VIAGENS NA MINHA TERRA

Terminei de ler Viagens na minha terra*, obra do escritor português do século XIX Almeida Garret, considerado o fundador do Romantismo em língua portuguesa com seu poema Camões.

Garret é um dos autores básicos nos estudos de Literatura nos cursos de Letras. Dele já havia lido, nos tempos acadêmicos, O arco de Santana e alguns poemas. E tinha, dentre minhas dívidas para com a arte da palavra, a leitura desta obra do escritor luso.

A arte tem a capacidade de gerar obras que ultrapassam o tempo. Esta é uma delas.

Viagens na minha terra, que relata a viagem que o autor empreendeu entre Lisboa e Santarém em 1843, é uma interessante mistura de narrativa de viagem, romance e autobiografia, com pitadas de humor, ironia e crítica. E, com a linguagem típica do século e da escola literária, o autor faz uma análise corrosiva da vida literária, social, política e econômica portuguesa, com a lucidez das inteligências aguçadas.

Por isso, selecionei algumas passagens para os meus leitores que não o conheçam.

Aí vão elas.

1. Dizia um secretário de Estado, meu amigo, que para se repartir com igualdade o melhoramento das ruas de Lisboa, deviam ser obrigados os ministros a mudar de rua e bairro todos os três meses. Quando se fizer a lei de responsabilidade ministerial, para as calendas gregas, eu hei de propor que cada ministro seja obrigado a viajar por este seu reino de Portugal ao menos uma vez cada ano, como a desobriga. (p. 26)

2. E eu pergunto aos economistas-políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignomínia crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico. (p. 28)

3. […] cada homem rico, abastado, custa centos de infelizes, de miseráveis. (p. 28)

4. “Rei que nos enforque e Papa que nos excomungue nunca há de faltar.” (p. 48, pela boca de um de seus personagens)

5. Como, sem Porto ou Madeira, sem Lisboa, sem Cartaxo, ousa um súdito britânico erguer a voz, naquela harmoniosa desafinação insular, que lhe é própria e que faz parte de seu respeitável caráter nacional? (p. 50, crítica sobre os ingleses, então aliados de Portugal)

6. O que é um inglês sem Porto ou Madeira, sem Carcavelos ou Cartaxo? (p. 50, idem)

7. Toda guerra civil é triste.

E é difícil dizer para quem mais triste, se para o vencedor, ou para o vencido. (p. 53)

8. Formou Deus o homem, e o pôs num paraíso de delícias; tornou a formá-lo a sociedade, e o pôs num inferno de tolices. (p. 126)

9. Detesto a filosofia, detesto a razão; e sinceramente creio que num mundo tão desconchavado como este, numa sociedade tão falsa, numa vida tão absurda como a que nos fazem as leis, os costumes, as instituições, as conveniências dela, afetar nas palavras a exatidão, a lógica, a retidão que não há nas coisas, é a maior e mais perniciosa de todas as incoerências. (p. 194)

———-

*GARRET, Almeida. Viagens na minha terra. 3. Ed. São Paulo, Martin Claret, 2003.

Capa do livro da editora Martin Claret.

DO TEMPO DO ONÇA

Há algum tempo (não muito, por certo!) publiquei no blog a postagem Lugares distantes, em que, de forma abreviada e superficial como é minha praxe, fiz um apanhado das expressões que denotam, nas frases, a noção de lugar. Aquilo que a gramática tradicional classifica como adjunto adverbial de lugar.

Como disse naquela oportunidade, pelo fato de ser interessado no fenômeno da linguagem, sempre vêm caraminholas linguísticas perturbar meu descanso remunerado de aposentadoria. Desta vez é a noção de tempo. E isto motivado por uma frase ouvida de pequeno falante de nossa mui bela língua.

Imagem em infoescola.com.

O tempo, do ponto de vista psicológico, pode ser bem diferente daquele que é medido pelo relógio e pelo calendário. As vinte e quatro horas do dia passam aceleradamente, caso você tenha muitos problemas a resolver, o que o leva a ansiar por um dia de vinte e cinco ou mais horas, por exemplo. Ao contrário, caso você esteja tranquilo, desfrutando de um ócio quase pernicioso – como se isso fosse possível –, é bem provável que aquelas mesmas horas lhe pareçam infinitas e maçantes. A este respeito, aliás, Millôr Fernandes tem uma frase excepcional, em que joga com a tensão entre essas duas percepções de tempo: “A cada mês, sobram mais dias no meu salário” (cito de memória).

