CHATO, ZABUMBA E CRICRI

Em Bom Jesus da minha juventude, o cara chato passou a ter uma classificação tríplice, conforme sua chatura.

Não sei se o leitor amigo sabe da origem do uso do termo chato para taxar as pessoas incomodativas, aquelas que se apegam a um assunto desinteressante e ficam penduradas no ouvido alheio, com conversas intermináveis que não produzem o mínimo efeito prático.

Pois tal designação veio derivada do parasita pubiano, também chamado chato, que infesta a área de lazer das pessoas tomadas por tufos de cabelos, cujo nome popular a educação me sugere não dizer aqui, mas de que todos estão cansados de saber.

Com a moda de se depilar tal área, sobretudo entre as mulheres, e um maior cuidado nas relações sexuais, a presença do tal piolho-da-púbis, cientificamente chamado de Phthirus pubis, não tem feito muitas vítimas.

Mas na Bom Jesus da minha juventude, lá pelos anos 60, com a guaxa funcionando a todo vapor, volta e meia, como se dizia então, aparecia algum conhecido com o horrível gesto de estar se coçando lá naquele lugar, porque tinha sido tomado por uma fenomenal infestação de chatos. E esse parasita incomodava demais aqueles sortudos. Alguns, inclusive, na ânsia de dar fim ao parasita, quase ateavam fogo aos tais pelos pubianos, ou se valiam de métodos de cura que deixavam a área reduzida drasticamente em suas dimensões.

Por essa razão, as pessoas que incomodavam passaram a ser chamadas de chatas. E havia por todo lado chusmas de chatos – agora pessoas –, que os não-chatos, quer dizer, as pessoas normais, nem sempre conseguiam evitar.

Chegou-se, então, ao ponto de se instituir uma classificação mais detalhada da “quantidade”, isto é, a exorbitância de incômodo que um chato podia produzir em sua vítima.

Criou-se, assim, uma classificação tripartite, do menos chato, para o mais chato, que assim ficou constituída: chato, zabumba e cricri. E a classificação era autoexplicativa.

O chato todos já o conheciam, sendo mesmo possível nomear alguns deles, só de olhar a Praça Governador Portela numa manhã singela de segunda-feira, por exemplo.

Depois, vinha o zabumba, mais chato que o chato. E a explicação era insofismável: o zabumba dava no saco do chato.

E terminava com o cricri, que era aquele que dava no saco do zabumba.

Imagine o leitor amigo a que grau de chatice chegava uma pessoa classificada como cricri. Esta palavra, inclusive, passou à gíria nacional, muito por conta do jornal O Pasquim, onde o humorista Henfil tinha uma tira com um personagem com esse nome.

O zabumba, infelizmente, não teve essa glória nacional, restando apenas na área semântica da música nordestina, e ficou, com tal sentido, restrito a Bom Jesus do Itabapoana, onde, não sei, se ainda sobrevive.

Espero não ter sido chato. Muito menos, zabumba ou cricri.

Até a próxima!

Retrato falado do chato (Phthuris pubis), ao lado de um fio de cabelo (imagem em mdsaude.com).

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PÊSSEGO SOLTA-CAROÇO

Lá por volta do fim dos anos sessenta e princípio dos setenta, alguns camelôs do centro de Niterói apregoavam com suas vozes estridentes uma fruta chegada do Chile. O destaque do pregão consistia no fato de que seu caroço era facilmente extirpado do fruto:

– Pêssego solta-caroço! Olha o pêssego solta-caroço!

Fosse ou não saboroso, o que importava para o sucesso da venda era a facilidade de se descaroçar o pêssego. Eu mesmo nunca soube que tais pêssegos fossem assim tão facilmente descaroçáveis.

Isso me voltou à memória, porque acabei de comer um desses, adquirido numa quitanda metida a besta, em que a indicação era apenas a de ser importado: pêssego importado. E imagino que, do Chile.

E lá vai a memória para o mercado de Antofagasta, cidade ao norte daquele país. Era janeiro de 1976. Éramos Jane e eu, recém-casados, e Eduardo e Marília, nossos parceiros de viagem, e também mais um jovem casal paulista que encontramos ao acaso no Peru, sendo a menina uma linda nissei que chamava a atenção de muitos chilenos, admirados dos seus olhos de amêndoa.

