SONHOS

Quando vou ao encontro dos meus sonhos de menino
Não mais os encontro
Sinto apenas que tais sonhos
Perderam-se no tempo
Quedaram-se no limbo
Daquilo que sonhava enquanto pequenino
São sonhos apenas
Eram lindos? Não importa
Pois a vida me exigiu ir adiante
Oferecendo-me a cada caminho novo destino
E não pude me furtar a isso

Hoje não sonho mais como antes
Apenas insisto em manter o barco apontado à frente
Naquilo que daqui a pouco
Será o dito pelo não dito

Mas não me sinto aflito
Meus sonhos não satisfeitos
Não me puseram em conflito
Ficaram como memórias tranquilas
Dos meus tempos de menino

Barco na Baía de Guanabara (foto do autor).

BENÇA, MÃE!

Mãe,
Por quanto tempo ainda devo seguir teus conselhos?
Já sou bem crescido, mãe,
Já tenho idade!
Por que ainda tenho de ser correto,
Andar na linha,
Respeitar os mais velhos?
Não sujar a roupa,
Ter atenção no que faço,
Não brigar na rua?
Já posso sair sozinho, mãe,
Tenho juízo.
Já uso até calça comprida!
Será que basta
Ou ainda preciso seguir tuas orientações:
Ser honesto,
Respeitar a professora,
Ser dedicado aos estudos
Cumprimentar as pessoas?
Tá bem, mãe,
Vou fazer assim.
Bença, mãe!
Já vou dormir.
Amanhã tenho de levar meu neto à escola.

Van Gogh, Mãe e filho, 1885 (imagem colhida na Internet).

——–

PS: Este poema foi escrito para comemorar o Dia das Mães. Entretanto meu computador entrou em estado de coma duas semanas antes e até hoje não foi curado. Consegui fazer uma cópia do disco em que o poema está registrado. Pelo atraso, peço desculpas às mães, a quem ele é dedicado.

EVÉM CHUVA!

Aqui tem sol. Não chove. Só relampeia. 
No entanto levanto os móveis e os teréns.
Assunto o céu e o que mais vejo
É um ajuntamento de nuvens traiçoeiras.

Está ventando. Escureceu um pouco. O sol sumiu.
E trovejou do lado da montanha.
Riscam coriscos os céus em ziguezague.
Se piorar eu desço a ladeira.
Vou esperar na casa da comadre
Pois pode ser toró dos brabos o que aí vem.
Baía de Guanabara, Icaraí, Niterói (foto do autor).

CORDEL DO PÔR DO SOL

Estava detido em casa
Aguardando alforria
Olhava pela janela
Principiava o dia
O sol na aba do céu 
Espargindo alegria

E nessa marcha seguia 
O sol no rumo da trilha
Agora estava a pino
Boiando como uma ilha
Na imensidão azulada
Percorrida tanta milha 

E em descendo esmerilha
O lado do seu poente
A procurar um abrigo 
Para as bandas do ocidente 
Deixa no céu uma luz
De um brilho descendente

Esconde-se bem em frente
Ao mar de azul manchado
Pintando nuvens remissas
De um laranja irisado
De roxo quase vermelho
E de rosa amarelado

E o quadro aquarelado
Aos poucos vai-se amainando
O sol atrás das montanhas
Com sua luz desbotando
Ao borrar a escuridão
A noite vinha chegando

Com atenção espiando
A tudo isso assistia
Os olhos sempre atentos
A registrar a magia
Que a natureza nos brinda
Em muita fotografia

Eu procuro o fim do dia
Coleciono arrebol
Acompanho atentamente
Desprezo até futebol
Me considero por isso
Caçador de pôr do sol.

Pôr do sol em Icaraí, Niterói, tendo ao fundo o Rio de Janeiro (foto do autor).

