ENQUANTO MINHA GUITARRA CHORA SUAVEMENTE

Uma das minhas frustrações na vida é não ser guitarrista. Mas não um guitarrista qualquer. Queria ser um senhor guitarrista, como David Gilmour, para mim o maior de todos (Não me venham com razões técnicas, porque isto é coisa de sentimento, inexplicável.)

Quando jovem, tentei aprender a tocar violão. Eu e meu irmão Gutenberg compramos um, à prestação, na loja que era sua xará, Gráfica Gutenberg, em Bom Jesus, nos áureos anos 60.

Quando cheguei a Niterói, em 67, dedilhava alguma coisa despretensiosa e alguns dos antigos companheiros de pensão imaginam até hoje, como já me disseram, que eu soubesse tocar.

Meu irmão hoje, além de compor, toca bem. O pouco que eu sabia acabou. A única música de que ainda me lembro é The house of the rising sun, canção folclórica norte-americana também gravada pelos ingleses The Animals, de Eric Burdon, coqueluche à época: There is a house in New Orleans / They call the rising sun

E música, como qualquer outra arte, funciona mais ou menos assim: ou você é chamado por ela, e desenvolve um caso sério, ou é meramente um espectador. Pois, quanto à música, sou um mero espectador, ou melhor, ouvinte. Talvez até um pouco mais atento. Mas parei por aí. Se não podia ser um David Gilmour, melhor seria não tentar. Preferi permanecer na plateia, deixando que ele e todos os grandes guitarristas façam isso por mim. Por nós!

E, como sempre ocorre, às vezes uns fazem e outros executam. Uns compõem, outros interpretam. Felizes os que compõem e interpretam ao mesmo tempo. Na Itália, pela década de sessenta, com o surgimento de diversos compositores que também cantavam suas músicas, criou-se a palavra cantautore, para distingui-los dos que eram apenas intérpretes.

Porém, este papo quase furado com que preambulo este texto é apenas para dizer para vocês que a célebre e magistral canção dos Beatles While my guitar gently weeps, de autoria do meu beatle preferido, George Harrison (Também não me perguntem por quê!), com diversas gravações espetaculares, recebeu de Peter Frampton talvez aquela mais bela, mais sensível a que seu título alude. Sua guitarra chora suavemente na gravação feita para seu álbum Now, de 2003. Tanto o riff inicial, quanto o solo no meio da canção são das coisas mais belas que a guitarra pôde fazer. Parece que, ali, Frampton entrou em estado de graça. Fez um pacto com o Cramulhão para executar como o fez.

E reparem que, além dos Beatles e de Frampton, há outras interpretações sensacionais, como de Eric Clapton e o próprio Harrison; de Tom Petty, coadjuvado por Prince, Jeff Lynne, Dhani Harrison e Steve Winwood, dentre outros, no tributo a Harrison no Royal Albert Hall; de Santana, com o vocal fantástico de Indie Arie e o violoncelo clássico de Yo-Yo Ma; de Jeff Healey e sua surpreendente guitarra tocada sobre o colo; da versão explosiva de Toto com a guitarra incendiária de Steve Lukather; da versão impressionante de Jake Shimabukuro no ukelelê, dentre outras que não repassei ou não conheço.

Para mim, no entanto, se sobressai a interpretação dada por Peter Frampton, hoje um senhor calvo, mas com a sensibilidade para fazer chorar sua guitarra de tal forma, que me leva ainda a pensar, como nos anos 60/70, que um dia a música possa nos salvar da estupidez da guerra e da violência.

É o que sinto.

E também não me perguntem por quê!

Capa do cd Now, de Peter Frampton, de 2003.

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Se quiser ouvir a gravação de Frampton, clique aqui.

ACORDEI CEDO!

Sempre que um aposentado folgado e preguiçoso como eu acorda cedo é porque a providência divina tem um plano especial para o recalcitrante. Nunca há de ser à toa!

Não é para caminhar e colocar as taxas salientes em dia, nem para sair a pescar peixe que não caiba numa foto de celular.

Porém algo deve acontecer para justificar o sacrifício.

Explico-lhes, pacientes leitores.

