VERBOS E VERBAS (poema enigmático)

Não sei
Nunca vi
Aqui está
Eis aqui

Onde é que é
Vai para onde
A quanto monta
Qual o montante

De onde vem
Pra onde vai
Não sei quem é
Ou se tem pai

Nem se tem mãe
Nem mesmo irmão
Onde é que está
Aonde é que vão

Não sei
Nunca vi
Aqui está
Ou já sumiu

 

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CORDEL DA ESPERANÇA

Quanto mais vil a vileza
Maior é a vilania
Quanto maior a empresa
Mais o covil se amplia
É como se a certeza
De impunidade haveria.

Tanto mais a grana entra
Mais grana deve entrar
Se o covil tem cem ladrões
Outros há de comportar
Conquanto a fonte não seque
Não há ladrões a faltar.

Tanto mais o trem tá mole
Presume-se amolecer
Mas se o trem anda duro
Tá mais para endurecer
Se a cana não é caiana
Que cana ela há de ser?

E não se engane o esperto
Na presunção da certeza
De que é incerta a cana
Neste país de surpresa
Um dia a casa cai
E vai com ela a esperteza.

E não vão adiantar
Desculpas esfarrapadas
Diante de tantas provas
A serem apresentadas
Para que as penas enfim
Possam ser determinadas.

“Esse não sei, não conheço,
Aquele não sei quem é
Não tenho dinheiro em conta
Não vivo de capilé
Sou inocente eu juro
Minha profissão de fé.

Nem mesmo telefonema
Reconheço que eu fiz
Se meu nome está na lista
É coincidência infeliz
Sou puro desde a nascença
Inocente de raiz.

Nunca fiz um malefício
Nunca roubei da nação
Nunca traí meu país
Nem iludi cidadão
Sou pobre, simples e puro
Sou santo por profissão”.

Mas o desejo sincero
Do campo até a cidade
É conseguir pôr um fim
Nessa desonestidade
Para que a vergonha volte
À nossa sociedade.

Tomara que os corruptos
E a sua corrupção
Encontrem a cana pronta
E na mesma proporção
Dos malefícios causados
A esta triste nação.

Para que seja possível
Um dia o povo sorrir
E ver surgir no horizonte
Resplandecente porvir
Sem que se frustre a esperança
Que certamente há de vir.

Flor do Parque da Cidade; Niterói-RJ (foto do autor).

POEMAS MÍNIMOS III

I

Em poeminha
Sucinto
Quando não omito
Minto

II

Inversamente
Ao inverso
Há no texto
Que teço
Menos prosa
Do que verso

III

Em cada verso que escrevo
Nada há de concreto
Mesmo cheio de substantivos
E de tantos objetos

IV
LUA NOVA

Lá fora
A lua nova
Na escuridão da noite
Espera que eu saiba as horas
E lhe indique o caminho a percorrer
Aqui dentro
A desoras
Espero que a lua nova
Me aponte apenas
Na claridão do dia
Um jeito simples de sobreviver

 

Lua nova em Lumiar (foto do autor).

CONFISSÃO

Assumo que resumo o que eu fiz
Em quase nada.
Quase tudo foi fortuito
Um outro tanto gratuito.
Planejados
Somente os armários do quarto
E as aulas que ministrava aos quatro ventos
Para alguns tantos alunos atentos
Porque os outros oh! os outros
Nem queriam saber do que tratava a gramática
Apenas o resultado do jogo do Flamengo
Como aquele aluno ao lado da janela
Fone aos ouvidos
A se preocupar com os lances do primeiro tempo
Enquanto a prova pedia sua atenção,

Tudo mais
Ou quase tudo
Inclusive a preocupação de criar os filhos
Foi como um experimento
A tentativa de que tudo desse certo
Embora sem a mínima noção do correto
De que um dia eles estivessem cobrando
A correção daqueles momentos
Para saber se tudo não teria sido em vão.

