A NOVA EMPREGADA

Há muitos carnavais, lá pelos oitenta, Jane resolveu trazer de Miracema uma jovem mulher para nos auxiliar nos serviços domésticos. Para tanto, alguns dias antes, ligou para sua mãe pedindo ajuda na escolha da nossa nova funcionária.

No Carnaval daquele ano – nossos filhos ainda nem tinham entrado na adolescência – nós a traríamos, ao voltar a Niterói.

Tão logo chegamos a Miracema, fomos conhecer a moça escolhida por Dona Judith. Ela morava no morro do cemitério, numa casa simples, de paredes amarelas e com uma cerca de bambu a proteger o quintal. Dona Judith nos disse o nome da moça e deu as referências costumeiras à época: era de confiança, boa de serviço e tinha trabalhado na casa de uma amiga da Jane durante algum tempo.

Era a tarde de sábado de Carnaval, quando subimos o morro para conhecer a moça e combinar detalhes da sua vinda para Niterói.

Reconhecemos a casa referida, paramos o carro, e a Jane bateu palmas, chamando-a pelo nome:

– Fulana! Fulana!

De dentro da casa simples, mas muito bem cuidada, de imediato veio a resposta:

– Um momento! Já vou! Saí do banho agora.

Rapidinho, aparece ela sorridente pela porta lateral, acabando de pentear os cabelos, ainda molhados.

Jane se apresentou, trocou algumas ideias com ela sobre suas tarefas em nossa casa, combinou o salário e marcou de passar na terça-feira após o café da manhã para pegá-la, desde que ela estivesse de acordo. A moça concordou com tudo, informou à Jane que tinha uma filha de oito anos, que deixaria com sua mãe – todos moravam naquela casa – e que estaria de malas prontas no dia marcado. Ela estava, de fato, precisando trabalhar.

Jane ainda ponderou sobre a situação da filha, mas a moça disse que já tinha conversado com ela, que não haveria problemas, já que a avó também ajudava na criação da pequena.

Terminada a conversa, subi um pouco mais a rua, para manobrar o carro para a volta, e entrei com minhas observações.

– Jane, percebi pelas feições da moça que ela bebe. Vamos levá-la para casa e ela vai beber minhas cachaças todas. Veja lá!

– Que isso? Não vi nada disso! Você cismou com ela assim do nada!

– Sei não! Sei não! Pelo que observei, ela bebe. E se lembra daquela baianinha que comeu todo o meu vidro de pimenta com pão? Veja lá!

Ao chegar à casa dos meus sogros, Jane resolveu telefonar para sua saudosa amiga Laurecy, ex-patroa da moça, a fim de esclarecer essa minha desconfiança.

– Olá, Laurecy! É a Jane! Tudo bem? Veja só: estamos pensando em levar a Fulana para Niterói, para trabalhar conosco. Ela foi sua empregada, não é mesmo? Mas o Saint-Clair desconfiou de que ela bebe. O que você me diz?

Laurecy não fez rodeios:

– Jane, ela só trabalha tonta! E canta Odair José o tempo todo!

Na segunda-feira pela manhã, a moça chega à janela da casa e chama pela Jane. Tinha vindo dizer que, depois de refletir bastante, não mais iria conosco. Não conseguiria ficar longe da sua menina, ainda muito novinha para estar sem ela.

A decisão da moça aliviou a Jane de uma desculpa para não a trazer conosco, como combinado, e salvou a minha coleção de cachaças. Que eu mesmo me incumbiria da tarefa de lhe dar um bom destino.

Imagem em freepik.com.

O LEC FAZ 85 ANOS

Temos na casa de nossos pais uma antiga foto em preto e branco do time do Liberdade que, à época, se chamava Comercial. Nela, dentre os jogadores, aparecem meu pai, Argemiro, então considerado um bom ponta-esquerda; meu tio-avô Nalim, também hábil jogador; o Creval Mestre, goleiro com pinta do russo Yashin; e o meu avô paterno, Chico Albino, dentre os cartolas, elegantemente trajado para a ocasião.

Não sei em que ano se deu a mudança do nome, pois, desde que me entendi por gente, lá pelos idos de 1950, o clube já tinha o nome atual. Tanto que, na segunda série do antigo curso primário, aos nove anos, fiz o meu primeiro poema – era o dever de casa -, que tratava justamente do jogo daquele fim de semana entre o meu time e o Ordem e Progresso, de Bom Jesus do Norte, cujas primeiras estrofes, corrigidas pela querida professora Maria Amélia Figueiredo, ainda tenho na memória:

Os canarinhos entraram em campo
Contentes e animados
Com a ordem do técnico
O Liberdade entra no gramado.

