NÃO SOU VIKING, MAS SINGREI O ESTREITO DE ORESUND

Nunca fui dado a água grande: mar, rio, valão, lagoa ou mesmo banheira de hidromassagem. Nesta última, então, quase fui vítima de afogamento numa pousada em Visconde de Mauá. Um dia, se tiver desassombro, conto este episódio quase trágico na minha vida. Por essas e por outras, é que sigo, rigorosamente, o ensinamento do dito popular, repetido à exaustão em minha infância: Água não tem cabelo. E, como nunca consegui aprender a nadar (Confesso que raríssimas vezes entrei n’agua com tal propósito!), prefiro manter uma distância respeitosa entre minha pessoa e esse corpo líquido que representa duas terças partes do – ironia – planeta Terra. Guilherme Arantes é que tem razão: nossa nave planetária deveria chamar-se Planeta Água. Obviamente abstraídas aí algumas regiões, como o Saara, o nosso Nordeste e a capital da Locomotiva do Brasil, onde não abunda água, no resto a água abunda à beça!

Toda essa consideração inicial é para lhes dizer que, malgrado todas as indicações em contrário, singrei as águas calmas do Estreito de Oresund, entre Malmoe e Copenhague, no último agosto, mês propício a tragédias de toda ordem. Mas, vencido o medo, me aboletei a bordo do barco de Thor, filho do amigo Rogério Barbosa, que também lá estava, mais seu irmão Roberto, Eduardo Campos, amigo desde as lides acadêmicas, e o mais ajuizado e conhecedor de questões marítimas e embarcadiças, Bosse, amigo de Thor e também sueco de vastas tradições, que lhe dá as instruções de pilotagem, atracação e desatracação, nós e desate de nós.

Thor comprou seu belo barco de dois andares (Não sei se é assim que se diz de barcos.) para dez passageiros há pouco e ainda está a se familiarizar com o timão, ou o que lá seja aquele volante que ele manobra na embarcação. E nos conduziu da marina onde o barco fica ancorado até quase o centro da cidade de Malmoe, onde atracamos para um café revigorante e para saber da sanidade dos seus passageiros. Confesso que não tive o mínimo medo, porque senti tanto pela solidez do barco, quanto pela pilotagem do Thor, com a supervisão de Bosse, que a viagem seria tranquila.

E a viagem, curta, diga-se de passagem, permitiu que víssemos a costa da cidade, olhássemos do outro lado do estreito, onde se coloca Copenhague, a capital da Dinamarca, e observássemos os veleiros que cortavam as águas ligeiramente semoventes, sob um vento brando. A água era de uma azul quase absoluto. Parecia mesmo que não era poluída. Esse tal Estreito de Oresund como que estabelece um limite entre as águas do Mar Báltico e as do Mar do Norte, já que é estreito, como o nome diz, e razoavelmente raso, se me permitem o trocadilho infame. Cortando-o está, desde 2000, a ponte que liga as duas cidades/os dois países, um obra de engenharia magnífica que combinada com um túnel a mergulhar sob o mar, permite tanto a passagem de veículos rodoviários, quanto da linha férrea que liga os dois países.

Além de toda a bela receptividade que Thor nos proporcionou em sua cidade, ainda nos ofereceu, dentre outras coisas, este belo passeio, que certamente ficará em nossa mais profunda memória. E eu, que não sou viking nem nada, tive oportunidade de singrar aquelas águas por onde os guerreiros de outrora partiram a conquista de outras terras. Devo isto ao Thor!

 

Thor e seu pai, Rogério Barbosa, durante o passeio (foto do autor).
Thor e seu pai, Rogério Barbosa, durante o passeio (foto do autor).

OLHOS QUE VÃO E VÊM

Lund
Lund

 

Meus olhos foram passear pelos escondidos da Escandinávia e pelos amores de Roma. E viram coisas de se boquiabrirem – como se fosse possível –, de se encantarem, de se admirarem, como pela primeira vez olhos de menino vissem um novo brinquedo.

