PRAGA DE BOTAFOGUENSE É FATAL

Há algum tempo descobri, por indicação de um taxista, que a Leiteira Vitória, na Rua Dr. Celestino, quase esquina de Marquês de Paraná, fazia um torresmo muito bom. Para provar o que dissera, o motorista parou o táxi em frente ao estabelecimento, deixou-me ir até o balcão pegar um torresmo graúdo – pediu também que lhe levasse um –, sincronizando uma dentada comigo, no momento em que recolocava a viatura em marcha. Era, de fato, muito saboroso e crocante, apesar do tamanho um tanto exagerado.

Então ao fazer uma feijoada e no intuito de facilitar minha vida de cozinheiro, resolvi encomendar uma porção da iguaria, num calibre bem menor, em vez de ter a trabalheira toda em produzir meus próprios torresmos, se fosse seguir a receita que peguei com minha irmã Elizabeth.

No dia e na hora de pegar a encomenda, fui até o estabelecimento com a nota do pedido na mão. O dono pega o papel, vai até o fundo do espaço, e, sob uma tosca escada de madeira, longe da minha visão, pergunta ao cozinheiro, num tom de voz que seria para não ser ouvido, mas que meus ouvidos de tuberculoso escutaram claramente:

– Fulano, o torresmo do coroa está pronto?

Logo a seguir, volta até o balcão e me diz que a encomenda estava sendo embalada.

Embora seja coroa, não gostei de ser chamado de coroa. Aliás, que eu saiba, nenhum coroa gosta. Assim, na hora, peguei birra com ele – também nem tão novo assim – e, com a força do meu pensamento corrosivo, lancei uma maldição contra aquela microempresa de implementação do colesterol alheio.

Pois muito bem, a Leiteira Vitória, bem como o prédio onde se localizava, hoje não mais existem. Vão virar chão de rua, pista de rolamento de veículos, sarjeta por onde correrá futuras enxurradas.

O pior de tudo é que fiquei sem os deliciosos torresmos da Leiteira Vitória.

A maldição foi excessiva. Não precisava tanto. Bastava um curto-circuito no velho freezer, uma infestação de ratos no depósito de mercadorias ou uma multa da Vigilância Sanitária ou, quem sabe, do INSS, ao fiscalizar a correção do contrato de trabalho das mãos mágicas que produziam aquela gostosura.

 

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OS MEUS, OS SEUS, OS NOSSOS MEDOS

O medo não escolhe idade, mas tem uma preferência muito grande pelas crianças. Não sou psicólogo, por isso não sei de onde vem o medo. Sei até para onde vai. Uma compreensão talvez um pouco melhor do que sobre a dúvida ontológica do estar no mundo.

Em Carabuçu, pelo tempo em que lá vivi, até os meus dezoito anos, desenvolvíamos os medos mais diversificados possíveis: de boi bravo, de cachorro doido, de cobra venenosa, de marimbondo caçador e mangangá, de corisco em dias de tempestade, de morcegos, de gatos à noite (De dia, não havia problemas com eles.), de panarício (Eu tinha um medo quase pânico de panarício!). Medos que poderia pôr na conta da existência física, do meio ambiente, mas que eram muito bem administráveis por nós. Outros, contudo, fugiam ao nosso controle: o medo do Saci-Pererê, da Mula-sem-cabeça e do Lobisomem, entidades que rondavam a vila em noites soturnas de nossa meninice, povoando histórias assombradas tão ao gosto da nossa gente cabocla.

E um outro, mais real, mais terrível que todos: o medo do Carro Preto, uma entidade criada pelos adultos, para fazer o controle da criançada. Menino que se afastasse muito de casa, corria o risco de ser roubado (Não usávamos a palavra raptado.) pelo Carro Preto e desaparecer no oco do mundo, para nunca mais. Alguns chegavam a dizer que o objetivo do Carro Preto era levar as crianças para delas fazer sabão. Nem se cogitava em resgate a troco de algum bem valioso. Era simplesmente sumir e voltar em forma de sabão. E não poderia haver, até então, pavor pior do que ser transformado ingloriamente numa barra de sabão.