Tendo, portanto, acordado antes do combinado, para não sei que providências que não poderiam ser adiadas, vi na tevê da casa de minha sogra, que está ligada à tal antena paranoica, um canal da Globo que jamais vi (Em Niterói não tenho acesso a ele.), que transmitia o programa Estúdio I, apresentado por uma bela mulher morena, Maria não sei das quantas, que apresentava um jovem músico capixaba, de nome Silva.

Segundo a reportagem, Silva está lançando seu cd Claridão, gravado em casa. E mostrou três ou quatro músicas de sua lavra que estão no disco.

Vou-lhes dizer algo desassombrado: o garoto – deve ter vinte e poucos anos – é um fenômeno, é magistral, é talentosíssimo. Ele e outro menino, ainda com cara de bebê e tocador de cavaquinho, bateria eletrônica e outras percussões, mostraram que nem tudo está perdido na música popular brasileira. Nem tudo se resume a esta porcariada que a tevê aberta e as rádios tentam impingir à população, a poder de muito jabá. Nem tudo é Thiaguinho e esse sambanejo de baixa extração. Nem tudo é tecnobrega, sertanejo universitário com diploma de analfabeto e forró da mesma laia.

Salve Silva, o capixaba que vem mostrar que há inteligência na MPB.

Só vi isto e já estou achando que o mundo não mais acaba no dia 12/12/2012 ou 21/12/2012, sei lá! Os maias vão ter de esperar um pouco mais!

Se não tivesse acordado cedo, não teria conhecido o garoto Silva e sua música maravilhosa.

A providência divina tem cada uma: me incomodar na manhã de segunda-feira!

Veja aqui o clipe de uma das músicas que ele apresentou ao vivo no programa: A visita.

VOCÊ JÁ OUVIU O CD DO CELSO ADOLFO?

Capa do cd Estrada Real de Villa Rica, de Celso Adolfo.

Comprei, há alguns dias, e só ouvi no sábado o cd Estrada Real de Villa Rica, de Celso Adolfo (patrocinado por Minas Brasil, CEMIG e Governo de Minas). Talvez a grande maioria não conheça Celso Adolfo, esse mineiro que já deve estar beirando os cinquenta – por aí.

A primeira música – e talvez a única que dele tenha ouvido – foi gravada por Elba Ramalho, em 1984, no disco Do jeito que a gente gosta (Barclay): Azedo e mascavo, que, à época, chamou minha atenção pela beleza da melodia e a construção da letra. E jamais saiu de minha memória como uma das mais belas que já ouvi.

Pois agora recentemente encontrei na Arlequim, no Passo Imperial, o Estrada Real, que é de 2008. E pensei cá comigo: quem fez Azedo e mascavo não há de fazer porcaria. E acertei em cheio!

Celso Adolfo, segundo apurei, está desde a década de 80 batalhando sua música. E é uma pena que não eu tenha conhecido nada mais dele. Pois Estrada Real é um belíssimo cd conceitual, com melodias, letras, instrumental e arranjos muito bem elaborados, além de um capricho gráfico – a partir da capa (em papelão) e do encarte muito bem produzido – dificilmente visto por esses tempos de pobreza da indústria fonográfica.

Para você que está cansado da mesmice de mau gosto musical que os meios de comunicação jogam em nossos ouvidos como uma avalanche, o disco de Celso Adolfo, pode ter certeza, será um oásis sonoro, em suas dezoito faixas, em que até mesmo uma modinha anônima do século XIX recebeu letra do músico mineiro.

Grata surpresa este Estrada Real de Villa Rica. O que prova que ainda há muita arte e bom-gosto escondidos por aí, a despeito da imbecilidade a que estamos submetidos.

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CELSO ADOLFO, Estrada Real de Villa Rica, 2008. Faixas: 1. Barcarola lusitana (C. Adolfo); 2. Estrada Real de Villa Rica (C. Adolfo); 3. Canoa do Guaicuí (C. Adolfo/Angelo Oswaldo); 4. Batuque (C. Adolfo/Álvaro Apocalipse); 5. Fumo Picado (C. Picado); 6. Terras Altas da Mantiqueira (C. Adolfo); 7. Caminho novo (C. Adolfo); 8. Caminho velho (C. Adolfo/Juarez Moreira); 9. Catopé (C. Adolfo/Iuri Popoff); 10. A tropa (C. Adolfo/Leo Minax); 11. No Caraça (C. Adolfo/Leo Minax); 12. Batuque de Catas Altas (C. Adolfo); 13. No meio da viagem (C. Adolfo); 14. Estalagem (C. Adolfo/); 15. Cego de amor (modinha do séc. XIX/letra de C. Adolfo); 16. Remanso de rio largo (C. Adolfo); 17. Folia na estrada (C. Adolfo/Iuri Popoff); 18. Serrano (C. Adolfo).