Andaram por Malmoe, Lund e Gotemburgo, na Suécia, e Copenhague, na Dinamarca. Flanaram por ruas cheias de gente e por avenidas largas e quase vazias. Viram coisas de mil anos e coisas novas. Viram as pessoas nas ruas e não sentiram nenhum receio, nenhuma estranheza, apesar da diversidade tão diversa quanto é o bicho homem. Em Roma, mais parecida conosco, percorreram ruas mais estreitas, mais apinhadas de gente. Sentiram a festa que é a capital italiana. E durante os trajetos pelas vias, quanto mais os táxis pareciam se perder propositadamente – não tenho certeza! –, encontravam a cada quarteirão um pedaço da história, agora com mais de dois mil anos, engastado em edifícios e monumentos de muitas épocas.

Como que por milagre, sentiram o paladar diverso da culinária, o sabor das cervejas e dos vinhos nacionais, a preços razoáveis, e as estranhas formas de se beber um simples cafezinho.

Viram que viram por onde andaram, sem que – malgrado todo o novo – disso houvesse um deslumbramento, porque já entrados em presbiopias, hipermetropias e miopias de muitos janeiros. São olhos que veem com admiração, porém não chegam mais ao deslumbre, como se todas a coisas da vida fossem muito naturais.

E voltaram a ver o mesmo panorama da Baía da Guanabara – hoje enevoada –, as quase mesmas pessoas reconhecíveis como seus iguais, as mesmas ruas de sempre, com seu trânsito pesado, e as amendoeiras do calçadão da praia que já perderam suas folhas amareladas.

Meus olhos foram porque quiseram ver o diferente, mas estão agora no conforto das coisas corriqueiras, que fazem da vida quotidiana este porto seguro de onde podem partir – vez em quando – sempre que o bicho da novidade formigar embaixo de suas pálpebras.

ÀS VEZES VOU, MAS VOLTO

Estou sempre indo para Miracema e Bom Jesus do Itabapoana/do Norte. Minhas viagens são demoradas. Minha pressa é tranquila, embora às vezes corra. Mas paro sempre. Para um café, para espichar as pernas, tirar água do joelho, almoçar, e ver, fotografar. Na ida e na volta, quase sempre. É que não tenho muitas urgências mais. Isto torna a viagem, que é sempre rotineira, mais prazerosa. E costumo trocar o itinerário. Vou por um caminho, volto por outro. Então colho alguns cenários que nunca me canso de ver. Até porque a natureza está sempre aprontado alguma. Aí estão alguns deles. (Clique nas fotos para ampliar.)

Angicos à margem da RJ-116, próximo a Cordeiro.
RJ-116, próximo a Cordeiro: Angicos.
Pôr do sol em Itaocara, a partir da ponte sobre o rio Paraíba do Sul.
Pôr do sol em Itaocara, a partir da ponte sobre o rio Paraíba do Sul.
Pôr do sol na ES-484, em direção a São José do Calçado.
Pôr do sol na ES-484, em direção a São José do Calçado.

 

Vista a partir do Alto do Soberbo, Teresópolis-RJ.
Vista a partir do Alto do Soberbo, Teresópolis-RJ.

 

Linhas de transmissão da luz solar (ES-484, próximo a São José do Calçado).
Linhas de transmissão da luz solar (ES-484, próximo a São José do Calçado).

