O PROFETA

Cada tempo, cada terra, cada povo têm o profeta que merecem.

Aqui, com todas as nossas vicissitudes, temos o Marcos Feliciano profetizando. É o que nos sobra.

É, como dizíamos em Carabuçu, meio muito! Marcos Feliciano, o deputado federal evangélico, também é profeta. E profetiza catástrofes escatológicas: está prevendo o fim dos terreiros de santo, que ele chama de macumba, e o sepultamento de todos os pais de santo do país. E, eu diria, quiçá da Bahia.

Claro que essa profecia há de acontecer um dia, a se dar ouvido a todas as previsões catastrofistas que pululam mundo afora. Por exemplo, em 21/12/2012, às 21 horas, o mundo acabou, conforme previram os sábios maias. O que vivemos agora é pura ilusão virtual, alguma coisa projetada pelo Demo para nos iludir.

Contudo a profecia desse profeta do absurdo soa muito mais como intolerância religiosa, como ódio religioso.

Não sei os deuses de todas as religiões, mas seus seguidores aqui em baixo são pessoas que, comumente, pregam o extermínio dos infiéis. E isso desde que o mundo é mundo, desde que apareceu o primeiro deus. Se bem que, na religião hinduísta, eles se digladiem o tempo todo. Ou pelo menos já se digladiaram, como ocorria nas mitologias antigas, tipo grega e romana. Eles mesmos, os deuses, metiam ferros uns nos outros, como nós humanos fazemos aqui embaixo, replicando seus comportamentos.

O infeliz do Feliciano apenas repete a mesma coisa. Só que, atualmente, nosso Estado que se pretende laico entende que tal postura é tida como crime. Então, ferro nele também. Meta-se-lhe o rigor da lei, a despeito de sua carapaça de deputado federal e não se fala mais nisso!

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PS: Não tenho religião nenhuma, mas defendo o direito de cada um ter a sua e exercê-la com liberdade e respeito a todas as demais.

Cartum de Glauco (em momentodereflexao.blogspot.com).

MC CHAVEIRINHO MANDOU BEM

O Brasil tem a mania de ordenar tudo que é esculhambação, mas tudo continua exatamente esculhambado até mesmo depois de ordenado, legalizado, cooptado.

Pois é o que está acontecendo nesses dias com os tais rolezinhos.

Vi na tevê notícia sobre a reunião de autoridades, empresários e rolezeiros, para dar um aspecto civilizado ao rolezinho. Como disse Caê Veloso, nosso filósofo de plantão e ídolo do meu amigo Zatonio Lahud Neto, rolezinho é um movimento da sociedade. E, digo eu, assim como foi o twist e o chá-chá-chá de la secretaria. Tudo o que mexe dos quadris para baixo é movimento social. Dos quadris para cima é repressão da burguesia, é cacete na cabeça de neguinho, o diabo a quatro. Portanto o rolezinho é um movimento social do mais puro sabor brasileiro: o pessoal vai dar um rolé sem saber por quê. Só onde e quando!

Contudo isso também não vem ao caso, já que somos habituados a fazer um montão de coisas sem saber a razão delas, nem suas consequências. Fazemos porque está na moda, a estação exige e os vizinhos estão de olho.

Entretanto agora, com essa bela iniciativa do governo, os rolezinhos poderão entrar no currículo das escolas e no calendário de eventos de vento em popa por esse Brasil varonil. Será possível fazer rolezinho até em ambientes quadrados, retangulares, trapezoidais e que tais, sem se que fira o princípio gerador do fato rolé, um negócio meio redondo, enrolando uma lasca de cenoura e espetado por palitos.

Como acontece, porém, neste caso, isto é, do rolezinho, a ele não estão convidados maiores de vinte e cinco anos. O ambiente é nitidamente juvenil e precoce, como esses garrotes que comemos nas churrascarias a preço absurdo. Os coroas não entendem os desmotivos do rolezinho, portanto não serão bem recebidos lá. Tudo o que tiver um mínimo de interrogação não pode participar do evento.