POEMA DO AMOR INTERROMPIDO

Há quanto tempo não te abraço!
Há quanto tempo não te beijo,
Não chego junto num cafuné,
Não saímos de mãos dadas pelo calçadão da praia
Nomeando as pedras no mar
Em que batem ondas seculares:
Pedra da Baleia, Pedra da Tartaruga, Pedra do Tubarão,
Nomes escolhidos por teus sentidos de menino.
Quanto tempo, meu pequeno amigo!
Que até nem acompanhei teu crescimento nesse ano tão sofrível
Porque desgraçadamente
Ao avô e ao neto
Tão pouca coisa foi possível.

Francisco com bigode de açaí (foto do avô).

PÔR DO SOL

 Lá fora o sol se põe aos poucos
 Atrás dos morros simbólicos do Rio de Janeiro
 Compondo um pôr do sol iridescente.
 Preguiçoso chego à varanda
 E constato a ebulição das cores 
 Por entre as nuvens que vagueiam sobre a baía.
 Olho a câmara fotográfica dormindo no armário
 Quieta cega irresoluta.
 Melhor ficar em casa!
 As ameaças também vagueiam no ar
 E pores de sol ainda haverá aos montes. 
Pôr do sol em Icaraí, com a Pedra do Índio, a Pedra da Gávea e o Corcovado (foto do autor).

E NO ENTANTO AMAR DÁ PÉ

 Amar não é só sorver o sumo doce do sexo
 Da pessoa amada
 Ou um romeu e julieta – queijo com goiabada – 
 De beijos que começam cedo
 E varam a madrugada
 Como se não houvesse amanhã
  
 Amar é um troço mais complicado 
 Do que cerveja com tremoços
 Num botequim de beira de estrada
 Mais escorregadio que baba de quiabo
 Língua de vaca ensopada
  
 Amar é mais trabalhoso que criação de galinha
 Caçar tatu no meão da noite enluarada
 Com lanterna sem pilha alcalina
 E garrucha de mira angulada
  
 Amar não é só o suspiro que vem do nada
 Como se tudo estivesse pronto
 E se se pudesse dormir tranquilo
  
 Amar é um trem esquisito
 Um jeito aflitivo de viver chapado
  
 Amar no entanto dá um pé danado! 

Foto do autor.

TEMPESTADE

Há nuvens no céu
Borrando o azul
Tingindo de cinza a vasta imensidão
De um paraíso tranquilo

Há prenúncios de chuva
Anunciada pelo serviço de meteorologia
Enquanto se aguarda o desfecho dos dias

Há esperanças fortuitas
Desejos insanos
Carências aflitas
E tantos desenganos
Que a vida parece tão-somente
Um arremedo de viver

E as nuvens do céu vagueiam solertes
Sob os influxos do vento sudoeste
No horizonte que já se afigura sombrio

A tempestade antevista está a caminho.

Tempestade em Icaraí (foto do autor).

PERPLEXIDADES

Estou na solidão do quarto
Deitado sobre o nada
Olhando o teto quase incólume
Não fosse o pernilongo que me espia

Estou no bulício da sala
Ao som de Jorge Ben Jor
E sua Tábua de Esmeraldas
A comemorar nossa existência vazia

Estou no sorvedouro das horas
Embora confinado em casa
À espera de uma janela aberta para a incerteza
Enquanto o vírus nos avalia

Estou perplexo
Olhando pela varanda dos fundos
A lua crescente cruzando o céu de maio
Como se nada de estranho se constate

A vida com todas as suas peripécias solertes
A nos conduzir cordeirinhos para o abate

 

Foto do autor.

CERTOS AMORES

(Para meus netinhos.)

São tão mínimos meus amores
Tão ingênuos
Tão sem tempo
Tão intensos
Tão magnificamente grandes
Esses pequenos
Que conto aos quatro
Cantos do universo
E os canto em verso
Em prosa e o que mais possa
Provar que nada mais importa
Que tê-los entre os presentes
Que a condição humana nos regala
Se não nos furtamos a viver
Assim intensamente
A cada clarão do dia:
Gabi, Bruno, Francisco e Maria.

Children With A Cart Painting by Francisco Goya

Francisco de Goya (1746-1828), Crianças com um carrinho (imagem na Internet).