VITÓRIA-ES

Aqui vão algumas fotos que fiz na minha última viagem à bela capital do Espírito Santo, tão desconhecida dos cariocas. É de se dizer, para quem mora por aqui – Rio de Janeiro e Niterói -, que Vitória é quase um oásis de trânsito tranquilo na maior parte do dia. As ruas largas, arborizadas, também são civilizadas: tão logo o pedestre coloca o pé sobre a faixa, os automóveis param para que ele passe. A cidade é repleta de belos cafés, bares, restaurantes e uma orla marítima que se transforma em área de lazer nos fins de semana. Sem dizer que, tanto ao norte da capital, quanto ao sul, a costa capixaba é interessantíssima. Em Meaípe, praia mais ao sul que pertence ao município de Guarapari, come-se a melhor moqueca do Brasil no Restaurante do Curuca. Mais ao sul um pouco, está Anchieta, que certamente agora terá destaque em função da canonização do jesuíta José de Anchieta. E a região serrana, bem pertinho, oferece inúmeros passeios, com foco no turismo rural. Ali nasceu esta modalidade de turismo no país: Santa Teresas, Domingos Martins, Venda Nova do Imigrante, por exemplo.

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RECORDAÇÕES DE PORTUGAL

Revirando nossas caixas de fotografias, encontrei a foto abaixo. É da aldeia de Azenhas do Mar, pertencente ao concelho de Sintra, freguesia de Colares. Devo confessar aos amigos leitores que não entendo a divisão política de Portugal. Talvez seja o equivalente a vila, no Brasil. Mas não é isso que interessa aqui.

A foto em questão foi obtida quando da viagem que Jane e eu, acompanhados dos diletos amigos Laura Dutra e Rogério Fernandes, fizemos por Portugal, Espanha e França em setembro/outubro 2003. Lá se vão, então, dez anos e alguns meses.

Eu havia visto numa revista portuguesa de viagem foto semelhante, com informações sobre a vila, motivo por que ela foi incluída no roteiro que fizemos desde Lisboa até Paris, dirigindo um carro de aluguel.

Como à época ainda não se dispunha de GPS, levamos um poderoso atlas rodoviário da Península Ibérica e outro da França tão detalhados, que, em tom de pilhéria, dizia ser possível encontrar as casas de seu Manuel, dom Pablo e monsieur Jean.

Saímos de Lisboa em direção a Sintra, para conhecer a cidade e o famoso Palácio da Pena e de lá, depois do almoço, seguimos para Azenhas do Mar.

Ocorreu que, lendo o mapa rodoviário, nos metemos por uma estrada que, a cada quilômetro, se mostrava menos povoada, embora isso seja raro por aqueles lados de Portugal, país pejado de cidades e vilas por onde se anda. É quase impossível andar cinco minutos nas estradas, sem que se veja uma casa, no mínimo. Por isso é que paramos diante de uma espécie de bar-mercearia para pedir informações sobre a correção de nosso trajeto. Atendeu-me uma simpática mulher com seu filhinho ao colo. Ela, então, chamou o marido, dizendo que ele me poderia dar a informação com mais detalhes. Disse-lhe que éramos brasileiros em férias por terras lusitanas e que estávamos indo em direção a Azenhas. Ele confirmou o trajeto, explicando que, embora fosse um pouco mais distante que outras opções, era até mais atrativo, pelas belezas do caminho. Tão logo me dirigi para o carro, parado dez metros adiante, ouvimos fogos de artifícios. Voltou-se o meu informante lusitano rapidamente e me perguntou:

– Estás a ouvir os fogos?

Como respondi afirmativamente, ele continuou:

– Agora estou a lembrar. A cada dezessete anos, há a procissão de Nossa Senhora dos Navegantes aqui na região, e ela está a acontecer neste exato instante. Não vás por aí!

E me indicou outro trajeto.

Rimos bastante da coincidência de estarmos ali exatamente no dia, dezessete anos após, da dita procissão. Contudo seguimos sua orientação e demos em outra estrada, também interrompida por guardas rodoviários, que nos indicaram o caminho a tomar, a fim de que chegássemos a Azenhas do Mar. Chegamos já quase no fim da tarde e pudemos desfrutar desta vista maravilhosa: uma aldeia branca como um presépio encarapitada sobre um promontório diante do Atlântico.

Azenhas do Mar, Portugal, set/2003 (foto do autor).
Azenhas do Mar, Portugal, set/2003 (foto do autor).