GOL DE PORCO

O campo do Fluminensinho margeava bem junto do Rio Itabapoana, do lado do Estado do Rio, próximo à charqueada.

Era meramente um espaço demarcado num gramado um pouco mais amplo, decorado com duas balizas de madeira simples e escassa marcação das linhas regulares dos gramados oficiais. E tinha dimensões acanhadas para os padrões atuais.

O Fluminensinho mesmo não fazia parte da chamada elite do futebol bonjesuense e disputava seus esporádicos jogos, quase sem plateia, lá uma vez e outra. Torcida mesmo, acho que também não tinha. Assim como sede, ou uniforme completo. Seus jogadores não jogavam em nenhum dos dois clubes importantes das duas Bom Jesus, o Olímpico, do lado fluminense, e o Ordem e Progresso, do lado capixaba. E seus abnegados atletas de ocasião se cotizavam sempre que surgia despesa com bola, rede, cal, pinga, carne para churrasco e cerveja.

No entanto o Fluminensinho disputava partidas, com todas as consequências inerentes a este antigo e viril esporte bretão.

Num desses jogos, contra um certo time Tupi, de plagas adjacentes a Bom Jesus, a disputa seguia ferrenha, mas sem que nenhuma das equipes tivesse ainda furado as redes do adversário. No Fluminensinho, dois jogadores se destacavam. Nem tanto por suas habilidades com a redonda, mas antes por sua compleição física, digamos, um tanto avantajada.

Um era o Absoluto, negro alto, dobrado da cintura para cima, que trabalhava como carregador e descarregador de caminhões, para o comércio local. Dizia sua mitologia da época que ele era capaz de transportar quatro sacos de sessenta quilos de uma só vez: um na cabeça, um sob cada braço e o quarto nos dentes. Tirante isso, era um homem cordial, de muito bom humor e prestativo para quem dele necessitasse. Também com aquela massa muscular, não havia ninguém que tirasse farinha com ele!

O outro era o Nivaldo. Mulato também dobrado, entregador de banda de boi do matadouro da cidade, a qual ele carregava nas costas com uma facilidade tão grande, que parecia transportar fardo de algodão. Nivaldo tinha um bigodinho estreito a fazer comichão na platibanda do beiço, o que lhe dava aspecto de cantor de boleros e sambas-canções na guaxa localizada um pouco mais acima do mesmo rio. Mas também ninguém tinha coragem de dizer isso em público ou em privado.

Os dois, Absoluto e Nivaldo, compunham a dupla de ataque do Fluminensinho, de modo que todo e qualquer adversário já entrava em campo com metade da razão perdida, na discussão de possíveis erros e acertos de arbitragem. Mas eles não entravam para brigar, e sim para jogar sua bolinha descompromissada dos fins de semana.

Pois ia lá o jogo empatado até quase o final da partida, quando um meio-campista lança a bola na direita, para a entrada em profundidade do Absoluto, que disparou no espaço aberto. Quando ele lá chegou, em sincronia com a pelota, inadvertidamente adentrou o gramado do Fluminensinho distraído leitão, proveniente dos lados da charqueada, fugindo da corrida de um cachorro vira-lata. O pobrezinho coitado, na inocência dos seus seis quilos e pouco, entrou no ângulo da linha da bola e do pé do Absoluto, naquela confluência em que, se atingida, dela não se escapa, e foi pego no vazio pelo pontapé potente do atacante tricolor. E voou ele, na mesma curva que faria a redonda se lá estivesse, em direção à área, para onde, também como um corisco, se precipitava Nivaldo e toda a sua pessoa dobrada. Nivaldo chegou no exato instante de meter a cabeça no mamífero artiodáctilo doméstico, da família dos Suídeos, e mandá-lo ao fundo das redes e assim assinalar o primeiro e único gol suíno de que tenho notícia, em setenta e poucos anos de causos e histórias.

