POEMAS MÍNIMOS III

I

Em poeminha
Sucinto
Quando não omito
Minto

II

Inversamente
Ao inverso
Há no texto
Que teço
Menos prosa
Do que verso

III

Em cada verso que escrevo
Nada há de concreto
Mesmo cheio de substantivos
E de tantos objetos

IV
LUA NOVA

Lá fora
A lua nova
Na escuridão da noite
Espera que eu saiba as horas
E lhe indique o caminho a percorrer
Aqui dentro
A desoras
Espero que a lua nova
Me aponte apenas
Na claridão do dia
Um jeito simples de sobreviver

 

Lua nova em Lumiar (foto do autor).

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CONFISSÃO

Assumo que resumo o que eu fiz
Em quase nada.
Quase tudo foi fortuito
Um outro tanto gratuito.
Planejados
Somente os armários do quarto
E as aulas que ministrava aos quatro ventos
Para alguns tantos alunos atentos
Porque os outros oh! os outros
Nem queriam saber do que tratava a gramática
Apenas o resultado do jogo do Flamengo
Como aquele aluno ao lado da janela
Fone aos ouvidos
A se preocupar com os lances do primeiro tempo
Enquanto a prova pedia sua atenção,

Tudo mais
Ou quase tudo
Inclusive a preocupação de criar os filhos
Foi como um experimento
A tentativa de que tudo desse certo
Embora sem a mínima noção do correto
De que um dia eles estivessem cobrando
A correção daqueles momentos
Para saber se tudo não teria sido em vão.

 

Saco de São Francisco, Niterói-RJ (foto do autor).

Saco de São Francisco, Niterói-RJ (foto do autor).

PÔR DO SOL

 

Não ponho no pôr do sol
Os olhos que não tenho
Tento apenas ver aquilo que entrevejo
– como se fosse impossível vê-lo –
No largo panorama em que o sol dardeja
Os raios luminosos de longe amortecidos
Por serras nuvens árvores
De um céu capcioso – ou nem tão isso –
Que possam enternecer o modo impreciso
Com que costumo ver
Com certa incerteza
O grande espetáculo da (in)visível natureza.

 

Pôr do sol na Praia do Gragoatá, Niterói-RJ (foto do autor).

Pôr do sol na Praia do Gragoatá, Niterói-RJ (foto do autor).

HOJE É O DIA INTERNACIONAL DA POESIA

Para comemorar o Dia Internacional da Poesia, trago aqui estes pequenos poemas de alguns dos meus autores brasileiros favoritos, sem ordem de preferência, porque, neste caso, todos estão em primeiro lugar para mim. Apenas a depender da hora e do local. Se é que me entendem.

Mas começo por MILLÔR FERNANDES, um dos meus gurus.

POEMINHA NEURÓTICO

Você patriótico,
Eu muito erótico.
Teu pai despótico
E esclerótico.
Teu irmão exótico
E macrobiótico.
Tudo caótico, bicho,
Muito caótico.                                  (Do livro Papáverum Millôr, ed. Nórdica, 1974.)

 

PAULO LEMINISKI

NÃO DISCUTO

não discuto
com o destino
o que pintar
eu assino                   (Do livro Caprichos e relaxos; ed. Brasiliense, 1983)

 

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

MEMÓRIA

Amar o perdido                             As coisas tangíveis
deixa confundido                           tornam-se insensíveis
este coração.                                   à palma da mão

Nada pode o olvido                       Mas as coisas findas,
contra o sem sentido                    muito mais que lindas,
apelo do Não.                                 essas ficarão.
(Do livro Reunião; ed. José Olympio, 1971)

 

ADÉLIA PRADO

PARA TAMBOR E VOZ

Viola violeta violenta violada,
óbvia vertigem caos tão claro,
claustro.
Lápides quentes sobre restos podres,
um resto de café na xícara e mosca.      (Do livro Bagagem; ed. Nova Fronteira, 1976.

