OS FANTASMAS SE DIVERTEM

Estive há pouco em Bom Jesus para rever minha mãe e meus irmãos. Sempre que lá estou, é possível coletar dados para alguns dos textos que aqui posto. A maioria esmagadora deles se refere a fatos verídicos, ocorridos com pessoas conhecidas, cujos nomes às vezes substituo para não cair em processo de direitos de lá sei o quê. Outras vezes, contudo, se trocar nomes, os casos ficam insossos, pois é justamente pelas pessoas que são seus protagonistas em que está a graça, o interesse.

Desta vez, por exemplo, soube que fantasmas de bonjesuenses ilustres andam assombrando seus dessemelhantes vivos. Aqui não lhes vou mudar os nomes, pedindo, de antemão, perdão aos seus parentes e amigos por isso – eu mesmo amigo de alguns –, mas, de certa forma, tranquilo porque toda gente contas tais casos, toda gente fala deles sem maledicência ou escárnio. Muito mais com um misto de carinho e atenção em lhes preservar a memória.

Devo ressaltar, entretanto, que os fantasmas bonjesuenses têm por característica principal não causar terror aos vivos. Ao contrário, parecem fantasmas brincalhões, de muito boa índole, apenas apegados demasiadamente aos espaços que percorriam quando ainda encarnados, ensanguentados e, por que não dizer, sexuados.

Um desses casos dá conta de que o fantasma do libanês Merhige Hanna Saad, um dos grandes benfeitores da cidade, frequenta os andares do prédio que fez construir em vida e onde fica o desativado Cine Monte Líbano. Lá há outros estabelecimentos a funcionar, como a Rádio Bom Jesus. Certa noite, Ilderliana, secretária da emissora, ainda trabalhava, enquanto na locução estava Mestre Dó. Pelo vidro da porta viu passar um vulto. Daí a pouco, a maçaneta girou mansamente, com seu ruído rangido de peças secas. A porta se abre, e era o fantasma do antigo dono, apegado por demais àquele espaço cheio de histórias. Ilderliana se levantou com um susto e disse para o vulto:

– Fique à vontade, seu Merhige, que eu já estava mesmo de saída!

E desceu às carreias os dois lances de escada, vez que a sede da poderosa emissora local fica no terceiro andar.

De outra feita, o INPS de Bom Jesus recebia vários estudantes de Medicina, que lá foram fazer um trabalho de extensão universitária. Dormiam em salas improvisadas do prédio, quando, à noite, perceberam ser vigiados por uma enfermeira que não tinham visto durante o dia. Assim que acordaram, relataram o fato ao chefe da equipe da terra, que, apontando uma foto na parede, perguntou se era aquela pessoa. Justamente, é essa! É dona Vera, já morta há alguns anos, que teima em não sair dali.

Os estudantes providenciaram sua mudança imediata para o Ita Vale Hotel, bem em frente, pagando do próprio bolso o valor das diárias.

Esta semana, minha irmã foi até A Social comprar um corte de tecido. Em lá chegando, percebe dois vendedores dizendo a uma vendedora:

– Vai lá! Leva lá!

A jovem, um tanto assustada, diz:

– Não vou! Eu vi ele lá!

Minha irmã quis saber, então, o que estava acontecendo. A vendedora disse que, no depósito ao lado da loja, ela vira o fantasma do antigo proprietário, seu Dário Borges.

Contam também sobre o fantasma do doutor Ari Lima de Morais, a quem devo a vida do meu filho, que frequenta o Posto de Saúde; o de dona Adélia Barroso Bifano, mãe da minha querida professora primária Maria Clara, a percorrer o centro administrativo que leva seu nome; o da Betinha, antiga funcionária do escritório de contabilidade do Luciano Nunes, ainda a tentar fechar as contas do mês dos clientes; e o do empresário Zé Bastos, grande empreendedor do comércio bonjesuense, apegado ao seu Supermercado Varejão.

Como veem são histórias com certo humor, mas com o traço forte do apreço que os habitantes da cidade têm por seus conterrâneos queridos. Nenhum deles – fantasmas – está lá para amedrontar os ainda encarnados. Apenas não conseguem se desapegar dos espaços que lhe foram tão queridos.

Se acaso e quando eu for só memória, talvez fique rondando a cama, a rede e o sofá, lugares da minha mais alta benquerença.

Igreja Matriz de Bom Jesus do Itabapoana (foto do autor).
Igreja Matriz de Bom Jesus do Itabapoana (foto do autor).

BOM JESUS DO ITABAPOECO

Tenho ido com muita frequência a Bom Jesus. Aliás, quando se diz algo assim, significa dizer que vamos a duas cidades de dois estados diferentes, ao mesmo tempo: Bom Jesus do Itabapoana, no Rio de Janeiro, e Bom Jesus do Norte, no Espírito Santo.