Eu até que queria me meter nesse troço, mas resolvi tirar o time de campo depois da garantia do MC Chaveirinho de que vão constituir um grande fórum do rolezinho, com representantes jovens de cada segmento. Há rolezinho trotskista, leninista, maoísta, hitlerista, hedonista e do Amaury Jr. (Tudo que é social em São Paulo passa pelo Amaury Jr. e suas plásticas imperfeitas.).

MC Chaveirinho se mostrou um líder antenado com seus pares, e tenho certeza de que irá conduzir o movimento rolé para dar um rolé em vários pontos do país, quiçá até na Bahia, nos momentos de intervalo dos trios elétricos e da lavagem dos degraus da Igreja do Bonfim.

Vou ficar aguardando o desdobramento desse rolezinho. Do outro já sei: do miolo sai uma farpela de cenoura e uma lasca de toucinho de fumeiro.

Estou com MC Chaveirinho, mas não abro. Estou fechado com ele!

 

O rolezinho da Sadia (em http://www.sadia.com.br).

SOBRE ESPIONAGEM E ESPIÕES

Vinha eu ontem do Rio de Janeiro ouvindo no rádio do carro a gloriosa Voz do Brasil, e me chamou a atenção a notícia oficial brasileira de que nossa Presidente (Não escrevo presidenta nem por decreto!) declarou, comentando sobre o vazamento da espionagem da ABIN e as rebarbas da espionagem do Obama, que a nossa é muito melhor, no sentido de que é do bem e não pretende prejudicar ninguém.

Acho que o Brasil tem espiões cândidos, almas quase inocentes, que se põem a bisbilhotar a vida alheia, sem nenhuma intenção malévola. Apenas como voyeurs caboclos, que jamais saberão o que fazer com o produto de sua espionagem.

Já a espionagem americana, pelo que deduzi das entrelinhas sonoras da Voz do Brasil, sempre tem o intuito de cravar o ferro em alguém, sobretudo no adversário, no parceiro, ou no amigo, como ficou evidenciado com as denúncias daquele cara que está escondido não sei onde e que soltou o verbo (Não tenho espiões aqui para lhe saber o paradeiro real.).  O tal do Snowden!

Na fieira de sua língua solta, acabamos por descobrir que todo mundo espiona todo mundo: russo, francês, alemão, inglês, chinês, coreano do norte e do sul. E até mesmo nós, brasileiros carnavalescos, futebolescos e sambistas alienados! Nós temos também nossa espionagem!

Só que a Presidente (Não escrevo presidenta nem que o bezerro desmame!) Dilma já inocentou nossos espiões. Espiamos para o bem. Não sei bem de quem, mas nunca para o mal.

Na verdade, a espionagem é uma atividade normal de qualquer estado constituído ou a se constituir. Todo mundo espiona.

Tenho um vizinho que vive espionando a janela indiscreta da morena de hábitos liberais.

Eu mesmo, na juventude, com meus primos e amigo, tínhamos uma luneta para espionar duas irmãs – uma lourinha e outra moreninha – que estavam sempre com a janela aberta, após tomarem banho e providenciarem as roupas que iriam vestir. Na época, pelo início dos setenta, já havia exibicionistas e voyeurs à vontade.

E nós quatro sempre espiávamos para o bem, como os nossos arapongas da ABIN. Era um prazerzão! No momento de pique entre tirar a toalha e se decidir pela calcinha a vestir, a luneta só era liberada quinze segundos para cada um. Cravados no cronômetro! Caso o recalcitrante quisesse ainda permanecer com as butucas sobre as donzelas, o da vez sempre punha o mãozão na frente da objetiva, para frustrar o aproveitador.

E o poder dessa espionagem foi tão grandioso, que eu, particularmente, ainda tenho em minhas quase descoladas retinas a imagem daquelas duas belas jovens a se trocarem.

