O ERASMO ME LIGOU

 

Ainda há pouco me ligou o Erasmo Carlos. Outro dia foi o Jerry Adriani. Antes o Fábio Júnior, se não me falha a memória. Já há mais tempo.

Não quis nem saber de nenhum deles!

Certamente o Erasmo Carlos não estaria ligando para me convidar para uma festa de arromba. Esta ficou enterrada no tempo. Ele e seu parceiro arrombaram a festa há décadas, e ele agora, à meia bomba, entrou nessa de gravar mensagem de alguma operadora de telefonia, ou lá o que seja, para propor alguma coisa que não me interessa.

Aliás o telefone fixo só tem servido quase que exclusivamente para receber esse tipo de mensagem publicitária. Às vezes adentro o sacrossanto recinto do banheiro, para alguma providência de ordem que não interessa a ninguém aqui saber, e o telefone toca. Saio em desabalada carreira, tanto quanto a atividade me permita, e, ao atender a ligação, ouço aquela gravação nojenta. Jamais dei ouvidos a elas. Se estiverem oferecendo toneladas de ouro por um sorriso meu, permanecerei pobre e duro, porque nunca ouvi além do ponto em que constato que é uma gravação.

Não falo com máquinas.

Pode ser que no futuro seja obrigado, como, por exemplo, fazem conosco os serviços de atendimento ao abestado, ou melhor, ao cliente de cartões de crédito, de tevês por assinatura, etc., etc., etc.

Por isso não sei do que se trata.

Mas hoje foi o Erasmo Carlos que me ligou. Achei a voz simpática. Gosto do Erasmo. Tenho vários de seus discos. Ele sempre me pareceu “uma criança que não entende nada”, bonachão, boa gente. Gostaria mesmo de bater um bom papo com ele.

Como artista, por exemplo, fez nesses últimos anos o disco mais importante de sua carreira, segundo meu fraco juízo de valor: Rock N Roll (2009). Acho até que superior a Banda dos Contentes (1976), de que tenho a bolacha de vinil e o cd.

Teria o maior prazer em lhe dizer que sou seu admirador de décadas, tentar discutir com ele gravações antológicas da nossa música como Coqueiro verde (Erasmo e Roberto), Continente perdido (Ruy Maurity e Zé Jorge), Sentado à beira do caminho (Erasmo e Roberto), Sou uma criança, não entendo nada (Erasmo e Ghiaroni), Panorama ecológico (Erasmo e Roberto), Mesmo que seja eu (Erasmo e Roberto), Olhar de mangá (Erasmo), Noturno carioca (Erasmo e Nelson Motta). Mas não quero ouvir a oferta que ele tem a me fazer.

Em princípio não compro nada que me oferecem. Compro aquilo de que necessito ou que quero. Se o vendedor insistir muito, desconfio. Como por exemplo, as ofertas maravilhosas da minha operadora de telefonia que, após examinar minha conta, me oferece plano para que eu economize nas despesas. Dá para acreditar nisso? Pois eu acreditei duas vezes. E, nas duas vezes, minha fatura aumentou. Nunca mais aceitei essas ofertas supostamente benéficas.

Pois então, Erasmo, me ligue da próxima vez para batermos um papo legal. A única coisa que você ofereça e que eu compre é seu novo disco, assim que ficar pronto. Só para aumentar a minha coleção. De resto, fico só na plateia aplaudindo sua arte.

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(Caso queira ouvir Panorama ecológico, clique sobre a imagem abaixo.)

CALOU-SE O MAIOR BAIXO DO ROCK

Morreu no último sábado, nos EUA, onde se tratava de leucemia, Chris Squire, baixista do Yes. Ele foi, para mim, o maior baixista que o rock já conheceu.

