ABRIL E MAIO

Abril gania seus dentes de alabastro
Sobre os estertores de março
Rugiu por sobre serras e montes
Aguaceiros infindáveis
Blasfemos trovões
Mas da lama que deixou nos baixios
Surgiram as luzes de maio

 

         Copacabana (foto do autor).

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EPITÁFIO

Neste instante
Diante da encruzilhada em que me vejo
Há em mim um misto de presunto e queijo.
Não sei se vou ou volto
Não sei se beijo
Não sei se escarro nesta mão que me apedreja
Não sei se expulso essa pulsão medonha que me sacoleja
E quer que eu me mexa
Enquanto eu mesmo prefiro a brisa fresca e a rede tesa
Entre coqueiros nesta praia acesa
Pelo sol de inverno.
Não sou eterno.
Vivo apenas o que almejo
Que nunca é muito
E tão sem jeito
Que parece que minha vida se resume
A ser um arremedo de gente a esmo
A circundar perdida no universo.
Mas quando for a hora
Eu, sem medo,
Estarei disposto ao sacrifício terno
Infalível compreensível sempiterno
E trocarei tudo por um indizível verso.

Foto do autor.

O CÃO COM TOSSE

 

Daqui de cima
Ouço um cachorro tossindo tosse de cachorro
Pelo que ouço
É um cachorro novo
Que tosse como se fosse um velho cão cheio de gogo
Daquele mesmo gogo  que pega velhas galinhas no choco
Esse cachorro, seu moço!
Precisa de um veterinário urgente
Ou acabará morto!

 

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MARIA ANDARILHA

(Para Maria, minha netinha.)

Um dia
Maria acordou andarilha
Andou da porta do quarto
Por uma trêmula trilha
Dos braços do seu irmão
– O Bruno então sorria
Ao ver o risco no chão
Tão invisível se via –
Até onde os olhos davam
O que fez a Gabriela
Que de tudo desconfia
Achar que a irmã mais nova
Não conseguisse a magia
De andar por suas pernas
Tão pequenina inda é ela
Mas a miúda Maria
Ciosa do que queria
Andou dos braços do Bruno
Até a porta da cozinha!
E foi a primeira vez
Que tal fato acontecia.
Agora anda por pátios
Playgrounds e companhia
Pisando passadas firmes
Enquanto o vento assovia
Nos seus cabelos penteados
Como maria-chiquinha.

 

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Diego Velázquez, As meninas, 1656; Museu do Prado, Madri.

JUCA JUQUINHA JUCÁ

Da série CANTIGAS DE ESCÁRNIO E MALDIZER
Este poeminha estava pegando poeira no disco rígido do meu computador, mas nunca perdeu a atualidade. Então resolvi dá-lo a lume, como se dizia.
JUCA JUQUINHA JUCÁ
Ainda que eu seja jeca
Eu cá já não me iludo
Com jaca jacu jacá
Com preá e caramujo
Ou paca tatu gambá
Com tracajá e sabujo
Com pacová e gamela
Ou com político sujo
Ainda que ele seja
Muito vivo ou já de cujus
Juca Juquinha ou Jucá
E palmital de pupunha
Há esperanças no ar
Pois se o Cunha levou cunha
Os outros hão de levar
Se Deus quiser! Saravá!
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VACINA

Me vacino contra isso
Logo aparece aquilo
Me previno contra um trio
Vem um quarto em desafio
A morte espreita fininho
Me faço de morto e desvio
Sigo na trilha da vida
No inverno e no estio
Mas vai chegar minha hora
Apontando meu destino
E não haverá vacina
Que me possa manter vivo.

 

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O DIA DE MARIA

(Para minha netinha Maria, em seu primeiro aniversário.)

 

Um dia
Chegou Maria
Veio tão cheia de graça
Trazia tanta alegria
Como coisa que não passa
Mais parecia a Maria
Uma ciranda na praça
De tão alegre que vinha

Um dia que não existia
Vindo de outra galáxia
Trouxe consigo Maria
E fosse uma estrela guia
Ainda assim não seria
Mais bela que esta Maria
Por toda via que traça
Por toda sua magia

Por isso é que todo dia
É o dia é de Maria

 

Maria com o chapéu (foto do autor, por celular).