Por isso é que eu acredito na Presidente (Não… etc.) Dilma: nossa espionagem não causa malefícios, nem efeitos colaterais. Não iremos comprar petróleo de ninguém a preço baixo, nem ter benefícios em leilões e acordos internacionais. Espiamos apenas por espiar, como voyeurs amadores como eu, meus dois primos e meu amigo, uma equipe de arapongas com sua luneta desvairada a bisbilhotar o exibicionismo de duas irmãs, lá na década de setenta.

Viva a sadia e benévola espionagem brasileira!

Spy vs spy, criação do cubano Antonio Prohias.

A CÂMARA DOS DEPUTADOS NÃO TOMA JEITO

A Câmara dos Deputados, com a não cassação do deputado preso por desvio de dinheiro público – roubo, na linguagem comum -, deu uma demonstração clara de que se lixa para a decência, a vergonha na cara e a opinião pública.

Os deputados que livraram a cara do condenado talvez tenham culpa semelhante no cartório, ou não teriam tomado a atitude que tomaram. Principalmente porque se esconderam atrás do voto secreto.

Mas, ainda bem pior do que aqueles que, secretamente, votaram pelo deputado detento, foram os que se abstiveram de votar.

Deputado e senador não têm o direito de se abster em nenhum tipo de votação. Eles foram conduzidos ao Congresso para votar – contra ou a favor – de qualquer matéria parlamentar. Eles estão lá para representar seus eleitores, que não podem votar as matérias. Os que se abstêm são piores do que os que votam contra ou a favor de qualquer matéria, porque são covardes, fracos, pusilânimes. Esses, talvez, sejam os piores representantes, porque compactuam com alguma situação, tentando tirar o corpo fora, abstendo-se de tomar uma posição.

O eleitor, ao votar nas eleições, tem o direito de se abster, votar em branco, anular o voto. O parlamentar eleito não tem esse direito.

Assim, no conjunto formado pelos que votaram pelo deputado prisioneiro, os que se abstiveram e os que faltaram, a Câmara Federal cuspiu na cara na Nação. E deu o recado contundente que não tem nada a ver com o conjunto da sociedade. O que é, sob todos os aspectos, lamentável e dá oportunidade a que as vozes do golpismo se levantem para desqualificar a atividade legislativa como uma das bases da democracia representativa.

Agora, depois da vergonha inicial, correm alguns parlamentares a tentar reverter a situação. Pode ser tarde para tirar mais essa mancha sobre o parlamento brasileiro.

CHEGUEI E ACHEI TUDO NA MESMA

Há uma anedota que diz que certa pessoa passou dez anos sem ir a Paris e, assim que voltou, constatou que a cidade não havia mudado em nada, estava na mesma. E isto a fez exclamar: Graças a Deus, Paris não mudou!

Estive por dez dias fora do país. Fiquei praticamente sem saber de notícias daqui. Quando voltei, também encontrei quase tudo na mesma: na mesma esculhambação, na mesma confusão, na mesma improvisação de sempre.

Saí depois da Copa das Confederações e voltei em meio à Jornada Mundial da Juventude, e o que me pareceu, logo de saída, pelas notícias, é que o Rio de Janeiro – não sei de outras cidades – não tem capacidade de receber um número muito grande de visitantes de uma única vez. Os transportes públicos não atendem bem nem os moradores daqui, imaginem se atenderão mais milhares de usuários. Nossa improvisação, nas mais diversas situações, não funciona quando o bicho pega, quando o pau quebra, quando a cobra fuma. Aí não é possível dar um jeitinho.

Como dar um jeitinho à saída de um milhão e meio de pessoas de uma concentração em Copacabana? No réveillon esse troço funciona? Não sei!

Devo confessar que, no último réveillon a que fui, as regras eram outras. Cheguei cedo, estacionei o carro numa garagem, fui para a casa de um amigo, depois à praia e, assim que o trânsito foi liberado, voltei a casa. Não precisei do transporte público. Mas quem o utiliza deve passar seus apertos. É que nossa administração pública não existe para facilitar nossas vidas. Antes existe, para tirar nosso dinheiro em forma de impostos e, posteriormente, nos pedir compreensão, sacrifícios e abnegação.

