PREVISÕES IMPREVISÍVEIS DE PAI PRUDENÇO PARA 2018

Saravá, zifio e zifia! Tumém entrei nessa tar onda do politicamente correto. Ninguém vai pudê dizê que num prest’enção nas coisa.

Trazo aqui as minha previsão para 2018. Quero qu’ocês bote sentido no que vô dizê, pra despois num vim chorá nos pé de Pai Prudenço, requereno socorro espirituá. Despois do trem obrado, fica difice das entidade desobrá.

Aqui vai as treze previsão de carate gerá para o ano que evém aí:

  1. Quarqué previsão que o mundo vai acabá por causa duns meteoro, num vai! É tudo prosa, conversa fiada de quem num tem nada mió que fazê e fica espaiano cagaço ni suncês. É só deixá que as autoridade mesmo se encarrega da desgracera toda.
  2. Os preço vão subi, mas o governo vai dizê que tá baixano. Aí é só suncês conferi as merreca no fim do mês, pra vê onde tá a verdade. Se suncê num é político, num vai sobrá nada no seu salaro.
  3. Vai caí avião; vai afundá navio; vai descarrilhá trem; vai trombá carro uns nos outro; vai pipocá curisco e trovejo no varejo e no atacado; vai dá enchente e secura: aqui, ali e aculá. Cada quar tem de segurá sua onda, senão num empracá 2019.
  4. Vai morrê um monte de vivo. Uns famoso, otros desconhecido. E o mundo vai continuá dano seus sacolejo no espaço siderá sem nem querê sabê.
  5. Uns vão casá, otros vão separá. Otro tanto vai ficá só no tico-tico no fubá. E uma montoera de menino-hômi e menina-muié vai continuá nasceno sem pai, nem mãe. E sem escola, sem saúde e sem inducação tumém.
  6. Quem tive pranejano arguma coisa boa pra 2018 é mió despranejá. O trem vai tá feio! E num tem prano que reseste!
  7. Vai aparecê mais político honesto no Brazi. É só a Puliça Federá apertá o cerco, que vai brotá honestidade de todo lado. Vai parecê busca-pé em festa de São João.
  8. A tar Copa da Russa não vai dá pra nóis. Nóis só vão lá passeá e tumá umas vodka e comê um tar de caviá. Nóis num tá cum nada nesse tar de futebó, des que aquele minino gorducho pindurô as chutera.
  9. É mió os time do Rio de Janero tumá tenença no campeonato nacioná, que senão eis cai do cavalo e vão batê na segundona.
  10. O vampirão vai continuá cos dente na jugulá de suncês, inté chupá o sangue todim. Mas suncês vão resisti, causa que precisa pagá mais imposto pra sustentá eis lá em riba.
  11. No finá do ano, vai acontecê o tá de Fora Teme! Dia primero de janero de 2019 já tem otro espertaião comandano o país. Suncês num perde por esperá!
  12. Quero chamá atenção de suncês para as inleição do ano que vem. Se continuá votano do que jeito que evém votano, nada vai mudá.
  13. No prano internacioná, tudo vai ficá na merma batida. Não tem previsão de miora de nada. Pode mermo é piorá, que é mais fáci que miorá. Nóis semo mais programado pra fazê merda, do que pra fazê a coisa certa.

Despois num diga que num avisei!

Inté!

Pai Prudenço refletindo sobre o próximo ano.

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PADEIRO ATOLADO

O expediente da secretaria do juízo estava nos seus estertores, quando o celular tocou. Era o amigo Mateus, desesperado, pedindo empréstimo para quitar a conta de luz, dois meses atrasada, a fim de evitar o corte de energia do seu estabelecimento comercial. Seis mil reais de atraso!

Ernesto lhe disse para ter calma. Estava pondo fim aos afazeres daquela sexta-feira e já iria ao seu encontro. Mateus pediu urgência, pois o técnico estava de escada armada, alicate na mão, pronto a cortar a luz.

Durante o trajeto, Ernesto pensou na dívida antiga e não saldada pelo amigo. Mas, pelos amigos, é possível fazer mais do que recomenda a prudência. E dirigia o carro com a pressa relativa permitida pelo trânsito da sexta-feira de uma cidade do porte de Campos dos Goytacazes, mesmo um pouco antes da hora de pico.

