SE PAGAREM A GENTE TORCE

Por PEDRO NEIVA DE MELLO

Em 12 de julho de 1998, no subúrbio de Paris, dentro de um quarto de hotel, eu me tornei um homenzinho! Não pense você que estou expondo aqui as minhas intimidades. Este foi o dia da final da Copa do Mundo de 98. Este foi o dia em que o futebol deixou de ser parte da minha vida e passou a ser somente futebol.

Ir à Copa do Mundo foi um sonho e um presente que meu pai me deu naquele ano. Passamos mais de 20 dias por lá alternando futebol a pães, museus e longas caminhadas pela capital francesa até o fatídico dia 12. Pouco me importou a convulsão do Ronaldo ou os 3 gols da França. O que mais me marcou naquele dia 12 foi entender que eu era uma peça manobrável do grande negócio que é o futebol. A peça menos relevante.

Como vários brasileiros eu e meu pai fomos impedidos de entrar no estádio na final da Copa por interesses da FIFA. Meu ingresso, comprado e sonhado, foi novamente vendido e entregue a algum francês apaixonado bissexto pelo esporte bretão. Tive que ver aquele jogo numa tv de 14” no quarto do hotel. Ali, ouvindo o hino, chorando enrolado à camisa da seleção, deixei de ser menino. Deixei de ser inocente. Ficava claro pra mim que nem o meu choro, nem as minhas mandingas, nem todas as horas gastas dos então 21 anos de vida de torcedor significavam nada. Eu, meu pai e todos aqueles brasileiros ali éramos nada pra FIFA, pra Copa e pro futebol. Para sacramentar o nosso desprazer vimos o brasileiríssimo João Havelange ir a TV francesa dizer que aquela final era para o povo comedor de baguete. Que nós morenos nem deveríamos ter espaço no Stade de France. Liberté, egalité et fraternité uma ova!

De lá pra cá coloquei o futebol, e principalmente a seleção, no seu devido lugar na minha vida. Não fiz mais promessas, não mais repeti a meia da sorte ou me mantive sentado à direita do meu pai durante os jogos. O futebol passou a ser futebol: o meu esporte favorito, mas só isso.

Hoje, me parece, que todos nós brasileiros passamos, de algum modo, pelo mesmo processo de separação que eu tive em 98. Estamos prestes a sediar a Copa do Mundo e é evidente que o povo, a Copa e a seleção não se falam. Estamos tão empolgados com a Copa como quem vai ao posto de saúde se vacinar. É bem capaz de trabalharmos normalmente nos dias de jogos. Aposto que ninguém vai colecionar o tradicional álbum. Aposto que ninguém vai reunir os amigos em casa a não ser que os patrocinadores paguem por isso. 

Taí! O povo brasileiro topa simular a velha corrente pra frente das décadas de 70 e 80 se a Coca-Cola pagar. A Coral, além de dar as tintas, vai pagar o pintor pra colorir as ruas da cidade. A Brahma vai distribuir cerveja de graça e com teor alcoólico turbinado pro povo alucinar que está em 1950. A Fiat diz que a rua é a maior arquibancada do Brasil. Tolinha…criando seus factoides de pseudoempolgação popular. Fiat, querida, ou libera Palio pra galera ou a rua vai ficar vazia! Só assim…porque se depender do povo não teremos Alzirão e nem Pelourinho. Nem trio elétrico e nem caxirola. 

FIFA e CBF, a regra é clara! Não levem pro pessoal, são só negócios…e vocês sabem, né? Quem quer rir tem que fazer rir. Caso contrário a maior arquibancada do Brasil vai ser o sofá da sala e olhe lá.

Stade de France (em commons.wikimedia.org).

JOGO-TREINO JUNGUIANO

O jogo amistoso de ontem, entre a seleção brasileira e a seleção chinesa – formada por jogadores de R$1,99 -, não teve objetivos táticos, técnicos ou estratégicos. Não se tratou propriamente de medição de forças futebolísticas entre diferentes escolas de futebol (se é que há escolas de futebol). Não se opôs Oriente contra Ocidente, Comunistas x Capitalistas, ou Incréus x Crédulos. Nem mesmo Falsificações x Autenticidades. O jogo, como disse Casagrande, nos comentários quase ao final da partida, serviu para a autoestima, a confiança e a segurança psicológica do grupo.

Aplicamos uma goleada histriônica nos chineses, que até colaboraram com um golzinho de lambujem para nós, apenas para que nossos jogadores não caíssem em depressão, não parassem nas mãos de algum psicólogo esportivo ou de algum dos milhares de palestrantes motivadores que andam por aí.

Fizemos toda aquela pantomima, convocamos a torcida, de quem se cobrou precinho camarada, para assistir a uma grande sessão de descarrego de nossa incompetência futebolística recente. Talvez um desses pastores televisivos pudesse poupar o incômodo de ir até o estádio a toda essa gente.

Escolhemos a dedo o cachorro morto a ser chutado e lhe aplicamos os golpes de misericórdia, para que nossa autoestima não chegasse ao fundo do poço. Isso chega a ser sadismo!

Além disso, o jogo também serviu para aliviar a consciência do técnico Mano Menezes, seus assistentes e a direção da CBF, que vão dormir tranquilos até os próximos jogos contra a Argentina – um aqui e outro lá –, nos quais também, já se engatilhou uma razão para nosso possível fracasso: só serão convocados jogadores que atuam nos dois países. Assim, ficamos livres da ameaça Messi (para fazer uma brincadeira sonora com aquele jogadorzinho metido a bom de bola!).

