PARA BELCHIOR

Meio que Belchior
Fala por todos nós,
Com os nós na garganta
Da condição inata
Dos nossos sonhos
Latino-americanos. 
Sangra por nós
Em nossos desencantos.
Chora por nós
Em nossos lamentos.
De jovens que éramos, 
De jovens que somos,
Que perpetuamos seu canto,
Enquanto podemos 
E nos sentimos humanos. 




Imagem colhida na Internet.

TEMPO DE CIGARRAS

Ainda há pouco
Começou
O concerto das cigarras
No vazio da tarde.
É aviso de estio.
Desde menino
Sei disso
E fico expectante
De que se cumpra o rito
De que, se a cigarra cicia,
Se espanta o frio
Se inaugura a secura.
E ela, doidivanas,
Com sua voz estridente
Lança o desafio
À formiga
Pela folgança
Ou pelo fastio:
O que der mais prazer
À sobrevivência.

Bruce Marlin (imagem colhida em Wikipedia).

PRECISO, MAS DISSIMULADO

Preciso confessar
Um pouco constrangido
Que tenho passado
Bons bocados, 
Ainda que tenha cortado
O açúcar
Da minha vida. 
Tenho visto ocasos, 
Tenho ouvido
O barulho das ondas
A quebrar aqui em frente. 
Tenho sentido aromas,
Curtido sons saudáveis
De rock progressivo. 
E sentido frio
Que espanto com conhaque,
E certo calor escaldante 
Sob ar refrigerado. 
E provado
Amores desmesurados, 
Amizades vivas,
Que empurram as vicissitudes, 
As contrariedades
Para o passivo,
E esperando tranquilo
O futuro inominado
A se insinuar,
Logo ali à minha frente,
Preciso, mas dissimulado.

Pôr do sol em Charitas (foto do autor).

A FOLHA

Leve
A folha velha
Sob suave brisa
Baila em zigue-zague
Antes de cair solitária
Sobre a lâmina d’água
Que corre ínfima
Ao lado da calçada.
E vai assim extinta
Do verde que exibia
Envaidecida
Há pouco ainda
Na amendoeira frondosa
Em frente à praia
Até sumir na grelha
Boca de lobo do esgoto
Para o seu destino.
Assim como nós outros.

Imagem em Imagem_pt.lovepik.com.

TIRADENTES

Quero andar sem pressa 
Por tuas ruas antigas
Comer teus sabores
Gastar meus olhos nos teus encantos
Sorver em goles
Teus espíritos tantos
Sofrer as dores dos anos
Que escorrem pelas paredes brancas
De tuas casas de outrora
Orar minhas orações agnósticas
Em tuas igrejas e capelas
Pisar tuas pretéridas pedras
Encontrar por fim
Minha alma inexistente
Sob o manto de tua história
Oh, Tiradentes!
Largo das Forras, Tiradentes-MG (foto do autor).

O SOL DE CADA UM


Há um sol lá fora
Disposto
A queimar meu rosto
Brunir minha pele descolorida.
Torço a cara para este sol
Bem posto
No céu de maio azul brilhante
Nuvens inexistentes.
Também tenho meu gosto
De ficar assim
À sombra amiga
Quase transparente
Quase da cor dos dentes
Sem nada fazer.
O sol não é meu parente!
E imagino quantos a se tostarem
Nesta mesma hora
Na praia aqui em frente.


Lagoa de Araruama (foto do autor)

TRILHA OU ATALHO

Confira o passe
Aperte o passo
Acerte o ritmo
Não se embarace 
Descubra a rota
Desate o laço
Esteja atento
Ocupe o espaço
Colha uma flor
Leia um livro
Adote um filho
Se impossível tê-lo
Siga em frente
Antes que a vida
Com seu novelo
De intrincada trama
Faça de você
Inocente ovelha.

E se não quiser
Seguir a trilha
Vá pelo atalho
Que a própria vida 
Lhe propicia.
Mas não perca a via. 

Estrada em Miracema-RJ (foto do autor).

A PRÓXIMA ESTAÇÃO

Ebole o verão.
Dissolve-se o sol
Em chamas.
Esturrica o chão.
Trabalhadores suam
Em bicas.
Sorvem-se gélidos goles
De líquidos oblíquos.
Derretem-se sorvetes
Em bocas promíscuas.
Eclodem corpos ardentes 
Na praia dourada.
Sob a sombra tênue
Da varanda benfazeja
Vertem-se taças de cerveja
Gelada 
À espera de temperatura
Mais amena.

Bem provável valha a pena!

Insuspeito
Logo ali adiante
O outono acena.

Um dia de outono (foto do autor).