O estabelecimento comercial, uma padaria, fica na esquina da Rua Formosa com uma outra qualquer, próxima ao centro da cidade. Tem freguesia numerosa e cativa, porque oferece grande variedade de produtos de qualidade. Para quem vê seu movimento, é impossível imaginar que o proprietário não consiga pagar uma simples conta de energia elétrica, embora ela não seja das menores, após a troca do forno a lenha por modernos fornos elétricos. Mas era exatamente o que estava acontecendo: dois meses sem que a Ampla visse a cor do seu crédito, ameaçando agora deixá-lo às escuras.

Ernesto tocava o carro, sem imaginar a cena já armada em frente à padaria, contudo já a antevendo, em vista do que sabia do amigo, chegado a um histrionismo.

E não deu outra!

Quando conseguiu estacionar o carro numa rua lateral e chegar à cena da trapalhada, encontrou Mateus segurando a escada com as duas mãos – o técnico já subindo alguns degraus acima da cabeça – e gritando:

– Desce daí! Desce já, que eu vou te derrubar! Não vai cortar essa luz! Vou pagar agora! Meu amigo está chegado com o dinheiro! Desce, senão te mato, seu miserável!

O maldito técnico começou a tremer com os solavancos da escada e achou melhor se prevenir. Segurou firme com as duas mãos, após ajeitar o capacete sobre a cabeça, e entrou na discussão com o padeiro.

– Para com isso! Vai me derrubar e vai ficar pior! Estou com a ordem de corte aqui, e você não pagou a conta!

– Desce já daí! Ernesto, fala pra ele descer, que você trouxe o dinheiro para pagar a conta.

Mas Ernesto, prudente, sem querer entrar em nova enrascada, disse ao amigo que aquilo era problema dele. Estava apenas trazendo o dinheiro que lhe pedira e não ia se meter em confusão alheia.

A situação estava a ficar fora de controle. Pessoas começaram a se aglomerar em torno do furdunço armado.

– Desce já daí, seu desgraçado! Vou pagar a conta agora mesmo!

E tanto sacolejou a escada, que o técnico preferiu descer a se ferir com uma possível queda.

O padeiro, então, pegou os boletos atrasados, numa espécie de pendura atrás da caixa registradora, apanhou o dinheiro com Ernesto e se precipitou em direção à agência bancária, do outro lado da rua, pedindo ao amigo:

– Ernesto, não deixa o cara cortar a luz, que vou ali pagar a conta rapidinho. Segura mais essa pra mim!

Ernesto sorriu – conhecia muito bem o amigo enrolado – e pediu um voto de confiança ao homem da Ampla.

– Eu sei que sua obrigação é cortar, mas dê uma chance a ele, senão fica ainda pior para os negócios dele, já meio enrolados.

Volta o Mateus esbaforido, língua em molde de gravata vermelha sobre o peito, já trazendo uma cópia dos boletos pagos, para entregar ao técnico e, assim, evitar o corte de energia do seu estabelecimento comercial.

Foi o que bastou para desfazer a pequena aglomeração de curiosos e voltar a reinar certa paz entre farinhas, fermentos e massas.

– Te devo mais essa, Ernesto!

 

Job Berckheyde, Boulanger 1681

Job Berckheyde*, Boulanger; 1681 (em enigm-art.blogspot.com.br).

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  • Job Berckheyde foi um pintor holandês, que viveu entre os anos 1630 e 1693 e desenvolveu seus trabalhos em Haarlem, Amsterdam e Haia. A obra aí reproduzida está exposta no Museeu de Arte de Worcester, em Massachusetts-EUA.

O CÃO COM TOSSE

 

Daqui de cima
Ouço um cachorro tossindo tosse de cachorro
Pelo que ouço
É um cachorro novo
Que tosse como se fosse um velho cão cheio de gogo
Daquele mesmo gogo  que pega velhas galinhas no choco
Esse cachorro, seu moço!
Precisa de um veterinário urgente
Ou acabará morto!

 

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Imagem em webcachorros.com.br.

 

FANTASMAS

Esta também me foi contada por meu sobrinho Bruno, médico num hospital em Muriaé.

