DE COMPROMISSOS E LEITURAS

É sempre bom ainda ter tempo de cumprir seus compromissos. É o que fiz agora. E com que prazer!

Justifico-me.

Em junho do ano passado, adquiri pelo comércio eletrônico o livro Crônicas – Cotidianas, humorísticas e fantásticas, de H. Francisconi, publicado pela editora Viseu.

À época, tinha iniciado a leitura de um outro livro, um calhamaço de mais de novecentas páginas, e resolvi, na ordenação de leituras que às vezes faço, deixar a leitura das crônicas de Francisconi para depois.

Após alguns dias que me chegara o livro, por via postal, recebi de presente, autografado pelo autor, outro exemplar. Não disse a ele que já o tinha, pois não poderia prescindir de um com a dedicatória a que fazem jus os amigos dos escritores. Pois H. Francisconi, sobre ser autor de vários livros, foi meu aluno na faculdade e, via de consequência, tornou-se meu amigo. O outro volume, pensei logo, daria para minha mãe, também leitora atenta e interessada.

Ocorreu, no entanto, que, durante o tempo em que decorria a leitura do calhamaço, fizemos – minha mulher e eu – um novo arranjo num dos quartos do apartamento, justamente onde fica a minha coleção de livros. Tiramos tudo de dentro dos velhos armários, para receber os móveis novos; voltamos a colocar tudo nos lugares, já distintos dos antigos; e o livro do meu amigo se perdeu na confusa arrumação de agora.

Embora já o tivesse procurado por vários lugares, não logrei encontrá-lo, o que só ocorreu agora, por conta da quarentena a que fomos impostos pela pandemia desse maldito Covid-19, de tão malfadada existência.

Toda essa introdução é muito mais para me justificar com o amigo H. Francisconi, do que para informar ao caro leitor acerca da minha experiência de leitor com o que lá se contém. E é o que passo a fazer.

Francisconi, não por ter sido meu aluno, longe disso, escreve bem à beça, para ficar numa expressão muito ao gosto do brasileiro, sem os exageros a que se pode chegar com outra expressão. Ele tem o domínio da língua, de seus recursos estilísticos e da fabulação que todo ficcionista deve possuir.

No livro, os contos estão divididos nos três tons destacados no título: cotidianos, humorísticos e fantásticos. E não há, em nenhum deles, o menor resquício de descuido na abordagem do tema.

Francisconi sabe lidar com a língua; sabe ser correto com o idioma e dele tirar o frescor da frase, a inteligência da argumentação e o inusitado das imagens. Eu diria, para ficar no plano descontraído, que ele sabe brincar com as palavras e tira delas o maior proveito possível na e para a intenção do seu texto.

Se, em algumas frases, brinca com as aliterações e os trocadilhos, em outras, utiliza de sugestões históricas implícitas no tema que desenvolve, como a puxar do leitor a memória de coisas vistas e sabidas anteriormente.

E pode ser tanto lírico, como satírico e delirante, como sugerem os vocábulos que servem de título de suas crônicas. Mas, em qualquer tom, seu texto dá um prazer danado – olhem aqui outra expressão doméstica – de ser lido.

E tem, como fabulador, a capacidade de penetrar no outro, de ter sua visão e seu sentimento. Passeia entre o eu do narrador e o da personagem com uma sem-cerimônia criativa. E isto me chamou bastante a atenção. E disfarça, com a astúcia do escritor, seu sentimento de avô em textos sensíveis, criados por e para seu netinho.

No caso de suas crônicas fantásticas, inclusive, se permite passear pelo tempo, flagrando momentos não registrados pela história oficial, para criar uma narrativa irônica, humorística e sensível. Como Dante, chega até a ir ao inferno e trocar uns dedos de prosa com o Decaído.

Felizmente, sob esse aspecto, a quarentena produziu algo bom: permitiu empreender uma busca mais detalhada, que me fez encontrar o livro e ter o prazer de o ler. De cabo a rabo, de enfiada. Como também se diz popularmente.

Ave, H. Francisco!

