EVÉM CHUVA!

Aqui tem sol. Não chove. Só relampeia. 
No entanto levanto os móveis e os teréns.
Assunto o céu e o que mais vejo
É um ajuntamento de nuvens traiçoeiras.

Está ventando. Escureceu um pouco. O sol sumiu.
E trovejou do lado da montanha.
Riscam coriscos os céus em ziguezague.
Se piorar eu desço a ladeira.
Vou esperar na casa da comadre
Pois pode ser toró dos brabos o que aí vem.
Baía de Guanabara, Icaraí, Niterói (foto do autor).

CORDEL DO PÔR DO SOL

Estava detido em casa
Aguardando alforria
Olhava pela janela
Principiava o dia
O sol na aba do céu 
Espargindo alegria

E nessa marcha seguia 
O sol no rumo da trilha
Agora estava a pino
Boiando como uma ilha
Na imensidão azulada
Percorrida tanta milha 

E em descendo esmerilha
O lado do seu poente
A procurar um abrigo 
Para as bandas do ocidente 
Deixa no céu uma luz
De um brilho descendente

Esconde-se bem em frente
Ao mar de azul manchado
Pintando nuvens remissas
De um laranja irisado
De roxo quase vermelho
E de rosa amarelado

E o quadro aquarelado
Aos poucos vai-se amainando
O sol atrás das montanhas
Com sua luz desbotando
Ao borrar a escuridão
A noite vinha chegando

Com atenção espiando
A tudo isso assistia
Os olhos sempre atentos
A registrar a magia
Que a natureza nos brinda
Em muita fotografia

Eu procuro o fim do dia
Coleciono arrebol
Acompanho atentamente
Desprezo até futebol
Me considero por isso
Caçador de pôr do sol.

Pôr do sol em Icaraí, Niterói, tendo ao fundo o Rio de Janeiro (foto do autor).

TAMBÉM TENHO O MEU FOLCLORE POLÍTICO

O cara era meu conterrâneo, mas eu não o conhecia, o que só ocorreu em Lisboa, em 2003. Fui encontrá-lo, com a Jane e mais o casal que viajava conosco, em sua cervejaria no Cais Sodré, um belo espaço de gastronomia e entretenimento à margem do Rio Tejo.

Dentre os muitos assuntos que rolaram durante o tempo em que ele permaneceu conosco, o relativo à explicação de como fora parar na cidade ficou até hoje em minha memória, por seu caráter inusitado e mesmo hilariante.

Ele é arquiteto de formação e recebeu convite do então indicado ao cargo de embaixador brasileiro em Portugal, Itamar Franco, para que realizasse algumas obras na residência oficial em Lisboa. Era o ano de 1995.

RO – vou apenas indicar as iniciais do seu nome – viajou então para a capital portuguesa, a fim de atender nosso representante diplomático na Terrinha. Em lá chegando, descobriu que o trabalho consistia na construção de um galinheiro, para que nosso novel embaixador pudesse manter seu arraigado hábito mineiro de comer galinha ao molho pardo, pelo menos uma vez por semana, sem o desconforto de sair procurando galináceos em abatedouros lisboetas. Obviamente que um galinheiro de embaixada não poderia ser feito por qualquer mestre de obra canhestro. Requeria a ciência e a arte de arquiteto diplomado por universidade nacional.

E foi o primeiro galinheiro que RO construiu em sua vida. Até o instante em que ele nos contava a história, entre um trago e outro de chope, acolitado por tira-gostos, tudo por conta da casa, como manda o manual do bem receber visitas inesperadas, RO não tinha feito nenhum outro. Mas, com o prestígio do trabalho realizado na casa do novo embaixador, começaram a pipocar requisições para outros tantos trabalhos em imóveis de brasileiros e de lusitanos na cidade. Tanto é que nunca mais voltou ao Brasil. Por lá ficou, casou e tinha então uma filhinha recém-nascida, motivo que o fez sair um pouco mais cedo, deixando-nos a dolorosa tarefa de secar canecos de chope e dar fim a uma sequência de petiscos, tudo por conta da casa e da boa amizade.