Não me lembro por que indicação chegamos ao mercado, uma construção em ferro razoavelmente grande, numa elevação diante do mar, cheia de bancas dos mais variados produtos.

Ao entrar, tivemos nossa atenção despertada para a banca de pêssegos. As frutas perfumavam o ambiente com seu cheiro doce. Tinham a casca aveludada na cor ouro velho e a consistência suavemente firme. E o melhor: custavam apenas dois pesos chilenos, que àquela altura equivaliam a dois cruzeiros, a dúzia.

Compramos algumas dúzias e fomos comê-los no gramado em frente, onde nos sentamos sobre a relva.

Quando nos deliciávamos com o sabor da fruta, com o panorama do Pacífico ao fundo, aproximou-se de nós um jovem chileno desconfiado. Era magro, cabelos lisos e as feições dos primeiros habitantes da terra. Descobriu que éramos estrangeiros e logo perguntou se seríamos espiões do governo Pinochet, cuja ditadura andava metralhando automóveis que circulassem após o “toque de queda”. Dissemos que não, que éramos brasileiros, gente boa e pacífica como o oceano logo ali. Mas ele disse que isso não importava, já que os generais brasileiros haviam ajudado Pinochet a tomar o poder no Chile. Após a troca de algumas frases, confiando em que não fôssemos realmente agentes infiltrados, aproveitou para debulhar um rosário de lamentações acerca da sua situação e da do seu povo, uma tribo autóctone que habitava terras abundantes em cobre, o que motivou a dispersão da população, em vista do interesse econômico na exploração do mineral.

Era ele uma pessoa simples, quase sem estudos formais, que vivia da caridade do Exército da Salvação e de uma ou outra ajuda que conseguia de estranhos em troca de algum favor. Mas nos deu uma aula de sociologia e política, apenas com a história que nos contava sobre as mazelas por que passavam ele e seu povo.

E ficamos ali, os seis brasileiros, a ouvir, embasbacados, as lamentações do chileno, expulso de sua terra, para que a exploração de cobre deslanchasse.

O pêssego ganhou certo travo amargo, como se isso fosse possível. Entretanto, até hoje, mesmo com essa memória dolorida do encontro com o indígena chileno, nunca mais comi um pêssego com tal sabor.

E nem me lembro se aquele pêssego de 1976 soltava facilmente o caroço. Talvez não. O caroço duro e irremovível que restou foi a história cruel daquele jovem e de seu povo, que nunca mais saiu de mim.

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CERTOS TIOS

Meu conterrâneo real e amigo virtual Jonatas Nascimento confessa em público pelo Facebook que lá pelos seus verdes anos, quando ainda morava em nossa vilazinha natal, era vizinho de um certo Tijorge, que era a forma como se diz comumente aquilo que seria Tio Jorge, com a aglutinação do título ao nome. Só mais tarde, ainda segundo ele, descobriu que o tal vizinho não era tio, o que, no entanto, sofreu uma reviravolta porque, aí bem mais tarde, soube que aquele Jorge que havia sido e deixado de ser tio era, na verdade, tio por afinidade, por ser casado com uma irmã de sua avó. Na vila, dizia-se, nesses casos, tio emprestado. Então justificava-se o Tijorge, como ele fora inicialmente chamado.

E isto é interessante observar, pois na Carabuçu da minha infância (Com certeza, sou um pouco mais velho que o Jonatas!), não havia o hábito de se chamar tio/tia às pessoas mais velhas. Tal denominação era restrita àqueles que, por consanguinidade ou por afinidade, fossem “realmente” tios/tias. Às demais pessoas, as crianças chamavam de Seu Fulano e Dona Cicrana: Seu Valdemar e Dona Tana, por exemplo, nossos vizinhos de frente.

Também ocorria não tratarmos por tio alguns tios reais, pela pouca diferença etária para nós, como no meu caso os tios Paulo, Louro e José Catarina, o Cate. Eles mesmos dispensaram os sobrinhos de assim se dirigirem a eles, inclusive com a solicitação de bênção, tão comum à época:

– Bença, tio! Bença, tia!

O mesmo ocorria com minha mãe. Dos diversos irmãos de sua mãe, apenas o mais velho merecia tal tratamento, talvez pela mesma razão como acontecia comigo: o João, que ela e os demais chamávamos de TitiJoão, era seu tio mais velho. Os demais ela os tratava apenas pelo nome ou o apelido: Raul, Carlito, Cícero, Tônio, Chiquito e Tieca.