No curso de Letras, aprendemos logo cedo a distinção entre o tal tempo psicológico – matéria básica da obra literária – e o tempo físico, astronômico, propriamente dito – aquele determinado para entrega dos trabalhos de literatura, por exemplo.

Mas a tradição da língua nos oferece algumas expressões interessantes, além dos óbvios hoje, ontem, amanhã, depois de amanhã, anteontem, trasantontem/ trasanteontem, agora, depois, logo, breve,, e por aí afora (Isto aqui não é aula de gramática!). Algumas dessas noções, lá em Carabuçu, dizíamos, por exemplo: onti, antonti ou antionti, tresantonti, istrudia (estoutro dia, há alguns dias) e dijaoje (hoje cedo, ainda há pouco).

As expressões que aqui me interessam estão impregnadas pelo caráter estilístico próprio de nossa língua. Vejam alguns exemplos e minhas impertinentes observações:

a)      Tempo do onça – Época antiga e imprecisa, mas bem antiga, que nos remete a um país menos povoado por gente e mais por onças e outros bichos do mato. Ou será que a falta de concordância da expressão do onça é por que já é um aportuguesamento do inglês once upon a time?

b)      Tempo do cagar de coque (de cócoras) – Tempo que precedeu à tecnologia do penico e, por consequência, à da casinha, à do vaso sanitário e, finalmente, à do water closet, com sua caixa de descarga ecológica, para xixi e cocô. Era também o tempo da frase “Vai cagar no mato!”, xingamento hoje muito brando, já que não inclui a progenitora do nosso adversário, como é próprio dos impropérios modernos. Às vezes, em determinadas situações e premido por certas circunstâncias intestinais que nem é bom lembrar, vamos da era da privada tecnológica ao tempo do cagar de coque num átimo. É só o intestino mandar!

c)       Tempo em que se amarrava cachorro com linguiça – Tempo antiquíssimo que nos remete aos primeiros dias do Éden, antes de Adão e Eva fazerem a m*rda que fizeram. Naquela altura, até mesmo os animais carnívoros eram educados e se podia facilmente amarrar um cão com este tipo de corrente.

d)      Tempo da Carochinha – Esse é um tempo em que até mesmo nossos avós, bisavós e tataravós eram criancinhas. Está lá perdido no meio daqueles livros de histórias infantis, na memória da gente. É tempo velho do tempo de nós meninos. Mais ou menos por aí. E talvez seja o que nos dá mais saudades.

e)      Tempo do ‘derréis’ (dez réis) e do vintém – Tempo bom, em que “se vivia muito bem, sem haver reclamação”, como diz o samba famoso*. E não serei eu a contestar a afirmação do sambista. Contudo penso que este tempo caro à memória era concomitante ao que vem logo a seguir.

f)       Tempo de Dondom** – Também cheio de coisas boas, segundo o sambista, pois “nossa vida era mais simples de viver”, cheio de cortesias e de boas lembranças. Até de um jogador que ninguém conhece, de um time desconhecido, o Andaraí. O bairro é logo ali mesmo, e o tempo deve estar perdido em suas ruas e vielas. Pode ser que o tempo esteja a andar aí.

g)      Naquele tempo – Expressão consagrada pela Bíblia, que dela faz muito uso, e é tradução do latim da Vulgata in illo tempore. Como os textos da Bíblia já são muito antigos, quando falam daquele tempo, deve ser coisa beirando o tempo da criação do mundo. Sei lá! Mas sempre soa como coisa antiquíssima.

h)      Tempo do rei – Este é um tempo fácil de ser encontrado nos antigamentes: é de quando houve rei. Acabou-se o rei, findou-se o tempo. Ruy Castro o utilizou em um de seus livros: Era no tempo do rei***, em que fabula peripécias de um D. Pedro I na adolescência, reinando pelas ruas do antigo Rio de Janeiro, do tempo do rei.

i)        Tempo de D. João caroço – Já este tempo é indefinível, mas bem anterior ao do rei. Pelo menos é o que se sente da expressão. E do caroço de D. João.

j)        Tempo das vacas magras – Este é um tempo atemporal, individual ou coletivo. Pode ter sido ontem, há um mês, há um ano, há muito tempo. Há um borbotão de pessoas que ainda vivem no tempo das vacas magras e ainda não têm a perspectiva de escapar dele. Vejam, então, que é um tempo sem tempo definido. Como o do trabalhador brasileiro que, segundo a propaganda do governo, saiu dele, mas, conforme notícias atuais, para lá volta daqui a pouquinho.

k)      Tempo do cinema mudo/do cinema preto e branco – Este é um tempo facilmente marcável. É só você ir à Wikipedia e ver lá. Não vou perder tempo com isso.

l)        Tempo do rádio de rabo quente – Um pouco anterior ao tempo do cinema mudo. Os chamados rádios de rabo quente apareceram no princípio do século XX e eram a alegria das pessoas. O problema é que deviam ser ligados um pouco antes, para que esquentassem e começassem a espalhar seus encantos e maravilhas modernas no ar.