E, como a prever já outro desafio em sua vida de arquiteto, RO nos confidenciou, ao sair, que o diplomata indicado naquele mesmo ano de 2003 para Portugal mandou convocá-lo à embaixada, pois tinha certa obra a lhe encomendar. Era o ex-deputado cearense Paes de Andrade, figura folclórica no cenário político brasileiro, por ter, como presidente da Câmara Federal e em substituição ao presidente da república da ocasião, viajado no avião presidencial até Mombaça, sua terrinha natal, a mostrar a que altura chegara seu filho importante.

RO nos disse, então, que temia ser desafiado a construir um capril, para que o novo embaixador pudesse criar cabras que lhe dessem suculentas e olorosas buchadas de bode.

Fomos embora da cidade no dia seguinte, e nunca soube do desfecho daquele convite que meu conterrâneo arquiteto recebeu de Sua Excelência, o novo Embaixador do Brasil em Portugal.

Vai dar bode! (foto do autor),

POEMA DO AMOR INTERROMPIDO

Há quanto tempo não te abraço!
Há quanto tempo não te beijo,
Não chego junto num cafuné,
Não saímos de mãos dadas pelo calçadão da praia
Nomeando as pedras no mar
Em que batem ondas seculares:
Pedra da Baleia, Pedra da Tartaruga, Pedra do Tubarão,
Nomes escolhidos por teus sentidos de menino.
Quanto tempo, meu pequeno amigo!
Que até nem acompanhei teu crescimento nesse ano tão sofrível
Porque desgraçadamente
Ao avô e ao neto
Tão pouca coisa foi possível.

Francisco com bigode de açaí (foto do avô).

PÔR DO SOL

 Lá fora o sol se põe aos poucos
 Atrás dos morros simbólicos do Rio de Janeiro
 Compondo um pôr do sol iridescente.
 Preguiçoso chego à varanda
 E constato a ebulição das cores 
 Por entre as nuvens que vagueiam sobre a baía.
 Olho a câmara fotográfica dormindo no armário
 Quieta cega irresoluta.
 Melhor ficar em casa!
 As ameaças também vagueiam no ar
 E pores de sol ainda haverá aos montes. 
Pôr do sol em Icaraí, com a Pedra do Índio, a Pedra da Gávea e o Corcovado (foto do autor).

COMO SE CONSTRÓI UM PÔR DO SOL

O fim de tarde ontem, em Icaraí, foi espetaculoso. Parece que São Pedro derrubou a prateleira de tintas primárias, do que resultou o espetáculo. Cheguei ao calçadão da praia um pouco antes das dezoito horas e comecei a registrar os efeitos da luz solar na paisagem, nas nuvens e no horizonte. Aqui organizo em dez imagens, em ordem cronológica, para que meu leitor observe a construção de um pôr do sol bafônico, espetaculoso, ostentoso.

17h58
18h11
18h16
18j20
18h29
18h35
18h37
15h41
18h42
18h51

E NO ENTANTO AMAR DÁ PÉ

 Amar não é só sorver o sumo doce do sexo
 Da pessoa amada
 Ou um romeu e julieta – queijo com goiabada – 
 De beijos que começam cedo
 E varam a madrugada
 Como se não houvesse amanhã
  
 Amar é um troço mais complicado 
 Do que cerveja com tremoços
 Num botequim de beira de estrada
 Mais escorregadio que baba de quiabo
 Língua de vaca ensopada
  
 Amar é mais trabalhoso que criação de galinha
 Caçar tatu no meão da noite enluarada
 Com lanterna sem pilha alcalina
 E garrucha de mira angulada
  
 Amar não é só o suspiro que vem do nada
 Como se tudo estivesse pronto
 E se se pudesse dormir tranquilo
  
 Amar é um trem esquisito
 Um jeito aflitivo de viver chapado
  
 Amar no entanto dá um pé danado! 

Foto do autor.

SOBRE COMER

Dia desses, o amigo Marcelino Medeiros compartilhou no Facebook alguns pensamentos rabínicos muito pertinentes. Um deles me chamou a atenção. É este:

                “Aquele que come sozinho morre sozinho.”

O pensamento é também a tentativa de um ensinamento, porque porta um conceito moral, capaz de melhorar a vida dos que o leem, caso queiram aplicar seu ensinamento: melhor é ter amigos e familiares à volta do que viver e morrer só.