Relativamente a este último, meu tio-avô Tieca, que dizíamos Titieca, certa vez ocorreu um fato interessante. O vigário da paróquia de Bom Jesus do Itabapoana, Padre Francisco Apoliano, que, uma vez por mês, atendia à capela da vila, precisava da autorização do meu tio, cuja casa era vizinha ao pequeno templo, para a instalação de um novo e mais poderoso sino, justamente situado na divisa com seu quintal. Para facilitar as coisas, foi falar com nossa prima Juracy, que sabia ser sobrinha dele, para que falasse com o “Sr. Eca” sobre o assunto. Juracy sorriu e explicou para ele que o nome, ou antes, o apelido do tio era Tieca, e não Eca. O padre então disse que ele não era seu tio e achou muita graça com a confusão, pois imaginava que, quando a ele se referia, já se fizesse a aglutinação de tio a Eca, como era comum ao nosso jeito de falar.

Tal também era a percepção que Jonatas tinha do nome do meu tio-avô, como disse na sequência do diálogo que mantivemos, por esses dias, pela página do Facebook.

Por isso é que Jonatas, quando criança, alimentasse a esperança de, no dia em que fosse ao Rio de Janeiro, encontrar por lá um certo parente seu a que sempre em sua casa se faziam menções: Tijuca. Talvez até mesmo irmão do Tijorge. Sabe-se lá!

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CERTOS PREGÕES

Meu netinho é encantado com o pregão da caminhonete que passa pelas ruas do bairro à cata de velharias:

– Panela velha, máquina de lavar velha, geladeira velha!

A emissão que se espalha no ar vem metalizada pela baixa qualidade do sistema de som do carro. Talvez seja isso o mais interessante para ele. A voz do locutor sai espremida, rascante, metálica:

– Ventilador velho, liquidificador velho, geladeira velha!

Certo dia, rindo, ele emendou:

– Vovô velho!

Mas ficou chateado quando eu disse “Francisco velho!”.

Os pregões são formas orais tradicionais usadas por ambulantes para anunciar a mercadoria à venda. Vem desde que o homem saiu com os produtos de sua colheita ao encontro de possíveis compradores, pelas ruas das vilas e das cidades. Era preciso anunciar.

No caso específico da caminhonete do ferro-velho, o que se anuncia é o que se compra, diferentemente dos pregões tradicionais.

Normalmente os pregões se resumem a enunciar o nome da mercadoria ou do seu vendedor:

– Olha a banana! Olha o bananeiro!

– Olha o peixeiro!

– Olha a laranja! Olha o laranjeiro!

Um ou outro tinham formas mais elaboradas, como versinhos rústicos, como do vendedor de pirulitos:

– Olha o pirulito americano: bota na boca e sai “chupano”!

Uns usavam o humor para chamar a atenção:

– Moça bonita não paga. Mas também não leva!

Escuto pregões desde que me entendo por gente. Lá na minha Carabuçu natal eles existiam. Eu mesmo já os produzi, em moleque. Saía à venda das laranjas da minha avó. Confesso, no entanto, que tinha certa vergonha de sair gritando pelas ruas miúdas da vila.

Quando cheguei a Niterói, em 1967, deparei com o centro da cidade coalhada de camelôs, uns mais histriônicos que outros, mas todos com seus pregões reconhecidos, à cata de clientes.

Havia um que sempre se postava na esquina da Avenida Amaral Peixoto com a Rua Visconde do Uruguai e anunciava, com sua voz espremida e ligeiramente gutural, um pregão bem diferente, só decodificado ao se ver o ele que vendia:

– Quem tem criança na escola! Quem tem criança na escola!

O /s/ de escola saía bastante chiado, como é comum ao carioca. Assim era a forma de tentar vender seus cadernos.

Outro, que vendia traquitanas para a cozinha, nas imediações, dizia uma frase também bem estranha, enquanto manipulava o objeto:

– Não resta prática, nem tampouco habilidade!

E eu ficava intrigado com aquele verbo restar na frase. Até que meu amigo Valter Bretas esclareceu que o camelô deveria querer dizer “não requer prática”. Era realmente isso: o treco era de fácil manejo.