Pois tenho sentido, nestes últimos meses, um aumento exagerado do barulho das cidades. Andei até postando no Facebook instantes de incômodo causado por carros de som propagandeando os mais diversos produtos, com intervalos inferiores a dez minutos entre um e outro.

Em Bom Jesus do Norte, por exemplo, onde fica a casa de minha mãe, é praticamente impossível meia hora de sossego, sobretudo, à tarde.

Mas neste último sábado a coisa extrapolou todos os limites.

Tendo saído com minha irmã, para resolver alguns problemas rotineiros, dei de cara com um verdadeiro furdunço sobre a ponte sobre o rio Itabapoana, que une os dois estados – Rio de Janeiro e Espírito Santo. Havia um ajuntamento anormal de pessoas sobre os dois lados da ponte, para observar o salvamento de três pessoas que se tinham atirado nas águas poluídas do rio, a fim de salvar um litro de cachaça, que eles tomavam em sua margem. Além disso, havia sirene de polícia e de ambulância.

Assim que conseguimos ultrapassar o burburinho, pegamos o restolho da passeata de um grupo de evangélicos – Desperta Débora – que antecedeu a marcha dos jovens envolvidos com a Jornada Mundial da Juventude, evento católico que está mobilizando todas as dioceses do país. Estes últimos desfilavam com um trio elétrico em seu volume mais alto, que embalava o desfile dos católicos a cantarem, dançarem, pularem pelas ruas da cidade. Naquele momento, tomava um cafezinho na lanchonete do Antônio Manuel e tive meus órgãos internos sacudidos pelo barulho potente dos alto-falantes do carro de som.

Todas as pessoas – e eram muitas – que estavam por ali, naquele instante, estavam apavoradas com o nível de ruído.

Com certeza as prefeituras das duas Bom Jesus – a do Norte-ES e a do Itabapoana-RJ – precisam de tomar medidas urgentes, no intuito de proteger a população contra o excesso de som, contra a poluição sonora.

Ou aquele povo vai acabar surdinho, surdinho, em pouco tempo.

Imagem em fabioarrudashow.blogspot.com.

NOVA CAMPANHA NO AR

Tive uma súbita ideia. Sei que não é boa, como quase todas as que me apoquentam a cuca. Mas, enfim, foi a que me ocorreu e quero lançá-la aqui, no intuito de encetar (Gostaram o verbo?) uma nova campanha em prol do Brasil.

Desde que Renan Calheiros foi eleito e emporcalhado, ou pior, empossado no cargo de presidente do Senado da República, pipocam campanhas para apeá-lo de lá, por seus próprios e notórios deméritos (Ele fez por merecer!). Todas elas, aliás, louváveis e beneméritas.

Eu mesmo já postei aqui alguma coisa contra, que repercutiu menos que as coxas bombadas da Graciane Barbosa no desfile da Mangueira.

Contudo não sei da eficácia de nenhuma delas.

Bolei, então, outra.

Como sabem meus leitores, sou oriundo de Carabuçu, 4° distrito de Bom Jesus do Itabapoana. Além de meu distrito e da sede, que é o 1°, o município tem, ainda, Serrinha, 6°, Pirapetinga de Bom Jesus, 5°, Rosal, 3°, e Calheiros, 2°, que completam assim o patchwork geopolítico do meu progressista município.

Vejam aí a incrível coincidência entre o nome do pacato segundo distrito de Bom Jesus e o sobrenome do indigitado político.

Ao lançar tal campanha, não sei se me tornarei persona non grata para o distinto povo daquele rincão da terra fluminense, o que talvez não faça muita diferença, já que nunca estive lá – nem sei mesmo suas coordenadas geográficas -, mas quero lançá-la:

RENAN, VÁ PRA CALHEIROS!

Gostaria que meus leitores prestassem bastante atenção à frase. Sinto, mesmo assim, certa necessidade de reiterar, com todas as letras garrafais de que disponho, que estou mandando Sua Excelência para Calheiros, e não para outro lugar que a mente suja de algum leitor mais maldoso e extremista possa imaginar.

Por isso, é que até vou repetir:

VÁ PRA CALHEIROS, RENAN!

Abaixo vai o mapa de Bom Jesus do Itabapoana, com a localização de Calheiros, para que não me chamem de mentiroso e para que ele já saiba seu destino.

Imagem em ivt.rj.net.

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PS: Aquele Bom Jesus do Querendo, acima à esquerda, está querendo ser Bom Jesus há muito tempo. Nunca conseguiu!