É claro que, neste assunto, rolling stones, ou melhor, pedras rolarão. Cada um terá o seu preferido. Meu sobrinho-neto Lucas Mello​, por exemplo, de vez em quando ressuscita um polêmica na família, já que gosta muito do Roger Waters, conhecido entre nós como Rogério Águas. Acho-o, como baixista, de mediano para bom. Como compositor, magistral. É só conferir a obra. Contudo Chris Squire era soberbo ao executar o baixo. Minha admiração por ele começou com o primeiro disco do Yes que aportou por aqui, lá pelos anos 70: The Yes Album. Era impossível ouvir qualquer das músicas daquele disco clássico, sem que se prestasse atenção ao baixo.

Aliás, o Yes é um grupo em que não se deixa de perceber nenhum dos instrumentos, já que todos os seus componentes são músicos excepcionais, as músicas são extremamente bem elaboradas e permitem que cada membro possa mostrar serviço.

E Chris Squire se destacava com seu baixo vigoroso, criativo, a participar, até mesmo, da melodia das músicas, sem se limitar à famosa cozinha musical, na qual ficam os instrumentos que fazem a cama para o brilho do vocalista, ou do guitarrista, como é mais comum no rock.

Na época em que o grupo apareceu, final dos anos 60 na Inglaterra, o grande diferencial, como li então, seria o vocal de timbre agudo da banda, liderada por Jon Anderson. Até ali, segundo o crítico, os vocais do rock vinham muito da tradição do blues, com cantores de timbre mais grave.

Pode até ser que o crítico estivesse com parte da razão. Mas a reunião daqueles jovens músicos se consolidava em desempenhos individuais diferenciados. A soma desses talentos deu vários problemas, ao longo dos anos, como era de se esperar.

Certa vez, por exemplo, Jon iniciou uma campanha com seus amigos em prol do vegetarianismo, e todos deixaram de comer carne. Até que flagraram Rick Wakeman, escondido, devorando um gordo sanduba comprado numa lanchonete, próxima ao estúdio em que gravavam mais um disco. Rick foi sumariamente expulso do grupo, em nome da “pureza” alimentar. Óbvio que essa briga não durou muito, mas permitiu que Wakeman lançasse três álbuns solos seguidos, entre 1973 e 1975, com grande sucesso de público e vendas. Eu mesmo, antes de partir para a lua de mel, em dezembro de 1975, fui com Jane ver o show dele no Maracanãzinho.

Entretanto Chris Squire, de todos eles, foi o único que sempre tocou com a banda, desde a sua fundação, embora também tenha carreira individual, e só agora, descoberta a doença, emitira nota em seu sítio eletrônico de que não participaria da turnê marcada para novembro, a fim de se tratar.

Foram quarenta e cinco anos dedicados ao Yes e ao rock, com competência inigualável em tudo o que me foi dado ouvir, nesta minha vida de amante deste tipo de música.

Calou-se o maior baixo da história do rock progressivo: Chris Squire morreu!

 

Chris Squire (imagem em vandohalen.com.br).

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Para ver/ouvir Chris Squire, com o Yes, na versão acústica de Long distance runaround, clique aqui.

JOE COCKER

Conheci Joe Cocker nos idos dos 70, no Cine São Bento, em Niterói, numa sessão de meia-noite. Era Woodstock, o filme de 1970, dirigido por Michael Wadleigh, em que ele aparecia, como um possesso, cabelos molhados em desalinho, gestual de briguelo, incendiando a plateia do festival e os espectadores da sala escura com uma interpretação acachapante do clássico dos Beatles, With a little help from my friends. Se os Fab Four tinham registrado a música numa espécia de balada saltitante, com o ritmo bem marcado, Cocker nos trazia a mesma melodia agora numa levada soul, de tom grave, a acentuar a necessidade desesperada da ajuda dos amigos. O saltitar da gravação original foi substituído pelo alongamento da frase melódica, que passou a ser insinuante, cheia de curvas, pelos trejeitos vocais do cantor e o típico vocal de apoio de música gospel. Isto aumentou em muito a dramaticidade da canção, também acentuada pelas expressões corporal e facial e os movimentos imprevisíveis dos braços e dedos de Joe, que pareciam tocar uma guitarra imaginária. Até então jamais tinha visto interpretação tão carregada de emoção. E isto bastou para que eu o escolhesse como um dos grandes do cenário da música. Daí em diante, não mais parei de comprar seus discos.

