HISTÓRIAS DE BATISTINHA QUE EU SEI (X)

NÃO VOU ESTUDAR INGLÊS

Cheguei, um dia, no finzinho da tarde, à casa do Batistinha, numa deliberada intenção de pegar a janta da tia Colola. Encontrei meu primo sentado à mesa da sala, a cabeça apoiada com as mãos, cotovelos sobre o tampo e um livro de inglês aberto à sua frente. Ele devia estar no terceiro ano do curso ginasial.

Estava em atitude de estudo, sussurrando alguma coisa.

Tio Alcebíades, que às vezes passava de um lado a outro da sala, atrás do Batista, tinha-lhe passado o castigo de estudar inglês, em vista da nota catastrófica da sua caderneta escolar.

Sentei-me ao seu lado e o ouvi dizer em forma de recitação de ladainha, em voz baixa, para que ninguém compreendesse:

– Não vou estudar inglês. Não quero estudar inglês. Não preciso saber inglês. Para que é que eu quero isso? Não adianta, que não vou estudar!

E olhava para o livro, que – tenho a certeza – não estava vendo. Seu olhar perfurava o livro, a mesa e o chão da sala, indo parar não sei onde.

Quando atinei com a situação, resolvi dar meu conselho:

– Batistinha, já que você é obrigado a ficar aí na frente do livro, aproveita e estuda, que o tempo até passa mais rápido.

Sem sair daquela falsa postura de quem estudava, continuou a dizer:

– Não vou estudar inglês. Não quero estudar inglês. Não preciso saber inglês. Para que é que eu quero isso? Não vou estudar. Não adianta.

Calvin (em livrepub.blogspot.com).

HISTÓRIAS DE BATISTINHA QUE EU SEI (VIII)

Cândido Portinari, Enterro na rede, 1944 (em cecac.org.br).

O ENTERRO DO QUINIM FREIRE

Esta foi o próprio Batistinha quem me contou. Por ocasião do fato, eu já morava em Niterói.

Ele se sentou à cadeira de barbeiro do Moreninho, cujo salão ficava à direita da Rua Abreu Lima, perto da praça, para fazer a barba.

A vez era dele. Nas cadeiras do salão, estavam dois fazendeiros do distrito de Pirapetinga, aguardando para receber os cuidados do barbeiro.

Assim que Moreninho começou a esfregar-lhe o pincel no rosto, todos tiveram a atenção voltada para um cortejo que começava a ganhar a rua, em sentido contrário, na direção da igreja matriz, localizada em frente à praça.

Era hábito, por aquele tempo, as casas de comércio cerrarem as portas à passagem de cortejos fúnebres, como era o caso, motivo por que Moreninho, pego de surpresa, não tinha baixado a porta pantográfica de seu estabelecimento.

Um dos homens, então, indagou de quem seria tal enterro.

Batistinha, sabedor de que os dois homens eram amigos de longa data de Quinim Freire, também proprietário rural, só que figura quase folclórica na cidade por seus causos recheados das mais deslavadas mentiras, resolveu fazer troça com os três: os dois que ali estavam, mais o Quinim Freire, com quem disputava uma partida nunca terminada de fazer gozações com os outros. E disse para o profissional:

– Moreninho, limpa minha cara dessa espuma, depressa. Eu esqueci que é o enterro do Quinim Freire. Tenho de acompanhar.

Aqueles fazendeiros ali sentados assustaram-se e, de imediato, passaram a mão em seus chapéus e entraram no cortejo, atrás do caixão, que era conduzido à mão por seis pessoas. Por esse tempo, não havia a comodidade do carrinho de transporte de caixões.

No meio da pequena multidão que ia respondendo à reza puxada por uma poderosa voz adiante do féretro, eles começaram a indagar baixinho de um e outro qual teria sido a causa da morte do amigo, já que não tinham conhecimento de que estivesse doente. Até que disseram o nome dele.

– Quem? O Quinim Freire? Não! O Quinim não morreu. Esse defunto aí é o Chico Antão. Estava doente há muito tempo.

O cortejo já estava quase subindo o átrio da matriz, quando eles saíram dali revoltados com o Batistinha. E foram, logo a seguir, até a casa do amigo pretenso defunto, que gozava da mais completa saúde, ao qual contaram a brincadeira de mau gosto do meu primo.

Quinim perdeu a esportiva com Batista.

