PÔR DO SOL

 Lá fora o sol se põe aos poucos
 Atrás dos morros simbólicos do Rio de Janeiro
 Compondo um pôr do sol iridescente.
 Preguiçoso chego à varanda
 E constato a ebulição das cores 
 Por entre as nuvens que vagueiam sobre a baía.
 Olho a câmara fotográfica dormindo no armário
 Quieta cega irresoluta.
 Melhor ficar em casa!
 As ameaças também vagueiam no ar
 E pores de sol ainda haverá aos montes. 
Pôr do sol em Icaraí, com a Pedra do Índio, a Pedra da Gávea e o Corcovado (foto do autor).

E NO ENTANTO AMAR DÁ PÉ

 Amar não é só sorver o sumo doce do sexo
 Da pessoa amada
 Ou um romeu e julieta – queijo com goiabada – 
 De beijos que começam cedo
 E varam a madrugada
 Como se não houvesse amanhã
  
 Amar é um troço mais complicado 
 Do que cerveja com tremoços
 Num botequim de beira de estrada
 Mais escorregadio que baba de quiabo
 Língua de vaca ensopada
  
 Amar é mais trabalhoso que criação de galinha
 Caçar tatu no meão da noite enluarada
 Com lanterna sem pilha alcalina
 E garrucha de mira angulada
  
 Amar não é só o suspiro que vem do nada
 Como se tudo estivesse pronto
 E se se pudesse dormir tranquilo
  
 Amar é um trem esquisito
 Um jeito aflitivo de viver chapado
  
 Amar no entanto dá um pé danado! 

Foto do autor.

TEMPESTADE

Há nuvens no céu
Borrando o azul
Tingindo de cinza a vasta imensidão
De um paraíso tranquilo

Há prenúncios de chuva
Anunciada pelo serviço de meteorologia
Enquanto se aguarda o desfecho dos dias

Há esperanças fortuitas
Desejos insanos
Carências aflitas
E tantos desenganos
Que a vida parece tão-somente
Um arremedo de viver

E as nuvens do céu vagueiam solertes
Sob os influxos do vento sudoeste
No horizonte que já se afigura sombrio

A tempestade antevista está a caminho.

Tempestade em Icaraí (foto do autor).

PERPLEXIDADES

Estou na solidão do quarto
Deitado sobre o nada
Olhando o teto quase incólume
Não fosse o pernilongo que me espia

Estou no bulício da sala
Ao som de Jorge Ben Jor
E sua Tábua de Esmeraldas
A comemorar nossa existência vazia

Estou no sorvedouro das horas
Embora confinado em casa
À espera de uma janela aberta para a incerteza
Enquanto o vírus nos avalia

Estou perplexo
Olhando pela varanda dos fundos
A lua crescente cruzando o céu de maio
Como se nada de estranho se constate

A vida com todas as suas peripécias solertes
A nos conduzir cordeirinhos para o abate

 

Foto do autor.

CERTOS AMORES

(Para meus netinhos.)

São tão mínimos meus amores
Tão ingênuos
Tão sem tempo
Tão intensos
Tão magnificamente grandes
Esses pequenos
Que conto aos quatro
Cantos do universo
E os canto em verso
Em prosa e o que mais possa
Provar que nada mais importa
Que tê-los entre os presentes
Que a condição humana nos regala
Se não nos furtamos a viver
Assim intensamente
A cada clarão do dia:
Gabi, Bruno, Francisco e Maria.

Children With A Cart Painting by Francisco Goya

Francisco de Goya (1746-1828), Crianças com um carrinho (imagem na Internet).

VELÓRIO SUSPENSO

Apaguem as velas
Desfaçam as coroas
Suspendam as orações sinceras
As encomendas fúnebres
Não estou defunto ainda
Posso parecer um pouco fraco
Talvez meio alquebrado
Um tanto à beira do fim
Mas respiro sem auxílio de aparelhos
Cuido bem dos meus joelhos
E ainda tenho o prazer de fruir a beleza
Que gira grácil em torno de mim.

Cemitério de Carabuçu (foto do autor).

MANHÃ DE JUNHO

Manhã de junho
O azulzinho pálido do céu
Tem como fundo o canto de bem-te-vis ao longe
Latidos de cães vozes de crianças
E barulhos de obra bem próximos

Às vezes entra pela varanda
Um sopro fresco do vento matutino
Contrapondo-se aos raios quentes do sol de outono
A queimar a pele das pernas entorpecidas

A vida está suspensa
Embora o calendário escoe na ampulheta dos dias
Nossa tragédia mais temida
E nossa existência tão prosaica

Um dia após o outro sucessivamente
Um azul celeste após uma lua crescente
Bem que pouco
E assim se desenrola o novelo dos dias
Que irão compor a memória de um tempo sombrio
Catastrófico

Paisagem matutina, Miracema-RJ (foto do autor).

FRANCISCO E O BICHO

Francisco examina o maçarico,
Como se fosse um estranho bicho
Nunca visto.
Aperta aquilo, aperta isso,
Examina o bico,
Como se fosse de um pterodáctilo esquisito
Vindo de um tempo muito antigo.

Ainda bem que não está vivo,
Não é, Francisco?
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Franscisco, em setembro de 2015, um mês antes de completar três anos, em uma pousada em Lumiar. (Fotos do avô.)

FELIZ NATAL E BOM ANO!

Ando com muita preguiça de desejar os mesmos desejos a cada fim de ano. Por isso, tomei a liberdade de repetir aqui um poema lá dos idos de 2011. Que sejam eficazes tais votos, embora um tanto velhos.

Vejam:

O Natal aí vem vindo,

A seguir um novo ano,

E, a cada fim de jornada,

Todos os novos planos

Para o que vem pela frente,

Cheio de augúrios,

Desejos

E renitentes promessas,

Que quase nunca cumprimos.

Mas o que se há de fazer,

Se somos todos humanos?

Assim,

Na medida do impossível,

Desejo aos meus amigos,

Aos meus possíveis leitores,

Aos meus queridos parentes,

Do mais usado ao mais jovem,

Do mais tristonho ao contente,

Do mais magrinho ao mais fofo,

Os votos de que para o ano

Possamos estar por aí

Para reclamar de novo.

 

Feliz Natal e Bom Ano!