 

MANUEL BANDEIRA

IRENE NO CÉU

Irene preta
Irene boa
Irene sempre de bom humor.

Imagino Irene entrando no céu:
– Licença, meu branco!
E São Pedro bonachão:
– Entra, Irene. Você não precisa pedir licença.

(Do livro Libertinagem, in Poesia completa e prosa; ed.             José Aguilar, 1974)

 

MÁRIO QUINTANA

UMA CANÇÃO

Minha terra não tem palmeiras…
E em vez de um mero sabiá,
Cantam aves invisíveis
Nas palmeiras que não há.

Minha terra tem relógios,
Cada qual com sua hora
Nos mais diversos instantes…
Mas onde o instante de agora?

Mas onde a palavra “onde”?
Terra ingrata, ingrato filho,
Sob os céus da minha terra
Eu canto a Canção do Exílio!

Do livro Apontamentos de história sobrenatural; ed. Globo, 1976)

POR ACASO

 

Por acaso
No ocaso
Quando o sol se puser
Estando o sol posto
E o meu querer
Não mais quiser
É porque já estarei morto
E aí talvez eu viva
Se de fato morto estiver
Nos muitos versos que fiz
Já que viver após morrer
É um mistério incontrolável
Intangível
Tão inverso ao viver
Até difícil dizer
E não um querer qualquer

 

Ocaso em Iraipu, Niterói (19/8/2015; 17h34; foto do autor).

Ocaso em Iraipu, Niterói (19/8/2015; 17h34; foto do autor).

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Publicado originalmente em Asfalto&Mato.

PASÁRGADA

Vou-me embora pra Cayman
Lá sou amigo do dólar
Terei a conta secreta
No banco que escolherei

Vou-me embora pra Suíça
Comer seu queijo furado
E controlar meu dinheiro
Que foi todo desviado
Do Brasil e sua gente
E deixei tudo pendente
Na educação na saúde
Nos transportes no mercado

Vou-me embora pra Sheychelles
Usufruir bem o corpo
Beber só água de coco
Hospedar-me em palafitas
Luxuosas e bonitas
De custo estarrecedor
Botar na conta do povo
Ordeiro e trabalhador
Vou-me embora pra Seychelles
Encontrar o meu amor

Vou-me embora pras Bahamas
Prometo não beber Brahma
Apenas vinho francês
Supertoscanos da vez
Espumantes e champanhes
E é possível que ganhe
Mais tempo de dolce vita
A vida é tão catita
Não me deu dores nem dós
Prefiro sorver melhor
Do que sofrer duro e só

Venho embora pro Brasil
Antes que a tal Interpol
Com ordem judicial
Me procure por aí
Venho ficar sem perigo
Neste país tão amigo
Tão bondoso com seus filhos
Sobretudo os que desviam
Dinheiro de cofre público
E podem anos a fio
Ter amparo ter guarida
Sem padecer de desdita

Venho embora pra Pasárgada!

 

Ruínas de Pasárgada, no Irã (imagem em pt.depositphotos.com)

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PS: Manuel Bandeira há de me perdoar!

NÃO HÁ

Não há sandália sem tira
Nem esteira sem embira
Comichão sem cafubira
Mentiroso sem mentira
Garrucha nova sem mira
Ou mesmo ódio sem ira
Velame sem macambira
Fogo sagrado sem pira
Cateretê sem catira
Amalucado sem gira
Viola sem caipira
Ou lusitano sem vira
Conjuração sem traíra
Azul real sem safira
Caxemir sem casimira
Mata virgem sem saíra
Caverna sem corruíra
Ou jugular sem vampira
Umbanda sem Pombagira
Retirante sem retira
Ubirajara sem Bira
Gado pastando sem xira
Floresta sem curupira
Ou curtume sem estira
Espiral sem a espira
Cachaçada sem ximbira
Inquietação sem cuíra
Má ordenha sem tibira
Terreiro sem pepuíra
Ou um poeta sem lira

 

Imagem em aulete.com.br.