Por essa altura a vila tinha pouquíssimos veículos, e qualquer um que aparecesse, na cor preta, metia a criançada em polvorosa. Por vezes, alguém dava o alarme de que vira um carro preto descendo o Morro do Marta, na entrada da vila, e a criançada toda debandava, para esconder-se em casa, o único local seguro na vila. Só o carro do seu César Portugal, um do tipo cristaleira, como dizíamos, não infundia esse pavor em nós, por já ser nosso antigo conhecido.

Como eu também desenvolvi não um medo, mas um certo respeito, por aquilo que os mais velhos diziam de funesto sobre nossas traquinagens, me precavia um pouco mais. Se um adulto alertasse para qualquer perigo iminente de uma peripécia inconsequente, eu tinha aquilo como um vaticínio. É que que fui testemunha ocular, durante uma dessas farras de meninos na serraria aberta que ficava sob um frondoso pau-d’alho na subida do morro da escola, da queda de um de nossos companheiros, do alto de um galho, bem depois do aviso de um senhorzinho de cabeça branca que passava ao lado

– Cuidado aí, menino, que você vai acabar caindo e quebrar o braço!

Não deu outra! Daí a pouco meu parceiro estava no chão, há uns cinco metros abaixo do galho, com o braço partido.

Por isso é que passei a julgar que os adultos tivessem parte com adivinhos, pessoas capazes de prever o futuro. E só para desgraças. Nunca para boas novidades.

Depois que vim para a cidade grande, aquelas identidades míticas como o Saci desapareceram. Nunca soube por aqui que tivesse aparecido Saci em Niterói. Em Icaraí, por exemplo, onde cheguei em 1967, já desembaraçado de todos esses medos. Lembro-me até de uma propaganda antiga sobre os benefícios da energia elétrica: até mesmo esses assustadores bichos da noite haviam desaparecido. É que a escuridão e o consequente medo dela propiciam a que vejamos coisas que nem mesmo existem.

E aí estava a base para que a professora primária fizesse a distinção entre substantivo concreto e substantivo abstrato. Este último representava alguma coisa que só existia em nossa imaginação: o Saci, por exemplo.

Claro que a explicação desses conceitos gramaticais não é assim tão simples, mas ajuda a minimizar um pouco a sensação de medo que fazia parte inerente à nossa vida.

Hoje vivemos aos sobressaltos, cheios de medo. Não de coisas ou entidades criadas por nossa fértil imaginação. Mas um medo concreto da violência das ruas, uma situação a que fomos levados há alguns anos e que só vem-se agravando.

Hoje temos medo até de sair do portão de casa.

E este é um medo muito maior, muito pior, que não depende apenas de nossos esforços individuais para vencê-lo.

 

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CHATO, ZABUMBA E CRICRI

Em Bom Jesus da minha juventude, o cara chato passou a ter uma classificação tríplice, conforme sua chatura.

Não sei se o leitor amigo sabe da origem do uso do termo chato para taxar as pessoas incomodativas, aquelas que se apegam a um assunto desinteressante e ficam penduradas no ouvido alheio, com conversas intermináveis que não produzem o mínimo efeito prático.

Pois tal designação veio derivada do parasita pubiano, também chamado chato, que infesta a área de lazer das pessoas tomadas por tufos de cabelos, cujo nome popular a educação me sugere não dizer aqui, mas de que todos estão cansados de saber.

Com a moda de se depilar tal área, sobretudo entre as mulheres, e um maior cuidado nas relações sexuais, a presença do tal piolho-da-púbis, cientificamente chamado de Phthirus pubis, não tem feito muitas vítimas.

Mas na Bom Jesus da minha juventude, lá pelos anos 60, com a guaxa funcionando a todo vapor, volta e meia, como se dizia então, aparecia algum conhecido com o horrível gesto de estar se coçando lá naquele lugar, porque tinha sido tomado por uma fenomenal infestação de chatos. E esse parasita incomodava demais aqueles sortudos. Alguns, inclusive, na ânsia de dar fim ao parasita, quase ateavam fogo aos tais pelos pubianos, ou se valiam de métodos de cura que deixavam a área reduzida drasticamente em suas dimensões.

