SOMBRAS

Ontem, um pouco depois das dezessete horas, ao chegar à varanda, vi que, no prédio próximo ao meu, dois homens estavam no terraço observando alguma coisa. A sua imagem em contraluz me instigou a registrar a cena. Aí vão as fotos.

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DO LEITE E SUAS CONSEQUÊNCIAS: O PUDIM

O leite, malgrado ser um dos alimentos mais completos, sobretudo se for o materno em relação ao filho, é muito mal falado. Dizem misérias dele pelo tanto de complicações que algumas pessoas sentem ao ingeri-lo. Cheguei mesmo a ouvir de certo médico, no programa Sem Censura, da TV Brasil, há algum tempo, que o ser humano adulto não deveria beber leite. Mesmo sem ser especialista, achei uma estupidez o que ele disse. A seguir tal raciocínio, o ser humano não deveria beber cerveja, vinho, cachaça, conhaque, vodca, tequila, pisco, suco engarrafado, água mineral gasosa, dentre outras coisas que ingerimos, vida afora.

Li que cientistas e pesquisadores tinham chegado à conclusão de que a ingestão de leite por povos africanos ancestrais, que domesticaram o gado bovino, é o que tinha promovido a proliferação de seres humanos no planeta. A ingesta de leite os tornou mais fecundos.

Os tais cientistas e pesquisadores chegaram a estabelecer, após pesquisa exaustiva, o grau de tolerância ao leite em diversos povos e chegou à constatação de que os suecos, que guardam o mesmo DNA ancestral africano, são os mais tolerantes: quase a totalidade da população ingere o alimento ou produtos que o tenham em sua composição, sem qualquer espécie de estranhamento orgânico.

Contudo sabemos que a natureza dispara nos mamíferos, após determinado período inicial de suas vidas, um dispositivo para que eles deixem de tomar leite. Isso é compreensível, já que promove o desmame de um filhote, em benefício  do próximo a nascer. Caso contrário, a perpetuação da espécie seria comprometida pelo agarramento às tetas maternas, sempre tão generosas, como se pode constatar.

Ora, ao chegar ao desmame, o organismo do mamífero informa que ele não aceita mais leite. Daí a tal intolerância ou mesmo a alergia à lactose que ocorre em seres humanos.

Entretanto, na história da formação e expansão do gênero humano sobre a face do planeta, os referidos estudos indicam que os povos que haviam domesticado o gado redescobriram que o leite era uma excelente fonte alimentar e, aos trancos e barrancos, com o passar do tempo, forçaram o organismo a aceitá-lo novamente. Isso levou tais tribos a uma capacidade reprodutiva maior que as tribos que não tinham o leite como alimento. E acabaram se espalhando pela Terra, a partir da Mãe África. Certamente desses povos descendem os europeus e, consequentemente, alguns de nós, senão todos, aqui abaixo do Equador.

A expansão para terras cada vez mais ao norte foi provocando o clareamento da pele, a fim de que os raios solares, mais brandos no Setentrião, pudessem fixar a vitamina D necessária ao organismo humano. Aí a razão dos nórdicos branquinhos, em contraste com seus antigos irmãos de pele tisnada, cheia de melanina

Pode-se pensar, então, que o fato de tolerar ou não o consumo de leite divide os seres humanos em mais modernos e mais primitivos. Eu, por exemplo, sou moderno. Meu netinho Francisco, de cinco anos, é mais primitivo, porque tem intolerância à lactose. E, por isso, se priva de um sem-número de produtos feitos à base de leite. Como os maravilhosos queijos! Imaginem mineiros, franceses e holandeses impedidos de comerem seus queijos extraordinários!

No entanto a ciência já conseguiu produzir um remédio que, ingerido antes, permite que, nas duas horas seguintes, os intolerantes ao leite possam apreciar a vasta gama de produtos que o contenham. É o que se deu com o Francisco nesses últimos dias. Sua mãe, em viagem à Alemanha, encontrou lá o tal remédio e o trouxe. Ver o Francisco se deliciar com seu primeiro doce de leite pastoso foi de emocionar. Ele ficou numa alegria indescritível. E o que dizer do seu prazer em comer chocolate ao leite! Agora, sempre que há a possibilidade de se encontrar com um desses produtos com leite, o pequeno já pede que se lhe dê o remedinho milagroso.

Por uma dessas é que fico a imaginar a hipótese de a Ciência também desenvolver uma pílula que permita aos intolerantes ao açúcar, como eu, poderem voltar a sentir o paladar inenarrável de uma deliciosa fatia de pudim de leite, talvez a consequência mais avassaladora que esse tão mal falado líquido produza, em termos de confeitaria. E eu voltarei a experimentar a alegria que o Francisco teve ao se deliciar com seu primeiro doce de leite.