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Francisconi, H. Crônicas – Cotidianas, humorísticas, fantásticas. Maringá, Ed. Viseu, 2018. 80p.

NEIL YOUNG, A AUTOBIOGRAFIA

Terminei de ler A autobiografia, de Neil Young.

Neil Young é um dos meus músicos prediletos. Tenho vários CDs dele e com ele, e alguns DVDs. Quando vi seu livro numa banca da Saraiva, comprei de imediato. Li-o vagarosamente.

Não é um livro em registro cronológico. Ele escreve ao sabor do momento, sobre o que faz naquele instante e as memórias que o assaltam. Fala, sobretudo, de sua relação com a música, os músicos e o meio musical. Mas também fala de projetos paralelos que desenvolve com uma teimosia gigante, como o do automóvel movido a energia elétrica e um novo sistema de gravação e veiculação de música – PONO –, que reproduza com mais fidelidade o que o artista cria, a fim de que o ouvinte possa chegar o mais próximo possível da experiência do autor. Fala também de si, de seus amores, de sua família, de seus filhos e muito dos seus amigos.

Transcrevo, a seguir, alguns parágrafos de seu livro, para que o amigo leitor possa ter dele uma amostra.

1. “Cerca de vinte anos mais tarde, em meados dos anos 1990, [David] Briggs e eu estávamos fazendo um álbum. Ainda chamo de ‘álbum’ porque era isso o que eu fazia. Eu não faço CDs nem faixas de iTunes. Faço álbuns. É exatamente isso. Chame do que quiser. Lembro como eu odiava o shuffle, recurso aleatório do iTunes, porque fode com a sequência que eu passei horas elaborando. Na minha opinião, faixas independentes e aleatórias são um horror. Podem me chamar de antiquado. Faço álbuns e quero que as canções se combinem para criar um sentimento. Faço de propósito. Não quero  as pessoas ‘beliscando’ os álbuns. Gosto de escolher os singles. Afinal, essa merda é minha.” (p. 334)

2. “Conheci Linda [Ronstadt] no Troubadour, nos anos 1960, quando ela cantava com os Stone Poneys. […] Era um terremoto. Ela estava sempre no topo, mas agora Linda se tornou um tanto reclusa. Parou para criar sua família e viver uma vida ‘normal’ no mundo real. Uma vez, ela usou ‘mundo real’ para me descrever. Disse a Nicolette [Larson] para não se envolver comigo porque eu não vivia ‘no mundo real’! Não importa, porque Nicolette e eu tivemos um relacionamento firme durante algum tempo. Não durou muito, no entanto. A vida é assim.” (p. 338)

3. “[…] Toquei ‘Sweet home Alabama’ naquele show, e o pessoal adorou. (Minha canção ‘Alabama’ mereceu a chance que Lynyrd Skynyrd me deu com seu ótimo disco. Não gosto da letra quando ouço hoje. É acusatória e condescendente, não inteiramente elaborada e muito fácil de ser interpretada de forma errada…)” (p. 341)

4. “Uma vez, no auge da tensão em Sunset, pouco antes de Stephen [Steels] escrever seu clássico ‘For what it’s worth’, fui parado e posto em cana por não ter carteira de motorista. Meu amigo Freddy Brechtel, um cantor sem banda, estava comigo e levou o carro de volta até minha casa. Fui preso na subestação de Hollywood, bem ao pé do morro onde ficava a Whisky. Quando eu estava na cela, um dos guardas me chamou de hippie fedorento. Ele usava óculos de aro de chifre. Gritando de volta, eu disse que ele parecia gafanhoto. Ele entrou na cela e me deu uma bruta surra. Socou minha cara e me chutou pelo chão. Foi traumatizante.” (pp. 348/349)

5. “Eu mesmo já não bebo mais, estou indo em frente. Não afirmo que não vou beber nunca mais. Não estou fazendo nenhuma promessa, mas não acho que sou um bom bebedor. Alguns caras são ótimos, bebem, contam piadas, riem até cair e ficam engraçados como o diabo. Enterramos um desses na semana passada. A vida não passa de um grande teste; se você tentar demais, fracassa. Se você não tentar muito e fracassar um pouco, mas se divertir, talvez já seja um sucesso.” (p. 362)