Finalmente volto ao motivo inicial que me despertou estas considerações.

Pois não é que ouvi, dia desses, um menino dizendo para o outro que o seu pai era velho “do tempo em que o papel higiênico não rasgava no picote”, como se tal grande avanço tecnológico tivesse sido conseguido há décadas. O colega se espantou, pensando tratar-se da coisa mais antiga do mundo. Onde é que já se viu o papel higiênico não rasgar no lugar picotado?! Aos dois parecia um despropósito. E o coleguinha ainda falou:

– Aê, mané! Seu pai é velho pra caraca!

Ou, como diria o grande José Cândido de Carvalho, “pratrasmente de muitos anos”.

Fico por aqui, pois meu tempo acabou!

———-

* Saco de feijão, de Chico Santana, gravado por Beth Carvalho no elepê Nos botequins da vida (RCA, 1977).

** Tempo do Dondom, de Nei Lopes, gravado pelo autor no cd De letras e música (Universal, 2000).

*** CASTRO, Ruy. Era no tempo do rei. 1. ed. Ed. Alfaguara Brasil, 2000.

PENSANDO EM CAIXA ALTA

1. DA MINHA IMPLICÂNCIA CONTRA O CICIO 

Soube que o ex-presidente Lula está fazendo tratamento com fonoaudiólogo. Naturalmente que deve ser pelo problema do câncer na garganta.

Mas quero aproveitar a ensancha oportunosa para solicitar ao profissional que cuida dele que também acabe com aquele jeito linguinha de falar.

Se conseguir, que ele estenda o tratamento para todo o Partido dos Trabalhadores, a maior concentração de ciciamento em língua portuguesa que se conhece.

Depois que o Lula chegou ao poder, ciciar virou a marca fonética da legenda. Palloci, por exemplo, chega ao cúmulo de ciciar até em fonemas oclusivos, como /p/ e /b/, quando, então, solta perdigotos para todos os lados.

No entanto, é bom que se diga que, se no espanhol ibérico isto é um traço da fonética da língua, em português tal ocorrência é um defeito de pronúncia, tratado pela Fonoaudiologia.

No português arcaico, era usual, mas isto se perdeu há mais de seiscentos anos. Nem Camões e seus contemporâneos ciciavam mais!

Quanto à sintaxe estropiada do PT, aí já é um problema mais complicado! Só com anos de boa instrução…

2. ANDO PREOCUPADO COM A SAÚDE DO SENADOR 

A respeito da internação do senador Sir Ney (uso a grafia do jornal O Pasquim), ocorrem-me algumas “reflexões sem dor”, para seguir o que ensinava o grande Millôr Fernandes.

a) Vaso ruim não se quebra.
b) O título de imortal parece que começa a perder valor.
c) A peregrinação de políticos ao leito do hospital ocupado pelo senador é maior que a empreendida a certa manjedoura em Jerusalém há 2011 anos. Só que o caráter dos peregrinos de agora é semelhante ao do visitado. Isto é, tudo farinha do mesmo saco. E ali ninguém leva ouro, incenso ou mirra. Mas, antes, só subtrai! Só surrupia!
d) Corremos o risco de que ele tenha alta ainda com mais saúde do que quando entrou. É da natureza dele aproveitar as oportunidades. E não será esta que ele vai perder.
e) Na foto ao lado de Lula publicada nos jornais, ele sorri placidamente. E isto me dá um medo desesperado!
f) A tintura do cabelo está defasada, precisando urgentemente de um retoque. Na alta, com certeza, sairá recauchutado.
g) Praga de urubu magro não pega em boi gordo.

3. “PNEUMOTÓRAX” PARA A ARGENTINA

A Argentina, aquele país presunçoso mais ao sul, anda querendo movimento, já que está vivendo uma pasmaceira tanguera.

Porque qualquer governo é o seguinte: quando está sem grana, de mãos atadas, começa a inventar moda, isto é, a produzir factoides.

Primeiro tentou um calote internacional amplo, geral e irrestrito. Ficou à meia bomba.