 

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Imagem em gshow.globo.com.

O DEFUNTO ENQUANTO VIVO

Agora, estirado ali, canelas espichadas, o jaquetão antigo de seis botões enfileirados aos pares, o ar desgostoso de ter morrido sem vontade, Genivaldo Pedroso não ostentava a vasta canalhice com que vivera a vida quase inteira. Salvava-se apenas a parte que antecedia à maioridade, aqueles primeiros anos em que a maioria de nós madorna numa quase inocência pueril, por ainda desavisado das armações que a vida proporciona.

Contudo, a partir da alforria da lei, passou a obrar no que de pior se possa esperar de um sujeito. Sujeito mesmo, assim com um tom pejorativo, porque de um cidadão se esperam melhores atitudes. Porém Genivaldo nunca cogitou em ser cidadão. Bastava-lhe a camada fina de lustre de gente apresentável. Cidadão era coisa que não estava no rol de suas cogitações. Procurava sempre levar vantagem em tudo que pudesse, ainda que, para isso, tivesse de passar por sobre possíveis pudores éticos.

Para início de suas atividades, ganhou de presente cargo de responsabilidade num banco estatal, por obra de um parente seu envolvido com política, e foi quase que de imediato guindado a uma chefia setorial. Em três anos de ataques, desviou mais de três milhões de reais da agência bancária, o que lhe rendeu um processo de demissão por justa causa.

A notícia não rendeu muito nas folhas, mas o preparou para seu grande passo: tentar também a vida pública, assim como seu parente benfeitor. Era o perfil ideal para a política nacional.

Inscreveu-se logo como membro do partido, no diretório regional do bairro, onde, muito celeremente, chegou ao cargo de secretário geral, amarrando alianças com nós pútridos. De vereador a deputado estadual, pulou, ainda por meio de tais alianças, ao cargo de secretário de estado, que lhe permitiu continuar na devastação do patrimônio público, sem o mínimo verniz de compostura.

Dali para o Congresso Nacional em Brasília, foi questão de saber distribuir a verba de campanha no momento exato, para as pessoas certas. E ganhou de bandeja uma vaga na Câmara dos Deputados.

Quanto mais galgava na carreira, mais incólume parecia sua máscara facial. Entretanto, por um deslize que julgava de menor importância, de que supostamente nunca seria acusado, seu belo nome entrou em cadeia nacional pela porta dos fundos.

E aí começaram suas desgraças.

Embora tudo negasse, reafirmasse sua mais casta inocência, chegando inclusive a chorar em rede de tevê aberta, precisou abrir mão do cargo, muito a contragosto, diga-se de passagem, para que pudesse “se defender das infames acusações de que era vítima”, conforme suas palavras.

Para piorar a situação, a polícia encontrou, numa casa em uma de suas múltiplas propriedades rurais, um quarto cheio de barras de ouro, de procedência duvidosa. E, embora suas impressões digitais estivessem gravadas em cada uma delas, disse que desconhecia a origem do tesouro, que alguém poderia tê-lo plantado ali para o incriminar, que há mais de um ano não ia a tal sítio, dentre outras esfarrapadas desculpas costumeiras.

Quando, enfim, recebeu, numa sexta-feira pela manhãzinha, a visita do camburão da polícia para o levar a depor, o coração lhe deu um coice peçonhento, que o fez bandear daqui para lá, desta para a melhor, para a cidade dos pés juntos, com sua papada de capado engordado a ração e sua hipotética inocência.

Agora, estirado ali, com o terno de vidro a moldar sua ex-pessoa, ou o que dela sobrava, aguardava o instante de ser enterrado sem barras de ouro, sem prestígio político, sem mais nada. A não ser todos os opróbios que amealhou existência afora, os quais eram repassados pelos presentes ao velório. Ninguém se lembrava de nenhum gesto altruísta que lhe pudesse aliviar as penas da condenação eterna. Repassavam apenas as falcatruas, as negociatas, as propinas, as mamatas, os jeitinhos, os desvios, com que moldou sua vida. E somente os mais chegados por laços de sangue pediam aos céus que seu sofrimento fosse abreviado, tão logo aquela alma putrefata adentrasse os confins do Coisa Ruim.

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Charge de Erasmo (em newsrondonia.com.br).