HISTÓRIAS DE BATISTINHA QUE EU SEI (III)

1. BATISTINHA DIRIGE DEVAGAR

Batistinha já se havia envolvido em alguns acidentes de carro, sempre sem consequências para ele, mas com prejuízos materiais para o pai, dono do veículo, e para a mãe, que tinha de reforçar as orações aos santos de devoção, no intuito de manter aquela alma atribulada engastalhada ao corpo físico, a despeito de todas as trapalhadas que fazia.

Certa vez, inclusive, reparei os calos nos joelhos da tia Colola, que se justificava:

– De tanto rezar para que o Batista tome juízo naquela cabeça!

Certa vez ia ele descendo, no comando do jipe do pai, a Rua Abreu Lima, a partir da Praça Governador Portela, quando, na esquina com a Tenente José Teixeira, que à época dava mão em sentido contrário ao de hoje e não possuía o semáforo atual, também dirigindo um jipe, vinha em disparada o Chico do Pixico, da vizinha cidade de Apiacá.

Segundo testemunhas, ambos os sem-juízo corriam além do recomendável para as ruas da cidade.

Chico do Pixico pegou o jipe de Batistinha pela lateral esquerda, traseira, e o arremessou contra a farmácia do Tião Marques, à direita, na transversal da esquina.

Em sua casa, horas depois, fui testemunha da prensa que tio Alcebíades dava em Batista, reclamando com ele do péssimo hábito de só dirigir em alta velocidade. Batista garantia que estava devagar, razão por que – alegava – fora colhido por Chico do Pixico.

– Pai, seu estivesse correndo como o senhor está dizendo, na hora em que o Chico chegasse à esquina eu já estaria lá na Chevrolet, na esquina seguinte. Foi justamente por andar devagar que o Chico me pegou ali. Pro senhor ver como, às vezes, é imprudente andar devagar!

Tia Colola fez uma cara de desaprovação, e eu saí de fininho, porque senti que o clima iria esquentar.

Imagem em noticias.r7.com.

2. O CARRO DE BATISTINHA PARECE O BATMÓVEL

Esta é mais curta, mas não menos, perigosa.

Batistinha vinha de uma noitada em Itaperuna, cidade distante a cerca de 38km de Bom Jesus, com o carro cheio de mulheres da vida, como ele me disse à época. Isto não era nenhuma novidade, para quem passava o tempo na esbórnia.

Na BR-356, na descida do morro da mangueira, que hoje nem mais existe no local, uma das mariposas, sentada no banco traseiro, resolveu fazer-lhe um cafuné na nuca.

A descida da estrada é em curva, com o barranco à direita e o precipício à esquerda. Lá embaixo, uma vargem verdinha de capim para o alimento do gado.

Entusiasmado com o cafuné, e já um tanto calibrado pelas libações de toda a noite, acelerou, e o carro – tal Batmóvel descontrolado – voou sobre a cerca da beira da estrada e foi amortecer a queda no pasto do gado a uns quinze metros abaixo.

Como quase sempre ocorria nos acidentes dele, já que tinha o corpo fechado a poder de muita oração de sua mãe, minha saudosa tia Colola, ninguém sofreu nada.

HISTÓRIAS DE BASTITINHA QUE EU SEI (II)

Imagem em vejaandira.com.br.

O SHOW DA MULHER GORILA

Batistinha servia o glorioso Tiro de Guerra nº 1, em Bom Jesus do Itabapoana, na década de 60.

Comandava aquela brava unidade do Exército Nacional o então sargento Silva.

Na tradicional Festa de Agosto daquele ano, Batistinha, tonto, em trajes civis, mas com o cabelo cortado à reco, chegou à barraca da Mulher Gorila, armada na rua à margem do rio, na confluência com a Buarque de Nazareth, querendo assistir à “fantástica transformação de uma bela jovem na horrível Mulher Gorila”, como apregoava o cartaz à entrada.

Contudo – e lhe explicava o homem – isto não seria possível, pois a última sessão havia terminado há alguns minutos, beirando a meia-noite, horário limite como determinava o alvará concedido pela prefeitura. O próximo espetáculo, só no dia seguinte.

Ele, então, tentou impor sua condição de autoridade – bravo recruta das Forças Armadas brasileiras –, para uma exibição especial para ele. Tal pretensão não foi atendida, por motivos óbvios. Tonto e armado, puxou o revólver que pegara na casa de tio Chiquito, sob a nossa guarda durante as férias deste na praia com a família, e quis fazer valer seu comando.

Sem alternativas, o homem chamou a polícia local, que conduziu Batistinha para a delegacia.