Se, por um certo período, ele esteve sumido do cenário – envolvimento com drogas e álcool -, mesmo lamentado sua ausência, seus discos jamais deixaram de rodas em meus aparelhos. E, assim que retomou sua carreira, agora mais comportado nas apresentações, portanto menos incendiário, mais maduro, a marca da competência e o bom gosto do repertório foram mantidos. Estão nessa outra fase o velho blues, o soul, o r&b, alguma coisa jazz, enfim canções sempre com o jeito Joe Cocker de dizer a palavra cantada.

Ontem ele faleceu, e a música ficou um pouco mais triste com sua perda. Dificilmente haverá outro semelhante. Porque Joe Cocker foi o primeiro e o único de uma geração em que o talento estava em todos os músculos do corpo, e sobretudo na voz.

Descanse em paz, Joe Cocker!

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Clique para ouvir o balanço de Woman to woman.

 

Imagem em images.wolfgangsvault.com.

O NOVO DISCO DO CAT STEVENS

Yusuf há de me perdoar por ainda chamá-lo de Cat Stevens. Sou seu fã antigo, da época em que ele vendia milhões de discos, fazia um sucesso atrás do outro, levava a vida com certo desregramento, mas fazia canções sensacionais. E tocava um violão bem característico, com o barulho da paleta sobre as cordas de aço.

Depois de um perrengue no mar da Costa Oeste dos Estados Unidos, em que quase morreu afogado, clamou aos céus por socorro e jurou, caso fosse salvo, viver a vida para o seu Deus salvador. E não é que uma onda mais forte o lançou na areia da praia! Estava salvo, mas o músico morreu. É que, ao chegar de volta à Inglaterra, um irmão o presenteou com um exemplar do Alcorão, o livro sagrado dos muçulmanos. Cat viu aí o sinal que faltava. E se embrenhou de cabeça na religião. Deu azar, pois foi ser orientado por um religioso conservador, que exigiu dele o abandono total de todas as suas atividades, inclusive a de tocar o violão, que ele, o religioso, considerava instrumento do mal. Trocou seu nome, sumiu do mapa, até aparecer como apadrinhando a grotesca condenação à morte de Salman Rushdie pelo Aiatolá Khomeini. Alguns anos depois, disse que fora mal interpretado pelos jornalistas.

Pois muito bem. Durante todo esse tempo em que ele se afundou no fundamentalismo religioso, parei de ouvir seus discos. Tenho vários deles. Mas me incomodava o fato de ele ter dado uma guinada tão grande e de modo tão drástico, que não me sentia à vontade em ouvir sua voz, mesmo a antiga, na minha casa.

Até que há poucos anos ocorreu outra guinada. Menor, é verdade, mas com o abrandamento de sua ideologia fundamentalista. Certo dia, ele conta isso, chega em casa e vê sobre o sofá da sala um violão. Seu filho o deixara lá. Ele olhou e pensou que aquele instrumento talvez não fosse do demônio, do mal. Sentou-se, pegou-o e começou a dedilhar. Não havia esquecido absolutamente nada do que tocara, embora não tivesse mais a mesma agilidade. Orientado por outro religioso, de outra mesquita, que lhe disse que os instrumentos musicais não são do mal, mas o que o homem canta é que pode ser do mal, Yusuf se permitiu voltar a tocar, a cantar e a fazer shows.

O disco que saiu agora, Tell ‘em I’m gone, traz um Yusuf mais Cat Stevens, até mesmo nas roupas, pois, em seu período mais fervoroso, vestia-se com a túnica islamita. Há fotografias do álbum em que aparece em roupas ocidentais modernas.

Mas o que importa mesmo é que o disco também está muito bom de se ouvir. Há uma forte presença de blues e R&B, com algumas regravações de clássicos do gênero e composições próprias. E a velha pegada do violão começa a voltar à forma.