– Não se brinca com a vida alheia! Vou reclamar com o Alcebíades. Até a gozação tem limites!

E lá foi ele lançar, para a conta de débitos do Batistinha, mais essa reclamação no escutador do meu tio.

Pelo que eu soube, Quinim ficou um bom tempo de relações cortadas com ele.

HISTÓRIAS DE BATISTINHA QUE EU SEI (VII)

1.  O CHEQUE SEM FUNDO DO BB

Batista pagou uma dívida com um cheque do Banco do Brasil.

Alguns dias depois, está ele tomando café no Bar do Salim, quando chega junto à mesa em que se encontra, puxa uma cadeira para perto, o cobrador da firma a quem ele entregou o cheque. Baixinho em seu ouvido, para que os demais frequentadores não percebessem, disse:

– Batista, aquele cheque que você deu o Banco do Brasil não quis pagar. Como é que a gente resolve?

E apresentou-lhe, por baixo da mesa, o objeto da reclamação.

Sem tocar no cheque, Batistinha cinicamente lhe disse:

– Olha, fulano, se o Banco do Brasil, que é o Banco do Brasil e tem muito mais dinheiro que eu, não pagou pelo cheque dele – Banco do Brasil, veja aí! – como é que você quer que eu pague?

Imagem em cangablog.com.

2. O VENCIMENTO DA LETRA

Era comum, em Bom Jesus do Itabapoana, que negócios feitos diretamente entre duas pessoas e que gerassem qualquer tipo de dívida tivessem o reconhecimento de tal dívida através de notas promissórias ou de letras de câmbio, impressos que se adquiriam nas duas papelarias da cidade.

Assim, se alguém comprasse um lote de bezerros de um fazendeiro, com prazo para pagar, ele dava como garantia um desses dois papéis. Comumente ambos eram chamados de “letra”.

Um desses papagaios tinha sido firmado por Batistinha. Passado o prazo de quitação, ele não saldou a dívida.

No mesmo Bar do Salim da história anterior, vai o cobrador e lhe diz:

– Batistinha, sua letra venceu.

Gozador como sempre, e aproveitando a onda de festivais de música que ocorriam por várias cidades da região à época, ele perguntou ao homem:

– E a música foi bem classificada?

Nesta, o cobrador gostou da saída espirituosa e lhe deu mais dez dias de prazo.

HISTÓRIAS DE BATISTINHA QUE EU SEI (VI)

Imagem em cidadedesaopaulo.olx.com.br

O PRESENTE DO DR. NÍSIO DA MATA

O saudoso doutor Nísio da Mata, dentista de profissão, chegou a Bom Jesus na década de sessenta e logo angariou a amizade de vários moradores, pelo seu jeito expansivo e seu constante sorriso.

Embora já fosse um homem maduro à época, logo se afeiçoou ao jovem Batistinha, por seu jeito gozador e brincalhão. E estavam sempre em rodas de cafezinho e conversa no Bar do Salim ou na Rua do Homem em Pé, apelido do trecho inicial da Abreu Lima, junto ao bar, onde se reuniam proprietários rurais, negociantes independentes e algum tipo de gente que não tivesse ponto a cumprir ou patrão a obedecer.

Batistinha sempre foi um dos frequentadores mais assíduos deste trecho de Bom Jesus, onde se destacava por suas gozações, brincadeiras e casos pitorescos.

Aliás, Batistinha é uma figura popular na cidade por tudo o que já aprontou ao longo da vida. E, diga-se, sempre muito benquisto por todos, pois em suas troças não havia qualquer traço de maldade ou de prejuízo para terceiros.

Assim, doutor Nísio o adotou como um de seus melhores amigos, convidando-o a sua casa a participar de almoços e confraternizações e deliciando-se a cada caso novo que Batistinha trazia para sua roda de conversa.

Um dia, batem palmas à porta de sua casa. Era um entregador, com uma caixa de tamanho razoável.

Sua filha moça é quem recebe a encomenda.

– Pai, foi o Batistinha que mandou para o senhor.

– Põe isso no chão, que deve ser brincadeira daquele sacana. Não abra!

E começaram ele, a esposa e a filha a conjecturar o que poderia haver dentro da caixa, que ficou no chão, no meio da sala, levantando todas as suspeitas do mundo, tendo em vista seu remetente.