6. “Meu cérebro tem um monte de coisas a mais que só da para ver numa ressonância magnética. Não sei o que é, ou o que não é, mas conheço a história de meu pai. Ele era escritor e ficou doido, demente. Que diabo era aquela porra nevoenta no meu cérebro? Gostaria de nunca ter visto aquela merda. De qualquer modo, sempre me aconselharam a parar de fumar maconha, e eu parei. Na verdade, escrevi esse maldito livro inteiro, direto. Certamente é um dilema.” (p. 378)

Notas finais:

  1. A gravação de Words (Between the lines of age), no disco Harvest, seu quarto álbum solo, de 1972 pela Reprise, tem um dos mais belos solos de guitarra, no meio da música. Sua guitarra começa a gemer baixinho ao fundo, até gritar desesperadamente no primeiro plano da música. Aliás, o álbum é, na minha opinião, um dos melhores – senão o melhor – de sua carreira.
  2. A polêmica que parecia existir entre Neil e a banda de Alabama Lynyrd Skynyrd, por causa da música Alabama do bardo canadense, parece que nunca ocorreu, como se pode observar na menção rápida, que destaquei no item 3.
  3. YOUNG, Neil. A autobiografia. São Paulo, Globo Livros, 1912. [Tradução Renato Rezende e Helena Londres].

A capa do livro.

CERTOS EXCERTOS DE VERISSIMO

Com preguiça de pensar um texto e premido por uma viagem, resolvi escolher dez excertos do livro O mundo é bárbaro – e o que nós temos a ver com isso, de Luis Fernando Verissimo (Rio de Janeiro, Objetiva, 2012).

Obviamente que a empreitada foi mais custosa que elaborar qualquer bobagem (só tive esta ideia após terminar a leitura), mas Veríssimo é sempre mais interessante que as bobagens que escrevo.

Aí vão eles. Aproveitem.

1. “Diziam que o que sustentava o Partido Comunista americano eram as mensalidades dos agentes do FBI infiltrados entre os seus membros. Era fácil identificá-los – só eles pagavam em dia.” (Admirável, p. 96)

2. “Notícias de gripe na China são duplamente preocupantes: porque as gripes podem ser epidêmicas e porque elas possibilitam uma hipótese temida pela ciência há anos: a de que um dia todos os chineses espirrem ao mesmo tempo e desviem a Terra da sua órbita na direção do Sol e da extinção certa.” (O modelo, p. 98)

3. “Levei meu sistema gástrico para passear e a cabeça foi junto: durante três semanas a única notícia do Brasil que me interessava foi a posição do Internacional na tabela.” (O inimaginável, p. 65)

4. “Feliz é a mosca, que tem mais ou menos a nossa estrutura genética, mas absolutamente nenhum interesse nas suas implicações.” (Esquerda e direita, p. 159)

5. “A longo prazo estaremos todos mortos, e se você consegue manter a cabeça no lugar enquanto todos à sua volta estão perdendo a sua, você provavelmente está mal-informado.” (O lado bom da situação, p. 164).

6. “A vida humana seria difícil se não pudéssemos colher uma beterraba sem ouvir as lamentações da sua família e insultos do resto da horta.” (Da sua natureza, p. 47)

7. “A vaidade, outra característica exclusivamente humana (o pavão também é vaidoso, mas não gasta uma fortuna com as penas dos outros para fazer sua cauda), também teria contribuído para que o Homem prevalecesse, pois de nada adiantariam suas façanhas com o polegar, e com as mulheres, se não pudesse contar depois.” (O que move a humanidade, p. 54)

8. “Todo brasileiro recebe, desde que nasce, uma educação em descaso.” (Produtos do meio, p. 57)

9. “Quando eu era garoto nós tínhamos uma empregada negra que usava um nome apropriado para nós, de carne branca: peixe.” (Peixe na cama, p. 147)

10. “Os ingleses fizeram a sua revolução republicana antes dos franceses, mas, sabiamente, voltaram atrás e mantiveram a monarquia, intuindo que um poder não pode governar e dar espetáculo ao mesmo tempo.” (Anti-ingleses, p. 63)

VIAGENS NA MINHA TERRA

Terminei de ler Viagens na minha terra*, obra do escritor português do século XIX Almeida Garret, considerado o fundador do Romantismo em língua portuguesa com seu poema Camões.