Logo foi tirado o toss
O Liberdade ganhou
Progresso deu a saída
Progresso foi vencedor.

Por isso é que posso afirmar que o Liberdade Esporte Clube foi uma das minhas primeiras paixões na vida. É claro que eu tinha outras também: algumas coleguinhas do Grupo Escolar Marcílio Dias, que me encantavam com sua beleza. Mas essa era outra qualidade de paixão, diferente, que exigia retorno. A paixão pelo LEC era de mão única. O time nem precisava vencer, para que eu o amasse.

E, como toda paixão, me exigia sacrifícios. Uma vez por mês, no primeiro domingo, o Padre Francisco Apoliano vinha à vila celebrar a missa, que invariavelmente coincidia com, pelo menos, o primeiro tempo das partidas.

Caso coincidissem missa e jogo pelo campeonato bonjesuense, eu me mortificava ainda mais durante a obrigação religiosa, na qual rezava para que ainda conseguisse, após o Ite! Missa est., as derradeiras palavras do padre, pegar uma parte do segundo tempo. Por aquela altura, as missas eram celebradas em latim. Mas o sentido das palavras já conhecia de muito: Ide! A missa terminou. E partia correndo para o estádio.

Por essa época, em minha percepção de menino, o Liberdade tinha uma equipe hábil e poderosa, ainda que eventualmente perdesse. E, a cada jogo no Estádio Doutor César Ferolla, nome do médico benemérito que doou o terreno onde se construiu o campo de jogo, eu estava lá, inclusive dentro do vestiário, para assistir à preparação dos craques, à preleção do técnico João Coleto e também aproveitar para sentir o odor inebriante da cânfora misturada ao óleo com que os jogadores untavam as pernas, antes de adentrar o gramado.

Então corria a subir o barranco, espécie de arquibancada rústica, numa das margens do campo. Ali me sentava ao lado do meu pai, sob um pequeno arbusto que gerava uma minúscula sombra.

Quando a equipe entrava no gramado, era uma euforia. Vinham eles com a tradicional camisa de listras brancas e azuis, em fila, até o círculo central.

Lembro-me de muitos deles.

Reginaldo, o pequeno goleiro carioca que se apaixonou pela vila e morreu tragicamente nas águas do Itabapoana. Um gigante sob a baliza, malgrado seu pequeno porte. Depois veio Bié, deslocado da ponta esquerda para o gol, posteriormente substituído pelo Cocote, um dos mais longevos na posição.

Havia o Paulinho Sucanga, irmão da minha mãe, um dos maiores jogadores que vi jogar. Baixinho, com um pequeno problema congênito no quadril que o fazia manquitolar, era um portento na posição de beque central. Impressionava ver sua habilidade, sua desenvoltura com a bola. Em certo jogo, durante a cobrança de escanteio pelo time adversário, ele dominou a bola com a cabeça e saiu da área, levando-a assim, com cabeceios, até passar a um companheiro.

Dividia a zaga com ele, outro baixinho habilidoso, o Durvalzinho Assis. Os dois formavam a mais improvável dupla de zaga, se analisássemos apenas sob o aspecto físico. Algumas vezes, atuava como zagueiro o Filhinho Schuab, que tinha o apelido de Carijó, pela profusão de sardas no rosto, e se vangloriava de sua filosofia de jogo: Por mim, ou passa a bola, ou passa o adversário; os dois juntos, nunca! E dava gargalhadas, ao dizer isso. Outro que substituiu o Filhinho foi o Todinho Quintal, um pouco mais novo que o Paulinho, mas alto o bastante para proteger a área das bolas levantadas. Enquanto Filhinho era vigoroso e botineiro, Todinho tinha mais habilidade e categoria.

O meio-campo contava com dois jogadores diversos, porém com muita eficiência em seus estilos. O Helvécio Portugal, meu primo, praticava um toque refinado e uma fleugma britânica para o jogo. Antecipava o jeito de jogar do Gerson, o Canhotinha de Ouro. Já o Elias Pelanquinha, outro primo, oposto ao Helvécio, porquanto jogasse com vigor e com sangue nos olhos, era voluntarioso e briguento. Enquanto o primeiro arrumava o time no meio-campo e pouco subia ao ataque, o outro também partia em auxílio à conclusão das jogadas. Tempo depois eles foram substituídos por duas novas promessas do LEC: José Elias, irmão do Gonçalves, que atuava como zagueiro; e Adilson Zé Mané, também meu primo, mas um pouco mais velho que eu. Ambos jogadores de grande habilidade. Adilson, inclusive, foi levado para jogar no Unidos, de Itaperuna.