Por essa razão, as pessoas que incomodavam passaram a ser chamadas de chatas. E havia por todo lado chusmas de chatos – agora pessoas –, que os não-chatos, quer dizer, as pessoas normais, nem sempre conseguiam evitar.

Chegou-se, então, ao ponto de se instituir uma classificação mais detalhada da “quantidade”, isto é, a exorbitância de incômodo que um chato podia produzir em sua vítima.

Criou-se, assim, uma classificação tripartite, do menos chato, para o mais chato, que assim ficou constituída: chato, zabumba e cricri. E a classificação era autoexplicativa.

O chato todos já o conheciam, sendo mesmo possível nomear alguns deles, só de olhar a Praça Governador Portela numa manhã singela de segunda-feira, por exemplo.

Depois, vinha o zabumba, mais chato que o chato. E a explicação era insofismável: o zabumba dava no saco do chato.

E terminava com o cricri, que era aquele que dava no saco do zabumba.

Imagine o leitor amigo a que grau de chatice chegava uma pessoa classificada como cricri. Esta palavra, inclusive, passou à gíria nacional, muito por conta do jornal O Pasquim, onde o humorista Henfil tinha uma tira com um personagem com esse nome.

O zabumba, infelizmente, não teve essa glória nacional, restando apenas na área semântica da música nordestina, e ficou, com tal sentido, restrito a Bom Jesus do Itabapoana, onde, não sei, se ainda sobrevive.

Espero não ter sido chato. Muito menos, zabumba ou cricri.

Até a próxima!

Retrato falado do chato (Phthuris pubis), ao lado de um fio de cabelo (imagem em mdsaude.com).

MÍNIMOS PRAZERES

Coma um doce
Dê um trago
Beba uma xícara de café amargo
Veja um filme antigo em preto e branco
Abrace um amigo
Torça por seu time enquanto vence
Curta um lance
Veja o pôr do sol fechando o dia
Passeie seu sorriso pelo parque
Escute uma canção vadia
Tente assobiar enquanto caminha
Sorva um gole generoso de conhaque
Leia um livro sobre o nada
Mergulhe o corpo numa piscina cálida
Descubra o fio da meada
Com sua ponta enrodilhada no novelo
Tenha zelo pelo que lhe pareça inútil
Chute o desencanto para escanteio
Não viva o alheio julgamento deste mundo
Não se iluda muito
A felicidade pode estar nos mínimos prazeres

 

Foto do autor.

HOSPEDARIA DA DONA FINAZINHA

Dona Finazinha enterrou o finado marido Diomedes num fim de semana caracaxento e, sete dias depois, já tinha posto pedreiro e ajudante para obra de remodelação de um dos quartos. Queria aproveitar o próximo festival de sanfona e viola a ocorrer daí a quatro meses, a fim de começar a amealhar uns trocados a mais com o aluguel. Ela não podia contar apenas com a pensão minguada que, por certo, o marido defunto lhe deixaria.

Diomedes dos Santos deu baixa em sua habilitação de vivente numa sexta-feira treze, sem tugir, nem mugir. Estava de prosa com os amigos no bar da praça da igreja, quando sentiu uma espécie de coice no peito, do lado esquerdo, que só lhe franqueou levar a mão ao peito, soltar um ãh forte e cair do banco, para se estatelar nos paralelepípedos do chão, com o cigarro de papel especial a chamuscar o bigode esbranquiçado. Estava morto.

Quando levaram a notícia à Dona Finazinha, Delfina de Souza Santos na certidão de casamento, com todo o jeitinho para que ela também não sofresse um afrontamento, ela marejou os olhos miúdos, disse ai meu deus e, em seguida, emendou baixinho uma oração, já encomendando a alma do finado.

Por isso é que o sepultamento de Diomedes se deu no sábado seguinte, com o céu apedrejado de nuvens escuras, golpeando trovões para os lados de Mimoso do Sul, como se o céu fosse desabar sobre morros e grotas, vilas e descampados, pastagens e roçados.