E, se nossas autoridades não dão atenção a quem lhes dá a grana diretamente, também não dará a quem vem aqui esporadicamente para atrapalhar ainda mais a vida na cidade.

Vi, por exemplo, um jovem carioca falando da vergonha que sentia pela falta de transporte ao final de um dos eventos da JMJ. Ele se fazia acompanhar por vários visitantes e não tinha como lhes explicar o fato. Impotente, só podia sentir vergonha.

Não sei onde vi, mas parece que o abestado do Joseph Blatter, presidente da suspeita multinacional FIFA, já estava arrependido de ter escolhido o Brasil como sede da próxima Copa do Mundo. Bem feito! Quem mandou entrar no esquema? Agora tem de aguentar! Na época, em 2014, veremos o que se pode fazer. E, como agora, as autoridades vão lamentar o ocorrido e prometer providências para que tal não se repita. Como vêm dizendo há anos, diante das mais diversas situações.

Nossas autoridades não administram, não previnem situações, não resolvem problemas. Quando esses se manifestam, de forma contundente, elas vão a público lamentar o corrido e prometer ações preventivas num futuro que nem Deus sabe se virá.

E dizer, com um tom humorístico de muito mau humor, como o fez o prefeito Eduardo Paes, que o Papa provoca engarrafamento. Como se isso fosse uma grande novidade: a visita de uma pessoa com sua estatura pessoal e religiosa. O prefeito do Rio de Janeiro não soube disso antecipadamente. Ele é um abestado!

Eh, Brasilzão lascado, sô!

Imagem em geogente.wordpress.com.

OS PROTESTOS JÁ COMEÇAM A CAUSAR EFEITOS COLATERAIS

Foi só o povo ir para as ruas, protestar, arruaçar, esculhambar, para que os políticos, como vestais inocentes e surdas, começassem a ouvir o grito das ruas – imagem mais do que gasta.

Na votação da PEC 37, apenas nove deputados tiveram coragem de votar por sua aprovação. Nem mesmo os representantes das polícias, que antes se apresentavam diante das câmaras a defender seu direito exclusivo de investigar, aparecem mais. Ao contrário, vi policiais louvando a participação do MP na parceria.

Vi também alguns homens públicos se orgulharem de votar contra a PEC 37. Quase uma hipocrisia!

É melhor tentar salvar a pele, enquanto ainda a têm.

Esses são os verdadeiros políticos, no mau sentido, é claro. Aqueles que têm a cara da situação. Se o pau quebra, estão com quem quebra o pau. Se o céu é de brigadeiro, fazem cara de paisagem e continuam no ramerrão de sempre.

O noticiário, por exemplo, informou ontem que vários projetos de lei de interesse social que estavam hibernando nos escaninhos do nosso legislativo estão voltando à ordem do dia.

Voz discordante, como se vê n’O Globo de hoje, é a do Zé Dirceu, que se diz favorável à PEC 37. Aliás, por causa da iniciativa do Ministério Público, é que ele e os demais incluídos no processo do Mensalão estão hoje condenados, embora em liberdade e alguns nos seus cargos eletivos.

Já era, Zé Dirceu! A PEC 37 mó… rreu! E é bom botar as barbas de molho, pois o Supremo, também ouvindo o clamor popular (Eta, imagenzinha velha!), resolveu mandar trancafiar um corrupto que se elegeu deputado federal (Quer dizer, o próprio eleitor foi quem o colocou lá!).

Zé Genoíno também não está nada confortável naquela cadeira confortável do Congresso Nacional. Começa a ver sua vó pela greta.

Os antigos, lá em Carabuçu, minha vilazinha natal, diziam que, nesses casos, é sempre melhor enfiar a viola no saco e baixar noutro terreiro. Não sei se nossos ínclitos corruptos sabem disso. Talvez até saibam, mas, enquanto não são pegos com a boca na botija e se arrependam dolorosamente diante das câmaras e dos flashes, continuam na sua refestelada vida de desvios e açambarcamentos, numa demonstração inegável do grande poder extrativista de dinheiro público nunca visto na história deste país.