Contudo o que me despertou o desejo de escrever este texto é um sentido escondido dentro da própria frase que escapa às pessoas que não passaram pelo curso de Letras, não estudaram a tal Etimologia, que é a parte dos estudos da língua voltada para a origem das palavras, e que vai justificar muito bem o sentido primordial da sentença.

Repare bem o meu leitor.

A nossa bela língua portuguesa é uma evolução natural do chamado latim vulgar, isto é, o latim popular, falado pelas tropas romanas que, por volta do século I da nossa era, após vencerem os lusitanos de Viriato e Sertório, se estabeleceram no extremo oeste da Península Ibérica, onde está Portugal. Como parte de sua política expansionista, Roma exigia que os povos dominados falassem sua língua, o latim.

O processo evolutivo do latim ao português levou séculos, até que aquela língua falada na região estivesse tão distinta da língua-mãe, que levasse ao surgimento de uma nova língua – o galaico-português e, posteriormente, o português arcaico –, sem que houvesse solução de continuidade no uso da língua, porém já revelando estrutura gramatical e vocabular distinta do latim.

O verbo comer atual, moderno, passou por todo esse período evolutivo, até chegar a este jeitão reconhecido hoje por qualquer falante. Mas guarda em sua trajetória uma história interessante.

Em latim clássico, forma da linguagem que os soldados naturalmente não usavam, comer era edere (com a sílaba forte no primeiro /e/). A forma é composta de um radical ed-, que guarda o sentido básico – “ingerir alimento, alimentar-se” –, seguido da vogal identificadora da segunda conjugação, a famosa vogal temática, -e-,  e terminando pela desinência de infinitivo –re.

Aqui é interessante observar que a forma latina tem o radical bem próximo da forma inglesa: eat. Ambas as línguas vieram de um tronco comum a que os estudiosos dão o nome de indoeuropeu, a língua-mãe da maioria das línguas europeias e de outras tantas da Ásia. Também em sueco, outra língua-irmã, o termo é äta, em que a primeira vogal tem do som do /e/ aberto.

Como o romano, diferente de outros povos, entendesse que o ato de se alimentar não era um ato isolado, individual, mas, sobretudo, um ato social, em que se pressupõe a companhia de outros, isto se refletiu na língua, que acrescentou à forma edere o prefixo indicativo de companha: cum-. Desta maneira, a forma que chegou até à Península Ibérica trazida pelos legionários romanos foi cumedere – “ingerir alimento em companhia de outro”.

A partir daí é que se processa a gradual mudança evolutiva da forma latina até chegar ao que temos hoje.

Dois fenômenos de pronúncia foram sistemáticos. As consoantes sonoras entre vogais (no caso do verbo, o /d/) desapareceram, o mesmo ocorrendo com a vogal final do infinitivo. Num primeiro instante – e isso tem comprovação escrita –, cumedere passou a cumeer. Em seguida, comeer (o /u/ inicial, por ser breve, passou a /o/ fechado em português) e, finalmente, comer (com a crase entre os dois /e/), dando a forma atual.

Embora o radical da palavra tenha desaparecido, aquilo que era o prefixo cum- se manteve e assumiu o valor do sentido da palavra. Passou a ser o radical em português.

Assim é fácil perceber que o ato de comer, por tudo isso, representa uma atividade a que nós, falantes de português, atribuímos um valor social, de confraternização e compartilhamento. Nossos alimentos mais emblemáticos refletem isso: feijoada, bacalhoada, cozido, moqueca, dentre os mais famosos.

Por isso é que me parece bem fundamentada a frase inicial: Aquele que come sozinho morre sozinho.

Até a próxima feijoada!

Conheça a feijoada do restaurante O Jardineiro
Imagem em clubegazetadopovo.com.br.

TEMPESTADE

Há nuvens no céu
Borrando o azul
Tingindo de cinza a vasta imensidão
De um paraíso tranquilo

Há prenúncios de chuva
Anunciada pelo serviço de meteorologia
Enquanto se aguarda o desfecho dos dias

Há esperanças fortuitas
Desejos insanos
Carências aflitas
E tantos desenganos
Que a vida parece tão-somente
Um arremedo de viver

E as nuvens do céu vagueiam solertes
Sob os influxos do vento sudoeste
No horizonte que já se afigura sombrio

A tempestade antevista está a caminho.

Tempestade em Icaraí (foto do autor).