Garret é um dos autores básicos nos estudos de Literatura nos cursos de Letras. Dele já havia lido, nos tempos acadêmicos, O arco de Santana e alguns poemas. E tinha, dentre minhas dívidas para com a arte da palavra, a leitura desta obra do escritor luso.

A arte tem a capacidade de gerar obras que ultrapassam o tempo. Esta é uma delas.

Viagens na minha terra, que relata a viagem que o autor empreendeu entre Lisboa e Santarém em 1843, é uma interessante mistura de narrativa de viagem, romance e autobiografia, com pitadas de humor, ironia e crítica. E, com a linguagem típica do século e da escola literária, o autor faz uma análise corrosiva da vida literária, social, política e econômica portuguesa, com a lucidez das inteligências aguçadas.

Por isso, selecionei algumas passagens para os meus leitores que não o conheçam.

Aí vão elas.

1. Dizia um secretário de Estado, meu amigo, que para se repartir com igualdade o melhoramento das ruas de Lisboa, deviam ser obrigados os ministros a mudar de rua e bairro todos os três meses. Quando se fizer a lei de responsabilidade ministerial, para as calendas gregas, eu hei de propor que cada ministro seja obrigado a viajar por este seu reino de Portugal ao menos uma vez cada ano, como a desobriga. (p. 26)

2. E eu pergunto aos economistas-políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignomínia crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico. (p. 28)

3. […] cada homem rico, abastado, custa centos de infelizes, de miseráveis. (p. 28)

4. “Rei que nos enforque e Papa que nos excomungue nunca há de faltar.” (p. 48, pela boca de um de seus personagens)

5. Como, sem Porto ou Madeira, sem Lisboa, sem Cartaxo, ousa um súdito britânico erguer a voz, naquela harmoniosa desafinação insular, que lhe é própria e que faz parte de seu respeitável caráter nacional? (p. 50, crítica sobre os ingleses, então aliados de Portugal)

6. O que é um inglês sem Porto ou Madeira, sem Carcavelos ou Cartaxo? (p. 50, idem)

7. Toda guerra civil é triste.

E é difícil dizer para quem mais triste, se para o vencedor, ou para o vencido. (p. 53)

8. Formou Deus o homem, e o pôs num paraíso de delícias; tornou a formá-lo a sociedade, e o pôs num inferno de tolices. (p. 126)

9. Detesto a filosofia, detesto a razão; e sinceramente creio que num mundo tão desconchavado como este, numa sociedade tão falsa, numa vida tão absurda como a que nos fazem as leis, os costumes, as instituições, as conveniências dela, afetar nas palavras a exatidão, a lógica, a retidão que não há nas coisas, é a maior e mais perniciosa de todas as incoerências. (p. 194)

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*GARRET, Almeida. Viagens na minha terra. 3. Ed. São Paulo, Martin Claret, 2003.

Capa do livro da editora Martin Claret.

DO TEMPO DO ONÇA

Há algum tempo (não muito, por certo!) publiquei no blog a postagem Lugares distantes, em que, de forma abreviada e superficial como é minha praxe, fiz um apanhado das expressões que denotam, nas frases, a noção de lugar. Aquilo que a gramática tradicional classifica como adjunto adverbial de lugar.

Como disse naquela oportunidade, pelo fato de ser interessado no fenômeno da linguagem, sempre vêm caraminholas linguísticas perturbar meu descanso remunerado de aposentadoria. Desta vez é a noção de tempo. E isto motivado por uma frase ouvida de pequeno falante de nossa mui bela língua.

Imagem em infoescola.com.