Depois pensou em repetir a tentativa ensandecida de reconquistar as Ilhas Malvinas/Falklands, como fez a ditadura militar nos anos 80, com um insucesso estrondoso.

Agora, resolveu expropriar em 51% a empresa espanhola Repsol em sua participação na petrolífera argentina YPF.

Finalmente acho que o troço anda. Arriba, Argentina!

Em “Pneumotórax”, Manuel Bandeira, constata através do médico, diante da situação inelutável do paciente tísico: “A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

“Que el mundo fue y será una porquería, ya lo sé…”

Imagem em pt.wikipedia.com.    

FOI-SE O MEU GURU

Em menos de uma semana, três grandes da cultura nacional morreram: Chico Anysio, na sexta-feira (23), Ademilde Fonseca e Millôr Fernandes, ontem (28).

Particularmente, no caso de Millôr Fernandes, a perda é irreparável. Não que Chico seja menor, ou que Ademilde não tenha sua importância. Eles foram grandes em suas atividades! Mas Millôr foi mais completo como intelectual, como artista, como cidadão consciente, que fez do humor sua cara mais visível.

Leio Millôr Fernandes desde que me entendo como leitor. Tomei contato com ele através de O Cruzeiro, a revista brasileira mais importante do século XX (publicada entre 1928 e 1975). Minha mãe era compradora e colecionadora desta revista semanal, que chegava até nossa vila através do seu Osório, uma espécie de mascate de jornais, revistas, aves e ovos.

Por aquela época, ele se assinava Emanuel Vão Gogo – lembro-me disto perfeitamente – e publicava uma página na revista, em que mostrava seus desenhos, suas sátiras, suas tiradas. Só um pouco depois é que ele passou a se assinar Millôr Fernandes, e me recordo dos problemas que causou com a publicação de uma sátira da criação do mundo, sob o título de A verdadeira história do paraíso. Minha mãe, fã do escritor, mas católica fervorosa, ficou uma arara, como milhares de leitores da revista. A publicação deste texto determinou a saída de Millôr de O Cruzeiro, após forte pressão da Igreja Católica.

Aprendi aí, então, a admirar o gênio de Millôr e, em nenhum instante da minha vida, estive afastado do que ele produziu.

Autocaricatura colhida em cariricaturas.blogspot.com.br.

Contudo a projeção moderna mais visível de Millôr foi através do jornal O Pasquim, do qual foi um dos fundadores. Eu comprava religiosamente o jornal semanalmente. E, ainda que não tivesse tempo para o ler integralmente, a página do escritor não passava em branco.

Durante o tempo em que fui professor, um dos livros cuja leitura recomendava a meus alunos dos mais diversos cursos de graduação era o seu fantástico Papáverum Millôr. E fazia questão de cobrar a leitura, de debater os sentidos ocultos-expressos em cada poema, todos tendo como base o humor.

Pelo final dos anos 70, assinava a revista Veja única e exclusivamente pelas duas páginas que ele mantinha nela. E, quando, por necessidade surgida na mudança para nova casa, fui constrangido por minha mulher a me desfazer de um monte de coisas que acumulava – minha filha há pouco descobriu que sou um acumulador –, destaquei cuidadosamente as duas folhas, mandei encaderná-las em um volume grande, que ainda mantenho em minha estante.

Um tempo depois, o salário já miserável de professor, Millôr lança um de seus livros mais bonitos do ponto de vista gráfico: Desenhos, de 1981. Comentei com colegas do outro trabalho que desenvolvia paralelamente ao magistério sobre o lançamento e o desejo de comprá-lo, assim que recebesse o abono de fim de ano, a ocorrer dali a uns três-quatro meses.

Na semana seguinte, recebi de presente das minhas colegas o livro desejado. Não tive como evitar que minasse água dos meus olhos. Todas elas eram trabalhadoras humildes, com baixos salários, mas que se cotizaram para me fazer aquele mimo, aquele afago no meu coração, que jamais esqueceu tal gesto.

Ontem o Millôr nos fez a desfeita de morrer. De deixar mais pobre este país pelo qual ele se bateu, com sua verve, com sua crítica, com sua sátira, com seu trabalho, com sua arte e com sua inteligência privilegiada. Se a nossa vida pública não melhorou, culpa ele não tem. Porém, se em alguma coisa melhorou, certamente sua parcela de contribuição é sensível. No entanto, a arte e a cultura do Brasil foram muito engrandecidas por todas as suas obras.

O meu guru morreu!