– Aquele sacana deve ter posto uma cobra aí dentro. Ninguém mexe! – disse doutor Nísio.

E foi até o quarto de tralhas dos fundos da casa procurar alguma coisa com que pudesse abrir a caixa em segurança. Voltou de lá com um enxadão e um porrete, para dar na cabeça do ofídio, assim que ele se libertasse da caixa.

Com cuidado, abriu com o enxadão a caixa, levantando as abas que a vedavam.

Lá dentro estava um faqueiro de prata, presente do amigo Batistinha.

HISTÓRIAS DE BATISTINHA QUE EU SEI (V)

O PORCO SEQUESTRADO

O baile da Festa de Agosto, no tradicional Aero Clube de Bom Jesus, terminou já de manhãzinha.

Batistinha, todo metido num terno bem cortado, traje exigido para os bailes de gala do clube, saía acompanhado de alguns amigos do seu calibre. Na pracinha Amália Teixeira, em frente ao bar do Lauí e do Pituca, passeava despreocupadamente um porquinho liso, nos seus quase quinze quilos, na medida exata para um leitão à pururuca.

Tiveram eles a boa ideia de roubar o porco. Alguém, no momento, disse que o animal pertencia ao Claudio Delatorre, morador da Rua dos Mineiros, na saída para Rosal, onde tinha sua oficina de carpintaria.

Batista tomou a si a incumbência de levar o porco – Deixa, que eu levo! –, já que morava numa casa com um vasto quintal cercado nos fundos.

Eu dormia no seu imenso quarto, onde havia quatro camas de solteiro, e não o vi chegar.

Era antes das oito horas da manhã do domingo – tio Alcebíades e tia Colola tinham ido à missa das sete –, quando ouço palmas à frente da casa. Ainda meio amarrotado pelo colchão, vou até lá atender. Era o dono do porco.

– Soube que o Batistinha pegou meu porco e vim aqui para levar ele de volta! – falou resoluto.

Com muito custo, acordei Batista, dizendo-lhe da cara feia do dono do porco, no portão de entrada da casa. Ele me pediu que voltasse lá e dissesse que ele iria passar uma água no rosto e já falaria com ele.

Fiquei preocupado, quando então ele me contou do roubo do porco, tramado por ele e pelos amigos. Enquanto fazia sua higiene matinal rápida, disse-me que eu ficasse tranquilo, pois a situação estava sob controle.

Acompanhei-o até o portão, na intenção de não deixar que houvesse briga, já que o proprietário do ser porcino estava uma arara.

Pela saída esperta de Batistinha, tive certeza de que ele jamais se apertaria na vida. Abrindo os braços efusivamente e caminhando em direção ao Cláudio, com a cara mais descontraída do mundo, foi dizendo:

– Cláudio, sabia que o porco era seu e resolvi salvá-lo! Ronaldo Holandês, Gaultiezinho e Luís Careca (os seus amigos de trapalhadas) estavam doidos para levar seu porquinho e fazer dele um leitão pururuca. Aí eu falei para eles: Epa! esse porco eu conheço: é do Cláudio Delatorre e ninguém vai comer! Rapaz, foi uma dificuldade salvar o porco daqueles três! Também já estavam tontos e não iam conseguir pegar o bichinho. Mas antes que conseguissem, salvei seu porco. Ia devolver a você mais tarde. Está lá nos fundos. Vamos pegar!

Fomos até o pomar, onde Batista soltara o bicho. Após algum tempo, Cláudio o pegou, meteu-o debaixo do braço e ainda saiu devendo mais essa obrigação ao Batistinha.

Imagem em ocenosamba.com.br.

HISTÓRIAS DE BATISTINHA QUE EU SEI (III)

1. BATISTINHA DIRIGE DEVAGAR

Batistinha já se havia envolvido em alguns acidentes de carro, sempre sem consequências para ele, mas com prejuízos materiais para o pai, dono do veículo, e para a mãe, que tinha de reforçar as orações aos santos de devoção, no intuito de manter aquela alma atribulada engastalhada ao corpo físico, a despeito de todas as trapalhadas que fazia.

Certa vez, inclusive, reparei os calos nos joelhos da tia Colola, que se justificava:

– De tanto rezar para que o Batista tome juízo naquela cabeça!

