NÃO SOU HERÓI

Estou propenso a ter um troço
Um vício novo
Um trago de conhaque com tremoços
Alguma coisa que me deixe louco
Tão certinho eu
Tão pouco dado a insanidades

Mas já reflito um pouco
E penso nessa parca lucidez dos dias claros
Nos episódios raros de beleza
Entre todas as dores que me contornam
– sociais ou da natureza individual do ser humano –
E prefiro estar sano a insano
E poder olhar as pessoas ao meu redor
E aquilo que me fez por anos
Ser essa pessoa comedida
Avesso a brigas discussões e ódios

Melhor assim
Melhor ter a paz que me conforta
A lutar como um doido
E nas derrotas
Procurar alguém que me console

Não sou herói e não pretendo a tanto

 

File:Titian-Sisyphus.jpg

Ticiano, Sísifo, c. 1548 (Museu do Prado, Madri).

MÍNIMOS PRAZERES

Coma um doce
Dê um trago
Beba uma xícara de café amargo
Veja um filme antigo em preto e branco
Abrace um amigo
Torça por seu time enquanto vence
Curta um lance
Veja o pôr do sol fechando o dia
Passeie seu sorriso pelo parque
Escute uma canção vadia
Tente assobiar enquanto caminha
Sorva um gole generoso de conhaque
Leia um livro sobre o nada
Mergulhe o corpo numa piscina cálida
Descubra o fio da meada
Com sua ponta enrodilhada no novelo
Tenha zelo pelo que lhe pareça inútil
Chute o desencanto para escanteio
Não viva o alheio julgamento deste mundo
Não se iluda muito
A felicidade pode estar nos mínimos prazeres

 

Foto do autor.

PICTURES AT AN EXHIBITION*

Na parede da sala do meu coração desprevenido
Tenho cravados pregos a sustentar retratos
Cada qual com seu peso
Com suas cores
Uns mais esmaecidos
Outros pulsantes em tons fortes
Cada prego sangrante com seu quadro
Exibido em uma exposição interna
Sem espectadores
Apenas eu a visito com frequência
Estão lá meus muitos mortos queridos
Cujas figuras me olham com comiseração e piedade
Por ter restado espectador
O olhar severo do meu pai agora é sereno
Meus avós têm o vivo dos tons de azul de quando comigo
Há sorrisos de meus tios
De vários parentes e afins que selecionei ao acaso
Enquanto caminho por sobre o barro o chão duro a pedra quente o asfalto liso
Até que um buraco negro venha engolir meus passos distraídos
Felizmente da parede não pende nenhum olhar mais novo que o meu
Todos os que lá estão cumpriram seu fado
Na longevidade que me ultrapassou
E por isso não choro ao vê-los
Apenas agradeço à vida por sobreviver até agora
E poder assistir à exibição destes quadros na parede.

 

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Capa dupla do álbum Pictures at an axhibition (1971), do grupo Emerson, Lake & Palmer.

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(*Título do álbum do grupo inglês Emerson, Lake & Palmer, com a obra do compositor russo Modest Mussorgsky, Quadros de uma exibição. Para mais informações sobre a obra, clique aqui. Para ouvir a versão do ELP, clique aqui. Para a versão do maestro Herbert von Karajan, com a Orquestra Filarmônica de Berlim, clique aqui)

PROGRAMADO

Eu não sou inusitado
Inesperado
Surpreendente
Vim programado por DNA há decênios
Quiçá milênios
Talvez bem antes dos macedônios
Dos priscos lusitanos
Plausíveis iorubanos
E se alguma coisa deu errado
Neste exato instante
Em que transito meus enganos
Abstraída qualquer presunção de fama
Não sou culpado
Também pago o alto preço
Por este erro
De programa.

 

Chapéus (foto do autor).

ABRIL E MAIO

Abril gania seus dentes de alabastro
Sobre os estertores de março
Rugiu por sobre serras e montes
Aguaceiros infindáveis
Blasfemos trovões
Mas da lama que deixou nos baixios
Surgiram as luzes de maio

 

         Copacabana (foto do autor).

EPITÁFIO

Neste instante
Diante da encruzilhada em que me vejo
Há em mim um misto de presunto e queijo.
Não sei se vou ou volto
Não sei se beijo
Não sei se escarro nesta mão que me apedreja
Não sei se expulso essa pulsão medonha que me sacoleja
E quer que eu me mexa
Enquanto eu mesmo prefiro a brisa fresca e a rede tesa
Entre coqueiros nesta praia acesa
Pelo sol de inverno.
Não sou eterno.
Vivo apenas o que almejo
Que nunca é muito
E tão sem jeito
Que parece que minha vida se resume
A ser um arremedo de gente a esmo
A circundar perdida no universo.
Mas quando for a hora
Eu, sem medo,
Estarei disposto ao sacrifício terno
Infalível compreensível sempiterno
E trocarei tudo por um indizível verso.

Foto do autor.

O CÃO COM TOSSE

 

Daqui de cima
Ouço um cachorro tossindo tosse de cachorro
Pelo que ouço
É um cachorro novo
Que tosse como se fosse um velho cão cheio de gogo
Daquele mesmo gogo  que pega velhas galinhas no choco
Esse cachorro, seu moço!
Precisa de um veterinário urgente
Ou acabará morto!

 

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Imagem em webcachorros.com.br.