EPITÁFIO

Neste instante
Diante da encruzilhada em que me vejo
Há em mim um misto de presunto e queijo.
Não sei se vou ou volto
Não sei se beijo
Não sei se escarro nesta mão que me apedreja
Não sei se expulso essa pulsão medonha que me sacoleja
E quer que eu me mexa
Enquanto eu mesmo prefiro a brisa fresca e a rede tesa
Entre coqueiros nesta praia acesa
Pelo sol de inverno.
Não sou eterno.
Vivo apenas o que almejo
Que nunca é muito
E tão sem jeito
Que parece que minha vida se resume
A ser um arremedo de gente a esmo
A circundar perdida no universo.
Mas quando for a hora
Eu, sem medo,
Estarei disposto ao sacrifício terno
Infalível compreensível sempiterno
E trocarei tudo por um indizível verso.

Foto do autor.

PREVISÕES IMPREVISÍVEIS DE PAI PRUDENÇO PARA 2018

Saravá, zifio e zifia! Tumém entrei nessa tar onda do politicamente correto. Ninguém vai pudê dizê que num prest’enção nas coisa.

Trazo aqui as minha previsão para 2018. Quero qu’ocês bote sentido no que vô dizê, pra despois num vim chorá nos pé de Pai Prudenço, requereno socorro espirituá. Despois do trem obrado, fica difice das entidade desobrá.

Aqui vai as treze previsão de carate gerá para o ano que evém aí:

  1. Quarqué previsão que o mundo vai acabá por causa duns meteoro, num vai! É tudo prosa, conversa fiada de quem num tem nada mió que fazê e fica espaiano cagaço ni suncês. É só deixá que as autoridade mesmo se encarrega da desgracera toda.
  2. Os preço vão subi, mas o governo vai dizê que tá baixano. Aí é só suncês conferi as merreca no fim do mês, pra vê onde tá a verdade. Se suncê num é político, num vai sobrá nada no seu salaro.
  3. Vai caí avião; vai afundá navio; vai descarrilhá trem; vai trombá carro uns nos outro; vai pipocá curisco e trovejo no varejo e no atacado; vai dá enchente e secura: aqui, ali e aculá. Cada quar tem de segurá sua onda, senão num empracá 2019.
  4. Vai morrê um monte de vivo. Uns famoso, otros desconhecido. E o mundo vai continuá dano seus sacolejo no espaço siderá sem nem querê sabê.
  5. Uns vão casá, otros vão separá. Otro tanto vai ficá só no tico-tico no fubá. E uma montoera de menino-hômi e menina-muié vai continuá nasceno sem pai, nem mãe. E sem escola, sem saúde e sem inducação tumém.
  6. Quem tive pranejano arguma coisa boa pra 2018 é mió despranejá. O trem vai tá feio! E num tem prano que reseste!
  7. Vai aparecê mais político honesto no Brazi. É só a Puliça Federá apertá o cerco, que vai brotá honestidade de todo lado. Vai parecê busca-pé em festa de São João.
  8. A tar Copa da Russa não vai dá pra nóis. Nóis só vão lá passeá e tumá umas vodka e comê um tar de caviá. Nóis num tá cum nada nesse tar de futebó, des que aquele minino gorducho pindurô as chutera.
  9. É mió os time do Rio de Janero tumá tenença no campeonato nacioná, que senão eis cai do cavalo e vão batê na segundona.
  10. O vampirão vai continuá cos dente na jugulá de suncês, inté chupá o sangue todim. Mas suncês vão resisti, causa que precisa pagá mais imposto pra sustentá eis lá em riba.
  11. No finá do ano, vai acontecê o tá de Fora Teme! Dia primero de janero de 2019 já tem otro espertaião comandano o país. Suncês num perde por esperá!
  12. Quero chamá atenção de suncês para as inleição do ano que vem. Se continuá votano do que jeito que evém votano, nada vai mudá.
  13. No prano internacioná, tudo vai ficá na merma batida. Não tem previsão de miora de nada. Pode mermo é piorá, que é mais fáci que miorá. Nóis semo mais programado pra fazê merda, do que pra fazê a coisa certa.

Despois num diga que num avisei!

Inté!

Pai Prudenço refletindo sobre o próximo ano.

PADEIRO ATOLADO

O expediente da secretaria do juízo estava nos seus estertores, quando o celular tocou. Era o amigo Mateus, desesperado, pedindo empréstimo para quitar a conta de luz, dois meses atrasada, a fim de evitar o corte de energia do seu estabelecimento comercial. Seis mil reais de atraso!