Como ocorre, morrem pacientes em hospitais, que não conseguem salvar a vida de todos que deles se socorrem. Ora, se há mortos, há almas, espíritos, ectoplasmas, fantasmas a rondar esses lugares de sua última morada na Terra. Assim creem muitas pessoas. Então, lá no hospital onde ele trabalha, há notícias de fantasmas de antigos pacientes apegados àqueles locais, como referem alguns funcionários. E nisso acredita piamente o Genival, auxiliar de enfermagem encarregado de cuidar dos pacientes que morrem.

Genival, com seus quarenta e poucos anos, é uma pessoa simples, que mora numa espécie de chácara, um pouco afastada da área urbana. Profissional eficiente a executar sem assombro sua função de tanatopraxista, tem, no entanto, verdadeiro pavor de ir até o necrotério da instituição. Prepara os corpos tranquilamente, mas pede com veemência que não seja obrigado a conduzir o cadáver até as gavetas daquele espaço sombrio. Alguém que faça aquilo por ele!

Certo dia, contudo, como não houvesse colega a fazer o traslado do corpo, foi ele obrigado a levar os restos mortais até o local. Apreensivo, foi empurrando a maca com o de cujus inerte, de canelas espichadas, como  sói acontecer. Chegou lá com os olhos semicerrados, a fim de não ver o que teme, abriu a gaveta e lá depositou o morto, tão rapidamente quanto possível.

Ao virar as costas e tomar o corredor de volta, viu vindo em sua direção o morto, a caminhar em passos lentos, mas firmes. Sem mais essa ou aquela, sofreu uma tontura tão vertiginosa, um escurecimento das vistas, o mundo a rodopiar à sua volta, que teve de se agarrar à parede como uma lagartixa, antes que desabasse no chão quase imaculado do nosocômio. O “morto “, pressuroso, ainda o ajudou a se levantar e disse a ele, à medida que Genival se refazia do susto com a aparição:

– Escorregou?  Bom dia! Eu sou irmão gêmeo do morto e vim aqui providenciar o enterro dele.

Por um triz, quase que Genival também vira fantasma!

 

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Imagem em es.vexels.com.

MARIA ANDARILHA

(Para Maria, minha netinha.)

Um dia
Maria acordou andarilha
Andou da porta do quarto
Por uma trêmula trilha
Dos braços do seu irmão
– O Bruno então sorria
Ao ver o risco no chão
Tão invisível se via –
Até onde os olhos davam
O que fez a Gabriela
Que de tudo desconfia
Achar que a irmã mais nova
Não conseguisse a magia
De andar por suas pernas
Tão pequenina inda é ela
Mas a miúda Maria
Ciosa do que queria
Andou dos braços do Bruno
Até a porta da cozinha!
E foi a primeira vez
Que tal fato acontecia.
Agora anda por pátios
Playgrounds e companhia
Pisando passadas firmes
Enquanto o vento assovia
Nos seus cabelos penteados
Como maria-chiquinha.

 

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Diego Velázquez, As meninas, 1656; Museu do Prado, Madri.

LOST WORLD (MUNDO PERDIDO)

O título desta crônica está em inglês, porque o assunto vem dos Estados Unidos, e eu quero mostrar que também sei um pouco da língua do Pato Donald.

Li, com um misto de estarrecimento e bacon, a notícia de que uma jovem prostituta americana, de carinha cândida (Pelo menos, é o que pude sentir por sua foto na matéria.), de apenas vinte e um anos, deu dois tiros na cabeça do seu cliente, sob a alegação de que ele não sabia fazer o famoso cunilingus.

O infausto cliente, que ainda teve a sua carteira roubada pela jovem, após se safar de ir para a cidade dos pés juntos, estava um tanto aéreo, sem saber o que de fato lhe tinha acontecido.

Presa, a mocinha explicou ao xerife que atirou apenas porque não sabia como dizer ao homem que ele estava fazendo tudo errado.

Imagine se, sempre que alguém não souber dizer ao outro aquilo que deseja, resolva despejar sobre o interlocutor uma saraivada de balas? É uma coisa de doido!

