PISAR EM FALSO

O senhor Henrique Pizzolato pisou em falso e agora não quer sujar seu belo sapato de couro italiano na lama brasileira, que ele ajudou a aumentar. Está com a extradição prontinha para ser executada e disse preferir morrer a cumprir pena nas prisões do Brasil. Pensasse nisso, antes de fazer as merdas que fez, emporcalhar ainda mais a imagem deste país tropical e ir desfilar sua pessoa impoluta, de dupla nacionalidade, na terra da pizza e da mozzarela. Agora Inês é morta, sr. Pizzolato, e pode ser que sua reverendíssima pessoa tenha que puxar uns anos de cadeia, nas masmorras fétidas e degradantes do seu país natal, embora tenha tintas italianas a correr nessa sua cara deslavada.

Tenho pena da família desse cara, que deve estar passando por maus bocados. Mas fazer o quê? Ele que fez, ele que pague. Mais ou menos assim como qualquer escroque que tenha sido pego pelo nosso mui benéfico sistema jurídico.

Mas, caso me seja possível ajudá-lo, aí vão algumas sugestões para dar cobro à vida. Algumas mais caras; outras bem baratinhas.

1. Precipitar-se com seu carro conversível num dos penhascos de Cinque Terre, ouvindo La donna è mobile.

2. Ingerir uma dose de chumbinho com uma taça de Brunello di Montalcino.

3. Cortar os pulsos com um caco de vidro de Murano.

4. Mergulhar nas águas do Mediterrâneo com uma pedra amarrada nel collo.

5. Jogar-se da parte mais alta do Monumento a Vittorio Emanuele II, em Roma.

6. Entrar com a camisa da Fiorentina na torcida Drughi Ultras da Juventus.

7. Chamar de bonito um cappo napolitano da Camorra.

A escolha é sua, senhor Pizzolato!

Imagem em brasilacimadetudo.com.br.

 

RESSUSCITAMOS OS VÂNDALOS

As atuais manifestações, país afora, contra um monte de mazelas da vida nacional – a começar pelo preço das passagens dos transportes públicos –, acabaram por ressuscitar entre nós os vândalos, antigo povo de origem germânica que aprontou o que pôde no princípio desse calendário que vivemos.

Eles – os vândalos – deram um trabalho danado ao Império Romano, a que se aliaram em determinado momento da história e a que se opuseram ferrenhamente, inclusive invadindo Roma e destruindo muito do patrimônio histórico e artístico da cidade, no século V d. C.

Por essa ação, o nome deste povo passou a designar os depredadores do patrimônio público.

Pois não é que, a cada manifestação, surgem remanescentes desse povo que, de tanto vandalismo, acabou vandalizado, subjugado e destruído na primeira metade do século VI!

Ouvem-se condenações de todos os lados às ações de tais manifestantes. Tenho a impressão de que até mesmo os que praticaram essas ações no dia anterior, se entrevistados, de cara limpa diante da tevê, condenarão tais ações. Elas não são belas de se ver, embora previsíveis. Ao se juntar a quantidade de gente nessas oportunidades, sempre haverá os que levarão suas ações ao máximo do radicalismo.

Na verdade, a destruição do bem público terá sua recuperação paga pelo dinheiro público, que não é senão o meu, o seu e o nosso. O deles também. Porém, talvez, isso eles não percebam.

Se reclamamos que os hospitais e as escolas estão à mingua, se a rua está enlameada e sem serviços básicos de água e esgoto, tudo continuará um pouco mais assim, porque, antes, haverá a desculpa de se recuperar o que foi destruído. Isto se fará mais emergencial para a autoridade.

Por outro lado, a volta do preço das passagens aos valores anteriores, em várias cidades pelo país, se fará também à custa de outras necessidades, conforme nossas autoridades afirmaram. O governador de São Paulo e o prefeito da capital foram claros quanto a isso. Também o alcaide do Rio de Janeiro. É como se dissessem:

– Querem que tiremos os centavos do aumento? Pois tiraremos. Mas o dinheiro do hospital, da escola, do saneamento, ficará prejudicado. Mas é isso que vocês querem, está bem!

Tudo falaz, capcioso, politicamente capcioso. Mas é mais ou menos assim que se faz a política no país. A autoridade finge que nos atende. Utilizando os recursos que nos são devidos.

Até mesmo as agências de banco vandalizadas entram nessa conta. É só aumentar a taxa de juros do cheque especial e do empréstimo consignado, que também pagaremos pelo que foi feito. O preju ficará por nossa conta.

E os vândalos, que ressuscitamos nesses movimentos, pagarão também igualmente a qualquer um de nós, que queremos mudanças, mas sem que tenhamos de pagar ainda mais. Sobretudo pelo que quebramos ou destruímos.

