PÊSSEGO SOLTA-CAROÇO

Lá por volta do fim dos anos sessenta e princípio dos setenta, alguns camelôs do centro de Niterói apregoavam com suas vozes estridentes uma fruta chegada do Chile. O destaque do pregão consistia no fato de que seu caroço era facilmente extirpado do fruto:

– Pêssego solta-caroço! Olha o pêssego solta-caroço!

Fosse ou não saboroso, o que importava para o sucesso da venda era a facilidade de se descaroçar o pêssego. Eu mesmo nunca soube que tais pêssegos fossem assim tão facilmente descaroçáveis.

Isso me voltou à memória, porque acabei de comer um desses, adquirido numa quitanda metida a besta, em que a indicação era apenas a de ser importado: pêssego importado. E imagino que, do Chile.

E lá vai a memória para o mercado de Antofagasta, cidade ao norte daquele país. Era janeiro de 1976. Éramos Jane e eu, recém-casados, e Eduardo e Marília, nossos parceiros de viagem, e também mais um jovem casal paulista que encontramos ao acaso no Peru, sendo a menina uma linda nissei que chamava a atenção de muitos chilenos, admirados dos seus olhos de amêndoa.

Não me lembro por que indicação chegamos ao mercado, uma construção em ferro razoavelmente grande, numa elevação diante do mar, cheia de bancas dos mais variados produtos.

Ao entrar, tivemos nossa atenção despertada para a banca de pêssegos. As frutas perfumavam o ambiente com seu cheiro doce. Tinham a casca aveludada na cor ouro velho e a consistência suavemente firme. E o melhor: custavam apenas dois pesos chilenos, que àquela altura equivaliam a dois cruzeiros, a dúzia.

Compramos algumas dúzias e fomos comê-los no gramado em frente, onde nos sentamos sobre a relva.

Quando nos deliciávamos com o sabor da fruta, com o panorama do Pacífico ao fundo, aproximou-se de nós um jovem chileno desconfiado. Era magro, cabelos lisos e as feições dos primeiros habitantes da terra. Descobriu que éramos estrangeiros e logo perguntou se seríamos espiões do governo Pinochet, cuja ditadura andava metralhando automóveis que circulassem após o “toque de queda”. Dissemos que não, que éramos brasileiros, gente boa e pacífica como o oceano logo ali. Mas ele disse que isso não importava, já que os generais brasileiros haviam ajudado Pinochet a tomar o poder no Chile. Após a troca de algumas frases, confiando em que não fôssemos realmente agentes infiltrados, aproveitou para debulhar um rosário de lamentações acerca da sua situação e da do seu povo, uma tribo autóctone que habitava terras abundantes em cobre, o que motivou a dispersão da população, em vista do interesse econômico na exploração do mineral.

Era ele uma pessoa simples, quase sem estudos formais, que vivia da caridade do Exército da Salvação e de uma ou outra ajuda que conseguia de estranhos em troca de algum favor. Mas nos deu uma aula de sociologia e política, apenas com a história que nos contava sobre as mazelas por que passavam ele e seu povo.

E ficamos ali, os seis brasileiros, a ouvir, embasbacados, as lamentações do chileno, expulso de sua terra, para que a exploração de cobre deslanchasse.

O pêssego ganhou certo travo amargo, como se isso fosse possível. Entretanto, até hoje, mesmo com essa memória dolorida do encontro com o indígena chileno, nunca mais comi um pêssego com tal sabor.

E nem me lembro se aquele pêssego de 1976 soltava facilmente o caroço. Talvez não. O caroço duro e irremovível que restou foi a história cruel daquele jovem e de seu povo, que nunca mais saiu de mim.

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Imagem em belezaesaude.com.

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MORRO DA CONCEIÇÃO

Neste último domingo, resolvemos ir à festa Santos Populares Portugueses, no Armazém da Utopia, no renovado cais do Rio de Janeiro. Além de mim e Jane, iam conosco Estefânia e Francisco, filha e neto. Por volta das treze horas e trinta, ao nos aproximar do local, através da Via Binário, percebemos que a fila de entrada dava voltas. Como Francisco já tivesse revelado estar com fome, decidimos mudar os planos.