Ernesto lhe disse para ter calma. Estava pondo fim aos afazeres daquela sexta-feira e já iria ao seu encontro. Mateus pediu urgência, pois o técnico estava de escada armada, alicate na mão, pronto a cortar a luz.

Durante o trajeto, Ernesto pensou na dívida antiga e não saldada pelo amigo. Mas, pelos amigos, é possível fazer mais do que recomenda a prudência. E dirigia o carro com a pressa relativa permitida pelo trânsito da sexta-feira de uma cidade do porte de Campos dos Goytacazes, mesmo um pouco antes da hora de pico.

O estabelecimento comercial, uma padaria, fica na esquina da Rua Formosa com uma outra qualquer, próxima ao centro da cidade. Tem freguesia numerosa e cativa, porque oferece grande variedade de produtos de qualidade. Para quem vê seu movimento, é impossível imaginar que o proprietário não consiga pagar uma simples conta de energia elétrica, embora ela não seja das menores, após a troca do forno a lenha por modernos fornos elétricos. Mas era exatamente o que estava acontecendo: dois meses sem que a Ampla visse a cor do seu crédito, ameaçando agora deixá-lo às escuras.

Ernesto tocava o carro, sem imaginar a cena já armada em frente à padaria, contudo já a antevendo, em vista do que sabia do amigo, chegado a um histrionismo.

E não deu outra!

Quando conseguiu estacionar o carro numa rua lateral e chegar à cena da trapalhada, encontrou Mateus segurando a escada com as duas mãos – o técnico já subindo alguns degraus acima da cabeça – e gritando:

– Desce daí! Desce já, que eu vou te derrubar! Não vai cortar essa luz! Vou pagar agora! Meu amigo está chegado com o dinheiro! Desce, senão te mato, seu miserável!

O maldito técnico começou a tremer com os solavancos da escada e achou melhor se prevenir. Segurou firme com as duas mãos, após ajeitar o capacete sobre a cabeça, e entrou na discussão com o padeiro.

– Para com isso! Vai me derrubar e vai ficar pior! Estou com a ordem de corte aqui, e você não pagou a conta!

– Desce já daí! Ernesto, fala pra ele descer, que você trouxe o dinheiro para pagar a conta.

Mas Ernesto, prudente, sem querer entrar em nova enrascada, disse ao amigo que aquilo era problema dele. Estava apenas trazendo o dinheiro que lhe pedira e não ia se meter em confusão alheia.

A situação estava a ficar fora de controle. Pessoas começaram a se aglomerar em torno do furdunço armado.

– Desce já daí, seu desgraçado! Vou pagar a conta agora mesmo!

E tanto sacolejou a escada, que o técnico preferiu descer a se ferir com uma possível queda.

O padeiro, então, pegou os boletos atrasados, numa espécie de pendura atrás da caixa registradora, apanhou o dinheiro com Ernesto e se precipitou em direção à agência bancária, do outro lado da rua, pedindo ao amigo:

– Ernesto, não deixa o cara cortar a luz, que vou ali pagar a conta rapidinho. Segura mais essa pra mim!

Ernesto sorriu – conhecia muito bem o amigo enrolado – e pediu um voto de confiança ao homem da Ampla.

– Eu sei que sua obrigação é cortar, mas dê uma chance a ele, senão fica ainda pior para os negócios dele, já meio enrolados.

Volta o Mateus esbaforido, língua em molde de gravata vermelha sobre o peito, já trazendo uma cópia dos boletos pagos, para entregar ao técnico e, assim, evitar o corte de energia do seu estabelecimento comercial.

Foi o que bastou para desfazer a pequena aglomeração de curiosos e voltar a reinar certa paz entre farinhas, fermentos e massas.

– Te devo mais essa, Ernesto!

 

Job Berckheyde, Boulanger 1681

Job Berckheyde*, Boulanger; 1681 (em enigm-art.blogspot.com.br).

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  • Job Berckheyde foi um pintor holandês, que viveu entre os anos 1630 e 1693 e desenvolveu seus trabalhos em Haarlem, Amsterdam e Haia. A obra aí reproduzida está exposta no Museeu de Arte de Worcester, em Massachusetts-EUA.

O CÃO COM TOSSE

 

Daqui de cima
Ouço um cachorro tossindo tosse de cachorro
Pelo que ouço
É um cachorro novo
Que tosse como se fosse um velho cão cheio de gogo
Daquele mesmo gogo  que pega velhas galinhas no choco
Esse cachorro, seu moço!
Precisa de um veterinário urgente
Ou acabará morto!

 

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Imagem em webcachorros.com.br.