Na entrevista que está no DVD de An other cup, perguntado sobre o futuro, ele deixa uma abertura, como que a dizer que as mudanças não estariam descartadas, ele que tanto mudara. Parece que ele abriu mão do fundamentalismo, como se pode notar. Mas a coisa anda a passos medidos, e nunca de uma guinada brusca como ocorreu em sua “conversão”. Talvez em Doors, a última faixa do CD, de sua autoria, isto esteja subentendido:

When a door is closed
Somewhere, there’s a door that’s opening
When a light goes out
Somewhere, there’s a light that’s shining

God made everything
Just right

If you never risk to lose
You may never get to win
If you never venture out
You will see nothing

God made everything
Just right

When a flower dies
Somewhere, there’s flower blooming
When a Sun goes down
There’s a Moon rising

When a door is closed
Somewhere, there’s a door that’s opening

 

Também uma foto, que ocupa duas páginas do encarte, mostra o músico, de roupas ocidentais, chapéu ocidental, violão à mão, de costas para a objetiva, caminhando por uma trilha entre o capim. Lá na frente, um bosque e o céu aberto. Esta foto permite muito mais viagens sobre seus sentidos escondidos.

Fico torcendo, porque quem quer que seja – Ysuf Islam, Yusuf ou Cat Stevens – o britânico descendente de gregos, Steven Demetre Georgiou, é um grande artista.

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Tell ‘Em I’m Gone, 2014, Sony Music

Faixas:

  1. I was raised in Babylon/Ysuf Islam
  2. Big boss man/Luther Dixon e Al Smith
  3. Dying to live/Edgar Winter
  4. You are my Sunshine/James Davis e Charles Mitchell
  5. Editing floor blues/Yusuf Islam
  6. Cat & the dog trap/Yusuf Islam
  7. Cold digger/Yusuf Islam
  8. The devil came from Kansas/Gary Brooker e Keith Reid
  9. Tell ‘em I’m gone/Yusuf Islam
  10. Doors/Yusuf Islam

 

OS CINCO MELHORES CDS DE BLUES DA MINHA COLEÇÃO

Meu sobrinho Bruno me pediu a relação dos cinco melhores cds de blues que tenho. Negociei e pedi para passar a listagem para dez. Aceita a negociação, resolvi listar onze, já que estamos às portas da Copa do Mundo. Como a seleção não pode ficar sem reservas, listei outros onze. Para que não fique com muito complexo de culpa, por deixar vários fora. Mas é como o técnico Felipão: sempre tem de deixar alguém de fora.

Aí está a lista.

1. B. B. KINGLucille talks back (Foi o primeiro elepê de blues que comprei, lá pela década de 70, e gostei, sobretudo, da faixa título, um pequeno blues instrumental em que a guitarra fala).

2. GUY DAVISSkunkmello (Por indicação de um jornalista especializado em jazz, quando criticava os críticos que não dão mais a nota máxima para os discos que analisam. Desse ele dizia que, embora de blues – sua área não específica – merecia a nota máxima.).

3. KEB’ MO’Just like you (Keb’ Mo’ apareceu numa lista dos 100 melhores discos de blues, e eu não o conhecia. Comprei e fiquei encantado pela pegada do Keb.)

4. PAUL BUTTERFIELD’Better days (Esse comprei na Arlequim há muitos anos, por indicação do vendedor. E é um dos melhores que já ouvi).

5. BUDDY GUYSweet tea (Buddy Guy tem vários discos ótimos. Escolhi esse que ficou mais na memória).

6. ALBERT KINGNew Orleans heat (Outro mestre da guitarra tradicional.)

7. MUDDY WATERSHard again (Muddy é, para mim, um dos melhores dos grandes bluseiros – B. B. King hors concours – com sua guitarra perfeita)

8. ERIC BIBBBooker’s guitar (Eric é um jovem blueseiro, que toca um blues parecido com o de Guy Davis, mais acústico. Esse disco é em homenagem a um antigo bluseiro já falecido: Booker White, cuja guitarra foi parar como que por milagre nas mãos do Eric.)