Por isto é que quero, para finalizar este texto, transcrever um de seus poemas de Papáverum Millôr (Rio de Janeiro, ed. Nórdica, 1974, p. 170) e outro publicado em sua coluna, no extinto Jornal do Brasil, em 24/5/1988, na página 9 do I Caderno, cujo recorte amarelado guardo dentro de seu livro.

POEMINHA DO INÍCIO DOS TEMPOS

Se você quer saber por que eu sou assim?

Quando Deus perguntou: “Ouvido?” eu entendi olvido e preferi não ter.
E aí começou tudo.
Ele me disse: “Cara?” eu aí ouvi tara e disse: “a mais extravagante”.
Ele me disse: “Vista?” eu entendi crista e pedi vermelha.
Ele me disse: “Testa” eu ouvi fresta e disse: “Bem estreita”.
Dente eu entendi pente e disse “Não preciso”.
Nariz, trocado por raiz, resultou bem comprido.
“Tronco?” eu escutei ronco e exigi bem curto.
Braços eu entendi traços e pedi bem finos.
Confundi cor com flor e pedi amarela.
Cabelo eu entendi camelo e recusei, é claro.
Jeito eu entendi leito e pedi bem mole.
E quando ele me perguntou: “Talento?” eu entendi tá lento, disse que realmente estava achando tudo muito devagar e ele aí me deu esse acabamento, assim às pressas.
Que é pra eu aprender a prestar mais atenção na outra encarnação.

30.8.1972

MILLÔR

Como o país já tem 140 milhões de habitantes e outro tanto de faculdades, universidades, escolinhas, agências de publicidade e múltiplas e variadas empresas de picaretagem cultural pura e simples, aqui vai minha biografia para que não encham mais a paciência de minha secretária eletrônica, coitada, que tem colapso nervoso de quatro em quatro dias.

Millôr Fernandes nasceu. Seu pai e sua mãe. Todo seu aprendizado, desde a mais tenra infância. Aos 13 anos de idade já estava. Mais tarde já homem feito. No jornalismo e nas artes gráficas completou especificamente. Recusou-se sempre a. o que não invalida. No entanto, sua atuação teatral, até onde se sabe. Dos livros publicados, o que mais impressiona, foi constatado sem qualquer dúvida. A verdade é que, já em janeiro de 1964. Quando o conheceu, o ditador Oliveira Salazar, todos sabem. Não significando isso. Terminado o mestrado percebeu logo. Um dia, depois de um longo programa de televisão, foi que amigos e até pessoas interessadas, naturalmente. Onde e como, Millôr porém jamais, no caso. Ao ser agraciado, esteve, e não foi à toa. Entre os tradutores brasileiros. E tanto em 1960 quanto em 1978. Mas nem todo mundo concorda. O resto, diz ele. Ou seja, hoje em dia, como querem outros. Mas talvez.

POESIA NUMA HORA DESSAS?!

O título desta postagem remete ao Pasquim, jornal de humor que pontificou na imprensa alternativa brasileira, sobretudo durante o período da ditadura militar.

De quando em vez, apareciam poemas em suas páginas: às vezes de tom humorístico, às vezes de tom lírico ou político. Sempre, no entanto, eles eram apresentados sob o título que encima este texto, como que a indagar como seria possível pensar em poesia sob o estado de coisas em que vivíamos.

Dizem alguns que a poesia é necessária; outros, contudo, torcem o nariz para este tipo de manifestação artística, sob a ótica de que “poesia é coisa de romântico sonhador”, visão que nem sempre corresponde à realidade.

É bem verdade que, tão logo nos apaixonamos pela primeira vez, somos levados a cometer alguns versos para o objeto de nossa paixão, na tentativa, frequentemente canhestra, de conquistá-lo. E daí vem a visão equivocada que dela se tem. Ou, também, pela prevalência na divulgação de poemas com esta característica a que comumente assistimos.

Outros dizem que, mesmo não sendo necessária, a poesia torna o mundo mais bonito, mais interessante, porque, via de regra, traduz de forma artística – como várias outras artes – um olhar sobre a realidade ou sobre os sonhos, os anseios e os sofrimentos humanos.

Todos nós que passamos pelos bancos escolares tivemos – ou temos – contato com a poesia e, de uma ou outra forma, ela nos toca, nos sensibiliza, nos emociona, nos entretém.

É preciso, porém, que se diga, de modo racional, que a poesia é uma forma de expressão humana semelhante a outras que não trabalham na linha técnica ou científica. Assim são também, por exemplo, a música, o cinema, a escultura, a pintura, a dança, a arquitetura, a literatura em geral.