Neste setor, algumas vezes atuava o Ciloca Peçanha, que ganhou um segundo apelido, Pé Redondo, pelo formato arredondado dos pés que dificilmente encontravam chuteiras que os acomodassem. Por isso jogava sempre descalço.

Moreninho, o principal barbeiro da vila, também corria pela lateral direita, enquanto Anoredino Pé de Chumbo corria pela esquerda. Mas nem sempre estavam em todos os jogos. Já o Geraldinho, filho do Juca Jacó, mostrava suas habilidades tanto pela meia-direita, com a camisa 8, quanto pela meia-esquerda do campo, com a camisa 10, participando das ações de ataque.

Quando o Bié foi deslocado da ponta esquerda para o gol, após a morte do Reginaldo, Isaías Bonga, que também dava suas botinadas na lateral esquerda, foi ocupar aquele espaço e, com frequência, veloz como ele só, mas sem grandes habilidades, chegava ao fundo do campo para cruzar a redonda em direção à área.

Caso o ataque se desse pela direita, aí as coisas ficavam mais eficientes. Vislumbrava-se a possibilidade de gol. Lá estava o Cristhovinho Padilha, baixinho, arisco, veloz, a penetrar a zaga adversária, aonde quase sempre levava o desespero aos defensores com seus dribles.

Os gêmeos Adelson e Adilson Moulins marcaram época, por suas habilidades e deslocamentos velozes no ataque. O irmão mais velho, Dalzy, atuava no meio-campo com cadência e ritmo.

E, tanto vindo da esquerda, quanto da direita, a bola quase sempre encontrava dentro da área, disposto a enfiá-la nas redes, outro baixinho endiabrado, o Jadir Modesto, ou Jadir Bodinho, alcunha devida a seu cavanhaque minguado e seu bigode ralo.

Bodinho, inclusive, foi protagonista de uma das mais belas jogadas que aconteceram naquele campo.

A Portuguesa do Rio de Janeiro estava em excursão pelo Norte e Noroeste do estado, em amistosos preparatórios para o próximo campeonato carioca. E, por todos os lugares por que passara, venceu seus jogos. Até que chegou a Carabuçu.

Fazia um belo domingo de sol e calor. Os times entraram em campo com disposição para o jogo. Era um amistoso nem tão amigável assim. E seguia a partida emperrada no zero a zero, até que um cruzamento da esquerda encontra nosso ataque, ou melhor, Jadir Bodinho correndo em direção à defesa adversária. Nesse dia, eu via o jogo encostado à cerca interna, acompanhando o ataque do Liberdade. E fui testemunha ocular daquela pintura, que até hoje está gravada em minha memória. A bola veio quase à altura do Jadir Bodinho, que não era muito alto. Pois o endiabrado deu um pulo, que à época chamávamos sem-pulo, inacreditável para seu tamanho. Pois bem, ele deu um sem-pulo, jogando o corpo na horizontal e pegando a bola com o pé direito, numa chicotada fulminante, da entrada da grande área. A pelota estufou a rede à esquerda do goleiro, que nada pôde fazer. Ela entrou na região onde a coruja dorme, se é que me entendem. O LEC venceu a partida por 1×0. O delírio que tomou conta da grande torcida ali presente foi indescritível. Nosso time foi o único a vencer a Portuguesa em sua excursão por nossas bandas.

Posteriormente contaram que o dirigente do clube carioca, chefe da delegação, quis levar o Jadir Bodinho para a Ilha do Governador, sede da Portuguesa. Essas mesmas informações, agora maldosas e debochadas, garantiam que Jadir não quis ir, porque estava aprendendo o ofício de sapateiro com o Filhinho Gregório.

O Liberdade, anos depois, ganhou o campeonato da LBD, Liga Bonjesuense de Desportos. Mas eu já estava morando longe e não pude testemunhar essa glória. Contudo, isso, em hipótese nenhuma, fez com que eu me sentisse culpado por não estar presente. A vida nos conduz a caminhos inevitáveis, onde trafegamos nossa experiência, sem que possamos mudar seu rumo, conforme nossos desejos.