9. ETTA JAMESAt last (Da quase dezena de discos da Etta que tenho, nenhum é mais ou menos; todos são muito bons. Este acho que foi o primeiro que gravou. Muito bom!)

10. POPA CHUBBYThe good, the bad and the Chubby (Popa era outro que estava na lista dos cem melhores citada acima. Ele toca uma guitarra furiosa e canta pra caramba, embora seja feio como a praga. Tenho um dvd dele.)

11. J. J. CALERoll on (Esse disco é um clássico, embora não seja de blues clássico, eletrificado, pegado. Mas é muito bonito.)

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Lista suplementar:

COLETÂNEA: Antone’s 20th aniversary (Ótima coletânea. Dodote me pediu que comprasse para ele – cd importado, e resolvi comprar para mim também.)

ALVIN LEE & TEN YEARS AFTER – Pure blues (O Ten Years After incendiou Woodstock, mas este cd é blues eletrificado, quase rock.)

ALLEN TOUSSAINT – The bright Mississippi (Uma surpresa. Encontrei na Arlequim, gostei da capa e o vendedor garantiu que era bom. É muito bom!).

ROD PIAZZA & THE MIGHTY FLYERS – Alphabet blues (Também indicação do vendedor da Arlequim, há muitos anos. Ele me perguntou se gostava de gaita no blues. Disse que mais ou menos. Então ele disse, pode levar que vai gostar. É muito bom!).

GARY MOORE – Still got the blues (O solo da guitarra do Gary na faixa título é um dos melhores do blues e da guitarra.)

JIMMY WITHERSPOON & ROBBEN FORD – Live (Outra surpresa que tive ao trazer para casa este cd. É a gravação ao vivo do show do cantor Jimmy e do então jovem guitarrista Robben.)

JOHN LEE HOOKER – Chill out (Hooker é bom em qualquer cd. Escolhi esse.)

TAJ MAHAL – Señor Blues (Outro senhor bluseiro. Muito bom também.)

THE JIMMY ROGERS ALL-STARS BAND – Blues Blues Blues (Em cada faixa, a participação de um grande astro do blues.)

ERIC CLAPTON – Me & Mr. Johnson (Clapton interpretando Robert Johnson. Sem erro!)

DIANE SCHUUR – Blues For Schuur (Schuur não é propriamente uma cantora de blues, mas se dá muito bem neste cd e em outro, também muito bom, com o Rei B. B.).

E peço perdão às musas da música pela omissão de vários outros. Que elas tenham piedade de mim. Hahaha!

Capa do elepê e do cd do mestre B. B. King (meu primeiro disco de blues, da década de 70).

SOU PROGRESSISTA, DA LINHA DO YES

Você, em alguma época da vida, é rotulado definitivamente por alguma coisa característica. E se apega a ela com fidelidade, quase sempre eterna. Vai levando aquilo adiante, a despeito das novas vagas que encapelem o mar de novidades e modismos de toda a sorte. Na indumentária e no aspecto físico, dificilmente alguém se mantém fiel. E digo isto pensando nas calças toureiro, com a cintura lá no meio da barriga, os sapatos de salto alto, à época chamados Cavalo de Aço, por causa de uma novela, para os rapazes. Meus cabelos compridos e minha barba longa, certamente produtos de Woodstock, foram decepados no início dos 80, por conta de certos pelos esbranquiçados que começavam a aparecer.

No entanto, a moldagem do gosto musical, por exemplo, estava mais ou menos fixada e, por mais que o tempo passe, ficamos fiéis a ele como se fosse uma ato devocional, religioso.

Lembro-me do primo Zé Carlos, mais velho que eu, chegando a minha casa e se deparando com minha coleção de bolachas de vinil. Já devia ter por volta de uns mil álbuns. Era no final dos 70. Ele, um tanto perplexo com a quantidade, me disse de imediato:

– Ah, você vai me emprestar uns discos do Nelson Gonçalves.