O tempo, do ponto de vista psicológico, pode ser bem diferente daquele que é medido pelo relógio e pelo calendário. As vinte e quatro horas do dia passam aceleradamente, caso você tenha muitos problemas a resolver, o que o leva a ansiar por um dia de vinte e cinco ou mais horas, por exemplo. Ao contrário, caso você esteja tranquilo, desfrutando de um ócio quase pernicioso – como se isso fosse possível –, é bem provável que aquelas mesmas horas lhe pareçam infinitas e maçantes. A este respeito, aliás, Millôr Fernandes tem uma frase excepcional, em que joga com a tensão entre essas duas percepções de tempo: “A cada mês, sobram mais dias no meu salário” (cito de memória).

No curso de Letras, aprendemos logo cedo a distinção entre o tal tempo psicológico – matéria básica da obra literária – e o tempo físico, astronômico, propriamente dito – aquele determinado para entrega dos trabalhos de literatura, por exemplo.

Mas a tradição da língua nos oferece algumas expressões interessantes, além dos óbvios hoje, ontem, amanhã, depois de amanhã, anteontem, trasantontem/ trasanteontem, agora, depois, logo, breve,, e por aí afora (Isto aqui não é aula de gramática!). Algumas dessas noções, lá em Carabuçu, dizíamos, por exemplo: onti, antonti ou antionti, tresantonti, istrudia (estoutro dia, há alguns dias) e dijaoje (hoje cedo, ainda há pouco).

As expressões que aqui me interessam estão impregnadas pelo caráter estilístico próprio de nossa língua. Vejam alguns exemplos e minhas impertinentes observações:

a)      Tempo do onça – Época antiga e imprecisa, mas bem antiga, que nos remete a um país menos povoado por gente e mais por onças e outros bichos do mato. Ou será que a falta de concordância da expressão do onça é por que já é um aportuguesamento do inglês once upon a time?

b)      Tempo do cagar de coque (de cócoras) – Tempo que precedeu à tecnologia do penico e, por consequência, à da casinha, à do vaso sanitário e, finalmente, à do water closet, com sua caixa de descarga ecológica, para xixi e cocô. Era também o tempo da frase “Vai cagar no mato!”, xingamento hoje muito brando, já que não inclui a progenitora do nosso adversário, como é próprio dos impropérios modernos. Às vezes, em determinadas situações e premido por certas circunstâncias intestinais que nem é bom lembrar, vamos da era da privada tecnológica ao tempo do cagar de coque num átimo. É só o intestino mandar!

c)       Tempo em que se amarrava cachorro com linguiça – Tempo antiquíssimo que nos remete aos primeiros dias do Éden, antes de Adão e Eva fazerem a m*rda que fizeram. Naquela altura, até mesmo os animais carnívoros eram educados e se podia facilmente amarrar um cão com este tipo de corrente.

d)      Tempo da Carochinha – Esse é um tempo em que até mesmo nossos avós, bisavós e tataravós eram criancinhas. Está lá perdido no meio daqueles livros de histórias infantis, na memória da gente. É tempo velho do tempo de nós meninos. Mais ou menos por aí. E talvez seja o que nos dá mais saudades.

e)      Tempo do ‘derréis’ (dez réis) e do vintém – Tempo bom, em que “se vivia muito bem, sem haver reclamação”, como diz o samba famoso*. E não serei eu a contestar a afirmação do sambista. Contudo penso que este tempo caro à memória era concomitante ao que vem logo a seguir.

f)       Tempo de Dondom** – Também cheio de coisas boas, segundo o sambista, pois “nossa vida era mais simples de viver”, cheio de cortesias e de boas lembranças. Até de um jogador que ninguém conhece, de um time desconhecido, o Andaraí. O bairro é logo ali mesmo, e o tempo deve estar perdido em suas ruas e vielas. Pode ser que o tempo esteja a andar aí.

g)      Naquele tempo – Expressão consagrada pela Bíblia, que dela faz muito uso, e é tradução do latim da Vulgata in illo tempore. Como os textos da Bíblia já são muito antigos, quando falam daquele tempo, deve ser coisa beirando o tempo da criação do mundo. Sei lá! Mas sempre soa como coisa antiquíssima.