EU NÃO AGUENTO MAIS O THIAGUINHO!

Queria saber se alguém tem alguma simpatia forte, algum despacho, alguma mandinga poderosa, que possa desalojar o Thiaguinho da mídia.

Depois que esse cantor chato passou a namorar a atriz global Fernanda Souza, a Globo nos massacra com ele, com impressionante frequência. Em vários programas da Vênus Platinada, lá está ele, pontificando com sua presença avassaladora. E não adianta mudar de canal. Em todos os canais que sintonizo minha tevê, lá está o Thiaguinho! Num é entrevistado sobre os mais sérios problemas da atualidade; noutro está cantando aquele pagodezinho chumbrega e rastaquera, de apelo sentimentaloide; num outro aparece em comercial de seu show, de seu disco ou dvd. Agora, no canal do Silvio Santos, faz a campanha daquela loteria caça-níquel do senhor Abravanel.

Não estou dizendo que ele seja um mau cantor.  Longe disto! Apenas afirmo que é um chato de galochas e que caiu na minha mísera, porém sincera, e ínfima antipatia artística. Que também não tem valor nenhum para a carreira dele. Infelizmente!

Nesses meus arroubos de mau humor, necessariamente me vem à memória o saudoso jornalista José Ramos Tinhorão, especializado em música brasileira e reconhecido por suas posições extremadamente nacionalistas. Ele pretendia uma música brasileira autêntica, sem influências estrangeiras, sobretudo da música ianque. Certa vez, ao comentar o lançamento do primeiro álbum do grupo de rock pernambucano Ave Sangria, em que apareceu Robertinho do Recife, hoje um dos nossos maiores guitarristas, após desancar cada um dos membros do grupo, sobretudo o baterista, que, segundo ele, só tocava chacadum, encerrou seu demolidor comentário com a frase que jamais me saiu da memória: “Ah! uma enxada na mão desses caras!”.

Óbvio que não sou nenhum J. R. Tinhorão. Mas o meu mau humor é quase igual ao dele. Só meu sectarismo é um pouco mais brando.

Mas, quanto ao Thiaguinho, sou obrigado a repetir Tinhorão: Ah! uma enxada na mão dele!

Como já estou cheio de Thiaguinho, ilustro esta postagem com a foto que fiz recentemente a partir da avenida litorânea, em Niterói.

JON LORD E DEEP PURPLE

Assumo, logo de cara, sem a vergonha que seria típica para um senhor adentrado na terceira idade como eu, minha condição de purplemaníaco, aproveitando a notícia da morte de Jon Lord, tecladista, compositor e um dos fundadores do grupo inglês de hard rock, Deep Purple, ocorrida na segunda-feira.

Mas devo confessar, também, que não sou um fã típico. Quer dizer, não fui e não sou fissurado. Sou equilibrado. Abestadamente equilibrado!

Na década de 70 do século passado, comprei minha primeira bolacha do Deep Purple – Fireball – e senti que ali pulsava uma música interessante.

Alguns podem até me dizer que é estranho associar música a hard rock. Mas como amante de música, desde a música medieval e renascentista, passando por Vivaldi e Bach, meus compositores clássicos favoritos, vejo e sinto música no rock mais barulhento, mais estranho quer possa haver. Aliás, a música está presente nos mais diversos estilos. É só ser feita com qualidade.

Concomitantemente, tinha o hábito de comprar, ler e colecionar a imprensa alternativa daquela época, aí incluída a versão pirata brasileira do jornal Rolling Stone, que difundiu o mito de que fãs do Deep Purple não poderiam ser fãs do Led Zeppelin. Seria uma incompatibilidade de gênios. E eu entrei nessa!

Contudo, não me arrependo disto, apesar de meu sobrinho-neto Lucas fazer um esforço danado para que eu “largue mão desta besteira”. Não que não reconheça qualidade na música do Zeppelin. Eu não seria abestado a este extremo, pois me considero uma pessoa razoavelmente esclarecida. Porém vamos dizer que não fui acostumado a ouvir a música do Led Zeppelin e fui iniciado na música do Deep Purple. Mais ou menos assim como religiosos de denominações cristãs diferentes, que acham que apenas a sua igreja seja a verdadeira e que as demais, apenas uma contrafação da verdade, apesar de cultuarem o mesmíssimo deus.