Então, um tanto constrangido, lhe disse que não tinha nenhum disco do Nelson. Chateado, retrucou:

– Para mim, então, você não tem coleção nenhuma de elepês!

E sacramentou toda aquela catedral sonora eclética, que contemplava desde Cartola a Kraftwerk, desde Xangô da Mangueira a Stockhausen e Pink Floyd, como um monte de inutilidades. Apenas porque não tinha o seu artista favorito.

Zé Carlos ainda é assim: gosta de cantar músicas de serestas, faz reuniões em sua casa com esta finalidade, reunindo família e amigos em torno de uma boa massa caseira. O que vem também demonstrar este meu raciocínio.

Eu, contudo, sou do ramo progressista. Ou melhor, progressivo. Do rock progressivo, que alguns dizem ter sido tragado, engolido, massacrado pela onda punk seguinte. O que não é uma verdade.

Acontece que a mídia vive e sobrevive de modismos. E precisa, a cada momento, estar inventando novidades, a fim de que pareça sempre antenada com seu tempo.

Alguns podem dizer mesmo que o punk já era, dada a sucessão incrível de movimentos desde então.

Dificilmente, todavia, uma corrente que tenha embasamento e sustância desaparece com o vento das novidades. E o rock progressivo é uma delas. Embora tenha quase que desaparecido da mídia – as rádios não suportam tocar nada que ultrapasse três minutos, pois precisam faturar –, ele continua aí, com novos grupos seguindo trilhas abertas pelos antigos, hoje – irônica e carinhosamente – chamado de dinossauros.

É o caso, por exemplo, do YES, que está no Rio de Janeiro para um concerto no Vivo Rio. Infelizmente não estarei lá para este revival, em que serão executados integralmente os álbuns The Yes Album, Close to the edge e Going for the one.

O Yes, ao lado do Pink Floyd e do Genesis, é parte da trilogia sacrossanta do meu altar progressivo, assessorado por diversos santos e santas, antigos e modernos, todos eles de uma sonoridade que ultrapassa modismos e tendências, porque produtores de uma música consistente, elaborada e cheia de desafios para o ouvinte. Mas, principalmente, por terem feito a música que mais encanta meus ouvidos.

E, por isso, agarrado à etiqueta com que fui identificado no final dos 60, princípio dos 70, progressivo de carteirinha, é que não acho que – como dizem os detratores – o rock progressivo tenha acabado.

Ele, talvez, apenas hiberne fora da mídia. Mas pulsa por todo o mundo, como uma religião antiga, cujos seguidores ainda fazem questão de reverenciar.

Imagem em o esquema.com.br.

NEIL YOUNG, A AUTOBIOGRAFIA

Terminei de ler A autobiografia, de Neil Young.

Neil Young é um dos meus músicos prediletos. Tenho vários CDs dele e com ele, e alguns DVDs. Quando vi seu livro numa banca da Saraiva, comprei de imediato. Li-o vagarosamente.

Não é um livro em registro cronológico. Ele escreve ao sabor do momento, sobre o que faz naquele instante e as memórias que o assaltam. Fala, sobretudo, de sua relação com a música, os músicos e o meio musical. Mas também fala de projetos paralelos que desenvolve com uma teimosia gigante, como o do automóvel movido a energia elétrica e um novo sistema de gravação e veiculação de música – PONO –, que reproduza com mais fidelidade o que o artista cria, a fim de que o ouvinte possa chegar o mais próximo possível da experiência do autor. Fala também de si, de seus amores, de sua família, de seus filhos e muito dos seus amigos.

Transcrevo, a seguir, alguns parágrafos de seu livro, para que o amigo leitor possa ter dele uma amostra.