Estefânia trabalha na esquina da Avenida Rio Branco com a Rua Visconde de Inhaúma e conhece vários restaurantes nas imediações. E, como soubesse do interesse da mãe em conhecer o Morro da Conceição, bem ali perto, sugeriu que almoçássemos no Bar Imaculada, numa das subidas do morro.

Pegamos a escadaria pela Travessa do Liceu e chegamos à Ladeira do João Homem, uma das subidas do morro, onde se localiza o bar. A Praça Mauá não fica longe dali.

Almoçamos e saímos a conhecer o local. Subimos toda a Ladeira até chegar ao largo onde se ergue a Fortaleza de Nossa Senhora da Conceição, construção portuguesa de 1713 no local de uma antiga bateria de canhões do invasor francês Dougay-Trouin.

Descemos a Rua do Jogo da Bola, até uma pracinha acanhada, com alguns poucos brinquedos para crianças, onde Francisco se divertiu. Depois pegamos a Travessa Joaquim Soares, que chega até o Observatório do Valongo, de grande portão fechado. Tomamos as ruas de volta para o largo da Fortaleza, a fim de descer a Rua Major Daemon até a Rua do Acre, onde pegamos o carro de volta a casa.

Foi um domingo interessante, a conhecer um pouco da história e da arquitetura de um Rio de Janeiro que se preserva, a despeito de toda a nossa pouca preocupação com o passado. Aí estão algumas fotos, a ilustrar o nosso passeio.

Ladeira do João Homem

 

Casas na Ladeira do João Homem

Outra vista das casas da Ladeira do João Homem

Fachada do Imaculada Bar e Galeria

Janela na Ladeira do João Homem

Jane, Francisco e Estefânia no fim da subida da Ladeira do João Homem

Largo da Fortalea de Nossa Senhora da Conceição, com a imagem no pedestal

Francisco se diverte na pracinha.

Lateral da Fortaleza da Conceição

Muro frontal da Fortaleza da Conceição

Serviço Geográfico do Exército, na Rua Maj. Daemon

Serviço Geográfico do Exércio, na Rua Maj. Daemon

NA ESTRADA

 

Tenho viajado tanto a Miracema e Bom Jesus, que posso dizer que sou quase amigo dos quebra-molas e pardais. Pelo menos tenho recebido alguma correspondência da autoridade de trânsito me lembrando de que passei por alguns deles, no excesso da preguiça dela e na urgência da minha pressa.

Para que não me repita, escolho às vezes ir por Nova Friburgo. Outras vezes, por Teresópolis. De qualquer forma, tenho de subir montanhas, serpentear estradas, varar municípios, parar nos mais diversos pontos para um cafezinho, para o xixi, para o almoço, ou mesmo para espichar um pouco as pernas e a coluna. Enfim, para uma infinidade de motivos que alongam a viagem, mas a tornam menos cansativa e estressante. E, como tenho de repeti-la com frequência, procuro tirar o maior proveito. Tantas vezes paro para fotografias. É uma árvore florida, outra pelada, uma paisagem interessante. E lá vou eu, sempre de posse de minha câmara, registrando aspectos de uma natureza sempre propícia a se renovar.

Devo confessar que não tenho muito prazer em dirigir, mas o faço sem mortificação. Há a necessidade. E contra a necessidade não se pode ir. Por isso, aproveito.

Já conheço pessoas estrada afora, de cujo nome bem não sei, mas que já presenteei com cd ou com livros. É só puxar assunto e observar o interesse do meu interlocutor, para que me disponha a esse gesto. Sou daqueles que pensam que é melhor parar para uma prosa do que chegar cedo demais. Pode-se ganhar mais tempo com esses prazeres do que com o adiantar da hora.

Todo o caminho é o caminho que se faz, por isso a possibilidade de fazê-lo mais interessante. Eu me repito? Acho que não. Assim também é o caminho. Embora sejamos sempre os mesmos, podemos nos descobrir a cada quilômetro, a cada momento.

Tenho me repetido tanto, sendo diferente a cada vez, que já não encontro sempre as mesmas pessoas que me atendem no cafezinho, por exemplo, à beira da estrada em Ibipeba. E, por isso, tenho de me readaptar, tentar conquistar novamente a simpatia da mocinha que faz o café no momento exato em que o solicito. Depois da segunda vez, parece que sou velho conhecido.

