, que é formada por au/jour/d/hui, literalmente “no dia de hoje”. É que, em algum momento da evolução do latim ao francês, a forma hui, oriunda do latim hodie (hoje), perdeu seu sentido. Assim os falantes tiveram necessidade, para expressar o dia atual, em lançar mão de uma expressão – au jour de hui, ou melhor, aujourd’hui. O falante atual não tem a noção de que esse finzinho da palavra, um dia, já significou sozinho tudo o que a palavra comprida hoje significa.

Fico por aqui, por hoje. Ou por aujourd’hui.

 

Imagem em solucaoperfeita.com.

LÍNGUA ESTROPIADA

Começa que depauperado não é o cara que fez cirurgia de fimose.

E aí as pessoas vão confundindo as coisas, usando as palavras de qualquer maneira, sem pensar um pouco. Esquecem-se de que o pensamento precede a expressão. Então é preciso refletir, antes de abrir a boca e deixar sair uma enxurrada de besteiras.

Tive uma colega de trabalho que fingia ter feito Direito – ou, de fato, teria feito, só que nas coxas – e se metia a falar difícil, a usar frases feitas, expressões consagradas, completamente deslocadas do contexto ou, simplesmente, misturadas. Nessas oportunidades, sempre que ia soltar uma pérola, ajeitava os óculos, como que a conferir autoridade no que diria. Ouvi-a, por exemplo, dizer que certo fato era “o inferno de Cervantes” e que uma atitude temerária de um colega, em prol da categoria, havia sido uma “atitude pixotesca”.

Há pessoas que ouvem o galo cantar, sem saber onde. Querem colher o ovo, antes que a galinha o ponha.

A língua dever servir como instrumento de comunicação. Já dizia Chacrinha, o grande filósofo da televisão brasileira (Hahaha!), que quem não se comunica se trumbica.

Há pessoas que falam, falam, falam, e, no final, você diz: Hã? E lá se foi todo aquele caudal verborrágico pelo ralo abaixo.

Por outro lado, a sabedoria popular diz que em boca fechada não entram moscas, num sério conselho a que nos mantenhamos calados. Ou, pelo menos, que falemos o menos possível. Como recomendado nos ônibus: só o indispensável.

Contudo falar só o indispensável pode ser muito pouco, muito lacônico, conciso.

Pode não parecer, mas eu sempre tive um grande pendor pela economia das palavras. Certa vez, a professora de Literatura Francesa, no Instituto de Letras da UFF, pediu que respondêssemos às questões da prova sobre determinada leitura de um livro, com concisão. Ao trazer a prova corrigida, verifiquei que ela me tirara dois pontos, embora minhas respostas tivessem tocado os pontos certos. Reclamei. Ela alegou que as respostas haviam sido muito curtas.

– Mas a Senhora pediu concisão!

– Nem tanto, nem tanto!

E perdi lá meus dois pontos. Foi o que me fez lutar um pouco contra essa tendência.

Também quem fala menos, menos estropia a língua. Menos tem oportunidade para errar.

Uma colega de trabalho, há algum tempo, me perguntou por que as pessoas no Rio de Janeiro dizem “soltar do ônibus”. Respondi que é porque falam errado. Deve ser “saltar do ônibus”. “Ah!”, disse ela, compreendendo a expressão.

Semelhantemente ocorreu comigo, logo que cheguei a Niterói. Havia um camelô na esquina da Avenida Amaral Peixoto com Visconde Uruguai, que vendia uma traquitana para picar temperos. Aos gritos e fazendo funcionar o aparelho, anunciava:

– Não resta prática, nem tampouco habilidade!

Comentei com meu amigo Walter Bretas, manifestando meu estranhamento no uso do verbo restar. Ele, que também é de Niterói, e conhecia o camelô, deslindou o mistério:

– Ele quer dizer: não requer prática.

– Ah! – fiz eu, entendendo a linguagem estropiada do camelô.

Coitada da língua!

Imagem em seriesfreaks.blogspot.com.