VELÓRIO SUSPENSO

Apaguem as velas
Desfaçam as coroas
Suspendam as orações sinceras
As encomendas fúnebres
Não estou defunto ainda
Posso parecer um pouco fraco
Talvez meio alquebrado
Um tanto à beira do fim
Mas respiro sem auxílio de aparelhos
Cuido bem dos meus joelhos
E ainda tenho o prazer de fruir a beleza
Que gira grácil em torno de mim.

Cemitério de Carabuçu (foto do autor).

MANHÃ DE JUNHO

Manhã de junho
O azulzinho pálido do céu
Tem como fundo o canto de bem-te-vis ao longe
Latidos de cães vozes de crianças
E barulhos de obra bem próximos

Às vezes entra pela varanda
Um sopro fresco do vento matutino
Contrapondo-se aos raios quentes do sol de outono
A queimar a pele das pernas entorpecidas

A vida está suspensa
Embora o calendário escoe na ampulheta dos dias
Nossa tragédia mais temida
E nossa existência tão prosaica

Um dia após o outro sucessivamente
Um azul celeste após uma lua crescente
Bem que pouco
E assim se desenrola o novelo dos dias
Que irão compor a memória de um tempo sombrio
Catastrófico

Paisagem matutina, Miracema-RJ (foto do autor).

FRANCISCO E O BICHO

Francisco examina o maçarico,
Como se fosse um estranho bicho
Nunca visto.
Aperta aquilo, aperta isso,
Examina o bico,
Como se fosse de um pterodáctilo esquisito
Vindo de um tempo muito antigo.

Ainda bem que não está vivo,
Não é, Francisco?
———-

Franscisco, em setembro de 2015, um mês antes de completar três anos, em uma pousada em Lumiar. (Fotos do avô.)

FELIZ NATAL E BOM ANO!

Ando com muita preguiça de desejar os mesmos desejos a cada fim de ano. Por isso, tomei a liberdade de repetir aqui um poema lá dos idos de 2011. Que sejam eficazes tais votos, embora um tanto velhos.

Vejam:

O Natal aí vem vindo,

A seguir um novo ano,

E, a cada fim de jornada,

Todos os novos planos

Para o que vem pela frente,

Cheio de augúrios,

Desejos

E renitentes promessas,

Que quase nunca cumprimos.

Mas o que se há de fazer,

Se somos todos humanos?

Assim,

Na medida do impossível,

Desejo aos meus amigos,

Aos meus possíveis leitores,

Aos meus queridos parentes,

Do mais usado ao mais jovem,

Do mais tristonho ao contente,

Do mais magrinho ao mais fofo,

Os votos de que para o ano

Possamos estar por aí

Para reclamar de novo.

 

Feliz Natal e Bom Ano!

NÃO SOU HERÓI

Estou propenso a ter um troço
Um vício novo
Um trago de conhaque com tremoços
Alguma coisa que me deixe louco
Tão certinho eu
Tão pouco dado a insanidades

Mas já reflito um pouco
E penso nessa parca lucidez dos dias claros
Nos episódios raros de beleza
Entre todas as dores que me contornam
– sociais ou da natureza individual do ser humano –
E prefiro estar sano a insano
E poder olhar as pessoas ao meu redor
E aquilo que me fez por anos
Ser essa pessoa comedida
Avesso a brigas discussões e ódios

Melhor assim
Melhor ter a paz que me conforta
A lutar como um doido
E nas derrotas
Procurar alguém que me console

Não sou herói e não pretendo a tanto

 

File:Titian-Sisyphus.jpg

Ticiano, Sísifo, c. 1548 (Museu do Prado, Madri).

MÍNIMOS PRAZERES

Coma um doce
Dê um trago
Beba uma xícara de café amargo
Veja um filme antigo em preto e branco
Abrace um amigo
Torça por seu time enquanto vence
Curta um lance
Veja o pôr do sol fechando o dia
Passeie seu sorriso pelo parque
Escute uma canção vadia
Tente assobiar enquanto caminha
Sorva um gole generoso de conhaque
Leia um livro sobre o nada
Mergulhe o corpo numa piscina cálida
Descubra o fio da meada
Com sua ponta enrodilhada no novelo
Tenha zelo pelo que lhe pareça inútil
Chute o desencanto para escanteio
Não viva o alheio julgamento deste mundo
Não se iluda muito
A felicidade pode estar nos mínimos prazeres

 

Foto do autor.

PICTURES AT AN EXHIBITION*

Na parede da sala do meu coração desprevenido
Tenho cravados pregos a sustentar retratos
Cada qual com seu peso
Com suas cores
Uns mais esmaecidos
Outros pulsantes em tons fortes
Cada prego sangrante com seu quadro
Exibido em uma exposição interna
Sem espectadores
Apenas eu a visito com frequência
Estão lá meus muitos mortos queridos
Cujas figuras me olham com comiseração e piedade
Por ter restado espectador
O olhar severo do meu pai agora é sereno
Meus avós têm o vivo dos tons de azul de quando comigo
Há sorrisos de meus tios
De vários parentes e afins que selecionei ao acaso
Enquanto caminho por sobre o barro o chão duro a pedra quente o asfalto liso
Até que um buraco negro venha engolir meus passos distraídos
Felizmente da parede não pende nenhum olhar mais novo que o meu
Todos os que lá estão cumpriram seu fado
Na longevidade que me ultrapassou
E por isso não choro ao vê-los
Apenas agradeço à vida por sobreviver até agora
E poder assistir à exibição destes quadros na parede.

 

Resultado de imagem para pictures at an exhibition elp

Capa dupla do álbum Pictures at an axhibition (1971), do grupo Emerson, Lake & Palmer.

———-

(*Título do álbum do grupo inglês Emerson, Lake & Palmer, com a obra do compositor russo Modest Mussorgsky, Quadros de uma exibição. Para mais informações sobre a obra, clique aqui. Para ouvir a versão do ELP, clique aqui. Para a versão do maestro Herbert von Karajan, com a Orquestra Filarmônica de Berlim, clique aqui)

PROGRAMADO

Eu não sou inusitado
Inesperado
Surpreendente
Vim programado por DNA há decênios
Quiçá milênios
Talvez bem antes dos macedônios
Dos priscos lusitanos
Plausíveis iorubanos
E se alguma coisa deu errado
Neste exato instante
Em que transito meus enganos
Abstraída qualquer presunção de fama
Não sou culpado
Também pago o alto preço
Por este erro
De programa.

 

Chapéus (foto do autor).

ABRIL E MAIO

Abril gania seus dentes de alabastro
Sobre os estertores de março
Rugiu por sobre serras e montes
Aguaceiros infindáveis
Blasfemos trovões
Mas da lama que deixou nos baixios
Surgiram as luzes de maio

 

         Copacabana (foto do autor).