Espero que esses efeitos colaterais dos protestos públicos não sejam apenas uma urticariazinha superficial, sem grandes consequências.

Barbas de molho (em ipuceara2010.blogspot.com).

RESSUSCITAMOS OS VÂNDALOS

As atuais manifestações, país afora, contra um monte de mazelas da vida nacional – a começar pelo preço das passagens dos transportes públicos –, acabaram por ressuscitar entre nós os vândalos, antigo povo de origem germânica que aprontou o que pôde no princípio desse calendário que vivemos.

Eles – os vândalos – deram um trabalho danado ao Império Romano, a que se aliaram em determinado momento da história e a que se opuseram ferrenhamente, inclusive invadindo Roma e destruindo muito do patrimônio histórico e artístico da cidade, no século V d. C.

Por essa ação, o nome deste povo passou a designar os depredadores do patrimônio público.

Pois não é que, a cada manifestação, surgem remanescentes desse povo que, de tanto vandalismo, acabou vandalizado, subjugado e destruído na primeira metade do século VI!

Ouvem-se condenações de todos os lados às ações de tais manifestantes. Tenho a impressão de que até mesmo os que praticaram essas ações no dia anterior, se entrevistados, de cara limpa diante da tevê, condenarão tais ações. Elas não são belas de se ver, embora previsíveis. Ao se juntar a quantidade de gente nessas oportunidades, sempre haverá os que levarão suas ações ao máximo do radicalismo.

Na verdade, a destruição do bem público terá sua recuperação paga pelo dinheiro público, que não é senão o meu, o seu e o nosso. O deles também. Porém, talvez, isso eles não percebam.

Se reclamamos que os hospitais e as escolas estão à mingua, se a rua está enlameada e sem serviços básicos de água e esgoto, tudo continuará um pouco mais assim, porque, antes, haverá a desculpa de se recuperar o que foi destruído. Isto se fará mais emergencial para a autoridade.

Por outro lado, a volta do preço das passagens aos valores anteriores, em várias cidades pelo país, se fará também à custa de outras necessidades, conforme nossas autoridades afirmaram. O governador de São Paulo e o prefeito da capital foram claros quanto a isso. Também o alcaide do Rio de Janeiro. É como se dissessem:

– Querem que tiremos os centavos do aumento? Pois tiraremos. Mas o dinheiro do hospital, da escola, do saneamento, ficará prejudicado. Mas é isso que vocês querem, está bem!

Tudo falaz, capcioso, politicamente capcioso. Mas é mais ou menos assim que se faz a política no país. A autoridade finge que nos atende. Utilizando os recursos que nos são devidos.

Até mesmo as agências de banco vandalizadas entram nessa conta. É só aumentar a taxa de juros do cheque especial e do empréstimo consignado, que também pagaremos pelo que foi feito. O preju ficará por nossa conta.

E os vândalos, que ressuscitamos nesses movimentos, pagarão também igualmente a qualquer um de nós, que queremos mudanças, mas sem que tenhamos de pagar ainda mais. Sobretudo pelo que quebramos ou destruímos.

Ficheiro:Heinrich Leutemann, Plünderung Roms durch die Vandalen (c. 1860–1880).jpg

Heinrich Leutemann, Pilhagem de Roma pelos vândalos, séc. XIX (imagem em pt.wikipedia.org).

MARACANÃ PERIGOSO

Ouvi há pouco na rádio CBN a notícia de que a juíza de plantão da 13ª Vara de Fazenda, em atendimento a intervenção do Ministério Público, determinou a suspensão do jogo de domingo entre Brasil e Inglaterra, no Maracanã, sob alegação de falta de segurança para o público.

Por que só agora o Ministério Público tomou esta atitude? E quando do jogo inicial em que o público foi constituído pelos operários que lá trabalharam e suas famílias não havia insegurança? Ou operário está mais aí mesmo é para servir de cobaia a testes como esses? Além disso, baseado em que laudo técnico, o Ministério fundamentou seu pedido? Será que foi da mesma empresa que afirmou, no início do ano, que o Engenhão iria desabar sobre a cabeça da torcida e depois se comprovou que nada havia de errado na estrutura do estádio, embora até hoje ele não tenha sido reaberto?

