O DIA DE MARIA

(Para minha netinha Maria, em seu primeiro aniversário.)

 

Um dia
Chegou Maria
Veio tão cheia de graça
Trazia tanta alegria
Como coisa que não passa
Mais parecia a Maria
Uma ciranda na praça
De tão alegre que vinha

Um dia que não existia
Vindo de outra galáxia
Trouxe consigo Maria
E fosse uma estrela guia
Ainda assim não seria
Mais bela que esta Maria
Por toda via que traça
Por toda sua magia

Por isso é que todo dia
É o dia é de Maria

 

Maria com o chapéu (foto do autor, por celular).

POEMAS MÍNIMOS IV

 

POEMINHA SINESTÉSICO (com aliteração)

Ribombam cores tépidas
Sob lençóis sombrios
A pele recende a salgado
Que silva em rubros cios

POEMINHA ANESTÉSICO

Não sinto dor fome ou sede
Estou na rede deitado informe
Até que o tempo transforme em gente
Aquilo que me é apenas aparente

POEMINHA PROFÉTICO

Vai a lua a caminho do dia cedo
O sol vem a reboque fazer do medo
Da noite que passou soturna
O carnaval de um dia pleno

POEMINHA ÉTICO

Todo partido parece íntegro na cobiça
E não há parceiro que não ganhe o seu
A ética fraqueja nas dependências do poder
Enquanto a lua peja o sol rasteja e o cidadão moureja

POEMINHA COM RIMA E SEM SENTIDO

Embora em Bora-Bora a aurora surja
Pintando de cores a manhã
Agora em minha horta a desoras
Coaxam rãs nos canteiros de hortelã

 

Baía de Guanabara ao pôr do sol (foto do autor).

DIA DO AMIGO

Hoje é o Dia do Amigo
Amigo simplesmente, sem adjetivos
Amigo do peito
Amigo de fé
Amigo de infância
Coisa guardada debaixo de sete chaves
Amigo da fuzarca
Amigo do alheio
Amigo urso
Amigo da onça
Amigo traíra
Amigo da bebida
Amigo de bar
Amigo das horas incertas
Amigo mala
Amigo sensível
Amigo durão
Amigalhão
Amiguinho
Amigo sincero
Irmão camarada
Amigo com a cara mais deslavada de amigo

Que nada!
Qualquer amizade é para ser louvada
Ainda que com um travo amargo na boca
Pois que um dia a amizade foi doce
Como uma limonada

 

VERBOS E VERBAS (poema enigmático)

Não sei
Nunca vi
Aqui está
Eis aqui

Onde é que é
Vai para onde
A quanto monta
Qual o montante

De onde vem
Pra onde vai
Não sei quem é
Ou se tem pai

Nem se tem mãe
Nem mesmo irmão
Onde é que está
Aonde é que vão

Não sei
Nunca vi
Aqui está
Ou já sumiu

 

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CORDEL DA ESPERANÇA

Quanto mais vil a vileza
Maior é a vilania
Quanto maior a empresa
Mais o covil se amplia
É como se a certeza
De impunidade haveria.

Tanto mais a grana entra
Mais grana deve entrar
Se o covil tem cem ladrões
Outros há de comportar
Conquanto a fonte não seque
Não há ladrões a faltar.

Tanto mais o trem tá mole
Presume-se amolecer
Mas se o trem anda duro
Tá mais para endurecer
Se a cana não é caiana
Que cana ela há de ser?

E não se engane o esperto
Na presunção da certeza
De que é incerta a cana
Neste país de surpresa
Um dia a casa cai
E vai com ela a esperteza.

E não vão adiantar
Desculpas esfarrapadas
Diante de tantas provas
A serem apresentadas
Para que as penas enfim
Possam ser determinadas.

“Esse não sei, não conheço,
Aquele não sei quem é
Não tenho dinheiro em conta
Não vivo de capilé
Sou inocente eu juro
Minha profissão de fé.

Nem mesmo telefonema
Reconheço que eu fiz
Se meu nome está na lista
É coincidência infeliz
Sou puro desde a nascença
Inocente de raiz.

Nunca fiz um malefício
Nunca roubei da nação
Nunca traí meu país
Nem iludi cidadão
Sou pobre, simples e puro
Sou santo por profissão”.

Mas o desejo sincero
Do campo até a cidade
É conseguir pôr um fim
Nessa desonestidade
Para que a vergonha volte
À nossa sociedade.

Tomara que os corruptos
E a sua corrupção
Encontrem a cana pronta
E na mesma proporção
Dos malefícios causados
A esta triste nação.

Para que seja possível
Um dia o povo sorrir
E ver surgir no horizonte
Resplandecente porvir
Sem que se frustre a esperança
Que certamente há de vir.

Flor do Parque da Cidade; Niterói-RJ (foto do autor).

POEMAS MÍNIMOS III

I

Em poeminha
Sucinto
Quando não omito
Minto

II

Inversamente
Ao inverso
Há no texto
Que teço
Menos prosa
Do que verso

III

Em cada verso que escrevo
Nada há de concreto
Mesmo cheio de substantivos
E de tantos objetos

IV
LUA NOVA

Lá fora
A lua nova
Na escuridão da noite
Espera que eu saiba as horas
E lhe indique o caminho a percorrer
Aqui dentro
A desoras
Espero que a lua nova
Me aponte apenas
Na claridão do dia
Um jeito simples de sobreviver

 

Lua nova em Lumiar (foto do autor).

CONFISSÃO

Assumo que resumo o que eu fiz
Em quase nada.
Quase tudo foi fortuito
Um outro tanto gratuito.
Planejados
Somente os armários do quarto
E as aulas que ministrava aos quatro ventos
Para alguns tantos alunos atentos
Porque os outros oh! os outros
Nem queriam saber do que tratava a gramática
Apenas o resultado do jogo do Flamengo
Como aquele aluno ao lado da janela
Fone aos ouvidos
A se preocupar com os lances do primeiro tempo
Enquanto a prova pedia sua atenção,

Tudo mais
Ou quase tudo
Inclusive a preocupação de criar os filhos
Foi como um experimento
A tentativa de que tudo desse certo
Embora sem a mínima noção do correto
De que um dia eles estivessem cobrando
A correção daqueles momentos
Para saber se tudo não teria sido em vão.

 

Saco de São Francisco, Niterói-RJ (foto do autor).

Saco de São Francisco, Niterói-RJ (foto do autor).