A autoridade de plantão, para seguir o rito, ligou já quase uma hora da manhã, para a residência do sargento Silva, que, imediatamente, vestiu-se e foi liberar seu comandado. Levou-o preso para a sede do Tiro de Guerra, onde o deixou a curar o porre até a manhã seguinte, sob a vigilância dos demais soldados da guarda.

Depois, quando nos contou a história – eu servi o Exército no ano seguinte –, disse que não poderia deixá-lo lá na madrugada, mesmo tendo feito a trapalhada que fez. Batistinha, no ano anterior, salvara a vida de seu filho, Fidelinho, quando este se sufocou com o próprio vômito.

Como Batistinha estivesse, no momento do episódio, dando um trato no jardim de dona Jane, esposa do sargento Silva, acorreu ao seu pedido de ajuda e salvou Fidelinho, sugando com sua boca o vômito que sufocava o bebê. E foi com dona Jane até o hospital, onde se completou o atendimento.

O sargento nos disse, naquele instante, que pelo Batistinha punha a patente e até sua mão no fogo.

Quem era eu –  além de primo, fã do Batistinha – para contestar o argumento do sargento!

HISTÓRIAS DE BATISTINHA QUE EU SEI

1. JORGE ESTÁ BEM!

Batistinha, meu primo e o maior gozador que conheço, acompanhado do amigo Jorge Azevedo, lá pelos anos 70 foi a uma festa em São José do Calçado, cidade no Espírito Santo, porém próxima a Bom Jesus do Itabapoana, no Estado do Rio de Janeiro, onde mora.

Como sempre, farreou e bebeu. Até que decidiu voltar à cidade.

Para quem não conhece, é bom que se diga, Calçado, como é comumente nomeada, é uma cidade localizada a uma razoável altitude. Bom Jesus fica ao lado do Rio Itabapoana, que faz a divisa natural entre os dois estados. Para ir de uma a outra, ou se enfrenta uma boa subida, ou uma boa descida, conforme a direção.

Já mais de meia-noite, Batistinha chamou Jorge, para que voltassem. Ao passar pela rodoviária, ele ofereceu carona para um representante comercial que aguardava o ônibus, para também descer a serra.

Bebida e direção nunca combinaram, desde que se inventaram os veículos motorizados. Assim, numa das diversas curvas, o fusca do Batistinha se precipitou na ribanceira.

Ele mesmo foi lançado para fora do carro, que ainda deu algumas cambalhotas, antes de parar em uma árvore, com Jorge e o carona lá dentro.

Como nada de grave sofrera, apenas “uma narigada do carona em sua nuca”, conforme ele me contou à época, entre gargalhadas, subiu barranco acima para pedir socorro.

O carona sofreu apenas uma amnésia temporária – Quem sou? Onde estou? Para onde vou? –, porém Jorge teve fratura na perna, com hemorragia, e precisou ser operado no hospital de Calçado.

Batistinha, então, entrou em contato telefônico com Ozéas, irmão e sócio de Jorge no bar da rodoviária de Bom Jesus, tentando tranquilizá-lo, já que na cidade as notícias eram as piores possíveis, sobretudo porque ele estava em companhia do Batistinha.

– Olha, Ozéas, o acidente não foi tão feio quanto lhe disseram. Foi uma bobagem… Coisa à toa! O Jorge? O Jorge está bem. Fique tranquilo! Sim, estou com ele aqui…

– Então me deixe falar com ele, Batista! – disse o irmão já bem nervoso.

– Agora ele não pode. Está sendo operado.

Pano rápido.

2. TERRORISMO NO CINEMA

Quando no início da adolescência, Batistinha recebeu punição do Cine Monte Líbano, do libanês Merhige Hanna Saad, acusado de ter soltado bomba de São João durante sessão de cinema.

Tia Colola, sua mãe, chamou-o às conversas, para passar-lhe a descompostura de sempre, acompanhada de castigos de praxe.

Ele, então, se saiu com a seguinte explicação:

– Mãe, não tive culpa. Por tudo que é mais sagrado! Eu tinha comprado a bomba, para soltar na festa junina do colégio. Aí, durante a sessão, resolvi mostrar a bomba para o Luís Careca (membro da mesma quadrilha de garotos desesperados). Sabe o que ele fez? Tirou do bolso uma caixa de fósforo e passou na cabeça da bomba. O que é que a senhora queria? Que a bomba explodisse na minha mão? Aí, eu tive de jogar lá na frente, no meio das pessoas.

Os três meses de suspensão que Pico, filho de Merhige e gerente do cinema, aplicou em Batista foram dobrados para um semestre, sem poder frequentar as sessões do majestoso Cine Monte Líbano.

Prédio do Cine Monte Líbano, na Praça Governador Portela (imagem em jornalreporteronline.blogspot.com).