Que diabo de gente é o brasileiro que deixa tudo para a última hora, para em cima do laço tomar atitudes?

Hão de me dizer alguns que antes tarde do que nunca. O que não deixa de ser uma verdade. É melhor prevenir do que remediar, dirão outros. Mas, ó raios! Estamos de saco cheio de ver atitudes tomadas apenas para que seus autores pintem na mídia, com sua cara mais deslavada para dizer de suas graves preocupações, sem que haja realmente o com que se preocupar.

Quero dizer de público que tenho a maior empatia com o Ministério Público e seu valoroso trabalho atual. Mas há de se ter também bom senso.

Há quanto tempo vêm transcorrendo essas obras do Maracanã? O MP colocou alguém de plantão para acompanhá-las e verificar sua correta execução? Ou recebeu laudos periódicos sobre o andamento de tais obras?

Este episódio está a lembrar aquela matéria ridícula que a repórter da Rede Globo Glória Maria fez um pouco antes da inauguração do Sambódromo, na qual apontava falhas, rachaduras, defeitos mais, capazes de fazerem desabar a estrutura projetada por Oscar Niemeyer para os desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro. A pantomima da jornalista foi das coisas mais ridículas que a Globo já produziu, e até hoje o troço está lá de pé. E nunca mais se falou nisso.

A alegação de agora está baseada num laudo da PM de um mês atrás, em que a Polícia informava que as obras não estavam concluídas. Assim o MP – não confunda com PM – teme que haja pedras, pedaços de pau e outros materiais que os torcedores possam usar como arma numa suposta batalha campal, num jogo festivo, que não vale absolutamente nada, e de uma única torcida.

E a juíza, apenas diante de tal solicitação, resolveu atender a este rompante de cuidado do Ministério Público para com o torcedor que lá estará.

Acho que há de haver cuidados. Mas, no caso, me parece mais que o MP está jogando para a arquibancada.

Daqui há pouco, talvez, a liminar da juíza será cassada por instância superior.

 

Imagem em ralphbraz.blogspot.com.

COISA EM QUE EU CUSTO A ACREDITAR

Como brasileiro e como quer o governo, não desisto nunca. É que dificilmente começo alguma coisa de que não possa desistir. Como acreditar, por exemplo.

E vejam, leitores amigos, que tenho cá minhas razões. Vi no JB online notícia de que as mudanças propostas para o ICSM podem piorar o sistema vigente.

Acredito que sejamos capazes de piorar uma coisa que já está ruim! Tenho essa convicção.

Mas esta é a nossa sina. É só ver o que tem acontecido com a saúde e a educação pública. A cada ano, elas pioram gradativamente, como se não houvesse um fundo para tais poços.

Lembro-me que, durante a ditadura militar, tomava cerveja no balcão do bar na esquina da Moreira César com a Pereira da Silva, de propriedade do amigo madeirense José Fernandes. Na época, tinha lá meus trinta e tais anos. Ao meu lado, estava um senhor, com a idade que tenho agora. Também ele bebia sua cerveja. Chega ao balcão um jovem e entra na conversa, que girava em torno de medida tomada pelo governo da época. Do alto de sua inocência, ele disse que não era possível que as coisas piorassem ainda mais.

O senhor ao meu lado, então sorrindo e do alto de sua experiência, disse:

– É, meu jovem, você não sabe como eles podem conseguir piorar o que já é ruim!

Essa é uma das nossas mais proverbiais capacidades: piorar o ruim. O brasileiro, aliás, é bem conhecido por fazer justamente o oposto do recomendável. Quantas vezes, por exemplo, já vi fregueses de lanchonete lançarem no chão o papel usado para comer o salgadinho, exatamente ao lado da lixeira.