Certa vez ia ele descendo, no comando do jipe do pai, a Rua Abreu Lima, a partir da Praça Governador Portela, quando, na esquina com a Tenente José Teixeira, que à época dava mão em sentido contrário ao de hoje e não possuía o semáforo atual, também dirigindo um jipe, vinha em disparada o Chico do Pixico, da vizinha cidade de Apiacá.

Segundo testemunhas, ambos os sem-juízo corriam além do recomendável para as ruas da cidade.

Chico do Pixico pegou o jipe de Batistinha pela lateral esquerda, traseira, e o arremessou contra a farmácia do Tião Marques, à direita, na transversal da esquina.

Em sua casa, horas depois, fui testemunha da prensa que tio Alcebíades dava em Batista, reclamando com ele do péssimo hábito de só dirigir em alta velocidade. Batista garantia que estava devagar, razão por que – alegava – fora colhido por Chico do Pixico.

– Pai, seu estivesse correndo como o senhor está dizendo, na hora em que o Chico chegasse à esquina eu já estaria lá na Chevrolet, na esquina seguinte. Foi justamente por andar devagar que o Chico me pegou ali. Pro senhor ver como, às vezes, é imprudente andar devagar!

Tia Colola fez uma cara de desaprovação, e eu saí de fininho, porque senti que o clima iria esquentar.

Imagem em noticias.r7.com.

2. O CARRO DE BATISTINHA PARECE O BATMÓVEL

Esta é mais curta, mas não menos, perigosa.

Batistinha vinha de uma noitada em Itaperuna, cidade distante a cerca de 38km de Bom Jesus, com o carro cheio de mulheres da vida, como ele me disse à época. Isto não era nenhuma novidade, para quem passava o tempo na esbórnia.

Na BR-356, na descida do morro da mangueira, que hoje nem mais existe no local, uma das mariposas, sentada no banco traseiro, resolveu fazer-lhe um cafuné na nuca.

A descida da estrada é em curva, com o barranco à direita e o precipício à esquerda. Lá embaixo, uma vargem verdinha de capim para o alimento do gado.

Entusiasmado com o cafuné, e já um tanto calibrado pelas libações de toda a noite, acelerou, e o carro – tal Batmóvel descontrolado – voou sobre a cerca da beira da estrada e foi amortecer a queda no pasto do gado a uns quinze metros abaixo.

Como quase sempre ocorria nos acidentes dele, já que tinha o corpo fechado a poder de muita oração de sua mãe, minha saudosa tia Colola, ninguém sofreu nada.

HISTÓRIAS DE BASTITINHA QUE EU SEI (II)

Imagem em vejaandira.com.br.

O SHOW DA MULHER GORILA

Batistinha servia o glorioso Tiro de Guerra nº 1, em Bom Jesus do Itabapoana, na década de 60.

Comandava aquela brava unidade do Exército Nacional o então sargento Silva.

Na tradicional Festa de Agosto daquele ano, Batistinha, tonto, em trajes civis, mas com o cabelo cortado à reco, chegou à barraca da Mulher Gorila, armada na rua à margem do rio, na confluência com a Buarque de Nazareth, querendo assistir à “fantástica transformação de uma bela jovem na horrível Mulher Gorila”, como apregoava o cartaz à entrada.

Contudo – e lhe explicava o homem – isto não seria possível, pois a última sessão havia terminado há alguns minutos, beirando a meia-noite, horário limite como determinava o alvará concedido pela prefeitura. O próximo espetáculo, só no dia seguinte.

Ele, então, tentou impor sua condição de autoridade – bravo recruta das Forças Armadas brasileiras –, para uma exibição especial para ele. Tal pretensão não foi atendida, por motivos óbvios. Tonto e armado, puxou o revólver que pegara na casa de tio Chiquito, sob a nossa guarda durante as férias deste na praia com a família, e quis fazer valer seu comando.

Sem alternativas, o homem chamou a polícia local, que conduziu Batistinha para a delegacia.

A autoridade de plantão, para seguir o rito, ligou já quase uma hora da manhã, para a residência do sargento Silva, que, imediatamente, vestiu-se e foi liberar seu comandado. Levou-o preso para a sede do Tiro de Guerra, onde o deixou a curar o porre até a manhã seguinte, sob a vigilância dos demais soldados da guarda.