Enquanto uns têm habilidade em trabalhar a forma, fazendo imagens tridimensionais, esculpindo, moldando, outros têm a palavra como matéria prima de sua expressão. E nenhuma dessas manifestações se sobrepõe às outras em valor ou em importância.

Conheço pessoas, até amigas, que já me disseram claramente que não gostam de poesia. E isto não me escandaliza. Sei de pessoas ainda que não gostam de música, o que realmente me parece bastante estranho. Todavia cada um gosta do que gosta.

Mesmo eu, que gosto de poesia e cometo as minhas próprias, tenho certas preferências. Por exemplo: não gosto de poesias com excesso de metáforas; não gosto de poesias que primem pelo inusitado da forma, de um jeito artificial, ainda que ache o Concretismo muito interessante.

O poeta não precisa ficar inventando figuras, tentando mostrar criatividade inusitada. Já vi poeta que até em entrevista fala como poeta, cheio de nó pelas costas. Não vou dizer seu nome aqui, para não ser crucificado na próxima esquina, pois sei que ele é cheio de fãs. Porém acho isto pedante, presunçoso, pernóstico, pretensioso, sei lá. Parece que ele quer mostrar aos outros que é o maior: olha como eu sou criativo. A simplicidade também constrói coisas belas.

E também não precisamos ser só líricos, ou políticos, ou satíricos, ou dramáticos, ou trágicos. E a poesia que se faz não precisa necessariamente refletir a pessoa física que a produz. Quando se assiste a um espetáculo de dança, em nada se pensa na pessoalidade de seu autor. Não se trata obrigatoriamente da vida dele, do que sente, do que sofre, do que sonha. O espetáculo precisa valer por si, como, aliás, qualquer obra de arte: ela deve ter seu valor intrínseco, não importa a extensão que tenha.

Podem-se até observar características pessoais na expressão da forma de arte, mas isto não significa que a pessoa, em toda sua complexidade psíquica, esteja ali representada.

Da poesia somos sempre levados a pensar isto, talvez porque seja a arte mais próxima do criador. É aquela que, se oral, é produto direto do corpo, através da voz; se escrita, está muito próxima do autor, porque sua matéria é a palavra, produto da mente, nascida diretamente do seu interior.

E a Poesia, agora com letra maiúscula, construiu, ao longo dos séculos, belos exemplares, que resistem tanto ou mais que monumentos e edificações que o gênio humano colocou sobre a face do planeta. E seus autores estão para sempre entre os seres mais ilustres que conhecemos. Cito apenas alguns: Homero, Dante, Camões, Baudelaire, Chaucer, Lorca, Pessoa, Borges e o nosso Carlos Drummond de Andrade, cuja data de nascimento se comemorou há pouco.

E, para não me alongar demais em defesa da poesia, transcrevo deste último um poema singelo:

MEMÓRIA*

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão

Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.

(*in Reunião – 10 livros de poesia, p. 168. Rio de Janeiro, José Olympio, 1971.)

Pablo Picasso, A leitura, 1934 (nathaliearmindo.blogspot.com).

SOBRE JUSTIN

Por dever de profissão e por opção, resolvi, desde que passei a dar aulas de Língua Portuguesa, a ler apenas textos literários em nossa língua, não importando a nacionalidade do autor. Por seu turno, os clássicos são os clássicos, e por isso também os leio.

Minha vida e meu tempo eram e são muito curtos para ler literatura estrangeira. E, por esta razão, sinto-me limitado, mas não frustrado. Prefiro ler um bom autor em língua nacional a um autor em tradução, muitas das vezes, nem tão fiel.

Posso dizer-lhes que jamais li qualquer livro da lista de best-sellers. Não me interessam.

Estou dizendo isto tudo, para me justificar, porque fui fisgado por um autor jovem norte-americano (e logo um norte-americano!), de nome Justin Halpern, que escreveu um livrinho despretensioso do ponto de vista literário, produto, inclusive, de suas postagens no Twitter, acerca de frases que seu pai disse ao longo da vida dele, Justin.

Este livro, encontrei-o na estante da casa de meus pais, neste fim de semana, em Bom Jesus do Norte/ES, onde estive para visitá-los. Chamou-me atenção o seu título e, em seguida, seu subtítulo, que dá conta de se tratar de livro calcado na vida real: Meu pai fala cada m*rda. – Um retrato hilário e verdadeiro da relação pai e filho, Rio de Janeiro, Editora Sextante, 2010 (no título aparece o asterisco em lugar da letra e).