Tenho a impressão de que essa nossa indolência é atávica, coisa de gerações e gerações predecessoras, vindas talvez pratrasmente da Alta Idade Média.

Chico Anísio é que caracterizava o brasileiro como aquele cara que, diante de uma placa pendurada na porta com a inscrição “ENTRE SEM BATER”, ele bate, mas não entra.

Piorar por piorar, outro exemplo, é o que o Congresso Nacional fez com o pagamento dos royalties do petróleo para os estados produtores. Os maiores beneficiados serão os não produtores. Contudo este tipo de raciocínio está muito na linha das diversas bolsas que o governo distribui por aí. Que têm lá seu mérito social, mas são dádivas, que estão permanecendo, sem que haja providência paralela, a fim de criar condições a que não seja necessário distribuir donativos.

Não sei se todos conhecem a música de Luiz Gonzaga e Zé Dantas, Vozes da seca, em que o Rei do Baião canta logo no início:

“Mas doutô uma esmola a um homem que é são
Ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão”.

Com a nova regulamentação do ICMS, de que não tenho a mínima ideia – porém nem é preciso –, vocês podem ter certeza de que as coisas vão piorar, pois isto está escrito. E aí os prejudicados é que se virem nas instâncias judiciais, para manter a situação como está.

Porque pior, só o Brasil não ganhando essa Copa fajuta que a FIFA bolou para arrecadar um troco aqui no Patropi.

Mas nisso eu acredito piamente!

 

Paulo Gracindo no papel de Odorico Paraguaçu (imagem emtvg.globo.com).

 

A ONU QUE VÁ TOMAR NO FIOFÓ

Vem a ONU agora, através de sua agência para alimentos FAO, aconselhar que comamos insetos, pois eles são uma excelente fonte de proteínas, ajudam a emagrecer e são ecologicamente mais corretos que as plantações de alimentos.

Qualé, ONU? Que m*rda é essa?

Esta é a prova contundente de que a ONU é um organismo fracassado, pior que intestino descontrolado, com diarreia.

Não conseguiu até hoje estabelecer a paz entre os países, não tem força para fazer valer suas resoluções, não debelou as mais simples doenças que atacam as populações, não consegue o equilíbrio econômico entre as nações, não impede a existência de ditaduras sanguinárias, não mitigou a fome de milhões de pessoas, e agora vem-nos mandar comer insetos?

Se é que a ONU não sabe, vou esclarecer: todos os povos que comem insetos e outros bichos nojentos só os comem porque não dispõem de outro alimento. Alguns franceses, que têm a mais conceituada culinária, já tiveram de comer ratazanas durante guerras, por absoluta falta de alimentos. Quem come sobras, cascas, restos, lixo, lavagem, só o faz por estrita carência de alimento, Dona ONU! Todos querem comer alimentos saudáveis, nutritivos e gostosos. Sobretudo gostosos, saborosos, capitosos, sápidos, agradáveis, deliciosos, prazerosos, bem temperados e bem preparados. Em pratos limpos e ambientes higiênicos.

Os povos podem até ser levados, por questões de tabus religiosos, a deixar de comer certos alimentos, mas o de que o ser humano precisa não é de penúria, mortificação, privação, flagelo. Gente, ONU, – e aí estou com Caetano Veloso – , “é pra luzir; é pra brilhar. Não pra morrer de fome” ou ficar comendo porcarias.

Por que é que a Senhora, Dona ONU, não vem aconselhar os povos a comerem um bom bife acebolado, com salada de alface, tomate e pepino? Ou um cozido à portuguesa, ou uma moqueca capixaba, ou uma paella valenciana? Por que não vem indicar uma boa água mineral – a Raposo, por exemplo, a melhor que já tomei – ou um suco integral de fruta, ou um vinho tinto de boa qualidade, ou uma cerveja cheia de lúpulo e malte?

Vem-nos aconselhar a comer insetos?

Ora, Dona ONU, vá tomar no fiofó!

Moqueca capixaba (imagem em blog.tribunadonorte.com.br).

(Para semelhantes xingamentos, veja a postagem de Interrogações.)