Acho bastante factível que seja possível errar o alvo nesses momentos. A pessoa fica excitada, nervosa, e a pontaria nunca sai perfeita. O homem, e não a mulher, lógico! Mas o amigo leitor há de convir que é estranho que uma prostituta fique chateada com o equívoco. A não ser que ela quisesse, de fato, praticar o ato com todas as suas consequências gozosas, prazerosas e, por que não dizer, libidinosas. Pelo que se sabe, o serviço é sem emoção. Mais ou menos como um funcionário público metendo o carimbo num requerimento qualquer.

No entanto, sem conhecer a tabelinha orgânica da moça, fico a imaginar que ela estivesse na tal fase da TPM. É que há algumas mulheres que, no auge da crise, são capazes de dar tiro a esmo, até por motivos de somenos importância. E o infeliz do cliente contratou o serviço da jovem justamente durante o clímax desse incômodo e quase pagou com a vida por um pequeno erro de cálculo. Ou de execução!

Por isso é que aproveito também para alertar os possíveis viajantes àquele país que o nome da moça é Marissa Wallen e presta seus serviços na cidade de Washington. Acho que até bem próximo à Casa Branca. Ou White House, na língua de Donald Duck e Donald Trump.

Este mundo está mesmo perdido!

Take it easy, man!

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Imagem em dreamstime.com.

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PS: Se quiser ver a notícia, clique aqui.

MIRACEMA DE SABORES

Jane e eu voltamos a Miracema neste último feriadão. Depois de alguns meses, estava contando em voltar ao bar do Marquinhos para me deliciar com a arte da cozinha trivial da esposa dele, dona Eliane. Inclusive preparei meu espírito, que sempre orienta o paladar, para o jiló recheado e a joelho de porco. Era sexta-feira, o dia em que tais iguarias entram no exíguo cardápio do pequeno botequim. O restante do paladar, esquentado por pinga e pimenta, fica por conta da conversa fiada tradicional que esse tipo de ambiente propicia. Fiquei só na saudade. Ao encontrar uma amiga, companheira certa dessas libações, ela me disse que o casal proprietário estava de férias, portanto o estabelecimento estava fechado. Pensei até em enfiar sob a porta de aço um recado malcriado, manifestando minha frustração. Melhor, não!

Pois não é que outra amiga a quem falei do fato me disse que havia um outro bar muito bom, com serviço atencioso e comida de primeira qualidade.

Aqui devo fazer um parágrafo. Quando digo comida de primeira qualidade estou a dizer da comida tradicional do interior, sem sofisticação, sem modismos, mas feita com carinho e competência, o que eleva seu sabor ao máximo.

À noite do dia seguinte fomos ao tal bar, LC Hamburgueria e Cia., numa rua perpendicular à Rua da Laje. O lugar é pequeno, limpo, com as paredes decoradas por fotos bem feitas de alguns pratos preparados pelas mãos habilidosas da proprietária, Lúcia.

Éramos quatro: as duas amigas miracemenses Aparecida e Branca, Jane e eu. Enquanto examinávamos o cardápio, pedimos a cerveja, que veio no ponto exato do gelo, sem exageros. Depois de alguma hesitação entre a variedade de ofertas, optamos por meia porção de língua recheada. E ficamos bebendo e conversando, contando causos e rindo de histórias mirabolantes que uma e outra referiam. Até que veio o petisco. Estou para dizer aos amigos leitores que jamais, em tempo algum, comi uma língua com tal paladar. Nem mesmo a que Haroldinho oferecia em seu bar, lá pelos anos 90 em Bom Jesus do Itabapoana, uma maravilha ao paladar, se igualava a esta que comemos no bar da Lúcia. Mergulhadas num molho à base de tomate, com finas fatias de cebola roxa crua e temperos verdes, os nacos de língua estavam tenros, no ponto certo, na consistência exata e com um paladar excepcional. Era só colocá-los na torrada que acompanha o prato, acrescentar uma ou duas gotas de pimenta malagueta e sentir a boca ser invadida por um sabor inesquecível.

Aparecida, amiga da Lúcia, ainda pediu que ela viesse até nós, para que pudéssemos agradecer aquela experiência marcante.

Miracema tem dessas coisas: a simplicidade elevada ao seu mais alto grau de prazer.

 

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Obelix e Asterix, criação de Goscinny e Uderzo (em mojtv.net).