Ficheiro:Heinrich Leutemann, Plünderung Roms durch die Vandalen (c. 1860–1880).jpg

Heinrich Leutemann, Pilhagem de Roma pelos vândalos, séc. XIX (imagem em pt.wikipedia.org).

MOVIMENTOS NACIONAIS

Os movimentos nacionais estão na ordem do dia. Movimenta-se por tudo e por tão pouco: por vinte centavos, por exemplo. Mas também pelos gastos astronômicos das obras dos estádios para a Copa da FIFA 2014.

Ora, eu que adepto fervoroso da preguiça física acompanho os movimentos apenas pela tevê. Já fui a alguns, quando mais jovem: como o das Diretas Já. E, mais entrado em anos, fui a um pelo fim da violência em Niterói. A violência só cresceu depois disso. Contudo acho que, quanto aos gastos, o movimento está atrasado – mais que as obras -, já que deveria ter ocorrido antes delas. Agora, com quase todas em fase de conclusão, não adianta mais.

Quanto aos vinte centavos, que pode ser pouco para mim e para você leitor, no entanto, é pouco mesmo para qualquer um. Com vinte centavos você não compra nada. Se as passagens são caras, não o são pelos vinte centavos. Já vêm caras de há muito.

Então fico aqui olhando os movimentos se movimentando por várias cidades brasileiras. Em algumas, as notícias dão conta de que houve redução no preço da passagem dos transportes públicos.

E isso adiantará alguma coisa? Por outro lado, a maioria esmagadora dos trabalhadores brasileiros recebe vale transporte. Estudante tem passe livre. Idoso vai no beiço. Então é esquisito tanta gente protestando por causa de vinte centavos.

Quero informar a todos que não sou petista e não estou aqui desclassificando o movimento. Quero apenas que ele tenha um foco mais preciso, como qualquer jogador de futebol que entra em campo focado. Pode até perder a partida, o que será um mero detalhe. O importante é estar focado.

Em São Paulo, por exemplo, ontem, a multidão caminhava pela Ponte Estaiada e pela Marginal Pinheiros. Taí uma boa lição: por que é que não vão para casa a pé? Assim trocarão os engarrafamentos de automóveis pelos engarrafamentos de gente, que, com certeza, poluirão menos.

Millôr Fernandes, numa época em que ser politicamente correto ou incorreto não fazia a menor diferença, lapidou uma frase saborosíssima: “O melhor movimento feminino ainda é o dos quadris.”

Estou mais ou menos nessa linha milloriana. Portanto não me chamem para movimentar um único músculo por meros vinte centavos ou pelos gastos que já foram feitos e que nós vamos pagar, bufando ou não.

Se for para salvar o país, pode ser que eu me levante da rede. Mas só em último caso! No momento exato da queda da Bastilha!

Movimento dos quadris parado (imagem em allthelikes.com.

A INAUGURAÇÃO DO MARACANAÇO

Perdemos uma boa oportunidade de reinaugurar o nosso mítico estádio de futebol, o Maracanã, com um Maracanaço, como ocorrido em 1950.

Naquele ano, o primeiro da sua existência, ocorria a quarta Copa do Mundo no Brasil, e a nossa gloriosa Seleção entrou em campo dependendo apenas do empate – regulamento da época -, para que se sagrasse campeã do mundo pela primeira vez. Começamos vencendo e levamos a virada: 2×1.

Tenho a impressão de que ainda não haviam instituído a mutreta, hoje comum na FIFA, segundo várias teorias da conspiração futebolísticas, e, sem combinar com os uruguaios, esses pequenos vizinhos incômodos, fomos derrotados em casa, diante de um público bestial e bestificado. Obdúlio Varela, herói da partida, calou quase duzentos mil torcedores.

Ontem, na partida contra a Inglaterra, considerada a inventora do nobre esporte bretão (Deve ser mesmo: bretão se refere à Britânia, nome antigo da Inglaterra.), os súditos de chuteiras da Rainha-Velha quase nos fazem a mesma desfeita. Começamos a ganhar, levamos a virada e só não pagamos novo mico, porque os deuses do futebol não estavam nem aí para aquela insossa partida.

Na verdade, esse time do Filipão (Toda vez que temos má vontade com um time, é assim que nos expressamos.) é um bando de gente querendo aparecer. Não há padrão de jogo, e nem mesmo os melhores foram selecionados. Há uns e outros ali de que eu mesmo, apaixonado por futebol, não ouvi nem péssimas referências, quanto mais, ótimas.

Diz o Gavião Bueno que estamos indo para a Copa das Confederações com esta equipe.

Que Deus nos proteja!

 

Ficheiro:World-cup-poster-brazil-1950.jpg

Cartaz da 4ª Copa do Mundo (imagem em pt.wikipedia.org).