Depois, quando nos contou a história – eu servi o Exército no ano seguinte –, disse que não poderia deixá-lo lá na madrugada, mesmo tendo feito a trapalhada que fez. Batistinha, no ano anterior, salvara a vida de seu filho, Fidelinho, quando este se sufocou com o próprio vômito.

Como Batistinha estivesse, no momento do episódio, dando um trato no jardim de dona Jane, esposa do sargento Silva, acorreu ao seu pedido de ajuda e salvou Fidelinho, sugando com sua boca o vômito que sufocava o bebê. E foi com dona Jane até o hospital, onde se completou o atendimento.

O sargento nos disse, naquele instante, que pelo Batistinha punha a patente e até sua mão no fogo.

Quem era eu –  além de primo, fã do Batistinha – para contestar o argumento do sargento!

HISTÓRIAS DE BATISTINHA QUE EU SEI

1. JORGE ESTÁ BEM!

Batistinha, meu primo e o maior gozador que conheço, acompanhado do amigo Jorge Azevedo, lá pelos anos 70 foi a uma festa em São José do Calçado, cidade no Espírito Santo, porém próxima a Bom Jesus do Itabapoana, no Estado do Rio de Janeiro, onde mora.

Como sempre, farreou e bebeu. Até que decidiu voltar à cidade.

Para quem não conhece, é bom que se diga, Calçado, como é comumente nomeada, é uma cidade localizada a uma razoável altitude. Bom Jesus fica ao lado do Rio Itabapoana, que faz a divisa natural entre os dois estados. Para ir de uma a outra, ou se enfrenta uma boa subida, ou uma boa descida, conforme a direção.

Já mais de meia-noite, Batistinha chamou Jorge, para que voltassem. Ao passar pela rodoviária, ele ofereceu carona para um representante comercial que aguardava o ônibus, para também descer a serra.

Bebida e direção nunca combinaram, desde que se inventaram os veículos motorizados. Assim, numa das diversas curvas, o fusca do Batistinha se precipitou na ribanceira.

Ele mesmo foi lançado para fora do carro, que ainda deu algumas cambalhotas, antes de parar em uma árvore, com Jorge e o carona lá dentro.

Como nada de grave sofrera, apenas “uma narigada do carona em sua nuca”, conforme ele me contou à época, entre gargalhadas, subiu barranco acima para pedir socorro.

O carona sofreu apenas uma amnésia temporária – Quem sou? Onde estou? Para onde vou? –, porém Jorge teve fratura na perna, com hemorragia, e precisou ser operado no hospital de Calçado.

Batistinha, então, entrou em contato telefônico com Ozéas, irmão e sócio de Jorge no bar da rodoviária de Bom Jesus, tentando tranquilizá-lo, já que na cidade as notícias eram as piores possíveis, sobretudo porque ele estava em companhia do Batistinha.

– Olha, Ozéas, o acidente não foi tão feio quanto lhe disseram. Foi uma bobagem… Coisa à toa! O Jorge? O Jorge está bem. Fique tranquilo! Sim, estou com ele aqui…

– Então me deixe falar com ele, Batista! – disse o irmão já bem nervoso.

– Agora ele não pode. Está sendo operado.

Pano rápido.

2. TERRORISMO NO CINEMA

Quando no início da adolescência, Batistinha recebeu punição do Cine Monte Líbano, do libanês Merhige Hanna Saad, acusado de ter soltado bomba de São João durante sessão de cinema.

Tia Colola, sua mãe, chamou-o às conversas, para passar-lhe a descompostura de sempre, acompanhada de castigos de praxe.

Ele, então, se saiu com a seguinte explicação:

– Mãe, não tive culpa. Por tudo que é mais sagrado! Eu tinha comprado a bomba, para soltar na festa junina do colégio. Aí, durante a sessão, resolvi mostrar a bomba para o Luís Careca (membro da mesma quadrilha de garotos desesperados). Sabe o que ele fez? Tirou do bolso uma caixa de fósforo e passou na cabeça da bomba. O que é que a senhora queria? Que a bomba explodisse na minha mão? Aí, eu tive de jogar lá na frente, no meio das pessoas.

Os três meses de suspensão que Pico, filho de Merhige e gerente do cinema, aplicou em Batista foram dobrados para um semestre, sem poder frequentar as sessões do majestoso Cine Monte Líbano.

Prédio do Cine Monte Líbano, na Praça Governador Portela (imagem em jornalreporteronline.blogspot.com).