E o Fluminensinho venceu mais uma emocionante contenda. Só o artilheiro não conseguiu ir até o fundo das redes pegar a bola e beijá-la, porque àquela altura o porquinho fugia grunhindo, em desabalada carreira na direção do vira-lata.

    Imagem obtida na Internet.
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ROSÁRIO

Um terço do tempo de que disponho
Teço plano
Para tomar de assalto os teus enganos

Outro terço do tempo que suponho
Ter como dono
Me abrigo nos escondidos dos teus sonhos

No último terço do tempo que então me sobra
Ponho-me à obra
De reconstruir o que ficou de tanto tempo estranho.

Foto do autor.

Foto do autor.

POEMA SIMPLES

 

Não trava o gosto na boca
A fruta que não se prova
A boca que não se beija
O beijo que não se rouba

Não trisca o tato na pele
O corpo que não se toca
A língua que não se roça
Por sob os negros cabelos

Não ferve de fato o sangue
A dor que passa ao largo
A traição consentida
E um arremedo de vida

 

 

Beijo na cama - Henri de Toulouse - Lautrec

Toulouse-Lautrec, Na cama; 1893 (em valiteratura.blogspot.com.br).

CORDEL DAS AGÊNCIAS NACIONAIS DE COISAS E TAIS

 

Tenho trauma da ANEEL
E sua trama elétrica:
Verde, amarela, vermelha,
A conta vem bem estética,
Mas come no nosso bolso
Sem pudores e sem ética.

A ANATEL não me engana
Com seu zelo internético.
Faz o jogo das empresas
Deixa o cliente patético.
Viver sem acesso à rede
Vai me deixar apoplético.

A ANAC, pelos céus!,
É uma agência estranha.
Faltou água, vem a conta
Por conta da agência ANA,
E mesmo o gás natural,
O petróleo e os combustíveis
Pelos ritos da ANP,
Andam a preços incríveis.

De mesmo jeito a saúde
Que todo povo merece
Morde parte do salário
Nos preços que a ANS
Autoriza aos prestadores
Dos planos de quem carece
De atendimento privado,
Porquanto o do INSS
Deixa o doente sofrendo
Tanto tempo que enlouquece.

Como avisa a ANVISA
Remédio vai ter aumento.
Faltou a vacina a tempo
Isto é outro contratempo.
Toda agência que se preze
Faz do prazer sofrimento.

Quem se transporta por terra
De onde pra não sei quê
Por sobre a buracaria
Das estradas que se vê
É da conta da autarquia
Da sigla ANTT.

Por sua vez a ANTAQ
Me causa ataques diários
Quando atravesso de barcas
Com seus serviços precários
De Niterói para o Rio
Nos meios aquaviários.

Restou por fim a ANCINE
Na solução do problema
Que se arrasta dolente
Na indústria do cinema:
A produção nacional
É ainda bem pequena.

Só me faltou referir
A uma nova autarquia:
A Agência Nacional
De Mineração, que um dia
Venha a sair do papel,
Para a nossa alegria.

E vou parar por aqui,
Por motivo de premência
Do tempo, que é exíguo,
E também da paciência
Em entender o que faz
Esse monte de agência.

Imagem em anseiosdaalma.etc.blogspot.com.

Imagem em anseiosdaalma.etc.blogspot.com.

SONETO ANTIGO (À MODA DOS BARROCOS)

 

O teu sossego é meu desassossego.

O meu delírio já se fez tormento.

A minha dor caminha para o medo.

Todo o meu choro é teu contentamento.

 

O meu lamento é frágua, sombra e vento,

Enquanto brincas com tudo que sinto,

Como quem brinca com os seus bonecos,

Desconhecendo o mal que já pressinto.

 

E, quando vejo, estás tão distraída,

Sem te importar com esta vaga vida,

Em que levamos nosso amor de estio.

 

Não ligas nada, enquanto passa o tempo.

Inconformado, entretanto, tento

Ficar no cais sozinho a ver navio.