h)      Tempo do rei – Este é um tempo fácil de ser encontrado nos antigamentes: é de quando houve rei. Acabou-se o rei, findou-se o tempo. Ruy Castro o utilizou em um de seus livros: Era no tempo do rei***, em que fabula peripécias de um D. Pedro I na adolescência, reinando pelas ruas do antigo Rio de Janeiro, do tempo do rei.

i)        Tempo de D. João caroço – Já este tempo é indefinível, mas bem anterior ao do rei. Pelo menos é o que se sente da expressão. E do caroço de D. João.

j)        Tempo das vacas magras – Este é um tempo atemporal, individual ou coletivo. Pode ter sido ontem, há um mês, há um ano, há muito tempo. Há um borbotão de pessoas que ainda vivem no tempo das vacas magras e ainda não têm a perspectiva de escapar dele. Vejam, então, que é um tempo sem tempo definido. Como o do trabalhador brasileiro que, segundo a propaganda do governo, saiu dele, mas, conforme notícias atuais, para lá volta daqui a pouquinho.

k)      Tempo do cinema mudo/do cinema preto e branco – Este é um tempo facilmente marcável. É só você ir à Wikipedia e ver lá. Não vou perder tempo com isso.

l)        Tempo do rádio de rabo quente – Um pouco anterior ao tempo do cinema mudo. Os chamados rádios de rabo quente apareceram no princípio do século XX e eram a alegria das pessoas. O problema é que deviam ser ligados um pouco antes, para que esquentassem e começassem a espalhar seus encantos e maravilhas modernas no ar.

Finalmente volto ao motivo inicial que me despertou estas considerações.

Pois não é que ouvi, dia desses, um menino dizendo para o outro que o seu pai era velho “do tempo em que o papel higiênico não rasgava no picote”, como se tal grande avanço tecnológico tivesse sido conseguido há décadas. O colega se espantou, pensando tratar-se da coisa mais antiga do mundo. Onde é que já se viu o papel higiênico não rasgar no lugar picotado?! Aos dois parecia um despropósito. E o coleguinha ainda falou:

– Aê, mané! Seu pai é velho pra caraca!

Ou, como diria o grande José Cândido de Carvalho, “pratrasmente de muitos anos”.

Fico por aqui, pois meu tempo acabou!

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* Saco de feijão, de Chico Santana, gravado por Beth Carvalho no elepê Nos botequins da vida (RCA, 1977).

** Tempo do Dondom, de Nei Lopes, gravado pelo autor no cd De letras e música (Universal, 2000).

*** CASTRO, Ruy. Era no tempo do rei. 1. ed. Ed. Alfaguara Brasil, 2000.

FOI-SE O MEU GURU

Em menos de uma semana, três grandes da cultura nacional morreram: Chico Anysio, na sexta-feira (23), Ademilde Fonseca e Millôr Fernandes, ontem (28).

Particularmente, no caso de Millôr Fernandes, a perda é irreparável. Não que Chico seja menor, ou que Ademilde não tenha sua importância. Eles foram grandes em suas atividades! Mas Millôr foi mais completo como intelectual, como artista, como cidadão consciente, que fez do humor sua cara mais visível.

Leio Millôr Fernandes desde que me entendo como leitor. Tomei contato com ele através de O Cruzeiro, a revista brasileira mais importante do século XX (publicada entre 1928 e 1975). Minha mãe era compradora e colecionadora desta revista semanal, que chegava até nossa vila através do seu Osório, uma espécie de mascate de jornais, revistas, aves e ovos.

Por aquela época, ele se assinava Emanuel Vão Gogo – lembro-me disto perfeitamente – e publicava uma página na revista, em que mostrava seus desenhos, suas sátiras, suas tiradas. Só um pouco depois é que ele passou a se assinar Millôr Fernandes, e me recordo dos problemas que causou com a publicação de uma sátira da criação do mundo, sob o título de A verdadeira história do paraíso. Minha mãe, fã do escritor, mas católica fervorosa, ficou uma arara, como milhares de leitores da revista. A publicação deste texto determinou a saída de Millôr de O Cruzeiro, após forte pressão da Igreja Católica.