Na verdade, o exemplar pertence a minha sobrinha Fernanda, que não sabe que eu o trouxe para Niterói, a fim de terminar a leitura. E tenho quase certeza de que o adquiriu, para confrontar com as coisas que os filhos sempre acham que os pais falam e fazem: merda!

O que lhes posso dizer? Apenas e tão só que o livro prende desde o início, porque o pai de Justin, Sam Halpern, médico já aposentado, é do tipo sem papas na língua, que diz verdades estapafúrdias, com uma sem-cerimônia desconcertante, como um homem rude, o que, de fato, ele não é.

E lá estão opiniões francas, vazadas, normalmente, com recurso de palavrões, acerca de tudo e de todos. Ninguém e nada escapam ao crivo ferino e mal-humorado de Sam.

Vejam a citação que escolhi, para servir de exemplo:

Sobre minha primeira aula de direção – Primeiro vamos aprender o básico: um carro tem cinco marchas. Que cheiro é esse?… Tudo bem, o básico antes do básico: só um babaca peida em um carro parado.” (p. 69).

Sua leitura não vai, de forma nenhuma, reorientar sua vida, caro leitor. Não vai torná-lo um ser humano melhor. Não indicará caminhos de enriquecimento. Mas vai fazê-lo rir das tiradas de um homem que vê o mundo de uma forma plena de um humor ácido e sincero.

Vale a pena, infelizmente!

——————————–

PS1: Descobri há pouco que já existe um seriado de tevê baseado no livro.

PS2: Pensaram que eu fosse falar sobre o cantor adolescente que vem ao Brasil? Se ferraram! Hehehehehe!

Capa da edição brasileira do livro.

ACORREGE A PRENUNÇA, BONNER!

Há algum tempo iniciei campanha quixotesca para tentar fazer com que William Bonner pronuncie certas palavras de acordo com a pessoa que ele é, de onde ele é, com a formação que ele tem, com a classe sociocultural a que pertence, na situação em que fala e, por fim, de acordo com a pronúncia padrão brasileira.

Já enviei mensagens para a Globo, para ele e Evaristo Costa, já publiquei postagem no blog, já enviei mensagem para o sítio eletrônico do Millôr, porém foi tudo em vão, como é de se esperar. Quem há de contestar o poder da Globo, até para falar bobagem ou pronunciar palavras de forma incorreta?

Algumas vezes, eles têm a humildade de usar o recurso da “falha nossa”. No caso, porém, isto nunca aconteceu.

Esta minha peroração voltou à tona porque, anteontem, durante o Jornal Nacional, Bonner se referiu ao estado natal de Fagner, Belchior e Tiririca, chamando-o de /Ciará/.

É bom deixar claro que nossa pronúncia padrão prevê a pronúncia /Ceará/, com /e/ e não com /i/. Quem pronuncia como ele o fez é o pessoal de Recife, que lá diz /Ricifi/ e /Bibiribi/.

A respeito de minha campanha anterior, digo-lhes que meu moinho de vento está na pronúncia que a Globo faz – e  isto contaminou outras emissoras – do nome do estado de Roraima. Sistematicamente dizem /Roráima/, o que na pronúncia padrão brasileira – aquela que deveria estar presente nos meios de comunicação de caráter nacional – se dá com o fechamento do /ai/ que precede a sílaba seguinte, iniciada com a nasal /m/.

Nestas situações, isto é, nestes contextos fonéticos, o brasileiro, diferentemente do lusitano, tende a fechar (ou nasalar) a vogal que precede fonema nasal: /m/, /n/ e /nh/ (grafo assim para facilitar a compreensão). Dizemos, então: /câma/, /câna/ e /arânha/. Deste modo, Roraima deve ser /Rorâima/, como, aliás, fazemos com faina, lenha, fronha. Em Portugal, por exemplo, grafa-se e diz-se António. Aqui, é Antônio, pela mesma razão.

A justificativa que já ouvi é de que, lá em Roraima, os habitantes abrem o ditongo e dizem /Roráima/. Estaríamos, deste modo, apenas pronunciando como eles o fazem. Isto, no entanto, constitui um traço regional da pronúncia, e não a pronúncia padrão. Uma comunidade de falantes não tem nenhum compromisso com a pronúncia alheia. Cada um faz a sua, de modo natural.

Assim, tal argumento não se sustenta do ponto de vista linguístico, já que, na pronúncia padrão brasileira, não dizemos /Ricifi/, /Parri/, /London/ ou /Nuiork/, para os nomes das cidades de Recife, Paris, Londres ou Nova Iorque, que é como, mais ou menos, dizem os habitantes desses lugares.