Agora, em fevereiro de 2022, o Liberdade Esporte Clube comemora oitenta e cinco anos, dez a mais que eu, que, em menino pequeno, ganhava uns trocados para gozar o extinto time adversário da vila, cujo modesto campo de jogo ficava nos pastos para além da ponte do Valão Liberdade: era o Palmeiras, nome dado em função de algumas dessas árvores próximas, mas que nós, torcedores do glorioso Esquadrão Alvianil, debochadamente chamávamos de Bostinha, por causa dos excrementos deixados pelo gado que aparava a grama da cancha espontaneamente. Rivalidade, aliás, que se perdeu no tempo.

Viva o Liberdade! Glória ao Liberdade!

Saint-Clair Machado de Mello

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(Agradeço ao meu irmão Gutenberg, que também brilhou com seu talento no futebol, as dicas importantes que refrescaram a minha memória.)





Foto do início dos anos 40 do século passado com o time do Comercial Sport Clube, antecessor do Liberdade Esporte Clube. O meu pai, Argemiro, é o último sentado da esquerda para a direita.

O PROFESSOR ESQUISITO

Nos anos 80 fui a Goiás ministrar curso de Língua Portuguesa de uma semana, inserido na programação mais ampla de uma pós-graduação “lato sensu” para professores da rede pública do estado. A cidade, ao norte de Goiânia, era Itapuranga, que está lá até hoje – e também no mapa do estado – com a sua divisão referida pelos moradores, entre a parte antiga e a mais recente, por um apelido carinhoso: Xixá e Xixazinho, se não me falha a memória, que é o nome de uma árvore frondosa comum na região.

No terceiro dia em que lá estava, hospedado num pequeno e simpático hotel, ironicamente nomeado Grande Hotel, de cuja existência não mais tenho ciência, faltou água na cidade. E fazia um calor danado! Era verão!

A carga horária do curso se concentrava em aulas pela manhã e à tarde. Ao fim do dia, eu saía da escola estadual em que elas ocorriam suado e reclamando por um bom banho de água fria. Na verdade, com o calor, a água rigorosamente não era fria. Então fui surpreendido, naquela terça-feira à tardinha, com a informação da simpática proprietária, que me lembrava a imagem da minha avó materna, de que não havia água na cidade.

Diante do hotel e à margem do Rio Vermelho, que corta a cidade, havia um posto de gasolina onde davam banho à força em um morador de rua, assim que as cascas de sujeira tomavam conta da sua pele. Segundo fui informado, o homem tinha de ser agarrado por outros dois, para que pudesse passar pela ducha de lavar carros. Tive vontade de ir lá pedir que me fizessem também tal favor. Mas, pombas!, não havia água na cidade inteira! Me atirar no rio estava fora de cogitação: sou inapto para água corrente ou semovente desde que nasci. Contudo eu não poderia continuar a viver em paz, dormir com certo conforto, voltar à aula no dia seguinte, sem um banho pelo menos razoável. E, após o jantar, a neta da proprietária, muito interessada em novidades, gostava de conversar com o professor da cidade grande. E eu não poderia estar em estado deplorável diante daquela adolescente curiosa.

Não tive saída! Fui até a pequena mercearia ao lado do hotel e comprei várias garrafas de um litro e meio de água mineral. A dona do hotel riu da minha iniciativa. Mas tomei um revigorante banho a cavalo, como dizemos na minha terra, de água mineral das profundezas das terras goianas, e pude me apresentar limpinho para o jantar daquela noite.

No dia seguinte, descobri que corria à boca pequena entre os moradores das imediações que ali, no Grande Hotel, se hospedava um professor que tomava banhos com água mineral.

A maledicência humana corre veloz!

Xixá (foto colhida na Internet).
Fruto do xixá.

TAMBÉM TENHO O MEU FOLCLORE POLÍTICO

O cara era meu conterrâneo, mas eu não o conhecia, o que só ocorreu em Lisboa, em 2003. Fui encontrá-lo, com a Jane e mais o casal que viajava conosco, em sua cervejaria no Cais Sodré, um belo espaço de gastronomia e entretenimento à margem do Rio Tejo.

Dentre os muitos assuntos que rolaram durante o tempo em que ele permaneceu conosco, o relativo à explicação de como fora parar na cidade ficou até hoje em minha memória, por seu caráter inusitado e mesmo hilariante.

Ele é arquiteto de formação e recebeu convite do então indicado ao cargo de embaixador brasileiro em Portugal, Itamar Franco, para que realizasse algumas obras na residência oficial em Lisboa. Era o ano de 1995.