1. “Cerca de vinte anos mais tarde, em meados dos anos 1990, [David] Briggs e eu estávamos fazendo um álbum. Ainda chamo de ‘álbum’ porque era isso o que eu fazia. Eu não faço CDs nem faixas de iTunes. Faço álbuns. É exatamente isso. Chame do que quiser. Lembro como eu odiava o shuffle, recurso aleatório do iTunes, porque fode com a sequência que eu passei horas elaborando. Na minha opinião, faixas independentes e aleatórias são um horror. Podem me chamar de antiquado. Faço álbuns e quero que as canções se combinem para criar um sentimento. Faço de propósito. Não quero  as pessoas ‘beliscando’ os álbuns. Gosto de escolher os singles. Afinal, essa merda é minha.” (p. 334)

2. “Conheci Linda [Ronstadt] no Troubadour, nos anos 1960, quando ela cantava com os Stone Poneys. […] Era um terremoto. Ela estava sempre no topo, mas agora Linda se tornou um tanto reclusa. Parou para criar sua família e viver uma vida ‘normal’ no mundo real. Uma vez, ela usou ‘mundo real’ para me descrever. Disse a Nicolette [Larson] para não se envolver comigo porque eu não vivia ‘no mundo real’! Não importa, porque Nicolette e eu tivemos um relacionamento firme durante algum tempo. Não durou muito, no entanto. A vida é assim.” (p. 338)

3. “[…] Toquei ‘Sweet home Alabama’ naquele show, e o pessoal adorou. (Minha canção ‘Alabama’ mereceu a chance que Lynyrd Skynyrd me deu com seu ótimo disco. Não gosto da letra quando ouço hoje. É acusatória e condescendente, não inteiramente elaborada e muito fácil de ser interpretada de forma errada…)” (p. 341)

4. “Uma vez, no auge da tensão em Sunset, pouco antes de Stephen [Steels] escrever seu clássico ‘For what it’s worth’, fui parado e posto em cana por não ter carteira de motorista. Meu amigo Freddy Brechtel, um cantor sem banda, estava comigo e levou o carro de volta até minha casa. Fui preso na subestação de Hollywood, bem ao pé do morro onde ficava a Whisky. Quando eu estava na cela, um dos guardas me chamou de hippie fedorento. Ele usava óculos de aro de chifre. Gritando de volta, eu disse que ele parecia gafanhoto. Ele entrou na cela e me deu uma bruta surra. Socou minha cara e me chutou pelo chão. Foi traumatizante.” (pp. 348/349)

5. “Eu mesmo já não bebo mais, estou indo em frente. Não afirmo que não vou beber nunca mais. Não estou fazendo nenhuma promessa, mas não acho que sou um bom bebedor. Alguns caras são ótimos, bebem, contam piadas, riem até cair e ficam engraçados como o diabo. Enterramos um desses na semana passada. A vida não passa de um grande teste; se você tentar demais, fracassa. Se você não tentar muito e fracassar um pouco, mas se divertir, talvez já seja um sucesso.” (p. 362)

6. “Meu cérebro tem um monte de coisas a mais que só da para ver numa ressonância magnética. Não sei o que é, ou o que não é, mas conheço a história de meu pai. Ele era escritor e ficou doido, demente. Que diabo era aquela porra nevoenta no meu cérebro? Gostaria de nunca ter visto aquela merda. De qualquer modo, sempre me aconselharam a parar de fumar maconha, e eu parei. Na verdade, escrevi esse maldito livro inteiro, direto. Certamente é um dilema.” (p. 378)

Notas finais:

  1. A gravação de Words (Between the lines of age), no disco Harvest, seu quarto álbum solo, de 1972 pela Reprise, tem um dos mais belos solos de guitarra, no meio da música. Sua guitarra começa a gemer baixinho ao fundo, até gritar desesperadamente no primeiro plano da música. Aliás, o álbum é, na minha opinião, um dos melhores – senão o melhor – de sua carreira.
  2. A polêmica que parecia existir entre Neil e a banda de Alabama Lynyrd Skynyrd, por causa da música Alabama do bardo canadense, parece que nunca ocorreu, como se pode observar na menção rápida, que destaquei no item 3.
  3. YOUNG, Neil. A autobiografia. São Paulo, Globo Livros, 1912. [Tradução Renato Rezende e Helena Londres].

A capa do livro.