Como disse na postagem anterior sobre a morte de Jon Lord, que lamentei com toda a sinceridade, tenho quase toda a obra do Deep Purple em bolachas de vinil 33rpm e CDs, além de alguns DVDs de shows, e até mesmo o último de Jon Lord, com orquestra sinfônica, em uma peça de caráter erudito.

Quase todas as vezes que o Purple esteve no Brasil, no Rio de Janeiro, fui vê-lo, inclusive levando meu filho. Até mesmo num concerto com sua formação clássica, no Maracanãzinho de péssima acústica, lá pela década de oitenta/noventa – sei lá –, quando Pedro era ainda adolescente.

Até os discos mais recentes, Bananas (2003)e Rapture of the deep (2005), em que a formação é distinta, mantidos basicamente Roger Glover e Ian Paice, a pegada – ou o punch, como gostam de dizer os entendidos – mantém-se a mesma. São discos que não desmerecem o prestígio que o grupo adquiriu ao longo de sua trajetória.

Não citarei aqui a série de sucessos que o Deep Purple enfiou nas paradas. Apenas quero lembrar que os riffs de guitarra mais famosos – aqueles de que todos se lembram – pertencem à guitarra incendiária de Ritchie Blackmore.

E o Purple tinha um quinteto de músicos extremamente talentosos. Além de Balckmore, compunham a banda Ian Gillan, apelidado Silver voice, que atingia agudos e graves extremos com facilidade, como em Child in time; Ian Paice, que solava, com sua poderosa bateria, várias passagens musicais, com em The mule; e o baixo de Roger Glover, na pulsação acelerada de cada rock que o grupo debulhava nos discos e nos shows.

Relativamente ao órgão de Jon Lord, vou transcrever o que, no Facebook, meu amigo Rogério Fernandes, baixista de muitos méritos, dele falou, a respeito da inovação trazida à maneira de se executar o instrumento: “Ele era realmente extraordinário e seu som de Hammond que era único vai fazer falta. Ele tinha uma coisa bem curiosa na maneira de tocar o órgão. Ao contrário de outros organistas contemporâneos e roqueiros como ele, não passava o órgão diretamente pela caixa Leslie como todo mundo fazia. Ele ligava o instrumento num amplificador de guitarra com o botão de drive bem alto, para poder obter um som mais agressivo e distorcido do instrumento. Ele explica isso no DVD Classic Albuns do Machine Head. E fica a lembrança do solo matador, bem bachiano, em Highway Star, marca registrada dele. R.I.P, Jon!”

Salve Purple! Ave Lord!

O Deep Purple nos áureos tempos: Lord, Paice, Gillan, Blackmore e Glover (em vandohallen.com.br).

MORRE JON LORD

Do meu quase exílio mensal em Bom Jesus, soube agora à noite da morte de Jon Lord, tecladista e compositor do emblemático grupo de rock inglês Deep Purple, e posso dizer aos que me prestigiam com a leitura que fiquei realmente sentido.

A barulhenta e acelerada música do Deep Purple embalou minha juventude. E até hoje é, no estilo conhecido como Hard Rock, a minha preferida. E confesso que, mesmo na idade provecta em que me mantenho sobre a face do planeta, não passo muito tempo sem voltar a ouvi-la. Meu amigo, Rogério Fernandes, baixista dos bons, sabe muito bem disto e não opõe reparo. Até, inclusive, me deu dicas sobre coletâneas que não encontramos normalmente no mercado brasileiro, que tiveram de ser importadas.

Tenho sua discografia quase completa, em vinil e em cds, além de alguns dvs de shows.

Jon Lord colocou seu teclado nervoso a serviço da massa sonora do grupo. O longo solo inicial de Lazy, uma das faixas de Machine head, é um belo exemplo disto.

Diferentemente de outros da mesma linhagem estética, o Purple não abrandava a pegada vigorosa com alguma canção dolente, para permitir que o fã relaxasse por breve instante. Seus discos eram, com frequência, uma pauleira só, como costumávamos dizer, do princípio ao fim. E, o mais interessante, com melodias facilmente assobiáveis, malgrado o peso.