E assim vamo-nos encaminhar para a gloriosa Copa de 2014, com uma preparação de faz de conta, enfrentando moinhos de vento, para que as bravatas quixotescas de nossos dirigentes soem aos ouvidos dos torcedores como vitórias contundentes, como preparação bem planejada, bem executada.

Sei não, mas a Copa de 2014 pode deixar para o brasileiro uma tragédia mais avassaladora que o Maracanaço de 1950, quando o Uruguai nos tirou a taça, como quem roubasse pirulito da mão de criança.

E aí os psicólogos não darão conta de atender a tantos torcedores.

Imagem em prosaerisos.blogspot.com.

VOU SER VOLUNTÁRIO NA COPA DE 2014

Desde a última segunda-feira, abriram-se as inscrições para o voluntariado para os serviços necessários à Copa do Mundo de 2014, a ser disputada neste Brasil varonil.

Trabalho voluntário não é propriamente trabalho, já que não tem salário. Assim, é uma espécie de escravidão consentida: você aceita fazer um montão de tarefas, submeter-se a um horário rígido, obedecer cegamente o chefe imediato, e o mediato, e mais algum que aparecer no seu pedaço, sem reclamar. E, no final de tudo, recebe um tapinha nas costas, um muito obrigado e um diploma bem bonito para pendurar na parede do quarto.

E também, segundo noticiado, a organização do evento não pagará passagens para deslocamento do voluntário, bem como ajuda de custo para alojamento. Se você se meter a besta de ajudar, que arque com o ônus disto! Quer dizer, um pouco pior do que o antigo sistema escravocrata, que, pelo menos, dava comida e lugar para se deitar o corpo alquebrado pela lida. Não estou considerando aqui o pelourinho.

Mesmo assim eu vou!

E não estarei sozinho. Há um bando de gente com o firme propósito de servir como voluntário, para que a FIFA fature seus milhões de dólares em cima de nossas costas, os quais levará para os seguros e discretos bancos suíços.

Vai ser um trabalho altruísta em prol do lucro da entidade. Parece justo, não é mesmo? Por todo o canto – a FIFA deve repetir o modelo por onde passa com seu torneio caça-níquel (E que níquel!) -, há um bando de idealistas, cheios de entusiasmo cívico para tal tipo de atividade.

Eu também sou um deles.

Não sei, propriamente, se serei aceito, com a idade que tenho. Mas como sempre há um chileno velho para um zé torto, ou melhor, um chinelo velho para um pé torto, posso ter lá minha provecta utilidade.

Já pensei em algumas, que gostaria de colocar aqui para a reflexão do meu estimado leitor.

1) Pela idade, posso ser presidente da CBF. Tenho experiência na vida, já vi muita água rolar debaixo da ponte, etc., e caibo perfeitamente na cadeira do gabinete da sede da entidade. Além disso, gosto de vinhos e boa comida. Não me furtarei a estar presente a recepções e a comer canapés. Sei fazer pose e dar respostas evasivas para perguntas impertinentes.

2) Também posso ser técnico da Seleção Canarinho. Vamos ser sinceros: além dos administradores da FIFA, acho que só a família do Mano Menezes acredita que ele ficará até 2014 no cargo. Como qualquer brasileiro, sou especialista em futebol. Em meu currículo, tenho cinco copas do mundo como campeão (De ouvir, comecei na de 1954, na Suíça.). Na primeira, de 1958, era menino pequeno lá em Carabuçu, mas sabia de cor e salteado os nomes dos jogadores do time, os do treinador, do médico, do chefe da delegação e do diabo a quatro. Além disso, sou torcedor do Botafogo, clube que mais cedeu craques para os títulos que conquistamos. Tenho know-how!

3) Posso também jogar no meio-campo da seleção, mas aí já dependeria de um preparo físico mais apurado. Como ainda temos dois anos até lá, prometo sair de minha inércia e começar os aprontos. Podem ter certeza de que os torcedores não verão muita diferença entre este meio-campo que aí está e aquele que eu comporei.

4) Ofereço-me também como voluntário para hospedar moças bonitas em minha casa. Primeiro terei de convencer minha mulher a aceitar este trabalho abnegado e desinteressado. Não sei se conseguirei (Minha mulher é linha dura!), mas posso tentar. Assim, aquelas mocinhas que não quiserem gastar muito – ou nada, prometo não cobrar – poderão ficar alojadas aqui em Niterói.

5) Outra função que reputo importante e bem legal de se desempenhar é o de sambista de aeroporto, aquele que será incumbido de oferecer a primeira boa impressão ao turista. É bem verdade que não sei tocar nenhum instrumento, e até canto meio desafinado, mas na hora do refrão – laralaiá, lereleiê – entro no tom e não esqueço a letra. Prometo! E posso mesmo transformar-me em atração turística, ao fazer um passe mais assanhado e ficar com a coluna torta.

Como veem, posso ter minha utilidade como voluntário. Só mesmo com muita má vontade é que não serei escolhido para uma dessas funções. Como não vou ganhar bulhufas, aceito qualquer uma. O prejuízo será igual: R$0,00.

Depois, candidato-me a voluntário para as Olimpíadas.