Aprendi aí, então, a admirar o gênio de Millôr e, em nenhum instante da minha vida, estive afastado do que ele produziu.

Autocaricatura colhida em cariricaturas.blogspot.com.br.

Contudo a projeção moderna mais visível de Millôr foi através do jornal O Pasquim, do qual foi um dos fundadores. Eu comprava religiosamente o jornal semanalmente. E, ainda que não tivesse tempo para o ler integralmente, a página do escritor não passava em branco.

Durante o tempo em que fui professor, um dos livros cuja leitura recomendava a meus alunos dos mais diversos cursos de graduação era o seu fantástico Papáverum Millôr. E fazia questão de cobrar a leitura, de debater os sentidos ocultos-expressos em cada poema, todos tendo como base o humor.

Pelo final dos anos 70, assinava a revista Veja única e exclusivamente pelas duas páginas que ele mantinha nela. E, quando, por necessidade surgida na mudança para nova casa, fui constrangido por minha mulher a me desfazer de um monte de coisas que acumulava – minha filha há pouco descobriu que sou um acumulador –, destaquei cuidadosamente as duas folhas, mandei encaderná-las em um volume grande, que ainda mantenho em minha estante.

Um tempo depois, o salário já miserável de professor, Millôr lança um de seus livros mais bonitos do ponto de vista gráfico: Desenhos, de 1981. Comentei com colegas do outro trabalho que desenvolvia paralelamente ao magistério sobre o lançamento e o desejo de comprá-lo, assim que recebesse o abono de fim de ano, a ocorrer dali a uns três-quatro meses.

Na semana seguinte, recebi de presente das minhas colegas o livro desejado. Não tive como evitar que minasse água dos meus olhos. Todas elas eram trabalhadoras humildes, com baixos salários, mas que se cotizaram para me fazer aquele mimo, aquele afago no meu coração, que jamais esqueceu tal gesto.

Ontem o Millôr nos fez a desfeita de morrer. De deixar mais pobre este país pelo qual ele se bateu, com sua verve, com sua crítica, com sua sátira, com seu trabalho, com sua arte e com sua inteligência privilegiada. Se a nossa vida pública não melhorou, culpa ele não tem. Porém, se em alguma coisa melhorou, certamente sua parcela de contribuição é sensível. No entanto, a arte e a cultura do Brasil foram muito engrandecidas por todas as suas obras.

O meu guru morreu!

Por isto é que quero, para finalizar este texto, transcrever um de seus poemas de Papáverum Millôr (Rio de Janeiro, ed. Nórdica, 1974, p. 170) e outro publicado em sua coluna, no extinto Jornal do Brasil, em 24/5/1988, na página 9 do I Caderno, cujo recorte amarelado guardo dentro de seu livro.

POEMINHA DO INÍCIO DOS TEMPOS

Se você quer saber por que eu sou assim?

Quando Deus perguntou: “Ouvido?” eu entendi olvido e preferi não ter.
E aí começou tudo.
Ele me disse: “Cara?” eu aí ouvi tara e disse: “a mais extravagante”.
Ele me disse: “Vista?” eu entendi crista e pedi vermelha.
Ele me disse: “Testa” eu ouvi fresta e disse: “Bem estreita”.
Dente eu entendi pente e disse “Não preciso”.
Nariz, trocado por raiz, resultou bem comprido.
“Tronco?” eu escutei ronco e exigi bem curto.
Braços eu entendi traços e pedi bem finos.
Confundi cor com flor e pedi amarela.
Cabelo eu entendi camelo e recusei, é claro.
Jeito eu entendi leito e pedi bem mole.
E quando ele me perguntou: “Talento?” eu entendi tá lento, disse que realmente estava achando tudo muito devagar e ele aí me deu esse acabamento, assim às pressas.
Que é pra eu aprender a prestar mais atenção na outra encarnação.