E, se o Purple teve na guitarra de Ritchie Blackmore um de seus pilares, teve também no órgão de Lord um nervo exposto a cada solo, assim como na voz inconfundível de Ian Gillan, assessorados pela cozinha de Ian Paice, na bateria, e Roger Glover, no baixo, em sua clássica formação.

O rock faz centenas, milhares de heróis. Alguns, tristes heróis, que se deixaram imolar absurdamente pelas drogas. Lord morre prosaicamente como um cidadão comum, acometido por um câncer de pâncreas, que o levou a uma embolia pulmonar.

A vida o deixou sem fôlego, como os seus rocks vibrantes, pesados, nos deixavam a cada audição.

Hoje, para mim, é uma noite negra, de um púrpura escuro, profundo. Mas Lord passa como uma bola de fogo pelo horizonte sacudindo minha preguiça de Bom Jesus.

Rest in peace, Jon Lord, the lord of keyboards!

Capa da primeira bolacha que adquiri do Deep Purple, Fireball, de 1971. Lord, ainda jovem, é o primeiro em cima.

DO TEMPO DO ONÇA

Há algum tempo (não muito, por certo!) publiquei no blog a postagem Lugares distantes, em que, de forma abreviada e superficial como é minha praxe, fiz um apanhado das expressões que denotam, nas frases, a noção de lugar. Aquilo que a gramática tradicional classifica como adjunto adverbial de lugar.

Como disse naquela oportunidade, pelo fato de ser interessado no fenômeno da linguagem, sempre vêm caraminholas linguísticas perturbar meu descanso remunerado de aposentadoria. Desta vez é a noção de tempo. E isto motivado por uma frase ouvida de pequeno falante de nossa mui bela língua.

Imagem em infoescola.com.

O tempo, do ponto de vista psicológico, pode ser bem diferente daquele que é medido pelo relógio e pelo calendário. As vinte e quatro horas do dia passam aceleradamente, caso você tenha muitos problemas a resolver, o que o leva a ansiar por um dia de vinte e cinco ou mais horas, por exemplo. Ao contrário, caso você esteja tranquilo, desfrutando de um ócio quase pernicioso – como se isso fosse possível –, é bem provável que aquelas mesmas horas lhe pareçam infinitas e maçantes. A este respeito, aliás, Millôr Fernandes tem uma frase excepcional, em que joga com a tensão entre essas duas percepções de tempo: “A cada mês, sobram mais dias no meu salário” (cito de memória).

No curso de Letras, aprendemos logo cedo a distinção entre o tal tempo psicológico – matéria básica da obra literária – e o tempo físico, astronômico, propriamente dito – aquele determinado para entrega dos trabalhos de literatura, por exemplo.

Mas a tradição da língua nos oferece algumas expressões interessantes, além dos óbvios hoje, ontem, amanhã, depois de amanhã, anteontem, trasantontem/ trasanteontem, agora, depois, logo, breve,, e por aí afora (Isto aqui não é aula de gramática!). Algumas dessas noções, lá em Carabuçu, dizíamos, por exemplo: onti, antonti ou antionti, tresantonti, istrudia (estoutro dia, há alguns dias) e dijaoje (hoje cedo, ainda há pouco).

As expressões que aqui me interessam estão impregnadas pelo caráter estilístico próprio de nossa língua. Vejam alguns exemplos e minhas impertinentes observações:

a)      Tempo do onça – Época antiga e imprecisa, mas bem antiga, que nos remete a um país menos povoado por gente e mais por onças e outros bichos do mato. Ou será que a falta de concordância da expressão do onça é por que já é um aportuguesamento do inglês once upon a time?

b)      Tempo do cagar de coque (de cócoras) – Tempo que precedeu à tecnologia do penico e, por consequência, à da casinha, à do vaso sanitário e, finalmente, à do water closet, com sua caixa de descarga ecológica, para xixi e cocô. Era também o tempo da frase “Vai cagar no mato!”, xingamento hoje muito brando, já que não inclui a progenitora do nosso adversário, como é próprio dos impropérios modernos. Às vezes, em determinadas situações e premido por certas circunstâncias intestinais que nem é bom lembrar, vamos da era da privada tecnológica ao tempo do cagar de coque num átimo. É só o intestino mandar!