RO – vou apenas indicar as iniciais do seu nome – viajou então para a capital portuguesa, a fim de atender nosso representante diplomático na Terrinha. Em lá chegando, descobriu que o trabalho consistia na construção de um galinheiro, para que nosso novel embaixador pudesse manter seu arraigado hábito mineiro de comer galinha ao molho pardo, pelo menos uma vez por semana, sem o desconforto de sair procurando galináceos em abatedouros lisboetas. Obviamente que um galinheiro de embaixada não poderia ser feito por qualquer mestre de obra canhestro. Requeria a ciência e a arte de arquiteto diplomado por universidade nacional.

E foi o primeiro galinheiro que RO construiu em sua vida. Até o instante em que ele nos contava a história, entre um trago e outro de chope, acolitado por tira-gostos, tudo por conta da casa, como manda o manual do bem receber visitas inesperadas, RO não tinha feito nenhum outro. Mas, com o prestígio do trabalho realizado na casa do novo embaixador, começaram a pipocar requisições para outros tantos trabalhos em imóveis de brasileiros e de lusitanos na cidade. Tanto é que nunca mais voltou ao Brasil. Por lá ficou, casou e tinha então uma filhinha recém-nascida, motivo que o fez sair um pouco mais cedo, deixando-nos a dolorosa tarefa de secar canecos de chope e dar fim a uma sequência de petiscos, tudo por conta da casa e da boa amizade.

E, como a prever já outro desafio em sua vida de arquiteto, RO nos confidenciou, ao sair, que o diplomata indicado naquele mesmo ano de 2003 para Portugal mandou convocá-lo à embaixada, pois tinha certa obra a lhe encomendar. Era o ex-deputado cearense Paes de Andrade, figura folclórica no cenário político brasileiro, por ter, como presidente da Câmara Federal e em substituição ao presidente da república da ocasião, viajado no avião presidencial até Mombaça, sua terrinha natal, a mostrar a que altura chegara seu filho importante.

RO nos disse, então, que temia ser desafiado a construir um capril, para que o novo embaixador pudesse criar cabras que lhe dessem suculentas e olorosas buchadas de bode.

Fomos embora da cidade no dia seguinte, e nunca soube do desfecho daquele convite que meu conterrâneo arquiteto recebeu de Sua Excelência, o novo Embaixador do Brasil em Portugal.

Vai dar bode! (foto do autor),

DO PRINCÍPIO AO FIM

No princípio, bem na entrada da vila, está o Morro do Marta. Um homem de sobrenome Marta, há muitos anos, morou lá e acabou identificando o lugar. Hoje os mais novos não sabem disso e o chamam de Morro do Mato. O epônimo acabou se perdendo.

No meio da praça em frente à capela, o descampado. Sem capim, sem mato, sem bancos, sem canteiros. A praça era como um terreno baldio nu. Era onde as crianças aprendiam a andar de bicicleta. Seu nome, então, era Praça do Sabiá, apelido do fundador da vila.

Na beirada do valão Liberdade, os moleques improvisaram uma rampa de salto. Pulava um, pulava outro, e outro mais. Como se fosse uma ingênua olímpiada infantil.

Atrás do muro do campo do Liberdade, ficava o espaço proibido do gramado, onde o time da vila disputava seus jogos do campeonato. Nos momentos sem uso, os moleques o invadiam sorrateiramente, através do muro, e disputavam partidas inolvidáveis.

À frente o grupo escolar, estava a casa da minha avó. Todos os dias ia lá, pegar os pequenos latões de alumínio e me dirigir ao curral do meu tio-avô, irmão dela, pegar o leite que ele nos dava. Quase sempre, quando ele lá estava, eu tomava uma caneca de leite quentinho com açúcar, cheio de espuma e saído diretamente das tetas da vaca.

Acima das nossas cabeças, revoavam as andorinhas nos fins de tarde, antes de procurar abrigo no forro da capela. Chilreavam tanto, que pareciam alegres como gente. E faziam com que os moleques também sonhassem em poder voar um dia.

Abaixo da terra, a sete palmos, no cemitério da vila, enterram-se sonhos e esperanças. Mas nunca há choro desesperado dos que ficam. No interior, se aprende que a morte é quase igual à vida. Apenas um pouquinho mais dolorida.

Do lado de fora, quem passasse pelas ruas de paralelepípedo imaginaria, ao ver as casas sossegadas de janelas abertas, as mulheres cozinhando, os meninos se aprontando para a escola, os maridos coçando o bigode à espera do almoço.

Dentro das casas, nunca havia dramas irresolvíveis, nem tragédias anunciadas. Vivia-se a pacífica vida do interior, sem muitas novidades, mas também sem sobressaltos. O desespero do progresso sempre lá chegou de mansinho, sem bulício.