Outra pronúncia estranha que Bonner realiza é a da palavra sem-terra, composta por justaposição da preposição ao substantivo. Neste caso, a preposição tem a pronúncia de um vocábulo livre, na língua, com a ocorrência de uma semivogal /i/: /seim/. É como fazemos para bem, tem, vem, pronunciadas /beim/, /teim/, /veim/. E não como uma simples sílaba de uma palavra com sentença, onde não ocorre a ditongação da primeira e da segunda sílabas. Não dizemos /seinteinça/, mas sim /sentença/. Bonner diz /senterra/, quando a pronúncia deve ser /seimterra/, porque se trata de uma palavra composta. Pelo menos, é só ele que assim o faz. Nem mesmo sua simpática colega de noticiário e esposa, Fátima Bernardes, diz de tal forma.

A qualquer momento, posso voltar como minha lança, meu cavalo Rocinante e meu amigo Sancho Pança, para combater meus fantasmas. No entanto, como não dão jeito nem na saúde, nem na educação, dificilmente alguém há de pensar em coisas de somenos importância como o Bonner falar assim ou assado. Mas cada mania tem seu próprio doido!

Aguardem-me!

Dom Quixote e Sancho Pança, por Gustave Doré (pt.wikipedia.org).

PROPAGANDA DO MEC LIGEIRAMENTE ANALFA

Vi na noite de hoje, veiculada na tevê, propaganda do Ministério da Educação – MEC – em que a palavra campus, que identifica o espaço físico ocupado por uma universidade e é latim, aparece grafada câmpus.

Tenho a impressão de que o redator do texto é ligeiramente analfa, como dizíamos há algum tempo, pois não conheço tal grafia. E, o mais grave, a palavra não foi aportuguesada, como ocorreu com várias outras. Ainda se mantém o uso do vocábulo latino.

Curriculum vitae também é uma expressão latina de uso corrente e pode ser substituída por currículo.

Isto, porém, não ocorre com campus. E aí a propaganda dá de colocar, por exemplo, “25 câmpus novos no país”, inventando uma palavra sem flexão de plural.

Outro erro, já que o plural de campus é campi.

Será que é por aí que vai a Educação do Ministério?

Eh, Brasilzão lascado, sô!

O RIO DE JANEIRO CONTINUA ENCHENDO

Resolvi fazer a adaptação de letras de músicas conhecidas, para que o carioca, boiando aqui e ali pela cidade com as chuvas que fecham o verão, possa cantá-las durante todo o ano.

Fosse o grande Tom Jobim vivo, já teria alterado também a letra de sua obra-prima Águas de março, para Águas de abril.

Por isso tomei a liberdade de fazer as adaptações. Os verdadeiros autores hão de me perdoar (se não estiverem afogados neste exato momento!).

Quem canta suas mágoas afoga!

PARA O CARNAVAL:

CORDÃO DA BOIA PRETA

Quem não boia e não nada

Segura, meu bem, a prancheta

Em lugar que tem enchente

Pega então a boia preta

Pega a boia, meu bem,

(Pega a boia, meu bem,)

Numa enchente infernal

(Numa enchente infernal)

É na Praça da Bandeira

(É na Praça da Bandeira)

Que você vai se dar mal

Pam! Pam! Pam! Pam!

PARA O ANO TODO:

O RIO DE JANEIRO CONTINUA ENCHENDO

O Rio de Janeiro continua enchendo

Em qualquer mês do ano sobretudo março

E se for em abril é mesmo um estrago

Alô, alô! Realengo,

Sai de baixo!

Alô, alô! Realengo,

Pega teu barco!

Alô, alô! Realengo,

Tu tá afogado!

Alô, alô! Realengo,

Enlameado!

PARA OS SAUDOSISTAS EMPEDERNIDOS:

RIO CAMINHO QUE ANDA

Rio, enchente que anda

E vai afogando por onde ela for

Ah! Quantas pedras rolaram

Das encostas do Rio

Sem pena e amor

Rio, enchente que anda

O mar te espera

Não enchas aqui

Eu já estou afogado

E não há quem olhe por mim!

E A ABL, HEM?!

Machado de Assis, certamente, estará dando cambalhotas no túmulo. Nunca vi coisa mais estapafúrdia do que a concessão da medalha de seu nome a Ronaldinho Gaúcho. A ABL se perde por seus próprios deméritos. E, lembrem-se, ela sempre negou vaga a um gaúcho muito mais importante em termos literários: Mário Quintana.
O que é que o marquetingue não faz?!