Tomasini, Barcos no Tejo perto da Torre de São Julião da Barra, 1855, em museu.marinha.pt

ANÁTEMAS, ESCÁRNIOS E IMPRECAÇÕES

 

*Desfez-se a antiga aliança entre PT e PMDB. Agora os novéis opositores acusam-se mutuamente pelos erros na condução da administração federal. É um dos casos brasileiros de que os dois opostos estão abarrotados de razões.

*O PMDB desembarcou do governo federal. Nos estados e municípios, as alianças continuam as mesmas. Há sinceridade nisso?

*A coisa só não ficará mais feia com o Temer na presidência, porque a primeira dama é bonita que só ela.

*Vasco e Flamengo empataram novamente. Bem feito para os dois!

*O futebol brasileiro, depois de experimentar alguns anos de encantamento – entre 1958 e 1970 –, entrou definitivamente na Era Dunga, mesmo ainda com o Scolari na última Copa do Mundo.

*Solicitado pela professora a construir uma frase com três advérbios, Joãozinho cunhou esta: Sinceramente Cunha atualmente somente.

Diferente do que pensam os brasileiros acerca dos poderes da república, o único poder hoje entre nós é o do Aedes Aegypti.

*Qualquer decisão jurídica, por mais imparcial que seja, só presta se for a meu favor. Caso contrário, é deslavada injustiça.

*Durante anos, convivi com um amigo de trabalho que apoiava a ditadura militar, enquanto eu era contrário. Nunca deixamos de ser amigos. Só não tocávamos no assunto, que era um ponto de provável atrito entre nós. Em tempo: este meu amigo é uma das pessoas mais éticas que conheço e de uma lealdade inquestionável.

*Gostava mais da política que se fazia sem sectarismos e sem ódios. No fundo, todos os partidos políticos pretendem mesmo é o poder e sua manutenção.

*Nossa atual situação já estava prevista no título de uma antiga peça teatral de autoria de Ferreira Gullar e Oduvaldo Vianna Filho: Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come.

*Há cerca de quinze dias, foi estendida, na grade da Praça Getúlio Vargas, em Niterói, uma grande faixa com fundo preto, letras garrafais brancas, com o a frase: NO BRASIL OS PARTIDOS POLÍTICOS SÃO FACÇÕES CRIMINOSAS. Havia, no canto inferior esquerdo, um número de protocolo do TRE-RJ, como que a autorizar sua exposição. Obviamente que, embora todos saibamos que nossos partidos estejam contaminados, a supressão deles necessariamente só ocorreria em uma ditadura, o que, convenhamos, é ainda pior do que o estado atual.

*A democracia é o único sistema político em que eu posso falar os maiores absurdos e não ser preso por isso. Nas ditaduras, até mesmo – e sobretudo – as verdades são perigosíssimas para a saúde do falante.

*Aquela cara de satisfação disfarçada que o Michel Temer tem apresentado com mais frequência em público não é porque esteja pretendendo a presidência. Aliás, longe dele fazer essa tramoia com a antiga aliada. É apenas para escarnecer de quem o inveja pela provável primeira dama.

*Maldito o que vem em nome do corruptor!

*Tenho certeza de que alguns beneficiários ilícitos da grana da Petrobras lamentam muito o fato de que o Pré-Sal não produziu fortemente antes da Lava Jato.

*A corrupção no Brasil se tornou tão corriqueira, que, em Fundão-ES, até auxiliar administrativo desviava fraldas geriátricas. Isso só poderia dar merda. Como deu, aliás!

*O Estado do Rio de Janeiro reinventou a velha situação estou-dentro-estou-fora, tão conhecida de todos. O Picciani pai, presidente da Assembleia fluminense, rompeu com o governo Dilma. O Picciani filho, ex-atual-futuro-ex-líder do PMDB na Câmara, apoia Dilma. Ambos são do PMDB.

 

 

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