Tempos depois tive minha atenção despertada pelos camelôs de La Paz, na Bolívia. Observei que seus pregões tinham uma estrutura fixa, na maior parte das vezes: o nome da mercadoria era enunciado duas vez na forma normal e uma terceira vez, na forma diminutiva.

– Pañuelos! Pañuelos! Pañuelitos!

– Chompas! Chompas! Chompitas!

– Ponchos! Ponchos! Ponchitos!

Ainda que o terceiro termo não estivesse no diminutivo, a forma tríplice era uma constante:

– Chicha blanca! Chica blanca! Chicha blanca!

Outro camelô, este já no Rio de Janeiro, no calçadão da Rua São José, lá pelos anos 70/80, era uma figura e tanto. Estava sempre de paletó e gravata, óculos escuros, cabelos cortados rentes. Vendia baralhos, que expunha sobre sua pequena banca, e pomada japonesa, que ficava escondida sob ela. Os baralhos eram anunciados aos brados; a pomada japonesa, contudo, era apregoada em um tom bem baixo.

– BARALHOS DE NYLON! BARALHOS DE PLÁSTICO! Pomada japonesa!

Cada um encontra o tom certo, o ritmo adequado, a fórmula capaz de encantar o possível comprador. Outros, contudo, por certas limitações, acabam criando quase um pânico nos ouvintes. Era o caso do Zé do Ovo, já citado aqui em outra postagem.

Zé do Ovo era um pobre coitado, deserdado da vida e do juízo perfeito, que minha sogra como que adotou ainda adolescente. Por vezes ele passava uma temporada em sua casa e era tratado com um filho a mais. Mas sempre apresentou algum transtorno e era tido como meio lelé da cuca. Quando eu o conheci, ele já era um homem feito e sempre estava por lá. Em alguns momentos, colhia folhas de couve da horta da dona Judith, colocava numa cesta e saía a apregoar pelas ruas de Miracema:

– Olha o “coveiro”! Olha o “coveiro”!

Mas, normalmente, voltava para casa todo feliz, com seu sorriso banguela, a cesta vazia e o dinheirinho miúdo no bolso.

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Jean Baptiste Debret, Negras quitandeiras, séc. 19 (em pinterest.com).

COCOTE

Cocote, pronunciado com os /o/ fechados, era o goleiro do Liberdade Esporte Clube, o valoroso esquadrão alvianil da minha vilazinha natal. Ele defendeu a meta do time por alguns anos, tendo sido efetivado no gol tão logo atingiu a maior idade penal – de penalidade máxima, pênalti.

Embora eu tenha saído de Carabuçu aos meus dezoito anos, até então Cocote era o goleiro mais longevo do clube. Antes dele, houve o Reginaldo, rapaz do Rio de Janeiro que milagrosamente se apaixonou pela vila e por lá ficou, até que a fatalidade o colhesse em plena juventude, num fatídico banho de rio.

Pelo que me lembro, logo depois do Reginaldo, o Bié foi deslocado da ponta-esquerda para o a função de guardião das cores branca e azul, após um petardo violento de canhota que atingiu a cabeça de um menino que brincava à margem do gramado, deixando-o desacordado. João Coleto, treinador e pai do Bié, houve por bem levá-lo para o gol, antes que provocasse uma tragédia. E, segundo ainda minha memória, também não fazia feio. A voadora que Bié dava em direção à bola chutada na forquilha era muito plástica e espalhafatosa.

Contudo, após algum tempo, Cocote foi promovido a titular da meta.

Cocote era filho da Filhinha da Hortênsia, de família muito humilde, que morava na Coreia, espécie de bairro da vila minúscula. Pelo que me lembre, até o momento de ser efetivado como goleiro, não tinha trabalho certo. Sem ser alto, um tanto roliço para a função, ainda assim ficou na memória de todos aqueles que, aos domingos, iam ao Estádio Dr. César Ferolla assistir às partidas do campeonato bonjesuense, pela destreza e habilidade com que se portava.

Seu nome era Jorge, e apenas sua mãe assim o chamava Toda a vila o conhecia pelo apelido, cuja origem desconheço e imagino mesmo que nada tenha a ver com a palavra francesa cocotte, de pronúncia aberta.