São Pedro do Itabapoana, às vezes, sofre desses destemperos naturais, porque está encarapitado no alto de um morro, a não mais de quinhentos metros de altura, no meio de uma morraria circundante mais alta, na serra capixaba ao sul, quase na fronteira com o Rio de Janeiro.

Mas o enterro se deu sem maiores aguaceiros. O que era ameaça mais ficou só em ameaça. Sem percalços, cantando “Com minha mãe estarei”, o cortejo dolente subiu o morro do cemitério, de onde se tem uma vista bonita do casario colonial que compõe a vila, esquecida do tempo e do mapa do Brasil, não fosse o interesse do povo miúdo que lá habita por essas questões de cultura, música, sanfona, viola, orquestra e coral, que movimentam suas ruas vez em quando. E um modo todo especial de fazer uma das melhores cachaças que se pode beber. De modo que, caso um desconhecido chegue lá e contemple aquele bem cuidado amontado de casas do tempo de Tiradentes, no sossego da hora de depois do almoço, não há de imaginar que ali mora um povo que gosta de festa.

Por esse motivo é que Dona Finazinha, que tinha lá seus guardados de dinheiro e um plano montado há algum tempo, resolveu mandar iniciar a obra de reforma da casa, um pouco antes da missa de sétimo dia, visando a atender a alta demanda por conta do tal festival, que ocorre sempre no fim do mês de julho de cada ano.

Além do finado Diomedes, também moravam na casa de antigos estuques, cobertura de telha canal e recortes de eira e beira, a filha do casal, Joana, e suas trigêmeas univitelinas Sandra, Sônia e Soraia. As meninas, então com nove anos, eram tão parecidas, que os nomes ficaram quase idênticos como as três, de forma que resolveram atender a quem as chamasse, não importa o nome usado. E desenvolveram, talvez por isso mesmo, a habilidade de aprontarem traquinagens com todos, apenas com o intuito de se divertir. Nem mesmo a avó, Dona Finazinha, conseguia distinguir uma neta da outra. Apenas a mãe, por um desses milagres que só a maternidade explica, é que sabia com certeza que esta é a Sandra; aquela ali, a Sônia e aquela outra lá, a Soraia.

Foi só o tempo de a obra durar, para que Dona Finazinha recebesse o primeiro pedido de hospedagem para o festival daquele ano. Cristina e mais outra amiga souberam da nova opção bem no centro da vila e se adiantaram na reserva. O quarto era amplo e comportaria com conforto as amigas, que dividiriam o espaço restante da casa com a família.

Pois as duas amigas chegaram para o festival já na quinta-feira no fim da tarde, deixaram as bagagens na casa de Dona Finazinha e partiram para curtir o primeiro dia da festa.

Entre uma e outra apresentação das várias atrações programadas, passeavam pelas muitas barraquinhas armadas na rua principal, a partir da praça da igrejinha, até quase a saída para as roças do entorno, e pelos diversos bares e botequins, alguns de ocasião, bebendo aqui e ali, beliscando tira-gosto, confraternizando com outros amigos que para lá também foram. E seguiram na função durante o tempo que duraram os shows e até bem depois, já então apenas no desfrute de libar o que fosse líquido e mordiscar aquilo que fosse sólido.

Foram dormir lá pelas tantas!

Ao acordar no dia seguinte, Cristina levou um susto. Mal levantara do travesseiro a cabeça, um tanto pesada em função da noite anterior, viu à entrada do quarto três meninas loirinhas, com a mesma roupa, o mesmo penteado e o mesmo sorriso maroto naqueles rostinhos lindos. Pediu socorro à amiga:

– Bete, pelo amor de Deus, não estou bem! Ontem eu bebi tanto assim, Bete? Me diga!

E voltou a olhar em direção à porta e já não viu mais aquela aparição inesperada.