c)       Tempo em que se amarrava cachorro com linguiça – Tempo antiquíssimo que nos remete aos primeiros dias do Éden, antes de Adão e Eva fazerem a m*rda que fizeram. Naquela altura, até mesmo os animais carnívoros eram educados e se podia facilmente amarrar um cão com este tipo de corrente.

d)      Tempo da Carochinha – Esse é um tempo em que até mesmo nossos avós, bisavós e tataravós eram criancinhas. Está lá perdido no meio daqueles livros de histórias infantis, na memória da gente. É tempo velho do tempo de nós meninos. Mais ou menos por aí. E talvez seja o que nos dá mais saudades.

e)      Tempo do ‘derréis’ (dez réis) e do vintém – Tempo bom, em que “se vivia muito bem, sem haver reclamação”, como diz o samba famoso*. E não serei eu a contestar a afirmação do sambista. Contudo penso que este tempo caro à memória era concomitante ao que vem logo a seguir.

f)       Tempo de Dondom** – Também cheio de coisas boas, segundo o sambista, pois “nossa vida era mais simples de viver”, cheio de cortesias e de boas lembranças. Até de um jogador que ninguém conhece, de um time desconhecido, o Andaraí. O bairro é logo ali mesmo, e o tempo deve estar perdido em suas ruas e vielas. Pode ser que o tempo esteja a andar aí.

g)      Naquele tempo – Expressão consagrada pela Bíblia, que dela faz muito uso, e é tradução do latim da Vulgata in illo tempore. Como os textos da Bíblia já são muito antigos, quando falam daquele tempo, deve ser coisa beirando o tempo da criação do mundo. Sei lá! Mas sempre soa como coisa antiquíssima.

h)      Tempo do rei – Este é um tempo fácil de ser encontrado nos antigamentes: é de quando houve rei. Acabou-se o rei, findou-se o tempo. Ruy Castro o utilizou em um de seus livros: Era no tempo do rei***, em que fabula peripécias de um D. Pedro I na adolescência, reinando pelas ruas do antigo Rio de Janeiro, do tempo do rei.

i)        Tempo de D. João caroço – Já este tempo é indefinível, mas bem anterior ao do rei. Pelo menos é o que se sente da expressão. E do caroço de D. João.

j)        Tempo das vacas magras – Este é um tempo atemporal, individual ou coletivo. Pode ter sido ontem, há um mês, há um ano, há muito tempo. Há um borbotão de pessoas que ainda vivem no tempo das vacas magras e ainda não têm a perspectiva de escapar dele. Vejam, então, que é um tempo sem tempo definido. Como o do trabalhador brasileiro que, segundo a propaganda do governo, saiu dele, mas, conforme notícias atuais, para lá volta daqui a pouquinho.

k)      Tempo do cinema mudo/do cinema preto e branco – Este é um tempo facilmente marcável. É só você ir à Wikipedia e ver lá. Não vou perder tempo com isso.

l)        Tempo do rádio de rabo quente – Um pouco anterior ao tempo do cinema mudo. Os chamados rádios de rabo quente apareceram no princípio do século XX e eram a alegria das pessoas. O problema é que deviam ser ligados um pouco antes, para que esquentassem e começassem a espalhar seus encantos e maravilhas modernas no ar.

Finalmente volto ao motivo inicial que me despertou estas considerações.

Pois não é que ouvi, dia desses, um menino dizendo para o outro que o seu pai era velho “do tempo em que o papel higiênico não rasgava no picote”, como se tal grande avanço tecnológico tivesse sido conseguido há décadas. O colega se espantou, pensando tratar-se da coisa mais antiga do mundo. Onde é que já se viu o papel higiênico não rasgar no lugar picotado?! Aos dois parecia um despropósito. E o coleguinha ainda falou:

– Aê, mané! Seu pai é velho pra caraca!

Ou, como diria o grande José Cândido de Carvalho, “pratrasmente de muitos anos”.

Fico por aqui, pois meu tempo acabou!

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* Saco de feijão, de Chico Santana, gravado por Beth Carvalho no elepê Nos botequins da vida (RCA, 1977).

** Tempo do Dondom, de Nei Lopes, gravado pelo autor no cd De letras e música (Universal, 2000).

*** CASTRO, Ruy. Era no tempo do rei. 1. ed. Ed. Alfaguara Brasil, 2000.