Na subida do morro da escola, ficava o pau-d’alho frondoso, ao lado de uma serraria a céu aberto, com um balanço – que então chamávamos balango – dependurado de um galho alto por cordas de juta. Vez e outra um moleque se despencava dele.

Na descida do morro do cemitério, chega-se à Coreia, uma espécie de bairro da vila pequenina. Em minha cabeça de menino, havia mais distância entre a Coreia e a Rua, como chamávamos a vila, do que os passos que a distavam geograficamente.

No fim do dia, a iluminação pública começava a alumiar as ruas com lâmpadas de amarelada fraqueza, quase tomates de vez. Que apenas não deixavam as visagens noturnas do entorno assombrar nossa vida singela.

Revoada das andorinhas faz festa no céu de Teresina

Imagem colhida na Internet (meionorte.com).

UM CHOCOLATE QUENTE NA LEITERIA

Era um sábado à noite. Fazia certo frio na Bom Jesus do Itabapoana do início dos anos sessenta do século passado.

Andorinha, Zé Fábio e eu fomos até a Leiteria Bom Jesus, junto à Praça Governador Portela, beber um chocolate quente. Cornélio, o cozinheiro da Leiteria, era famoso por fazer coisas gostosas, apesar de alguns detratores reclamarem da higiene da manipulação, por conta de uma sinusite renitente que o perseguia.

Sentamos a uma mesa e logo fizemos o pedido. Em seguida, chega nosso contemporâneo Índio, com alguns amigos, e todos se sentam próximos. E todos, lá também, solicitaram o mesmo, famoso e denso chocolate quente.

Por essa época, nós três trabalhávamos nas oficinas gráficas do jornal O Norte Fluminense, enquanto o Índio era um dos gráficos do jornal A Voz do Povo. Por conta disso, havia velada ciumeira entre uns e outros, sem, contudo, declaração de animosidade.

Daí a pouco Cornélio traz os canecos com a bebida, e Andorinha, sempre muito sacana, combinou com ele de aplicar uma peça no Índio. Ia reclamar que o chocolate estava frio, assim que ele estivesse trazendo o pedido do Índio.

Cornélio, que também gostava de uma brincadeira sem graça, esquentou o mais que pode o pedido do Índio e o trouxe, no justo momento em que Andorinha levanta a voz:

– Pô, Cornélio! Esse chocolate está frio. Você nem esquentou, caramba!

De imediato, Índio pegou na alça da caneca e sorveu um gole generoso daquele suposto líquido apenas morno. E, no que o pôs na boca, devolveu de imediato, fazendo uma sujeira sobre a mesa.

E rimos às bandeiras despregadas, conforme expressão que ainda tinha certa circulação por aquela época.

E Cornélio ainda se aproveitou para dizer que aquilo que se via à tona da caneca não era nata, mas sim o couro do céu da boca do Índio.

5 receitas para te transformares no mestre do chocolate quente ...

Imagem em fnac.pt.

HISTORINHAS RÁPIDAS IX

17. HISTORINHA IMPRUDENTE

No posto de saúde do Vital Brasil, seu Prudêncio, 95 anos, aguardava, sentado numa cadeira especial, o começo da vacinação contra a gripe. Sua acompanhante informou que ele tinha quebrado a bacia, por isso a cadeira especial naquela fila de diversos outros idosos, inclusive eu e a Jane.

Meses antes, a mulher de seu Prudêncio quis subir na escada de abrir, para pegar algo na parte superior do armário, e ele não permitiu. Era um perigo. Ele mesmo faria isso. Subiu, caiu lá de cima sobre a companheira e fraturou a bacia. A mulher teve luxações generalizadas.

Agora o imprudente seu Prudêncio aguardava pacientemente que o atendimento do posto a começar às oito horas da manhã se iniciasse com meia hora de atraso.
Tomou a agulhada ali mesmo, sentado sobre a cadeira colocada no corredor. E ainda agradeceu com um sorriso lúcido e simpático à enfermeira que lhe furou o braço.

 

18. HISTORINHA FARMACÊUTICA

Na minha adolescência, em Carabuçu, fui aprendiz de barbeiro com o Moreninho, exímio craque da tesoura e da navalha. Próximo à barbearia, ficava a farmácia do Zé Rezende, onde Ronaldo, meu amigo e colega do grupo escolar, trabalhava. Eu não gostava muito daquela sujeira que o cabelo cortado fazia e, ao contrário, gostava do cheiro das poções e dos álcoois da manipulação de remédios. E tinha comentado isso com o Ronaldo. Mas, em lugar pequeno, nem sempre há vagas para mais um nos estabelecimentos comerciais, também pequenos.