Ao ser inscrito para o campeonato da Liga Bonjesuense de Desportos – LBD, Cocote deveria assinar a ficha de inscrição e a súmula de cada jogo oficial. Como fosse analfabeto e não tivesse registro civil, os dirigentes do Liberdade Esporte Clube, para facilitar as coisas, resolveram que ele se chamaria a partir de então Jorge Sá. Seria menos difícil ensiná-lo a assinar o nome. Sobretudo Sá: uma cobra e uma bolinha com rabo de porco do lado direito, mais uma cunha no alto da bolinha. Jorge foi um pouco mais complicado, mas não havia como trocar o nome dado pela mãe.

E assim foi feito! Cocote, que raramente era chamado de Jorge, sem pai conhecido, analfabeto, filho de gente humilde, passou a assinar-se Jorge Sá e a defender a meta do glorioso time de futebol de Carabuçu.

Até aqui, este é um retrato um tanto idealizado daqule goleiro que defendia o time de futebol da minha vila natal, embora saiba que, posteriormente, a vida lhe tenha reservado caminhos tortuosos e não não tão edificantes.

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NÃO SEI O QUE FOI FEITO DO TORRESMO

Torresmo chegou à nossa vila por volta dos anos cinquenta do século passado. Era um moleque um pouco mais velho do que eu e trouxe um jeito de ser bem diferente de todos nós. Era alegre, divertido, brincalhão, de uma forma meio irresponsável, inconsequente. Nunca soube, de fato, seu nome. Nem mesmo se o apelido Torresmo ele trazia de onde veio, origem também que não sei, ou se foi colocado na própria vila.

Tínhamos, então, e quero crer que até hoje, o vezo de apelidar as pessoas. Este é um traço característico marcante das pequenas comunidades interioranas. Muitos moradores de Carabuçu eram chamados por seus apelidos, alguns deles derivados dos próprios nomes, como Tônio Pinto, Juca Jacó, Quincas Emiliano, Zé Carola; outros, de sua profissão, como Nequinha Capador, Mané Pindoba, Zé Oleiro; outros mais, sem uma explicação plausível, mas talvez por algum motivo que então me escapava, como Elias Penudo, Antônio Chambão, Pedro Moranga, Elias Pelanquinha, Toniquinho Lava-bunda; outro tanto, apenas com o apelido a identificar, como Solé, Caburé, Coberta Velha, Puri, Tatu, Memeco, Galo Cego, Escabufado. E por aí afora. A quantidade de pessoas com apelido era imensa.

Mas o Torresmo, tenho a impressão, já chegou pururucado a Carabuçu. Não foi frito lá.

Era um moleque dos seus treze-quatorze anos que trabalhava num bar da família, fazia obrigações pelo comércio local, e não tinha tempo útil para brincar conosco. Estava sempre calçado de tamancos, como aliás vários de nós, só que, ao caminhar, ele esfregava a ponta dos tamancos contra o piso das calçadas, tirando deste gesto uma espécie de ronco da madeira, um tanto assemelhado ao canto dos carros de bois, sem, contudo, a mesma beleza. O barulho dependia do estado do piso, se mais liso ou mais áspero, que lá dizíamos caracaxento. No piso caracaxento, o ronco do tamanco era mais grave; no liso, mais agudo. Era só a gente ouvir aquilo, para saber que o Torresmo tinha saído à rua, com alguma finalidade, e aproveitava a oportunidade para sua brincadeira barulhenta. Acho até que era, além de brincar, uma forma de o Torresmo marcar território, como fazem os animais no seu espaço físico.

– Lá vai o Torresmo!

– Lá vem o Torresmo!

Era o que passava em nossa cabeça, conforme o barulho crescesse ou diminuísse.

Pouco tempo convivemos com ele. Assim como não sabia de onde tinha vindo, não soube também para onde foi. Um dia a família se mudou, e lá se foi Torresmo com seus tamancos barulhentos, seguramente a aprontar em outras calçadas em algum lugarejo perdido por esse interior afora.

Por isso, até hoje, não sei o que foi feito do Torresmo.

 

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CAÇOADAS E CAÇOADORES

Um dos divertimentos preferidos da minha Carabuçu da infância e da adolescência era a caçoada. Havia na vila um bom número de moradores cujo entretenimento predileto era caçoar dos outros.

Talvez aqui algum leitor citadino, sem a experiência das coisas do interior, não atine bem para o que seja este tipo de divertimento ou esporte, sei lá.