30.8.1972

MILLÔR

Como o país já tem 140 milhões de habitantes e outro tanto de faculdades, universidades, escolinhas, agências de publicidade e múltiplas e variadas empresas de picaretagem cultural pura e simples, aqui vai minha biografia para que não encham mais a paciência de minha secretária eletrônica, coitada, que tem colapso nervoso de quatro em quatro dias.

Millôr Fernandes nasceu. Seu pai e sua mãe. Todo seu aprendizado, desde a mais tenra infância. Aos 13 anos de idade já estava. Mais tarde já homem feito. No jornalismo e nas artes gráficas completou especificamente. Recusou-se sempre a. o que não invalida. No entanto, sua atuação teatral, até onde se sabe. Dos livros publicados, o que mais impressiona, foi constatado sem qualquer dúvida. A verdade é que, já em janeiro de 1964. Quando o conheceu, o ditador Oliveira Salazar, todos sabem. Não significando isso. Terminado o mestrado percebeu logo. Um dia, depois de um longo programa de televisão, foi que amigos e até pessoas interessadas, naturalmente. Onde e como, Millôr porém jamais, no caso. Ao ser agraciado, esteve, e não foi à toa. Entre os tradutores brasileiros. E tanto em 1960 quanto em 1978. Mas nem todo mundo concorda. O resto, diz ele. Ou seja, hoje em dia, como querem outros. Mas talvez.

10 x 3

Como chegou o fim de semana e é preciso aliviar um pouco, resolvi lançar mão de um recurso próprio de Contigo e Caras, para que não reclamem que estou muito amargo nessas últimas postagens. É que as notícias não são nada auspiciosas.

Assim, em sendo o gestor supremo deste blog, me permiti elaborar, também, minhas listas de preferências, a fim de que vocês confiram nossos gostos. Claro está que, sendo da geração que sou, é bem provável que haja diferenças, conflitos e otras cositas mas. Porém quem irá atirar a primeira pedra, né não?

Escolhi o número 3, porque a lista fica menor e é mais fácil conferir. E também porque, mais adiante, poderei fazer outras, sem que se esgote cada uma delas, ou que se torne leitura chata.

Comecemos, então.

3 filmes que nunca me saíram da cabeça: A fonte da donzela  (1960), de Ingmar Bergman; O homem que matou o facínora (1962), de John Ford, e Morte em Veneza  (1971), de Luchino Visconti.

3 atrizes estrangeiras de beleza acachapante: Claudia Cardinale, Catherine Deneuve e Demi Moore.

Claudia Cardinale, no auge de sua beleza (allposters.pt).

3 discos (elepês) de rock progressivo que quase furaram de tanto tocar nos idos dos 70/80: Foxtrot, Genesis; The dark side of the moon, Pink Floyd, e Islands,  King Crimson.

3 graças da moderna MPB: Vanessa da Mata, Roberta Sá e Mônica Salmaso.

Vanessa da Mata (entretenimento.r7.com.br).

3 sambas clássicos que gostaria de ter composto: Obsessão, de Mano Décio da Viola e Osório Lima; Meus tempos de criança, de Ataulfo Alves, e Canta Brasil, de David Nasser e Alcir Pires Vermelho.

3 livros da literatura brasileira de leitura prazerosa: Vila dos Confins, de Mário Palmério; O coronel e o lobisomem, de José Cândido de Carvalho, e Cemitério de elefantes, de Dalton Trevisan.

3 cachaças de se tomar ajoelhado: “Montanhesa Premium”, de Araguari, “Vale Verde”, de Betim, e “Canarinha”, de Salinas, todas mineiras, uai!

3 pratos estranhos da culinária brasileira, mas cheios de sabores: buchada de bode, efó e chouriço.

3 lugares pequenos do Brasil, cada um com seu charme, que compensam a viagem: Tiradentes (MG), Cunha (SP) e São Pedro da Serra, distrito de Nova Friburgo (RJ).

Ateliê Suenaga&Jardineiro, Cunha-SP, 08/10/11 (foto do autor).

3 poetas de língua portuguesa marcantes: Carlos Drummond de Andrade, Fernando Pessoa e Mário Quintana.

10×3=30. Talvez volte outro dia, com mais algumas futilidades.