 

Saco de São Francisco, Niterói-RJ (foto do autor).

Saco de São Francisco, Niterói-RJ (foto do autor).

PÔR DO SOL

 

Não ponho no pôr do sol
Os olhos que não tenho
Tento apenas ver aquilo que entrevejo
– como se fosse impossível vê-lo –
No largo panorama em que o sol dardeja
Os raios luminosos de longe amortecidos
Por serras nuvens árvores
De um céu capcioso – ou nem tão isso –
Que possam enternecer o modo impreciso
Com que costumo ver
Com certa incerteza
O grande espetáculo da (in)visível natureza.

 

Pôr do sol na Praia do Gragoatá, Niterói-RJ (foto do autor).

Pôr do sol na Praia do Gragoatá, Niterói-RJ (foto do autor).

HOJE É O DIA INTERNACIONAL DA POESIA

Para comemorar o Dia Internacional da Poesia, trago aqui estes pequenos poemas de alguns dos meus autores brasileiros favoritos, sem ordem de preferência, porque, neste caso, todos estão em primeiro lugar para mim. Apenas a depender da hora e do local. Se é que me entendem.

Mas começo por MILLÔR FERNANDES, um dos meus gurus.

POEMINHA NEURÓTICO

Você patriótico,
Eu muito erótico.
Teu pai despótico
E esclerótico.
Teu irmão exótico
E macrobiótico.
Tudo caótico, bicho,
Muito caótico.                                  (Do livro Papáverum Millôr, ed. Nórdica, 1974.)

 

PAULO LEMINISKI

NÃO DISCUTO

não discuto
com o destino
o que pintar
eu assino                   (Do livro Caprichos e relaxos; ed. Brasiliense, 1983)

 

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

MEMÓRIA

Amar o perdido                             As coisas tangíveis
deixa confundido                           tornam-se insensíveis
este coração.                                   à palma da mão

Nada pode o olvido                       Mas as coisas findas,
contra o sem sentido                    muito mais que lindas,
apelo do Não.                                 essas ficarão.
(Do livro Reunião; ed. José Olympio, 1971)

 

ADÉLIA PRADO

PARA TAMBOR E VOZ

Viola violeta violenta violada,
óbvia vertigem caos tão claro,
claustro.
Lápides quentes sobre restos podres,
um resto de café na xícara e mosca.      (Do livro Bagagem; ed. Nova Fronteira, 1976.

 

MANUEL BANDEIRA

IRENE NO CÉU

Irene preta
Irene boa
Irene sempre de bom humor.

Imagino Irene entrando no céu:
– Licença, meu branco!
E São Pedro bonachão:
– Entra, Irene. Você não precisa pedir licença.

(Do livro Libertinagem, in Poesia completa e prosa; ed.             José Aguilar, 1974)

 

MÁRIO QUINTANA

UMA CANÇÃO

Minha terra não tem palmeiras…
E em vez de um mero sabiá,
Cantam aves invisíveis
Nas palmeiras que não há.

Minha terra tem relógios,
Cada qual com sua hora
Nos mais diversos instantes…
Mas onde o instante de agora?

Mas onde a palavra “onde”?
Terra ingrata, ingrato filho,
Sob os céus da minha terra
Eu canto a Canção do Exílio!

Do livro Apontamentos de história sobrenatural; ed. Globo, 1976)

POR ACASO

 

Por acaso
No ocaso
Quando o sol se puser
Estando o sol posto
E o meu querer
Não mais quiser
É porque já estarei morto
E aí talvez eu viva
Se de fato morto estiver
Nos muitos versos que fiz
Já que viver após morrer
É um mistério incontrolável
Intangível
Tão inverso ao viver
Até difícil dizer
E não um querer qualquer

 

Ocaso em Iraipu, Niterói (19/8/2015; 17h34; foto do autor).

Ocaso em Iraipu, Niterói (19/8/2015; 17h34; foto do autor).

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Publicado originalmente em Asfalto&Mato.