E assim vou (re)fazendo o caminho que me faz retornar às origens – da vida e dos sentimentos –, com o prazer renovado por tão novos e mesmos trajetos.

Paisagem à margem da RJ-116, em Miracema-RJ (foto do autor).

Paisagem à margem da RJ-116, em Miracema-RJ (foto do autor).

BARRA DE SÃO JOÃO

O distrito de Barra de São João, no município de Casimiro de Abreu, sempre foi uma passagem para mim, desde os velhos tempos em que não havia a BR101, a ligar Campos com o Rio de Janeiro. Os ônibus que vinham de Bom Jesus do Itabapoana para Niterói, onde passei a morar em 1968, faziam um trajeto mais longo, entrando em Macaé e percorrendo toda a Rodovia Amaral Peixoto, que justamente passa neste distrito. Dele tinha sempre a imagem da igrejinha (Capela de São João Batista) sobre uma elevação, junto à foz do rio São João, e a velha ponte caída, já substituída pela nova, que hoje já não está tão nova assim.

Até que, neste fim de semana, Jane e eu tivemos de ir a um compromisso social lá perto e ficamos hospedados nesta vila à beira mar, onde passou boa parte da vida o poeta romântico Casimiro de Abreu, que deu nome ao município.

Em primeiro lugar, devo destacar a surpresa com a pousada – Casa Nelly – de um casal de alemães simpaticíssimos, que gostam de conversar e estão sempre dispostos a atender os hóspedes. A pousada fica numa rua transversal à rodovia que corta a vila ao meio (Rua Wellington Borges, 103), bem próxima ao mar aberto, cuja orla está urbanizada.

Tendo ficado lá, resolvi matar o desejo de fotografar aquela igrejinha cenográfica e seu entorno. Depois aproveitamos para seguir a dica das amigas que nos convidaram para o rega-bofe do sábado à tarde e fomos conhecer uma das margens do belo Rio São João, até o hotel fazenda de mesmo nome, a menos de sete quilômetros do centro.

Trago, para os amigos leitores, algumas das fotos de Barra de São João, vila que me surpreendeu ao ser vista de outro ponto que não o da rodovia que é, na prática, sua avenida principal.

Espero que gostem.

 

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SÃO PEDRO DO ITABAPOANA

Estive com parte da minha família em São Pedro do Itabapoana, vila capixaba do município de Mimoso do Sul, distante cerca de vinte e nove quilômetros de Bom Jesus do Norte, onde moram minha mãe e minhas irmãs.

A vila, que já foi sede de município e perdeu este estatuto quando se decidiu o traçado da linha férrea, se localiza na parte sul do estado e está a 460m de altitude. Em virtude da perda da condição de cidade, ficou preservada em suas construções históricas, que se espalham pelas ruas encarapitadas nos morros que constituem sua geografia. Já falei dela em outros textos, mas trago aqui algumas fotos que fiz neste fim de semana, domingo para ser mais preciso, a fim de que meus amigos leitores a conheçam melhor.

Deve-se dizer que hoje a vila é classificada como sítio histórico – Sitío Histórico de São Pedro do Itabapoana – e, além de suas características urbanas, preserva a tradição da viola caipira e da sanfona (acordeão), com atividades frequentes, inclusive com uma escola de música para seus moradores, e um festival anual de grande prestígio, sempre em julho, a que são convidados expoentes nacionais desses dois instrumentos. A vila também conta com uma orquestra de viola e sanfona, que se apresenta na pracinha em datas previamente agendadas.

Como se não bastasse esse cuidado e zelo dos moradores para com a vila e suas tradições, lá se produz a melhor cachaça que pude beber até esta altura da minha vida. Por conta dela, e da minha língua incontrolável que foi dizer isto para um amigo, sou quase obrigado a visitá-la periodicamente para fazer a felicidade dele, que está sempre a me encomendar a preciosidade, comprada no bar do pai do fabricante, um doutor com PHD em cachaça.

Sem mais delongas, aí vão algumas das fotos tomadas neste último domingo. Espero que gostem.

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