Certo dia chegou à vila um circo, que tinha como atração alguns animais, dentre os quais uma hiena. Um amarra-cachorro do circo se fez de engraçadinho e foi urinar junto à jaula da hiena. Aí não prestou! O bicho enfiou o focinho através das grades e mordeu o pênis do mané, que foi levado à farmácia. Lá chegou ele com mais um furo no dito cujo a requerer cuidados.

Ronaldo, então, teve de atendê-lo. Antes porém de iniciar os trabalhos, mandou me chamar para saber, diante daquela cena, se eu ainda tinha desejos de ser auxiliar do Zé da Farmácia. Claro que abri mão do meu sonho na hora. Pelo menos, como barbeiro, eu só alisava cara de homem. E não outros setores da anatomia masculina.

 

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HISTORINHAS RÁPIDAS V

9. HISTORINHA SALARIAL

Lá pelos anos 80, a faculdade em que eu trabalhava passava por problemas financeiros e atrasava salários.
Com a situação já periclitando, fomos reivindicar – meu dileto amigo Fernando Lemos e eu – nosso pagamento.
Então o tesoureiro resolveu liberar parte do que nos devia e preparou o documento para que o assinássemos: “RECIBO DE ADIANTAMENTO DE SALÁRIO”.
Ferrando Lemos pegou o dinheiro, a esferográfica oferecida, riscou a palavra ADIANTAMENTO e escreveu acima: ATRASAMENTO.
O tesoureiro protestou, mas o professor Fernando Lemos, do alto de sua autoridade profissional, disse não aceitar assinar um documento que não era verdadeiro. Virou as costas e saiu.

 

10. HISTORINHA BAIXINHA

 

Baixinho era uma pessoa metódica. Sua vida, após o trabalho diuturno na antiga CERJ, era programada para todos os dias úteis da semana e quase sempre terminava com uma cerveja gelada no bar do Zé Português, na esquina das ruas Moreira César e Pereira da Silva, em Icaraí. Certa noite, me contou a história que reproduzo aqui.

Um dia, pelas vinte e três horas, voltava para casa no ônibus da linha 53. Àquela hora, o coletivo tinha poucos passageiros. Ele se sentou junto à janela, num dos bancos um pouco à frente do cobrador. Ao lado dele, foi sentar-se um homem que portava um jornal dobrado em quatro.

Depois de algum tempo de viagem, o vizinho de banco levanta um pouco o jornal, exibe um revólver e lhe diz;

– Passe seu relógio e fique quietinho!

Baixinho recuperou-se rápido da surpresa e tentou argumentar com o assaltante:

– Que isso, cara?! Meu relógio não tem valor. Só valor sentimental. Foi presente do meu pai. E você vai vendê-lo por qualquer dez mil réis.

– Não interessa! O relógio vai ser meu e eu vendo pelo preço que quiser. Passe o relógio e fique quieto!

E aproveitou para cutucar o cano do trabuco nas costelas do Baixinho. Com tal argumento convincente, Baixinho não teve como não se desfazer de seu relógio de pulso, com pulseira de metal, todo dourado, marca Lanco, uma beleza de dar na vista.

O ladrão desceu no ponto seguinte, levando o relógio que Baixinho tinha adquirido na Grand Joias há um tempo.

Duas semanas após, cumprindo parte do seu ritual, numa quarta-feira, vai até o Caneco Gelado do Mário, por essa época a décima parte do que é hoje, e vê o ladrão sentado ao fundo, acompanhado de uma mulher. Baixinho, abusado como todos os baixinhos, vai em direção a ele e diz, para que os demais frequentadores ouvissem:

– Aqui, você é o cara que me roubou o relógio de pulso no 53 há quinze dias! Cadê o meu relógio?! Devolva o relógio que você me roubou!

– Que isso, cara?! Tá maluco?! Ficou doido?! Nem te conheço! Nunca te vi!

– É você sim! Estou te reconhecendo! – E se virou para os demais, reiterando a acusação.

O sujeito, constrangido, colocou uma nota sobre o balcão e escafedeu-se do local.

Passada uma semana do ocorrido, Baixinho, em outro dia da semana em que ia beber cerveja com fígado de galinha acebolado num boteco nas imediações do Estádio Caio Martins, mal pôs os pés na porta do estabelecimento e dá de cara com o ladrão, de copo à mão, pronto a virar um gole.

Assim que o viu e antes que o Baixinho lhe fizesse qualquer acusação pública, o assaltante foi saindo do bar e gritando a plenos pulmões:

– Não te conheço, cara! Nunca te vi! Você é um maluco!