É que, por aquela altura, a vila não oferecia muitas opções de lazer. A folhinha marcava os anos cinquenta e sessenta do século passado. Então algumas pessoas se divertiam em caçoar dos outros.

Mas você, leitor amigo, não sabe o que é caçoar? Vou esclarecer, transcrevendo as definições do dicionário Michaelis, a fim de que você entenda como isso poderia funcionar.

No Dicionário Michaelis (michaelis.uol.com.br/moderno-portugues) estão registradas as seguintes acepções da palavra: “1 Dizer ou fazer algo para causar riso ou chacota; fazer troça a, zombar de; cachetar, ridicularizar, zoar: Caçoava os adversários políticos. Não caçoo de ninguém. Você caçoa, sim.

2 Mentir de brincadeira: Vai caçoar pra lá; matou nada!

3 COLOQ Desacreditar; não dar importância, duvidar: Não podia acreditar; afinal, a vida toda caçoara de histórias de fantasmas.

4 Fazer caçoadas com a intenção de provocar alguém ou apenas para brincar; atiçar, implicar, instigar: Caçoa do apelido do irmão até provocá-lo para briga.”

Alguns carabucenses (cuidado com a palavra) se destacavam.

Niltinho Pontes, por exemplo. Bancário do extingo BERJ – Banco do Estado do Rio de Janeiro, que tinha um posto na vila, Niltinho era uma pessoa culta, para a média da população local, o que lhe permitia caçoadas inteligentes. Ou Paulinho Sucanga, meu tio, e um dos maiores jogadores de futebol que já vi atuar, com seu jeito moleque de encarar a vida. Havia o Elias Pelanquinha também. Meu primo de terceiro grau, meio-campista do Liberdade Esporte Clube, e grande carnavalesco. Gostava de sair, durante a folia momesca, fantasiado de bebê, com um fraldão, chupeta pendurada ao pescoço, levando na mão um penico com cerveja e algumas salsichas boiando, numa sugestão nojenta para olhos mais sensíveis. Ele tirava a salsicha do líquido amarelo e a comia na frente de mulheres envergonhadas. Os irmãos Renato e Antônio Milton, irmãos do meu amigo Cabeção, grandes jogadores de sinuca, que debochavam sempre dos parceiros mais fracos. O Coberta Velha, que se destacava pela risada escandalosa, motivo do apelido, logo após suas caçoadas. Parecia uma coberta velha sendo dilacerada à força. O Elias Penudo era outro caçoador emérito. Com uma cara de sujeito sem graça, o andar meio desengonçado de marreco, vivia de caçoar o que estivesse mais próximo. Outro era o Dadá Machado, também meu primo, e cheio de deboches e brincadeiras com seus fregueses do bar. Mas do Dadá era de se esperar isso. Sua cara já o denunciava de antemão. O Moreninho barbeiro era outro brincalhão. Muito falante, como é comum aos barbeiros, cinéfilo de carteirinha, Moreninho fazia do seu salão o ponto de encontro para uma conversa descontraída e cheia de humor. Durante dois anos, fui aprendiz do ofício que ele exercia com extrema maestria e pude desfrutar daquele ambiente de saudável descontração, embora fosse um ambiente de trabalho como outro qualquer. O China alfaiate talvez fosse o maior deles. É impossível lembrar do China, hoje residente em Bom Jesus do Itabapoana, sem que venha à memória as brincadeiras que aprontava com todos. Do seu ateliê saíam tanto roupas muito bem cortadas, quanto caçoadas afiadíssimas. Aliás, China me disse há algum tempo que foi meu pai quem lhe deu o apelido, que lhe substituiu completamente o nome, Otoniel. E meu pai era um homem sisudo, de poucas palavras e ainda menos sorrisos. Mas um apelidador de marca maior.

O interessante desse tipo de brincadeira é a de que era inconsequente. Não produzia nenhum malefício ao outro, que, no fim, também acabava caindo na gargalhada – ou, como se diz lá ainda hoje, pocando de rir – e se divertindo. Era um jeito lúdico e descontraído de se estreitarem relações sociais numa vila tão pequena, em que todos se conheciam e se estimavam. Claro que havia escaramuças raras, mas, no geral, na normalidade, todos viviam em paz, no sossego das casas e das ruas. E cuidando para não cair na próxima caçoada de um desses conhecidos gozadores.

 

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Militão dos Santos Lima, Paisagem rural (em pinterest.com).