Bete, que saía do banheiro naquele instante, quis saber a razão do desespero matinal. E Cristina tentou explicar:

– Acho que estou mal, Bete! Tive visão tripla. Sempre soube que porre e ressaca podem provocar visão dupla, mas tive visão tripla. Vi três anjinhos loirinhos aqui na porta do quarto. De repente, olhei outra vez e eles já haviam desaparecido. Do jeito que apareceram, desapareceram! Vou marcar neurologista, para quando voltar, Bete! Realmente, não estou nada bem!

Bete não vira nada e bebera os mesmos álcoois que Cristina, na véspera.

Um pouco depois, durante o café da manhã tomado à mesa colocada na grande cozinha da casa, Dona Finazinha, avó das meninas, explicou a visão tripla. É que as traquinas sempre faziam tais aparições inesperadas para as pessoas que ainda não as conheciam, só para ver a reação.

Cristina, ainda um tanto zonza, sorveu um gole generoso de café e se sentiu aliviada. A mistura da noite anterior não fora por demais exagerada.

 

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CRÔNICA DE ROMA: PAULINHA

Paulinha entrou na nossa vida por um acaso, há mais de vinte anos, e ainda não saiu. E nosso contato não durou mais de uma semana, naquele janeiro de 1996, numa viagem a Recife por uma já extinta agência de turismo. Até a empresa acabou, mas sua presença não.
Paulinha tinha cerca de dois ou três anos e viajava com seus jovens pais. Era morena como a mãe, irrequieta e bastante comunicativa. Tinha os olhinhos vivos e um sorriso de dentes de leite muito fácil. Estava sempre disponível para quem a chamasse, à cata de uma brincadeira, de um carinho. Todos como que a adotaram como mascote, já que era a mais novinha turista do grupo que foi passar uma semana num hotel de frente para o mar pernambucano, na praia do Pina.
Guardei até seu nome completo, pronunciado apenas em voz alta, em tom bravo, por sua mãe, quando ela estava aprontando além do previsto:
– Paula Beatriz!
Algumas atividades estavam previamente agendadas como parte da excursão, de modo que era comum tê-la conosco algumas vezes por dia. O que ocorria também durante o jantar no hotel, incluído no pacote. No entanto, durante algumas horas por dia, ou em alguns dias, tínhamos o tempo livre para as atividades de interesse pessoal e não a víamos.
Pois foi numa dessas ocasiões em que se deu o fato que fez marcar Paulinha até hoje em nossa vivência. Sua família, durante o almoço em algum lugar do Recife, andou comendo algo que não fez bem aos intestinos dela e da mãe. Como fosse verão e a temperatura estivesse bem elevada, ambas tiveram desidratação, por força do incômodo. Por isso seu pai, que nos informou do mal-estar das duas, foi visto sozinho num dos jantares da semana.
No jantar da noite seguinte, já lá estava a Paulinha, toda eufórica, jantando com o pai, sem a presença da mãe. Jane, então, comunicativa como sempre, quis saber dela como estava. Do alto de sua autoridade infantil, informou para nós, numa frase dita de forma clara, bem pronunciada, com todos os erres:
– Eu meriorei; minha mãe não meriorou!
A partir daquele instante, instituí em minha relação com a Jane, no quesito saúde x doença a forma verbal pauliniana “meriorar”, em substituição à forma regular “melhorar”, um tanto sem o charme da pronúncia da pequena. Acho, inclusive, que assim dizendo se abranda um pouco mais a situação da doença e melhora a saúde geral, por conseguinte.
Como acabei de fazer neste instante, em que a Jane está cuidando dos pés, que sofreram na longa caminhada que empreendemos hoje em Roma, a partir da Basílica de Santa Maria Maior, até a Via Nazionale, onde foi ver umas coisinhas, para aproveitar a temporada de liquidações, ou “soldi”, como eles dizem.
– O pé meriorou?
Sim, já melhorou e está pronto para o programa noturno deste sábado. Iremos assistir a um show de jazz tradicional, com o grupo de Emanuelle Urso, no belo espaço da Villa Borghese, no sistema zero oitocentos, sob o céu estival de Roma, como é comum nesta época do ano na Cidade Eterna.
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PS: Ao fim da bela apresentação, a Lua Minguante deu o ar da graça.

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