E sumiu no oco do mundo, de nunca mais encontrar o Baixinho pela quarta vez.

 

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HISTORINHAS RÁPIDAS IV

7. HISTORINHA PRAIEIRA

Era lá pelo início do Plano Real. Jane e eu fomos passar uns dias em Iriri-ES e levamos conosco os pais dela, seu Beethoven e dona Judith.
Certa manhã, resolvemos ir até a Praia da Areia Preta. Encontramos um lugar elevado para sentar à beira da praia e lá ficamos.
Seu Beethoven resolveu dar um mergulho. Ele nadava bem. Dona Judith foi com ele até o mar.
Daí a pouco voltaram até onde estávamos, e ele meteu a mão no bolso do calção, porque se lembrou de que tinha deixado ali uma nota de cinco reais.
– Perdi a nota que estava no meu bolso!
Ele sempre foi, como diria, muito cioso de seu dinheiro, que tratava com grande cuidado. Até um tanto exagerado.
Então olhei em direção ao mar – naquele instante da manhã, só nós ali estávamos -, e vi boiando n’água uma nota. De imediato, ele foi recuperar a nota e voltou encantado:
– Hahahaha! Perdi cinco reais e achei uma nota de dez reais!
Foi a maior aplicação já feita no país: em cinco minutos, o valor aplicado duplicou.

 

8, HISTORINHA DE FÓSFORO

O freguês caipira entra na venda do meu pai, lá pelo início dos anos 60, e pede à minha mãe, que então atendia ao balcão:
– Dona Zezé, quero uma ca’ de fosso.
Minha mãe pega a caixa de fósforo e entrega a ele, que indaga dela onde era produzida aquela maravilha que dispensava a pedra de fogo para acender o cachimbo.
– Acho que é no Paraná. Vou ver aqui.
Ela pegou a caixa de volta e leu em voz alta o endereço da fábrica: Rua Tal, número tal, Curitiba.
Aí o caboclo corrigiu;
– Ah! Então é um Puritiba e não, no Panará.

 

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HISTORINHAS RÁPIDAS II

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3. HISTORINHA TECNOLÓGICA

Eu levara minha tevê à oficina para consertar e estava de volta, para pegá-la. Aguardava o atendente, que foi até o fundo do salão, quando chega ao meu lado um senhorzinho vestido com simplicidade. Não sei por que, mas sua aparência me lembrou um velho pescador da Região dos Lagos: a pele vincada e queimada de sol, calça preta, camisa branca de manga comprida arregaçada e um velho chapéu de palha amarrotado na cabeça. Muito simpático, puxou conversa comigo, para reclamar do seu aparelho – Aquele ali no balcão à esquerda. –, que ainda não fora totalmente pago e já apresentava defeito. Tinha ido à loja onde o comprara, mas como estivesse na garantia, o vendedor recomendou aquela mesma eletrônica.

Outro atendente chegou até nós. Disse-lhe que já estava sendo atendido e indiquei o senhor ao meu lado.

– Pois não, senhor, em que posso atender?

– É a minha televisão – e apontou para a tevê sobre o balcão junto à parede.

– Qual o problema dela?

– Ela zoa, mas num bria.

Olhei para a atendente e perguntei se ele entendera.

– Sim. – respondeu – Ela tem som, mas não tem imagem.

 

4. HISTORINHA FESTIVO-PREOCUPANTE

Corria o ano da graça de 2016, e Pedro me telefonou.

– E aí, filho, tudo bem?

– Tudo bem, pai?

– Já pensou em como será o aniversário da Gabi?

Gabriela faria doze anos no mês seguinte, já estava uma linda menina-moça a se desabrochar e tivera dois aniversários que passaram sem festa, por uma série de motivos. Os pais, então, prometeram que aquele ano fariam uma festinha para ela. Por isso eu estava querendo saber, a fim de armar as estratégias de avós.

– Pai, estamos devendo esta festa a ela e não pode passar deste ano. Mas não queremos gastar muito, ainda mais porque ela quer ir a uma excursão da turma da escola a um acampamento, logo em seguida.

Então quis saber o que eles estavam pensando em fazer.

A família do Pedro mora na cidade de São Paulo, em um condomínio cuja infraestrutura é excelente e ele quer aproveitá-la para a festa.

– Estamos pensando, para não gastar muito, em usar o salão de festa daqui. Aí é só alugar a iluminação, contratar um DJ e comprar uma espingarda para ficar na porta.

Tinha chegado a hora de o pai se preocupar com possíveis conquistadores adolescentes.